Varando o varal

Dando sequência ao “Desafios do olhar ou Foto-grafia”, eu, o Cássio Corrêa e o Paulo Vieira fizemos um poema sobre a foto, abaixo, elaborada pela camará Tina exclusivamente para este exercício. São três poemas com “pegadas” bem distintas. A minha versão ficou um tanto bizarra, apesar de boas sacadas. Antes de ler os poemas, sugiro uma boa olhada na foto. 🙂

foto cristina beskow

“Varal” por Cássio Corrêa

O inventário das bicicletas e camisas
Se faz com o trançado das trepadeiras
Que emoldura o quintal dos sentidos:
Há algo no verde das folhas
Que transforma o verde em verde.

Mas estarão as camisas mutiladas,
Na tipóia do varal, esperando a cura pras suas umidades?
A ausência dos braços é deficiência ou esquecimento?
Diríamos mais: qual o limite entre o pano de chão e o traje a rigor?

Na casa parida pelas pilastras de madeira em posição de parto,
Haverá vestígio, resquício ou lascas de alguém?
Digo bandeira no alto do monte, não aluga-se.
O cabide no gancho de gaiola, significa eu.

Amèlie Poulain em lápis de cor 021 e 070, sento na beira do muro,
espiando a selva de coronel escondido
onde deixo minha poesia secar depois da chuva.

“No varal” por Paulo Vieira

O velho salta de máquinas de respirar
sem ar, um bungee-jump preso ao pulmão
correndo a semana uma maratona de lençol

De uma das vindas do hospital trouxe
para a velha umas bodas de ouro no bolso
da camisa que ela então lavava contente
com um sabão em pó de quem espalha sementes

Porque o velho trajava-se no leito
como se dali fosse direto a uma reunião
e esse compromisso o adiasse morrer

Aquela camisa social branca funcionou

Agora ela está pendurada no varal
erguendo-se como os crucificados erguiam-se
com braços em alavanca como se esticassem
o pescoço por sobre o muro para ver o ar do vizinho

E quase seca da pneumonia a camisa é pega pela chuva
trovões com pigarros na recaída do velho

É urgente que ele vá com qualquer roupa
a camisa social branca quando pronta
deverá seguir por telegrama ou malote ou talvez
no porta malas do diplomata que o aguarda para a reunião

Chouveu sete dias com as primas tentando
abafar trovões e esconder da velha
que a reunião foi cancelada

A chuva passa, a camisa é seca
mas um barro seco da pneumonia nela
poderá ser um remorso de quem lavou
a camisa direito e tratou bem do velho
e que na despedida pensa que não

Um vento de sol bate, é só o vento de sol
não é uma metáfora de alma
mas a velha sabe que tão velho é o vento de sol
que já é hora de desconfiar das primas
e recolher a roupa

“Isto não é um varal” por Jefferson Vasques


são duas camisas
com um monte de arbusto na frente
quem tirou a foto
realmente
não sabia o que tava fazendo
tem essa coisa desfocada
bem na nossa cara
e um resto sujo
de coisas esparsas…

ou então

trata-se
de um recurso refinado
de nos imputar humildades:
a inseta visão do mundo…
mas, não…
uma formiga teria mais que fazer
do que observar coisas a secar…
melhor hipótese seria
a de uma tentativa
de nos dar a visão objetiva
de deus
essa onipresença de olhos absolutos:
como num piscar dum flash divino
– etérnico e instantânico –
sobre as roupas que não secam
ou sobre os fantasmas da casa
sobre memórias ao vento
ou sobre esse monte de abandonos e nadas
que nos vêem a mente
enquanto olhamos a foto.

Mas por que deus, em pessoa,
baixaria nessa selva de pequenas coisas pirralhas
pra bater um instantâneo?

e então você olha de novo
tentando ver
como alguém que maquinou tudo…
“que peça nos pregaria
esse deus ex-machina?
um mistério?
uma tragédia?
uma farsa?”

Olhando o olhar de quem olhou pelo obturador
à olhar como quem olharia a foto
sinto como se o clic
se sujasse
numa intenção exagerada
de ser foto
demasiadamente foto
é um longo teatro do fazer-se flash
filme e making-of tudo junto
contracenando

putz, e se for isso mesmo
aí você se incomoda e começa a pensar
que não é só uma foto
é um jogo, um quebra-cabeça,
um crime, um presépio todo
de hipóteses se levantando
por entre as ramas do quintal…

tem aquele resto de pneu, no canto direito,
que juntado a uma ponta de guidão
com um teco de breque
nos dão a hipótese – mais confiável –
de uma bike encostada à parede.
E não estaria com isso nos dizendo
“não é tão evidente assim”, percebe?
“Não se afobe, investiga com calma,
não cede logo ao que tá na cara!
tira essas folhas da frente,
e segue…”

e seguindo essa lógica
fui me perguntando porque a rede
– único vermelho vivo no verde –
estaria desarmada numa varanda tão agradável…

ah, elementar, meu caro…

Como Blade Runner caçando andróides,
dou um zoom progressivo com o Photo Editor
e caço os vestígios.
E é assim que percebo, estupefato,
que – como naquele filme bizarro
do David Lynch –
“no hay orquestra”, “no hay banda”
é tudo play-back, farsa!

Calma, te explico, veja:
não há varal!
Logo, como haver camisa,
camiseta, o escambau
pendurado pra secar?

As “camisas” estão suspensas em
coisas estranhas
com cara de ganchos pra plantas!
E por que não em varais,
numa casa grande como essa,
com jardins, rede e tais?

Elementar, elementar, meu caro…

As plantas e a rede
meticulosamente
desalojadas
estão cedendo assim
lugar
ao palco em que seria armada
a cena o drama
o fotograma todo:

observem como as mangas
duma camisa foram
forçosamente injetadas pra dentro
– ou vão me dizer que alguém pendura algo assim ao vento? –
e a outra,
toda aberta,
iconicamente,
prestes ao vôo lento
como quem se atira
ao destino

perceba,
não são camisas
nem há varal

há no mínimo
uma tragédia grega
no recinto

são dois seres perdidos
desencontrados
são os sinais claros
de um amor rompido
impossível
inviável

(o corte à altura do coração
não nos deixa outra interpretação:
é um sim de um lado
e do outro um não,
expandir-se e reclusão)

estamos diante
duma cena arquetípica:
as várias personificações da antiga
(e sempre mesma)
história trágica:
édipo e jocasta
romeu e julieta
sansão e dalila
betsabá e david
tristão e isolda
dulcinéia e quixote
werther e carlota
abelardo e heloísa…

duas camisas
condenadas
a secar
separadas
numa
fotografia

um pequeno drama
que se arma
nos quintais
todo dia.