Entrevista na “Revista Escrita”

Querid@s, a 2a edição da Revista Escrita – Literatura e Cultura com a temática “Mudanças” acabou de sair e eles fizeram uma entrevista comigo, sobre o que penso do mundo, da necessidade de sua transformação e da poesia nisso tudo…
baixe a revista e prestigie esse trabalho tão raro e árduo, hoje em dia, de reunir e divulgar arte livremente! Obrigado aos esforços de Daniel Costa, João Paulo Moreto e toda equipe!

A revista pode ser baixada aqui: https://revistaescrita.files.wordpress.com/…/revista-escrit…

Errata: Na entrevista, aparece algumas vezes escrito Goulart, mas não se trata do presidente, mas sim do Gullar, poeta! 😉 rsrs eles devem corrigir isso em breve!

Na garganta do futuro – Che poeta?


[Segue abaixo texto que escrevi para a revista número 1 do MTST, “Territórios Transversais”. O texto fala sobre Che Guevara poeta, sobre o papel possível da poesia na luta revolucionária. Seguem também dois poemas de Che que traduzi]

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NA GARGANTA DO FUTURO (nome da seção fixa)

POESIA?

“En la lucha de classes / todas las armas son buenas / Piedras noches poemas” (Paulo Leminski)

Qual seria a utilidade da poesia para a lutadora e para o lutador que precisa todo dia, a todo instante, lidar com situações urgentes, duras, tensas, concretas? De que servem essas palavras soltas, muitas vezes difíceis de entender ou descoladas de nossa realidade, abstratas? Por que perder o precioso tempo da luta com poesia? Quantas batalhas já foram ganhas com um verso? Parece que as imensas tarefas colocadas diante de nós simplesmente não combinam, não rimam, com poesia…

Pois, imagine um lutador em meio a uma guerrilha na selva, faminto, exausto, com asma… tendo que dar conta, diariamente, de questões de vida-ou-morte… se nossa luta cotidiana parece não deixar espaço para poesia, muito menos essa, não? Pois esse guerrilheiro não só dedicava muito de seu escasso tempo à leitura de poesia, como escrevia em seus cadernos surrados poemas em meio à batalha. Esse guerrilheiro-poeta era Che Guevara.

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Che carregava consigo, ao ser aprisionado na Bolívia, três cadernos: um diário de guerra; um caderno de reflexões e um caderno verde em que tinha anotado, ao longo de anos, 69 poemas preferidos. Sua fama de grande leitor de literatura e poesia era muito bem conhecida por todos os companheiros combatentes. Quando Che assumia o grupo de vanguarda, todos já ficavam tensos porque alguém teria que carregar suas pesadas mochilas cheias de livros. À noite, ao redor da fogueira, enquanto outros dormiam, durante os poucos descansos, era comum encontrar Che perdido entre páginas, lendo incansavelmente. Chana, amiga campesina, dizia que Che, nesses momentos, “ficava caladinho, meio ido, com a cara muito suavizinha e como se estivesse em outro mundo”. Em vários outros momentos, Che falava nas rodas aos soldados e campesinos de Victor Hugo, Rubén Dario, Tagore, Neruda. Um jovem de catorze anos, chamado Acevedo, se surpreendeu ao fuçar os livros na mochila de Che: “Não havia Mao, nem Stalin, e sim o que eu menos esperava, ‘Um ianque na corte do Rei Arthur’”, livro do escritor norte-americano Mark Twain. Che não leu só os escritores sociais ou mais politizados, mas também se apropriou da leitura dos clássicos.

PRA QUÊ?
Mas qual seria o papel da poesia para as revolucionárias e para os revolucionários? Há, claro, uma função mais direta e mais reconhecida: instrumento de propaganda da luta e de denúncia da miséria capitalista. Mas há outra função, muito esquecida, e ainda mais importante: ser um instrumento para compreensão das contradições específicas que um militante revolucionário enfrenta, um instrumento para compreensão de si e do mundo, da luta que trava externa e internamente (pois, sim, o inimigo também é íntimo e pode colonizar nosso peito e coração).

O militante que luta para superar o capitalismo e construir uma nova sociedade enfrenta situações extraordinárias, desafios únicos em seu momento histórico. Por isso mesmo, sofre de alegrias, tristezas e angústias igualmente únicas na busca por se fazer um novo homem e uma nova mulher. Vivenciamos, ainda que de forma embrionária, novos valores, novos sentimentos, novos dilemas que demandam novas palavras, novos canais de expressão! Todo esse movimento subjetivo e singular precisa vir à tona, tornar-se palavra comum, imagem compartilhada, símbolo e questionamento coletivo, permitindo a construção da identidade do ser revolucionário.

CANTAR A VIDA E A LUTA!
Por tudo que foi dito, é preciso fechar o punho, mas abrir o corpo: botar pra fora o que querem que apodreça aqui dentro como amargura e desgosto, como ânsia e medo, como vão heroísmo ou culpa católica. Por isso, é preciso dançar outros corpos, que não os das propagandas; entoar outras canções, que não as do esquecimento; pintar outros rostos; escrever nossa própria história e poesia, com nossas palavras, com nossos corpos marcados pela luta e com nosso novo espírito nascente. Precisamos criar juntos sentidos ao mundo. E a arte de luta, a poesia de luta, pode nos ajudar nisso! Que nos tornemos os “poetas do futuro” como foram Che e tantos outros, que superaram a terrível separação entre o sonho e a ação.

VELHA MARIA, VAIS MORRER
(Che Guevara, tradução de Jeff Vasques)

Velha Maria, vais morrer:
quero falar contigo seriamente.

Tua vida foi um rosário completo de agonias,
não houve homem amado, nem saúde, nem dinheiro,
apenas a fome para ser compartida.
Quero falar de tua esperança,
das três distintas esperanças
que tua filha fabricou sem saber como.

Toma esta mão que parece de menino
nas tuas, polidas pelo sabão amarelo.
Abriga teus calos duros e os nós puros de teus dedos
na suave vergonha de minhas mãos de médico.

Escuta, avó proletária:
crê no homem que chega,
crê no futuro que nunca verás.

