“Assim a poesia não se cantará em vão”


A querida amiga Ana Elisa, que compartilha o teto comigo, me trouxe do Chile um pequeno livrinho com o discurso proferido por Pablo Neruda ao receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1971. Pablo era embaixador do Chile que vivia um período conturbado de ataques ao governo de esquerda de Allende. Abaixo, traduzo alguns trechos que me chamaram a atenção.

Trechos do discurso de Pablo Neruda ao receber o Nobel

(…)

“De tudo isso, amigos, surge um ensinamento que o poeta deve aprender dos demais homens. Não há solidão inexpugnável. Todos os caminhos levam ao mesmo ponto: à comunicação do que somos. E é preciso atravessar a solidão e a aspereza, a falta de comunicação e o silêncio para chegar ao recinto mágico em que podemos dançar torpemente ou cantar com melancolia; mas nessa dança ou nessa canção estão consumados os mais antigos ritos da consciência; da consciência de ser homem e de crer em um destino comum”

(…)

“O poeta não é um ‘pequeno deus’. Não, não é um ‘pequeno deus’. Não está marcado por um destino cabalístico superior ao de quem exerce outros ofícios. Sempre digo que o melhor poeta é o homem que nos entrega o pão de cada dia: o padeira mais próximo, que não se crê deus. Ele cumpre sua majestosa e humilde trabalho de amassar, meter no forno, dourar e entregar o pão de cada dia, com uma obrigação comunitária. E se o poeta chega a alcançar essa simples consciência, poderá também a simples consciência converter-se em parte de uma artesania colossal, de uma construção simples ou complicada, que é a construção da sociedade, a transformação das condições que rodeiam o homem, a entrega da mercadoria: pão, verdade, vinho, sonhos. Se o poeta se incorpora a essa nunca gasta luta por consignar cada um em mãos dos outros sua ração de compromisso, sua dedicação e ternura ao trabalho comum de cada dia e de todos os homens, o poeta tomará parte no suor, no pão, no vinho, no sonho da humanidade inteira. Só por esse caminho inalienável de ser homem comum chegaremos a restituir à poesia o amplo espaço que lhe vão retirando em cada época, que lhe vamos retirando em cada época nós mesmos.”

(…)

“Nos vemos indefectivelmente conduzidos à realidade e ao realismo, ou seja, a tomar consciência direta do que nos rodeia e dos caminhos da transformação, e logo compreendemos, quando parece tarde, que construímos uma limitação tão exagerada que matamos o vivo em vez de conduzir a vida a desenvolver-se e florescer. Nos impomos um realismo que posteriormente nos resulta mais pesado que o ladrilho das construções, sem que por isso tenhamos erigido o edifício que contemplávamos como parte integral de nosso dever. E em sentido contrário, se alcançamos a criar o fetiche do incompreensível (ou do compreensível para uns poucos), o fetiche do seleto e do secreto, se suprimimos a realidade e suas degenerações realistas, nos veremos logo rodeados de um terreno impossível, de um atoleiro de folhas, de barro, de nuvens, em que se fundem nossos pés e nos afoga uma incomunicação opressiva.”

(…)

“Estendo estes deveres do poeta, na verdade ou no erro, até suas últimas consequências, decidi que a atitude dentro da sociedade e ante a vida devia ser também humildemente partidária. O decidi vendo gloriosos fracassos, solitárias vitórias, derrotas deslumbrantes. Compreendi, metido no cenário das lutas da América, que minha missão humana não era outra senão agregar-me com sangue e alma, com paixão e esperança, porque só dessa torrente repleta podem nascer os caminhos necessários aos escritores e aos povos. E ainda que minha posição levantasse ou levante objeções amargas ou amáveis, o certo é que não há outro caminho para o escritor de nossos amplos e cruéis países, se queremos que floresça a obscuridade, se pretendemos que os milhões de homens que ainda não aprenderam a nos ler nem a ler, que todavia não sabem escrever nem escrever-nos, se estabeleçam no terreno da dignidade sem a qual não é possível ser homem integral.”

(…)

“Eu escolhi o difícil caminho de uma responsabilidade compartilhada e, antes de reiterar a adoração do indivíduo como sol central do sistema, preferi entregar com humildade meu serviço a um considerável exército que por períodos pode se equivocar, mas que caminha sem descanso e avança cada dia enfrentando tanto aos anacrônicos recalcitrantes como aos vaidosos impacientes. Porque creio que meus deveres de poeta não só me indicavam a fraternidade com a rosa e a simetria, com o exaltado amor e com a nostalgia infinita, senão também com as ásperas tarefas humanas que incorporei a minha poesia.”

A Rosa Blindada I


A “Rosa Blindada” é o nome de um importante livro de poesias do poeta argentino Raúl González Tuñón. Neruda chegou a dizer que Tuñon foi o primeiro a “blindar a rosa”, ou seja, o primeiro de toda uma geração a defender a poesia como uma arma de luta. Estou traduzindo os prólogos que o próprio Raúl fez a seu livro, onde faz interessante debate sobre a poesia revolucionária, tema que me interessa justamente pela antologia de poesias revolucionárias que estou organizando e traduzindo. Em breve continuo com as outras partes do prólogo

A nós a poesia

(prólogos do livro “A Rosa Blindada” de Raúl Tuñon)

“Sem compreender claramente que só com a assimilação completa da cultura criada por todo o desenvolvimento da humanidade se pode organizar uma cultura proletária, não conseguiremos esse objetivo”…”Devemos por em primeiro lugar a instrução e a educação pública mais ampla. Isto criará um terreno favorável à cultura, com a condição, naturalmente, de solucionar o problema do pão. Sobre este terreno deve nascer realmente uma nova arte comunista que criará a forma que corresponde a seu conteúdo.” Lenin
Vamos desde uma arte sem travas, desde a autêntica arte pura, passando pela arte revolucionária primeiro e pela arte proletária depois.

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O poeta se dirige à massa. Se a massa não entende totalmente é porque, desde já, deve ser elevada ao poeta. Não se trata de nivelar a todos, pela revolução, à fome e à incultura senão à comodidade e à cultura.

Agora bem, existe uma massa a que o poeta pode dirigir-se e cumprir sua missão principal. Está composta por operários que puderam alcançar certos elementos de cultura; por operários nos quais a sensibilidade, o instinto poético supre a falta desses elementos; por intelectuais, artistas, jornalistas, pintores, maestros, estudantes que desejam a transformação da sociedade, que abundam e que são também massa.

O poeta não deve, pois, renunciar a ser poeta, mas isto não quer dizer que renuncie a ser homem. Em uma época como a que vivemos, intensa, dramática, de negação e criação, o poeta deve estar ao serviço dos outros. Se é um poeta autêntico fará isso sem o definhamento dos valores poéticos esenciais.
Devemos temer o caos nós, poetas, nós, pensamento militante? E o caos atual? De outra forma será difícil que a nós nos aturda o primeiro tapa brutal da revolução. Sergio Esenin e Vladimir Maiakowski sucumbiram, se eliminaram porque, finalmente, o tapa os aturdiui. Apesar de haver aderido a revolução a abandonaram para morrer voluntariamente. Mas eles estavam no entanto, e apesar deles, com um pé na burguesia. Haviam conhecido seu veneno. Deve-se recordar que outros poetas que sempre haviam sido revolucionários, sucumbiram também porque acreditaram que a revolução ia consagrá-llos imediatamente, dar-lhes em seguida todos os elementos. Uns e outros não compreenderam que o que estava acontecendo na Rússia era maior que eles e maior que a poesia mesma ou a poesia mesma!

Nós teremos a sorte de recebir a revolução cantando, depois de haver cantado e desejado, sem descuidar da técnica e sem deixar de haver intervindo mais ou menos concretamente na luta.

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Ainda que de extração social operária não tenho a pretensão de ser um poeta proletário. Por outra parte não há poetas proletários nos países burgueses. Talvez não os haja todavia na Rússia porque como já disse Lenin a arte proletária deverá nascer da cultura proletária, e esta por sua vez, da revolução em grau avançado. Mas há uma arte revolucionária que corresponde ao período pré-revolucionário. E se uma pretensão tenho é a de ser um poeta revolucionário, a de haver abandonado essa espécie de virtuosismo burguês decadente, não para cair na vulgar crônica grosseira que pretende ser clara e direta e resulta tola, senão para vincular minha sensibilidade e meu conhecimento da técnica do ofício aos feitos sociais que sacodem o mundo. Sem que o político menospreze ao artístico ou viceversa, confundindo, de forma melhorada, ambas realidades em uma.

Não por isso creio haver resolvido todos os problemas que a questão arte-política me há apresentado, mas sim os fundamentais. Nesse sentido o discurso de Gide no Congreso de Escritores e os pensamentos de Lenin a respeito me serviram muito assim como a leitura recente do livro de Benjamín Goriely Os poetas na revolução Russa, que recomendo aos camaradas que não o conheçam. Adiro ao discurso “Defesa da Cultura” porque Gide comprendeu – e era lógico – os problemas que a pre-revolução coloca ao artista e os problemas que a revolução coloca ao artista. Porque declara que os intelectuais, se são auténticos, por compreensão de sua função histórica e se querem conservar a herança cultural e defender a dignidade do pensamento, devem estar com a revolução. Porque exige uma arte de oposição. Porque assinala ao mesmo tempo o perigo que significa encarar o problema arte-política de uma maneira simplista. Porque afirma seu individualismo e diz que, precisamente por ser individualista se sente profundamente comunista porque somente a sociedade comunista pode oferecer ao individuo todos os elementos para seu desenvolvimento sem travas das diferenças de classe, da injustiça social. Porque afirma sua condição de francês e diz que precisamente por ser nacional se sente profundamente internacional. Porque declara que se há artistas grandes que não podem comunicar-se com o povo é essa uma das causas pelas quais é imperiosa a necessidade de elevar ao povo a arte e a cultura e isso só poderá conseguir-se com a transformação da sociedade.

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Creio que a poesía revolucionaria é autêntica:
1º Quando poesia e revolução se confundem, são consubstanciais, como no caso de Brecha, Gold, Alberti, Aragón, etc., e, no passado, como no caso de Heine (Os tecedores de Silesia). Ou seja, não menosprezando a poesia em si, fazendo-a perdurável por seu conteúdo estético pralém de seu conteúdo humano. Porque ainda quando as condições sociais de vida dos tecedores de Silésia tenham mudado, o alto dramatismo poético subsiste, a poesia subsiste.

2º Quando o conteúdo social corresponde à nova técnica. Não se trata de negar o proceso poético que, como o pictórico, teve suas etapas criadoras maravilhosas – nas quais, detalhe importante, nunca a arte esteve desvinculada do feito social- mas resulta absurdo compor hoje poemas presos a esta ou aquela regra formal.

3º Mas não há que confundir técnica nova com ocultismo poético, travessuras gramaticais, etc., ou poemas sem ritmo (que podem ser feitos quando o tema o exija como em meu poema “O pequeno cemitério fusilado”, ainda que o ritmo exista aqui como a água dentro da rocha). Porque, geralmente, essa atitude poética que foi uma reação saudável contra o academismo, esta concorrendo com esse ritmo de marcha, de hino – para cantar– que deve ter quase sempre o poema revolucionário. Chamo “técnica nova” ao conhecimiento e à superação de todas as técnicas, à desenvoltura que nos dá esse conhecimento, à liberdade de tons, ritmos, imagens, palavras e ao que sempre tiveram os poetas de cada época criadora, ao que segue a linha poética que nasceu com a primeira palavra pronunciada pelo homem na terra: à personalidade de um poeta.

Poesia Trunca


Estou aqui com um sorriso bobo no rosto, abraçado a dois livros fantásticos que chegaram hoje, encomendas que fiz pela estante virtual. Um deles é o “Camarim de Prisioneiro”, 2o e último livro do fantástico poeta-guerrilheiro brasileiro Alex Polari. O livro é da 1a edição de 1980 e veio com dedicatória irreverente, marca do autor: “Pra Daniel e pra Cida com um abraço sem imaginação para dedicatórias” =)

E o segundo livro, motivo deste post, é o “Poesia Trunca” uma coletânea de poetas revolucionários da América Latina organizada por Mario Benedetti. Há algum tempo estava atrás desse livro, porque quero ainda este ano publicar uma antologia semelhante a partir de traduções de poetas-lutadores que venho fazendo há algum tempo… portanto, ter acesso a seleção do Benedetti seria muito importante! E finalmente encontrei o livro disponível na Estante Virtual, um único exemplar! Comprei no ato! E pra minha alegria desmedida, o livro veio com dedicatória do próprio punho do Benedetti para o Ignácio de Loyola Brandão!!!! =)

A coletânea é de 77 e foi impresso pela Casa das Américas, importante organização cultural cubana que vem até hoje promovendo a unidade da cultura latinoamericana. Ou seja, o livro veio de cuba, passou pela mão de Benedetti que o deu para Ignácio de Loyola que por algum motivo se desfez dele e agora está em boas mãos! =)

Eis a lista de poetas revolucionários ou revolucionários poetas presentes na coletânea: Che Guevara, Juan Oscar Alvarado, Otto René Castillo, Edwin Castro, Roque Dalton, Mónica Ertl, Argimiro Gabaldón, Raúl Gómez García, Agustín Gómez, Ibero Gutiérrez, Javier Heraud, Victor Jara, Rony Lescouflair, Rigoberto López Pérez, Carlos Marighella, Ricardo Morales, Roberto Obregón,. Frank País, Néstor Paz Zamora, Leonel Rugama, Aldo Sá Brito, Luiz Saíz, Sergio Saíz, Jorge Salerno, Edgardo Tello, Francisco Urondo, Rita Valdivia, Jacques Viau.

