Charles, o Buk

Recauchutando tra(b)duções…
>Pássaro azul no meu coração (Bukowski)
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou muito durão,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém te ver.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu derramei whisky em cima dele
e inalo fumaça de cigarros
e as putas e os empregados do bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou muito durão,
e digo, fica aí escondido,
quer me arruinar?
quer fuder o
meu trabalho?
quer arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou muito esperto,
e só o deixo sair à noite
às vezes
quando todos estão dormindo.
e digo, eu sei que você está aí,
por isso
não fique triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta pouco lá dentro,
não o deixo morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,

e você?

À medida que os poemas vão

a medida que os poemas vão aos milhares você
percebe que criou muito
pouco.

A morte está fumando meus charutos

você sabe: estou bêbado mais uma vez
aqui
escutando Tchaikovsky
no rádio.
Jesus, eu o escutei 47 anos
atrás
quando eu era um escritor faminto
e aqui está ele
de novo
e agora eu sou um pequeno sucesso como
escritor
e a morte está andando
pra cima e pra baixo
nesse quarto
fumando meus charutos
tomando goles do meu
vinho
enquanto Tchaik trabalha
na Pathétique,
foi uma boa caminhada
e se eu tive alguma sorte foi
porque joguei os dados
direito:
me esfaimei por minha arte, me esfaimei pra
ganhar 5 malditos minutos, 5 horas,
5 dias –
eu só queria colocar a palavra
ali;
fama, dinheiro, não importavam:
eu queria a palavra ali
e eles me queriam numa prensa hidráulica,
numa linha de montagem
eles queriam que eu fosse estoquista numa
loja de departamentos.

bem, a morte diz, enquanto anda ali,
eu vou te pegar de qualquer jeito
não importa o que você foi:
escritor, taxista, cafetão, açougueiro,
pára-quedista, eu vou pegar
você…

o.k., baby, eu respondo.

nós bebemos juntos agora
enquanto 1 da manhã desliza até 2
da manhã e
só ela sabe o
momento, mas eu apliquei um golpe
nela: tive meus
5 malditos minutos
e muito
mais.

 

Baldomero Fernández Moreno (Argentina, 1886-1950)

A minha querida amiga e companheira de lutas Tina acabou de chegar de Cuba e trouxe pra mim vários livros de poesia cubana: antologia de Nicolás Guillén (maior poeta cubano), poesias de José Martí para crianças, uma antologia de poesia cubana organizada por José Lezama Lima e vários poetas contemporâneos cubanos!!! Imaginem minha felicidade! =) Material que estou sedento por ler e traduzir aqui pra vcs! Um dos livros é uma deliciosa antologia de ˜poesia amorosa da américa latina˜. Abri essa antologia rapidinho e dei de cara com um curioso soneto de Baldomero Fernandez, poeta argentino que era muito admirado por Jorge Luis Borges. Segue:

SONETO DE TUAS VÍSCERAS

Farto já de louvar tua pele dourada,
tuas externas e muitas perfeições,
canto o jardim azul de teus pulmões
e a tua traquéia elegante e anelada.

Canto a tua massa intestinal rosada,
ao baço, ao pâncreas, aos omentos**
ao duplo filtro cinza de teus rins
e a tua matriz profunda e renovada.

Canto o tutano doce de teus ossos,
à linfa que embebe teus tecidos,
ao acre odor orgânico que exalas.

Quero gastar tuas vísceras a beijos,
viver dentro de ti com meus sentidos…
Eu sou um sapo negro com duas asas.

** omentos: são reflexões peritoniais largas e amplas, que se dispõe entre duas vísceras.

Estevão Daminelli (Brasil)

Dando continuidade às coletâneas de poetas vivos, camaradas e amigos que venho conhecendo ao longo do tempo, segue agora seleção de poesias de Estevão Daminelli, dos artistas mais ativos e criativos que conheci (e olha que nos conhecemos pouco!). Você pode conhecer mais da poesia do Estevão no Boi Morto e de suas canções no Macabeu Samsa.

As baratas fazem casas no abandono

As baratas fazem casas no abandono
na lembrança terna e frágil dos momentos
nos guardados e nos velhos documentos
e nos íntimos vapores do teu sono

Quando é noite e o silêncio nos abraça
como é doce nosso lar em hora morta!
Aos cupins o que sobrou da porta;
mariposas estampadas na vidraça

Vem o tempo e de repente somos nada.
De repente nunca mais dias felizes.
No armário jaz a roupa embolorada;

e não te doem mais as cicatrizes,
pois pra sempre vais olhar a grama
por um ângulo incomum: pelas raízes…

Zoogonia

intranquilo, anêmona de zinco
pulso e esquecimento
ateio fósforo-absinto ao vento

albatroz-pantera estranha
tu entranha-me o fumo
atroz do sonhamento

tua sede anima minha
sede a minha
fome anima
tua fome

animal de passos densos
que pensado
como que
desen
cantado
some

Réquiem sujo

poeta de carne e história
vou te compor uma desomenagem
à maneira de lírios ou crisântemos
que se oferece aos que já foram

este lamento fúnebre
dedico antes
não ao teu corpo
você não está morto
provavelmente ainda caga e fede
– ainda chora?
não é tua dimensão orgânica que pranteio
mas a porção que canta
– ainda canta?
suja, entre as ruínas e o espanto
da precariedade da vida
da servidão que desumaniza
do óleo asqueroso que se acumula entre os séculos

poeta de tempo e fígado
canto a morte não do titulo
os nomes morrem todos os dias
não a morte do ofício
enquanto existirem pedras no caminho,
nascerão josés todos os dias
mas a lenta e desencantada morte no teu peito
de uma idéia que também é minha
barganha perecível como estrelas
bela como estrelas
substância sem mercadoria
pois facilmente subtrai-se:

uma bandeira
um grito
um ribamar

e no granito da inércia
sobram duas rimas

pode ser ferreira
pode ser gullar

Desígnios Terceiros

ACORDO,
as luzes vívidas deflorando-me a retina
carne, carbono, linho.
morrendo.
eu, capital humano
de cujas mãos toda labuta não me nutre
em cujas células repousa uma fagulha
de existencia alguma.
estrangeiro de meu ser, LEVANTO.
não cabe chorar, não resta sentido no rastro de lágrimas.
engulo carne e graõs. morrendo.
me lavo e me visto e me faço apresentável
e sigo morrendo.

encontro fantasmas mirrados
alimentando no fundo de seus estômagos
um verme de esperança e medo.
e como sintoma de uma aguda miopia
o sorriso lhes corta a face:
ardil perverso
a pretesto de ostentar as presas.

