só hoje



hoje,
nesta
terça-gorda
de carnaval,
me permiti
te chorar,
amigo

só hoje,
em meio à turba
em meio à chuva
anônimo e
invisível

tão junto
e tão sozinho

só hoje
me permiti,
amigo,
te chorar

(foram dois meses
resistindo)

e voltei
pra casa
como um carro
trágico-alegórico

imponente
belo
ridículo

essa alegoria clichê
de chuvas e lágrimas
– e um trompete ao fundo
que eu imaginava você tocando –

[e aí eu ria, chorando, do ridículo
que você acharia da cena…]

só hoje
em meio à fantasia
da alegria coletiva
em meio à entrega
inevitável
à vida
em meio à tantos
você, ali,
possíveis

pude aceitar

– e registrar neste poema
ruim e bêbado
(que você, ao ler,
faria lindo) –

o inaceitável
de tua partida.

2 respostas para “só hoje”

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