Eu não conheço diversos desses poetas, o que me dá um ânimo fantástico de mergulhar na leitura! Certamente, se Benedetti tivesse conhecido à época a poesia de Alex Polari (das melhores que já li de todos os poetas-lutadores que venho conhecendo) teria certamente o incluído nessa coletânea.

Segue abaixo a tradução de alguns trechos da interessante apresentação do livro feita pelo próprio Benedetti. Também descobri que Benedetti gravou um DVD em que lê diversas poesias desse livro. Para quem quiser baixá-lo, basta clicar aqui.

PRÓLOGO – POESIA TRUNCA – MARIO BENEDETTI

Esta é uma antologia muito particular, já que inclui vinte e oito poetas latinoamericanos que deram suas vidas pela causa revolucionaria. A maioria deles morreu em plena juventude (alguns saíam apenas da adolescência), e aqueles poucos que já eram homens maduros, estiveram tão consubstanciados com o espírito libertário e com os afãs de justiça da juventude, que a decisão de incluí-los neste volume não só não contradiz, senão afirma a intenção de homenagem ao XI Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes que ocorrerá em Havana em 1978.

Alguns destes poetas revolucionários morreram em combate ou cumprindo uma missão insurrecional; outros, na prisão ou na tortura; houve aqueles que desapareceram em alguma emboscada e nunca mais se soube deles; outros, cujos cadáveres apareceram crivados ou mutilados por esqudrões da morte ou comandos paramilitares; alguns foram assassinados quando estavam desarmados ou ainda quando dormiam. Todos eram militantes revolucionários e, portanto, haviam assumido seu compromisso, aceitando o risco de morrer pela causa e pela pátria que defendiam. Quiçá uns foram revolucionários que, além de tudo, escreviam versos, enquanto outros eram poetas que, além de tudo, lutavam pela revolução. Aqui, no entanto, estão todos juntos, porque quando se entrega a vida, as outras matizes e prioridades se diluem nesse grande holocausto.

O volume inclui poetas da Argentina, Bolívia, Brasil, Cuba, Chile, El Salvador, Guatemala, Haiti, Nicarágua, Perú, República Dominicana, Uruguai e Venezuela. (…)

Cada vez fica mais claro que se o escritor abandona sua atitude contemplativa para jogar-se por seu povo, ou seja, se sente-se efetivamente parte do mesmo, também correrá os riscos que o povo corre em todas suas lutas. Os países latinoamericanos em que foram tomadas as mais duras medidas contra a cultura, são precisamente aqueles onde essa mesma cultura, por seu desenvolvimento progressivo, por seu labor persuasivo, por sua dimensão massiva, foi adquirindo uma função de esclarecimento ideológico e de mobilização política contra a estrutura capitalista.

Mariano Rodríguez, José M. Rodríguez (Pirole), Haydée Santamaría (fundadora da Casa das Américas), Mario Benedetti. [foto de Pedro Meyer ©]

Enquanto a cultura é um luxo, um elemento decorativa – ainda que às vezes rebelde – da burguesia, é tolerada por diversos tipos de repressão, tantos os de tipo nacional como os de assessoria estrangeira. Inclusive cai bem que os salões burgueses acolham escritores e artistas conhecidos, seja para exibí-los como personagens insólitos, e outras vezes como simples púcaros ou floreadores. Mas quando a cultura começa a chegar paulatinamente a cada vez mais setores do povo, a sensibilizar a opinião pública, a desmascarar hipocrisias, a assinalar responsáveis, a mobilizar rebeldias, ou seja, quando a cultura adquire uma vigência massiva e esclarecedora, então as forças regressivas arremetem contra ela com a mesma ferocidade que contra qualquer outro setor que se alce contra a oligarquia e contra o poder colonial.

O imperialismo sabe melhor que ninguém (as vezes melhor que o próprio artista) que se bem a arte por si só não derruba tiranias nem muda as estruturas, tem sido, não obstante, através da história um elemento nada desprezível em sua capacidade de converter em imagens, em cor, em pensamento certeiro, certos princípios regentes dos povos. Quando as mais obscuras forças da reação chegam a esse convencimento em determinado momento de uma transformação possível, então não vacilam em pagar um evidente preço político en sua arremetida contra os criadores e as formas de arte.

(…)

Ainda que limitado a um só gênero (a poesia), este volume é também uma mostra dessa busca (busca de nossa própria expressão), e um testemunho acerca do fervor com que esses poetas a levaram a cabo. No entanto, convém esclarecer que a política não é o único tema que estes poetas revolucionários alegeram. Algo que certa vez expressei com respeito a poesia de Ibero Gutierrez (totalmente inédita no momento em que é massacrado pela Esquadrão da Morte, em Montevideu), poderia ser estendido aos demais poetas: “Só uma parte (e não a maior) de seus poemas, são políticos. O resto são poemas de amor, alguns deles estupendos, ou observações líricas ante certas perplexidades próprias ou alheias, ou metáforicos diálogos com seu complicado ambiente […] Essa bondade, essa preocupação pelo próximo, essa esperança incólume, que estão presentes nos poemas, são uma comovedora mostra da riqueza interior de um revolucionário. Nós mesmos às vezes perdemos de vista esse nível humano, que não por humano deixa de ser político senão que é mais político que nunca.”

(…)

Por todo o exposto, esta não é uma antologia tradicional. A chamamos de Poesia Truncada (“Poesia Trunca”, pode-se também traduzir por Poesia Mutilada, Interrompida…) porque todos esses poetas revolucionários e revolucionários poetas estavam em plena produção, uns gerando poesia, outros gerando revolução, e outros mais, ambas as coisas de uma vez. É truncada, ainda, porque todos eles eram suficientemente jovens, ou juvenilmente maduros, como para que possamos considerá-los poetas em pleno desenvolvimento. A morte interrompe, parte essa evolução, mas não a rompe. A vida do poeta pode ser despedaçada, mas a obra, truncada mas intacta, fica, e ao final se converte em sua vida. E até pode seguir crescendo, sempre e quando novos jovens se acerquem dessa poesia interrompida, a envolvam com sua própria juventude, a continuem com sua própria vida em revolução. Oxalá que esta antologia facilite essa continuidade.

Idea Vilariño (Uruguai, 1920-2009)


Eu estava chateado por só traduzir poetas revolucionários… me decidi por procurar poetisas revolucionárias =) Encontrei de pronto Idea Vilariño, uma das maiores expressões poéticas do Uruguai. Foi da famosa geração literária uruguaia de 45 ao lado de Mario Benedetti (de quem era grande amiga), Juan Carlos Onetti (que foi seu amante por alguns anos), Emir Rodriguez Monegal…

Filha de um poeta anarquista, com irmãos chamados Alma, Númen, Poema e Azul, e com o próprio nome de Idéia (Idea), não é de surpreender o caminho libertário trilhado por Vilariño. Idea converteu-se em “mito literário” de sua geração, tão intensa quanto reservada, tão apaixonada quanto solitária, autora de versos amargos e desolados, dona duma personalidade e posição diante da vida e da literatura sui generis. Rejeitou todos os prêmios e nomeações que recebeu, não era afeita a publicidade e às luzes próprias dos círculos literários burgueses. Raramente concedeu entrevistas. Apesar disso, ganhou vários prêmios internacionais e sua poesia se encontra traduzida em diversas línguas.

Sua poesia é marcada por versos curtos, quase sem rima ou métricas fixas, pela bela rítmica e simplicidade. Já faz parte do dia-a-dia do povo uruguaio, tendo vários de seus poemas musicados. Idea assume firme compromisso com a causa do socialismo e da libertação nacional. A partir de 1948, escreve no semanário Marcha, que reunia o melhor da intelectualidade antiimperialista uruguaia. Rompe com a revista em 1955 porque um verso seu (“um lenço com sangue, sêmen, lágrimas”) é censurado pelo mais puro moralismo de esquerda!!! Retorna a Marcha em 1967, em razão do acirramento da luta política no Uruguai, e fica até o fechamento pela ditadura em 1973. Após a queda do regime, em 1985, funda, junto com Benedetti e outros remanescentes de Marcha, o semanário Brecha, com o qual rompe em 1993 por divergências sobre Cuba (Idea apoiava incondicionalmente a revolução).

Além de sua poesia marcadamente engajada, Idea ficou muito conhecida por sua poesia de amor. Sua vida amorosa é profundamente marcada pelo turbulento envolvimento com o gigante da literatura uruguaia, Juan Carlos Onetti. Neste primeiro contato, selecionei mais poesias de amor, uma poesia sobre a morte do Che, e uma música do fantástico grupo Los Olimareños feita a partir da poesia de Idea chamada “Ya me voy pa la guerrilla” (me desculpem, mas não consegui ouvir ainda com calma para por a letra da música… tampouco achei na internet). Também segue, ao final, uma curiosidade: uma carta de Mário Benedetti respondendo ao questionamento de Idea sobre a aceitação ou não do prêmio Guggenheim (EUA)…

COMPARAÇÃO

Na voz de Idea:

Como na praia virgem
dobra o vento
o leve junco verde que desenha
um delicado círculo na areia

assim em mim
te recordo.

SABES

Na voz de Idea:

Sabes
dissestes
nunca
fui tão feliz como esta noite.
Nunca. E isso me dissestes
no mesmo momento
em que eu decidia não te dizer
sabes
seguramente me engano
mas creio
que esta me parece
a noite mais bonita da minha vida.

O AMOR

Na voz de Idea:

Um pássaro me canta
e eu lhe canto
me gorjea ao ouvido
e lhe gorjeo
me fere e eu o sangro
me destroça
o quebro
me desfaz
o rompo
me ajuda o
levanto
pleno todo de paz
todo de guerra
todo de ódio de amor
e solto
geme sua voz e gemo
ri e rio
e me olha e o olho
me diz e eu lhe digo
e me ama e o amo
– não se trata de amor
damos a vida-
e me pede e lhe peço
e me vence e o venço
e me acaba e o acabo.

A NOITE

Na voz de Idea:

A noite não era o sonho
era sua boca
era seu bonito corpo despojado
de seus gestos inúteis
era sua pálida cara olhando-me na sombra.
A noite era sua boca
sua força e sua paixão
era seus olhos sérios
essas pedras de sombra
caindo-se em meus olhos
e era seu amor em mim
invadindo tão lenta
tão misteriosamente.

DIZER NÃO

Dizer não
dizer não
atar-me ao mastro
mas
desejando que o vento o derrube
que a sereia suba e com os dentes
corte as cordas e me arraste ao fundo
dizendo não não não
mas a seguindo.

QUASE TODAS AS VEZES

Conheço tua ternura
como a mesma palma de minha mão.
Às vezes entre sonhos a recordo
como se já a houvesse perdido alguma vez.
Quase todas as noites
quase todas as vezes que adormeço
nesse mesmo instante
você com teu grave abraço me confina
me rodeia
me envolve na morna caverna de teu sonho
e apoias minha cabeça sobre teu ombro.

DIGO QUE NÃO MORREU

(Tradução: Sonia Lanzillotte)

Digo que não morreu
eu não o creio
– não o deixaram ser visto pelo irmão
e tantas outras coisas –
e além disso
como ia morrer o Che
quando restava
tanta tarefa por fazer
quando tinha
que percorrer a América Latina
formoso como um raio
incendiando-a
como um raio de amor
destruindo e criando
destruindo e criando, como em Cuba. Como ia
morrer, o Che?
Como ia morrer? Mas essa foto atroz
aquela bota
como partia a alma aquela bota
a suja e norte-americana bota
mostrando a ferida com desprezo. Não tenho que acreditar.
Houve
tantas contradições
– não o deixaram ser visto pelo irmão –
e o deram por morto tantas vezes.
-Como ia morrer, o Che.
Ele muito menos
se ia deixar cercar nesse vale
ia sair em um descampado
ia se deixar
estar ali
a deixar
que lhe estraçalhe as pernas a metralhadora. Eu não vou
acreditar
ainda que chore Cuba
ainda que haja luto
em toda a América Latina. Não tenho que acreditar. Um dia
um belo dia se dirá… está no Brasil
ou se levantará na Colômbia ou Venezuela
a ajudar
a ajudar-nos
e nesse dia
uma onda de amor americano
moverá o continente
levantará o Che da América. Não creio que morreu
não posso crê-lo
e não vou crê-lo
ainda que o afirme o próprio Fidel Castro. Mas amigos
irmãos
não esquecer
não esquecer nunca o rosto desprezado
o coração mais sujo que essa bota
nem a mão vendida
lembrar-se do rosto e da mão
lembrar-se do nome
até que chegue o dia
e quando chegue
quando soe a hora
lembrar-se do nome e do rosto
desse tenente Prado*.