-vejam estas 32 pérolas de cinismo esmaltado,
marfim amargo entre os lábios entreabertos.

triste ver um riso opaco, sem eco de razão que o legitime.
mas ainda sobre pernas, pele, cabelo e víceras, SIGO.

caminho entre coisas da civilização,
e sinto-me um macaco, cada dia mais.
chego a meu destino, cemitério de objetos funcionais
e objeto-me em função de anseios outros,
desígnios terceiros, alheios aos meus.
a certeza do final do dia,
o amor que se renova como apêndice de um roteiro
em que seres se debatem cegos.

consumir e sumir
consumir e sumir
consumir e sumir
consumir e sumir

beba, compre, venha, creia,
não perca, não pise, viva o melhor.
imperativos
como bocas a nos engulir completamente.
nada mais é livre de gerar receita:
sentimentos a granel, em tantas vezes sem juros.

em meio a este árido mercado de emoções,
volto para casa, morrendo, ciente de que contribuí
para a manutenção da propriedade.
em silêncio.

 

Zé Castanha e Maria do Espírito Santo

Abaixo um poema do querido Gera, de quem preciso selecionar uns poemas urgentemente pra divulgar aqui no Passarin! O poema trata do assassinato recente do casal de ambientalistas no Pará. Esse casal vinha denunciando a ação ilegal das madeireiras na região.

Zé Castanha e Maria do Espírito Santo

Foi assim
eles estavam no caminho de casa
na moto velha de guerra
talvez conversando sobre banalidades
dessas que a gente fala todo dia
o que fazer pra comer
o preço do leite
o filho doente
o futuro.

Então quase ninguém ouviu
vindos do escuro, escondidos,
os ruídos repetidos sem cessar
desde o descobrimento
da Nossa América.

A vida deve sempre
dar lugar ao progresso.
Não é o bagre bigodudo
presente só no afluente do afluente do grande rio,
não é só a castanheira, o açaizeiro,
é o homem, a mulher,
o casal que hoje não volta pra casa.

Vai ver prendem uns pistoleiros
depois de dois anos regime semi-aberto,
de mil dos poderosos prendem um,
aguarda os mil recursos em liberdade.

Antes fosse a lei da selva!

Agora quem vai tirar
da cabeça das pessoas
esse progresso-trator infinito,
vai arrastando tudo
mata-mata-mata
preto, branco, índio, mestiço
mata floresta
mata cerrado
mata água
mata terra
mata ar?

Zé Castanha não colhe mais,
o boi do desenvolvimento
quer pastar no seu quintal.
A Maria foi mesmo pro Espírito Santo,
deixou o caminho aberto
pra moto-serra zunir
e fazer do Brasil potência.

O futuro deles não veio,
o nosso está aí por fazer.

Poema de Geraldo Witeze (http://www.sobreaspalavras.blogspot.com/)

 

Do amor…

Um trecho de Rayuela, de Cortázar, tradução de Fernando de Castro, indicação da apaixonada Tatiana Vargas! 😉

Mas o amor, essa palavra… Moralista, Horácio, temeroso de paixões sem uma razão de águas fundas, desconcertado e arisco na cidade onde o amor se chama com todos os nomes de todas as ruas, de todas as casas, de todos os andares, de todos os quartos, de todas as camas, de todos os sonhos, de todos os esquecimentos ou recordações. Amor meu, não te amo por ti nem por mim nem pelos dois juntos, não te amo porque o sangue me faça te amar, amo-te porque tu não és minha, porque tu estás do outro lado, desse lado para onde me convidas a saltar e não posso dar o salto, porque no mais profundo de tudo tu não estás em mim, e não te alcanço, não consigo passar para lá do seu corpo, do teu riso, há horas em que me atormento por saber que tu me amas (como gostas de usar o verbo amar, com que pretensão vais deixando cair o verbo amar sobre os pratos, os lençóis e os ônibus), atormento-me com o teu amor que não me serve de ponte, pois uma ponte não se apóia de um lado só, Wright ou Le Corbusier jamais farão uma ponte apoiada de um só lado e na me olhes assim com esses olhos de pássaro, para ti a operação do amor é muito fácil, tu ficarás curada antes de mim, e a verdade é que não amo aquilo que amas em mim. É claro que tu depressa te curarás, porque vives na saúde, depois de mim será outro qualquer, isso muda como os espartilhos. É tão triste ouvir o cínico Horácio que deseja um amor passaporte, amor alpinista, amor chave, amor revólver, amor que lhe dê os mil olhos de Argos, a ubiqüidade, o silêncio no qual a música é possível, a raiz na qual se poderia começar a tecer uma língua. E é ridículo porque tudo isto dorme um pouco em ti, seria suficiente submergir-te num copo de água, como uma flor japonesa, e estou certo de que, pouco a pouco, começariam a brotar pétalas coloridas, as formas curvas aumentariam, a beleza cresceria. Doadora de infinito, eu não sei tomar, perdoa-me. Tu parece oferecer-me uma maçã e eu deixei os dentes sobre a mesa de cabeceira. Stop, tudo já está bem, assim. Também sei ser grosseiro, note bem. Mas note bem porque não é gratuito.
Por que stop? Por medo de começar as fabricações, são tão fáceis. Tira-se uma ideia de algum lugar, um sentimento de outra estante, amarra-se tudo com a ajuda de palavras, cadelas negras: e resulta que te amo. Total parcial: te amo. Total geral: te amo. Muitos amigos meus vivem assim, sem falar de um tio e dois primos, convencidos do amor-que-sentem-por-suas-esposas. Da palavra ao ato, meu amigo; em geral, sem verba não há comida. Aquilo que muita gente chama amar consiste em escolher uma mulher e casar com ela. Escolhem, juro, já os vi. Como se se pudesse escolher no amor, como se amar não fosse um raio que quebra os ossos e nos deixa paralisados no meio do pátio. Tu dirás que eles escolhem porque-a-amam; creio que é o contrário. Não se pode escolher Beatriz, não se pode escolher Julieta. Não podemos escolher a chuva que nos vai encharcar até os ossos quando saímos de um concerto. (….)

