Cora Coralina

(Este texto foi escrito para o blog Subvertidas)

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Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, (1889 – 1985), poetisa,  contista e doceira, é considerada uma das principais escritoras brasileiras.  Impressionantemente, Cora teve seu primeiro livro publicado apenas em 1965  quando já tinha quase 76 anos de idade!!!  Mulher simples, alheia a modismos literários, produziu uma obra poética rica em motivos do cotidiano do interior brasileiro, em particular dos becos e ruas históricas de Goiás, e também desenvolveu – com profunda intensidade – uma identificação com todas as mulheres que sofrem a opressão machista e sexista.
AUTOBIOGRAFIA (trecho)
Sobrevivi, me recompondo aos
bocados, à dura compressão dos
rígidos preconceitos do passado.
Preconceitos de classe,
Preconceitos de cor e de família.
Preconceitos econômicos,
Férreos preconceitos sociais.

 

Desde cedo, em sua juventude, já causava espanto à família com sua postura transgressora dos valores sociais da tradicional sociedade vilaboense (interior de Goiás). Era nada comum uma moça, naquela época, dedicar-se tanto a ler e escrever, construir-se como intelectual e buscar ter uma vida própria e ativa, fora dos círculos tradicionalmente tidos como “femininos”. Era chamada pela família de “solteirona”, aos 20 anos, já que as mulheres com essa idade já deveriam estar casadas e com filhos. Durante uma tertúlia literária ela se apaixonou por Cantídio Tolentino de Figueiredo Bretãs, advogado, separado, pai de dois filhos e vinte anos mais velho. A família, seguindo os valores machistas e retrógrados (ainda presentes em nossos dias, mas, agora, mais mascarados) foi completamente contra o romance. Cora, então, parte com Cantídio para São Paulo, onde vai morar por vários anos. Com a morte do marido, passou a vender livros. Posteriormente, mudou-se para Penápolis, no interior do estado, onde passou a produzir e vender linguiça caseira e banha de porco. Mudou-se em seguida para Andradina, até que, em 1956, retornou para Goiás.
NASCI ANTES DO TEMPO

Tudo o que criei ou defendi
nunca deu certo.
Nem foi aceito.
E eu perguntava a mim mesma
Por quê?

Quando menina,
ouvia dizer sem entender
quando coisa boa ou ruim
acontecia a alguém:
fulano nasceu antes do tempo.
Guardei.

Tudo que criei, imaginei e defendi
nunca foi feito.
E eu dizia como ouvia
a moda de consolo:
nasci antes do tempo.

Alguém me retrucou:
você nasceria sempre
antes do seu tempo.
Não entendi e disse Amém.

A escolha de um pseudônimo (Cora Coralina) foi uma estratégia encontrada por Ana para afirmar uma  nova identidade para si, buscando superar o peso que a família e a sociedade jogavam às suas costas. Como diz sua neta, Ana Maria Tahan, “a Ana que virou Cora e foi rejeitada pela cidade, criou asas e ganhou fama”. Como Cora Coralina, Ana conquistava sua liberdade, afirmando-se como mulher transgressora e libertária. Em São Paulo desenvolve atuação política pela causa “revolucionária” (Revolução Constitucionalista de 1932), foi enfermeira, cuidando dos combatentes feridos; confeccionou bonés, uniformes e aventais para os “rebeldes”; subiu em palanques para defender a causa feminista; foi líder de movimento, elaborando um manifesto em defesa da formação de um partido político feminino e até organizou uma agremiação (fonte: “Cora Coralina: a poesia como ação política“).

“… o pseudônimo Cora Coralina acaba sendo uma senha, um sinônimo, equivalente a lavadeira do Rio Vermelho… o substantivo cora ou, popularmente, quarar, com seu significado de branquear roupas, expondo-as ao sol. Libertária sim, pois com a fantasia magnânima e com êxtase da poesia, lava a sujeira, os monturos da vida, o pó da mesquinhez humana… as lavadeiras, em sua grandeza, fazem o cotidiano mais limpo e perfumado. Cora, a lavadeira do Rio Vermelho, purga a mesmice do cotidiano, elevando todos os sonhos”. (Saturnino Pesqueiro Ramón).

