Bomba

BOMBA

já tentei
o sarcasmo
e a ironia

já tentei
a indiferença
e a negação

já tentei
entorpecimento
com drogas
sexo e rock
bom

já tentei
subornos e
adestramentos

já tentei
absolutamente
esquecê-lo

(blindá-lo
do lado de fora
do tempo)

já tentei
– até mesmo –
entendê-lo:
bisturis, divãs,
ciências…

e controlá-lo
com ameaças,
com a sedução
das falsas
reverências

já tentei
toda forma
de negociação

o sim
o talvez
o não

mas…

tudo
em vão

pra minha
infeliz
felicidade

ele
segue
bom

nunca aceita
– rebelde –
nada menos

sim,
eu tento
explicar-lhe:
o mundo é um muro
que os peitos vão duros
as mãos fechadas
as bocas ressequidas
falo dos desencontros
dos machucados,
dou-lhe fatos,
fotos, dados,
estatísticas

mas

pra minha
infeliz
felicidade

tudo
em vão

ele segue
bom bom
bando e
batendo e
pulsando e
ardendo e
prestes a

explodir
tudo.

O punhal do orvalho


O PUNHAL DO ORVALHO
(Thiago de Mello)

Não sei mais ser sozinho e, todavia,
como de pão de solidão careço.
É dentro dela que consigo ver,
como no escuro um vôo de andorinha,
o que ainda é mesmo amor na vida minha.
É dentro do seu âmago molhado,
onde o silêncio é punhal de orvalho,
que vejo o rosto que eu não quero ver.
Na solidão me aprendo.
E me despeço
do que já fiz, para começar de novo
o que fazer quis tanto, e que não soube.

novo homem, nova mulher

MARX

“Suponhamos que o homem seja homem e que sua relação com o mundo seja humana. Então, o amor só poderá ser trocado por amor, confiança, por confiança, etc. Se se desejar apreciar a arte, será preciso ser uma pessoa artisticamente educada; se se quiser influenciar outras pessoas, será mister se ser uma pessoa que realmente exerça efeito estimulante e encorajador sobre as outras. Todas as nossas relações com o homem e com a natureza terão de ser uma expressão específica, correspondente ao objeto de nossa escolha, de nossa vida individual real. Se você amar sem atrair amor em troca, i. é, se você não for capaz, pela manifestação de você mesmo como uma pessoa amável, fazer-se amado, então seu amor será impotente e um infortúnio.”
(Manuscritos Filosóficos Econômicos, Marx)

“Basta que estejas longe e meu amor por ti aparece tal como ele é: como um gigante, no qual se acham reunidas toda energia do meu espírito e toda a vitalidade do meu coração. Sinto-me outra vez um homem, na medida em que me sinto vivendo uma grande paixão. A complexidade na qual somos envolvidos pelos estudos e pela educação modernos, bem como o ceticismo com que necessariamente relativizamos todas as impressões subjetivas e objetivas, tudo isso nos leva, muito eficazmente, a nos sentir pequenos, fracos, indecisos e titubeantes. Porém, o amor – não o amor feurbachiano pelo ser, não o amor moleschottiano pela transformação da matéria, não o amor pelo proletariado, mas o amor pela amada (no caso, o amor por ti) – torna a fazer do homem um homem.”
(Marx em carta a sua esposa, Jenny)

Vale a pena dar uma lidinha neste curto texto de 8 páginas do Leandro Konder chamado “Marx: os revolucionários também amam”, aqui.

KOLLONTAI

“Entretanto, à medida que a luta entre as duas ideologias, a burguesa e a proletária, se torna mais aguda, àmedida que esta luta se estende e abarca novos domínios, surgem diante da humanidade novos problemas da vida, que só a ideologia da classe operária poderá resolver de maneira satisfatória.
Entre estes múltiplos problemas, encontra-se, jovem camarada, o que você assinala: o problema do amor, que a humanidade, nas diversas fases de seu desenvolvimento histórico, pretendeu resolver por meio de procedimentos diversos. Entretanto, o problema subsistia; unicamente variavam as tentativas de solução, que defenderiam, naturalmente, segundo o período, a classe e o espírito da época, ou seja, a cultura.