Palpites da Copa

PALPITES da COPA
(Luiza Romão)

Era pra ser de várzea, te fizeram Itaquerão.
Era pra ser pelota, pelada
Pedala, Pelé,
projeto de pátria, bola no pé
mas virou World Cup
pro elenco de estrelas,
investimento estratosférico,
não sei mais o nome dos teus astros,
por isso escalo o que vejo no estádio:
Fiat na zaga;
Adidas pelo meio;
BR cruza pra Unimed
lá vem Semp Toshiba
olha o Habbibs chegando
LG com Liquigaz,
e é GOOOOOOL!!!
(Linhas áreas inteligentes)
nesse passe-repasse, a bolada some
num passe de mágica.
em campo são onze,
mas a ordem vem do Banco.
Apararam a grana do gramado
pra debaixo do tapete.
o chapéu virou cartola;
não sei o que fizeram do coelho nessa história.
não há impedimento
pros seus cruzamentos
financeiros.
a barreira aperta
mas a bola sobe:
encobre o goleiro, o fiscal, o agiota.
seu estádio vale mais do que qualquer escola
professor bem pago é o técnico dessa palhoça
enquanto isso, os moleques
só usam caneta
na hora de fazer gol de letra.
Aos 48 do segundo tempo
Um, dois, cinco milhões
de acréscimo por alguma entrada ilícita
ou falta
de planejamento
o meio de campo tá armado com canhão,
tiro de meta pra silenciar quem,
do lado de fora, protesta
Carrinho agora é blindado
bicicleta, envenenada
arquibancada só pra quem tem cartão amarelo
visa, mastercard ou cielo
de TUP(i)
só a organizada,
sua língua oficial
é Real Madrid
Sócrates virou auto-ajuda
Casagrande nunca foi da senzala
seus ídolos não tem mais Raí.
na minha terra tinha Palmeiras
onde cantava galo, gavião, periquito
terra de todos os Santos
de São Paulo a Santo Expedito.
era pra ser Fla-flu
Botando fogo nos Sport
Grêmios de toda sorte.
mas seu Cruzeiro aponta pro Hemisfério Norte,
você só quer saber ser auto-alstral
sua Vitória é Internacional
Se esse é o país do Futebol,
eu penduro minhas chuteiras
enquanto o grito na garganta
for motivo de pranto,
espero voltar do vestiário
o futebol primário,
sem empreendedores
que faz de nós,
Libertadores!

poema declamado:

Orozco (Argentina)

Faz algum tempo que não tra(b)duzo Olga Orozco. Adoro seu jeito de escrever, apesar de não compartilhar de sua visão metafísica do mundo. Contradições que por enquanto não me espremem contra a parede. Sei que ela me agasalha, em diversos momentos, como uma luva. Abaixo um poema seu em homenagem a três grandes “gênios” artísticos, reféns de outro mundo, mas que pisavam as contradições deste mundo e, em alguma medida, transmitiram isso em sua arte (de Van Gogh, pelo menos, tenho essa certeza). Na arte, há sempre essa tensão entre ser refém “espiritual” de algo que não existe, algo além, “de outros mundos” e ter suas pernas fincadas num mundo concreto, real, contraditório.

REFÉNS DE OUTRO MUNDO

para Vicent Van Gogh,
para Antoni Artaud,
para Jacobo Fijman

Era um pacto firmado com o sangue de cada pesadelo,
uma simulação de dormentes que roem o perigo em um osso de insônia.
Proibido ir adiante.
Somente o santo tinha a senha para o túnel e o vôo.
Os outros mordaça, as vendas e o castigo.
Então devia-se acatar aos guardiões desde o fundo do fosso.
Devia-se aceitar as plantações que se perdem de vista a beira dos pés.
Devia-se apalpar às cegas as muralhas que separam o hóspede do perseguidor.
Era a lei do jogo no salão fechado:
as apostas medíocres até se perder a chave
e umas portas que se abrem quando rodam os últimos dados da morte.

E eles se adiantaram de um salto até o final,
com suas altas coroas.
Queimaram as cortinas,
arrancaram pela raiz as árvores do bosque,
romperam até o fundo as membranas para poder passar.
Foi uma labareda sagrada no inferno,
uma lufada de céu sepultado na areia,
a cabeça de um deus que cai dando tombos entre um raio e o trono.
E depois não existiu mais.
Nada mais que as chamas, o pó e o estrondo,
iguais para sempre, cada vez.
Mas essa mesma mão mordida pela armadilha roçou a eternidade,
essa mesma pupila esmagada pela luz foi um fragmento do sol,
essas sílabas destroçadas na boca foram por um instante a palavra.
Eles eram reféns de outro mundo, como o carro de Elias.
Mas estavam aqui,
caindo,
desprendidos.

 

Duas moscas

Duas moscas (Charles Bukowski)

As moscas são furiosos tecos de vida;
por que são tão furiosas?
parecem querer algo mais,
parece até que elas
estão furiosas
por serem moscas;
não é minha culpa;
eu sento no quarto
com elas
e elas me provocam
com sua agonia;
é como se elas fossem
nacos de alma perdidos
esquecidos em alguma parte;
eu tento ler um jornal
mas elas não vão me
deixar;
uma parece subir em semicírculos
por toda a parede,
despejando um som miserável
sobre minha cabeça;
a outra, a menor,
fica perto zoando com a minha mão,
sem dizer nada,
subindo, caindo,
chegando pertinho;
que deus põe essas
coisas perdidas sobre mim?
outros homens sofrem imposições do império,
amor trágico…
eu sofro
insetos…
eu espanto a menorzinha
que parece apenas renovar
seu impulso de me desafiar:
ela circula mais rápido,
mais perto, e chega a fazer
um som de mosca,
e a outra, abaixo,
sacando o tumulto no ar,
também, excitada,
acelera seu vôo,
mergulha de repente
num golpe ruidoso
e elas se juntam
circulando minha mão,
arranhando a base
do abajur
até que alguma coisa-homem
em mim
não aguenta mais
o sacrilégio
e eu bato
com o jornal enrolado –
errei! –
batendo,
batendo,
elas explodem em discórdia,
alguma mensagem se perdeu entre elas,
e eu pego a grandona
primeiro, e ela cai de costas
estrebuchando suas patinhas
como uma puta raivosa,
e eu mando ver de novo
com meu taco de papel
que vira uma lambuzeira
da feiúra da mosca;
a pequena circula mais alto
agora, quieta e rápida,
quase invisível;
já não se aproxima
da minha mão novamente;
ela está mansa e
inacessível; Eu deixo
ela ser, ela me deixar
ser;
o jornal, claro,
está arruinado;
alguma coisa aconteceu,
alguma coisa cagou meu
dia,
algumas vezes não é necessário
um homem
ou uma mulher,
apenas alguma coisa viva;
Me sento e olho
a menorzinha;
nós estamos juntos
trançados
– dando voltas e voltas –
no ar
e na vida;
é tarde
pra nós dois.

Entrevistas com Bukowski – 1

 

Júlio Florencio Cortázar

Depois do fracasso de seu primeiro livro de poesias, os amigos o aconselharam a voltar praqueles continhos que escrevia desde sempre… seu afastamento da poesia foi o que lhe garantiu a fantástica carreira de contista e romancista: Julio Cortázar. Era um figura exótico: rolam boatos que tomou hormônios para desenvolver a barba (morria de vontade de ser barbudo), tinha certeza de que não viveria para além dos 30 (viveu até os 70), e era extremamente tímido (há várias histórias sobre relacionamentos enormes em que ele nem beijava a garota). Achei um poema que escreveu para sua primeira namorada, ainda no processo de conquistá-la: “Não pergunte quem coloca neste canto / uma alma destinada ao sofrimento / e um pobre coração que te ama tanto; / se tu o adivinhas, nada te espante; / mas se não me encontras em teu sentimento / de nada serve que te dê meu nome”. Curiosidades que ajudam a criar a imagem do mito, mas há o chão concreto, ali, em que pisou.