* Gary Prado Salmón: tenente que capturou Che

“YA ME VOY PA LA GUERRILLA” MUSICADO POR LOS OLIMAREÑOS


CARTA DE BENEDETTI À IDEA VILARIÑO

(Tradução: Henrique Júdice)

Madri, 2 de setembro de 1982

Querida Idea:
escrevo-lhe no único pedaço de papel que tenho à mão neste hotel de Madri. Faz dois dias que cheguei da Dinamarca (estive com Daniel (1) o Cantor) e amanhã parto rumo ao México. Luz (2) acaba de ler para mim, por telefone, sua carta-consulta, e aqui estou – procurando, como você me pede, ser absolutamente sincero em minha resposta. E ela não é fácil, dadas as circunstâncias atuais. Você sabe que, por volta de 65 ou 66, me ofereceram a Guggenheim (por indicação de Frasconi [3]) e eu a recusei. Antes, no entanto (em 59/60), havia aceito o convite do American Council para assistir peças de teatro nos Estados Unidos durante cinco meses. Essa viagem me transformou num anti-ianque vitalício. Desta forma, em minha própria história, constam um Sim e um Não. Essa aparente contradição se explica – creio – porque mudamos, e é provável que tenha podido decidir o Não de 65 em razão do que aprendi quando do Sim de 60. Sei de gente de esquerda (como Haroldo Conti (4) e, mais recentemente, Jorge Musto [5]) que recusou a Guggenheim, e sei de outras pessoas, também de esquerda (como Augusto Boal, além do já citado Frasconi), que a aceitou em diversas épocas sem que isso tenha debilitado sua militância. Talvez por isso, minha tendência atual é não ser esquemático quanto ao assunto, menos ainda nas atuais circunstâncias do Cone Sul. Creio que o essencial é como se sente cada um. Se alguém aceita isso a contrapelo de si mesmo, o resultado pode ser negativo; mas se encontra em si mesmo uma motivação legitima, provavelmente será bom. Não descarte, além do mais, a hipótese de que, apesar de tudo, te neguem o visto. No ano passado, a universidade e a ordem dos advogados de Porto Rico me convidaram para uma conferência e leitura de poemas e decidi aceitar, primeiro porque era Porto Rico e segundo porque os organizadores eram independentistas. No entanto, tudo ficou na estaca zero, pois o Departamento de Estado me negou o visto. A essa altura, você provavelmente deve estar pensando que ainda não te respondi. Mas a verdade é que, sinceramente, não posso ir além disso, pois eu tampouco sei claramente qual deve ser sua resposta. Se você me tivesse feito a pergunta em 1960, eu lhe diria que não, sem hesitar. Mas hoje, o conselho não pode ser tão taxativo, e creio que as razões que você menciona em sua carta são muito convincentes, e também é convincente o espaço que a aceitação abriria a seu próprio trabalho. Ou seja, retorno ao que disse antes: o essencial, para que tudo não se transforme em frustração, é o estado de ânimo, a disposição que permita superar as interpretações alheias e enfrentar os próprios escrúpulos. Dentro de aproximadamente 20 dias, estarei de volta; digo isso para o caso de que queiras escrever-me novamente. Não sei se sabes que, no fim de julho, morreu a mãe de Claribel (6). Certamente me encontrarei no México com ela e com Bud. Parece que estarão novamente em Mallorca no começo de outubro, pois já terminaram sua segunda etapa nica (7). Agora estou me dedicando a um novo livro de contos, mas ainda falta bastante. Lembranças a Jorge(8), beijos de Luz e um forte abraço de Mario.

NOTAS
(1) Daniel Viglietti, cantor e compositor uruguaio (Nota do Tradutor).
(2) Luz López Alegre, esposa de Benedetti (N do T).
(3) Antonio Frasconi (1919), pintor e gravador uruguaio. Foi chargista de Marcha (Nota de Brecha).
(4) Escritor argentino (1925-76) assassinado pela ditadura de Videla (N do T).
(5) Escritor e dramaturgo uruguaio nascido em 1927 (N do T).
(6) Claribel Alegría, a poeta salvadorenha, Bud é seu marido (Nota de Brecha).
(7) Diminutivo carinhoso de nicaraguense (N do T).
(8) Jorge Liberatti, marido de Idea (Nota de Brecha).

Guerra Civil Espanhola, Neruda, “Ay, Carmela!”


Esta foto, acima e abaixo, é de um antepassado assassinado durante a Guerra Civil Espanhola [não sei de que lado lutava, mas é muito provável que do lado dos franquistas 🙁 ]. Todos meus avós fogem da Espanha nesse período e vêm pro Brasil. Se instalaram no único “bairro espanhol” do Brasil, que fica em Sorocaba, na região do “Além Ponte”, bairro “Vila Hortência”. Todas as ruas desse bairro fazem referência à Espanha. Nasci na rua Sevilha e brincava nas vizinhas ruas Madrid e Catalunha. Na minha infância, era comum ouvir pelas ruas expressões e comentários em espanhol… os palavrões e repreensões, invariavelmente, saíam em espanhol! Teimosos, turrões, mãos-de-vaca, pobres, os espanhóis ali, como meus avós, começaram trabalhando na terra (eram conhecidos como “ceboleiros” pelas enormes plantações de cebola, cultura que trouxeram da Espanha), e aos poucos foram se metendo a fazer de tudo.

Bom, essa introdução toda é porque, de uns tempos pra cá, tenho buscado resgatar minhas raízes… nessa busca, achei um ótimo livro “Os Espanhóis”, de Sérgio Coelho de Oliveira, que conta a história do bairro em que cresci… fala das famílias, da cultura que trouxeram dalém mar… um livro muito bonito e forte, pra mim… descobri, inclusive, surpreso, que desse bairro surgiram núcleos de resistência anarco-sindicalistas que tiveram importante influência e foram inclusive perseguidos durante a ditadura!

Meu interesse tem passado, obviamente, pela poesia espanhola. Recentemente, ganhei de uma amiga querida algumas antologias sobre a poesia espanhola, basca, catalã… é nítido como a poesia recente da Espanha é fortemente marcada pela Guerra Civil. Ainda estou me aproximando dessa poesia e selecionando algo pra por aqui no Passarin. Por agora, vai uma poesia de Neruda sobre a Guerra Civil (vai um vídeo também em que o poeta chileno, antes de declamar seu poema, fala como a Guerra Civil foi um marco de virada na sua vida e poesia, donde surge o livro “Espanha no Coração”… a declamação é encantatória!). Neruda era diplomata e morava em Madrid, na famosa Casa das Flores de que trata o poema abaixo, quando explodem os bombardeios que também darão origem à “Guernica” de Picasso (a Casa das Flores pode ser visitada e possui uma arquitetura ímpar, veja aqui).

A Guerra Civil, apesar de toda a tragédia – que me fez estar aqui, agora – também foi um momento de forte organização dos trabalhadores e trabalhadoras de todo o mundo, com a participação ativa de brigadas e milícias internacionais. (Aqui um documentário interessante sobre a Guerra). No final do post, depois do poema de Neruda, vai uma das canções preferidas pelos milicianos, a “Ay, Carmela” onde se canta, de forma alegre, a resistência e o amor. Essa canção jocosa, insinua que é por Carmela que os milicianos resistem… se lutam com toda a energia é porque querem voltar para os braços de Carmela! 🙂 Essa música também é conhecida por “El Paso del Ebro” e “Viva la XV Brigada” e foi ganhando diferentes letras ao longo do tempo e em diferentes lugares. Abaixo, coloco a versão de Miguel Naharro, grande violonista espanhol, e outra, mais próxima do original (nesse vídeo, há imagens muito legais de cartazes da época chamando para a luta revolucionária).

PABLO NERUDA DECLAMANDO “EXPLICO ALGUMAS COISAS”

EXPLICO ALGUMAS COISAS – PABLO NERUDA

Perguntam-me: onde estão os lírios?
E a metafísica coberta de papoulas?
E a chuva que muitas vezes golpeava
suas palavras enchendo-as
de frestas e pássaros?

Vou lhes contar tudo o que me passa.

Eu vivia num bairro
de Madrid, com campanários,
com relógios, com árvores.
Dali se via
o rosto seco de Castela
como um oceano de couro.
Minha casa era chamada
a casa das flores, porque por todas as partes
brotavam gerânios: era uma bela casa
com cachorros e crianças.

Raul, lembra? **
Lembra, Rafael? **
Frederico, lembra? **
Debaixo da terra,
lembram da minha casa com balcões
onde a luz de junho afogava flores em suas bocas?
Irmão, irmão!

Tudo
era burburinho de vozes, o sal das mercadorias
aglomeração de pão palpitante,
mercados de meu bairro de Arguelles com sua estátua
como um tinteiro pálido entre as merluzas:
o azeite chegava em colheres,
uma profunda palpitação
de pés e mãos enchia as ruas,
metros, litros, essência
aguda da vida,
pescados amontoados,
contextura dos tetos com sol frio no qual
a flecha se fatiga,
delirante marfim fino das batatas,
tomates se espalhando até o mar.

E numa manhã tudo estava ardendo,
e numa manhã fogueiras
saiam da terra
devorando seres,
e desde então fogo,
pólvora desde então,
e desde então sangue.
Bandidos com aviões e mouros,
bandidos com anéis e duquesas,
bandidos com padres de preto abençoando-os
vinham pelos céus a matar crianças,
e pelas ruas o sangue de crianças
corria simplesmente, como sangue de crianças.

Chacais que os chacais rechaçariam,
pedras que o cardo seco morderia e cuspiria,
víboras que as próprias víboras odiariam!

Frente a vocês vi o sangue
de Espanha levantar-se
para afogá-los em uma só onda
de orgulho e de punhais!

Generais
traidores:
olhem minha casa morta,
olhem a Espanha dilacerada:
porém de cada casa morta sai metal ardendo,
em vez de flores,
porém de cada ferida da Espanha
desperta a Espanha,
porém de cada criança morta levanta-se um fuzil com olhos,
porém de cada crime nascem balas
que acharão um dia o vosso coração.

E me perguntam: por que os seus poemas
não falam dos sonhos, das folhas,
e dos grandes vulcões de seu país natal?

Venham ver o sangue pelas ruas,
venham ver
o sangue pelas ruas,
venham ver o sangue
pelas ruas!

** Neruda, provavelmente, está se referindo aos poetas Rafael Alberti,
Federico Garcia Lorca e Raúl Silva Castro. Lorca foi assassinado por nacionalistas durante a guerra. Segundo um juiz, ele era “mais perigoso com a caneta do que outros com o revólver”.

“AY, CARMELA!” versão Miguel Ángel Gómez Naharro

“AY, CARMELA” VERSÃO CLÁSSICA

El Ejécito del Ebro
Rumba la rumba la rumba la
Una noche el río pasó
Ay Carmela! Ay Carmela!
Pero nada pueden bombas
Rumba la rumba la rumba la
Donde sobra corazón
Ay Carmela! Ay Carmela!
Contraataques muy rabiosos
Rumba la rumba la rumba la
deberemos resisitr
Ay Carmela! Ay Carmela!
Pero igual que combatimos
Rumba la rumba la rumba la
Prometemos resistir
Ay Carmela! Ay Carmela!

Atahualpa Yupanqui (Argentina) I



Em língua quechua: Ata: vem; Ku: de longe; Alpa: terra; Yupanqui: que vai contar. Logo, “Aquele que vem de longe para contar algo”… e vinha de longe mesmo! Atahualpa Yupanqui era o pseudônimo que Héctor Roberto Chavero se deu em sua adolescência quando andava diariamente 15 quilômetros para ter aulas com seu mestre de violão. Era também uma homenagem aos dois últimpos imperadores incas: Atahualpa e Tupac Yupanc.

Atahualpa nasceu no Campo de la Cruz, Partido de Pergamino, uma pequena localidade da região norte da Província de Buenos Aires. A data de seu nascimento está registrada no dia 31 de janeiro de 1908; filho de uma típica família do interior argentino: seu pai é crioulo e sua mãe vasco-espanhola. É dessa vida própria dos pampas que Atahualpa vai retirar toda sua musicalidade e poesia inicial:

“Os dias de minha infância transcorriam de assombro em assombro, de revelação em revelação. Nasci em um meio rural e cresci frente a um horizonte de balidos e relinchos. Era um mundo de sons doces e bárbaros a uma só vez. (…) Galopam-me no sangue trezentos anos de América, desde que Don Diego Abad Martin Chavero chegou para abater quebrachos e afarrobeiras e fazer portas e colunas para igrejas e capelas. Pelo lado materno venho de Regino Haram, de Guipuzcoa.”. (“El canto del viento”, Atahualpa)

É difícil dimensionar a profundidade da influência de Atahualpa na música e cultura latino-americana deste século. Profundamente conectado à vida campesina dos pampas argentinos mas também influenciado pelas tribos e comunidades pobres de diversos países por onde peregrinou, Yupanqui funcionou, assim como Zeca Afonso em Portugal e Dércio Marques no Brasil, como um coletor e intérprete das canções emanadas do povo latino, as retornando ao mesmo povo para que fossem irmanadas agora como símbolo de unidade de todos filhos da Grande Pátria.

