Charles, o Buk

Recauchutando tra(b)duções…
>Pássaro azul no meu coração (Bukowski)
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou muito durão,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém te ver.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu derramei whisky em cima dele
e inalo fumaça de cigarros
e as putas e os empregados do bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou muito durão,
e digo, fica aí escondido,
quer me arruinar?
quer fuder o
meu trabalho?
quer arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou muito esperto,
e só o deixo sair à noite
às vezes
quando todos estão dormindo.
e digo, eu sei que você está aí,
por isso
não fique triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta pouco lá dentro,
não o deixo morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,

e você?

À medida que os poemas vão

a medida que os poemas vão aos milhares você
percebe que criou muito
pouco.

A morte está fumando meus charutos

você sabe: estou bêbado mais uma vez
aqui
escutando Tchaikovsky
no rádio.
Jesus, eu o escutei 47 anos
atrás
quando eu era um escritor faminto
e aqui está ele
de novo
e agora eu sou um pequeno sucesso como
escritor
e a morte está andando
pra cima e pra baixo
nesse quarto
fumando meus charutos
tomando goles do meu
vinho
enquanto Tchaik trabalha
na Pathétique,
foi uma boa caminhada
e se eu tive alguma sorte foi
porque joguei os dados
direito:
me esfaimei por minha arte, me esfaimei pra
ganhar 5 malditos minutos, 5 horas,
5 dias –
eu só queria colocar a palavra
ali;
fama, dinheiro, não importavam:
eu queria a palavra ali
e eles me queriam numa prensa hidráulica,
numa linha de montagem
eles queriam que eu fosse estoquista numa
loja de departamentos.

bem, a morte diz, enquanto anda ali,
eu vou te pegar de qualquer jeito
não importa o que você foi:
escritor, taxista, cafetão, açougueiro,
pára-quedista, eu vou pegar
você…

o.k., baby, eu respondo.

nós bebemos juntos agora
enquanto 1 da manhã desliza até 2
da manhã e
só ela sabe o
momento, mas eu apliquei um golpe
nela: tive meus
5 malditos minutos
e muito
mais.

 

Estevão Daminelli (Brasil)

Dando continuidade às coletâneas de poetas vivos, camaradas e amigos que venho conhecendo ao longo do tempo, segue agora seleção de poesias de Estevão Daminelli, dos artistas mais ativos e criativos que conheci (e olha que nos conhecemos pouco!). Você pode conhecer mais da poesia do Estevão no Boi Morto e de suas canções no Macabeu Samsa.

As baratas fazem casas no abandono

As baratas fazem casas no abandono
na lembrança terna e frágil dos momentos
nos guardados e nos velhos documentos
e nos íntimos vapores do teu sono

Quando é noite e o silêncio nos abraça
como é doce nosso lar em hora morta!
Aos cupins o que sobrou da porta;
mariposas estampadas na vidraça

Vem o tempo e de repente somos nada.
De repente nunca mais dias felizes.
No armário jaz a roupa embolorada;

e não te doem mais as cicatrizes,
pois pra sempre vais olhar a grama
por um ângulo incomum: pelas raízes…

Zoogonia

intranquilo, anêmona de zinco
pulso e esquecimento
ateio fósforo-absinto ao vento

albatroz-pantera estranha
tu entranha-me o fumo
atroz do sonhamento

tua sede anima minha
sede a minha
fome anima
tua fome

animal de passos densos
que pensado
como que
desen
cantado
some

Réquiem sujo

poeta de carne e história
vou te compor uma desomenagem
à maneira de lírios ou crisântemos
que se oferece aos que já foram

este lamento fúnebre
dedico antes
não ao teu corpo
você não está morto
provavelmente ainda caga e fede
– ainda chora?
não é tua dimensão orgânica que pranteio
mas a porção que canta
– ainda canta?
suja, entre as ruínas e o espanto
da precariedade da vida
da servidão que desumaniza
do óleo asqueroso que se acumula entre os séculos

poeta de tempo e fígado
canto a morte não do titulo
os nomes morrem todos os dias
não a morte do ofício
enquanto existirem pedras no caminho,
nascerão josés todos os dias
mas a lenta e desencantada morte no teu peito
de uma idéia que também é minha
barganha perecível como estrelas
bela como estrelas
substância sem mercadoria
pois facilmente subtrai-se:

uma bandeira
um grito
um ribamar

e no granito da inércia
sobram duas rimas

pode ser ferreira
pode ser gullar

Desígnios Terceiros

ACORDO,
as luzes vívidas deflorando-me a retina
carne, carbono, linho.
morrendo.
eu, capital humano
de cujas mãos toda labuta não me nutre
em cujas células repousa uma fagulha
de existencia alguma.
estrangeiro de meu ser, LEVANTO.
não cabe chorar, não resta sentido no rastro de lágrimas.
engulo carne e graõs. morrendo.
me lavo e me visto e me faço apresentável
e sigo morrendo.

encontro fantasmas mirrados
alimentando no fundo de seus estômagos
um verme de esperança e medo.
e como sintoma de uma aguda miopia
o sorriso lhes corta a face:
ardil perverso
a pretesto de ostentar as presas.

-vejam estas 32 pérolas de cinismo esmaltado,
marfim amargo entre os lábios entreabertos.

triste ver um riso opaco, sem eco de razão que o legitime.
mas ainda sobre pernas, pele, cabelo e víceras, SIGO.

caminho entre coisas da civilização,
e sinto-me um macaco, cada dia mais.
chego a meu destino, cemitério de objetos funcionais
e objeto-me em função de anseios outros,
desígnios terceiros, alheios aos meus.
a certeza do final do dia,
o amor que se renova como apêndice de um roteiro
em que seres se debatem cegos.

consumir e sumir
consumir e sumir
consumir e sumir
consumir e sumir

beba, compre, venha, creia,
não perca, não pise, viva o melhor.
imperativos
como bocas a nos engulir completamente.
nada mais é livre de gerar receita:
sentimentos a granel, em tantas vezes sem juros.

em meio a este árido mercado de emoções,
volto para casa, morrendo, ciente de que contribuí
para a manutenção da propriedade.
em silêncio.