(…)

Mas, ainda há outro aspecto dos sentimentos amorosos ao qual a ideologia da classe operária deve dedicar maior importância. Referimo-nos ao amor considerado como um fator do qual se podem tirar benefícios em favor da coletividade, da mesma forma que qualquer outro fenômeno de caráter social e psíquico. Que o amor não é de modo algum um assunto privado, que interesse unicamente a dois corações isolados, mas, pelo contrário, que o amor supõe um princípio de união de um valor incalculável para a coletividade, isto se evidencia no fato de que, em todos os graus de seu desenvolvimento histórico, a humanidade estabeleceu regras que determinavam quando e em que condições o amor era considerado legítimo (ou seja, quando correspondia aos interesses da coletividade), e quando teria de ser considerado como culpado (ou seja, quando o amor se encontrava em contradição com a sociedade).”
(Alexandra Kollontai em “A Nova Mulher e a Moral Sexual”)

GRAMSCI

“Será possível amar a coletividade sem nunca ter amado profundamente criaturas humanas individuais?” (Gramsci)

“Penso em ti, na doçura de te querer bem, de te saber tão perto ainda que tão longe; querida Júlia, mesmo de tão longe o teu pensamento me ajuda a ser mais forte (…) O amor em ti é uma parte grande demais da minha personalidade para que eu seja capaz de me imaginar normal sem tua presença”. (Carta de Gramsci a Julia, seu grande amor)

“Nada poderá nos separar se nós mesmos não quisermos : eu não quero. Não foi para mim uma coisa simples dizer que gosto de você (…) Minha vida foi sempre uma planície fria, desoladora”. O amor, para Gramsci “deveria ser algo mais, uma colaboração de obras, uma união de energias para a luta, além de uma questão do felicidade: mas talvez a felicidade fosse precisamente isso” (de cartas de Gramsci a Julia)

GUEVARA

Contra o Vento e as Marés

Este poema (contra o vento e as marés) levará minha assinatura.
Deixo-lhes seis sílabas sonoras,
um olhar que sempre traz (como um passarinho ferido) ternura,

Um anseio de profundas águas mornas,
um gabinete escuro em que a única luz são esses versos meus,
um dedal muito usado para suas noites de enfado,
um retrato de nossos filhos.

A mais linda bala desta pistola que sempre me acompanha,
a memória indelével (sempre latente e profunda) das crianças
que, um dia, você e eu concebemos,
e o pedaço de vida que resta em mim.

Isso eu dou (convicto e feliz) à revolução
Nada que nos pode unir terá força maior.

(Ernesto “Che” Guevara – Poema dedicado à Aleida, sua esposa)

It aint me baby


Sempre tive dificuldades pra entender meus sentimentos nos relacionamentos com mulheres. A sensação que tenho é que fiquei muito cedo só no mundo e tive que, por conta, ir descobrindo o que cada emoção, cada sensação, cada dor ou batida mais rápida do coração significavam… e ir comparando, e tateando, e usando minha tosca educação afetiva como guia (nunca tive um cara mais velho do meu lado pra perguntar: “isso é assim?”, “como é aquilo?” etc)… até hoje tenho muita dificuldade de discernir tudo isso: o gostar da amizade da paixão do amor do desejo da vontade do ardor etc… e tenho, quase sempre, a terrível-maravilhosa impressão de estar vivendo as coisas pela primeira vez, o que dificulta bastante entender perceber alguma regularidade no que sinto! Além disso têm também as contradições todas do choque entre uma educação afetiva burguesa e uma vontade de um envolvimento sexual e afetivo mais livre… bota mais um tanto de carência nisso tudo e joga dentro de uma conjuntura de descenço das lutas com organizações de esquerda frouxas e pouco empolgantes (o que deixa o cabra-militante um tanto sem rumo e isolado), bate tudo e aí estou eu… apenas mais um rapaz latinoamericano, tentando escrever um “mestrado militante” (patético) e se agarrando no que consegue… se perdendo e se achando nas trincheiras do coração, enquanto a revolução não vem… (exagero essa última frase… soou bonita quando escrevi…) Buenas, todo esse lenga-lenga só pra mostrar uma música do Dylan muito boa que escutei ontem a noite enquanto pensava nisso tudo… “It aint me baby” faz a crítica de forma dura – e bonita – à noção burguesa de amor… essa canção ainda mantém sua força e me agrada bastante, apesar de saber de todos os meus limites e contradições… 😉

Segue na linda interpretação da Joan Baez – que mulher fantástica! – e depois na voz de Johny Cash (grande influência do Dylan), em versão country (o clima alegrinho com a letra pesada deixa essa interpretação impagável!) Letra e tradução no fim. Joan Baez começa a música com a seguinte dedicatória, no concerto da BBC, provavelmente transmitido ao vivo: “Essa é uma música de protesto… dedicada a todas as pessoas casadas da audiência ou que estão pra se casar… porque sou contra casamento!”