Socialista, a medida que foi se engajando concretamente, passou a apoiar diversas lutas durante o período das guerrilhas na américa latina. Nesse mesmo passo, sua literatura foi radicalizando-se em experimentos vanguardistas, mas também absorvendo reflexões das lutas que acompanhava, atento à necessidade de que os valores de um futuro socialista fossem cultivados desde já, na luta contra os inimigos: “a luta pelo socialismo na América Latina deve enfrentar o horror cotidiano guardando, de maneira preciosa e zelosa, aquela capacidade de viver que desejamos para esse futuro, com tudo aquilo que isso supõe de amor, de jogo e de alegria”. Tornou-se amigo de vários escritores guerrilheiros como Ernesto Cardenal e Roque Dalton. Dizia, sempre provocativo: “Temos mais necessidade de Che Guevaras da linguagem e de revolucionários da literatura do que de letrados da revolução”. Em seu universo, a política convivia com a literatura sem que uma fosse considerada mais ou menos verdadeira que a outra: “Quando faço política, faço política. E quando faço literatura, faço literatura. Mesmo quando faço literatura de conteúdo político – como O livro de Manuel, por exemplo, faço literatura. O que eu simplesmente faço é colocar o veículo literário, não direi a serviço, mas em uma direção que possa ser politicamente útil”. Importante apontar, também, que foi criticado por vários grupos de esquerda por possuir uma posição cômoda de apoio à luta socialista, por ter se auto-exilado em Paris durante a ditadura na Argentina.

Amor, revolução e literatura compuseram o triângulo da aventura cortaziana. Aqui, tra(b)duzo alguns poemas sobre o primeiro elemento, o amor, seus relacionamentos, desventuras e tudo mais. Ao final, de brinde ;), segue um vídeo onde Julio explica como surgiram as figuras dos cronópios e famas, personagens fantásticos de seu livro “Histórias de Cronópios e Famas”.

UMA CARTA DE AMOR

Tudo que de você eu quis
é tão pouco no fundo
porque no fundo é tudo,

como um cachorro que passa, uma colina,
essas coisas de nada, cotidianas,
espiga, cabeleira e dois torrões
o odor de teu corpo,
o que diz de qualquer coisa,
comigo ou contra mim,

tudo isso é tão pouco,
e quero tudo isso de vós porque te quero.

Que olhes para além de mim,
que me ames com violenta prescindência
da manhã, que o grito
de sua entrega se lance
na cara de um chefe de repartição,

e que o prazer que juntos inventamos
seja outro signo da liberdade.

OS AMANTES

Quem os vê andar pela cidade
se todos estão cegos?
Eles se tomam pelas mãos: algo fala
entre seus dedos, línguas doces
lambem a úmida palma, gozam pelas falanges,
e acima está a noite cheia de olhos.

São os amantes, sua ilha flutua à deriva
até mortes de relva, até portos
que se abrem entre lençóis.
Tudo se desordena através deles,
tudo encontra sua cifra escamoteada;
Mas eles nem sequer sabem
que enquanto rodam em sua amarga arena
há uma pausa na obra do nada,
o tigre é um jardim que joga.

Amanhece nos carros de lixo,
começam a sair os cegos,
o ministério abre suas portas.
Os amantes rendidos se olham e se tocam
uma vez mais antes de cheirar o dia.

Já estão vestidos, já se vão pela rua.
E é só então
quando estão mortos, quando estão vestidos,
que a cidade os recupera hipócrita
e lhes impõe os deveres cotidianos.

TALVEZ A MAIS QUERIDA

Me disse a intempérie,
a leve sombra de tua mão
passando pela minha cara.
Me disse o frio, a distância,
o amargo café da meia-noite
entre mesas vazias.

A LENTA MÁQUINA DO DESAMOR

A lenta máquina do desamor,
as engrenagens do refluxo,
os corpos que abandonam os travesseiros,
os lençóis, os beijos,
e de pé ante o espelho interrogando-se
cada um a si mesmo,
já não se olhando entre eles,
já não desnudos para o outro,
já não te amo,
meu amor.

O BREVE AMOR

Com que tersa doçura
me levanta do leito em que sonhava
profundas plantações perfumadas,

me passeia os dedos pela pele e me desenha
no espaço, de forma instável, até que o beijo
se pousa curvo e recorrente,

para que o fogo lento comece
a dança cadenciada da fogueira
tecendo-se em rajadas, em hélices,
ir e vir de um furacão de fumaça…

Por quê, depois,
o que sobra de mim
é só um inundar-se entre as cinzas
sem um adeus, sem nada mais que o gesto
de liberar as mãos?

O QUE ME AGRADA DE TEU CORPO…

O que me agrada de teu corpo é o sexo.
O que me agrada de teu sexo é a boca.
O que me agrada de tua boca é a língua.
O que me agrada de tua língua é a palavra.

ORIGEM DOS CRONÓPIOS E FAMAS

Praquês

Mergulhado esta semana nos livros, tentando escrever alguma coisa da dissertação de mestrado… mergulhado em gramsci… nesses mergulhos não é difícil ir esquecendo das motivações reais de tudo isso (a universidade, o intelecto, a vaidade vão te seduzindo com outras tantas motivações). Aqui tra(b)duzo um poema do Roque Dalton que me ajuda a não esquecer dos verdadeiros porquês. E depois um trechinho que achei bonito do Gramsci…

A pequena burguesia

(sobre uma de suas manifestações)

Os que
no melhor dos casos
querem fazer a revolucão
para a História para a lógica
para a ciência e natureza
para os livros do próximo ano ou do futuro
para ganhar a discussão e inclusive
para sair, enfim, nos jornais
e não simplesmente
para eliminar a fome
dos que têm fome
para eliminar a exploração dos explorados.
É natural então
que na prática revolucionária
cedam somente ante ao juízo da História
da moral do humanismo da lógica e das ciências
dos livros e dos periódicos
e se neguem a conceder a última palavra
aos esfomeados, aos explorados
que têm sua própia história de horror
sua própria lógica implacável
e terão seus própios livros
sua própria ciência
natureza
e futuro.

