Receita de poeta


RECEITA DE POETA
(Jeff Vasques)

Os muito machistas que nem me perdoem
já que beleza não é fundamental. Ah, pára
com esse papo de “flor em tudo”
que envolve feminilidade,
essa breguice-escrota
de machochô,
Pára, Vinícius,
de cagar regra pra mulher,
que ela se vista como
quer,
sem esse teu elitismo,
de “alta costura”,
sem esse teu
“elegantemente em azul”
(que você pode enfiar
– elegantemente –
onde rimar).

Em algo concordamos:
“não há meio-termo possível”.
Só nisso.
É preciso que tudo
seja vida e não “belo”,
Vinícius.
É preciso que súbito
tenha-se a impressão
de viver as coisas
como realmente são,
sem poesia
mistificadora
que desumaniza,
sem opressão.

Poetinha,
o rosto (“que lembre um templo”),
a boca (“fresca, nunca úmida”),
as extremidades (“magras”),
a cintura (“semovente”),
os seios (“expressão greco-romana”)
as nádegas (“importantíssimas”),
as concavidades e reentrâncias (“com temperatura nunca inferior a 37 graus”)
as axilas (“com doce relva de aroma próprio”)
os pescoços (“longos”)
os pés e mãos (“como elementos góticos discretos”)
a pele (“fresca nas mãos, braços, dorso, na face”)
os olhos (“de preferência grandes”)
as coxas (“com certo volume e lisas como pétalas”)
assim como
a porra da buceta
são delas
e tratam do seu corpo
como bem entendem!

Não,
elas não existem
pra te servir
exalando “o impossível perfume”
destilando “o embriagante mel”
olhando “com certa maldade inocente”
cantando “o inaudível canto de sua combustão”
transformando-se em “fera sem perder a graça de ave”
sendo pra você uma “eterna dançarina do efêmero”,
e ainda (risos!) com uma atitude mental
“de altos píncaros”

[Uma putinha na cama
e uma anjinha
na vida, né,
Vinícius?]

Não!

Entendamos, logo,
nós,
poetas-românticos todos,
nós,
homens-machistas todos,
que a mulher
não é uma
“corola ante o pássaro”

(buceta
esperando
macho)

e que poesia
não é receita.

Que sejam
vadias, santas,
sem rimas
ou métricas,
Coralinas, Cecílias,
Pagus, Clarices,
Hildas, Adélias,
livres! e livres!

7 respostas para “Receita de poeta”

  1. Questionando Vinícius e desafiando a norma social vigente. Hm…Acho que vc não vai entrar para a Academia Brasileira de Letras hahaha
    Gostei muito, viu?
    Bjo, abr@ço e aperto de mão ^ ^

    1. Ahhh, Fran… mas já fui pra material didático! eheheh Tá sabendo dessa? Poema meu vai pra material didático da FTD! ahahah agora já posso morrer… 😉

  2. Porra, simplesmente e plenamente, traduziu um qualquer sentimento que tinha de ser traduzido.
    E digo mais, esses Vinicius por aí, esses ídolos, perante seu poema, são colocados no lugar onde tem que estar, junto com a etiqueta do preço. (risos)

    1. ô, obrigado, Áriston, pelas palavras! 😉 Temos que sempre revisitar o cânone à luz da vida atual e ressignificar tudo! 😉

  3. Bom… acho que você teve uma interpretação extremamente errônea do poema. Interpretação até contraditória inclusive. E, se esse for mesmo seu objetivo, não vai entrar na Academia não por questionar o Vinicius, mas por ter um pequeno deficit nas suas interpretações.

Leave a Reply to Professora Karina Cancel reply