À deriva (7a versão e última!)

I.
as bocas
se engolem
sem fôlego
aos goles

se respiram
no oco
afogar
das fomes

II.
nas peles
se agarram
se arranham,
se mordem

buscam no outro
– um sim?
um sopro? –
o que os salvem.

III.
as línguas
se torcem
num gemido,
último,

e os corpos
transbordam,
lentamente,
afundam.

IV.
passada
a ressaca

nas manhãs
nos mares

boiarão
sós

as carnes

Leonard Cohen III

“Poesia é só a evidência da vida.
Se sua vida está queimando bem,
a poesia são apenas as cinzas.”
L. Cohen – trecho na capa do filme

Baixei e assisti o documentário sobre Leonard Cohen chamado “I’m your man”, nome de uma de suas canções mais famosas. No geral, não gostei do documentário em que se intercalam depoimentos interessantes do Cohen sobre sua arte e vida, canções do bardo interpretadas por diversos cantores num show-tributo, imagens de arquivo sobre leonard, desenhos seus e depoimentos dos cantores do show sobre a influência de Leonard na vida artística deles. O problema são essas canções que entrecortam os depoimentos. Não gostei das re-interpretações das músicas, com exceção das cantadas por Nick Cave. Mas vale a pena por ver o Cohen falando de seu próprio trabalho, algo que não é fácil de achar por aí (descobrir, por exemplo, que Cohen trabalha muito tempo em cima de uma poesia ou canção… até 1 ano!). Ah, e me revirou o estômago ver Cohen fechando o vídeo com a linda “Tower of Song” acompanhado pelo U2… Resumindo, sugiro apenas para fãs. Descobri no site semi-oficial dele (http://www.leonardcohenfiles.com/) que existem vários outros documentários sobre seu trabalho e que parecem bem mais interessantes.

Abaixo, segue o vídeo da canção que dá nome ao filme: “I’m your man”. Adoro essa música, em parte por algo bem pessoal: porque traduz a desgraça que é se apaixonar por uma mulher ao ponto de ficar totalmente à sua mercê (o famoso ficar-de-quatro), algo que, regularmente, enfrento. Mas gosto mesmo pelo sarcasmo, pelo riso irônico que ele dá de sua própria desgraça, uma desgraça da qual Cohen sabe que não pode fugir… o melhor é aceitá-la e cumpri-la bem, muito bem. Essa é uma característica muito forte do Cohen (que foi aprofundada por seus anos de monge zen-budista) que é a aceitação, quase com alegria, do sofrimento inevitável. O ficar a beira do abismo e rir muito da situação, de si mesmo, entender o teatro todo e fazer seu papel. A mulher, o amor pela mulher é a porta de entrada para o mistério… Cohen está sempre prostrado diante das mulheres e sabe o ridículo dessa situação, e também seu prazer, e também sua necessidade… segue reverente, mas rindo, reverente, buscando, com um riso negro no canto da boca.

Pra mim o verso mais lindo da música é o “Se você quer um outro tipo de amor, eu posso usar uma máscara pra você.”: posso ser um pai amoroso, alguém com quem você brigue sempre, um amante pra transarmos e pronto, apenas alguém com quem conversar, alguém que você manda pro inferno… essas são todas as máscaras que escondem a verdadeira face do amor que, para Leonard, é sempre utopia, inatingível. A interpretação desta música no vídeo, aqui embaixo, no show de 2009 em Londres, é simplesmente fantástica! No final, ele declama um poema lindo chamado “Thousand kisses deep”, que tra(b)duzo numa outra oportunidade, que o post já tá grande.

I’m your man

If you want a lover
I’ll do anything you ask me to
And if you want another kind of love
I’ll wear a mask for you
If you want a partner
Take my hand
Or if you want to strike me down in anger
Here I stand
I’m your man

If you want a boxer
I will step into the ring for you
And if you want a doctor
I’ll examine every inch of you
If you want a driver
Climb inside
Or if you want to take me for a ride
You know you can
I’m your man

Ah, the moons too bright
The chains too tight
The beast won’t go to sleep
I’ve been running through these promises to you
That I made and I could not keep
Ah but a man never got a woman back
Not by begging on his knees
Or I’d crawl to you baby
And I’d fall at your feet
And I’d howl at your beauty
Like a dog in heat
And I’d claw at your heart
And I’d tear at your sheet
I’d say please, please
I’m your man

And if you’ve got to sleep
A moment on the road
I will steer for you
And if you want to work the street alone
I’ll disappear for you
If you want a father for your child
Or only want to walk with me a while
Across the sand
I’m your man

If you want a lover
I’ll do anything you ask me to
And if you want another kind of love
I’ll wear a mask for you

