Flagrante Capitalismo

FLAGRANTE CAPITALISMO
(a lei do loser e a lei do player)

Quando
a polícia encontra um sujeito
com as mãos sujas de sangue
na cena do crime,
cabe prisão preventiva
para posterior averiguação.
É o flagrante delito,
diz a lei, coisa e tal…

Mas,
se suas mãos
estiverem limpas
– com álcool-gel –
no escritório de sua
multinacional…

aí não importa
se matou cavalo, cachorro,
28 bixos humanos ou
um rio inteirinho…
só vai ter multa,
“não faça mais isso!”,
muitos dedos, muito tato
e juiz dizendo

“a questão requer cuidado
para que a empresa não seja demonizada
diante da intensa comoção social…
afinal,
ela é um importante player
das economias local, regional e nacional.”

(http://noticias.uol.com.br/…/juiz-de-mariana-bloqueia-r-300…)

Que coisa!

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QUE COISA!
(Jeff Vasques)

a coisa
anda feia

a coisa
anda solta

defini
tiva
mente

passou
dos limites

a coisa.

“Aí tem coisa,
cuidado, rapaz!”
que em tudo
há sempre
alguma coisa
por trás…

e essa coisa
não é linda
nem cheia
de graça
muito menos
daquelas
que vem e
que passa

coisíssima
nenhuma!

não é
coisa boa,
não é
coisa pouca,
muito menos
à toa…

(coisa que incomoda
são esses coisinha,
esses coisa-ruim
que dizem
que sabem
das coisas

espalham
que sempre
há um lado
bom
da coisa toda,
ou pior,
que na vida
não há coisa
melhor…

não dizem
coisa com
coisa!)

eu
só te digo
uma coisa:

essa cousa
é antiga
perigosa
e louca!

Portanto,
é uma coisa
ou outra…

não dá pra
aceitar
as coisas
como estão!

Não!

Temos que
por fim
a essa coisa
toda!

Mas, antes,
é preciso entender
como a Coisa
funciona

(o verdadeiro
sentido das
coisas)

é preciso
distinguir
coisa qualquer
de qualquer
coisa

e ir pondo
cada coisa
em seu
lugar

e outra coisa:

não basta
amar
sobre todas
as coisas…

grande coisa!

Não,
é preciso
bem mais coisa:

é preciso
por fim
ao atual Estado
de coisas

e,
acima
de qualquer
coisa,

que,
nunca mais,
coiso algum
ao coisar
outra coisa
se coise
e fique!

E, assim,
quando coisa
alguma nos
dome

chamaremos,
enfim,
cada coisa
pelo nome.

AYLAN KURDI


AYLAN KURDI

Fossem absurdas,
as mortes, nesta vida…

todas
completamente
sem-sentido…

estaríamos
– como meninos –
diante do mar
do universo
ou de um deus fictício
a questionar:

por que existimos?
e, por que, então,
não mais existimos?

Poderíamos
gemer, chorar, gritar
e, enfim, aceitar
o terrível destino.

Mas,
não.

As mortes
nesta vida
estão encharcadas
– até a alma –
de sentido

não são
absurdas

nem
dizem
“está tudo perdido!”.

Isso,
dizemos nós
– surdos –
diante do mar
de meninos.

na “luta” da Mostra


Abaixo o poema “Desígnios Terceiros” de Estevão Daminelli com o qual abri a 1a sessão de vídeos da 3a Mostra Luta.

Desígnios Terceiros (de Estevão Daminelli)

ACORDO,
as luzes vívidas deflorando-me a retina
carne, carbono, linho.
morrendo.
eu, capital humano
de cujas mãos toda labuta não me nutre
em cujas células repousa uma fagulha
de existência alguma.
estrangeiro de meu ser, LEVANTO.
não cabe chorar, não resta sentido no rastro de lágrimas.
engulo carne e grãos. morrendo.
me lavo e me visto e me faço apresentável
e sigo morrendo.

encontro fantasmas mirrados
alimentando no fundo de seus estômagos
um verme de esperança e medo.
e como sintoma de uma aguda miopia
o sorriso lhes corta a face:
ardil perverso
a pretexto de ostentar as presas.

-vejam estas 32 pérolas de cinismo esmaltado,
marfim amargo entre os lábios entreabertos.

triste ver um riso opaco, sem eco de razão que o legitime.
mas ainda sobre pernas, pele, cabelo e vísceras, SIGO.

caminho entre coisas da civilização,
e sinto-me um macaco, cada dia mais.
chego a meu destino, cemitério de objetos funcionais
e objeto-me em função de anseios outros,
desígnios terceiros, alheios aos meus.
a certeza do final do dia,
o amor que se renova como apêndice de um roteiro
em que seres se debatem cegos.

consumir e sumir
consumir e sumir
consumir e sumir
consumir e sumir

beba, compre, venha, creia,
não perca, não pise, viva o melhor.
imperativos,
bocas a nos engulir completamente.
nada mais é livre de gerar receita:
sentimentos a granel, em tantas vezes sem juros.

em meio a este árido mercado de emoções,
volto para casa, morrendo, ciente de que contribuí
para a manutenção da propriedade.
em silêncio.