Nem rezes ao deus inclemente
que a vida toda mentiu tua esperança;
nem peças clemência à morte
para ver crescer suas pardas carícias;
os céus são surdos e o escuro manda em ti,
terás uma vermelha vingança sobre tudo,
te juro pela exata dimensão de meus ideais:
todos os teus netos viverão a aurora.
Morre em paz, velha lutadora.

Vais morrer, velha Maria:
trinta projetos de mortalha
dirão adeus com o olhar
num destes dias em que te vais.

Vais morrer, velha Maria:
ficarão mudas as paredes da sala
quando a morte se conjugar com a asma
e copularem seu amor na tua garganta.

Essas três carícias construídas de bronze
(a única luz que alivia a tua noite),
esses três netos vestidos de fome,
chorarão os nós dos dedos velhos
onde sempre encontravam algum sorriso.
Isso foi tudo, velha Maria.

Tua vida foi um rosário de magras agonias,
não houve homem amado, saúde, alegria
apenas a fome para ser compartida.
Tua vida foi triste, velha Maria.

Quando o anúncio do descanso eterno
turvar a dor de tuas pupilas,
quando tuas mãos de eterna faxineira
absorverem a última ingênua carícia,
pensas neles… e choras,
pobre velha Maria!

Não, não o faças!
Não ores ao deus indiferente
que toda uma vida mentiu a tua esperança,
nem peças clemência à morte,
que tua vida foi horrivelmente vestida de fome,
acaba vestida de asma.

Mas quero anunciar-te,
na voz baixa e viril das esperanças,
a mais vermelha e viril das vinganças,
quero jurá-lo pela exata
dimensão de meus ideais.

Toma esta mão de homem que parece de menino
nas tuas mãos, polidas pelo sabão amarelo.
Abriga teus calos duros e os nós puros de teus dedos
na suave vergonha de minhas mãos de médico.

Descansa em paz, velha Maria,
descansa em paz, velha lutadora:
todos os teus netos viverão a aurora.
EU JURO!

(Poema dedicado a uma velha mexicana a que Guevara tentou ajudar na cidade do México em 1954)

CONTRA O VENTO E A MARÉ
(Che Guevara, tradução de Jeff Vasques)

Este poema (contra o vento e a maré) levará minha assinatura.
Te dou seis sílabas sonoras,
um olhar que sempre carrega (como um pássaro ferido) ternura,
um anseio de água morna e profunda,
um escritório escuro em que a única luz são desses versos meus,
um dedal muito usado para suas noites de enfado,
uma fotografia de nossos filhos.
A mais linda bala desta pistola que sempre me acompanha,
a memória inesquecível (sempre latente e profunda) das crianças
que, um dia, você e eu concebemos.
E o pedaço de vida que me resta,
isto eu dou (convicto e feliz) à revolução.
Nada que nos possa unir terá maior poder.

(Poema dedicado à esposa Aleida)

Cora Coralina

(Este texto foi escrito para o blog Subvertidas)

cora-coralina-na-juventude

Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, (1889 – 1985), poetisa,  contista e doceira, é considerada uma das principais escritoras brasileiras.  Impressionantemente, Cora teve seu primeiro livro publicado apenas em 1965  quando já tinha quase 76 anos de idade!!!  Mulher simples, alheia a modismos literários, produziu uma obra poética rica em motivos do cotidiano do interior brasileiro, em particular dos becos e ruas históricas de Goiás, e também desenvolveu – com profunda intensidade – uma identificação com todas as mulheres que sofrem a opressão machista e sexista.
AUTOBIOGRAFIA (trecho)
Sobrevivi, me recompondo aos
bocados, à dura compressão dos
rígidos preconceitos do passado.
Preconceitos de classe,
Preconceitos de cor e de família.
Preconceitos econômicos,
Férreos preconceitos sociais.

 

Desde cedo, em sua juventude, já causava espanto à família com sua postura transgressora dos valores sociais da tradicional sociedade vilaboense (interior de Goiás). Era nada comum uma moça, naquela época, dedicar-se tanto a ler e escrever, construir-se como intelectual e buscar ter uma vida própria e ativa, fora dos círculos tradicionalmente tidos como “femininos”. Era chamada pela família de “solteirona”, aos 20 anos, já que as mulheres com essa idade já deveriam estar casadas e com filhos. Durante uma tertúlia literária ela se apaixonou por Cantídio Tolentino de Figueiredo Bretãs, advogado, separado, pai de dois filhos e vinte anos mais velho. A família, seguindo os valores machistas e retrógrados (ainda presentes em nossos dias, mas, agora, mais mascarados) foi completamente contra o romance. Cora, então, parte com Cantídio para São Paulo, onde vai morar por vários anos. Com a morte do marido, passou a vender livros. Posteriormente, mudou-se para Penápolis, no interior do estado, onde passou a produzir e vender linguiça caseira e banha de porco. Mudou-se em seguida para Andradina, até que, em 1956, retornou para Goiás.
NASCI ANTES DO TEMPO

Tudo o que criei ou defendi
nunca deu certo.
Nem foi aceito.
E eu perguntava a mim mesma
Por quê?

Quando menina,
ouvia dizer sem entender
quando coisa boa ou ruim
acontecia a alguém:
fulano nasceu antes do tempo.
Guardei.

Tudo que criei, imaginei e defendi
nunca foi feito.
E eu dizia como ouvia
a moda de consolo:
nasci antes do tempo.

Alguém me retrucou:
você nasceria sempre
antes do seu tempo.
Não entendi e disse Amém.

A escolha de um pseudônimo (Cora Coralina) foi uma estratégia encontrada por Ana para afirmar uma  nova identidade para si, buscando superar o peso que a família e a sociedade jogavam às suas costas. Como diz sua neta, Ana Maria Tahan, “a Ana que virou Cora e foi rejeitada pela cidade, criou asas e ganhou fama”. Como Cora Coralina, Ana conquistava sua liberdade, afirmando-se como mulher transgressora e libertária. Em São Paulo desenvolve atuação política pela causa “revolucionária” (Revolução Constitucionalista de 1932), foi enfermeira, cuidando dos combatentes feridos; confeccionou bonés, uniformes e aventais para os “rebeldes”; subiu em palanques para defender a causa feminista; foi líder de movimento, elaborando um manifesto em defesa da formação de um partido político feminino e até organizou uma agremiação (fonte: “Cora Coralina: a poesia como ação política“).