 

Zé Castanha e Maria do Espírito Santo

Abaixo um poema do querido Gera, de quem preciso selecionar uns poemas urgentemente pra divulgar aqui no Passarin! O poema trata do assassinato recente do casal de ambientalistas no Pará. Esse casal vinha denunciando a ação ilegal das madeireiras na região.

Zé Castanha e Maria do Espírito Santo

Foi assim
eles estavam no caminho de casa
na moto velha de guerra
talvez conversando sobre banalidades
dessas que a gente fala todo dia
o que fazer pra comer
o preço do leite
o filho doente
o futuro.

Então quase ninguém ouviu
vindos do escuro, escondidos,
os ruídos repetidos sem cessar
desde o descobrimento
da Nossa América.

A vida deve sempre
dar lugar ao progresso.
Não é o bagre bigodudo
presente só no afluente do afluente do grande rio,
não é só a castanheira, o açaizeiro,
é o homem, a mulher,
o casal que hoje não volta pra casa.

Vai ver prendem uns pistoleiros
depois de dois anos regime semi-aberto,
de mil dos poderosos prendem um,
aguarda os mil recursos em liberdade.

Antes fosse a lei da selva!

Agora quem vai tirar
da cabeça das pessoas
esse progresso-trator infinito,
vai arrastando tudo
mata-mata-mata
preto, branco, índio, mestiço
mata floresta
mata cerrado
mata água
mata terra
mata ar?

Zé Castanha não colhe mais,
o boi do desenvolvimento
quer pastar no seu quintal.
A Maria foi mesmo pro Espírito Santo,
deixou o caminho aberto
pra moto-serra zunir
e fazer do Brasil potência.

O futuro deles não veio,
o nosso está aí por fazer.

Poema de Geraldo Witeze (http://www.sobreaspalavras.blogspot.com/)

 

Do amor…

Um trecho de Rayuela, de Cortázar, tradução de Fernando de Castro, indicação da apaixonada Tatiana Vargas! 😉

Mas o amor, essa palavra… Moralista, Horácio, temeroso de paixões sem uma razão de águas fundas, desconcertado e arisco na cidade onde o amor se chama com todos os nomes de todas as ruas, de todas as casas, de todos os andares, de todos os quartos, de todas as camas, de todos os sonhos, de todos os esquecimentos ou recordações. Amor meu, não te amo por ti nem por mim nem pelos dois juntos, não te amo porque o sangue me faça te amar, amo-te porque tu não és minha, porque tu estás do outro lado, desse lado para onde me convidas a saltar e não posso dar o salto, porque no mais profundo de tudo tu não estás em mim, e não te alcanço, não consigo passar para lá do seu corpo, do teu riso, há horas em que me atormento por saber que tu me amas (como gostas de usar o verbo amar, com que pretensão vais deixando cair o verbo amar sobre os pratos, os lençóis e os ônibus), atormento-me com o teu amor que não me serve de ponte, pois uma ponte não se apóia de um lado só, Wright ou Le Corbusier jamais farão uma ponte apoiada de um só lado e na me olhes assim com esses olhos de pássaro, para ti a operação do amor é muito fácil, tu ficarás curada antes de mim, e a verdade é que não amo aquilo que amas em mim. É claro que tu depressa te curarás, porque vives na saúde, depois de mim será outro qualquer, isso muda como os espartilhos. É tão triste ouvir o cínico Horácio que deseja um amor passaporte, amor alpinista, amor chave, amor revólver, amor que lhe dê os mil olhos de Argos, a ubiqüidade, o silêncio no qual a música é possível, a raiz na qual se poderia começar a tecer uma língua. E é ridículo porque tudo isto dorme um pouco em ti, seria suficiente submergir-te num copo de água, como uma flor japonesa, e estou certo de que, pouco a pouco, começariam a brotar pétalas coloridas, as formas curvas aumentariam, a beleza cresceria. Doadora de infinito, eu não sei tomar, perdoa-me. Tu parece oferecer-me uma maçã e eu deixei os dentes sobre a mesa de cabeceira. Stop, tudo já está bem, assim. Também sei ser grosseiro, note bem. Mas note bem porque não é gratuito.
Por que stop? Por medo de começar as fabricações, são tão fáceis. Tira-se uma ideia de algum lugar, um sentimento de outra estante, amarra-se tudo com a ajuda de palavras, cadelas negras: e resulta que te amo. Total parcial: te amo. Total geral: te amo. Muitos amigos meus vivem assim, sem falar de um tio e dois primos, convencidos do amor-que-sentem-por-suas-esposas. Da palavra ao ato, meu amigo; em geral, sem verba não há comida. Aquilo que muita gente chama amar consiste em escolher uma mulher e casar com ela. Escolhem, juro, já os vi. Como se se pudesse escolher no amor, como se amar não fosse um raio que quebra os ossos e nos deixa paralisados no meio do pátio. Tu dirás que eles escolhem porque-a-amam; creio que é o contrário. Não se pode escolher Beatriz, não se pode escolher Julieta. Não podemos escolher a chuva que nos vai encharcar até os ossos quando saímos de um concerto. (….)

