novo homem, nova mulher

MARX

“Suponhamos que o homem seja homem e que sua relação com o mundo seja humana. Então, o amor só poderá ser trocado por amor, confiança, por confiança, etc. Se se desejar apreciar a arte, será preciso ser uma pessoa artisticamente educada; se se quiser influenciar outras pessoas, será mister se ser uma pessoa que realmente exerça efeito estimulante e encorajador sobre as outras. Todas as nossas relações com o homem e com a natureza terão de ser uma expressão específica, correspondente ao objeto de nossa escolha, de nossa vida individual real. Se você amar sem atrair amor em troca, i. é, se você não for capaz, pela manifestação de você mesmo como uma pessoa amável, fazer-se amado, então seu amor será impotente e um infortúnio.”
(Manuscritos Filosóficos Econômicos, Marx)

“Basta que estejas longe e meu amor por ti aparece tal como ele é: como um gigante, no qual se acham reunidas toda energia do meu espírito e toda a vitalidade do meu coração. Sinto-me outra vez um homem, na medida em que me sinto vivendo uma grande paixão. A complexidade na qual somos envolvidos pelos estudos e pela educação modernos, bem como o ceticismo com que necessariamente relativizamos todas as impressões subjetivas e objetivas, tudo isso nos leva, muito eficazmente, a nos sentir pequenos, fracos, indecisos e titubeantes. Porém, o amor – não o amor feurbachiano pelo ser, não o amor moleschottiano pela transformação da matéria, não o amor pelo proletariado, mas o amor pela amada (no caso, o amor por ti) – torna a fazer do homem um homem.”
(Marx em carta a sua esposa, Jenny)

Vale a pena dar uma lidinha neste curto texto de 8 páginas do Leandro Konder chamado “Marx: os revolucionários também amam”, aqui.

KOLLONTAI

“Entretanto, à medida que a luta entre as duas ideologias, a burguesa e a proletária, se torna mais aguda, àmedida que esta luta se estende e abarca novos domínios, surgem diante da humanidade novos problemas da vida, que só a ideologia da classe operária poderá resolver de maneira satisfatória.
Entre estes múltiplos problemas, encontra-se, jovem camarada, o que você assinala: o problema do amor, que a humanidade, nas diversas fases de seu desenvolvimento histórico, pretendeu resolver por meio de procedimentos diversos. Entretanto, o problema subsistia; unicamente variavam as tentativas de solução, que defenderiam, naturalmente, segundo o período, a classe e o espírito da época, ou seja, a cultura.

(…)

Mas, ainda há outro aspecto dos sentimentos amorosos ao qual a ideologia da classe operária deve dedicar maior importância. Referimo-nos ao amor considerado como um fator do qual se podem tirar benefícios em favor da coletividade, da mesma forma que qualquer outro fenômeno de caráter social e psíquico. Que o amor não é de modo algum um assunto privado, que interesse unicamente a dois corações isolados, mas, pelo contrário, que o amor supõe um princípio de união de um valor incalculável para a coletividade, isto se evidencia no fato de que, em todos os graus de seu desenvolvimento histórico, a humanidade estabeleceu regras que determinavam quando e em que condições o amor era considerado legítimo (ou seja, quando correspondia aos interesses da coletividade), e quando teria de ser considerado como culpado (ou seja, quando o amor se encontrava em contradição com a sociedade).”
(Alexandra Kollontai em “A Nova Mulher e a Moral Sexual”)

GRAMSCI

“Será possível amar a coletividade sem nunca ter amado profundamente criaturas humanas individuais?” (Gramsci)

“Penso em ti, na doçura de te querer bem, de te saber tão perto ainda que tão longe; querida Júlia, mesmo de tão longe o teu pensamento me ajuda a ser mais forte (…) O amor em ti é uma parte grande demais da minha personalidade para que eu seja capaz de me imaginar normal sem tua presença”. (Carta de Gramsci a Julia, seu grande amor)

“Nada poderá nos separar se nós mesmos não quisermos : eu não quero. Não foi para mim uma coisa simples dizer que gosto de você (…) Minha vida foi sempre uma planície fria, desoladora”. O amor, para Gramsci “deveria ser algo mais, uma colaboração de obras, uma união de energias para a luta, além de uma questão do felicidade: mas talvez a felicidade fosse precisamente isso” (de cartas de Gramsci a Julia)

GUEVARA

Contra o Vento e as Marés

Este poema (contra o vento e as marés) levará minha assinatura.
Deixo-lhes seis sílabas sonoras,
um olhar que sempre traz (como um passarinho ferido) ternura,

Um anseio de profundas águas mornas,
um gabinete escuro em que a única luz são esses versos meus,
um dedal muito usado para suas noites de enfado,
um retrato de nossos filhos.

