“Nossa única defesa contra a morte é o amor.”


A frase acima é do Saramago. Aqui vai uma homenagem singela dum leitor não muito frequente de sua obra, mas que adora seu cinismo e ironia. Separei algumas coisinhas: abaixo segue o trecho inicial do seu discurso ao receber o premio nobel de literatura… quem quiser ler o resto, pode ver aqui. Gostei desse trecho porque mostra as vinculações do escritor, de onde nasce sua palavra, sua vontade de dizer, de que chão. Saramago também foi poeta, pouca gente sabe… abaixo seguem 3 poemas que me chamaram a atenção. No final, três videozinhos, um do Mago falando sobre a democracia em que vivemos; outro é um trecho interessante do ótimo documentário “Janela da Alma” onde Saramago fala da vida sob o capitalismo; e por fim uma homenagem do Rage Against the Machine pro portuga!

Eu luminoso não sou (Saramago)

Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se, no fundo poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras-d’água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem.

Aprendamos, Amor

Aprendamos, amor, com estes montes
Que, tão longe do mar, sabem o jeito
De banhar no azul dos horizontes.

Façamos o que é certo e de direito:
Dos desejos ocultos outras fontes
E desçamos ao mar do nosso leito.

Catorze de Junho

Cerremos esta porta.
Devagar, devagar, as roupas caiam
Como de si mesmos se despiam deuses,
E nós o somos, por tão humanos sermos.
É quanto nos foi dado: nada.
Não digamos palavras, suspiremos apenas
Porque o tempo nos olha.
Alguém terá criado antes de ti o sol,
E a lua, e o cometa, o negro espaço,
As estrelas infinitas.
Se juntos, que faremos? O mundo seja,
Como um barco no mar, ou pão na mesa,
Ou rumoroso leito.
Não se afastou o tempo. Assiste e quer.
É já pergunta o seu olhar agudo
À primeira palavra que dizemos:
Tudo.

Início do discurso de Saramago ao receber o nobel

De como a personagem foi mestre e o autor seu aprendiz

O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia, Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo. Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animalzinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom carácter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável. Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que accionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algunas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: “José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira.” Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para todas as pessoas da casa, a figueira. Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava… No meio da paz nocturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direcção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia. Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: “E depois?” Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas. Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tijela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranquilizava : “Não faças caso, em sonhos não há firmeza”. Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quanto o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não podería significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer”. Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolaçao da beleza revelada. Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver. (…)

Saramago sobre democracia

Saramago no doc “Janela da Alma” sobre vida no capitalismo

Homenagem do Rage Against the Machine ao Mago

Jara e Pessoa


Lembrei de uma música linda, linda, linda do Victor Jara que tem muita relação com o poema do post anterior (“Oração para Marilyn Monroe” de Ernesto Cardenal). Fala de uma menina seduzida pela imagem de suscesso e alegria vendida em nossa sociedade… como foi Marilyn… Segue a música abaixo, com sua letra e tra(b)dução… E, como nunca é demais, divulgo novamente o vídeo em que o povo chileno organizado desmascara um dos assassinos de Victor Jara (EDWIN DIMTER BIANCHI), que vive normalmente em uma repartição pública como se nada tivesse acontecido… O vídeo é muito forte, assista! Victor Jara foi brutalmente assassinado durante o golpe que derrubou Allende no Chile…. a história que se passou pelos sobreviventes do Estádio do Chile é de que quando reconheceram que Victor era o artista que tocava fogo e amor nos corações dos trabalhadores chilenos, cortaram suas mãos e o desafiaram a tocar desse jeito. Carregamos no peito a vida e as canções de victor e de tantos outros que foram mortos na ditadura chilena e na ditadura velada em que vivemos… Que lá, no Chile, como no Brasil, os assassinos da ditadura não recebam qualquer anistia!

Por fim, aproveito também que dia 12 agora se comemorou 120 anos do nascimento do Fernando Pessoa, posto abaixo um poema que fiz dedicado a esse figura… é um poema que gosto muito… de uma época em que me sentia o próprio, ou, pior, um de seus heterônimos… Depois do poema, um vídeo de Bethânia recitando lindamente o “Invocação”… Pessoa é um mestre, sem dúvida, mas não mais o meu… e digo isso com um certo sorriso, como de um heterônimo que se rebela… 😉

Quién mató a Carmencita – Victor Jara

Con su mejor vestido bien planchado, iba
temblando de ansiedad sus lágrimas corrían
a los lejos gemidos de perros y de bocinas
el parque estaba oscuro y la ciudad dormía.

Com seu melhor vestido bem passada, ia
tremendo de ansiedade suas lágrimas corriam
à distância os gemidos de cães e buzinas
o parque estava escuro e a cidade dormia…

Apenas quince años y su vida marchita
el hogar la aplastaba y el colegio aburría
en pasillos de radios su corazón latía
deslumbrando sus ojos los ídolos del día.

Apenas quinze anos e sua vida murchinha
o lar a esmagava e o colégio a aborrecia
com pasillos (ritmo típico) dos rádios seu coração batia
deslumbrando seus olhos os ídolos do dia.

Los fríos traficantes de sueños en revistas
que de la juventud engordan y profitan
torcieron sus anhelos y le dieron mentiras
la dicha embotellada, amor y fantasía.

Os frios traficantes de sonhos em revistas
que da juventude engordam e se aproveitam
torceram seus anseios e lhe deram mentiras
a felicidade engarrafada, amor e fantasia.

Apenas quince años y su vida marchita…
Apenas quinze anos e sua vida murchinha…

Huyó, Carmencita murió
en sus sienes la rosa sangró
partió a encontrar su ultima ilusión.

Fugiu, Carmencita morreu
em seu semblante uma rosa sangrou
partiu para encontrar sua última ilusão

La muchacha ignoraba que la envenenarían
que toda aquella fábula no le pertenecía,
conocer ese mundo de marihuana y piscina
con Braniff International viajar a la alegría.

A garota ignorava que a envenenariam
que toda aquela fábula não lhe pertencia,
conhecer esse mundo de marihuana e piscina
com Braniff Internacional (grande empresa de aviação) viajar à alegria.

Su mundo era aquél, aquél del barrio Pila
de calles aplastadas, llenas de griterías
su casa estrecha y baja, ayudar la cocina
mientras agonizaba otros se enriquecían.

Seu mundo era aquele, aquele do bairro Pila
de ruas esmagadas, cheias de gritarias
sua casa estreita e baixa, ajudar na cozinha
enquanto agonizava outros se enriqueciam.

Los diarios comentaron: causa desconocida…
Os jornais comentaram: causa deconhecida…

Revelado assassino de Victor Jara

Em homenagem aos 120 anos de Fernando Pessoa

.

Pessoa

(para os heterônimos de Fernando)

Sou entre tantos
e quase não existo
um cheiro estranho
não mais que isso.

Sei,
devo estar
em algum lugar
escondido

(entre esta úmida
sensação de chuva

e a ventofresca
impressão de secar)

Amanhã,
talvez,
ganhe um resfriado
e um pouco mais
de existência.

(Jefferson Vasques)

Poema Invocação (Passagem das Horas) recitado por Bethânia