Palpites da Copa

PALPITES da COPA
(Luiza Romão)

Era pra ser de várzea, te fizeram Itaquerão.
Era pra ser pelota, pelada
Pedala, Pelé,
projeto de pátria, bola no pé
mas virou World Cup
pro elenco de estrelas,
investimento estratosférico,
não sei mais o nome dos teus astros,
por isso escalo o que vejo no estádio:
Fiat na zaga;
Adidas pelo meio;
BR cruza pra Unimed
lá vem Semp Toshiba
olha o Habbibs chegando
LG com Liquigaz,
e é GOOOOOOL!!!
(Linhas áreas inteligentes)
nesse passe-repasse, a bolada some
num passe de mágica.
em campo são onze,
mas a ordem vem do Banco.
Apararam a grana do gramado
pra debaixo do tapete.
o chapéu virou cartola;
não sei o que fizeram do coelho nessa história.
não há impedimento
pros seus cruzamentos
financeiros.
a barreira aperta
mas a bola sobe:
encobre o goleiro, o fiscal, o agiota.
seu estádio vale mais do que qualquer escola
professor bem pago é o técnico dessa palhoça
enquanto isso, os moleques
só usam caneta
na hora de fazer gol de letra.
Aos 48 do segundo tempo
Um, dois, cinco milhões
de acréscimo por alguma entrada ilícita
ou falta
de planejamento
o meio de campo tá armado com canhão,
tiro de meta pra silenciar quem,
do lado de fora, protesta
Carrinho agora é blindado
bicicleta, envenenada
arquibancada só pra quem tem cartão amarelo
visa, mastercard ou cielo
de TUP(i)
só a organizada,
sua língua oficial
é Real Madrid
Sócrates virou auto-ajuda
Casagrande nunca foi da senzala
seus ídolos não tem mais Raí.
na minha terra tinha Palmeiras
onde cantava galo, gavião, periquito
terra de todos os Santos
de São Paulo a Santo Expedito.
era pra ser Fla-flu
Botando fogo nos Sport
Grêmios de toda sorte.
mas seu Cruzeiro aponta pro Hemisfério Norte,
você só quer saber ser auto-alstral
sua Vitória é Internacional
Se esse é o país do Futebol,
eu penduro minhas chuteiras
enquanto o grito na garganta
for motivo de pranto,
espero voltar do vestiário
o futebol primário,
sem empreendedores
que faz de nós,
Libertadores!

poema declamado:

Duas moscas

Duas moscas (Charles Bukowski)

As moscas são furiosos tecos de vida;
por que são tão furiosas?
parecem querer algo mais,
parece até que elas
estão furiosas
por serem moscas;
não é minha culpa;
eu sento no quarto
com elas
e elas me provocam
com sua agonia;
é como se elas fossem
nacos de alma perdidos
esquecidos em alguma parte;
eu tento ler um jornal
mas elas não vão me
deixar;
uma parece subir em semicírculos
por toda a parede,
despejando um som miserável
sobre minha cabeça;
a outra, a menor,
fica perto zoando com a minha mão,
sem dizer nada,
subindo, caindo,
chegando pertinho;
que deus põe essas
coisas perdidas sobre mim?
outros homens sofrem imposições do império,
amor trágico…
eu sofro
insetos…
eu espanto a menorzinha
que parece apenas renovar
seu impulso de me desafiar:
ela circula mais rápido,
mais perto, e chega a fazer
um som de mosca,
e a outra, abaixo,
sacando o tumulto no ar,
também, excitada,
acelera seu vôo,
mergulha de repente
num golpe ruidoso
e elas se juntam
circulando minha mão,
arranhando a base
do abajur
até que alguma coisa-homem
em mim
não aguenta mais
o sacrilégio
e eu bato
com o jornal enrolado –
errei! –
batendo,
batendo,
elas explodem em discórdia,
alguma mensagem se perdeu entre elas,
e eu pego a grandona
primeiro, e ela cai de costas
estrebuchando suas patinhas
como uma puta raivosa,
e eu mando ver de novo
com meu taco de papel
que vira uma lambuzeira
da feiúra da mosca;
a pequena circula mais alto
agora, quieta e rápida,
quase invisível;
já não se aproxima
da minha mão novamente;
ela está mansa e
inacessível; Eu deixo
ela ser, ela me deixar
ser;
o jornal, claro,
está arruinado;
alguma coisa aconteceu,
alguma coisa cagou meu
dia,
algumas vezes não é necessário
um homem
ou uma mulher,
apenas alguma coisa viva;
Me sento e olho
a menorzinha;
nós estamos juntos
trançados
– dando voltas e voltas –
no ar
e na vida;
é tarde
pra nós dois.

Entrevistas com Bukowski – 1

 

Júlio Florencio Cortázar

Depois do fracasso de seu primeiro livro de poesias, os amigos o aconselharam a voltar praqueles continhos que escrevia desde sempre… seu afastamento da poesia foi o que lhe garantiu a fantástica carreira de contista e romancista: Julio Cortázar. Era um figura exótico: rolam boatos que tomou hormônios para desenvolver a barba (morria de vontade de ser barbudo), tinha certeza de que não viveria para além dos 30 (viveu até os 70), e era extremamente tímido (há várias histórias sobre relacionamentos enormes em que ele nem beijava a garota). Achei um poema que escreveu para sua primeira namorada, ainda no processo de conquistá-la: “Não pergunte quem coloca neste canto / uma alma destinada ao sofrimento / e um pobre coração que te ama tanto; / se tu o adivinhas, nada te espante; / mas se não me encontras em teu sentimento / de nada serve que te dê meu nome”. Curiosidades que ajudam a criar a imagem do mito, mas há o chão concreto, ali, em que pisou.

Socialista, a medida que foi se engajando concretamente, passou a apoiar diversas lutas durante o período das guerrilhas na américa latina. Nesse mesmo passo, sua literatura foi radicalizando-se em experimentos vanguardistas, mas também absorvendo reflexões das lutas que acompanhava, atento à necessidade de que os valores de um futuro socialista fossem cultivados desde já, na luta contra os inimigos: “a luta pelo socialismo na América Latina deve enfrentar o horror cotidiano guardando, de maneira preciosa e zelosa, aquela capacidade de viver que desejamos para esse futuro, com tudo aquilo que isso supõe de amor, de jogo e de alegria”. Tornou-se amigo de vários escritores guerrilheiros como Ernesto Cardenal e Roque Dalton. Dizia, sempre provocativo: “Temos mais necessidade de Che Guevaras da linguagem e de revolucionários da literatura do que de letrados da revolução”. Em seu universo, a política convivia com a literatura sem que uma fosse considerada mais ou menos verdadeira que a outra: “Quando faço política, faço política. E quando faço literatura, faço literatura. Mesmo quando faço literatura de conteúdo político – como O livro de Manuel, por exemplo, faço literatura. O que eu simplesmente faço é colocar o veículo literário, não direi a serviço, mas em uma direção que possa ser politicamente útil”. Importante apontar, também, que foi criticado por vários grupos de esquerda por possuir uma posição cômoda de apoio à luta socialista, por ter se auto-exilado em Paris durante a ditadura na Argentina.