A LAVADEIRA
Essa mulher…
Tosca. Sentada. Alheada …
Braços cansados
Descansando nos joelhos …
Olhar parado, vago,
Perdida no seu mundo
De trouxas e espumas de sabão
– é a lavadeira.
Mãos rudes deformadas.
Roupa molhada.
Dedos curtos.
Unhas enrugadas.
Córneas.
Unheiros doloridos
Passaram, marcaram.
No anular, um círculo metálico
Barato, memorial.
Seu olhar distante,
Parado no tempo.
À sua volta
-uma espumadeira branca de sabão.
Inda o dia vem longe
Na casa de Deus Nosso Senhor,
O primeiro varal de roupa
Festeja o sol que vai subindo.
Vestindo o quaradouro
De cores multicores.
Essa mulher
Tem quarentanos de lavadeira.
Doze filhos
Crescidos e crescendo.
Viúva, naturalmente.
Tranqüila, exata, corajosa.
Temente dos castigos do céu
Enrodilhada no seu mundo pobre.
Madrugadeira.
Salva a aurora.
Espera pelo sol.
Abre os portais do dia
entre trouxas e barrelas.
Sonha calada.
Enquanto a filharada cresce
Trabalha suas mãos pesadas.
Seu mundo se resume
na vasca, no gramado.
No arame e prendendores.
Na tina d’água.
De noite – o ferro de engomar.
Vai lavando, vai levando.
Levando doze filhos
Crescendo devagar,
Enrodilhada no seu mundo pobre,
Dentro de uma espumadeira
Branca de sabão.
Às lavadeiras do Rio Vermelho
Da minha terra,
Faço deste pequeno poema
Meu altar de ofertas.
Obviamente, Cora, como uma mulher em transição e em superação, apresenta em sua poesia traços, às vezes, contraditórios acerca da imagem feminina. Avança muito além de seu tempo ao se fazer mulher dona de seu destino e ao se identificar com todas que lutam para sobreviver em meio ao machismo e patriarcalismo. Mas há também traços da Ana Lins, ainda presa à subjetividade feminina tradicional, contradição que as mulheres, como seres históricos, enfrentam por serem, ao mesmo tempo, sujeitas e assujeitadas às relações sociais vigentes, às “normas” de gênero.
MULHER DA VIDA (trecho)
(escrito para o Ano Internacional da Mulher, em 1975)
Mulher da Vida,
Minha irmã,
De todos os tempos,
De todos os povos,
De todas as latitudes,
Ela vem do fundo imemorial das idades
E carrega a carga pesada
Dos mais torpes sinônimos,
Apelidos e ápodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à-toa.
Mulher da Vida, minha irmã.
Pisadas, espezinhadas, ameaçadas,
Desprotegidas e exploradas,
Ignoradas da Lei, da justiça e do direito.
E fecho o “Versos e Subversas” desta semana com uma historinha pessoal: certa vez, em minhas viagens pelo Goiás, sentou-se ao meu lado no ônibus um pedreiro que havia morado em Goiás Velho. Papo vai, papo vem, menciono o nome de Coralina (estava indo visitar sua casa) e ele me diz, pra minha surpresa, que a conhecia, que quando menino vendia cajus pelas ruas e sempre batia à porta de Cora, que fazia doces e compotas com as frutas. Ele me disse, emocionado, que muitas vezes, precisando de dinheiro, levava para Cora bacias com cajus ainda verdes e, Cora, bonita como ela só, sempre sorria e fingia não perceber. Um viva a essa linda e lutadora mulher, Cora Coralina!

TODAS AS VIDAS
Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço…
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo…
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem-feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem chiadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
tão desprezada,
tão murmurada…
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.
(seleção e texto de Jeff Vasques)

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