Acho muito bom o último verso da música em que diz que se ela quer “um amor pra toda vida e nada mais”, não é ele a pessoa que ela procura… ser apenas o “amor pra toda vida” é muito pouco… é preciso ir além…

It aint me baby (na voz de Joan Baez)

It aint me baby (na voz de Johny Cash)

It aint me, baby (Bob Dylan)

It Ain’t Me, Babe

Go ’way from my window
Leave at your own chosen speed
I’m not the one you want, babe
I’m not the one you need
You say you’re lookin’ for someone
Never weak but always strong
To protect you an’ defend you
Whether you are right or wrong
Someone to open each and every door
But it ain’t me, babe
No, no, no, it ain’t me, babe
It ain’t me you’re lookin’ for, babe

Go lightly from the ledge, babe
Go lightly on the ground
I’m not the one you want, babe
I will only let you down
You say you’re lookin’ for someone
Who will promise never to part
Someone to close his eyes for you
Someone to close his heart
Someone who will die for you an’ more
But it ain’t me, babe
No, no, no, it ain’t me, babe
It ain’t me you’re lookin’ for, babe

Go melt back into the night, babe
Everything inside is made of stone
There’s nothing in here moving
An’ anyway I’m not alone
You say you’re lookin’ for someone
Who’ll pick you up each time you fall
To gather flowers constantly
An’ to come each time you call
A lover for your life an’ nothing more
But it ain’t me, babe
No, no, no, it ain’t me, babe
It ain’t me you’re lookin’ for, babe

Não sou eu, Baby

Vá embora pela minha janela
Vá embora na velocidade que você quiser
Não sou quem você quer, baby
Não sou quem você precisa.
Você diz que está procurando por alguém
Que nunca seja fraco, mas sempre forte
Para proteger e defender você
Sempre que você esteja errada ou certa
Alguém para abrir toda e qualquer porta.

Refrão:
Mas não sou eu, baby
Não, não, não, não sou eu, baby
Não sou eu quem você está procurando.

Vá levemente pelos cantos, baby
Vá levemente pelo chão
Não sou quem você quer, baby
Eu vou sempre te deixar cair.
Você diz que está procurando por alguém
Que prometa nunca partir
Alguém que feche seus próprio olhos por você
Alguém que feche seu coração
Alguém que morra por você e mais.

Refrão:
Mas não sou eu, baby
Não, não, não, não sou eu, baby
Não sou eu quem você está procurando.

Vá fundir-se novamente à noite, baby,
Tudo aqui dentro é feito de pedra.
Não há nada se movendo aqui
E, mesmo assim, eu não estou sozinho.
Você diz que está procurando por alguém
Que vá te segurar cada vez que você cair,
Que vá te dar flores constantemente
E que vá vir sempre que você chamar,
Um amor pra sua vida e nada mais.

“Nossa única defesa contra a morte é o amor.”


A frase acima é do Saramago. Aqui vai uma homenagem singela dum leitor não muito frequente de sua obra, mas que adora seu cinismo e ironia. Separei algumas coisinhas: abaixo segue o trecho inicial do seu discurso ao receber o premio nobel de literatura… quem quiser ler o resto, pode ver aqui. Gostei desse trecho porque mostra as vinculações do escritor, de onde nasce sua palavra, sua vontade de dizer, de que chão. Saramago também foi poeta, pouca gente sabe… abaixo seguem 3 poemas que me chamaram a atenção. No final, três videozinhos, um do Mago falando sobre a democracia em que vivemos; outro é um trecho interessante do ótimo documentário “Janela da Alma” onde Saramago fala da vida sob o capitalismo; e por fim uma homenagem do Rage Against the Machine pro portuga!

Eu luminoso não sou (Saramago)

Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se, no fundo poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras-d’água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem.

Aprendamos, Amor

Aprendamos, amor, com estes montes
Que, tão longe do mar, sabem o jeito
De banhar no azul dos horizontes.

Façamos o que é certo e de direito:
Dos desejos ocultos outras fontes
E desçamos ao mar do nosso leito.

Catorze de Junho

Cerremos esta porta.
Devagar, devagar, as roupas caiam
Como de si mesmos se despiam deuses,
E nós o somos, por tão humanos sermos.
É quanto nos foi dado: nada.
Não digamos palavras, suspiremos apenas
Porque o tempo nos olha.
Alguém terá criado antes de ti o sol,
E a lua, e o cometa, o negro espaço,
As estrelas infinitas.
Se juntos, que faremos? O mundo seja,
Como um barco no mar, ou pão na mesa,
Ou rumoroso leito.
Não se afastou o tempo. Assiste e quer.
É já pergunta o seu olhar agudo
À primeira palavra que dizemos:
Tudo.

