Na garganta do futuro – Che poeta?


[Segue abaixo texto que escrevi para a revista número 1 do MTST, “Territórios Transversais”. O texto fala sobre Che Guevara poeta, sobre o papel possível da poesia na luta revolucionária. Seguem também dois poemas de Che que traduzi]

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NA GARGANTA DO FUTURO (nome da seção fixa)

POESIA?

“En la lucha de classes / todas las armas son buenas / Piedras noches poemas” (Paulo Leminski)

Qual seria a utilidade da poesia para a lutadora e para o lutador que precisa todo dia, a todo instante, lidar com situações urgentes, duras, tensas, concretas? De que servem essas palavras soltas, muitas vezes difíceis de entender ou descoladas de nossa realidade, abstratas? Por que perder o precioso tempo da luta com poesia? Quantas batalhas já foram ganhas com um verso? Parece que as imensas tarefas colocadas diante de nós simplesmente não combinam, não rimam, com poesia…

Pois, imagine um lutador em meio a uma guerrilha na selva, faminto, exausto, com asma… tendo que dar conta, diariamente, de questões de vida-ou-morte… se nossa luta cotidiana parece não deixar espaço para poesia, muito menos essa, não? Pois esse guerrilheiro não só dedicava muito de seu escasso tempo à leitura de poesia, como escrevia em seus cadernos surrados poemas em meio à batalha. Esse guerrilheiro-poeta era Che Guevara.

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Che carregava consigo, ao ser aprisionado na Bolívia, três cadernos: um diário de guerra; um caderno de reflexões e um caderno verde em que tinha anotado, ao longo de anos, 69 poemas preferidos. Sua fama de grande leitor de literatura e poesia era muito bem conhecida por todos os companheiros combatentes. Quando Che assumia o grupo de vanguarda, todos já ficavam tensos porque alguém teria que carregar suas pesadas mochilas cheias de livros. À noite, ao redor da fogueira, enquanto outros dormiam, durante os poucos descansos, era comum encontrar Che perdido entre páginas, lendo incansavelmente. Chana, amiga campesina, dizia que Che, nesses momentos, “ficava caladinho, meio ido, com a cara muito suavizinha e como se estivesse em outro mundo”. Em vários outros momentos, Che falava nas rodas aos soldados e campesinos de Victor Hugo, Rubén Dario, Tagore, Neruda. Um jovem de catorze anos, chamado Acevedo, se surpreendeu ao fuçar os livros na mochila de Che: “Não havia Mao, nem Stalin, e sim o que eu menos esperava, ‘Um ianque na corte do Rei Arthur’”, livro do escritor norte-americano Mark Twain. Che não leu só os escritores sociais ou mais politizados, mas também se apropriou da leitura dos clássicos.

PRA QUÊ?
Mas qual seria o papel da poesia para as revolucionárias e para os revolucionários? Há, claro, uma função mais direta e mais reconhecida: instrumento de propaganda da luta e de denúncia da miséria capitalista. Mas há outra função, muito esquecida, e ainda mais importante: ser um instrumento para compreensão das contradições específicas que um militante revolucionário enfrenta, um instrumento para compreensão de si e do mundo, da luta que trava externa e internamente (pois, sim, o inimigo também é íntimo e pode colonizar nosso peito e coração).

O militante que luta para superar o capitalismo e construir uma nova sociedade enfrenta situações extraordinárias, desafios únicos em seu momento histórico. Por isso mesmo, sofre de alegrias, tristezas e angústias igualmente únicas na busca por se fazer um novo homem e uma nova mulher. Vivenciamos, ainda que de forma embrionária, novos valores, novos sentimentos, novos dilemas que demandam novas palavras, novos canais de expressão! Todo esse movimento subjetivo e singular precisa vir à tona, tornar-se palavra comum, imagem compartilhada, símbolo e questionamento coletivo, permitindo a construção da identidade do ser revolucionário.

