Catando feijão II

(Cantando feijão: poemas que foram excluídos da seleção final de meu livrinho, como pedras ou cascas secas)


No meu livrinho há um poema chamado “Poesia Incidental” que, na verdade, faz parte de uma série de poemas incidentais. A morte, ou melhor, a fragilidade da vida sempre me assustou, fascinou, estarreceu… tempos atrás, fazia inúmeros poemas sobre acidentes que via, ouvia, ou só imaginava, e seguia construindo a morte nas páginas talvez tentando fugir da morte real, ou domá-la… Incluí apenas uma “poesia incidental” no livro porque não me identifico tanto mais com essas poesias e porque outras dessas desviariam o foco do fio de sentido que imaginei pro livrinho.

Poesia Incidental II

Uma unha no asfalto
ainda vive
arranha.

Um pneu solitário
sai da estrada
grogue.

(assim é morrer?)
um quase olho
fechado
sonha.

Do alto
– e acima de qualquer poema –
corvos espreitam
o inevitável.

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