Início do discurso de Saramago ao receber o nobel

De como a personagem foi mestre e o autor seu aprendiz

O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia, Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo. Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animalzinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom carácter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável. Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que accionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algunas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: “José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira.” Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para todas as pessoas da casa, a figueira. Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava… No meio da paz nocturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direcção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia. Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: “E depois?” Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas. Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tijela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranquilizava : “Não faças caso, em sonhos não há firmeza”. Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quanto o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não podería significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer”. Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolaçao da beleza revelada. Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver. (…)

Saramago sobre democracia

Saramago no doc “Janela da Alma” sobre vida no capitalismo

Homenagem do Rage Against the Machine ao Mago

Amor e horror

O amor é algo tão forte, tão violentamente forte, avassalador, tão lindo e tão assustador, que aparece, em muitos dos meus escritos, como vida, mas vida que morre, como agonia prazerosa, gozo e último suspiro, como ameaça de dissolução, numa junção que oscila do macabro ao sublime. O amor aparece como horror, também, como um desejo deformador, que perverte os seres, as formas, que desfaz os limites da pessoalidade transformando o casal numa amorfa monstruosidade que vive do que de si devora. Em alguma medida, isso é o reflexo do que a sociedade faz com o amor. patologia. viver e morrer de amor. um amor canibal e egoísta, que se alimenta de si na figuro do “outro”, narciso.

Toquei nesse assunto porque, hoje, reencontrei em minhas anotações trechos do livro “Paixão Segundo G.H.” da Clarice, que selecionei justamente porque relacionam essa força da vida ao horror. Clarice, vem com o tempo, assumindo o peso de Fernando Pessoa dentro de mim… dos autores que tenho que estar preparado pra ler… que me dão medo, porque me traduzem onde eu não quero ser traduzido. Então seguem os trechos dela e, depois, um microconto meu, na verdade, um esboço de cena prum curta, uma alucinação que tive na Páscoa 😉 (que nem tem tanta relação com a questão do amor, mas um pouco com o horror em que nos habituamos a viver e nem percebemos). E pra fechar, a primeira parte de uma rara entrevista de Clarice Lispector. O olhar dela é aterrador, lindo e assustador! Procurem no youtube as outras 2 partes, vale a pena!

Trechos de “Paixão segundo G.H.” de Clarice

“Para a minha anterior moralidade profunda – minha moralidade era o desejo de entender e, como eu não entendia, eu arrumava as coisas, foi só ontem e agora que descobri que sempre fora profundamente moral: eu só admitia a finalidade – para a minha profunda moralidade anterior, eu ter descoberto que estou tão cruelmente viva quanto essa crua luz que ontem aprendi, para aquela minha moralidade, a glória dura de estar viva é o horror. Eu antes vivia de um mundo humanizado, mas o puramente vivo derrubou a moralidade que eu tinha? É que um mundo todo vivo tem a força de um Inferno.”

“Mas embora decepada, esta mão não me assusta. A invenção dela vem de tal idéia de amor como se a mão estivesse ligada a um corpo que, se não vejo, é por incapacidade de amar mais. Não estou a altura de imaginar uma pessoa inteira porque não sou uma pessoa inteira. E como imaginar um rosto se não sei de que expressão de rosto preciso? Logo que puder dispensar tua mão quente, irei sozinha e com horror. O horror será a minha responsabilidade até que se complete a metamorfose e que o horror se transforme em claridade. Não a claridade que nasce de um desejo de beleza e moralismo, como antes mesmo sem saber eu me propunha; mas a claridade natural do que existe, e é essa claridade natural o que me aterroriza. Embora eu saiba que o horror – o horror sou eu diante das coisas.”

“Estou mais cega do que antes. Vi, sim. Vi, e me assustei com a verdade bruta de um mundo cujo maior horror é que ele é tão vivo que, para admitir que estou tão viva quanto ele – e minha pior descoberta é que estou tão viva quanto ele – terei que alçar minha consciência de vida exterior a um ponto de crime contra a minha vida pessoal.”

“Mas é que a verdade nunca me fez sentido. A verdade não me faz sentido! É por isso que eu a temia e a temo. Desamparada, eu te entrego tudo – para que faças disso uma coisa alegre. Por te falar eu te assustarei e te perderei? Mas se eu não falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia.”

“Terá sido o amor o que vi? Mas que amor é esse tão cego como o de uma célula-ovo? foi isso? Aquele horror, isso era amor?”

Paixão (Jefferson Vasques – título sugerido por Márcia Teani)

esboço de micro-cena para um curta

este é o meu corpo. este é o meu sangue. ali, o arroz. costela abrindo. aqui, ó. os miúdos. quentes. o crocante. esbranquiçado. é pomba. mastiguem bem. vamos. sem cerimônias. tomai. e comei. todos vós. façam isso em minha memória. que cara é essa, mãe? pai, onde você vai? por que me abandona?

Parte 1 da entrevista de Clarice Lispector