“Eu viajei durante anos pelas serranias de minha pátria. Vivi longos anos nas profundas quebradas, nos morros, nas terras sedentas, onde o salitral ostenta seus ilusórios mares e seus falsos diamantes. Passei temporadas entre índios, entre kollas, mestiços e paisanos. Dormi em palhoças, onde a miséria sufoca todas as paisagens. Passei noites nos cumes, nos vales abandonados. (…) A luz que ilumina o coração do artista é uma lâmpada milagrosa que o povo usa para encontrar a beleza no caminho, a solidão, o medo, o amor e a morte.”. (“El canto del viento”, Atahualpa)

Don Ata, como se tornou conhecido, é um artista essencial para entender o cancioneiro latino-americano dos anos 30 em diante, especialmente a Canção Nova (surgida nos anos 60-70, com Victor Jara, Violeta Parra, Mercedes Sosa, Quilapayun, IntiIllimani, etc) em que a cultura popular deixa de ser vista por um viés esteticizante, folclorista, para funcionar como chão cultural do qual se levanta uma voz compromissada com a realidade social da maioria e com a luta por sua transformação. Engajou-se no Partido Comunista Argentino (1945) por alguns anos o que lhe rendeu perseguições, a censura de suas músicas (toda música de Atahualpa foi proibida de ser cantada na Argentina), diversas prisões (veja terrível relato abaixo das torturas que sofreu) e exílio (conheceu e se tornou amigo de Edith Piaf durante o exílio). Em 52 resolveu se afastar do partido, mas não das questões políticas. Toma essa decisão para poder se dedicar integralmente a música e a poesia, onde se encontrava sua missão maior, cantar junto ao povo.

“Em tempos de Perón estive vários anos sem poder trabalhar na Argentina… Me acusavam de tudo, até do crime da semana que vem. Desde essa esquecível época tenho o indicador da mão direita quebrado. Uma vez colocaram sobre minha mão uma máquina de escrever e logo se sentavam em cima, outros saltavan. Buscavan desfazer-me a mão mas não se perceberam de um detalhe: me ferraram a mão direita e eu, para tocar a guitarra, sou canhoto. Todavia hoje, a vários anos desse feito, há tons como o Si menor que me custa fáze-los. Os posso executar porque uso a técnica, a manha; mas realmente me custam.” (“El canto del viento”, Atahualpa)

Eu sou apaixonado pelas composições de Don Ata, a singeleza, por vezes enganadora, donde se esconde sua arguta acidez, corroendo a ordem capitalista (a poeisa de Atahualpa me lembra da poesia de José Marti, como em Versos Sencillos). Certamente, será necessário mais de 1 post pra dar conta desse mestre. Abaixo segue 2 canções clássicas e uma pouco conhecida: 1. “Duerme, negrito”, que ficou tão conhecida através de diversos outros intérpretes, menos na voz de seu intérprete original: nesse vídeo, antes de cantar a canção que se tornou símbolo de identificação dos povos da américa, Atahualpa explica onde a coletou, entre mães trabalhadoras na divisa com a Venezuela! 2. “Los Hermanos”, que foi imortalizada na voz de Mercedes Sosa e, por mais batida que seja, tem uma poesia forte que merece ser revista na voz de seu criador. 3. “Preguntitas a Dios”, dura e ácida canção que parte dos problemas do povo mas não se deixa dominar por sua origem e questiona o próprio povo (Atahualpa lança mão de um recurso muito interessante: se protege do confronto direto com a opinião popular colocando as indagações na voz de uma criança que questiona os adultos).

Ah, Aqui você pode baixar diversos discos de Atahualpa!!!

“DUERME NEGRITO”

Duerme, duerme, negrito, / que tu mamá está en el campo, / negrito…

Te va a traer / codornices para ti. / Te va a traer / rica fruta para ti.
Te va a traer / carne de cerdo para ti. / Te va a traer / muchas cosas para ti
Y si el negro no se duerme, / viene el diablo blanco / y ¡zas! Le come la patita,
¡chacapumba!

Duerme, duerme, negrito, / que tu mamá está en el campo, / negrito…
Trabajando, / trabajando duramente, / trabajando sí.
Trabajando y no le pagan, / trabajando sí.
Trabajando y va tosiendo, / trabajando, sí.
Trabajando y va de luto, / trabajando sí.
Para el negrito chiquitito, / trabajando, sí.
Duramente, sí. / Va tosiendo, sí.
Va de luto, sí. / Duramente, sí

Duerme, duerme, negrito, / que tu mama está en el campo, / negrito…

“LOS HERMANOS”

Yo tengo tantos hermanos / que no los puedo contar. / En el valle, la montaña, / en la pampa y en el mar.

Cada cual con sus trabajos, / con sus sueños, cada cual. / Con la esperanza adelante, / con los recuerdos detrás.

Yo tengo tantos hermanos / que no los puedo contar. / Gente de mano caliente / por eso de la amistad,
Con uno lloro, pa llorarlo, / con un rezo pa rezar. / Con un horizonte abierto / que siempre está más allá.
Y esa fuerza pa buscarlo / con tesón y voluntad.

Cuando parece más cerca / es cuando se aleja más. / Yo tengo tantos hermanos / que no los puedo contar.

Y así seguimos andando / curtidos de soledad. / Nos perdemos por el mundo, / nos volvemos a encontrar.

Y así nos reconocemos / por el lejano mirar, / por la copla que mordemos, / semilla de inmensidad.

Y así, seguimos andando / curtidos de soledad. / Y en nosotros nuestros muertos / pa que nadie quede atrás.

Yo tengo tantos hermanos / que no los puedo contar, / y una novia muy hermosa / que se llama ¡Libertad!

“PREGUNTITAS A DIOS”

Un día yo pregunté: / ¿Abuelo, dónde esta Dios? / Mi abuelo se puso triste, / y nada me respondió.

Mi abuelo murió en los campos, / sin rezo ni confesión. / Y lo enterraron los indios / flauta de caña y tambor.

Al tiempo yo pregunté: / ¿Padre, qué sabes de Dios? / Mi padre se puso serio / y nada me respondió.

Mi padre murió en la mina / sin doctor ni protección. / ¡Color de sangre minera / tiene el oro del patrón!

Mi hermano vive en los montes / y no conoce una flor. / Sudor, malaria y serpientes, / es la vida del leñador.

Y que naide le pregunte / si sabe dénde esta Dios: / Por su casa no ha pasado / tan importante señor.

Yo canto por los caminos, / y cuando estoy en prisión, / oigo las voces del pueblo / que canta mejor que yo.

Si hat una cosa en la tierra / más importante que Dios / es que naide escupa sangre / pa’ que otro viva mejor.

¿Qué Dios vela por los pobres? / Tal vez sí, y tal vez no. / Lo seguro es que Él almuerza / en la mesa del patrón.

Zeca Afonso (1929-1987)



Algumas coisas estão tão coladas em mim que até me esqueço de divulgá-las, de espalhá-las… esses pequenos tesouros que temos sorte de tropeçar. Nem me lembro como conheci Zeca Afonso, acho que foi através de João Arruda, violeiro dos melhores aqui de Barão… Já vinha de antes, de sei lá que lugares do coração, essa paixão por Portugal (e Espanha). Conhecer o fado de Zeca foi abrir outras tantas portas e janelas de minha curiosidade sobre essa terra e povo (que se entrelaçam tão intimamente com nossa história e cultura.)

Oriundo do fado de Coimbra, Zeca Afonso foi uma figura central do movimento de renovação da música portuguesa na década de 1960. De caráter político ativo, Zeca ficou associado na memória portuguesa à Revolução dos Cravos, pois uma de suas composições, “Grândola, Vila Morena”, foi utilizada como senha pelo Movimento das Forças Armadas (MFA) para começar a revolução em 25 de Abril de 1974.

Mas seu envolvimento político já vem de antes: professor em Moçambique, foi preso várias vezes por desenvolver intensa atividade anticolonialista. Em 1963, as canções políticas “Os Vampiros” e “Menino do Bairro Negro”, que integravam o disco Baladas de Coimbra, seriam proibidos pela Censura. “Os Vampiros” viria a tornar-se um dos símbolos de resistência antifascista da época. Entre 1967 e 1970, mantém contato com a LUAR (Liga Unitária de Ação Revolucionária) e o Partico Comunista Português (PCP) o que lhe custará várias detenções pela PIDE (polícia política de Portugal).

Em 1983, quando Zeca Afonso já se encontrava doente, foi-lhe atribuída a Ordem da Liberdade, que o cantor recusou solenemente.

Abaixo seguem algumas coisinhas que selecionei: 1. “Grândola, Vila Morena” com sua letra. 2. Um vídeo com Zeca falando sobre o que achava de sua música ter sido a senha da Revolução dos Cravos. 3. Depois uma canção de protesto de Zeca sobre o “Alípio de Freitas”, padre português que veio para o Brasil e se tornou militante revolucionário durante a ditadura militar, participando da AP (Ação Popular). Essa canção dialoga diretamente com a situação do Brasil da época, era uma canção de protesto, uma canção de alerta internacional sobre o que ocorria no Brasil. Alípio só soube dessa canção em 79, quando ela já tinha rodado o mundo. Alípio acredita que essa canção foi, em grande parte, responsável por sua libertação do cárcere. (Alípio acompanhou seu amigo Zeca Afonso até os ultimos dias no hospital.) 4. E por fim, “Cantigas do Maio”, cantiga que fala das idas e vindas dos amores, seus sofrimentos e alegrias, baseada em quadras populares portuguesas. Essa canção marca outra faceta muito importante de Zeca Afonso: o resgate/recriação da cultura popular portuguesa, algo como faz o Dércio Marques no Brasil. 5. E por fim, mesmo, um poema de Zeca… o Zeca poeta ficou um tanto apagado diante do Zeca cantor. Poema lindo, de final forte.

1. “GRÂNDOLA, VILA MORENA”

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina, um amigo
Em cada rosto, igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto, igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola, a tua vontade

Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade

2. ZECA AFONSO FALA SOBRE “GRÂNDOLA”

3. “ALÍPIO DE FREITAS”

4. “CANTIGAS DO MAIO”

5. DOS MUITOS FILHOS GRADOS

Dos muitos filhos grados
que tiveste
nem um se lembra
da velha casa térrea
onde concebeste sem pecado
e estragaste os teus dias
entre a corda da roupa
a cozinha e o homem
Amanhã sem aviso
apanhas um eléctrico*
mudas de roupa
acompanhas
o trajecto dos astros
De repente
é o arco-íris em volta
o guarda-freio** a volúpia
a rua o beiral
duma grande família

Não voltes

* eléctrico: bonde
** guarda-freio: funcionário dos bondes

Pedro Tierra (Hamilton Pereira)




[…]
Porque sou o poeta
dos mortos assassinados,
dos eletrocutados, dos “suicidas”,
dos “enforcados” e “atropelados”,
dos que “tentaram fugir”,
dos enlouquecidos.

[…]

meu ofício sobre a terra
é ressuscitar os mortos
e apontar a cara dos assassinos. […]”
(Poema-prólogo, Pedro Tierra)

Graças a generosidade de uma amiga-camarada que, diante do meu insistente clamor, me emprestou seu recém comprado “Poemas do povo da noite”, estou podendo conhecer a poesia de Pedro Tierra. 🙂

Pedro Tierra foi preso pela ditadura em 72 acusado de “subversão” por sua ação junto à ALN (Ação Libertadora Nacional). Foi apenas libertado em 77, após passar por diversas prisões e por longos períodos de tortura. Foi através da poesia que Tierra conseguiu manter sua humanidade nos porões da ditadura:

“Era, então, a maneira de poder me olhar no espelho sem enlouquecer.”

Seus poemas descrevem sua resistência, sua luta pela vida nos calabouços, superando a tortura física e a tristeza de acompanhar o assassinato de diversos companheir@s (grande parte dos poemas são dedicados a companheiros e companheiras de cela e prisão assassinados.) Para escrever na cadeia teve que roubar lápis dos torturadores e escrever com letra miúda no papel dos maços de cigarro. De início, mandava seus poemas na cartas, mas estes eram interceptados pela censura. Passou então a utilizar um subterfúgio: escrevia dizendo que adorava muito as poesias de um poeta latino-americano chamado Pedro Tierra do qual transcrevia poemas selecionados (que eram seus próprios… na verdade, seu verdadeiro nome é Hamilton Pereira… mas, desde então, Pedro Tierra passou a ser seu pseudônimo). Mas, a maior parte de suas poesias saíam mesmo escondidas dentro de canetas bic. Uma primeira edição mimeografada, com prefácio do padre e poeta Dom. Pedro Casaldáliga, rodou clandestinamente o Brasil com Hamilton ainda preso e foi se tornando símbolo da luta pela anistia. “Poemas do povo da noite” recebeu, em 78, menção honrosa no prêmio Casa das Américas, de Cuba, e seguiu ganhando fama internacional sendo traduzida para diversas línguas.