Amor, revolução e literatura compuseram o triângulo da aventura cortaziana. Aqui, tra(b)duzo alguns poemas sobre o primeiro elemento, o amor, seus relacionamentos, desventuras e tudo mais. Ao final, de brinde ;), segue um vídeo onde Julio explica como surgiram as figuras dos cronópios e famas, personagens fantásticos de seu livro “Histórias de Cronópios e Famas”.

UMA CARTA DE AMOR

Tudo que de você eu quis
é tão pouco no fundo
porque no fundo é tudo,

como um cachorro que passa, uma colina,
essas coisas de nada, cotidianas,
espiga, cabeleira e dois torrões
o odor de teu corpo,
o que diz de qualquer coisa,
comigo ou contra mim,

tudo isso é tão pouco,
e quero tudo isso de vós porque te quero.

Que olhes para além de mim,
que me ames com violenta prescindência
da manhã, que o grito
de sua entrega se lance
na cara de um chefe de repartição,

e que o prazer que juntos inventamos
seja outro signo da liberdade.

OS AMANTES

Quem os vê andar pela cidade
se todos estão cegos?
Eles se tomam pelas mãos: algo fala
entre seus dedos, línguas doces
lambem a úmida palma, gozam pelas falanges,
e acima está a noite cheia de olhos.

São os amantes, sua ilha flutua à deriva
até mortes de relva, até portos
que se abrem entre lençóis.
Tudo se desordena através deles,
tudo encontra sua cifra escamoteada;
Mas eles nem sequer sabem
que enquanto rodam em sua amarga arena
há uma pausa na obra do nada,
o tigre é um jardim que joga.

Amanhece nos carros de lixo,
começam a sair os cegos,
o ministério abre suas portas.
Os amantes rendidos se olham e se tocam
uma vez mais antes de cheirar o dia.

Já estão vestidos, já se vão pela rua.
E é só então
quando estão mortos, quando estão vestidos,
que a cidade os recupera hipócrita
e lhes impõe os deveres cotidianos.

TALVEZ A MAIS QUERIDA

Me disse a intempérie,
a leve sombra de tua mão
passando pela minha cara.
Me disse o frio, a distância,
o amargo café da meia-noite
entre mesas vazias.

A LENTA MÁQUINA DO DESAMOR

A lenta máquina do desamor,
as engrenagens do refluxo,
os corpos que abandonam os travesseiros,
os lençóis, os beijos,
e de pé ante o espelho interrogando-se
cada um a si mesmo,
já não se olhando entre eles,
já não desnudos para o outro,
já não te amo,
meu amor.

O BREVE AMOR

Com que tersa doçura
me levanta do leito em que sonhava
profundas plantações perfumadas,

me passeia os dedos pela pele e me desenha
no espaço, de forma instável, até que o beijo
se pousa curvo e recorrente,

para que o fogo lento comece
a dança cadenciada da fogueira
tecendo-se em rajadas, em hélices,
ir e vir de um furacão de fumaça…

Por quê, depois,
o que sobra de mim
é só um inundar-se entre as cinzas
sem um adeus, sem nada mais que o gesto
de liberar as mãos?

O QUE ME AGRADA DE TEU CORPO…

O que me agrada de teu corpo é o sexo.
O que me agrada de teu sexo é a boca.
O que me agrada de tua boca é a língua.
O que me agrada de tua língua é a palavra.

ORIGEM DOS CRONÓPIOS E FAMAS

Praquês

Mergulhado esta semana nos livros, tentando escrever alguma coisa da dissertação de mestrado… mergulhado em gramsci… nesses mergulhos não é difícil ir esquecendo das motivações reais de tudo isso (a universidade, o intelecto, a vaidade vão te seduzindo com outras tantas motivações). Aqui tra(b)duzo um poema do Roque Dalton que me ajuda a não esquecer dos verdadeiros porquês. E depois um trechinho que achei bonito do Gramsci…

A pequena burguesia

(sobre uma de suas manifestações)

Os que
no melhor dos casos
querem fazer a revolucão
para a História para a lógica
para a ciência e natureza
para os livros do próximo ano ou do futuro
para ganhar a discussão e inclusive
para sair, enfim, nos jornais
e não simplesmente
para eliminar a fome
dos que têm fome
para eliminar a exploração dos explorados.
É natural então
que na prática revolucionária
cedam somente ante ao juízo da História
da moral do humanismo da lógica e das ciências
dos livros e dos periódicos
e se neguem a conceder a última palavra
aos esfomeados, aos explorados
que têm sua própia história de horror
sua própria lógica implacável
e terão seus própios livros
sua própria ciência
natureza
e futuro.

