Charles, o Buk

Recauchutando tra(b)duções…
>Pássaro azul no meu coração (Bukowski)
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou muito durão,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém te ver.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu derramei whisky em cima dele
e inalo fumaça de cigarros
e as putas e os empregados do bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou muito durão,
e digo, fica aí escondido,
quer me arruinar?
quer fuder o
meu trabalho?
quer arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou muito esperto,
e só o deixo sair à noite
às vezes
quando todos estão dormindo.
e digo, eu sei que você está aí,
por isso
não fique triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta pouco lá dentro,
não o deixo morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,

e você?

À medida que os poemas vão

a medida que os poemas vão aos milhares você
percebe que criou muito
pouco.

A morte está fumando meus charutos

você sabe: estou bêbado mais uma vez
aqui
escutando Tchaikovsky
no rádio.
Jesus, eu o escutei 47 anos
atrás
quando eu era um escritor faminto
e aqui está ele
de novo
e agora eu sou um pequeno sucesso como
escritor
e a morte está andando
pra cima e pra baixo
nesse quarto
fumando meus charutos
tomando goles do meu
vinho
enquanto Tchaik trabalha
na Pathétique,
foi uma boa caminhada
e se eu tive alguma sorte foi
porque joguei os dados
direito:
me esfaimei por minha arte, me esfaimei pra
ganhar 5 malditos minutos, 5 horas,
5 dias –
eu só queria colocar a palavra
ali;
fama, dinheiro, não importavam:
eu queria a palavra ali
e eles me queriam numa prensa hidráulica,
numa linha de montagem
eles queriam que eu fosse estoquista numa
loja de departamentos.

bem, a morte diz, enquanto anda ali,
eu vou te pegar de qualquer jeito
não importa o que você foi:
escritor, taxista, cafetão, açougueiro,
pára-quedista, eu vou pegar
você…

o.k., baby, eu respondo.

nós bebemos juntos agora
enquanto 1 da manhã desliza até 2
da manhã e
só ela sabe o
momento, mas eu apliquei um golpe
nela: tive meus
5 malditos minutos
e muito
mais.

 

Baldomero Fernández Moreno (Argentina, 1886-1950)

A minha querida amiga e companheira de lutas Tina acabou de chegar de Cuba e trouxe pra mim vários livros de poesia cubana: antologia de Nicolás Guillén (maior poeta cubano), poesias de José Martí para crianças, uma antologia de poesia cubana organizada por José Lezama Lima e vários poetas contemporâneos cubanos!!! Imaginem minha felicidade! =) Material que estou sedento por ler e traduzir aqui pra vcs! Um dos livros é uma deliciosa antologia de ˜poesia amorosa da américa latina˜. Abri essa antologia rapidinho e dei de cara com um curioso soneto de Baldomero Fernandez, poeta argentino que era muito admirado por Jorge Luis Borges. Segue:

SONETO DE TUAS VÍSCERAS

Farto já de louvar tua pele dourada,
tuas externas e muitas perfeições,
canto o jardim azul de teus pulmões
e a tua traquéia elegante e anelada.

Canto a tua massa intestinal rosada,
ao baço, ao pâncreas, aos omentos**
ao duplo filtro cinza de teus rins
e a tua matriz profunda e renovada.

Canto o tutano doce de teus ossos,
à linfa que embebe teus tecidos,
ao acre odor orgânico que exalas.

Quero gastar tuas vísceras a beijos,
viver dentro de ti com meus sentidos…
Eu sou um sapo negro com duas asas.

** omentos: são reflexões peritoniais largas e amplas, que se dispõe entre duas vísceras.

Do amor…

Um trecho de Rayuela, de Cortázar, tradução de Fernando de Castro, indicação da apaixonada Tatiana Vargas! 😉