Hamilton Pereira, ou Pedro Tierra, continua escrevendo e é militante do PT.

“Será que alguém já publicou nestes dez últimos anos de poesia e de noite, no Brasil, um livro de poemas mais verdadeiros, versos mais comprometidos com a vida, com a morte, com o Povo?” Dom Pedro Casaldáliga

Abaixo alguns poemas que me atraíram numa primeira aproximação:

HÁ UM LUGAR NA BARRICADA

Quando o povo bater à porta,
não te encontre com as mãos
vazias.

Confere as coisas embaladas: não
se permitem dúvidas nas bagagens
de guerra.

Se entre os companheiros ainda
há quem pergunte a razão
dos poetas,

encontra, primeiro, teu lugar na
barricada, depois, entre os combatentes,
aponta

o rosto enérgico de tua poesia.

TECENDO O CANTO

“… Hemos sembrado la tierra con muertos que sin duda florecerán…”
Alberto Szpunberg

Recolho no ar teu verso claro
à maneira dos cantadores
do meu país.

Hoje, silenciosa, a terra trabalha
seus mortos como quem nutre
sementes de luz.

Possa algum perseguido,
encerrado nos calabouços
da América

alcançar meu verso humilde
e comporemos o vasto coro
dos oprimidos.

Não importa que hoje nos tremam os lábios
e a voz caminhe incerta
pela garganta,

se amanhã o canto
romperá na boca
de milhões.

Recolho entre as mãos teu verso
como o fuzil do companheiro
tombado.

Não importa que o corpo
de cada morto plantado
tarde a florescer.

DOMINGO

Um dia silencioso.
Um desses dias frios,
de mortal tristeza,
o gesto de ódio fechado nos armários.

Um dia sem tortura normal
dos dias comuns.
No ar apenas a tensão palpável
dos seres sem defesa.

Um dia rigorosamente inútil.
Mas vem agora essa cantiga.
Uma vozinha miúda,
vinda não sei de onde,

e é como se todos a esperássemos.
Sabe tornar maior ainda o silêncio:
aqui um ato de amor
é sempre um desafio.

Como reconforta ouvir a voz
dessa menina sem nome.
Saber que resiste o brilho de seus olhos
iluminando a noite,

enquanto outras estrelas se reúnem
buscando nova luz.
Saber que a critatura humana resiste.
Saber que vencemos a última batalha.

OS MATERIAIS

Eu quis a palavra reta
feito faca.

Eu fiz do verso o corte branco
do metal.

O lento sal dos anos
não lhe roube o fio.

O inimigo não possa
empunhá-lo durante a luta.

Se o carrasco, algum dia,
levar aos lábios meu poema,

o vidro claro do verso
lhe corte a boca.

E a palavra não se renda
à tortura.

E quando eu disser: pedra,
não se entenda pão.

Quando eu disser: noite,
se encontre nela todo poder de treva.

Quando eu disser: eis o inimigo,
mate-o antes do amanhecer.

E ME INTERROGO…

Chego ao final do poema
e me pergunto
estará aí o material proposto?

Reconheço, o suor do corpo
talvez tenha roído
o fio do material.

Terei garantido o corte do verso?
Ou se perdeu a palavra
numa rede de lamentos?

Teus versos têm a mesma roupagem,
dirão. Certamente, responderei,
como os soldados em marcha.

Possa meu poema acender em cada um
alguma coisa além das fogueiras
que iluminam a frente de batalha…

Bella Ciao


………………………………………………………………………………..Partisans na Itália em 1945…………………………………………………………

Durante o curso de formação de monitores do 13 de maio, em que fiquei vários dias, cantávamos esta música quase todo dia: “Bella Ciao”!
Começávamos cantando lentinha, como no primeiro vídeo abaixo e depois íamos acelerando até onde podíamos, todos batendo palmas e pés no convento! (segundo vídeo no fim do post!). Essa música era cantada pelos partisans, tropas irregulares que se formavam a partir de homens e mulheres que resistiam contra tropas invasoras… uma música daqueles e daquelas que enfrentaram a morte, a luta pela liberdade de peito aberto, com a certeza alegre de que sempre continuamos no outro… dá pra imaginar a energia que essa música nos dava ao longo do curso! 🙂

Bella Ciao é uma música de origem controversa (pelo que pesquisei parece de origem irlandesa, propagada por ciganos) e que ganhou diferentes letras em diversas partes do mundo. Tornou-se mundialmente famosa com a letra dada pelos combatentes italianos (os partegianos, partisans) que resistiam contra os fascistas. Quem quiser saber mais sobre a origem da música pode olhar aqui.

Bella Ciao

Una mattina mi son svegliato,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Una mattina mi son svegliato,
e ho trovato l’invasor.

O partigiano, portami via,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
O partigiano, portami via,
ché mi sento di morir.

E se io muoio da partigiano,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E se io muoio da partigiano,
tu mi devi seppellir.

E seppellire lassù in montagna,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E seppellire lassù in montagna,
sotto l’ombra di un bel fior.

E le genti che passeranno,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E le genti che passeranno,
Mi diranno «Che bel fior!»

«È questo il fiore del partigiano»,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
«È questo il fiore del partigiano,
morto per la libertà!»

Adeus, Bela!

Esta manhã, acordei
Adeus, Bela! Adeus, Bela! Adeus, Bela! Adeus, adeus!
Esta manhã, acordei
E encontrei o invasor

oh guerrilheiro (ou resistente), me leve embora
Adeus, Bela! Adeus, Bela! Adeus, Bela! Adeus, adeus!
oh guerrilheiro, me leve embora
Pois sinto que vou morrer

E se morro como guerrilheiro
Adeus, Bela! Adeus, Bela! Adeus, Bela! Adeus, adeus!
E se morro como guerrilheiro
Você deve me enterrar

Enterrar lá em cima, na montanha
Adeus, Bela! Adeus, Bela! Adeus, Bela! Adeus, adeus!
Enterrar lá em cima na montanha
Embaixo da sombra de uma bela flor

E as pessoas que passarão
Adeus, Bela! Adeus, Bela! Adeus, Bela! Adeus, adeus!
E as pessoas que passarão
E dirão: que bela flor

É esta a flor do guerrilheiro
Adeus, Bela! Adeus, Bela! Adeus, Bela! Adeus, adeus!
É esta a flor do guerrilheiro
Morto pela liberdade

Os leninistas também amam


Sim, piada infame… e pra dar conteúdo a ela seguem 3 poemas de Brecht sobre amor e sexo (autor que, pralém de seus fantásticos poemas políticos, possui vários poemas eróticos). Brecht, ao contrário do tímido Cortázar, era um namorador… estava sempre acompanhado e não era incomum que desenvolvesse algumas relações concomitantes. Mas, segundo Konder (em “A poesia de Brecht e a história”), apesar da grande quantidade de amantes, Brecht possuía grande dificuldade para se envolver por inteiro nas relações.

Abaixo segue minha tra(b)dução da “Canção do sim e do não” do espanhol (comecei a traduzir do alemão, mas, como ainda sou um chucrutz nessa língua, desisti, demoraria muito). Talvez você ache que essa “Canção do sim e do não” se pareça com a letra de “Terezinha” de Chico Buarque (vídeo da música também abaixo)… e não é mera coincidência: “Terezinha” faz parte da “Ópera do malandro” que Chico elaborou inspirado na “Ópera dos 3 vinténs” de Brecht (onde consta a “canção do sim e do não”). Seguem mais dois poemas De Bertolt, um “erótico-herege”, e outro lindo, lindo, lindo sobre sua primeira namorada, Marie. No final, um brinde, uma curiosidade (como já é hábito aqui): Nina Simone cantando “Jenny e os piratas”, canção também da “Ópera dos 3 Vinténs” e que influenciou Chico na criação da famosa “Geni” da ópera do malandro (essa canção de Brecht também influenciou o argumento do filme “Dogville” de Lars Von Trier… lembram do final? Grace é a Geni, só que não salva a cidade, como na versão “light” do Chico, manda fuzilar todos!). Escutem e vejam as semelhanças!


Brecht e Kurt Weil, criadores da “Ópera dos 3 Vinténs”, que revolucionaram o genêro operístico ao trabalharem com personagens costumeiramente repudiados: prostitutas, ladrões, vigaristas etc.

1. CANÇÃO DO SIM E DO NÃO (Ópera dos 3 Vinténs – Brecht)

1.
Houve um tempo em que acreditava, quando ainda era inocente,
e o fui já faz tempo igual a você:
quiçá também alguém se chegue a mim
e então tenho que saber o que fazer.
E se tem dinheiro
e se é amável
e seu colarinho está limpo também de segunda a sexta
e se sabe o que merece uma senhora
então direi “Não”.
Há que se manter a cabeça bem alta
e ficar assim como se não se passara nada.
Certo que a lua brilhou toda a noite,
certo que a barca se desatou da margem,
mas nada mais pôde acontecer.
Sim, não se pode entregar-se simplesmente,
sim, há que ser fria e sem coração.
Sim, tantas coisas poderiam acontecer,
ai, a única resposta possível: Não.

2.
O primeiro que veio foi um homem de Kent
que era como um homem deve ser.
O segundo tinha três barcos no porto
e o terceiro estava louco por mim.
E ao possuir dinheiro
e ao ser amável
e ao levar os colarinhos limpos inclusive de segunda a sexta
e ao saber o que merece uma senhora,
lhes disse a todos: “Não”.
Mantive a cabeça bem alta
e fiquei como se não se passara nada.
Certo que a lua brilhou toda a noite,
certo que a barca se desatou da margem,
Sim, não se pode entregar-se simplesmente,
sim, há que ser fria e sem coração.
Sim, tantas coisas poderiam acontecer,
ai, a única resposta possível: Não.

3.
No entanto, um belo dia, e era um dia azul,
chegou um que não me pediu nada
e pendurou seu chapéu num prego de meu quarto
e eu já não sabia o que fazia.
E mesmo sem dinheiro
e ainda que pouco amável
e que seu colarinho não estivesse limpo nem sequer ao domingo
e nem mesmo soubesse o que merece uma senhora,
a ele não disse: “Não”.
Não mantive a cabeça bem alta
e não fiquei como se não se passara nada.
Ai, a lua brilhou toda a noite,
e a barca permaneceu amarrada à margem,
e não podia ser de outra forma!
Sim, não há nada além do que entregar-se simplesmente,
sim, não se pode permanecer fria nem sem coração.
Ai, tiveram que se passar tantas coisas,
sim, não pôde haver nenhum Não.

(tra(b)duzido da versão em espanhol de Jesús Munárriz y Jenaro Talens)

2. “Terezinha” de Chico Buarque

2. MARIA SEJAS LOUVADA, Brecht

Maria sejas louvada
Como és tão apertada
Uma virgindade assim
É coisa demais p’ra mim.

Seja como for o sémen
Sempre o derramo expedito:
Ao fim dum tempo infinito
Muito antes do amen.

Maria sejas louvada
Tua virgindade encruada
‘Inda me pões fora de mim.
Porque és tão fiel assim?

Por que devo eu, que dialho
Só porque esperaste tanto
Logo eu, o teu encanto
Em vez doutro ter trabalho?

(tradução de Ardilio Correia)

3. RECORDAÇÃO DE MARIE A., Brecht

Naquele dia, num mês azul de setembro
Em silêncio, à sombra da ameixeira
Eu a tomei nos braços, amor pálido e
Quieto, como um sonho formoso.
E acima de nós, no belo céu do verão
Havia uma nuvem, que olhei longamente
Era bem alva, estava bem no alto
Ao olhar novamente, desapareceu.

Desde então muitas luas passaram
Mostrando no céu seu alvor
As ameixeiras foram talvez cortadas
E se me perguntas para onde foi o amor
Respondo: Não consigo lembrar.
Mas sim, sei o que queres dizer
Suas feições, porém, para sempre se foram
Sei apenas que naquele dia a beijei.

E mesmo o beijo, já o teria esquecido
Não fosse aquela nuvem no céu
Dela sei e sempre saberei:
Era bem alva, estava bem no alto.
As ameixeiras talvez ainda cresçam
E ela agora deve ter muitos filhos
Mas aquela nuvem cresceu alguns minutos
Ao olhar novamente, desapareceu.

NINA SIMONE CANTA “Pirate Jenny” da Ópera dos 3 Vinténs

(1928) Bertolt Brecht, Kurt Weill

You people can watch while I’m scrubbing these floors
And I’m scrubbin’ the floors while you’re gawking
Maybe once ya tip me and it makes ya feel swell
In this crummy Southern town
In this crummy old hotel
But you’ll never guess to who you’re talkin’.
No. You couldn’t ever guess to who you’re talkin’.

Then one night there’s a scream in the night
And you’ll wonder who could that have been
And you see me kinda grinnin’ while I’m scrubbin’
And you say, “What’s she got to grin?”
I’ll tell you.