“… o pseudônimo Cora Coralina acaba sendo uma senha, um sinônimo, equivalente a lavadeira do Rio Vermelho… o substantivo cora ou, popularmente, quarar, com seu significado de branquear roupas, expondo-as ao sol. Libertária sim, pois com a fantasia magnânima e com êxtase da poesia, lava a sujeira, os monturos da vida, o pó da mesquinhez humana… as lavadeiras, em sua grandeza, fazem o cotidiano mais limpo e perfumado. Cora, a lavadeira do Rio Vermelho, purga a mesmice do cotidiano, elevando todos os sonhos”. (Saturnino Pesqueiro Ramón).

A LAVADEIRA
Essa mulher…
Tosca. Sentada. Alheada …
Braços cansados
Descansando nos joelhos …
Olhar parado, vago,
Perdida no seu mundo
De trouxas e espumas de sabão
– é a lavadeira.
Mãos rudes deformadas.
Roupa molhada.
Dedos curtos.
Unhas enrugadas.
Córneas.
Unheiros doloridos
Passaram, marcaram.
No anular, um círculo metálico
Barato, memorial.
Seu olhar distante,
Parado no tempo.
À sua volta
-uma espumadeira branca de sabão.
Inda o dia vem longe
Na casa de Deus Nosso Senhor,
O primeiro varal de roupa
Festeja o sol que vai subindo.
Vestindo o quaradouro
De cores multicores.
Essa mulher
Tem quarentanos de lavadeira.
Doze filhos
Crescidos e crescendo.
Viúva, naturalmente.
Tranqüila, exata, corajosa.
Temente dos castigos do céu
Enrodilhada no seu mundo pobre.
Madrugadeira.
Salva a aurora.
Espera pelo sol.
Abre os portais do dia
entre trouxas e barrelas.
Sonha calada.
Enquanto a filharada cresce
Trabalha suas mãos pesadas.
Seu mundo se resume
na vasca, no gramado.
No arame e prendendores.
Na tina d’água.
De noite – o ferro de engomar.
Vai lavando, vai levando.
Levando doze filhos
Crescendo devagar,
Enrodilhada no seu mundo pobre,
Dentro de uma espumadeira
Branca de sabão.
Às lavadeiras do Rio Vermelho
Da minha terra,
Faço deste pequeno poema
Meu altar de ofertas.
Obviamente, Cora, como uma mulher em transição e em superação, apresenta em sua poesia traços, às vezes, contraditórios acerca da imagem feminina. Avança muito além de seu tempo ao se fazer mulher dona de seu destino e ao se identificar com todas que lutam para sobreviver em meio ao machismo e patriarcalismo. Mas há também traços da Ana Lins, ainda presa à subjetividade feminina tradicional, contradição que as mulheres, como seres históricos, enfrentam por serem, ao mesmo tempo, sujeitas e assujeitadas às relações sociais vigentes, às “normas” de gênero.
MULHER DA VIDA (trecho)
(escrito para o Ano Internacional da Mulher, em 1975)
Mulher da Vida,
Minha irmã,
De todos os tempos,
De todos os povos,
De todas as latitudes,
Ela vem do fundo imemorial das idades
E carrega a carga pesada
Dos mais torpes sinônimos,
Apelidos e ápodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à-toa.
Mulher da Vida, minha irmã.
Pisadas, espezinhadas, ameaçadas,
Desprotegidas e exploradas,
Ignoradas da Lei, da justiça e do direito.
E fecho o “Versos e Subversas” desta semana com uma historinha pessoal: certa vez, em minhas viagens pelo Goiás, sentou-se ao meu lado no ônibus um pedreiro que havia morado em Goiás Velho. Papo vai, papo vem, menciono o nome de Coralina (estava indo visitar sua casa) e ele me diz, pra minha surpresa, que a conhecia, que quando menino vendia cajus pelas ruas e sempre batia à porta de Cora, que fazia doces e compotas com as frutas. Ele me disse, emocionado, que muitas vezes, precisando de dinheiro, levava para Cora bacias com cajus ainda verdes e, Cora, bonita como ela só, sempre sorria e fingia não perceber. Um viva a essa linda e lutadora mulher, Cora Coralina!

TODAS AS VIDAS
Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço…
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo…
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem-feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem chiadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
tão desprezada,
tão murmurada…
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.
(seleção e texto de Jeff Vasques)

Pablo Sanchéz Pulido


Olha que legal! O Pablo Sánchez Pulido, querido amigo músico espanhol musicou dois poemas do meu último livrinho de poesias… segue a gravação demo, abaixo… adorei!!!! Eu que achava minhas micro-poesias pouco propícias à música… 😉 Pra quem quiser conhecer mais do lindo trabalho Pablo, ouçam aqui o seu disco de lançamento, “Planeta Pertinho”: http://www.myspace.com/planeta_pertinho/music

A lua
lá fora
tão cheia
de si…

Cá dentro
eu já
nem sei
se…

————-
Vulto

Volto à vala comum dos corpos.
Volto à palavra que me valha.

Volto à fala como um dos outros.
Volto à palavra que me falha.

Volto aos vivos.
Volto aos mortos.

Volto ao
nada
comum dia
pós o
outro.

Conversa de M. Benedetti com Roque Dalton



Abaixo, segue um trecho de um histórico encontro entre Mario Benedetti e o poeta-guerrilheiro Roque Dalton. Essa conversa se deu em Cuba em 1969, ano em que a Casa das Américas (instituição cultural revolucionária que se formou logo após a revolução cubana) premiou Roque.

O trecho que traduzi se refere, especificamente, a relação entre o artista/poeta e o processo revolucionária, militância e arte.

Trecho da entrevista de Benedetti a Roque Dalton (cuba-69)

MB: Pelos fragmentos que conheço de teu livro, e pelo que agora me contas, vejo que poderia ser considerado como poesia comprometida. Pois bem, que sentido você dá ao compromisso?

