A ÚNICA COISA A FAZER É TOCAR UM TANGO ARGENTINO

A ÚNICA COISA A FAZER É TOCAR UM TANGO ARGENTINO

I.
Entre
o que fora
e sonha

– como areia
entre os
dedos –

escorre
tua vida.

II.
E
se tenta
guardar

– como algo
que fora
ou sonha –

cada
grãozin
dessa coisa
viva…

escorre
– entre seus dedos tensos –
ainda mais
a vida.

III.
Entre
o que fora
e sonha

– como areia
entre os
dedos –

escorra
a vida.

só hoje



hoje,
nesta
terça-gorda
de carnaval,
me permiti
te chorar,
amigo

só hoje,
em meio à turba
em meio à chuva
anônimo e
invisível

tão junto
e tão sozinho

só hoje
me permiti,
amigo,
te chorar

(foram dois meses
resistindo)

e voltei
pra casa
como um carro
trágico-alegórico

imponente
belo
ridículo

essa alegoria clichê
de chuvas e lágrimas
– e um trompete ao fundo
que eu imaginava você tocando –

[e aí eu ria, chorando, do ridículo
que você acharia da cena…]

só hoje
em meio à fantasia
da alegria coletiva
em meio à entrega
inevitável
à vida
em meio à tantos
você, ali,
possíveis

pude aceitar

– e registrar neste poema
ruim e bêbado
(que você, ao ler,
faria lindo) –

o inaceitável
de tua partida.

o que é o que é


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O QUE É
O QUE É

que
segredo

é
esse

que nos
devora

que nos
decifra…

que
não há
quem ouça

e tampouco
quem

– boca a boca –

não
diga

?

O punhal do orvalho


O PUNHAL DO ORVALHO
(Thiago de Mello)

Não sei mais ser sozinho e, todavia,
como de pão de solidão careço.
É dentro dela que consigo ver,
como no escuro um vôo de andorinha,
o que ainda é mesmo amor na vida minha.
É dentro do seu âmago molhado,
onde o silêncio é punhal de orvalho,
que vejo o rosto que eu não quero ver.
Na solidão me aprendo.
E me despeço
do que já fiz, para começar de novo
o que fazer quis tanto, e que não soube.

Didaticamente


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Um poema meu, o “tempoaotempo”, agora faz parte do livro didático Atos 9, da FTD. =)

a versão original abaixo:

tempoaotempo divulg

À musa


À MUSA

aqui

diante
da pàgina
em branco

diante
desse silêncio
longo

te invocando…

buscando
tua respiração
em meu corpo…

teus sons…
teu sopro…

mas
longo
segue o silêncio

mas
branca
segue a pàgina

vontade
de te dizer
uma coisa…

(não uma palavra)

Rodrigo


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RODRIGO

já já deve chegar uma mensagem tua no celular
“jeff, ta por aqui?”
ou vou perceber uma chamada não-atendida…
(vc sabe, eu sempre enrolado com celular)

esperando
aquele teu email
pra gente combinar a
próxima aula…
essa desculpa esfarrapada
pra gente se ver e falar
(que – no trompete –
vc já sacou que
eu não avanço
nada…)

daqui a pouco o cassio
marca mais um
ensaio
pra eu ouvir
tua voz mansa
teu sorriso de canto de boca
– envergonhado –
ou ver teus olhos se fechando
– tão doces –
ao soprar
todo teu coração
triturado
em nossos ouvidos

to aqui
te esperando
no horário combinado
pra gente trocar a roupa
pintar juntos
o rosto
ali mesmo
no centro de convivência
– ou no banheiro dum supermercado –
você-pierrot e eu-arlequim
livres noite adentro
– desmascarados! –
dançando com os bêbados
e desesperados
fazendo serenatas às colombinas
(que esperam cansadas
o último ônibus da linha)
você me ensinando a coragem
eu te ensinando a companhia
dois bobos rindo do mundo,
dessa máquina…
esse riso inútil
e necessário…

bora organizar
qualquer qualquer
coisa
pra você declamar
algum poema
e mostrar pras pessoas
que a vida
ainda respira
e que você incandesce
as palavras
que você queima

e no natal
rola de novo
a gente varar vendo filme na sala
nessa
cumplicidade
solitária
quase sem palavras

fala mais do Chet
pra mim
de como teu café
é pão e jazz
de como a música é
silêncio
fala mais do seu filho
da tua alegria de ver ele
descobrindo o violão
da autonomia que
vc vai incentivando
no menino

sei lá, fala do teu
coração partido
ou do partido rachado
da militância
da raiva
dos correios
das greves
do sindicato
de todas as cartas
que não foram
entregues

ou então vem
e fala alguma bobeira
se diminuindo
– como você não ser
artista, poeta –
só pra gente ter raiva…

ou então
não fala
nada

não fala

teu silêncio,
teu sopro
anuncia…

sei lá,
to aqui,
feito criança,
meu amigo,
me enganando
com este poema

– que outra coisa
a gente sabe fazer? –

tentando fingir
“tão completamente”…

fingindo que é esperança
a esperança que eu sinto
mesmo

de te
encontrar

a qualquer hora
em qualquer lugar

eu-você
andando por aí

meus olhos
– como os teus –
crentes.

de tempos em tempos…


de tempos
em tempos

visto
meu cachecol
de silêncios

me arrumo
sem pressa
me olhando
inteiro

e
quando pronto
saio
prum novo encontro

– sempre intenso –

dessa relação
(não-monogâmica)
comigo mesmo.

Rito do Patrimônio


RITO DO PATRIMÔNIO

Prometo
ser fiel

na alegria e na tristeza,
e na depressão, e no isolamento, e na submissão, e no silenciamento, e no abandono, e na difamação, e na dependência econômica, e na humilhação, e, sempre, sempre, no medo, no medo

Prometo
ser fiel

na saúde e na doença,
e no espancamento, e nas queimaduras, e nos xingamentos, e no abuso, e nas ameaças, e no estupro, e na tortura, e no cativeiro, e, sempre, sempre, na dor, e no sofrimento

até
que a morte
nos separe

amem