There’s a ship
The Black Freighter
with a skull on its masthead
will be coming in

You gentlemen can say, “Hey gal, finish them floors!
Get upstairs! What’s wrong with you! Earn your keep here!
You toss me your tips
and look out to the ships
But I’m counting your heads
as I’m making the beds
Cuz there’s nobody gonna sleep here, honey
Nobody
Nobody!

Then one night there’s a scream in the night
And you say, “Who’s that kicking up a row?”
And ya see me kinda starin’ out the winda
And you say, “What’s she got to stare at now?”
I’ll tell ya.

There’s a ship
The Black Freighter
turns around in the harbor
shootin’ guns from her bow

Now
You gentlemen can wipe off that smile off your face
Cause every building in town is a flat one
This whole frickin’ place will be down to the ground
Only this cheap hotel standing up safe and sound
And you yell, “Why do they spare that one?”
Yes.
That’s what you say.
“Why do they spare that one?”

All the night through, through the noise and to-do
You wonder who is that person that lives up there?
And you see me stepping out in the morning
Looking nice with a ribbon in my hair

And the ship
The Black Freighter
runs a flag up its masthead
and a cheer rings the air

By noontime the dock
is a-swarmin’ with men
comin’ out from the ghostly freighter
They move in the shadows
where no one can see
And they’re chainin’ up people
and they’re bringin’ em to me
askin’ me,
“Kill them NOW, or LATER?”
Askin’ ME!
“Kill them now, or later?”

Noon by the clock
and so still by the dock
You can hear a foghorn miles away
And in that quiet of death
I’ll say, “Right now.
Right now!”

Then they’ll pile up the bodies
And I’ll say,
“That’ll learn ya!”

And the ship
The Black Freighter
disappears out to sea
And
on
it
is
me

Amor e horror

O amor é algo tão forte, tão violentamente forte, avassalador, tão lindo e tão assustador, que aparece, em muitos dos meus escritos, como vida, mas vida que morre, como agonia prazerosa, gozo e último suspiro, como ameaça de dissolução, numa junção que oscila do macabro ao sublime. O amor aparece como horror, também, como um desejo deformador, que perverte os seres, as formas, que desfaz os limites da pessoalidade transformando o casal numa amorfa monstruosidade que vive do que de si devora. Em alguma medida, isso é o reflexo do que a sociedade faz com o amor. patologia. viver e morrer de amor. um amor canibal e egoísta, que se alimenta de si na figuro do “outro”, narciso.

Toquei nesse assunto porque, hoje, reencontrei em minhas anotações trechos do livro “Paixão Segundo G.H.” da Clarice, que selecionei justamente porque relacionam essa força da vida ao horror. Clarice, vem com o tempo, assumindo o peso de Fernando Pessoa dentro de mim… dos autores que tenho que estar preparado pra ler… que me dão medo, porque me traduzem onde eu não quero ser traduzido. Então seguem os trechos dela e, depois, um microconto meu, na verdade, um esboço de cena prum curta, uma alucinação que tive na Páscoa 😉 (que nem tem tanta relação com a questão do amor, mas um pouco com o horror em que nos habituamos a viver e nem percebemos). E pra fechar, a primeira parte de uma rara entrevista de Clarice Lispector. O olhar dela é aterrador, lindo e assustador! Procurem no youtube as outras 2 partes, vale a pena!

Trechos de “Paixão segundo G.H.” de Clarice

“Para a minha anterior moralidade profunda – minha moralidade era o desejo de entender e, como eu não entendia, eu arrumava as coisas, foi só ontem e agora que descobri que sempre fora profundamente moral: eu só admitia a finalidade – para a minha profunda moralidade anterior, eu ter descoberto que estou tão cruelmente viva quanto essa crua luz que ontem aprendi, para aquela minha moralidade, a glória dura de estar viva é o horror. Eu antes vivia de um mundo humanizado, mas o puramente vivo derrubou a moralidade que eu tinha? É que um mundo todo vivo tem a força de um Inferno.”

“Mas embora decepada, esta mão não me assusta. A invenção dela vem de tal idéia de amor como se a mão estivesse ligada a um corpo que, se não vejo, é por incapacidade de amar mais. Não estou a altura de imaginar uma pessoa inteira porque não sou uma pessoa inteira. E como imaginar um rosto se não sei de que expressão de rosto preciso? Logo que puder dispensar tua mão quente, irei sozinha e com horror. O horror será a minha responsabilidade até que se complete a metamorfose e que o horror se transforme em claridade. Não a claridade que nasce de um desejo de beleza e moralismo, como antes mesmo sem saber eu me propunha; mas a claridade natural do que existe, e é essa claridade natural o que me aterroriza. Embora eu saiba que o horror – o horror sou eu diante das coisas.”

“Estou mais cega do que antes. Vi, sim. Vi, e me assustei com a verdade bruta de um mundo cujo maior horror é que ele é tão vivo que, para admitir que estou tão viva quanto ele – e minha pior descoberta é que estou tão viva quanto ele – terei que alçar minha consciência de vida exterior a um ponto de crime contra a minha vida pessoal.”

“Mas é que a verdade nunca me fez sentido. A verdade não me faz sentido! É por isso que eu a temia e a temo. Desamparada, eu te entrego tudo – para que faças disso uma coisa alegre. Por te falar eu te assustarei e te perderei? Mas se eu não falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia.”

“Terá sido o amor o que vi? Mas que amor é esse tão cego como o de uma célula-ovo? foi isso? Aquele horror, isso era amor?”

Paixão (Jefferson Vasques – título sugerido por Márcia Teani)

esboço de micro-cena para um curta

este é o meu corpo. este é o meu sangue. ali, o arroz. costela abrindo. aqui, ó. os miúdos. quentes. o crocante. esbranquiçado. é pomba. mastiguem bem. vamos. sem cerimônias. tomai. e comei. todos vós. façam isso em minha memória. que cara é essa, mãe? pai, onde você vai? por que me abandona?

Parte 1 da entrevista de Clarice Lispector

Solano Trindade, o poeta negro


Aproveitando o embalo do post anterior, resgato outra matéria que fiz, só que, desta vez, para outro jornal, o “Mea Boca”, ótimo jornal, também de vida curta, do CALL (Centro Acadêmico de Letras e Linguística da Unicamp). É uma matéria sobre um poeta e artista brasileiro fantástico, mas terrivelmente esquecido: Solano Trindade. Lembro que na época, só consegui ter acesso a seus livros de poesia através de sua filha, Raquel, também fantástica artista popular. O texto é longo (novamente), mas vale a pena conhecer este que cumpriu no Brasil um papel muito similar ao do Nicomedes Santa Cruz, no Peru: de resgatar a força e a beleza da cultura negra. Ao final, um vídeo com sua filha Raquel declamando o famosíssimo “Tem gente com fome” que chegou a ser musicado pelos Secos & Molhados.

O Poeta NEGRO

“A leitura dos seus versos deu-me confiança no poeta que é capaz de escrever Poema do Homem e O Canto dos Palmares. Há nesses versos uma força natural e uma voz individual, rica e ardente, que se confunde com a voz coletiva.”
[ Carlos Drumond de Andrade, em carta a Solano, 02/12/1944 ]

Ele foi operário, comerciário, funcionário público, jornalista, poeta, cineasta, pintor, homem de teatro e um dos maiores animadores culturais brasileiros do seu tempo. Foi premiado no exterior e elogiado por celebridades como Carlos Drummond, Darcy Ribeiro, Otto Maria Carpeaux, Sérgio Milliet e tantos outros. Esse negro (e pobre) escritor recifense está hoje esquecido nos círculos culturais, apesar de tudo o que fez pela cultura brasileira, pelo resgate da arte popular e pela independência da cultura negra. Esquecido justamente porque fez dos seus versos, como de toda sua arte, “uma arma, um toque de clarim, que desperta as energias, levanta os corações, combate por um mundo melhor.”, nas palavras do sociólogo francês Roger Bastides. Este artista simples e contundente, genial e pobre, crítico e negro ainda não foi digerido por nossa inteligentsia. Nós, brancos, porque na universidade somos todos brancos, reverenciamos agora este negro poeta negro.

“Ainda sou poeta
meu poema
levanta os meus irmãos.
Minhas amadas
se preparam para a luta,
os tambores
não são mais pacíficos
até as palmeiras
têm amor à liberdade”.
(trecho do poema “Canto dos Palmares”)

O palco é Recife, 1908, apenas vinte anos após a abolição da escravidão. Ali, no humilde bairro de São José, no dia 24 de julho, enquanto seu pai batia sola e sua mana pisava milho no pilão para o angu das manhãs, nascia, co´a alma batizada pelos tambores, atabaques, gonguês e agogôs, o negro Francisco Solano Trindade.
Considerado por vários críticos o criador da poesia assumidamente negra no Brasil, Solano Trindade nasceu imerso na cultura popular pernambucana, fortemente marcada pelas raízes negras. Desde criança acompanhava seu pai, o sapateiro e cômico Manuel Abílio, nas danças do Pastoril e do Bumba-meu-boi e lia, a pedido de sua mãe Emerenciana, quituteira e operária, novelas, literatura de cordel e poesia romântica. O primeiro encontro sistemático de Solano com a poesia surgiu quando freqüentava a igreja presbiteriana. Logo, seus primeiros versos tratavam de assuntos religiosos. Algum tempo depois, rompeu com a acomodação da igreja em relação aos problemas sociais citando uma passagem do evangelho de João: “quem não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê”.

A década de 1930 no Brasil é marcada por uma releitura da questão racial brasileira, especialmente depois que Gilberto Freyre lança seu “Casa Grande & Senzala”. Intelectuais brancos tendem a valorizar a contribuição cultural dos descendentes africanos. Com esse cenário montado, em 1934, Solano, que desde cedo buscava compreender sua identidade e raízes, organiza o I e II Congressos Afro-Brasileiros no Recife e em Salvador. Funda ainda o Centro Cultural Afro-Brasileiro e a Frente Negra Pernambucana, uma extensão da Frente Negra Brasileira. Por essa mesma época publica os seus “Poemas Negros”.

Estátua de Solano Trindade em Recife-PE

POEMA AUTOBIOGRÁFICO

“Quando eu nasci,
Meu pai batia sola,
Minha mana pisava milho no pilão,
Para o angu das manhãs…
Portanto eu venho da massa,
Eu sou um trabalhador…

Ouvi o ritmo das máquinas,
E o borbulhar das caldeiras…
Obedeci ao chamado das sirenes…
Morei num mucambo do “”Bode””,
E hoje moro num barraco na Saúde…

Não mudei nada…”

Na década de 1940, depois de deixar o Recife, Solano fixa residência no Rio de Janeiro. Na cidade maravilhosa, frequentava o Café Vermelhinho onde se reuniam intelectuais, políticos e artistas. Ali era amigo de pessoas como o Barão de Itararé e Santa Rosa. Em meio a essa efervescência cultural, Solano funda o comitê Democrático Afro-Brasileiro, o Teatro Folclórico Brasileiro, lança, no auditório da UNE, a Orquestra Afro-Brasileira e cria o Teatro Experimental do Negro (TEN). Durante a estréia no Rio, em maio de 1945, o TEN sofreu violentos ataques dos conservadores. Em editorial, o jornal O Globo chegou a afirmar que se tratava de “um grupo palmarista tentando criar um problema artificial no País” referindo-se ao racismo que segundo o jornal não existia no Brasil. Para Darcy Ribeiro o TEN foi “um núcleo ativo de conscientização dos negros, para assumirem orgulhosamente sua identidade e lutar contra a discriminação”.

“A minha poesia continuará com o estilo do nosso populário, buscando no negro o ritmo, no povo em geral as reivindicações sociais e políticas e nas mulheres, em particular, o amor. Deixem-me amar a tudo e a todos”. (Solano)

Mais tarde (1950), Solano concretizou um dos seus grandes sonhos, fundando, com apoio do sociólogo Edson Carneiro, o Teatro Popular Brasileiro (TPB), cujo elenco era formado por operários, domésticas, comerciários e estudantes. O TPB apresentava espetáculos de batuques, congadas, caboclinhos, capoeira, coco e outras manifestações populares, viajando por toda a Europa. Em 1955 criou o Brasiliana, grupo de dança brasileira que bateu recorde de apresentações no exterior. Realizou ainda em Praga o documentário “Brasil Dança”.

Núcleo de Teatro Experimental do Negro-SP (1951) / Diretor Solano Trindade

OLORUM ÈKE **

“Olorum Ekê
Olorum Ekê
Eu sou poeta do povo
Olorum Ekê

A minha bandeira
É de cor de sangue
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Da cor da revolução
Olorum Ekê

Meus avós foram escravos
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Eu ainda escravo sou
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Os meus filhos não serão
Olorum Ekê
Olorum Ekê”

** Olorum Ekê: “povo do Santo forte”, termo Iorubá.

De volta ao Brasil, Solano vem a São Paulo e é convidado pelo escultor Assis para apresentar-se no Embu. Leva todo o seu grupo. Dormem no barracão de Assis nos finais de semana, quando mostram sua arte para multidões. Solano apaixona-se pelo Embu, muda-se para lá e sua casa torna-se uma núcleo artístico. É a atividade de Solano e do escultor Assis que faz surgir a feira de artesanato e revoluciona o local, fazendo do Embu “das Artes”, como passou a ser conhecido, um centro de cultura popular. Depois que Embu passou a ser atração mais turístico-comercial que artística, deixa a cidade e vai viver na capital paulista.