CANTAR A VIDA E A LUTA!
Por tudo que foi dito, é preciso fechar o punho, mas abrir o corpo: botar pra fora o que querem que apodreça aqui dentro como amargura e desgosto, como ânsia e medo, como vão heroísmo ou culpa católica. Por isso, é preciso dançar outros corpos, que não os das propagandas; entoar outras canções, que não as do esquecimento; pintar outros rostos; escrever nossa própria história e poesia, com nossas palavras, com nossos corpos marcados pela luta e com nosso novo espírito nascente. Precisamos criar juntos sentidos ao mundo. E a arte de luta, a poesia de luta, pode nos ajudar nisso! Que nos tornemos os “poetas do futuro” como foram Che e tantos outros, que superaram a terrível separação entre o sonho e a ação.

VELHA MARIA, VAIS MORRER
(Che Guevara, tradução de Jeff Vasques)

Velha Maria, vais morrer:
quero falar contigo seriamente.

Tua vida foi um rosário completo de agonias,
não houve homem amado, nem saúde, nem dinheiro,
apenas a fome para ser compartida.
Quero falar de tua esperança,
das três distintas esperanças
que tua filha fabricou sem saber como.

Toma esta mão que parece de menino
nas tuas, polidas pelo sabão amarelo.
Abriga teus calos duros e os nós puros de teus dedos
na suave vergonha de minhas mãos de médico.

Escuta, avó proletária:
crê no homem que chega,
crê no futuro que nunca verás.

Nem rezes ao deus inclemente
que a vida toda mentiu tua esperança;
nem peças clemência à morte
para ver crescer suas pardas carícias;
os céus são surdos e o escuro manda em ti,
terás uma vermelha vingança sobre tudo,
te juro pela exata dimensão de meus ideais:
todos os teus netos viverão a aurora.
Morre em paz, velha lutadora.

Vais morrer, velha Maria:
trinta projetos de mortalha
dirão adeus com o olhar
num destes dias em que te vais.

Vais morrer, velha Maria:
ficarão mudas as paredes da sala
quando a morte se conjugar com a asma
e copularem seu amor na tua garganta.

Essas três carícias construídas de bronze
(a única luz que alivia a tua noite),
esses três netos vestidos de fome,
chorarão os nós dos dedos velhos
onde sempre encontravam algum sorriso.
Isso foi tudo, velha Maria.

Tua vida foi um rosário de magras agonias,
não houve homem amado, saúde, alegria
apenas a fome para ser compartida.
Tua vida foi triste, velha Maria.

Quando o anúncio do descanso eterno
turvar a dor de tuas pupilas,
quando tuas mãos de eterna faxineira
absorverem a última ingênua carícia,
pensas neles… e choras,
pobre velha Maria!

Não, não o faças!
Não ores ao deus indiferente
que toda uma vida mentiu a tua esperança,
nem peças clemência à morte,
que tua vida foi horrivelmente vestida de fome,
acaba vestida de asma.

Mas quero anunciar-te,
na voz baixa e viril das esperanças,
a mais vermelha e viril das vinganças,
quero jurá-lo pela exata
dimensão de meus ideais.

Toma esta mão de homem que parece de menino
nas tuas mãos, polidas pelo sabão amarelo.
Abriga teus calos duros e os nós puros de teus dedos
na suave vergonha de minhas mãos de médico.

Descansa em paz, velha Maria,
descansa em paz, velha lutadora:
todos os teus netos viverão a aurora.
EU JURO!

(Poema dedicado a uma velha mexicana a que Guevara tentou ajudar na cidade do México em 1954)

CONTRA O VENTO E A MARÉ
(Che Guevara, tradução de Jeff Vasques)

Este poema (contra o vento e a maré) levará minha assinatura.
Te dou seis sílabas sonoras,
um olhar que sempre carrega (como um pássaro ferido) ternura,
um anseio de água morna e profunda,
um escritório escuro em que a única luz são desses versos meus,
um dedal muito usado para suas noites de enfado,
uma fotografia de nossos filhos.
A mais linda bala desta pistola que sempre me acompanha,
a memória inesquecível (sempre latente e profunda) das crianças
que, um dia, você e eu concebemos.
E o pedaço de vida que me resta,
isto eu dou (convicto e feliz) à revolução.
Nada que nos possa unir terá maior poder.

(Poema dedicado à esposa Aleida)

A Rosa Blindada 2


Continuando a tradução dos prólogos do livro “A Rosa Blindada” do poeta argentino Raúl González Tuñon.