RD: Me parece que para nós, latinoamericanos, chegou o momento de estruturar o melhor possível o problema do compromisso. No meu caso particular, considero que tudo que escrevo está comprometido com uma maneira de ver a literatura e a vida a partir de nosso mais importante labor como homens: a luta pela liberdade de nossos povos. No entanto, não devemos deixar que este conceito se converta em algo abstrato. Eu creio que está ligado com uma via concreta da revolução, e que esta via é a luta armada.

Neste nível, entendo que nosso compromisso é irredutível, e que todos os outros níveis do compromisso teórico e metodológico da literatura com o marxismo, com o humanismo, com o futuro, com a dignidad do homem, etc., devem ser discutidos e ampliados, a fim de aclará-los para quem vai realizar praticamente esse compromisso em sua obra e em sua vida; mas em nós, escritores latinoamericanos que pretendemos ser revolucionários, o problema do compromisso de nossa literatura deve concretizar-se em uma determinada forma de luta».

MB: Dentro dessa acepção, que lugar deixas aqueles autores que escrevem contos fantásticos, ou contos realistas não referenciados a uma concreta realidade política, e que em sua atitude pessoal têm por outro lado uma militância?

―RQ: Não creio que este problema se resolva a nível de gêneros. Um combatente revolucionário pode fazer magnífica literatura imediatista, e inclusive panfletária se lhe ´da vontade ou se as necessidades da luta cotidiana assim o exigem; mas também serve à revolução se é um excelente escritor de ficção científica, já que a literatura, entre outras funções, cumpre a de ampliar os horizontes do homem. Na medida em que o povo poe captar os significados, últimos ou imediatos, de uma grande literatura de ficção, estará mais próxima de nossa luta, e mais se é capaz de analisar a alienação que o inimigo lhe impôs.

Por isso não vemos razões para apresentar a obrigação de que o escritor militante se reduza genérica ou tematicamente a uma linha muito estreita. É melhor que partamos do outro extremo, ou seja, de sua atitude ante a luta revolucionária. Uma vez que este problema está resolvido, o assunto dos gêneros e do rumo literário servirão para enriquecer a linha revolucionária que escolheu em sua vida. Por outra parte, e tal como o cita a última declaração do comitê de colaboração da revista Casa das Américas, na luta de classes se cumpre também o papel de arrebatar à burguesía o privilégio da beleza, como o sustenta Regis Debray. No terreno literário, as relações entre a militância e a literatura como resultado da criação de um revolucionário, só podem ser positivas.

Há outro terreno no qual se poderia haver conflito, e é a nível ideológico. Na medida em que, através da literatura, se apresentaram ideológicamente posições que estiveram em contradição com a militância revolucionária, se originaría um conflito, do qual não tem culpa a literatura como tal; se trataría na verdade de um problema ideológico do escritor. Aí é onde cabe situar o problema das famosas “desgarraduras” entre o poeta e o militante político, quando ambos são a mesma pessoa. “Desgarradura” é um termo que se forjou para ocultar que se trata de um problema ideológico; se querem seguir chamando assim, terão que dizer que se trata de uma desgarradura ideológica, e que portanto deve solucionar-se a nível ideológico.

MB: Em teu caso pessoal, houve conflito entre tua militância política e tua qualidade de escritor?

RQ: Em alguma ocasião me perguntaram isso, e meio rapidamente respondi que não. O que quis dizer é que para mim foi possível estruturar minha obra poética no seio de uma vida de militância política, ou seja que me acostumei a escrever na clandestinidade, em condições difíceis. Mas evidentemente existe outro nível, Tive conflitos quando tive problemas ideológicos. Cada vez que experimentei uma “desgarradura”, foi porque se me apresentava uma contradição entre uma posição política e uma posição ideológica expressada em minha literatura. Na medida em que pude superar minhas debilidades neste terreno, dei passos adiante; na medida em que os pude superar, tengo ainda conflitos.

Há uma série de aspectos da revolução, muitos deles planejados a escala mundial, frente aos quais eu possivelmente não tenho conceitos muito claros, e por isso sinto que me afetam; mas, como te dizia antes, são questões que podem absolutamente ser resolvidas no plano ideológico.

MB: Como sabe, há tempo que me preocupam os problemas derivados das relações entre o intelectual e o socialismo, entre o escritor e a revolução. Muitas vezes julgamos essa relação na base de prejuízos pequeno-burgueses e com um conceito liberal de certas palavras chaves; também em outras épocas foram propostas como soluções certos métodos relacionados com o estalinismo. Pessoalmente creio que a verdadeira solução não está em nenhum desses projetos. Quiçá devamos criar uma nova relação entre o escritor e a revolução. Ou acaso inventá-la. Gostaría de conhecer tua opinião sobre isto.

RD: Bem, você parte da realidades concretas que nos exigem definições. Por um lado, prejuízos pequeno-burgueses que se interpõe entre o escritor e as instituições do socialismo, entre o artista e a revolução no poder; e por outra parte as metodologías, destinadas a resolver este tipo de relações, que outorgara o estalinismo no passado. Creio também que você usou uma palavra justa para fazer a proposição: falou de inventar novos métodos e novos conteúdos na relação do escritor com o socialismo institucionalizado.

Pois bem, se trata de um trabalho muito amplo, que deve ser de invencão comum, na qual participem os criadores, os homens de cultura, o Estado, as instituições do socialismo, mas todos em relação com o povo, que em definitivo é o destinatário último e o produtor primário de toda a matéria cultural, em cuja elaboração não somos senã intermediários. Nas grandes perspectivas desta invenção não devem se interpor proposições segundo as quais os criadores sejamos simples ditadores de velhas opiniões, nem tampouco que se introduzam por algum resquício os métodos estalinistas que sentaram jurisprudência para resolver determinados problemas neste terreno.

A questão é verdadeiramente profunda e tem relação com os fins últimos da revolução. Na atualidade há que dar particular importância a este problema; todos estamos obrigados a participar em sua solução, assim como a iniciar a discussão com um novo estilo, dispostos a chamar os problemas por seu nome e a não perder jamais a objetividade. Devemos fazê-lo com um critério revolucionário, marxista, científico, apegado à experiência histórica e às perspectivas concretas do futuro, tal como se trabalha quando se planeja uma safra, a abertura de um novo ramo industrial ou as relações internacionais de um Estado. Entendo que podemos ver estas possibilidades com otimismo. Em nossos países, sobretudo no lugar de onde o socialismo se encarnou realmente em nosso hemisfério (me refiro a Cuba), se abrem reais possibilidades de uma instauração de novas relações e de inventá-las com audácia (precisamente a audácia foi uma característica desta revolução), com o olhar posto na América Latina, já que Cuba é o início da revolução latinoamericana.

MB: Você mencionou a dimensão histórica, e também a audácia da experiência cubana. Me parece que se a essa audácia agregamos uma modéstia verdadeira por parte do criador, talvez encontremos os elementos para resistir a duas das mais perigosas tentações de que padece hoje o intelectual: ser fiscal da história, ou ser vítima dela.

RD: Você tocou em um problema importante. Os intelectuais teríamos que nos lançar a elaboração do novo tipo de relações entre o artista e a revolução, com absoluta consciência desse tipo de perigos. A última experiência histórica nos demonstra que, precisamente por nossas debilidades ideológicas, por nossos prejuizos pequeno-burgueses, pelo tipo de sociedade na que estamos imersos e que tanto nos deformou, tratamos de preservar nossa individualidade até territórios que contradizem as raízes mesmas de nossos ideais humanistas.

Que se passou aos grandes poetas que se converteram em fiscais intocáveis da vida pública, ou aos escritores que, em nome de uma suposta liberdade intocável, tratam de converter-se em vítimas da história? Por mais comovedoras que possam nos parecer suas situações, devemos reconhecer que um a um foram caindo e terminaram por incorporar-se, muitas vezes contra seu desejo, a grande industria do espectáculo editorial, do grande show editorial que, por trás de sua aparência luminosa, tem interesses concretos que podem responder ao inimigo.

Quando uma personalidade que maneja os problemas da consciência, da história, da cultura, e que muitas vezes foi porta-voz de grandes inquietudes de nossas massas, quando um poeta a quem o povo lhe deu seu calor, cai na indústria do espetáculo a que aludo, se converte de imediato em um elemento a mais da alienação de nossas massas populares e por tudo isso passa a cumprir um trabalho histórico francamente negativo, reacionário. Nenhum de nós está livre de cair nesse risco, e por isso a vigilância sobre nós mesmos e sobre nossos companheiros deve manter-se, em um sentido revolucionário, apesar dos evidentes erros cometidos no passado por parte de instituições de estados socialistas nos ponham muitas vezes em guarda contra certas palavras.

Estamos entre revolucionários e deixaríamos de sê-lo no momento em que entregássemos as armas da crítica; mas não simplesmente como escritores, senão também como cidadãos de um país, como revolucionários. Ademais, como escritores, temos direito a crítica, e a apresentar os problemas no nivel que seja, e com a profundidade que nos imponha nossa consciência. No entanto, devemos estar vigilantes com respeito a outra situação: sejamos responsáveis ante nós mesmos desses perigos que você assinalou, na medida em que estivermos dispostos a não nos ofender por chamar-nos servidores de nossos povos. Se há escritores a quem lhes parece humilhante servir ao povo, francamente não vale a pena que falemos deles.

MB: Assim como dizíamos que convém estudar a relação entre o escritor e o socialismo, dentro de um estado socialista, creio que também deveríamos estudar os problemas derivados da presença de um escritor revolucionário dentro de uma sociedade capitalista, ou seja dentro de um mercado de consumo.

RD: Quando apontávamos que um escritor inserido em um país socialista pode cair na tentação da industria mundial do espetáculo editorial, ou seja na industria que persegue a alienação das massas populares, estávamos assinalando um perigo real mas também excepcional. Por outro lado, o escritor que trabalha no mundo capitalista, vive imerso numa situação presidida por um grande aparato que em geral está a serviço da ideología do inimigo, e por isso corre o risco de converter-se em sua vítima imediata. Ainda o escritor que se rebela, ainda o escritor que é digno de seu papel e luta contra a alienação, pode ser uma vítima desse aparelho e ser iludido em diferentes niveis.

MB: Algo assim como uma “operação sedução”.

RD: Ou uma “operação suborno”, que inclui manobras destinadas a dotá-lo de uma boa consciencia apesar das concessões que pouco a pouco se lhe podem arrancar. Tudo está destinado a um fim último: assimilá-lo ao grande aparato de alienação, montado contra nossas massas populares.

MB: O mero feito de neutralizá-lo, não é acaso um bom dividendo para o inimigo?

RD: Desde cedo, neste aspecto o inimigo exerce uma ação cotidiana, custosísima, que se manifesta em todas as ordens da vida cultural: edições luxuosas, excelente propaganda do livro, glória efêmera, a possibilidade de converter-se em um tipo de prostituta intelectual, muito bem paga, ou num palhaço simpático a serviço dos interesses mais inconfessáveis, ainda que às vezes, nos melhores e mais inocentes dos casos, não se tenha consciência disso. O que me produz preocupação é que tais manobras de sedução alcancem a muitos de nossos companheiros e que estes não advirtam que ao cair na falta de seriedade, na palhaçada, ou nas concepções diretas do inimigo, estão contribuindo a criar nos povos a imagem de que ao intelectual só lhe interessa a frivolidade, a publicidade, as baboseiras.

MB: Por isso mencionava a modestia. Dentro da operação-sedução, um dos elementos que melhor maneja o inimigo é um fino tratamento da vaidade. Frente a modéstia verdadeira, uma modéstia que é também orgulho, o imperialismo se sente desarmado. Agora, voltando a tua poesia, como você acredita que este livro que acaba de ser premiado, e tua poesia em geral, se inserem na literatura salvadorenha?

RD: As origns culturais de minha produção, e o feito de tratar, por meio da literatura, de voltar a meu país, com uma visão talvez enriquecida pela experiência do exilio, são na realidade contribuições de meu país ao que eu faço. Há ademais certos esquemas mentais, certas estruturas de linguagem, que são absolutamente salvadorenhas. Mas no que se refere a minha obra poética, não creio que seja continuação, ou que tenha recebido influência decisiva de quem escreveu poesía em El Salvador. Pelo contrário, em porcentagem bastante alta parti de um rechaço a poesia que anteriormente se havia escrito em meu país, poesia muitas vezes inofensiva, que rara vez foi a fundo. E isto não é somente uma apreciação pessoal, senão que é também o que diz a crítica salvadorenha a respeito do que ali se conhece de minha poesia. Precisamente se assinala seu caráter de ruptura.