Trecho Gramsci sobre mudança individual x social

“(…)O homem deve ser concebido como um bloco histórico de elementos puramente subjetivos e individuais e de elementos de massa e objetivos ou materiais, com os quais o indivíduo está em relação ativa. Transformar o mundo exterior, as relações gerais, significa fortalecer a si mesmo, desenvolver a si mesmo. É uma ilusão e um erro supor que o “melhoramento” ético seja puramente individual: a síntese dos elementos constitutivos da individualidade é “individual”, mas ela não se realiza e desenvolve sem uma atividade para fora, transformadora das relações externas, desde aquelas com a natureza e com os outros homens em vários níveis, nos diversos círculos em que se vive, até a relação máxima, que abarca todo o gênero humano. Por isso, é possível dizer que o homem é essencialmente “político”, já que a atividade para transformar e dirigir conscientemente os outros homens realiza sua “humanidade”, a sua “natureza humana”.”
[pag. 406-407 (cadernos do cárcere, caderno 10)]

Bukowski e seu anti-lirismo

“Eu podia ver a estrada à minha frente. Eu era pobre e eu ia ficar pobre. Mas eu particularmente não quero o dinheiro. Eu não sabia o que eu queria. Sim, eu sabia. Eu queria um lugar para me esconder, um lugar onde não precisasse fazer nada. O pensamento de ser algo não apenas me amedrontava, me enojava… de fazer parte das coisas, de fazer parte de piqueniques em família, do Natal, do 04 de julho, Dia do Trabalho, Dia das Mães… ser um homem que nasceu para agüentar essas coisas e depois morrer? Eu prefiro ser uma máquina de lavar louça, voltar sozinho para uma sala pequena e beber até dormir. ” Bukowski em “Ham on Rye”, 1982

Jogo de apertar*

uma das coisas terríveis é
realmente
estar na cama
noite após noite
com uma mulher com quem você não
quer mais trepar*.
Elas ficam velhas, elas não parecem mais muito bem
– elas mesmo tendem a
roncar, perder
a graça.
Então, na cama, você se vira algumas vezes,
seus pés tocam os dela –
deus, que horrível! –
e a noite está lá fora
além das cortinas
selando vocês juntos
na tumba.
E de manhã você vai ao
banheiro, passa a sala, conversa,
diz coisas estranhas; ovos fritos, motores
ligando.
Mas sentado contigo, lado a lado,
você têm 2 estranhos
entupindo de tostadas a boca
queimando a cabeça soturna e as vísceras com
café.
Em 10 milhões de lugares na América
é a mesma coisa –
vidas azedas escoradas uma contra
outra
e sem lugar algum pra
ir.
Você entra no carro
e dirige pro trabalho
e há mais estranhos ali, a maioria deles
esposas e maridos de alguém,
e pralém da guilhotina do trabalho eles
flertam e brincam e beliscam, alguns tendem a
descarregar tudo numa trepada* rápida em algum lugar –
eles não podem fazer em casa –
e então
eles dirigem de volta pra casa
esperando pelo Natal ou pelo Dia do Trabalho ou
pelo domingo ou
alguma coisa.

* Buk brinca com o termo screw que pode ser, vulgarmente, transar ou, mais comumente, apertar, enroscar… O título do poema é “Screw-game”… não achei um equivalente interessante para manter o jogo…

 

É o modo como você joga o jogo

chame-a de amor
coloque-a de pé sob a luz
imperfeita
ponha-lhe um vestido
reze cante implore chore ria
apague as luzes
ligue o rádio
acrescente-lhe enfeites:
manteiga, ovos crus, jornais
de
ontem;
um cadarço novo, e então
páprica, açúcar, sal,
pimenta,
ligue para sua tia velha e
bêbada em
Calexico;
chame-a de amor,
espeta-a bem, adicione
repolho e molho de maçã,
então a esquente primeiro
no lado esquerdo,
depois no
direito,
ponha-a numa caixa
livre-se dela
deixe-a nos degraus de uma
porta
vomitando como você fará
nas
hortênsias.

Mulher dormindo

Eu sento na cama à noite e te ouço
roncando.
Eu te conheci numa estação de ônibus
e agora eu admiro suas costas
terrivelmente brancas e manchadas com
sardas de criança
à medida que a lâmpada despe o insolúvel
pesar do mundo
sobre teu sono.
Eu não posso ver teu pé
mas eu devo imaginar que eles são
os pés mais charmosos.
A quem você pertence?
Você é real?
Eu penso em flores, animais, pássaros
todos eles parecem mais do que bons
e tão claramente
reais.
E você não ajuda muito sendo
uma mulher. Nós somos cada um selecionados para ser
alguma coisa. A aranha, a galinha.
O elefante. É como se nós fossemos
uma pintura pindurada em alguma
parede de galeria
– e agora a pintura se vira
sobre suas costas, e sobre a curva do cotovelo
eu posso ver
uma boca, um olho um
quase nariz.
O resto de você está escondido
fora de vista
mas eu sei que você é
contemporânea, uma moderna obra
viva
talvez não imortal
mas nós temos
nos amado.
Por favor continue
roncando.

e dá-lhe Cortázar!

Trecho de “Rayuela” de Cortázar

“Toco a sua boca com um dedo, toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se, pela primeira vez, a sua boca entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade, eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto, e que, por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que minha mão desenha em você. Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõe-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem, com um perfume antigo e um grande silêncio. Então as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se estivéssemos com a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.”

Poema (Cortázar)

Te amo pela sombrancelha. pelo cabelo, te debato em
corredores branquíssimos donde jorram
as fontes de luz,
te discuto a cada nome, te arranco com
delicadeza de cicatriz.
vou te pondo no cabelo cinzas de relâmpago
e fitas que dormiam na chuva.
Não quero que tenha uma forma, que seja
precisamente o que vier detrás de tua mão.
porque a água, observa a água e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitetura de nada,
incendiando as lâmpadas à metade do
encontro.
Toda manhã é a lousa onde te invento
te desenho.
Pronto para te apagar, assim não és, nem tampouco com
esse cabelo escorrido, esse sorriso.
Busco teu sumo, a borda da taça onde o
vinho é também a lua e o espelho,
Busco essa linha que faz tremer a um homem
em uma galeria de museu.
Ademais te quero, e faz tempo e frio.

Julio falando sobre caminhar pelas cidades

Júlio

“Sempre serei como um menino para tantas coisas, mas um desses guris que desde o começo carregam consigo o adulto, de maneira que quando o monstrinho chega verdadeiramente à idade do adulto ocorre que, por sua vez, carrega consigo o menino, e no meio do caminho se dá uma coexistência poucas vezes pacífica de pelo menos duas aberturas para o mundo.