Mas o amor, essa palavra… Moralista, Horácio, temeroso de paixões sem uma razão de águas fundas, desconcertado e arisco na cidade onde o amor se chama com todos os nomes de todas as ruas, de todas as casas, de todos os andares, de todos os quartos, de todas as camas, de todos os sonhos, de todos os esquecimentos ou recordações. Amor meu, não te amo por ti nem por mim nem pelos dois juntos, não te amo porque o sangue me faça te amar, amo-te porque tu não és minha, porque tu estás do outro lado, desse lado para onde me convidas a saltar e não posso dar o salto, porque no mais profundo de tudo tu não estás em mim, e não te alcanço, não consigo passar para lá do seu corpo, do teu riso, há horas em que me atormento por saber que tu me amas (como gostas de usar o verbo amar, com que pretensão vais deixando cair o verbo amar sobre os pratos, os lençóis e os ônibus), atormento-me com o teu amor que não me serve de ponte, pois uma ponte não se apóia de um lado só, Wright ou Le Corbusier jamais farão uma ponte apoiada de um só lado e na me olhes assim com esses olhos de pássaro, para ti a operação do amor é muito fácil, tu ficarás curada antes de mim, e a verdade é que não amo aquilo que amas em mim. É claro que tu depressa te curarás, porque vives na saúde, depois de mim será outro qualquer, isso muda como os espartilhos. É tão triste ouvir o cínico Horácio que deseja um amor passaporte, amor alpinista, amor chave, amor revólver, amor que lhe dê os mil olhos de Argos, a ubiqüidade, o silêncio no qual a música é possível, a raiz na qual se poderia começar a tecer uma língua. E é ridículo porque tudo isto dorme um pouco em ti, seria suficiente submergir-te num copo de água, como uma flor japonesa, e estou certo de que, pouco a pouco, começariam a brotar pétalas coloridas, as formas curvas aumentariam, a beleza cresceria. Doadora de infinito, eu não sei tomar, perdoa-me. Tu parece oferecer-me uma maçã e eu deixei os dentes sobre a mesa de cabeceira. Stop, tudo já está bem, assim. Também sei ser grosseiro, note bem. Mas note bem porque não é gratuito.
Por que stop? Por medo de começar as fabricações, são tão fáceis. Tira-se uma ideia de algum lugar, um sentimento de outra estante, amarra-se tudo com a ajuda de palavras, cadelas negras: e resulta que te amo. Total parcial: te amo. Total geral: te amo. Muitos amigos meus vivem assim, sem falar de um tio e dois primos, convencidos do amor-que-sentem-por-suas-esposas. Da palavra ao ato, meu amigo; em geral, sem verba não há comida. Aquilo que muita gente chama amar consiste em escolher uma mulher e casar com ela. Escolhem, juro, já os vi. Como se se pudesse escolher no amor, como se amar não fosse um raio que quebra os ossos e nos deixa paralisados no meio do pátio. Tu dirás que eles escolhem porque-a-amam; creio que é o contrário. Não se pode escolher Beatriz, não se pode escolher Julieta. Não podemos escolher a chuva que nos vai encharcar até os ossos quando saímos de um concerto. (….)

Orozco (Argentina)

Faz algum tempo que não tra(b)duzo Olga Orozco. Adoro seu jeito de escrever, apesar de não compartilhar de sua visão metafísica do mundo. Contradições que por enquanto não me espremem contra a parede. Sei que ela me agasalha, em diversos momentos, como uma luva. Abaixo um poema seu em homenagem a três grandes “gênios” artísticos, reféns de outro mundo, mas que pisavam as contradições deste mundo e, em alguma medida, transmitiram isso em sua arte (de Van Gogh, pelo menos, tenho essa certeza). Na arte, há sempre essa tensão entre ser refém “espiritual” de algo que não existe, algo além, “de outros mundos” e ter suas pernas fincadas num mundo concreto, real, contraditório.

REFÉNS DE OUTRO MUNDO

para Vicent Van Gogh,
para Antoni Artaud,
para Jacobo Fijman

Era um pacto firmado com o sangue de cada pesadelo,
uma simulação de dormentes que roem o perigo em um osso de insônia.
Proibido ir adiante.
Somente o santo tinha a senha para o túnel e o vôo.
Os outros mordaça, as vendas e o castigo.
Então devia-se acatar aos guardiões desde o fundo do fosso.
Devia-se aceitar as plantações que se perdem de vista a beira dos pés.
Devia-se apalpar às cegas as muralhas que separam o hóspede do perseguidor.
Era a lei do jogo no salão fechado:
as apostas medíocres até se perder a chave
e umas portas que se abrem quando rodam os últimos dados da morte.

E eles se adiantaram de um salto até o final,
com suas altas coroas.
Queimaram as cortinas,
arrancaram pela raiz as árvores do bosque,
romperam até o fundo as membranas para poder passar.
Foi uma labareda sagrada no inferno,
uma lufada de céu sepultado na areia,
a cabeça de um deus que cai dando tombos entre um raio e o trono.
E depois não existiu mais.
Nada mais que as chamas, o pó e o estrondo,
iguais para sempre, cada vez.
Mas essa mesma mão mordida pela armadilha roçou a eternidade,
essa mesma pupila esmagada pela luz foi um fragmento do sol,
essas sílabas destroçadas na boca foram por um instante a palavra.
Eles eram reféns de outro mundo, como o carro de Elias.
Mas estavam aqui,
caindo,
desprendidos.