Como ator, trabalhou nos filmes “Agulha no Palheiro”, “Mistérios da Ilha de Vênus”, “Santo Milagroso” e “A hora e a vez de Augusto Matraga” e mais: foi co-produtor do filme “Magia Verde”, premiado em Cannes. No teatro, foi Solano Trindade quem primeiro encenou (1956) a peça “Orfeu da Conceição”, de Vinícuis de Morais, depois transformada em filme pelo francês Marcel Cammus com o nome de “Orfeu Negro”.

Solano construía, de forma indissociável sua vida política e sua veia artística. Possuía a felicidade dos homens que se dedicam a uma grande obra e se confundem com ela. Essa era sua ética, sua vida, sua luta, mais do que uma estética. Filiado ao Partido Comunista, Solano Trindade promovia reuniões da célula Tiradentes na sua própria casa. Durante a perseguição aos “vermelhos”, empreendida pelo governo Dutra, invadem sua casa. A polícia vira o colchão, à procura de armas. Exemplares de seus livros são apreendidos e o “Poemas de uma Vida Simples” é tirado de circulação. A filha Raquel lembra: “Papai jamais esconderia armas. Sua luta era feita com idéias”. Preso, por causa do poema “Tem gente com fome”, Solano não se abala. Raquel e a mãe, Margarida, percorrem as cadeias até encontrá-lo. Quando sai, Solano parece fortalecido. Embora tenha olhos tristonhos, seu otimismo é contagiante, nasce do seu amor pela arte e pela vida. Continua escrevendo, fazendo teatro e espalhando sonhos e esperanças por onde passa. Em 1964, um dos seus quatro filhos (Francisco) é assassinado numa prisão da didatura militar.

NEM SÓ DE POESIA VIVE O POETA **

“Nem só de poesia vive o poeta
há o “fim do mês”
o agasalho
a farmácia
a pinga
o tempo ruim, com chuva
alguém nos olhando
policialescamente
De vez em quando
um pouco de poesia
uma conta atrasada
um cobrador exigente
um trabalho mal pago
uma fome
um discurso à moda Ruy
E às vezes uma mulher fazendo carinho
Hoje a lua não é mais dos poetas
Hoje a lua é dos astronautas.”

** poema inédito até 2008, quando foi revelado por sua filha Raquel.

No início da década de 70, após o esvaziamento do Teatro Popular Brasileiro, Solano como sempre pobre e agora doente passa por vários hospitais. No dia 20 de fevereiro de 1974, o poeta morre como indigente, num hospital no Rio de Janeiro. Sua obra é reconhecida por poucos assim como sua morte, a ponto de sua produção sequer passar pelos portões das universidades, como acontece aqui na Unicamp. A literatura negra não tem “espaço” para estar nas salas de nosso instituto de letras: quantos negros temos no IEL? Quantos se interessariam? Em toda a Unicamp existe um único livro de Solano (no Instituto de Artes!)… doado pela própria filha, Raquel.

O reconhecimento de Solano vem mesmo do povo com quem lutou, vem do povo para quem se entregou. Em 1976, foi tema da escola de samba Vai-Vai, com enredo elaborado por sua filha. Os versos do samba ainda ecoam: “Canta meu povo, vamos cantar em homenagem ao poeta popular Vai-Vai é povo, está na rua saudoso poeta, a noite é sua.” Um das poucas tentativas de trazer de volta o nome de Solano Trindade para o grande público ocorreu entre 1975, quando o poema “Tem Gente com Fome” iria integrar o disco dos Secos & Molhados. Mas, como explicou João Ricardo (que musicou o poema), problemas com a censura impediram a gravação. Só na década de 80, Ney Matogrosso gravaria a canção.

A poesia de Solano o marcou. Orgulhava-se ser chamado de “poeta negro”. Foi comparado a importantes escritores como o cubano Nicolas Guilhén – de quem foi amigo – e o americano Langston Hughes. A fala poética de Solano Trindade, que não se afasta do realismo ingênuo e da solidão da vida cotidiana do povo, é sempre dominada pela intuição e fascinada pelo delírio da alma coletiva que canta com ternura e nobreza. Sua poesia enreda-se, quase sempre de maneira direta a um tema essencial: o anseio de liberdade tão próprio de sua etnia e tão latente em sua classe social, onde o poeta assume sem indiferença a sua circunstância em relação ao mundo.

As palavras escritas num poema à filha Raquel se tornariam proféticas: “Estou conservado no ritmo do meu povo. Me tornei cantiga determinadamente e nunca terei tempo para morrer.”

GRAVATA COLORIDA

“Quando eu tiver bastante pão
para meus filhos
para minha amada
pros meus amigos
e pros meus vizinhos
quando eu tiver
livros para ler
então eu comprarei
uma gravata colorida
larga
bonita
e darei um laço perfeito
e ficarei mostrando
a minha gravata colorida
a todos os que gostam
de gente engravatada…”

Raquel, Unicamp e Urucungos

Em 1988, Raquel Trindade foi convidada para lecionar na Unicamp, mesmo não tendo diploma universitário. Os conhecimentos transmitidos pelo pai ilustre e a luta contra a discriminação racial bastaram para que ela desse aulas de folclore, teatro negro e sincretismo religioso. “Quando cheguei lá”, conta Raquel “só tinha um negro na turma de graduação. Aí eu pedi à Universidade para que fosse criado um curso de extensão para que eu pudesse ensinar folclore à comunidade negra e às outras graduações”.

Na primeira turma de extensão universitária houve 170 inscritos para ouvir sobre folclore nacional e cultura negra. Para Raquel, samba precisa ser ensinado, sim. “Há coisas que as pessoas precisam saber. Precisa falar dos escravos de Campinas, da Fazenda Barão Geraldo, da Santa Genebra, Rio das Pedras. Lá, os escravos faziam rodas de samba de bumbo nas horas vagas. Precisa contar a história da dança, também. Nas Escolas Lavapés e Vai-Vai, o samba era dançado mais nos quadris do que nos pés. O samba de agora é todo copiado do Rio de Janeiro”.

A partir da procura pelo curso que passou a ministrar na Unicamp, a folclorista teve a idéia de criar o grupo Urucungos, puítas e quinjengues. Esses são nomes de instrumentos bantos que foram trazidos pelos escravos para São Paulo. “O Urucungo é composto de negros da comunidade, de funcionários da Unicamp, alunos e professores”. A maior parte das danças do grupo foram pesquisadas e criadas por Raquel. O grupo existe até hoje. Raquel parou de lecionar na Unicamp pois não agüentou o preconceito academicista que exigia saberes “diplomados” e “certificados”.

“Tem gente com fome” de Solano lido por sua filha Raquel

Revolucionaria mente: José Martí (1835-1895)

Estátua de José Martí no Central Park (Nova Iorque-EUA)

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Achei, aqui nos meus arquivos, uma matéria que fiz sobre José Martí para o finado jornal GERAIS que circulou pelo movimento estudantil da Unicamp, anos atrás, apenas por 3 edições, mas que marcou época, sendo uma das iniciativas de comunicação política melhor elaboradas que já acompanhei, e, também, das mais ambiciosas: chegamos a ter 10 mil exemplares (na época, acho que o jornal Brasil de Fato nem chegava a tanto!). Bom, apesar do título piegas, a matéria é boa (e grande!). Descreve um pouco da vida de José Martí, esse que é dos maiores lutadores e escritores de “Nuestra América”; trata da tensão entre vida e arte, colocando na mesa, novamente, o debate entre duas grandes posturas literárias: a da palavra-signo-sagrada e a da palavra-verbo-encarnado; e, por fim, discute a ética de sua estética, ou vice-versa. [Confesso que vejo um pouco de exagero apaixonado na minha interpretação da estética de Martí, mas, no geral, ainda gosto :)]. Aproveitei e traduzi os dois poemas que, à época, foram divulgados em espanhol mesmo. Tome fôlego e conheça essa figura fundamental de seu continente! Ao final, de brinde, vai um vídeo com a poesia “Versos Sencillos” de Martí (que deu origem a conhecidíssima “Guantanamera”) numa outra versão, menos conhecida, musicada por Pablo Milanes e cantada por Sara Gonzales.

Revolucionaria mente: José Martí (1835-1895)

AO MORRER em combate, em 19 de maio de 1895, no local conhecido como Dois Rios, no oriente cubano, na guerra que havia preparado contra a Espanha, José Martí tinha apenas 42 anos e já se convertera em um dos grandes heróis de “Nossa América”. Um dia antes, em carta inconclusa a seu amigo mexicano, Manuel Mercado, escreveu:

“Estou todos os dias na iminência de dar a vida por meu país e por meu dever – pois essa é a minha decisão e estou disposto a realizá-la – de impedir a tempo, com a independência de Cuba, que os Estados Unidos estendam seu domínio pelas Antilhas e caiam, com essa força mais, sobre Nossa América. Tudo quanto fiz até hoje, e continuarei fazendo, é para realizar essa missão (…) impedir que em Cuba se abra, pela anexação dos imperialistas e dos espanhóis, o caminho que facilitará – e com o nosso sangue não permitiremos – a anexação dos povos de Nossa América pelo Norte violento e brutal que os deprecia…”

Desde sua adolescência foram grandes as lutas e os sacrifícios pela independência de Cuba e a felicidade de todos os cubanos. Com apenas 16 anos tornou-se preso político e, pouco tempo depois, com a deportação, teve início seu exílio. Num longo peregrinar por países da América Latina e Caribe aprendeu a conhecer e a amar os povos de Nossa América, desde o Rio Bravo até a Patagônia, e a lutar por sua integração. Amou sua pátria tanto como a todas e a cada um dos povos irmãos da América Latina e Caribe. Nos legou seu conceito universal de pátria: “Pátria é humanidade”.

Por sua fidelidade à defesa dos interesses dos povos latino-americanos, os governos do Uruguai, Paraguai e Argentina o designaram Cônsul dos seus países em Nova York. O Uruguai o nomeou, além disso, seu representante na Conferência Monetária Internacional, que se realizou em Washington; e de tal forma se destacou que se tornou o responsável pela derrota da tese dos Estados Unidos, que se propunham a ser os maiores produtores de prata, e defendiam o bimetalismo das moedas (que poderiam ser fundidas em ouro ou prata), o que tornaria os países latino-americanos dependentes, de forma quase exclusiva, dos Estados Unidos e alijada de maior aproximação com os países europeus. Os mais de 15 anos vividos nos Estados Unidos permitiram-lhe apreciar as virtudes do seu povo e os projetos expansionistas dos seus dirigentes: “vivi dentro do monstro e conheci suas entranhas”.

A palavra de Martí é a todo o momento um instrumento educador de primeira ordem, e a educação que o interessa é a que conduza o homem latino-americano a ser dono de si, universal e livre por sua cultura, autóctone por seus valores, lúcido ante todos os perigos, fraterno com todos os homens de boa vontade. Sua proximidade das dores e virtudes da raça negra na América e do esplendor destruído das culturas indígenas está na base do seu profundo americanismo literário. Sentia-se espiritualmente mestiço, irmão do escravo, do preso e do pária.

Entendeu a América por dentro, o que se pode ver em suas assombrosas evocações das “Las ruínas índias” ou de “La pampa”. Partindo dessa capacidade de identificação através do tempo e do espaço, pôde chegar a ser o primeiro latino-americano, filho de todos os povos do continente e das ilhas do Caribe, primogênito de Bolívar e pai de Davi, das ilhas Turcas, que dele se despediram chorando.

Arte & Vida irmanadas

“Quem é o ignorante que sustenta que a poesia não é indispensável aos povos? Há pessoas de tão curta visão mental, que crêem que toda a fruta se resume a sua casca. A poesia, que congrega ou desagrega, que fortifica ou angustia, que sustenta ou demoli as almas, que dá ou tira dos homens a fé e o alento, é mais necessária aos povos que a própria indústria, pois esta lhes proporciona o modo de subsistir, enquanto que aquela lhes dá o desejo e a força da vida.” José Martí

Estátua de Martí em Cuba

Nas mais significativas páginas de José Martí, desde “El presídio político en Cuba” (1871) até seu último “Diário de Campaña” (1895), o conteúdo revolucionário e a criação artística resultam inseparáveis. Nasce desse feito a grande dificuldade para apresentar uma seleção de sua obra especificamente “literária”, da qual deveriam ser excluídos aqueles textos políticos (artigos como “Nuestra América”), discursos (como “Con todos y para el bien de todos”), e os testemunhos de sua ação revolucionária em cartas e diários. São exatamente nesses textos onde se encontram, com freqüência, o mais fecundo e o mais perdurável de sua expressão.