Eu sou seu homem

Se você quiser um amante
Eu farei tudo que você me pedir
E se você quiser outro tipo de amor
Usarei uma máscara pra você
Se você quiser um parceiro
Pegue minha mão
Ou se quiser me derrubar com sua raiva
Aqui estou
Eu sou seu homem

Se você quiser um lutador
Eu entrarei no ringue por você
E se você quiser um médico
Eu examinarei cada centímetro de você
Se você quiser um motorista
Pode subir
Ou se você quiser me levar para um passeio
Você sabe que pode
Eu sou seu homem

Ah, a lua é muito clara
As correntes muito apertadas
A fera não irá dormir
Eu fui me acabando em promessas pra você
Que fiz e não pude manter
Ah, mas um homem nunca consegue uma mulher de volta
Não assim implorando de joelhos
Ou eu rastejaria até você, querida
E eu cairia aos seus pés
E eu uivaria à sua beleza
Como um cão no cio
E eu me agarraria ao seu coração
E eu me rasgaria ao seu lençol
Eu diria por favor, por favor
Eu sou o seu homem

E se você precisar dormir
por um momento na estrada
Eu irei dirigir por você
E se você quiser seguir sozinha por aí
Eu desaparecerei por você
E se você quiser um pai para o seu filho
Ou simplesmente andar comigo um pouco
atravessando as areias
Eu sou seu homem

Se você quiser um amante
Eu farei tudo o que me pedir
E se você quiser outro tipo de amor
Eu usarei uma máscara para você

Antônio Carlos Bernardes Gomes

Você sabe quem é Antônio Carlos Bernardes Gomes? Não? Vou dar uma dica: nasceu no Morro da Cachoeirinha, no subúrbio do Rio, e se tornou ajustador mecânico. Ainda não? Ele sempre tocava um sambinha de fim de semana pra descontrair… e chegou a fundar um grupo chamado “Sete Modernos”. Ainda não tá claris de quem estou falandis? Bem, por ser um figura, esse Antônio, um comédia, ele foi convidado pra atuar com outros 3 humoristas, tendo recusado várias vezes, até que, por fim, convencido por seu amigo Manfried Santanna, topou integrar o quarteto. Já ligou o nome com o forévis, certo? Numa de suas apresentações, cruzou com Grande Otelo nos bastidores e este lhe batizou com o nome de Mussum!

Mussum é pra mim, sem sombra de dúvida, o melhor humorista dos Trapalhões. Mussum era o que era, não criava personagens, era aquele malandro sambista da mangueira… Mas este post não é pra rememorar os trapalhões. Hoje, por intermédio de um amigo, o Denis, descobri que o Mussum fazia parte do grupo “Os originais do samba” (que foi o desenvolvimento dos “Sete Modernos”). Sempre ouvi os Originais, mas não sabia que o Mussum fazia parte dele! Fiquei ainda mais admirado com esse figura.

Os Originais têm uma puta importância no desenvolvimento do samba brasileiro, desse som que acompanha a resistência do povo trabalhador e abre espaço pra sua alegria e deboche. Tocaram com grandes nomes da música brasileira, como Chico Buarque, Elis Regina, Jair Rodrigues, Vinicius de Moraes, Baden Powell. Influenciaram um número incontável de sambistas e foram dos primeiros a excursionar pelo mundo afora! Fizeram história com suas letras bem elaboradas e carregadas de humor. Pois é! O Mussum já era famoso e importante antes dos Trapalhões! Segue abaixo um fantástico vídeo do Mussum junto com os Originais do Samba e depois um videozinho em homenagem ao seu “personagem”.

Casa, comida, três milhão por mês, fora o bafo! Mussum Forévis! 🙂



Você é um espinafre em dó maior?

Segundo videozinho que faço da banda Paramnese (provisória), desta vez apresentando a música “Espinafres em dó maior”. Filmei a apresentação deles no fim do ano passado, no lançamento da revista digital Casuística, na Unicamp, debaixo de um chuva torrencial. O primeiro vídeo que fiz, da música “Você ri”, pode ser visto aqui.

Ao coração do palhaço

entre ingênuo e afoito,
arma, de novo, seu vôo
na garganta do futuro

mas o vento estanca
o sonho é mudo

e o palhaço na pose
de aviador intrépido
(é, assim, de braços abertos)
abre os olhos
aos poucos
enquanto os risos cessam

(e o silêncio pesa como uma lua)

com um risinho frouxo
vai encolhendo os braços
e guardando o vôo
nos bolsos
de trás,
(um pouco triste,
é verdade,
mas sem alarde.)

e é justo quando
o vento vem
e lhe bate
lhe bate
bate

(e os risos recomeçam
e o poema recomeça)

à nova rede
da casa nova
balanço velhas
novas memórias

uma brisa…

à pele
à gora
sempre boas
novas