 

Duas moscas

Duas moscas (Charles Bukowski)

As moscas são furiosos tecos de vida;
por que são tão furiosas?
parecem querer algo mais,
parece até que elas
estão furiosas
por serem moscas;
não é minha culpa;
eu sento no quarto
com elas
e elas me provocam
com sua agonia;
é como se elas fossem
nacos de alma perdidos
esquecidos em alguma parte;
eu tento ler um jornal
mas elas não vão me
deixar;
uma parece subir em semicírculos
por toda a parede,
despejando um som miserável
sobre minha cabeça;
a outra, a menor,
fica perto zoando com a minha mão,
sem dizer nada,
subindo, caindo,
chegando pertinho;
que deus põe essas
coisas perdidas sobre mim?
outros homens sofrem imposições do império,
amor trágico…
eu sofro
insetos…
eu espanto a menorzinha
que parece apenas renovar
seu impulso de me desafiar:
ela circula mais rápido,
mais perto, e chega a fazer
um som de mosca,
e a outra, abaixo,
sacando o tumulto no ar,
também, excitada,
acelera seu vôo,
mergulha de repente
num golpe ruidoso
e elas se juntam
circulando minha mão,
arranhando a base
do abajur
até que alguma coisa-homem
em mim
não aguenta mais
o sacrilégio
e eu bato
com o jornal enrolado –
errei! –
batendo,
batendo,
elas explodem em discórdia,
alguma mensagem se perdeu entre elas,
e eu pego a grandona
primeiro, e ela cai de costas
estrebuchando suas patinhas
como uma puta raivosa,
e eu mando ver de novo
com meu taco de papel
que vira uma lambuzeira
da feiúra da mosca;
a pequena circula mais alto
agora, quieta e rápida,
quase invisível;
já não se aproxima
da minha mão novamente;
ela está mansa e
inacessível; Eu deixo
ela ser, ela me deixar
ser;
o jornal, claro,
está arruinado;
alguma coisa aconteceu,
alguma coisa cagou meu
dia,
algumas vezes não é necessário
um homem
ou uma mulher,
apenas alguma coisa viva;
Me sento e olho
a menorzinha;
nós estamos juntos
trançados
– dando voltas e voltas –
no ar
e na vida;
é tarde
pra nós dois.

Entrevistas com Bukowski – 1

 

Júlio Florencio Cortázar

Depois do fracasso de seu primeiro livro de poesias, os amigos o aconselharam a voltar praqueles continhos que escrevia desde sempre… seu afastamento da poesia foi o que lhe garantiu a fantástica carreira de contista e romancista: Julio Cortázar. Era um figura exótico: rolam boatos que tomou hormônios para desenvolver a barba (morria de vontade de ser barbudo), tinha certeza de que não viveria para além dos 30 (viveu até os 70), e era extremamente tímido (há várias histórias sobre relacionamentos enormes em que ele nem beijava a garota). Achei um poema que escreveu para sua primeira namorada, ainda no processo de conquistá-la: “Não pergunte quem coloca neste canto / uma alma destinada ao sofrimento / e um pobre coração que te ama tanto; / se tu o adivinhas, nada te espante; / mas se não me encontras em teu sentimento / de nada serve que te dê meu nome”. Curiosidades que ajudam a criar a imagem do mito, mas há o chão concreto, ali, em que pisou.

Socialista, a medida que foi se engajando concretamente, passou a apoiar diversas lutas durante o período das guerrilhas na américa latina. Nesse mesmo passo, sua literatura foi radicalizando-se em experimentos vanguardistas, mas também absorvendo reflexões das lutas que acompanhava, atento à necessidade de que os valores de um futuro socialista fossem cultivados desde já, na luta contra os inimigos: “a luta pelo socialismo na América Latina deve enfrentar o horror cotidiano guardando, de maneira preciosa e zelosa, aquela capacidade de viver que desejamos para esse futuro, com tudo aquilo que isso supõe de amor, de jogo e de alegria”. Tornou-se amigo de vários escritores guerrilheiros como Ernesto Cardenal e Roque Dalton. Dizia, sempre provocativo: “Temos mais necessidade de Che Guevaras da linguagem e de revolucionários da literatura do que de letrados da revolução”. Em seu universo, a política convivia com a literatura sem que uma fosse considerada mais ou menos verdadeira que a outra: “Quando faço política, faço política. E quando faço literatura, faço literatura. Mesmo quando faço literatura de conteúdo político – como O livro de Manuel, por exemplo, faço literatura. O que eu simplesmente faço é colocar o veículo literário, não direi a serviço, mas em uma direção que possa ser politicamente útil”. Importante apontar, também, que foi criticado por vários grupos de esquerda por possuir uma posição cômoda de apoio à luta socialista, por ter se auto-exilado em Paris durante a ditadura na Argentina.

Amor, revolução e literatura compuseram o triângulo da aventura cortaziana. Aqui, tra(b)duzo alguns poemas sobre o primeiro elemento, o amor, seus relacionamentos, desventuras e tudo mais. Ao final, de brinde ;), segue um vídeo onde Julio explica como surgiram as figuras dos cronópios e famas, personagens fantásticos de seu livro “Histórias de Cronópios e Famas”.

