um mar de lama

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UM MAR DE LAMA

Quando
as metáforas
se tornam realidade,
um novo dilema
se apresenta
ao poeta:

criar novas palavras
ou um novo mundo
para as velhas?

[foto do Mar de Regência tomado pela lama da Samarco/Vale/BHP]

de rompimentos e rupturas


DE ROMPIMENTOS E RUPTURAS

Seu Sileno Lima
Seu Ailton Martins
Seu Waldemir Aparecido
– e tantos outros Seus, nossos –
seguem vivos
no coração da classe
em que re
florescem.
CEO Ricardo Vescovi
CEO Murilo Ferreira
CEO Andrew Mackenzie
– e tantos outros CEOs, vossos –
seguem mortos
até que o esquecimento
os so
terrem.

(Seu Sileno Lima, Seu Ailton Martins, Seu Waldemir Aparecido, todos trabalhadores mortos pela Samarco/Vale/BHP no rompimento das barragens de Mariana; os outros mencionados são os CEOS – Chief Executive Officer, chefes – da Samarco, Vale e BHP)

Pedido

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PEDIDO

carrega comigo
– amiga amigo –
esse sorriso rindo
de Emanuely Vitória
é tão imenso!
não cabe
no meu peito…
não passa
em minhas portas…
carrega comigo
– amiga amigo –
esse sorriso rindo
por entre as derrotas…
E só o soltemos
– com outros, imensos –
no dia em que a vitória
for nossa.
(foto de Emanuely Vitória morta pela Samarco/Vale/BHP no rompimento da barragem de Mariana)

PESTES


PESTES

“malcriados”
professando o
não!

“indisciplinados”
se organizando,
mãos!

“maleducados”
dando uma
lição!

Vejam: https://www.youtube.com/watch?v=PKE_6OmBijk&feature=youtu.be

Previsão do tempo


(sobre o crime da Vale em Mariana)

PREVISÃO DO TEMPO

I.
“Oh, tragédia!”,
“Desastre terrível!”,
“Tão triste acaso…”,
“Mas que catástrofe!”.

Tais frases,
repetem,
os senhores,
(que nunca morrem
– catas
trofica
mente –
em deslizamentos
enchentes, rompimentos
de barragens.)

II.
Vejam,
não se trata, aqui,
de que a metereologia
– assim como as urnas –
sejam imprecisas.

Trata-se
que o tempo
– e a dor que se acumula –
não são de todo
imprevisíveis.

E,
acima de tudo,
que há forças
da natureza que
– além de fúria –
têm memória.

III.
Quando o tempo
– realmente –
fechar
e não for recomendável
– aos senhores –
sairem às ruas
e praças…

(nuvens carregadas
apagando seus horizontes…

vendavais gritando pelas
frestas das casas…

e o tremer de suas pernas
anunciando
que a terra
se rasga
sob um vulcão
– secular –
de raivas…)

Quando o tempo
fechar
e todas suas
usinas, barragens, fábricas
forem inundadas,
engolidas por essa
força revolta
– e mais que natural –
da vida…

diremos, então, “aff,
tragédia!”, “desastre
terrível!”, “tão triste
acaso…”, “que
catástrofe!”.

Que coisa!

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QUE COISA!
(Jeff Vasques)

a coisa
anda feia

a coisa
anda solta

defini
tiva
mente

passou
dos limites

a coisa.

“Aí tem coisa,
cuidado, rapaz!”
que em tudo
há sempre
alguma coisa
por trás…

e essa coisa
não é linda
nem cheia
de graça
muito menos
daquelas
que vem e
que passa

coisíssima
nenhuma!

não é
coisa boa,
não é
coisa pouca,
muito menos
à toa…

(coisa que incomoda
são esses coisinha,
esses coisa-ruim
que dizem
que sabem
das coisas

espalham
que sempre
há um lado
bom
da coisa toda,
ou pior,
que na vida
não há coisa
melhor…

não dizem
coisa com
coisa!)

eu
só te digo
uma coisa:

essa cousa
é antiga
perigosa
e louca!

Portanto,
é uma coisa
ou outra…

não dá pra
aceitar
as coisas
como estão!

Não!

Temos que
por fim
a essa coisa
toda!

Mas, antes,
é preciso entender
como a Coisa
funciona

(o verdadeiro
sentido das
coisas)

é preciso
distinguir
coisa qualquer
de qualquer
coisa

e ir pondo
cada coisa
em seu
lugar

e outra coisa:

não basta
amar
sobre todas
as coisas…

grande coisa!

Não,
é preciso
bem mais coisa:

é preciso
por fim
ao atual Estado
de coisas

e,
acima
de qualquer
coisa,

que,
nunca mais,
coiso algum
ao coisar
outra coisa
se coise
e fique!

E, assim,
quando coisa
alguma nos
dome

chamaremos,
enfim,
cada coisa
pelo nome.

AYLAN KURDI


AYLAN KURDI

Fossem absurdas,
as mortes, nesta vida…

todas
completamente
sem-sentido…

estaríamos
– como meninos –
diante do mar
do universo
ou de um deus fictício
a questionar:

por que existimos?
e, por que, então,
não mais existimos?

Poderíamos
gemer, chorar, gritar
e, enfim, aceitar
o terrível destino.

Mas,
não.

As mortes
nesta vida
estão encharcadas
– até a alma –
de sentido

não são
absurdas

nem
dizem
“está tudo perdido!”.

Isso,
dizemos nós
– surdos –
diante do mar
de meninos.

é cego


mortedoamor

Um poema para “celebrar” o dia dos namorados, para “celebrar” esse “amor” responsável por 10% dos homicídios no mundo, sendo a grande maioria das vítimas, mulheres (80% das agressões, abusos e estupros contra mulheres são realizados por pessoas “amadas”).

É CEGO

foi paixão
à primeira vista;
casa, comida
e roupa lavada;
o que deus uniu,
nada separa.

do homem, a praça,
da mulher, a casa;
trair e coçar,
é só começar;
à mulher casada,
o marido lhe basta.

mãos frias,
coração quente;
pancada
de amor
não dói;
quem ama,
sempre entende.

entre marido e mulher,
ninguém mete a colher;
o que os olhos não vêem,
o coração não sente.
quem má cama faz,
nela jaz.

o amor tudo sofre,
tudo crê, tudo espera,
tudo suporta;

quem vê cara,
não vê coração;
à primeira vista,
foi paixão…

agora,
Inês é morta.

(Jeff Vasques)