Estevão Daminelli (Campinas-SP): “que dizer? tenho 24 anos, estudo filosofia, escrevo poemas e músicas. é isso”. Contato: estevaum22@gmail.com Blog: http://boimorto.tumblr.com/

As raízes

Passei mais alguns dias isolado num convento no Capão Redondo (em Sampa) dando continuidade ao curso de formação de educadores populares do Núcleo 13 de Maio. Foram alguns dias impagáveis com Scapi e Mauro Iasi estudando Gramsci, Aristóteles, a formação do senso comum, o desenvolvimento histórico da família e sua influência na formação da consciência. Mas, pralém da formação conteudística em “sala de aula” é essencial pra mim a formação dos “corredores”, dos intervalos, as piadas no almoço, a análise de conjuntura durante o jantar, o sarauzinho a noite depois de longo dia de reflexões. É nessas e outras que ouço histórias deliciosas do Scapi sobre os momentos áureos da luta operária no brasil, Mauro declamando um poema ou entoando uma canção latina no violão, ou ambos narrando os momentos mais difíceis da luta interna no PT (ambos vivenciaram isso de perto), a personalidade oportunista do companheiro presidente Lula, ou então as anedóticas histórias resultantes dos mais de 25 anos de constituição do núcleo de formação política 13 de Maio. Me sentir irmanado com esse acúmulo de (hi)estória e cultura política revolucionária me faz muito bem, primeiramente porque me desloca de meu umbiguismo mas também porque me traz as raízes culturais que sempre senti não possuir, me dá um chão comum onde pisar, uma história a partir da qual desenhar meu horizonte, um chão comum onde pisaram muitos outros importantes e anônimos lutadores. Cultura que quero manter viva, cultivar. Aqui vão quatro coisinhas que me lembro agora de sopetão (sem consultar meu caderninho onde anotava quase tudo que diziam frenéticamente… um dia ainda quero fazer um documentário sobre a história do 13 de maio). As quatro coisas são: uma história que o Iasi me contou na hora do almoço engraçadíssima sobre o Eduardo Galeano (é claro que escrita assim perde um tantão da graça… o mauro é ótimo piadista); um trecho de um texto do Torquato Neto muito forte, mencionado durante uma das aulas em que discutíamos alienação; um poema do próprio Mauro Iasi também citado durante um debate sobre as contradições e potencialidades da religiosidade na luta política, e, por fim, uma música lindalindalinda do Victor Jara chamada “Te recuerdo Amanda”. Essa música foi cantada por integrantes do grupo Canto Libre (chilenos e brasileiros) que apareceram de surpresa numa noite da formação com seus instrumentos bolivianos e chilenos típicos. Essa canção é especialmente linda porque consegue tecer de forma sutil e muito bem elaborada o amor e a luta polítca… A interpretação de Jara é muito viva (basta ver seus olhos), talvez porque, importante saber, Amanda era o nome de sua mãe, forte mulher que cuidou sozinha de Jara e de seus vários irmãos.

Galeano e a entrada nos Eua

Eduardo Galeano foi para os Eua participar de um debate ou algo do gênero. Para entrar nesse país é preciso responder um questionário que possui perguntas surpreendentes como: “Você deseja matar o presidente dos Estados Unidos?”. É claro que Galeano não perderia essa piada: não só marcou esse ítem como escreveu embaixo: “Não sabia que havia essa opção… se soubesse teria me preparado melhor!”. Essa provocação causou um incidente diplomático razoável e até hoje Galeano é figura non grata nas terras do Tio Sam.

Trecho de texto do Torquato Neto

“(…)Leve um homem e um boi ao matadouro. o que berrar mais na hora do perigo é o homem, mesmo que seja o boi.”

Cristão Molotov (Mauro Iasi)

Certa vez, vi na foto
o guerrilheiro sandinista
pronto para lançar
seu coquetel molov.

Em seu peito balançava um crucifixo
em sua mão a garrafa de pepsi-cola flamejava

Percebi, então,
como as formas mais reacionárias
podem guardar os conteúdos
mais explosivos.

“Te recuerdo Amanda” de Victor Jara

Te recuerdo Amanda
la calle mojada
corriendo a la fabrica donde trabajaba Manuel

La sonrisa ancha, la lluvia en el pelo,
no importaba nada
ibas a encontrarte con el,
con el, con el, con el, con el

Son cinco minutos
la vida es eterna,
en cinco minutos

Suena la sirena,
de vuelta al trabajo
y tu caminando lo iluminas todo
los cinco minutos
te hacen florecer

Te recuerdo Amanda
la calle mojada
corriendo a la fabrica
donde trabajaba Manuel

La sonrisa ancha
la lluvia en el pelo
no importaba nada,
ibas a encontrarte con el,
con el, con el, con el, con el

Que partió a la sierra
que nunca hizo daño,
que partió a la sierra
y en cinco minutos,
quedó destrozado

Suenan las sirenas
de vuelta al trabajo
muchos no volvieron
tampoco Manuel

Te recuerdo Amanda,
la calle mojada
corriendo a la fábrica,
donde trabajaba Manuel.