UMA CARTA DE AMOR

Tudo que de você eu quis
é tão pouco no fundo
porque no fundo é tudo,

como um cachorro que passa, uma colina,
essas coisas de nada, cotidianas,
espiga, cabeleira e dois torrões
o odor de teu corpo,
o que diz de qualquer coisa,
comigo ou contra mim,

tudo isso é tão pouco,
e quero tudo isso de vós porque te quero.

Que olhes para além de mim,
que me ames com violenta prescindência
da manhã, que o grito
de sua entrega se lance
na cara de um chefe de repartição,

e que o prazer que juntos inventamos
seja outro signo da liberdade.

OS AMANTES

Quem os vê andar pela cidade
se todos estão cegos?
Eles se tomam pelas mãos: algo fala
entre seus dedos, línguas doces
lambem a úmida palma, gozam pelas falanges,
e acima está a noite cheia de olhos.

São os amantes, sua ilha flutua à deriva
até mortes de relva, até portos
que se abrem entre lençóis.
Tudo se desordena através deles,
tudo encontra sua cifra escamoteada;
Mas eles nem sequer sabem
que enquanto rodam em sua amarga arena
há uma pausa na obra do nada,
o tigre é um jardim que joga.

Amanhece nos carros de lixo,
começam a sair os cegos,
o ministério abre suas portas.
Os amantes rendidos se olham e se tocam
uma vez mais antes de cheirar o dia.

Já estão vestidos, já se vão pela rua.
E é só então
quando estão mortos, quando estão vestidos,
que a cidade os recupera hipócrita
e lhes impõe os deveres cotidianos.

TALVEZ A MAIS QUERIDA

Me disse a intempérie,
a leve sombra de tua mão
passando pela minha cara.
Me disse o frio, a distância,
o amargo café da meia-noite
entre mesas vazias.

A LENTA MÁQUINA DO DESAMOR

A lenta máquina do desamor,
as engrenagens do refluxo,
os corpos que abandonam os travesseiros,
os lençóis, os beijos,
e de pé ante o espelho interrogando-se
cada um a si mesmo,
já não se olhando entre eles,
já não desnudos para o outro,
já não te amo,
meu amor.

O BREVE AMOR

Com que tersa doçura
me levanta do leito em que sonhava
profundas plantações perfumadas,

me passeia os dedos pela pele e me desenha
no espaço, de forma instável, até que o beijo
se pousa curvo e recorrente,

para que o fogo lento comece
a dança cadenciada da fogueira
tecendo-se em rajadas, em hélices,
ir e vir de um furacão de fumaça…

Por quê, depois,
o que sobra de mim
é só um inundar-se entre as cinzas
sem um adeus, sem nada mais que o gesto
de liberar as mãos?

O QUE ME AGRADA DE TEU CORPO…

O que me agrada de teu corpo é o sexo.
O que me agrada de teu sexo é a boca.
O que me agrada de tua boca é a língua.
O que me agrada de tua língua é a palavra.

ORIGEM DOS CRONÓPIOS E FAMAS

Bukowski e seu anti-lirismo

“Eu podia ver a estrada à minha frente. Eu era pobre e eu ia ficar pobre. Mas eu particularmente não quero o dinheiro. Eu não sabia o que eu queria. Sim, eu sabia. Eu queria um lugar para me esconder, um lugar onde não precisasse fazer nada. O pensamento de ser algo não apenas me amedrontava, me enojava… de fazer parte das coisas, de fazer parte de piqueniques em família, do Natal, do 04 de julho, Dia do Trabalho, Dia das Mães… ser um homem que nasceu para agüentar essas coisas e depois morrer? Eu prefiro ser uma máquina de lavar louça, voltar sozinho para uma sala pequena e beber até dormir. ” Bukowski em “Ham on Rye”, 1982

Jogo de apertar*

uma das coisas terríveis é
realmente
estar na cama
noite após noite
com uma mulher com quem você não
quer mais trepar*.
Elas ficam velhas, elas não parecem mais muito bem
– elas mesmo tendem a
roncar, perder
a graça.
Então, na cama, você se vira algumas vezes,
seus pés tocam os dela –
deus, que horrível! –
e a noite está lá fora
além das cortinas
selando vocês juntos
na tumba.
E de manhã você vai ao
banheiro, passa a sala, conversa,
diz coisas estranhas; ovos fritos, motores
ligando.
Mas sentado contigo, lado a lado,
você têm 2 estranhos
entupindo de tostadas a boca
queimando a cabeça soturna e as vísceras com
café.
Em 10 milhões de lugares na América
é a mesma coisa –
vidas azedas escoradas uma contra
outra
e sem lugar algum pra
ir.
Você entra no carro
e dirige pro trabalho
e há mais estranhos ali, a maioria deles
esposas e maridos de alguém,
e pralém da guilhotina do trabalho eles
flertam e brincam e beliscam, alguns tendem a
descarregar tudo numa trepada* rápida em algum lugar –
eles não podem fazer em casa –
e então
eles dirigem de volta pra casa
esperando pelo Natal ou pelo Dia do Trabalho ou
pelo domingo ou
alguma coisa.