A Rosa Blindada 2


Continuando a tradução dos prólogos do livro “A Rosa Blindada” do poeta argentino Raúl González Tuñon.

Prólogos de “A Rosa Blindada”

Se alguém me peguntasse Que é a poesía? não teria outra saída senão contestar: A poesia é a poesia, mais o mundo, mais o homem, mais o poeta, mais a poesía. Se alguem me preguntasse que é um poema, contestaria: Até o lider da chamada “neutralidade” já disse que um poema que não contenha nada mais que poesia não é um poema. Citei uma frase de Valery.

Participei dos movimentos literarios de vanguarda e, sobretudo, o surrealismo contou com meu entusiasmo firme. Foi uma maneira de evadir-se e voltar à multitude, de ganhar a rua, de exercitar valentia, de confesar-se, de equivocar-se, de reivindicar valores esquecidos pela burguesía, de voltar a impor o gesto poético sobre o proibido, de exercitar valentia, repito, para entrar logo de cheio – os que soubemos fazer-lo – no drama do homem e sua esperança, nos anseios do homem, en seu destino “sobre a terra”. Por isso posso dizer agora com Day Lewis que a revolução na literatura começou mas sem uma revolução social será fácil e sem trascendência.

Me parece que agora há que se fazer poesia revolucionária. Isto não quer dizer que os demais poetas, se são poetas, deixem de sê-lo ao não sentir a necessidade de expressar-se revolucionariamente, no sentido da propaganda. O que exigimos deles é uma atitude antifascista concreta, porque o fascismo é o inimigo da cultura e da arte, tanto como da dignidade humana. Me parece também que há que aclarar quando se fala do chamado artepurismo. Há dois grupos nesta tendência: por um lado estão os “puros”, os desumanizados, os novos retóricos, cuja obra, abundante em cupidos, metáfora por metáfora, discos conhecidos, frescuras ao revés, tragédias pessoais sem profundo valor humano, não interessa, não é arte; é subarte, apenas, e por outro lado aqueles que embaralham em seus poemas elementos quentes, que fazem não uma obra revolucionária, mas uma obra viva, cheia de terra e pranto, coberta de raízes e de sangue. A posição destes últimos é discutível do nosso ponto de vista, mas é humana e séria. Por outra parte os escritores que não sintam o tema revolucionário serão arrastados a ele cedo ou tarde por imperativo de sua consciência mesma de artistas. Pensemos en Alejandro Blok. O antigo poeta puro, o antigo habitué do Repouso dos Comediantes e do Albergue de los Cachorros Perdidos se viu, em 1918, frente a revolução. “Em seus poemas – disse Goriely – demostrou que há épocas em que a vida se tornar superior a toda poesia, em que é necessário escrever com simplicidade para chegar aos homens e esclarecer-lhes o profundo sentido dos acontecimentos históricos que vivem.”

Creio que o ofício do poeta é grande. (Embora nos países burgueses os poetas sejam desprezados pelas classes dirigentes, na Rússia receben a Pasternak nas fábricas e os kolkoses com músicas e flores). Gosto de conversar em qualquer mesa – se diante de um copo de vinho, melhor- sobre temas, segredos, achados, infortúnios, felicidades, coisas da poesia e dos poetas. Mas também gosto de estar pronto para quando haja que disparar sobre alguém com um poema ou com o que seja.

Arthur Rimbaud foi a poesia, a grande aventura poética, mas em certo momento gritou: “Transformai a vida!”.

Requiém para Gullar



(“Requiém para Gullar” é o nome de um poema antigo do próprio Gullar… que retoma grande atualidade… e, sim, essa foto foi escolhida a dedo… parece um morto-vivo…)

O posicionamento eleitoral do poeta Ferreira Gullar nesta eleição para presidente evidenciou, para quem ainda não havia percebido, sua clara guinada conservadora. Isso já estava claro em seus textos regulares publicados no “Estadão” e em diversas declaracões em entrevistas em que ora negava a existência de esquerda e direita; ora tratava como infantil a luta armada durante a ditadura; ora negava marx e a luta de classes. Mais reveladores do que seu posicionamento agora favorável ao fascismo moralista de Serra (que fascismo não é moralista?), são os pseudo-argumentos utilizados para questionar o governo Lula. Não estou com isso dizendo que todos que criticam Lula e o PT são de direita, mas impressiona o reacionarismo de seus “argumentos”, como o de criticar o PT por ser contra as privatizações que quando feitas, “como no caso da telefonia, garantiram que todos os brasileiros tivessem acesso a telefone”!!!! Pelamor… será que ele sabe o que é a Telefônica? Fiquei com vontade de mandar pra ele um documentário que a produtora popular da qual faço parte (Camará ) produziu: o “Chamada a Cobrar” (o vídeo foi dirigido e editado pela compa Cristina Beskow). Esse documentário revela o que foi o desmonte e a privatização de um dos mais avançados setores de telefonia do mundo, que era o do Brasil.

Buenas, por essas e por tantas, estou -recolocando abaixo um post do meu antigo blog. Nesse post, além da comparação entre o antigo e o novo Gullar, você pode encontrar outros links para textos onde mostro o que foi o Gullar combativo, grande intelectual da cultura, poeta revolucionário… Faço isso no intuito de demarcar realmente a “morte” intelectual e artística de Gullar, assim como resgatar o que tem de bom, o que trouxe de avanço para a discussão cultural e para a prática poética (e trouxe sim!). Uma reflexão importante seria buscar entender os por quês desse arrefecimento? Claro que está relacionada a conjuntura de descenço das lutas sociais e seu afastamento das mobilizações, do real real. Mas talvez também tenha relação com seu envolvimento traumático com a ditadura… é sabido que acompanhou o desaparecimento de amigos (torturados e/ou assassinados) e que ele mesmo imaginou que seria pego na Argentina (foi quando decide escrever o “Poema sujo” como seu testamento, considerado dos maiores poemas brasileiros). Mas isso não o justifica em nada. Em verdade, torna tudo mais dramático e desonroso.