Jara e Pessoa


Lembrei de uma música linda, linda, linda do Victor Jara que tem muita relação com o poema do post anterior (“Oração para Marilyn Monroe” de Ernesto Cardenal). Fala de uma menina seduzida pela imagem de suscesso e alegria vendida em nossa sociedade… como foi Marilyn… Segue a música abaixo, com sua letra e tra(b)dução… E, como nunca é demais, divulgo novamente o vídeo em que o povo chileno organizado desmascara um dos assassinos de Victor Jara (EDWIN DIMTER BIANCHI), que vive normalmente em uma repartição pública como se nada tivesse acontecido… O vídeo é muito forte, assista! Victor Jara foi brutalmente assassinado durante o golpe que derrubou Allende no Chile…. a história que se passou pelos sobreviventes do Estádio do Chile é de que quando reconheceram que Victor era o artista que tocava fogo e amor nos corações dos trabalhadores chilenos, cortaram suas mãos e o desafiaram a tocar desse jeito. Carregamos no peito a vida e as canções de victor e de tantos outros que foram mortos na ditadura chilena e na ditadura velada em que vivemos… Que lá, no Chile, como no Brasil, os assassinos da ditadura não recebam qualquer anistia!

Por fim, aproveito também que dia 12 agora se comemorou 120 anos do nascimento do Fernando Pessoa, posto abaixo um poema que fiz dedicado a esse figura… é um poema que gosto muito… de uma época em que me sentia o próprio, ou, pior, um de seus heterônimos… Depois do poema, um vídeo de Bethânia recitando lindamente o “Invocação”… Pessoa é um mestre, sem dúvida, mas não mais o meu… e digo isso com um certo sorriso, como de um heterônimo que se rebela… 😉

Quién mató a Carmencita – Victor Jara

Con su mejor vestido bien planchado, iba
temblando de ansiedad sus lágrimas corrían
a los lejos gemidos de perros y de bocinas
el parque estaba oscuro y la ciudad dormía.

Com seu melhor vestido bem passada, ia
tremendo de ansiedade suas lágrimas corriam
à distância os gemidos de cães e buzinas
o parque estava escuro e a cidade dormia…

Apenas quince años y su vida marchita
el hogar la aplastaba y el colegio aburría
en pasillos de radios su corazón latía
deslumbrando sus ojos los ídolos del día.

Apenas quinze anos e sua vida murchinha
o lar a esmagava e o colégio a aborrecia
com pasillos (ritmo típico) dos rádios seu coração batia
deslumbrando seus olhos os ídolos do dia.

Los fríos traficantes de sueños en revistas
que de la juventud engordan y profitan
torcieron sus anhelos y le dieron mentiras
la dicha embotellada, amor y fantasía.

Os frios traficantes de sonhos em revistas
que da juventude engordam e se aproveitam
torceram seus anseios e lhe deram mentiras
a felicidade engarrafada, amor e fantasia.

Apenas quince años y su vida marchita…
Apenas quinze anos e sua vida murchinha…

Huyó, Carmencita murió
en sus sienes la rosa sangró
partió a encontrar su ultima ilusión.

Fugiu, Carmencita morreu
em seu semblante uma rosa sangrou
partiu para encontrar sua última ilusão

La muchacha ignoraba que la envenenarían
que toda aquella fábula no le pertenecía,
conocer ese mundo de marihuana y piscina
con Braniff International viajar a la alegría.

A garota ignorava que a envenenariam
que toda aquela fábula não lhe pertencia,
conhecer esse mundo de marihuana e piscina
com Braniff Internacional (grande empresa de aviação) viajar à alegria.

Su mundo era aquél, aquél del barrio Pila
de calles aplastadas, llenas de griterías
su casa estrecha y baja, ayudar la cocina
mientras agonizaba otros se enriquecían.

Seu mundo era aquele, aquele do bairro Pila
de ruas esmagadas, cheias de gritarias
sua casa estreita e baixa, ajudar na cozinha
enquanto agonizava outros se enriqueciam.

Los diarios comentaron: causa desconocida…
Os jornais comentaram: causa deconhecida…

Revelado assassino de Victor Jara

Em homenagem aos 120 anos de Fernando Pessoa

.

Pessoa

(para os heterônimos de Fernando)

Sou entre tantos
e quase não existo
um cheiro estranho
não mais que isso.

Sei,
devo estar
em algum lugar
escondido

(entre esta úmida
sensação de chuva

e a ventofresca
impressão de secar)

Amanhã,
talvez,
ganhe um resfriado
e um pouco mais
de existência.

(Jefferson Vasques)

Poema Invocação (Passagem das Horas) recitado por Bethânia