* Buk brinca com o termo screw que pode ser, vulgarmente, transar ou, mais comumente, apertar, enroscar… O título do poema é “Screw-game”… não achei um equivalente interessante para manter o jogo…

 

É o modo como você joga o jogo

chame-a de amor
coloque-a de pé sob a luz
imperfeita
ponha-lhe um vestido
reze cante implore chore ria
apague as luzes
ligue o rádio
acrescente-lhe enfeites:
manteiga, ovos crus, jornais
de
ontem;
um cadarço novo, e então
páprica, açúcar, sal,
pimenta,
ligue para sua tia velha e
bêbada em
Calexico;
chame-a de amor,
espeta-a bem, adicione
repolho e molho de maçã,
então a esquente primeiro
no lado esquerdo,
depois no
direito,
ponha-a numa caixa
livre-se dela
deixe-a nos degraus de uma
porta
vomitando como você fará
nas
hortênsias.

Mulher dormindo

Eu sento na cama à noite e te ouço
roncando.
Eu te conheci numa estação de ônibus
e agora eu admiro suas costas
terrivelmente brancas e manchadas com
sardas de criança
à medida que a lâmpada despe o insolúvel
pesar do mundo
sobre teu sono.
Eu não posso ver teu pé
mas eu devo imaginar que eles são
os pés mais charmosos.
A quem você pertence?
Você é real?
Eu penso em flores, animais, pássaros
todos eles parecem mais do que bons
e tão claramente
reais.
E você não ajuda muito sendo
uma mulher. Nós somos cada um selecionados para ser
alguma coisa. A aranha, a galinha.
O elefante. É como se nós fossemos
uma pintura pindurada em alguma
parede de galeria
– e agora a pintura se vira
sobre suas costas, e sobre a curva do cotovelo
eu posso ver
uma boca, um olho um
quase nariz.
O resto de você está escondido
fora de vista
mas eu sei que você é
contemporânea, uma moderna obra
viva
talvez não imortal
mas nós temos
nos amado.
Por favor continue
roncando.

Olga Orozco – mais traduções

Resgatando e melhorando duas antigas tra(b)duções de poemas de Orozco que, por sua vez, me tra(b)duzem 😉

O jardim das delícias (Olga Orozco)

Acaso é nada mais que uma zona de abismos e vulcões em
plena ebulição, predestinada às cegas para as cerimônias da
espécie nesta inexplicável travessia para baixo? Ou talvez um
atalho, uma emboscada obscura onde o demônio aspira a inocência
e sela à sangue e fogo sua condenação na estirpe da alma? Ou
quiça tão somente uma região marcada como uma cruz de encontro
e desencontro entre dois corpos submissos como sóis?
Não. Nem viveiro da Perpetuação, nem frágua do pecado original,
nem armadilha do instinto, por mais que apenas um vento exasperado
propague por sua vez a fumaça, a combustão e a cinza. Nem sequer
um lugar, ainda que se precipite o firmamento e haja um céu que
foje, inumerável, como todo instantâneo paraíso.

Sozinha, só um número insensato, uma prega nas membranas
da ausência, um relâmpago sepultado em um jardim.

Mas basta o desejo, o sobressalto do amor, a sirena da
viagem, e então é mais um nó tenso em torno do feixe de
todos os sentidos e suas múltiplas ramas ramificadas até a
árvore da primeira tentação, até o jardim das delícias e
suas secretas ciências de extravio que se expandem de repente
da cabeça até os pés igual que um sorriso, o mesmo
que uma rede de ansiosos filamentos arrancados dum raio, a
corrente eriçada arrastando-se em busca do extermínio ou da saída,
escorrendo-se para dentro, rastejada por esses sortilégios que são
como tentáculos de mar e que arrebatem com vertigem indizível
até o fundo do tato, até o centro sem fim que se desfunda
caindo desde do alto, enquanto passa e trespassa essa orgânica
noite interrogante de cristas e focinhos e buzinas, com
ofegar de besta fugitiva, com seu flanco atiçado pelo chicote
do horizonte inalcançável, com seus olhos abertos aos mistério
da dupla treva, derrubando com cada sacudida a nebulosa
maquinaria do planeta, pondo em suspensão corolas como
lábios, esferas como frutos palpitantes, borbulhas onde pulsa
a espuma de outro mundo, constelações extraídas vivas de seu
prado natal, um êxodo de galáxias semelhantes a plumas girando
loucamente em um grande aluvião, nesse torvelinho estrondoso que
já se precipita pelo funil da morte com todo o universo
em expansão, com todo o universo em contração para o parto
do céu, e faz estalar de repente a redoma e dispersa no
sangue a criação.

O sexo, sim,
melhor, uma medida:
a metade do desejo, que é apenas a metade do amor.