A mais linda bala desta pistola que sempre me acompanha,
a memória indelével (sempre latente e profunda) das crianças
que, um dia, você e eu concebemos,
e o pedaço de vida que resta em mim.

Isso eu dou (convicto e feliz) à revolução
Nada que nos pode unir terá força maior.

(Ernesto “Che” Guevara – Poema dedicado à Aleida, sua esposa)

é sempre bom lembrar


Em meio aos meus estudos de mestrado (e debates de buteco) vão aqui algumas coisinhas importantes de sempre lembrar. E pra não deixar este post sem caráter literário vai ao final também um poema de Marx, pra lembrar que ele também já foi poeta e ingênuo, época em que achava que seus pensamentos eram “livres”.

Trechos de Marx, Engels e Lenin

“Tudo que sei é que não sou marxista”.
A frase foi dita pelo próprio Marx no fim dos anos 70 (séc. XIX).

Engels adverte: “Ora, nossa concepção da história é, antes de tudo, uma diretiva para o estudo, e não uma alavanca para construções à maneira dos hegelianos.” Carta de Engels a C. Schmidt, 5 de agosto de 1890 (Correspondance: 448)

“o método materialista se transforma em seu contrário cada vez que se o emprega não como um fio condutor da investigação histórica, mas como um modelo pronto com a ajuda do qual se cortam e recortam os fatos históricos”. Carta de Engels a P. Ernst, 5 de junho de 1890 (Correspondance: 446)

“É em parte de Marx e minha, a responsabilidade pelo fato de, às vezes, os jovens darem um peso maior do que o devido ao lado econômico. Face a nossos adversários, precisávamos sublinhar o princípio essencial negado por eles, e então nem sempre dispúnhamos do tempo, do espaço ou da ocasião de dar lugar aos outros fatores que participam da ação recíproca. Mas quando se tratava de apresentar um trecho da história, quer dizer, de passar à aplicação prática, a coisa mudava e não havia erro possível. Mas, infelizmente, acontece muito frequentemente que se acredite ter compreendido perfeitamente uma nova teoria e poder manejá-la sem dificuldade, desde que se tenha apropriado de seus princípios essenciais; e isso nem sempre é exato. Eu não posso eximir dessa recriminação a mais de um de nossos ‘marxistas’ recentes, e também é preciso dizer que se tem feito coisas singulares […]” Carta de Engels a J, Bloch, 21-22 de setembro de 1890 (Correspondance: 452-454)

Essas citações foram retiradas do volume de correspondência de Marx e Engels. Sobre essa correspondência, Lênin diz que

“o rico conteúdo teórico do marxismo se desenvolve aí com uma clareza extraordinária, pois Marx e Engels retornam várias vezes em suas cartas aos aspectos mais diversos de sua doutrina, sublinhando e esclarecendo – às vezes discutindo e persuadindo um ao outro – os pontos mais recentes (em relação às visões anteriores), os mais importantes, os mais difíceis. (…) Todavia, a concepção de Marx, em seu todo, não é uma doutrina, mas um método. Não fornece dogmas fechados, mas os pontos de partida para o estudo ulterior e o método para essa pesquisa.” (LÉNINE, V. OEuvres, Paris-Moscou, t. 19, p. 593)

Os pensamentos são livres (Karl Marx)

( Die Gedanken sind frei )

Os pensamentos são livres!
Quem pode adivinhá-los?
Eles passam voando
Como sombras da noite.
Ninguém pode sabê-los,
Ninguém pode atingí-los,
Não há como mudar:
Os pensamentos são livres!

Eu penso o que eu quero,
E tudo o que me agrada,
Mas tudo em silêncio
Sem chamar a atenção.
Meu desejo e meu anseio
Ninguém pode impedir.
Não há como mudar:
Os pensamentos são livres!

E se eu for aprisionado
No mais sinistro calabouço,
Tudo isto será obra
Inútil e também vã;
Pois os meus pensamentos
Partem os grilhões
E os muros em dois:
Os pensamentos são livres!

Por isto para sempre
Deixarei de lado preocupações
Deixarei de lado para sempre
Os meus temores
Pois no coração sempre
Será possível rir e ser alegre
E ao mesmo tempo pensar:
Os pensamentos são livres.