Silêncio nos olhos

Silêncio nos olhos

Sou uma criança.

Se quiser não acreditar,
não acredite,
problema é seu.

Sim, eu sei
o tempo e a vida
me deram esta cara de 30.
Mas já deu.
Não quero mais enganar ninguém:
sou criança.

Sim, sim,
tive que me virar
e me fazer passar
por esse
28.705.946-7
que fui até agora.

Sabe como é
meus pais, um dia,
simplesmente desapareceram…
vapt vupt se foram.
“Subiram por uma enorme escada até o céu”, foi o que me disseram
(mas eu achava mesmo que tinham ido com o papai-noel
– esse canalha).
E sobrei ali, no quintal, com a bola na mão
sem entender direito aquele

“mãe?”

silêncio

E foi na marra
que aprendi algumas coisas que me exigiram
(o tempo e a vida):
aprendi a fazer a barba e a minha própria comida
aprendi a escrever poesias
a declarar amor e imposto de renda
aprendi a mentir de verdade (e não como crianças fazem).
aprendi a ter medo de olhar nos olhos (e isso é uma crueldade pra uma criança de minha idade)
aprendi todos os requisitos básicos de higiene
e, finalmente,
aprendi a não abraçar quemgosto
tão forte
que não pudesse soltá-la
caso fugisse
– por aquela escada
(enorme) –
a qualquer momento.

Aprendi muitas coisas, muitas maquiagens.
Compreendi os porquês da genética,
da química inorgânica e da gravidade.
Absorvi novas hipóteses sobre o surgimento do universo e
lancei mão de complexos algoritmos de otimização de dados.
E certo dia – seria inevitável –
compreendi a origem de todo o mal.
(Nesse dia entendi porque meus pais foram embora.)

E desde então
não pude ser omisso diante do que via
porque
me fazer adulto a esse ponto
seria matar lentamente a criança que sou.

Fora isso,
confesso,
tenho passado por um adulto razoável
e
com a ajuda de alguma teatralidade nata
própria de minha infantilidade secreta
quase me orgulho de ser
um cidadão comum, conseqüente, medíocre até.

Mas eu não agüento mais,
não, não agüento.
Tenho medo
que me grude à farsa
esta face.
Este disfarce me consome
as melhores horas do dia.
As me-lho-res!

Criança! É isso.

De agora em diante
não esconderei mais nada.
Tenho 8,
vontade de enfiar graveto em nariz de cachorro,
vontade de abraçar a todos (té você, viu, seu bobo!),
vontade de chorar num colo gostoso
por pura manha por pura manhã e
vontade de arranjar uma moça bem bonita pra casar.

Tenho 8, só 8, e carrego, ainda, uma bola entre as mãos.
O resto é silêncio se acumulando nos olhos.

 

(poesia de Jeff Vasques | Livro “Subverso”)

 

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