Para se fazer um talismã (Olga Orozco)

Só é necessário teu coração
feito à viva imagem de teu demônio ou de teu deus.
Apenas seu coração, como um incensário em brasa para a idolatria.
Nada mais que um indefeso coração enamorado.

Abandone-o às intempéries,
deixa-o
lá onde a erva uiva suas queixas de ama louca
e não o permite dormir,
lá onde o vento e a chuva derrubam seu castigo
em um golpe de azul-calafrio
mas sem convertê-lo em mármore
e nem partí-lo em dois
lá onde a escuridão abre suas tocas à todas as selvagerias
e não o deixa, ah,
e não o permite
esquecer…

Ajeita-o, depois, do alto de seu amor
ao fervedouro fundo das brumas.
Então, deixa-o secando no surdo regaço da pedra,
e escava nele, com uma agulha fria e funda,
até arrancar o último grão de esperança.

Permita que o sufoquem as febres e a urtiga,
que o sacuda o trote ritual das matilhas,
que o envolva a injúria feita com os farrapos de suas antigas glórias.
E quando um-dia for um-ano o aprisione com as garras dum século,
antes que seja tarde, antes que seja nunca,
antes que se converta em múmia deslumbrante,
e abre de par em par, pétala-por-pétala,
todas sua feridas:
e as exiba ao sol piedoso do meio-dia como um mendigo o faria,
e lamenta, em delírio, no deserto,
até que somente o eco
de um nome cresça
ali dentro
como a fome
cresce em fúria:
o golpear incessante da colher contra um prato vazio.

Se ainda pulsa,
chegou até aqui como a viva imagem de teu demõnio ou teu deus:
eis aí teu talismã
mais inflexível que a lei,
mais forte que as armas e o mal de teu inimigo.
Guarde-o na vigília de teu peito como um sentinela,
mas… alerta!
Pois pode crescer aí dentro como a mordedura da lepra,
pode se tornar seu carrasco:
o inocente monstro, o insaciável comensal de tua morte!

e dá-lhe Cortázar!

Trecho de “Rayuela” de Cortázar

“Toco a sua boca com um dedo, toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se, pela primeira vez, a sua boca entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade, eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto, e que, por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que minha mão desenha em você. Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõe-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem, com um perfume antigo e um grande silêncio. Então as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se estivéssemos com a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.”

Poema (Cortázar)

Te amo pela sombrancelha. pelo cabelo, te debato em
corredores branquíssimos donde jorram
as fontes de luz,
te discuto a cada nome, te arranco com
delicadeza de cicatriz.
vou te pondo no cabelo cinzas de relâmpago
e fitas que dormiam na chuva.
Não quero que tenha uma forma, que seja
precisamente o que vier detrás de tua mão.
porque a água, observa a água e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitetura de nada,
incendiando as lâmpadas à metade do
encontro.
Toda manhã é a lousa onde te invento
te desenho.
Pronto para te apagar, assim não és, nem tampouco com
esse cabelo escorrido, esse sorriso.
Busco teu sumo, a borda da taça onde o
vinho é também a lua e o espelho,
Busco essa linha que faz tremer a um homem
em uma galeria de museu.
Ademais te quero, e faz tempo e frio.

Julio falando sobre caminhar pelas cidades

José Angel Buesa (Cuba)

Bom, tava procurando poetas novos e topei com o Buesa… vi que era cubano e pensei “hummm… pode ser coisa boa”… já associando sua poesia com o processo revolucionário e tudo mais. Nada disso. Angel foi daqueles que fugiu de Cuba depois da revolução. (Engraçado que nos textos que encontrei apenas se diz “teve que deixar Cuba”, mas não explicam por quê…). Sua obra foi meio que “banida” de Cuba, tida como mau exemplo (tanto pela qualidade – que realmente não é estupenda – como pelos riscos de “contaminação ideológica”). Mas, recentemente, em 1997, a editorial Letras Cubanas reeditou uma antologia de Buesa que é enormemente procurada pelos cubanos, para desespero da “vanguarda literária revolucionária”.

Apesar disso tudo, fui ler, porque poesia é poesia. Buesa foi muito famoso em sua época em Cuba: seu livro “Oásis” é um dos mais lidos na américa latina só perdendo pro “20 poemas de amor e uma canção desesperada” do Neruda. Era conhecido como “poeta enamorado”, “poeta dos enamorados”, porque só escrevia sobre amor, paixão e seus apêndices… sentimentalóide, simples, e, por isso mesmo, muito popular e um tanto desprezado pela crítica. A sua poesia é bobinha, de fato, um tanto inocente, mas tem um poder encantatório, pela própria simplicidade como aborda os temas e também pela gostosa montagem sonora, que me fizeram gostar de vários de seus poemas. Claro, não é algo assim “nossa, você tem que ler isso”… mas ele consegue carregar um pouco da singeleza do Bandeira numa abordagem tão popular e direta dos assuntos do coração que em vários momentos imaginei seus poemas como canções, como sambinhas, com versos do tipo “segundo dizem você já tem outro amante”. Feito e dito: muitos poemas seus foram musicados!

Bom, apesar dos pesares, seguem algumas tra(b)duções que fiz de Buesa… não compartilho com a forma singela e simples com que observar o amor, mas me cativa esse seu jeito ingênuo… tem lá sua beleza (meio folclórica, de uma abordagem tão sentimental e simples que semelha um bibelôzinho de geladeira, com corações e setas… algo entre lupcínio rodrigues e wando).

Ah, me lembrei, em boa hora, que o Roque Dalton (o poeta guerrilheiro) tem um poema em que cita o Buesa (criticando-o indiretamente)… já tra(b)duzi esse poema aqui (aliás, percebi hoje, alegre, que já traduzi quase todo o Dalton!). Coloco primeiro esse poema do Dalton como pré-antídoto para os poemas do Buesa… ahahah. (quem quiser pode pulá-lo e deixar para ler no final 🙂

Poema de Roque Dalton em que cita Buesa:

A cultura e o louco amor (Roque Dalton)

Eu te disse com toda seriedade
“que grande caminho andei
para chegar até aqui”
e você me disse que isso parecia José Angel Buesa
e então me ri todo
e te disse que os versos eram de Nicolas Guillén**
e você (que acabara de sair de tua aula de francês)
me contestou que então era Nicolas Guillén
quem se parecia a José Angel Buesa
eu te disse que se desculpasse imediatamente com
Nicolas Guillén e comigo
e então me disse
que o verdadeiro culpado era eu
por chegar ao José Angel Buesa essencial
através de Nicolas Guillén
então eu te disse que a verdadeira culpada era você
por ser tão puta
e aí foi que você pediu perdão
que estava equivocada
não é que você se parece ao José Angel Buesa
você é um José Angel Buesa.

Então eu saquei a pistola…

** Nicolas Guillén foi um poeta cubano revolucionário. Você pode encontrar tra(b)duções minhas dele aqui mesmo.

POEMA DA RENÚNCIA (José A. Buesa)

Passarás por minha vida sem saber que passaste.
Passarás em silêncio por meu amor, e ao passar,
fingirei um sorriso, como um doce contraste
da dor de querer-te… e jamais o saberá.

Sonharei com o nácar virginal de tua fronte;
sonharei com teus olhos de esmeraldas de mar;
sonharei com teus lábios desesperadamente;
sonharei com teus beijos… e jamais o saberá.

Quiçá passes com outro que te diga ao ouvido
essas frases que ninguém como eu te dirá;
e, afogando para sempre meu amor inadvertido,
te amarei mais que nunca… e jamais o saberá.

Eu te amarei em silêncio, como algo inacessível,
como um sonho que nunca lograrei realizar;
e o distante perfume de meu amor impossível
roçará teus cabelos … e jamais o saberá.

E se um dia uma lágrima denuncia meu tormento,
— o tormento infinito que te devo ocultar —
te direi sorridente: “Não é nada … foi o vento”.
Enxugarei a lágrima … e jamais o saberá!

CANÇÃO DO AMOR DISTANTE (José A. Buesa)

Ela não foi, dentre todas, a mais bela,
mas me deu o amor mais fundo e longo.
Outras me amaram mais; e, no entanto,
a nenhuma desejei como a ela.

Talvez porque a amei de longe,
como a uma estrela desde minha janela…
e a estrela que brilha mais distante
nos parece que tem mais reflexos.

Tive seu amor como uma coisa distante
como uma praia cada vez mais solitária,
que unicamente guarda da onda
uma umidade de sal sobre a areia.

Ela esteve em meus braços sem ser minha,
como a água no cântaro sedento,
como um perfume que se foi no vento
e que volta no vento todavia.

Me penetrou sua sede insatisfeita
como um arado sobre a planície,
abrindo em seu fugaz desprendimento
a esperança feliz da colheita.

Ela foi o próximo no longínquo,
mas preechia todo o vazio,
como o vento nas velas do navio,
como a luz no espelho quebrado.

Por isso ainda penso na mulher, aquela,
a que me deu o amor mais fundo e longo…
Nunca foi minha. Não era a mais bela.
Outras me amaram mais… E, no entanto,
a nenhuma desejei como a ela.

POEMA DA CULPA (José A. Buesa)

Eu a amei, e era de outro, que também a queria.
Perdoai a ela, Senhor, porque a culpa é minha.
Depois de haver beijado seus cabelos de trigo,
nada importa à culpa, pois não importa o castigo.

Foi um pecado desejá-la, Senhor, e, no entanto
meus lábios estão doces por esse amor amargo.
Ela foi como uma água calada que corria…
Se é culpa ter sede, toda a culpa é minha.