Compreendemos, então, que o cerne dessa dificuldade consiste na essência de Martí como escritor, caracterizado por uma obra em que literatura e revolução, literatura e serviço, literatura e redenção histórica do homem são elementos inextrincáveis, unidos desde o impulso original da palavra. A rigor não é possível despojar nenhuma página de Martí de seu caráter nativamente ético, moralizador, e, em seu sentido mais profundo, político e revolucionário. Tal é a substancia mesma de sua palavra, tanto em sua obra lírica, como na periodística, como na obra de propaganda e de conscientização para a guerra libertadora e antiimperialista.

Em Martí, vida e arte, realidade e imaginação são irmãs:

Duas Pátrias

Duas pátrias tenho eu: Cuba e a noite.
Ou são uma as duas? Mal retira
sua majestade o sol, com largos véus
e um cravo na mão, silenciosa,
Cuba, qual viúva triste me aparece.
Eu sei qual é esse cravo sangrento
que em sua mão treme! Está vazío
meu peito, destroçado está e vazío
onde estava o coração. Já é hora
de começar a morrer. A noite é boa
para dizer adeus. A luz estorva
a palavra humana. O universo
fala melhor que o homem.
Como bandeira
que convida a batalhar, a chama vermelha
da vela flameja. As janelas
abro, já apertado em mím. Muda, rompendo
as folhas do cravo, como uma nuvem
que turva o céu, Cuba, viúva, passa…

Um outro modernismo

Nos mesmos anos em que Stéphane Mallarmé levava até suas últimas conseqüências o sentido sagrado, ou até mesmo religioso, da escritura, José Martí dava um exemplo magno da escritura como encarnação.

O primeiro parece inscrever-se na linhagem iniciada no Ocidente pelo Oráculo de Delfos que, segundo Heráclito, “não diz, nem oculta, apenas sinaliza”: essência do signo como ídolo da literatura, que vem desde o hieróglifo até a letra impressa (e seus brancos).

O segundo pode remontar-se originariamente à idéia evangélica do verbo encarnado a serviço dos homens. Dessa idéia evangélica, excluindo-se o sentido teológico, se desprende uma concepção da palavra humanizada como participação e sacrifício no mundo laico e político. Sua escritura não é portadora de uma liturgia senão de uma paixão; não se define pela espacialidade senão pela temporalidade; não tem um interesse icônico, senão um impulso missionário e redentor. Deste modo, Martí se situa na antípoda da tendência dominante nas décadas finais do século XIX – parnasianismo, decadentismo, modernismo em sua primeira fase -, para converter-se no maestro e arauto de uma literatura de serviço e agonia cujo fundamento não é o signo mas a voz, como ocorrerá também, por exemplo, em Miguel de Unamuno e em César Vallejo.

O que está presente em todas as páginas de Martí, o que não falta nunca, nos escapa. Não nos escapa por sutileza de conteúdo (seu pensamento é sempre claro) nem por obscuridade da expressão (sua palavra é sempre radiante). Nos escapa por sua presença, como a luz em que se encontra imersa uma paisagem. Gostaríamos de apresentar essa luz, saber o que significa, o que nos diz. “O discurso do escritor – observa Roland Barthes – diz o que diz mas também diz que é literatura”. Não é assim o caso de Martí. Sua literatura não diz que é literatura (mesmo que também o seja): por debaixo de seus outros dizeres, diz que é vida, que é compaixão, que é homem. Ou melhor, não diz em realidade: é vida, é homem, é fome e sede de justiça. Sendo se diz: não há fissura para um distanciamento do ser e do dizer. A estética de Martí fulmina a ficção, encarna o que diz e nos remete sempre a um campo de luta extra-literário: o da eticidade militante.

Meus versos vão revoltos…

Meus versos vão revoltos e acesos
como meu coração: bom é que corra
manso o arroio que em fácil plano
entre gramas frescas desliza:
Ai!; mas a água que do monte vem
arrebatada; que por fundas fendas
desce, destroçada; que em sedentos
pedregulhos tropeça, e entre rudes
troncos salta em quebrados borbotões,
Como, despedaçada, poderá logo
qual cão de salão, jorrar submissa
no jardím podado com as flores,
ou em aquário de ouro ondear alegre
para o querer de damas cheirosas?

Inundará o palácio perfumado,
como profanação: entrará como fera
pelos brilhantes gabinetes, onde
os bardos, lindos como abades, fiam
tenras quintilhas *1 e rimas doces
com agulha de prata em branca seda.
E sobre seus divãs espantadas
as senhoras, os pés de meia suave
recolherão, – enquanto a água turva,
falsa, como tudo o que expira,
beija humilde o chapín *2 abandonado,
e em bruscos saltos alterada morre!

*1: forma poética de 5 versos
*2: calçado exótico, típico da nobreza

Eticidade Militante


Escrever a partir do que vem de si seria a única maneira de manter a palavra viva. Glosando um apontamento de Martí, se pode afirmar que para “renovar a forma poética” (em verso ou prosa) se faz necessário “escrever vivendo”, o que significa, no contexto martíniano, escrever o que a vida nos dita com estrita fidelidade às suas formas fluídas, à sua mutante natureza e sentido; e, também, assumindo e amando a realidade, em perene combustão de sacrifício. Não esqueçamos como sintetizou Martí sua própria vida: “Tenho padecido com amor”. Esta identificação de Arte e Vida, de forma e amoroso sacrifício é sua principal diferença com o tipo de modernismo representado em Cuba por Julian Del Casal, e desde logo com as correntes parnasianas, esteticistas e arte-puristas. Essa identificação, por sua vez, exige dois princípios: “a expressão sincera” e “o pensamento livre”.

A sinceridade de Martí não é somente um valor ético, mas também estético, enquanto inclui os valores de fidelidade e participação, isto é, comprometimento. O ajuste intrínseco entre conteúdo e forma se origina na verdade do estilo, e essa verdade só pode ser alcançada mediante a participação efetiva. Essa liberdade, com sua retórica sempre em estado nascente e criador, tem que romper sem cessar as travas da outra retórica, a esclerosada e escravizadora.

Em Martí se apresenta as sementes do que poderá ser nossa literatura quando a justiça e a arte puderem realmente consumar-se e coincidir. Uma literatura dona da imaginação assim como da realidade, cujo centro seja o homem inteiro e novo, trabalhador e artista, amoroso e justiceiro. Martí era um homem comprometido e desse comprometimento nascia sua liberdade. Suas palavras assim foram, livres e comprometidas:

“Não há letras, que sejam expressão, enquanto não houver essência que expressar nelas. Nem haverá Literatura Hispano-Americana, enquanto não houver Hispano-América”.

“Versos sencillos” de Martí/Pablo Milanés cantado por Sara Gonzales

Leonard Cohen II

Puta merda! Teve um show em Londres, ano passado, com o velhinho (e charmosíssimo) Cohen alucinando como nunca no palco. Show de consagração, maravilhoso! Abaixo coloco apenas 1 música desse show e sua tradução, mas vale a pena olhar o show todo no youtube. Há relatos na web que esse foi um dos melhores shows do Cohen, com público chorando descompassadamente, sendo que “Hallellujah” teria sido o ponto alto da noite. Por isso escolhi essa música e também porque é a que melhor expressa a mistura dramática que Cohen faz entre a busca pelo amor e a busca pelo sagrado (ambos, aparentemente, sempre impossíveis de se alcançar, ou inexistentes). É como se Cohen estivesse sempre ajoelhado diante de suas mulheres como um judeu ajoelhado diante de seu Jeovah raivoso ou indiferente. Sugiro uma leitura atenta do texto, percebendo todas as referências ao texto bíblico, a situação amorosa do eu-lírico, o erotismo mesclado a veneração espiritual… uma das melhores composições de Cohen!

Pra entender melhor essa música é preciso sacar um pouco da história de David… aqui vai um minúsculo resumo pra se situar: David&lt aparece, inicialmente, na narrativa bíblica como tocador de harpa. Mandava muito bem o garoto, compondo músicas e poesias em louvor à deus (David compôs os salmos… lembre que o termo Aleluia aparece lá e significa “Louvem a Jah (abreviatura de Jahve)”).Tocava tão belamente que fazia as ovelhas adormecerem (era pastor), acalmava o rei de Israel, Saul, e até exorcisava os demônios dos possuídos. E você deve lembrar, também, que foi esse mesmo David que derrotou Golias e assim pôde se casar com a filha do rei e, depois, se tornar o rei de Israel. Certa noite o rei David, que tinha fama de “catador” (há boatos biblícos de que por ele teriam passado mais de 400 mulheres – olha aí o paralelo de novo com o Cohen e sua música!), se encantou por Betsabá (uma das mulheres mais gostosas do velho testamento). Ele tava em cima do telhado e a viu se banhando em seu quintal do jeito que o diabo… ah, vc sabe, né… (há uma discussão entre os devotos (dicussão a-la-Capitu) se Betsabá não teria se banhado ali de propósito para atiçar o desejo do rei David… mas, só deus mesmo sabe dos movimentos do coração de uma mulher, ou nem ele…). Como David era rei e podia tudo, forçou-a a se entregar e a conheceu no mais puro sentido bíblico. Bet engravidou, claro. Só que tinha um probleminha: ela era casada! Pra esconder a cagada David mexe uns pauzinhos e manda o marido de Bet, que era soldado, pra batalha mais sangrenta de toda a guerra de unificação de Israel. E pronto, o cara morre ali. Todos esses pecados foram desmascarados pelo profeta Natã, enviado direto do senhor. David se arrepende (demonstra arrependimento sincero) e passa a amar mais ainda a deus e sua justiça (mesmo tendo essa justiça ceifado a vida de seu filho, resultado do adultério com Betsabá).



“Hallellujah”

Now I’ve heard there was a secret chord
That David played, and it pleased the Lord
But you don’t really care for music, do you?
It goes like this
The fourth, the fifth
The minor fall, the major lift
The baffled king composing Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

Your faith was strong but you needed proof
You saw her bathing on the roof
Her beauty and the moonlight overthrew you
She tied you
To a kitchen chair
She broke your throne and she cut your hair
And from your lips she drew the Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

Well maybe there’s a god above
But for me all I’ve ever learned from love
Is how to shoot someone who outdrew you
And it’s not a cry that you hear tonight
It’s not some pilgrim who claims to see the light
It’s a cold and it’s a broken Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

Baby, I’ve been here before
I know this room and I’ve walked this floor
You see, I used to live alone before I knew you
I’ve seen your flag on the marble arch
But love is not a kind of victory march
It’s a cold and it’s a broken Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

Well there was a time when you let me know
What’s really going on below
But now you never even show it to me do you
But remember when I moved in you
And the holy dove was moving too
And every breath we drew was hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

I’ve done my best, i know it wasn’t much
I couldn’t feel, so I learned to touch
I’ve told the truth, I didn’t come (here to London) just to fool you
And even though
It all went wrong
I’ll stand before the Lord of Song
With nothing on my tongue but Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

Tradução – Aleluia

Agora eu soube que havia um acorde secreto
Que David tocava e agradava ao Senhor
Mas você realmente não liga para música, não é?
É assim:
A quarta, a quinta
A menor cai,  A maior sobe (além da conotação músical, pode ser traduzido como: uma ‘pequena queda’ e ‘uma grande restauração (erguida)’, como David que cai e depois restaura sua aliança com deus)
O rei perplexo compondo Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia

Sua fé era forte mas você precisou de provas
Você a viu tomando banho do telhado
A beleza dela e a luz do luar te arruinaram
Ela amarrou você
numa cadeira de cozinha
Ela destruiu seu trono e ela cortou seu cabelo (Sansão, cujos cabelos lhe davam poder, também cai em troca de uma paixão… mais um personagem que cai por uma mulher)
E de seus lábios ela extraiu a Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia

Bem, talvez exista um Deus lá em cima
Mas tudo que sempre aprendi do amor
Foi como atirar em alguém que te “desarmou” (ou traiu, ou alguém que sacou a arma primeiro… não há uma tradução direta para “outdrew”)
E não é um choro que você ouve esta noite
Não é um peregrino que clama pra ver a luz
É um frio e é um despedaçado Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia

Baby, eu já estive aqui antes
Eu conheço este quarto e andei neste chão
Eu costumava viver sozinho antes de te conhecer
E eu vi sua bandeira no arco de mármore
Mas o amor não é uma Marcha da Vitória  (lembre que David unifica Israel pela guerra, em nome do senhor!)
É um frio e despedaçado Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia

Bem, houve um tempo em que você me deixava saber
O que realmente se pasava aí abaixo (por baixo, dentro)
Mas agora você nunca nem mesmo me mostra, não é?
Mas se lembre de quando eu me movia em você (me instalei em você)
E a pomba sagrada (espírito santo)  também se movia em você
E cada respiração exalada era Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia

Eu fiz o meu melhor, não foi muito
Eu não podia sentir, então aprendi a tocar
Eu disse a verdade, eu não vim te enganar
E mesmo assim
Deu tudo errado
Eu vou ficar diante do Senhor da Música
Sem nada na minha língua a não ser Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia