Jara e Pessoa


Lembrei de uma música linda, linda, linda do Victor Jara que tem muita relação com o poema do post anterior (“Oração para Marilyn Monroe” de Ernesto Cardenal). Fala de uma menina seduzida pela imagem de suscesso e alegria vendida em nossa sociedade… como foi Marilyn… Segue a música abaixo, com sua letra e tra(b)dução… E, como nunca é demais, divulgo novamente o vídeo em que o povo chileno organizado desmascara um dos assassinos de Victor Jara (EDWIN DIMTER BIANCHI), que vive normalmente em uma repartição pública como se nada tivesse acontecido… O vídeo é muito forte, assista! Victor Jara foi brutalmente assassinado durante o golpe que derrubou Allende no Chile…. a história que se passou pelos sobreviventes do Estádio do Chile é de que quando reconheceram que Victor era o artista que tocava fogo e amor nos corações dos trabalhadores chilenos, cortaram suas mãos e o desafiaram a tocar desse jeito. Carregamos no peito a vida e as canções de victor e de tantos outros que foram mortos na ditadura chilena e na ditadura velada em que vivemos… Que lá, no Chile, como no Brasil, os assassinos da ditadura não recebam qualquer anistia!

Por fim, aproveito também que dia 12 agora se comemorou 120 anos do nascimento do Fernando Pessoa, posto abaixo um poema que fiz dedicado a esse figura… é um poema que gosto muito… de uma época em que me sentia o próprio, ou, pior, um de seus heterônimos… Depois do poema, um vídeo de Bethânia recitando lindamente o “Invocação”… Pessoa é um mestre, sem dúvida, mas não mais o meu… e digo isso com um certo sorriso, como de um heterônimo que se rebela… 😉

Quién mató a Carmencita – Victor Jara

Con su mejor vestido bien planchado, iba
temblando de ansiedad sus lágrimas corrían
a los lejos gemidos de perros y de bocinas
el parque estaba oscuro y la ciudad dormía.

Com seu melhor vestido bem passada, ia
tremendo de ansiedade suas lágrimas corriam
à distância os gemidos de cães e buzinas
o parque estava escuro e a cidade dormia…

Apenas quince años y su vida marchita
el hogar la aplastaba y el colegio aburría
en pasillos de radios su corazón latía
deslumbrando sus ojos los ídolos del día.

Apenas quinze anos e sua vida murchinha
o lar a esmagava e o colégio a aborrecia
com pasillos (ritmo típico) dos rádios seu coração batia
deslumbrando seus olhos os ídolos do dia.

Los fríos traficantes de sueños en revistas
que de la juventud engordan y profitan
torcieron sus anhelos y le dieron mentiras
la dicha embotellada, amor y fantasía.

Os frios traficantes de sonhos em revistas
que da juventude engordam e se aproveitam
torceram seus anseios e lhe deram mentiras
a felicidade engarrafada, amor e fantasia.

Apenas quince años y su vida marchita…
Apenas quinze anos e sua vida murchinha…

Huyó, Carmencita murió
en sus sienes la rosa sangró
partió a encontrar su ultima ilusión.

Fugiu, Carmencita morreu
em seu semblante uma rosa sangrou
partiu para encontrar sua última ilusão

La muchacha ignoraba que la envenenarían
que toda aquella fábula no le pertenecía,
conocer ese mundo de marihuana y piscina
con Braniff International viajar a la alegría.

A garota ignorava que a envenenariam
que toda aquela fábula não lhe pertencia,
conhecer esse mundo de marihuana e piscina
com Braniff Internacional (grande empresa de aviação) viajar à alegria.

Su mundo era aquél, aquél del barrio Pila
de calles aplastadas, llenas de griterías
su casa estrecha y baja, ayudar la cocina
mientras agonizaba otros se enriquecían.

Seu mundo era aquele, aquele do bairro Pila
de ruas esmagadas, cheias de gritarias
sua casa estreita e baixa, ajudar na cozinha
enquanto agonizava outros se enriqueciam.

Los diarios comentaron: causa desconocida…
Os jornais comentaram: causa deconhecida…

Revelado assassino de Victor Jara

Em homenagem aos 120 anos de Fernando Pessoa

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Pessoa

(para os heterônimos de Fernando)

Sou entre tantos
e quase não existo
um cheiro estranho
não mais que isso.

Sei,
devo estar
em algum lugar
escondido

(entre esta úmida
sensação de chuva

e a ventofresca
impressão de secar)

Amanhã,
talvez,
ganhe um resfriado
e um pouco mais
de existência.