Isto pode ser entendido metaforicamente, mas indica, em todo caso, um temperamento que não renuncia à visão pueril como preço da visão adulta, e essa justaposição que convém ao poeta e talvez ao criminoso, e também ao cronópio e ao humorista (questão de doses diferentes, de acentuação aguda ou esdrúxula, de escolhas: agora jogo, agora mato) manifesta-se no sentimento de não estar de todo em qualquer das estruturas, em quaisquer das teias que a vida arma e onde somos ao mesmo tempo aranha e mosca.” (Cortázar)

ÚLTIMOS CINCO POEMAS PARA CRIS

I.
Agora escrevo pássaros.
Não os vejo chegar, não escolho,
de repente estão aí,
um bando de palavras
a pousar
uma
por
uma
nos arames da página,
entre chilreios e bicadas,
chuva de asas,
e eu sem pão para dar,
tão somente deixo-os vir.
Talvez seja isto uma árvore,
ou quem sabe, o amor.

ANTES, DEPOIS…

Como os jogos ao pranto
como a sombra à coluna
o perfume desenha o jasmim
o amante precede o amor
como a carícia à mão
o amor sobrevive ao amante
porém inevitavelmente
ainda que não haja rastro nem presságio

ainda que não haja rastro nem presságio
como a carícia à mão
o perfume desenha o jasmim
o amante precede o amor
porém inevitavelmente
o amor sobrevive ao amante
como os jogos ao pranto
como a sombra à coluna

como a carícia à mão
ainda que não haja rastro nem presságio
o amante precede o amor
o perfume desenha o jasmim
como os jogos ao pranto
como a sombra à coluna
o amor sobrevive ao amante
porém inevitavelmente…

BOLERO

Que vaidade imaginar
que posso te dar tudo, o amor e o futuro,
itinerários, música, joguetes.
É certo que é assim:
tudo meu te dou, é certo,
mas tudo meu não te basta
como a mim não me basta que me dês
tudo teu.

Por isso não seremos nunca
o casal perfeito, o cartão postal,
se não somos capazes de aceitar
que só na aritmética
o dois nasce do um mais um.

Por aqui um papelzinho
que somente diz:

Sempre fostes meu espelho,
quero dizer que para me ver tinha que te olhar.

SEMPRE COMEÇAVA A CHOVER

Sempre começava a chover
na metade da película,
a flor que te levei tinha
uma aranha esperando entre as pétalas.

Creio que o sabias
e que favorecestes a desgraça.
Sempre esqueci o guarda-chuvas
antes de ir te buscar,
o restaurante estava cheio
e anunciavam a guerra nas esquinas.

Fui uma letra de tango
para tua indiferente melodia.

 

nas teias

Morte deseja mais morte

morte deseja mais morte, e sua teia está cheia:
eu me lembro da garagem de meu pai, quando criança
eu ia limpar os corpos das moscas
das janelas que elas pensavam ser saídas –
seus pegajosos, feios e vibrantes corpos
estourando-se como cachorros insandecidos contra o vidro
somente para girar e rodopiar
naquele segundo maior que o inferno e que o céu
para dentro do limite do limite,
e então a aranha de seu buraco negro
nervosa e exposta
o seu corpo crescendo inchando
pendurado ali
sem realmente saber,
e então sabendo –
alguma coisa a mandando pra baixo em seu fio,
a úmida teia,
na direção do fraco escudo de zumbidos,
a pulsação;
um último movimento desesperado
ali contra o vidro
ali vivo contra o sol,
girando em branco;
e quase como amor:
o enclausuramento,
o silencioso e primeiro sugar da aranha:
enchendo seu abdômen
sobre essa coisa que vivia;
se agachando ali sobre suas costas
forçando seu sangue certo
enquanto o mundo segue lá fora
e minha têmpora grita
e eu arremesso a vassoura contra eles:
a aranha sonsa com sua raiva-de-aranha
ainda pensando sobre sua presa
e acenando uma assombrosa perna troncha
a mosca imóvel,
um naco sujo preso na palha da vassoura;
eu sacudo a assassina desconjuntada
e ela caminha fraca e enervada
até algum canto escuro
mas eu intercepto seu lento esforço
arrastando-se como algum herói fudido,
e a palha esmaga suas pernas
agora arqueadas
sobre sua cabeça
e olhando
olhando o inimigo
e de alguma forma ainda valente,
morrendo sem aparente dor
simplesmente se arrastando para trás
pedaço por pedaço
deixando nada ali
até que finalmente seu saco visceral vermelho
espirra
seus segredos,
e eu corro como criança
com a raiva de Deus logo atrás de mim,
de volta aos simples raios de sol,
imaginando
à medida que o

Não me dê trégua

ENCARGO

Não me dê trégua, não me perdoes nunca.
Fustiga-me no sangue, que cada coisa cruel seja tu que
voltas.
Não me deixes dormir, não me dê paz!
Então ganharei meu reino,
nascerei lentamente.
Não me perdas como uma música fácil, não sejas carícia nem
luva;
tálha-me como um sílex, desespéra-me.
Guarda teu amor humano, teu sorriso, teu cabelo. Os dê.
Vem a mim com tua cólera seca de fósforos e escamas.
Grita. Vomíta-me areia na boca, rompe-me as goelas.
Não me importa ignorar-te em pleno dia,
saber que jogas cara ao sol e ao homem.
Compartilha!

Eu te peço a cruel cerimônia do talho,
o que ninguém te pede: as espinhas
até o osso. Arranca-me esta cara infame,
obriga-me a gritar ao fim meu verdadeiro nome.

INSTRUÇÕES PARA CHORAR

Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um choro que não penetre no escândalo, que não insulte o sorriso com sua semelhança desajeitada e paralela. O choro médio ou comum consiste numa contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e muco, este no fim, pois o choro acaba no momento em que a gente se assoa energicamente. Para chorar, dirija a imaginação a você mesmo, e se isto lhe for impossível por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas e nesses golfos do estreito de Magalhães nos quais não entra ninguém, nunca. Quando o choro chegar, você cobrirá o rosto com delicadeza, usando ambas as mãos com a palma para dentro. As crianças chorarão esfregando a manga do casaco na cara, e de preferência num canto do quarto. Duração média do choro, três minutos.

POEMA

Te amo pela sombrancelha. pelo cabelo, te debato em
corredores branquíssimos donde jorram
as fontes de luz,
te discuto a cada nome, te arranco com
delicadeza de cicatriz.
vou te pondo no cabelo cinzas de relâmpago
e fitas que dormiam na chuva.
Não quero que tenha uma forma, que seja
precisamente o que vier detrás de tua mão.
porque a água, observa a água e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitetura de nada,
incendiando as lâmpadas à metade do
encontro.
Toda manhã é a lousa onde te invento
te desenho.
Pronto para te apagar, assim não és, nem tampouco com
esse cabelo escorrido, esse sorriso.
Busco teu sumo, a borda da taça onde o
vinho é também a lua e o espelho,
Busco essa linha que faz tremer a um homem
em uma galeria de museu.
Ademais te quero, e faz tempo e frio.

HAPPY NEW YEAR

Veja, não peço muito,
somente tua mão, tê-la
como um sapinho que dorme assim contente.
Necessito essa porta que me davas
para entrar a teu mundo, esse trocinho
de açúcar verde, de redondo alegre.
Não me emprestas tua mão nesta noite
de fim de ano de esfomeados roncos?
Não podes, por razões técnicas.
Então a tramo no ar, urdindo cada dedo,
o pêssego sedoso da palma
e o dorso, esse país de árvores azuis.
Assim a tomo e a sustento,
como se disso dependesse
muitíssimo do mundo,
a sucessão das quatro estações,
o canto dos galos, o amor dos homens.

AMOR 77

E depois de fazer tudo o que fazem, se levantam, se banham, se
entalcam, se perfuman,
se penteiam, se vestem, e assim progresivamente vão voltando a ser
o que não são.

Jogar a vida

Estou lendo o “Rayuela” de Cortázar (em português, “Jogo de Amarelinha”). É considerado a obra máxima do autor. São muitos livros dentro de um, já que vc pode montar o livro segundo a ordem de capítulos que quiser. Há pelo menos duas leituras sugeridas no prefácio por Cortázar. O livro fala sobre a vida, as paixões e as possibilidades de se jogar esse jogo da vida, essa que sempre se coloca a nossa frente e pergunta “quer jogar?”. O livro trata disso e da possibilidade de se chegar ao “céu” (da vida e do jogo da amarelinha), e claro, ao “inferno”. Há algum tempo assisti um show do Gotan Project numa noite muito bonita e especial pra mim, noite de coração cheio. Lá eles cantaram uma música em homenagem ao Cortázar chamada “Rayuela” que diz

“Hay que saber mover los pies.
En la rayuela, o en la vida
vos podes elegir un día.
¿Por que costado, de que lado saltarás?”

Durante a música, aparece a voz de cortázar declamando trechos de “Rayuela”. Um desses trechos segue abaixo. O vídeo do clip da música também. E depois mais alguns poemas de Cortázar que tra(b)duzo.

CLIP DA MÚSICA “RAYUELA” DO GOTAN PROJECT

UM TRECHO DE RAYUELA LIDO POR CORTÁZAR NA MÚSICA

“Toco a sua boca com um dedo, toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se, pela primeira vez, a sua boca entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade, eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto, e que, por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que minha mão desenha em você. Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõe-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem, com um perfume antigo e um grande silêncio. Então as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se estivéssemos com a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.”

TALA

Leve estes olhos, pedrinhas de cores,
este nariz de tótem, estes lábios que sabem
todas as tábuas de multiplicar e as poesias mais seletas.
Te dou a face inteira, com a língua e o cabelo,
me livro das unhas e dentes e lhe completo o peso.
Não serve
essa maneira de sentir. Que olhos nem que dedos.
Nem essa comida requentada, a memória,
nem a atenção, como uma matraca perniciosa.
Tome as induções e os cabides
onde se penduram as palavras lavadas e engomadas.
Fustigue com a casa, fora de tudo,
deixe-me como um oco, ou uma estaca.
Talvez então, quando não me valha
a generosidade de Deus, esse menino escoteiro,
e esteja igual ao tapete que suportou
sua lenta chuva de sapatos oitenta anos
e é urdido somente, claro esqueleto donde
se apagaram os ricos pavões de prata,
pode ser que sim vos diga teu nome certo
pode ocorrer que alcance sem mãos tua cintura.

DEPOIS DAS FESTAS

E quando todo mundo se foi
e restamos os dois
entre vasos vazios e cinzeiros sujos,

que bonito era saber que estavas
alí como um remanso,
sozinha comigo à beira da noite,
e que duravas, eras mais que o tempo,

eras a que não se ia
porque um mesmo travesseiro
e uma mesma preguiça indolente
iria charmar-nos outra vez
para despertar ao novo dia,
juntos, rindo, descabelados.

UMA CARTA DE AMOR

Tudo que de você eu quis
é tão pouco no fundo
porque no fundo é tudo,

como um cachorro que passa, uma colina,
essas coisas de nada, cotidianas,
espiga, cabeleira e dois torrões
o odor de teu corpo,
o que diz de qualquer coisa,
comigo ou contra mim,

tudo isso é tão pouco,
e quero tudo isso de vós porque te quero.

Que olhes para além de mim,
que me ames com violenta prescindência
da manhã, que o grito
de sua entrega se lance
na cara de um chefe de repartição,

e que o prazer que juntos inventamos
seja outro signo da liberdade.

 

Buk

Três tra(b)duções que fiz do Bukowski. O primeiro poema traz esse seu “lirismo” duro, de lágrimas secas; o segundo parte de seu sarcasmo pela vida dita normal de cada um; o último mostra todo seu desprezo pela literatura e, em especial, pela sua (vejam, esse desprezo é também construído, seu lugar comum tipico).