Trecho Gramsci sobre mudança individual x social

“(…)O homem deve ser concebido como um bloco histórico de elementos puramente subjetivos e individuais e de elementos de massa e objetivos ou materiais, com os quais o indivíduo está em relação ativa. Transformar o mundo exterior, as relações gerais, significa fortalecer a si mesmo, desenvolver a si mesmo. É uma ilusão e um erro supor que o “melhoramento” ético seja puramente individual: a síntese dos elementos constitutivos da individualidade é “individual”, mas ela não se realiza e desenvolve sem uma atividade para fora, transformadora das relações externas, desde aquelas com a natureza e com os outros homens em vários níveis, nos diversos círculos em que se vive, até a relação máxima, que abarca todo o gênero humano. Por isso, é possível dizer que o homem é essencialmente “político”, já que a atividade para transformar e dirigir conscientemente os outros homens realiza sua “humanidade”, a sua “natureza humana”.”
[pag. 406-407 (cadernos do cárcere, caderno 10)]

Bukowski e seu anti-lirismo

“Eu podia ver a estrada à minha frente. Eu era pobre e eu ia ficar pobre. Mas eu particularmente não quero o dinheiro. Eu não sabia o que eu queria. Sim, eu sabia. Eu queria um lugar para me esconder, um lugar onde não precisasse fazer nada. O pensamento de ser algo não apenas me amedrontava, me enojava… de fazer parte das coisas, de fazer parte de piqueniques em família, do Natal, do 04 de julho, Dia do Trabalho, Dia das Mães… ser um homem que nasceu para agüentar essas coisas e depois morrer? Eu prefiro ser uma máquina de lavar louça, voltar sozinho para uma sala pequena e beber até dormir. ” Bukowski em “Ham on Rye”, 1982

Jogo de apertar*

uma das coisas terríveis é
realmente
estar na cama
noite após noite
com uma mulher com quem você não
quer mais trepar*.
Elas ficam velhas, elas não parecem mais muito bem
– elas mesmo tendem a
roncar, perder
a graça.
Então, na cama, você se vira algumas vezes,
seus pés tocam os dela –
deus, que horrível! –
e a noite está lá fora
além das cortinas
selando vocês juntos
na tumba.
E de manhã você vai ao
banheiro, passa a sala, conversa,
diz coisas estranhas; ovos fritos, motores
ligando.
Mas sentado contigo, lado a lado,
você têm 2 estranhos
entupindo de tostadas a boca
queimando a cabeça soturna e as vísceras com
café.
Em 10 milhões de lugares na América
é a mesma coisa –
vidas azedas escoradas uma contra
outra
e sem lugar algum pra
ir.
Você entra no carro
e dirige pro trabalho
e há mais estranhos ali, a maioria deles
esposas e maridos de alguém,
e pralém da guilhotina do trabalho eles
flertam e brincam e beliscam, alguns tendem a
descarregar tudo numa trepada* rápida em algum lugar –
eles não podem fazer em casa –
e então
eles dirigem de volta pra casa
esperando pelo Natal ou pelo Dia do Trabalho ou
pelo domingo ou
alguma coisa.

* Buk brinca com o termo screw que pode ser, vulgarmente, transar ou, mais comumente, apertar, enroscar… O título do poema é “Screw-game”… não achei um equivalente interessante para manter o jogo…

 

É o modo como você joga o jogo

chame-a de amor
coloque-a de pé sob a luz
imperfeita
ponha-lhe um vestido
reze cante implore chore ria
apague as luzes
ligue o rádio
acrescente-lhe enfeites:
manteiga, ovos crus, jornais
de
ontem;
um cadarço novo, e então
páprica, açúcar, sal,
pimenta,
ligue para sua tia velha e
bêbada em
Calexico;
chame-a de amor,
espeta-a bem, adicione
repolho e molho de maçã,
então a esquente primeiro
no lado esquerdo,
depois no
direito,
ponha-a numa caixa
livre-se dela
deixe-a nos degraus de uma
porta
vomitando como você fará
nas
hortênsias.

Mulher dormindo

Eu sento na cama à noite e te ouço
roncando.
Eu te conheci numa estação de ônibus
e agora eu admiro suas costas
terrivelmente brancas e manchadas com
sardas de criança
à medida que a lâmpada despe o insolúvel
pesar do mundo
sobre teu sono.
Eu não posso ver teu pé
mas eu devo imaginar que eles são
os pés mais charmosos.
A quem você pertence?
Você é real?
Eu penso em flores, animais, pássaros
todos eles parecem mais do que bons
e tão claramente
reais.
E você não ajuda muito sendo
uma mulher. Nós somos cada um selecionados para ser
alguma coisa. A aranha, a galinha.
O elefante. É como se nós fossemos
uma pintura pindurada em alguma
parede de galeria
– e agora a pintura se vira
sobre suas costas, e sobre a curva do cotovelo
eu posso ver
uma boca, um olho um
quase nariz.
O resto de você está escondido
fora de vista
mas eu sei que você é
contemporânea, uma moderna obra
viva
talvez não imortal
mas nós temos
nos amado.
Por favor continue
roncando.

Olga Orozco – mais traduções

Resgatando e melhorando duas antigas tra(b)duções de poemas de Orozco que, por sua vez, me tra(b)duzem 😉

O jardim das delícias (Olga Orozco)

Acaso é nada mais que uma zona de abismos e vulcões em
plena ebulição, predestinada às cegas para as cerimônias da
espécie nesta inexplicável travessia para baixo? Ou talvez um
atalho, uma emboscada obscura onde o demônio aspira a inocência
e sela à sangue e fogo sua condenação na estirpe da alma? Ou
quiça tão somente uma região marcada como uma cruz de encontro
e desencontro entre dois corpos submissos como sóis?
Não. Nem viveiro da Perpetuação, nem frágua do pecado original,
nem armadilha do instinto, por mais que apenas um vento exasperado
propague por sua vez a fumaça, a combustão e a cinza. Nem sequer
um lugar, ainda que se precipite o firmamento e haja um céu que
foje, inumerável, como todo instantâneo paraíso.

Sozinha, só um número insensato, uma prega nas membranas
da ausência, um relâmpago sepultado em um jardim.

Mas basta o desejo, o sobressalto do amor, a sirena da
viagem, e então é mais um nó tenso em torno do feixe de
todos os sentidos e suas múltiplas ramas ramificadas até a
árvore da primeira tentação, até o jardim das delícias e
suas secretas ciências de extravio que se expandem de repente
da cabeça até os pés igual que um sorriso, o mesmo
que uma rede de ansiosos filamentos arrancados dum raio, a
corrente eriçada arrastando-se em busca do extermínio ou da saída,
escorrendo-se para dentro, rastejada por esses sortilégios que são
como tentáculos de mar e que arrebatem com vertigem indizível
até o fundo do tato, até o centro sem fim que se desfunda
caindo desde do alto, enquanto passa e trespassa essa orgânica
noite interrogante de cristas e focinhos e buzinas, com
ofegar de besta fugitiva, com seu flanco atiçado pelo chicote
do horizonte inalcançável, com seus olhos abertos aos mistério
da dupla treva, derrubando com cada sacudida a nebulosa
maquinaria do planeta, pondo em suspensão corolas como
lábios, esferas como frutos palpitantes, borbulhas onde pulsa
a espuma de outro mundo, constelações extraídas vivas de seu
prado natal, um êxodo de galáxias semelhantes a plumas girando
loucamente em um grande aluvião, nesse torvelinho estrondoso que
já se precipita pelo funil da morte com todo o universo
em expansão, com todo o universo em contração para o parto
do céu, e faz estalar de repente a redoma e dispersa no
sangue a criação.

O sexo, sim,
melhor, uma medida:
a metade do desejo, que é apenas a metade do amor.

Para se fazer um talismã (Olga Orozco)

Só é necessário teu coração
feito à viva imagem de teu demônio ou de teu deus.
Apenas seu coração, como um incensário em brasa para a idolatria.
Nada mais que um indefeso coração enamorado.

Abandone-o às intempéries,
deixa-o
lá onde a erva uiva suas queixas de ama louca
e não o permite dormir,
lá onde o vento e a chuva derrubam seu castigo
em um golpe de azul-calafrio
mas sem convertê-lo em mármore
e nem partí-lo em dois
lá onde a escuridão abre suas tocas à todas as selvagerias
e não o deixa, ah,
e não o permite
esquecer…

Ajeita-o, depois, do alto de seu amor
ao fervedouro fundo das brumas.
Então, deixa-o secando no surdo regaço da pedra,
e escava nele, com uma agulha fria e funda,
até arrancar o último grão de esperança.

Permita que o sufoquem as febres e a urtiga,
que o sacuda o trote ritual das matilhas,
que o envolva a injúria feita com os farrapos de suas antigas glórias.
E quando um-dia for um-ano o aprisione com as garras dum século,
antes que seja tarde, antes que seja nunca,
antes que se converta em múmia deslumbrante,
e abre de par em par, pétala-por-pétala,
todas sua feridas:
e as exiba ao sol piedoso do meio-dia como um mendigo o faria,
e lamenta, em delírio, no deserto,
até que somente o eco
de um nome cresça
ali dentro
como a fome
cresce em fúria:
o golpear incessante da colher contra um prato vazio.

Se ainda pulsa,
chegou até aqui como a viva imagem de teu demõnio ou teu deus:
eis aí teu talismã
mais inflexível que a lei,
mais forte que as armas e o mal de teu inimigo.
Guarde-o na vigília de teu peito como um sentinela,
mas… alerta!
Pois pode crescer aí dentro como a mordedura da lepra,
pode se tornar seu carrasco:
o inocente monstro, o insaciável comensal de tua morte!

e dá-lhe Cortázar!

Trecho de “Rayuela” de Cortázar

“Toco a sua boca com um dedo, toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se, pela primeira vez, a sua boca entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade, eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto, e que, por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que minha mão desenha em você. Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõe-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem, com um perfume antigo e um grande silêncio. Então as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se estivéssemos com a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.”

Poema (Cortázar)

Te amo pela sombrancelha. pelo cabelo, te debato em
corredores branquíssimos donde jorram
as fontes de luz,
te discuto a cada nome, te arranco com
delicadeza de cicatriz.
vou te pondo no cabelo cinzas de relâmpago
e fitas que dormiam na chuva.
Não quero que tenha uma forma, que seja
precisamente o que vier detrás de tua mão.
porque a água, observa a água e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitetura de nada,
incendiando as lâmpadas à metade do
encontro.
Toda manhã é a lousa onde te invento
te desenho.
Pronto para te apagar, assim não és, nem tampouco com
esse cabelo escorrido, esse sorriso.
Busco teu sumo, a borda da taça onde o
vinho é também a lua e o espelho,
Busco essa linha que faz tremer a um homem
em uma galeria de museu.
Ademais te quero, e faz tempo e frio.

Julio falando sobre caminhar pelas cidades

José Angel Buesa (Cuba)

Bom, tava procurando poetas novos e topei com o Buesa… vi que era cubano e pensei “hummm… pode ser coisa boa”… já associando sua poesia com o processo revolucionário e tudo mais. Nada disso. Angel foi daqueles que fugiu de Cuba depois da revolução. (Engraçado que nos textos que encontrei apenas se diz “teve que deixar Cuba”, mas não explicam por quê…). Sua obra foi meio que “banida” de Cuba, tida como mau exemplo (tanto pela qualidade – que realmente não é estupenda – como pelos riscos de “contaminação ideológica”). Mas, recentemente, em 1997, a editorial Letras Cubanas reeditou uma antologia de Buesa que é enormemente procurada pelos cubanos, para desespero da “vanguarda literária revolucionária”.

Apesar disso tudo, fui ler, porque poesia é poesia. Buesa foi muito famoso em sua época em Cuba: seu livro “Oásis” é um dos mais lidos na américa latina só perdendo pro “20 poemas de amor e uma canção desesperada” do Neruda. Era conhecido como “poeta enamorado”, “poeta dos enamorados”, porque só escrevia sobre amor, paixão e seus apêndices… sentimentalóide, simples, e, por isso mesmo, muito popular e um tanto desprezado pela crítica. A sua poesia é bobinha, de fato, um tanto inocente, mas tem um poder encantatório, pela própria simplicidade como aborda os temas e também pela gostosa montagem sonora, que me fizeram gostar de vários de seus poemas. Claro, não é algo assim “nossa, você tem que ler isso”… mas ele consegue carregar um pouco da singeleza do Bandeira numa abordagem tão popular e direta dos assuntos do coração que em vários momentos imaginei seus poemas como canções, como sambinhas, com versos do tipo “segundo dizem você já tem outro amante”. Feito e dito: muitos poemas seus foram musicados!

Bom, apesar dos pesares, seguem algumas tra(b)duções que fiz de Buesa… não compartilho com a forma singela e simples com que observar o amor, mas me cativa esse seu jeito ingênuo… tem lá sua beleza (meio folclórica, de uma abordagem tão sentimental e simples que semelha um bibelôzinho de geladeira, com corações e setas… algo entre lupcínio rodrigues e wando).

Ah, me lembrei, em boa hora, que o Roque Dalton (o poeta guerrilheiro) tem um poema em que cita o Buesa (criticando-o indiretamente)… já tra(b)duzi esse poema aqui (aliás, percebi hoje, alegre, que já traduzi quase todo o Dalton!). Coloco primeiro esse poema do Dalton como pré-antídoto para os poemas do Buesa… ahahah. (quem quiser pode pulá-lo e deixar para ler no final 🙂

Poema de Roque Dalton em que cita Buesa:

A cultura e o louco amor (Roque Dalton)

Eu te disse com toda seriedade
“que grande caminho andei
para chegar até aqui”
e você me disse que isso parecia José Angel Buesa
e então me ri todo
e te disse que os versos eram de Nicolas Guillén**
e você (que acabara de sair de tua aula de francês)
me contestou que então era Nicolas Guillén
quem se parecia a José Angel Buesa
eu te disse que se desculpasse imediatamente com
Nicolas Guillén e comigo
e então me disse
que o verdadeiro culpado era eu
por chegar ao José Angel Buesa essencial
através de Nicolas Guillén
então eu te disse que a verdadeira culpada era você
por ser tão puta
e aí foi que você pediu perdão
que estava equivocada
não é que você se parece ao José Angel Buesa
você é um José Angel Buesa.

Então eu saquei a pistola…

** Nicolas Guillén foi um poeta cubano revolucionário. Você pode encontrar tra(b)duções minhas dele aqui mesmo.

POEMA DA RENÚNCIA (José A. Buesa)

Passarás por minha vida sem saber que passaste.
Passarás em silêncio por meu amor, e ao passar,
fingirei um sorriso, como um doce contraste
da dor de querer-te… e jamais o saberá.

Sonharei com o nácar virginal de tua fronte;
sonharei com teus olhos de esmeraldas de mar;
sonharei com teus lábios desesperadamente;
sonharei com teus beijos… e jamais o saberá.

Quiçá passes com outro que te diga ao ouvido
essas frases que ninguém como eu te dirá;
e, afogando para sempre meu amor inadvertido,
te amarei mais que nunca… e jamais o saberá.

Eu te amarei em silêncio, como algo inacessível,
como um sonho que nunca lograrei realizar;
e o distante perfume de meu amor impossível
roçará teus cabelos … e jamais o saberá.

E se um dia uma lágrima denuncia meu tormento,
— o tormento infinito que te devo ocultar —
te direi sorridente: “Não é nada … foi o vento”.
Enxugarei a lágrima … e jamais o saberá!

CANÇÃO DO AMOR DISTANTE (José A. Buesa)

Ela não foi, dentre todas, a mais bela,
mas me deu o amor mais fundo e longo.
Outras me amaram mais; e, no entanto,
a nenhuma desejei como a ela.

Talvez porque a amei de longe,
como a uma estrela desde minha janela…
e a estrela que brilha mais distante
nos parece que tem mais reflexos.

Tive seu amor como uma coisa distante
como uma praia cada vez mais solitária,
que unicamente guarda da onda
uma umidade de sal sobre a areia.

Ela esteve em meus braços sem ser minha,
como a água no cântaro sedento,
como um perfume que se foi no vento
e que volta no vento todavia.

Me penetrou sua sede insatisfeita
como um arado sobre a planície,
abrindo em seu fugaz desprendimento
a esperança feliz da colheita.

Ela foi o próximo no longínquo,
mas preechia todo o vazio,
como o vento nas velas do navio,
como a luz no espelho quebrado.

Por isso ainda penso na mulher, aquela,
a que me deu o amor mais fundo e longo…
Nunca foi minha. Não era a mais bela.
Outras me amaram mais… E, no entanto,
a nenhuma desejei como a ela.

POEMA DA CULPA (José A. Buesa)

Eu a amei, e era de outro, que também a queria.
Perdoai a ela, Senhor, porque a culpa é minha.
Depois de haver beijado seus cabelos de trigo,
nada importa à culpa, pois não importa o castigo.

Foi um pecado desejá-la, Senhor, e, no entanto
meus lábios estão doces por esse amor amargo.
Ela foi como uma água calada que corria…
Se é culpa ter sede, toda a culpa é minha.

Perdoai a ela, Senhor, tu que destes a ela
sua frescura de chuva e esplendor de estrela.
Sua alma era transparente como um vaso vazio:
eu o enchi de amor. Todo o pecado é meu.

Mas, como não amá-la, se tu fizestes que fosse
pertubadora e fragante como a primavera?
Como não havê-la amado, se era como o orvalho
sobre a erva seca e ávida da estiagem?

Tratarei de rechaçá-la, Senhor, inutilmente,
como um sulco que tenta rechaçar a semente.
Era de outro. Era de outro que não a merecia,
e por isso, em seus braços, seguia sendo minha.

Era de outro, Senhor, mas há coisas sem dono:
as rosas e os rios, e o amor e o sonho.
E ela me deu seu amor como se dá uma rosa
como quem dá tudo, dando tão pouca coisa…

Uma embriaguês estranha nos venceu pouco a pouco:
ela não foi culpada, Senhor… nem eu tampouco
A culpa é toda tua, porque a fizestes bela
e me destes os olhos para mirá-la.

Sim. Nossa culpa é tua, se é uma culpa amar
e se é culpado o rio quando corre até o mar.
É tão bela, Senhor, e é tão suave, e tão clara,
que seria pecado maior se não a amasse.

E por isso, perdoa-me, Senhor, porque é tão bela,
que tu, que fizestes a água, e a flor, e a estrela,
tu, que ouves o lamento desta dor sem nome,
tu tambem a amarias, se pudesses ser homem.

BALADA DO MAU AMOR (José A. Buesa)

Que lástima, garota,
que não te possa amar.
Eu sou uma árvore seca que só espera o machado,
e você um arroio alegre que sonha com o mar.

Eu joguei minha rede no rio…
Rompeu-se a rede…
Não junte teu vaso cheio ao meu vazio,
pois se bebo em teu vaso vou sentir mais sede.

Beija-se pelo beijo,
por amar o amor…
Esse é teu amor de agora, mas o amor não é esse,
pois só nasce o fruto quando morre a flor.

Amar é tão simples,
tão sem saber por quê…
Mas assim como perde a moeda seu brilho,
a alma, pouco a pouco, vai perdendo sua fé.

Que lástima, garota,
que não te possa amar!
Há velas que se rompem à primera rajada,
e há tantas velas rasgadas no fundo do mar!

Mas ainda que toda ferida
deixe uma cicatriz,
não importa a folha seca de uma rama florida
se a dor dessa folha não chega à raiz.

A vida, chama ou neve,
é um moinho que
vai moendo em seus braços o vento que o move,
triturando as recordações do que já houve…

Já o meu foi meu,
e agora vou ao azar…
Se uma rosa é mais bela molhada de orvalho,
o golpe da chuva a pode desfolhar…

Tive um amor covarde.
O tive e o perdi…
Para teu amor prematuro já é demasiado tarde,
porque na minha alma anoitece o que amanhece em ti.

O vento enche a vela, mas à esfiapa,
e a água dos rios se faz amarga no mar…
Que lástima, garota,
que não te possa amar!

 

Quando alguém nos morre (Orozco)

Ler Orozco é difícil, mas adoro. Agora, necessário. Segue a tra(b)dução.

Quando alguém nos morre (Olga Orozco)

Poema a Eduardo Bosco

Foi necessário o grave, solitário lamento do vento entre as árvores,
para que tu soubesses mais que ninguém esse desesperado ressonar,
esse rumor sombrio com que podem se dizer as palavras
quando de nada vale sua fugaz melodia,
quando na solidão – a única aparência verdadeira -,
contemplamos, calando, os seres e os tempos que foram em nós
irrevogáveis mortes cujos nomes não saberemos jamais.

Foi necessário o ócio daquelas largas noites
que minuciosamente ordenastes em recordações, memorioso,
para que tu passasse sustentando a sombra com tua sombra,
apenas pressentida pelos dias,
com tua mesma pausada palidez demorando-se ainda depois de haver ido,
porque era teu adeus a despedida última,
o último sinal que acercava os sonhos desde o incontido amanhecer.

Foi necessário o lento trabalho dos anos,
seu rápido fulgor, seu murcho decair entre pesados muros
que só levantaram respostas de cinza a teu chamado
para que tu mirasses largamente tuas despojadas mãos
como uma planície donde os ventos deixam poeiras mortais,
enquanto dispõem, distante,
a tempestade que arrasa desmedida seu sedento destino.

Foi necessário todo o que fomos contigo,
o que somos contigo do lado dos prantos,
para saber, vivendo, quanta surda treva te assediava
e encontrar-nos, depois,
Com o assustado resplendor do ar que deixastes morrendo.

Porque todo este tempo
é o inumerável testemunho que nos traz as mesmas evidências,
aquele que fostes quanto eras, de uma vez para sempre:
acostumados gestos,
certos ritos que cumprira teu sangue submissa à memoria,
esses noturnos passos acercando os campos
onde a luz é só um repetido começo de penumbras,
as remotas paredes, as efêmeras coisas a que retornavas
com a triste paciência de quem guarda, laborioso, no olhar,
paisagens habituais que mais tarde
aliviarão o peso das horas em sabido desterro.

Tu pedias tão pouco.
Apenas se anseia um tranquilo viver que prolongasse a duracão de tua alma
em idéntico amor,
em radiante amizade, em devoção sagrada
por gentes que existiram com a simples nobreza da terra,
sem glórias nem ambições.
Tu amavas o imortal, o grandioso terrestre.

Mas não pode o débil chamado de tua vida contra pesadas portas
aposentos malditos, épocas miseraveis
onde o destino dorme surdamente seu legendário esquecimento-,
nadas tu na distância contra os invenciveis mares do inútil,
nadas tu juventude contra esse rosto
que entre desalentadas rebeldias, nostalgias e furiosos pesares,
infatigavelmente se assomou a teus desvelos;
e umas noites sentimos dentro do coração um rouco ondear,
amargamente vivo,
no preciso lugar onde ardia em nós,
como nós mesmos, duradoura,
tua calada grandeza.

Agora estamos mais sós por império da morte,
por um corpo ganhado como um palmo de terra pela terra baldia,
recobrando ao conjuro do mais distante sopro
realidades perdidas no mais esquecido dos antigos dias,
imagens que juntos transpassamos, que juntos nos esperam;
porque nao é a recordação do passado dispersos alhures
-folhas e ramas que acendemos
para chorar ao humos de uma lânguida fogueira-,
senão fiéis sinais de uma região dormente que aguarda nosso passo
com as pegadas de outrora suspendidas como eternas roupagens.

Não é só por dizer, Eduardo, quando alguém nos morre,
não há um lugar vazio, não há um tempo vazio,
há lufadas imensas que se buscam a sós, sem consolo,
pois aqui, e mais além,
tanto do que ele foi respira conosco a fadiga do pó passageiro,
tanto do que somos repousa irrecobrável entre sua morte
que assim sobrevivemos
levando cada um uma sombra do outro pelos distantes céus.
Alguma vez se acercarão,
Então, quando estivermos contigo para sempre,
Últimos como tu, como tu verdadeiros.

Júlio

“Sempre serei como um menino para tantas coisas, mas um desses guris que desde o começo carregam consigo o adulto, de maneira que quando o monstrinho chega verdadeiramente à idade do adulto ocorre que, por sua vez, carrega consigo o menino, e no meio do caminho se dá uma coexistência poucas vezes pacífica de pelo menos duas aberturas para o mundo.

Isto pode ser entendido metaforicamente, mas indica, em todo caso, um temperamento que não renuncia à visão pueril como preço da visão adulta, e essa justaposição que convém ao poeta e talvez ao criminoso, e também ao cronópio e ao humorista (questão de doses diferentes, de acentuação aguda ou esdrúxula, de escolhas: agora jogo, agora mato) manifesta-se no sentimento de não estar de todo em qualquer das estruturas, em quaisquer das teias que a vida arma e onde somos ao mesmo tempo aranha e mosca.” (Cortázar)

ÚLTIMOS CINCO POEMAS PARA CRIS

I.
Agora escrevo pássaros.
Não os vejo chegar, não escolho,
de repente estão aí,
um bando de palavras
a pousar
uma
por
uma
nos arames da página,
entre chilreios e bicadas,
chuva de asas,
e eu sem pão para dar,
tão somente deixo-os vir.
Talvez seja isto uma árvore,
ou quem sabe, o amor.

ANTES, DEPOIS…

Como os jogos ao pranto
como a sombra à coluna
o perfume desenha o jasmim
o amante precede o amor
como a carícia à mão
o amor sobrevive ao amante
porém inevitavelmente
ainda que não haja rastro nem presságio

ainda que não haja rastro nem presságio
como a carícia à mão
o perfume desenha o jasmim
o amante precede o amor
porém inevitavelmente
o amor sobrevive ao amante
como os jogos ao pranto
como a sombra à coluna

como a carícia à mão
ainda que não haja rastro nem presságio
o amante precede o amor
o perfume desenha o jasmim
como os jogos ao pranto
como a sombra à coluna
o amor sobrevive ao amante
porém inevitavelmente…

BOLERO

Que vaidade imaginar
que posso te dar tudo, o amor e o futuro,
itinerários, música, joguetes.
É certo que é assim:
tudo meu te dou, é certo,
mas tudo meu não te basta
como a mim não me basta que me dês
tudo teu.

Por isso não seremos nunca
o casal perfeito, o cartão postal,
se não somos capazes de aceitar
que só na aritmética
o dois nasce do um mais um.

Por aqui um papelzinho
que somente diz:

Sempre fostes meu espelho,
quero dizer que para me ver tinha que te olhar.

SEMPRE COMEÇAVA A CHOVER

Sempre começava a chover
na metade da película,
a flor que te levei tinha
uma aranha esperando entre as pétalas.

Creio que o sabias
e que favorecestes a desgraça.
Sempre esqueci o guarda-chuvas
antes de ir te buscar,
o restaurante estava cheio
e anunciavam a guerra nas esquinas.

Fui uma letra de tango
para tua indiferente melodia.