Ah, aproveito para passar o link de um bom artigo do meu professor do IEL/Unicamp, Sírio Possenti, criticando um artigo de Gullar e já percebendo seu movimento à direita: “Volver à esquerda, Gullar!”

Ah, antes do post, coloco um poeminha do Roque Dalton dirigido ao famoso escritor argentino Jorge Luis Borges. A situação era parecida com a que temos agora com Gullar… Jorge Luis Borges foi um escritor argentino considerado – ao lado de Kafka – como um dos maiores inovadores da literatura do século XX. Um de seus livros mais famosos é o “História Universal da Infâmia”. Suas tendências conservadoras, de apoio à ditadura argentina, por exemplo, foram amplamente conhecidas à época.. Segue:

DE UM REVOLUCIONÁRIO A J. L. BORGES
(Roque Dalton, trad. Jefferson Vasques)

É que para nosso Código de Honra,
você também, senhor,
foi dos tantos lúcidos que esgotaram a infâmia.
E em nosso Código de Honra
o dizer: “que escritor!”
é bem pouco atenuante;
é, quiçá,
outra infâmia…

GULLAR, AGORA EM NOVA VERSÃO

Já fiz alguns comentários elogiando o antigo Gullar e criticando o “novo”, que podem ser vistos aqui nestes posts:

Ferreira Gullar, antes de virar suco II (não achei o primeiro post desta série, mas está no blog em algum lugar!)
Ferreira Gullar, antes de virar suco III
Ferreira Gullar, antes de virar suco IV
Volver à esquerda, Gullar!

Hoje, li uma matéria no Estadão (do dia 18/01/09) sobre o novo livro de poesia que Gullar está preparando para lançar: “Em Alguma Parte Alguma”. Triste ir confirmando que Gullar realmente virou suco e agora se econtra em nova versão, muito mais gostoso, muito sem gosto. Apesar do título do novo livro ter uma jogadinha legal, ele aponta pra lugar nenhum realmente. Pelo menos Gullar é sincero. Sua poesia se afasta cada vez mais do contexto social (da realidade mesma) e vai se fechando em sua vida, seu apartamento, seu umbigo. Não que ele nao tenha direito de fazer isso… mas ele mesmo disse certa vez que queria que sua poesia fosse porta voz da realidade maior… vejam, não estou querendo que ele faça poesia panfletária e nem, necessariamente, política. Nas boas épocas de Gullar, ele fazia poesias sobre coisas banais, sobre um poster de uma modelo numa borracharia… mas mesmo esse poema nascia do convívio com espaços sociais, vc sentia que o poeta circulava pelo mundo e o redescobria. Agora, a sensação que dá das últimas coisas que escreve é que ele parece não circular ou, então, circula por espaços que não lhe dizem mais nada e por isso a experiência vital e fascinante que pode ainda ter está dentro do umbigo dele mesmo. Isso não quer dizer que a poesia dele não tenha força… mas pra mim perde sentido… já que poesia não é só forma e conteúdo, mas postura diante do mundo. Gullar foi levado pela conjuntura de enfraquecimento das lutas populares, foi levado por FHC, foi levado… não ouve mais a voz que precisa vir à tona…

Abaixo, coloco 3 poesias do novo livro – ainda não publicado – do Gullar, que o Estadão revelou. Deixo ao leitor a experiência de sentir a diferença desses poemas para um, das antigas, que também posto abaixo. Aqui vai, também, um trechinho da entrevista do Estadão que me chamou a atenção. O repórter pergunta: “Você acredita que a pessoa se torna mais lúcida, mais criativa, mais capaz, se tem uma obsessão?”. O repórter perguntava sobre obsessão porque a forma como Gullar produz poesia é obsessiva pela própria descrição que dá ao longo da entrevista: é tomado pela poesia, fica num outro estado etc. Mas Gullar leva a pergunta pra outro terreno e dá uma resposta afetada, de quem parece ainda carregar alguma culpa (será que essa é a culpa que o poema 2 abaixo descreve?): “Não sei dizer qual é o sentido de obsessão. Ter um propósito determinado não torna ninguém mais lúcido. Estar comprometido com uma idéia política, por exemplo, e utilizar a literatura como instrumento para modificar a sociedade pode não ser uma atitude de alguém lúcido. A pior coisa é ser dono da verdade. Não questionar os próprios valores e certezas é perigoso. (…)”. Gullar vive um momento de muitas incertezas, esqueceu que viver sob o capitalismo no século XXI é perigoso pra grande maioria… Mas com certeza, deixou, há muito, de ser perigoso pra Gullar… triste fim.

1.
O meu gato
na cadeira
se coça
corto papéis na sala
a manhã clara canta na janela
estou eterno.
(Flagrante)

2.
É alta madraguda. A culpa
joga dama comigo
no entressono. Cismo
que ela me engana
mas não bispo seu logro.
Ganho? Perco? Blefo?
Afinal, qual de nós rouba no jogo?
(Insônia)

3.
Em algum lugar
esplende uma corola
de cor vermelho queimado
metálica

Não está em nenhum jardim
em nenhum jarro
na sala
ou janela

Não cheira
não atrai abelhas
não murchará

apenas fulge
em alguma parte
da vida
(Uma corola)

Poesia das antigas:
Subversiva

A poesia
quando chega
não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas
relincha
como puta
nova
em frente ao Palácio da Alvorada.

E só depois
reconsidera: beija
nos olhos os que ganham mal
embala no colo
os que têm sede de felicidade
e de justiça

E promete incendiar o país

na “luta” da Mostra II

Abaixo outro poema selecionado pela mostra, de Paulo José Vieira.

XXVI (Paulo José Vieira)

“O homem e a hora são um só” (Fernando Pessoa)

Desde quando eu pequei e fui apartado do tempo,
tive de aguardar os classificados de trabalho que só saem às quintas
tive de assinar contrato de trabalho e correr atrás das horas

As horas no caminhão de frutas que dobrou a esquina
As horas na garota que nunca vai saber a oração que minha mãe inventou
As horas no texto de cada frase que eu não entendi

Que cheguem as sextas-feiras
para que eu tenha mais finais de semana
e envelheça mais rápido

A expectativa de vida aumenta em escala aritmética
mas os juros e a morte sobre morte são juros compostos
assim, logo vou alcançar a expectativa do Japão

Se eu passar em muito a expectativa de vida
será por roubar os dias de meu falecido primo
nesse jogo de médias que se tornou a vida

E às vésperas de me aposentar
vou temer a monotonia, até que venha
outra reforma da previdência e me decida trabalhar

Tem madrugada que acordo pensando que sou entrevado e que o tempo parou
levanto sufocado e tento inspirar socos de minutos
meu coração dispara e reanima o despertador no criado-mudo

Pensei na pior tortura para mim, mas resolvi não divulgá-la
porque sou contra tortura e porque podem usá-la contra mim:
um disco enroscado, travando o dia como uma estaca na órbita

Um disco enroscado é Penélope desfazendo o cachecol de ponto único que aprendeu na revista de crochê
Um disco enroscado é Sherazade contando todo dia a mesma propaganda de um produto novo
Um disco enroscado é o fim absoluto do tempo, é Deus antes do mundo e de Agostinho
é saber-se em coma, é promessa de capitalismo, é Deus antes de Deus

O homem domina o tempo, eis dois exemplos:
vai a uma pilha de minério mais velha que seus ossos e diz-lhe: “é minha!”
paga um consórcio do jazigo que o terá e diz-lhe: “é meu!”

Aos oitenta e sete anos, trabalharei morrendo
no Céu sim terei todo o tempo para ler
e nenhum dilema da Coleção “Os Pensadores”

Paulo José Vieira (Campinas/SP): Formado em letras, atuou como professor e publicou o livro de poemas “Um dia depois da natureza” (2009).Contato: paulojosevieira@gmail.com

na “luta” da Mostra


Abaixo o poema “Desígnios Terceiros” de Estevão Daminelli com o qual abri a 1a sessão de vídeos da 3a Mostra Luta.

Desígnios Terceiros (de Estevão Daminelli)

ACORDO,
as luzes vívidas deflorando-me a retina
carne, carbono, linho.
morrendo.
eu, capital humano
de cujas mãos toda labuta não me nutre
em cujas células repousa uma fagulha
de existência alguma.
estrangeiro de meu ser, LEVANTO.
não cabe chorar, não resta sentido no rastro de lágrimas.
engulo carne e grãos. morrendo.
me lavo e me visto e me faço apresentável
e sigo morrendo.

encontro fantasmas mirrados
alimentando no fundo de seus estômagos
um verme de esperança e medo.
e como sintoma de uma aguda miopia
o sorriso lhes corta a face:
ardil perverso
a pretexto de ostentar as presas.

-vejam estas 32 pérolas de cinismo esmaltado,
marfim amargo entre os lábios entreabertos.

triste ver um riso opaco, sem eco de razão que o legitime.
mas ainda sobre pernas, pele, cabelo e vísceras, SIGO.

caminho entre coisas da civilização,
e sinto-me um macaco, cada dia mais.
chego a meu destino, cemitério de objetos funcionais
e objeto-me em função de anseios outros,
desígnios terceiros, alheios aos meus.
a certeza do final do dia,
o amor que se renova como apêndice de um roteiro
em que seres se debatem cegos.

consumir e sumir
consumir e sumir
consumir e sumir
consumir e sumir

beba, compre, venha, creia,
não perca, não pise, viva o melhor.
imperativos,
bocas a nos engulir completamente.
nada mais é livre de gerar receita:
sentimentos a granel, em tantas vezes sem juros.

em meio a este árido mercado de emoções,
volto para casa, morrendo, ciente de que contribuí
para a manutenção da propriedade.
em silêncio.

Estevão Daminelli (Campinas-SP): “que dizer? tenho 24 anos, estudo filosofia, escrevo poemas e músicas. é isso”. Contato: estevaum22@gmail.com Blog: http://boimorto.tumblr.com/

Poesia de luta?



Texto que fiz para abrir a exposição de poesias da 3a Mostra Luta:

Poesia de luta?

“En la lucha de clases, todas las armas son buenas:
piedras, noches, poemas.” Paulo Leminski

Poesias comprometidas com a minha e com a tua vida, como nos diz Thiago de Mello. Poesias que não são somente para o deslumbramento, grande adereço da melancolia, como falava Dalton, mas que seguem sendo belas entre as belas armas reais que brilham debaixo do sol, entre nossas mãos e sobre nossos ombros. Poemas que no povo se fazem maduros como o sol na garganta do futuro, afirmou certo Gullar. Poesias daqueles que sabem que nem só de poesia vive o poeta, que há o fim do mês, como sempre nos alertou Solano Trindade; poesia dos que sabem que a vida, cutucava Otto Castillo, é a mais alta poesia. Poesia que é menos que poesia, talvez anti-poesia como ensinou Nicanor Parra, ou então é mais que poesia, é a muralha – de Guillén – se abrindo diante do coração amigo e se fechando para o veneno e o punhal traiçoeiros. Um incêndio no sangue, sentia Rugama, um relâmpago perpétuo, trovejava Scorza.

É esse tipo de poesia que você encontrará exposta, aqui, na 3ª Mostra Luta. Essa “poesia suja” fruto da luta, da revolta contra a ordem. Poesia que crava pés no chão para abrir, no olhar, horizontes. Poesia contraditória. Sim dentro do não. Poesia para os que precisam se enternecer, sem perder a dureza, jamais!
Sim, camaradas, há lugar para os poetas na barricada…

HÁ UM LUGAR NA BARRICADA (Pedro Tierra)
Quando o povo bater à porta,
não te encontre com as mãos
vazias.

Confere as coisas embaladas: não
se permitem dúvidas nas bagagens
de guerra.

Se entre os companheiros ainda
há quem pergunte a razão
dos poetas,

encontra, primeiro, teu lugar na
barricada, depois, entre os combatentes,
aponta

o rosto enérgico de tua poesia.