Um sorriso para relembrar

Nós tínhamos peixes dourados e eles davam voltas e voltas
no aquário sobre a mesa perto da cortina pesada
que cobria a janela panorâmica e
minha mãe, sempre sorrindo, querendo que a gente
ficasse feliz, me dizia: “Alegria, Henry!”
e ela estava certa: é melhor ser feliz se você
pode.
Mas meu pai continuava batendo nela e em mim várias vezes na semana enquanto
se enfurecia em seus 1m e 80, porque não conseguia
entender o que estava atacando ele por dentro.

Minha mãe, pobre peixe,
querendo ser feliz, apanhando duas ou três vezes por
semana, me dizendo para ser feliz: “Henry, sorria!
Por que você nunca sorri?”

E então ela sorria, para me mostrar como, e era o
o sorriso mais triste que eu já vi.

Um dia os dourados morreram, todos os cinco,
eles boiaram na água, assim de lado, seus
olhos abertos ainda,
e quando meu pai chegou em casa ele os jogou pro gato
ali no chão da cozinha e nós assistíamos enquanto minha mãe
sorria.

E a lua e as estrelas e o mundo

Longas caminhadas à noite –
isso é o que é bom pra alma:
espiando pelas janelas
as esposas cansadas
tentando afastar
seus maridos pirados de cerveja.

Eu gosto de seus livros

Na fila de apostas outro
dia
um homem atrás de mim perguntou,
“Você é Henry
Chinaski?”

“Uh hum”, eu respondi.

“Eu gosto de seus livros”, ele
mandou.

“Obrigado”, eu respondi.

“Quem você prefere nesta
corrida?”, ele perguntou.

“Uh hum”, eu respondi.

“Eu gosto do cavalo 4”, ele
me disse.

Eu fiz minha aposta e voltei
pro meu lugar…

Na próxima corrida eu estou esperando
na fila e aqui está o mesmo homem
atrás de mim
de novo.
Tem pelo menos umas 50 filas
mas
ele tinha que achar a minha
de novo.

“Eu acho que esta corrida favorece
os fundistas”, ele disse para as costas
do meu pescoço. “A pista parece
pesada.”

“Escute”, eu disse, sem olhar
ao redor, “é dar sorte ao azar
falar sobre cavalos na
pista…”

“Que tipo de regra é essa?”
ele perguntou. “Deus não faz
regras…”

Eu me virei e olhei pra ele:
“talvez não, mas eu
faço.”

Depois da próxima corrida
eu fui pra fila, e dei uma espiada
atrás:
ele não estava.

Perdi outro leitor.

Eu perco 2 ou 3 por
semana.

Beleza.

Vamos deixar que voltem pro
Kafka.

Os policiais e os guardas

OS POLICIAIS E OS GUARDAS
(poeta guerrilheiro Roque Dalton, El Salvador, 1935-1975)

Sempre viram o povo
como um montão de costas que corriam pra longe
como um campo para deixar cair com ódio os cassetetes.

Sempre viram o povo com o olho de afinar a pontaria
e e entre o povo e o olho
a mira da pistola ou a do fuzil.

(Um dia eles também foram povo
mas com a desculpa da fome e do desemprego
aceitaram uma arma
um cassetete um soldo mensal
para defender os que causam fome e aos que desempregam).

Sempre viram o povo aguentando
suando
vociferando
levantando cartazes
levantando os punhos
e também dizendo-lhes:
“Cachorros filhos da puta o dia de vocês vai chegar!”

(E cada dia que passava
eles acreditavam ter feito um grande negócio
ao trair o povo do qual nasceram:
“O povo é um monte de fracos e sem vergonhas -pensavam-
que bem fizemos ao passarmos para o lado dos vivos e dos fortes”).

E então era só apertar o gatilho
e as balas iam da margem dos policiais e guardas
contra a margem do povo
assim iam sempre
de lá pra cá
e o povo caía sangrando
semana após semana ano após ano
quebrados seus ossos
chorando pelos olhos de mulheres e crianças
fugia espantado
deixava de ser povo para ser tropel vermelho
desaparecia na forma como cada um se salvava
para sua casa e logo nada mais
só os bombeiros lavando o sangue das ruas.

(Os coronéis acabavam de os convencer:
“É isso homens -lhes diziam-
duro e na cabeça com os civis
fogo com o populacho
vocês também são pilares uniformizados da Nação
sacerdotes de primeira linha
no culto à bandeira ao escudo ao hino aos próceres
à democracia representativa ao partido oficial e ao mundo livre
cujos sacrifícios não esquecerá a gente decente deste país
ainda que hoje não possamos subir vosso soldo
como é nosso desejo”).

Sempre viram o povo
franzido no quarto das torturas
pendurado
espancado
fraturado
inchado
asfixiado
violado
furado com agulhas nos ouvidos e nos olhos
eletrocutado
afogado em urina e merda
cuspido
arrastado
soltando fumaça em seus últimos restos
no inferno da cal viva.

(Quando resultou morto o décimo Guarda Nacional. Morto pelo povo
e o quinto rato bem esmagado pela guerrilha urbana
os ratos e os Guardas Nacionais começaram a pensar
sobre tudo até porque os coronéis já mudavam de tom
e a cada fracasso jogavam a culpa
aos “elementos da tropa tão moles que temos”).

O fato é que os policiais e os guardas
sempre viram o povo de lá pra cá
e as balas só caminhavam de lá pra cá.

Que pensem muito…
que eles mesmos decidam se é muito tarde
pra buscar a margem do povo
e disparar dali
ombro a ombro
junto conosco.

Que pensem muito…
mas, enquanto isso,
que não se mostrem surpreendidos
nem ponham essa cara de ofendidos,
hoje, quando algumas balas
começam a chegar até eles vindas deste lado
de onde segue o mesmo povo de sempre
só que a esta altura já estufa o peito
e traz cada vez mais fuzis.

(tradução de Jeff Vasques | mais poesias: facebook/eupassarin)

[foto de origem desconhecida]