(Jefferson Vasques)

Poema Invocação (Passagem das Horas) recitado por Bethânia

Quilapayún


“A sociedade burguesa quer que a arte seja outro fator que contribua para a alienação social; nós, artistas, devemos transformá-la em uma arma revolucionária até que a contradição que existe realmente entre a arte e a sociedade seja, finalmente, superada. “ (trecho do encarte do Album “Basta”, 1974, Quilapayún)

Tocar para as massas, num show popular, canções que partem de suas raízes culturais mas transformadas para um fim emancipador, criticando o governo de direita recém eleito, cutucando a esquerda que não consegue se unir, animando todos com seu chamado alegre para a luta… e ainda ser transmitido para milhões via TV… foi exatamente isso que fez o grupo chileno Quilapayún em sua apresentação no festival de Olmue no Chile, agora em março. Adaptaram a letra de uma antiga música do grupo chamada “La Batea” à realidade atual, criticando o fato de se ter elegido “Piñera” para presidente do Chile (um magnata direitoso), assim como o fato da esquerda no chile (no mundo?) estar toda fragmentada, facilitando a ação dos conservadores. Originalmente, essa música, feita durante o governo de Allende, falava das tentativas de boicote da direita aos programas de reformas radicais.

Segue, abaixo, um vídeo antigo com a letra original de “La batea” e depois o vídeo do show recente de março, com a letra atualizada. Esse vídeo recente foi censurado pela Chillevision, canal que transmitia o festival de Olmue, e está sendo retirado repetidamente do Youtube. Talvez este vídeo saia do ar em breve, portanto. Mas eu já baixei e, qualquer coisa, subo novamente.

Que felicidade saber que existem grupos ainda revolucionários como Quilapayún!!!

Um pouco sobre o Quilapayún

Quilapayún surgiu em 1965 quando Julio Numhauser e os irmãos Julio e Eduardo Carrasco deram forma a um trio de música popular que se chamava “os três homens barbados” (“Quila-Payún” em mapuche, língua nativa dos povos da região sul do Chile). Seu diretor musical, em seu início, foi Ángel Parra (o filho de Violeta Parra). Em 1966 o grupo começou a ganhar notoriedade com sua música andina e a ser facilmente reconhecido pelos seus ponchos pretos, marca registrada do grupo. O encontro com Victor Jara foi decisivo. Este passou a ser o diretor musical e artístico do grupo e influenciou profundamente a estética e ética do grupo. O contexto político de ascenção de Allende ao governo funcionou como catalizador de todos essas experiências artísticas inovadoras: uma mistura única de temas tradicionais da cultura andina com a luta política revolucionária do Chile e de todos os povos (Quilapayún fez diversas músicas para campanhas do governo de Allende.) Com seu disco “Basta”, uma coleção eclética de canções de luta de povos de todo o mundo, marcam definitivamente a Canção Nova latinoamericana, sua opção pelo socialismo e tornam-se mundialmente conhecidos. Com a derrubada de Allende, o grupo se exila na França e, então, racha (não só os grupos políticos estão sujeitos a isso!). Há, hoje, o Quilapayún de luta, que se apresenta pelo Chile e é exibido neste post, e um outro Quilapayún que fica pela França e roda a Europa e se aburguesou.

Vídeo da década de 70 – “La batea” original


Mira la batea, como se menea
como se menea el agua en la batea.

El gobierno va marchando, qué felicidad,
la derecha conspirando, qué barbaridad,
va marchando, conspirando,
pero el pueblo ya conoce la verdad.

Por el paso de Uspallata, qué barbaridad,
el momiaje ya se escapa, qué felicidad,
En Uspallata hacen nata,
que se vayan y no vuelvan nunca más.

Ya perdieron la cordura, qué barbaridad,
sabotear la agricultura, qué fatalidad,
que chuecura las verduras
los culpables son de Patria y Libertad.

“La batea” atualizada, festival de Olmue 2010 – VÍDEO CENSURADO


Con el voto de la gente, qué felicidad,
Ya tenemos presidente, qué barbaridad.
Con la gente, presidente,
Para Chile hay que ponerse a trabajar

Mira la batea, como se menea
como se menea el agua en la batea. (x 2)

No salió mi candidato, qué barbaridad,
Hay Piñera para rato, qué fatalidad.
Candidato, para rato,
En Lan Chile vamos todos a volar,

Mira la batea, como se menea
como se menea el agua en la batea. (x 2)

Ya esta bueno de partidos, qué barbaridad,
Que van todos divididos, qué fatalidad.
Los partidos divididos
Sino se unen no van a resucitar

Mira la batea, como se menea
como se menea el agua en la batea. (x 2)

La batea, ea ea, qué barbaridad
La batea ea ea, qué felicidad (x 4)

Mira la batea, como se menea
como se menea el agua en la batea. (x 2)

La batea, se menea (x 6)