Prólogos de “A Rosa Blindada”

Se alguém me peguntasse Que é a poesía? não teria outra saída senão contestar: A poesia é a poesia, mais o mundo, mais o homem, mais o poeta, mais a poesía. Se alguem me preguntasse que é um poema, contestaria: Até o lider da chamada “neutralidade” já disse que um poema que não contenha nada mais que poesia não é um poema. Citei uma frase de Valery.

Participei dos movimentos literarios de vanguarda e, sobretudo, o surrealismo contou com meu entusiasmo firme. Foi uma maneira de evadir-se e voltar à multitude, de ganhar a rua, de exercitar valentia, de confesar-se, de equivocar-se, de reivindicar valores esquecidos pela burguesía, de voltar a impor o gesto poético sobre o proibido, de exercitar valentia, repito, para entrar logo de cheio – os que soubemos fazer-lo – no drama do homem e sua esperança, nos anseios do homem, en seu destino “sobre a terra”. Por isso posso dizer agora com Day Lewis que a revolução na literatura começou mas sem uma revolução social será fácil e sem trascendência.

Me parece que agora há que se fazer poesia revolucionária. Isto não quer dizer que os demais poetas, se são poetas, deixem de sê-lo ao não sentir a necessidade de expressar-se revolucionariamente, no sentido da propaganda. O que exigimos deles é uma atitude antifascista concreta, porque o fascismo é o inimigo da cultura e da arte, tanto como da dignidade humana. Me parece também que há que aclarar quando se fala do chamado artepurismo. Há dois grupos nesta tendência: por um lado estão os “puros”, os desumanizados, os novos retóricos, cuja obra, abundante em cupidos, metáfora por metáfora, discos conhecidos, frescuras ao revés, tragédias pessoais sem profundo valor humano, não interessa, não é arte; é subarte, apenas, e por outro lado aqueles que embaralham em seus poemas elementos quentes, que fazem não uma obra revolucionária, mas uma obra viva, cheia de terra e pranto, coberta de raízes e de sangue. A posição destes últimos é discutível do nosso ponto de vista, mas é humana e séria. Por outra parte os escritores que não sintam o tema revolucionário serão arrastados a ele cedo ou tarde por imperativo de sua consciência mesma de artistas. Pensemos en Alejandro Blok. O antigo poeta puro, o antigo habitué do Repouso dos Comediantes e do Albergue de los Cachorros Perdidos se viu, em 1918, frente a revolução. “Em seus poemas – disse Goriely – demostrou que há épocas em que a vida se tornar superior a toda poesia, em que é necessário escrever com simplicidade para chegar aos homens e esclarecer-lhes o profundo sentido dos acontecimentos históricos que vivem.”

Creio que o ofício do poeta é grande. (Embora nos países burgueses os poetas sejam desprezados pelas classes dirigentes, na Rússia receben a Pasternak nas fábricas e os kolkoses com músicas e flores). Gosto de conversar em qualquer mesa – se diante de um copo de vinho, melhor- sobre temas, segredos, achados, infortúnios, felicidades, coisas da poesia e dos poetas. Mas também gosto de estar pronto para quando haja que disparar sobre alguém com um poema ou com o que seja.

Arthur Rimbaud foi a poesia, a grande aventura poética, mas em certo momento gritou: “Transformai a vida!”.

novo homem, nova mulher

MARX

“Suponhamos que o homem seja homem e que sua relação com o mundo seja humana. Então, o amor só poderá ser trocado por amor, confiança, por confiança, etc. Se se desejar apreciar a arte, será preciso ser uma pessoa artisticamente educada; se se quiser influenciar outras pessoas, será mister se ser uma pessoa que realmente exerça efeito estimulante e encorajador sobre as outras. Todas as nossas relações com o homem e com a natureza terão de ser uma expressão específica, correspondente ao objeto de nossa escolha, de nossa vida individual real. Se você amar sem atrair amor em troca, i. é, se você não for capaz, pela manifestação de você mesmo como uma pessoa amável, fazer-se amado, então seu amor será impotente e um infortúnio.”
(Manuscritos Filosóficos Econômicos, Marx)

“Basta que estejas longe e meu amor por ti aparece tal como ele é: como um gigante, no qual se acham reunidas toda energia do meu espírito e toda a vitalidade do meu coração. Sinto-me outra vez um homem, na medida em que me sinto vivendo uma grande paixão. A complexidade na qual somos envolvidos pelos estudos e pela educação modernos, bem como o ceticismo com que necessariamente relativizamos todas as impressões subjetivas e objetivas, tudo isso nos leva, muito eficazmente, a nos sentir pequenos, fracos, indecisos e titubeantes. Porém, o amor – não o amor feurbachiano pelo ser, não o amor moleschottiano pela transformação da matéria, não o amor pelo proletariado, mas o amor pela amada (no caso, o amor por ti) – torna a fazer do homem um homem.”
(Marx em carta a sua esposa, Jenny)

Vale a pena dar uma lidinha neste curto texto de 8 páginas do Leandro Konder chamado “Marx: os revolucionários também amam”, aqui.

KOLLONTAI

“Entretanto, à medida que a luta entre as duas ideologias, a burguesa e a proletária, se torna mais aguda, àmedida que esta luta se estende e abarca novos domínios, surgem diante da humanidade novos problemas da vida, que só a ideologia da classe operária poderá resolver de maneira satisfatória.
Entre estes múltiplos problemas, encontra-se, jovem camarada, o que você assinala: o problema do amor, que a humanidade, nas diversas fases de seu desenvolvimento histórico, pretendeu resolver por meio de procedimentos diversos. Entretanto, o problema subsistia; unicamente variavam as tentativas de solução, que defenderiam, naturalmente, segundo o período, a classe e o espírito da época, ou seja, a cultura.

(…)

Mas, ainda há outro aspecto dos sentimentos amorosos ao qual a ideologia da classe operária deve dedicar maior importância. Referimo-nos ao amor considerado como um fator do qual se podem tirar benefícios em favor da coletividade, da mesma forma que qualquer outro fenômeno de caráter social e psíquico. Que o amor não é de modo algum um assunto privado, que interesse unicamente a dois corações isolados, mas, pelo contrário, que o amor supõe um princípio de união de um valor incalculável para a coletividade, isto se evidencia no fato de que, em todos os graus de seu desenvolvimento histórico, a humanidade estabeleceu regras que determinavam quando e em que condições o amor era considerado legítimo (ou seja, quando correspondia aos interesses da coletividade), e quando teria de ser considerado como culpado (ou seja, quando o amor se encontrava em contradição com a sociedade).”
(Alexandra Kollontai em “A Nova Mulher e a Moral Sexual”)

GRAMSCI

“Será possível amar a coletividade sem nunca ter amado profundamente criaturas humanas individuais?” (Gramsci)

“Penso em ti, na doçura de te querer bem, de te saber tão perto ainda que tão longe; querida Júlia, mesmo de tão longe o teu pensamento me ajuda a ser mais forte (…) O amor em ti é uma parte grande demais da minha personalidade para que eu seja capaz de me imaginar normal sem tua presença”. (Carta de Gramsci a Julia, seu grande amor)

“Nada poderá nos separar se nós mesmos não quisermos : eu não quero. Não foi para mim uma coisa simples dizer que gosto de você (…) Minha vida foi sempre uma planície fria, desoladora”. O amor, para Gramsci “deveria ser algo mais, uma colaboração de obras, uma união de energias para a luta, além de uma questão do felicidade: mas talvez a felicidade fosse precisamente isso” (de cartas de Gramsci a Julia)

GUEVARA

Contra o Vento e as Marés

Este poema (contra o vento e as marés) levará minha assinatura.
Deixo-lhes seis sílabas sonoras,
um olhar que sempre traz (como um passarinho ferido) ternura,

Um anseio de profundas águas mornas,
um gabinete escuro em que a única luz são esses versos meus,
um dedal muito usado para suas noites de enfado,
um retrato de nossos filhos.

A mais linda bala desta pistola que sempre me acompanha,
a memória indelével (sempre latente e profunda) das crianças
que, um dia, você e eu concebemos,
e o pedaço de vida que resta em mim.

Isso eu dou (convicto e feliz) à revolução
Nada que nos pode unir terá força maior.

(Ernesto “Che” Guevara – Poema dedicado à Aleida, sua esposa)