Perdoai a ela, Senhor, tu que destes a ela
sua frescura de chuva e esplendor de estrela.
Sua alma era transparente como um vaso vazio:
eu o enchi de amor. Todo o pecado é meu.

Mas, como não amá-la, se tu fizestes que fosse
pertubadora e fragante como a primavera?
Como não havê-la amado, se era como o orvalho
sobre a erva seca e ávida da estiagem?

Tratarei de rechaçá-la, Senhor, inutilmente,
como um sulco que tenta rechaçar a semente.
Era de outro. Era de outro que não a merecia,
e por isso, em seus braços, seguia sendo minha.

Era de outro, Senhor, mas há coisas sem dono:
as rosas e os rios, e o amor e o sonho.
E ela me deu seu amor como se dá uma rosa
como quem dá tudo, dando tão pouca coisa…

Uma embriaguês estranha nos venceu pouco a pouco:
ela não foi culpada, Senhor… nem eu tampouco
A culpa é toda tua, porque a fizestes bela
e me destes os olhos para mirá-la.

Sim. Nossa culpa é tua, se é uma culpa amar
e se é culpado o rio quando corre até o mar.
É tão bela, Senhor, e é tão suave, e tão clara,
que seria pecado maior se não a amasse.

E por isso, perdoa-me, Senhor, porque é tão bela,
que tu, que fizestes a água, e a flor, e a estrela,
tu, que ouves o lamento desta dor sem nome,
tu tambem a amarias, se pudesses ser homem.

BALADA DO MAU AMOR (José A. Buesa)

Que lástima, garota,
que não te possa amar.
Eu sou uma árvore seca que só espera o machado,
e você um arroio alegre que sonha com o mar.

Eu joguei minha rede no rio…
Rompeu-se a rede…
Não junte teu vaso cheio ao meu vazio,
pois se bebo em teu vaso vou sentir mais sede.

Beija-se pelo beijo,
por amar o amor…
Esse é teu amor de agora, mas o amor não é esse,
pois só nasce o fruto quando morre a flor.

Amar é tão simples,
tão sem saber por quê…
Mas assim como perde a moeda seu brilho,
a alma, pouco a pouco, vai perdendo sua fé.

Que lástima, garota,
que não te possa amar!
Há velas que se rompem à primera rajada,
e há tantas velas rasgadas no fundo do mar!

Mas ainda que toda ferida
deixe uma cicatriz,
não importa a folha seca de uma rama florida
se a dor dessa folha não chega à raiz.

A vida, chama ou neve,
é um moinho que
vai moendo em seus braços o vento que o move,
triturando as recordações do que já houve…

Já o meu foi meu,
e agora vou ao azar…
Se uma rosa é mais bela molhada de orvalho,
o golpe da chuva a pode desfolhar…

Tive um amor covarde.
O tive e o perdi…
Para teu amor prematuro já é demasiado tarde,
porque na minha alma anoitece o que amanhece em ti.

O vento enche a vela, mas à esfiapa,
e a água dos rios se faz amarga no mar…
Que lástima, garota,
que não te possa amar!

 

Quando alguém nos morre (Orozco)

Ler Orozco é difícil, mas adoro. Agora, necessário. Segue a tra(b)dução.

Quando alguém nos morre (Olga Orozco)

Poema a Eduardo Bosco

Foi necessário o grave, solitário lamento do vento entre as árvores,
para que tu soubesses mais que ninguém esse desesperado ressonar,
esse rumor sombrio com que podem se dizer as palavras
quando de nada vale sua fugaz melodia,
quando na solidão – a única aparência verdadeira -,
contemplamos, calando, os seres e os tempos que foram em nós
irrevogáveis mortes cujos nomes não saberemos jamais.

Foi necessário o ócio daquelas largas noites
que minuciosamente ordenastes em recordações, memorioso,
para que tu passasse sustentando a sombra com tua sombra,
apenas pressentida pelos dias,
com tua mesma pausada palidez demorando-se ainda depois de haver ido,
porque era teu adeus a despedida última,
o último sinal que acercava os sonhos desde o incontido amanhecer.

Foi necessário o lento trabalho dos anos,
seu rápido fulgor, seu murcho decair entre pesados muros
que só levantaram respostas de cinza a teu chamado
para que tu mirasses largamente tuas despojadas mãos
como uma planície donde os ventos deixam poeiras mortais,
enquanto dispõem, distante,
a tempestade que arrasa desmedida seu sedento destino.

Foi necessário todo o que fomos contigo,
o que somos contigo do lado dos prantos,
para saber, vivendo, quanta surda treva te assediava
e encontrar-nos, depois,
Com o assustado resplendor do ar que deixastes morrendo.

Porque todo este tempo
é o inumerável testemunho que nos traz as mesmas evidências,
aquele que fostes quanto eras, de uma vez para sempre:
acostumados gestos,
certos ritos que cumprira teu sangue submissa à memoria,
esses noturnos passos acercando os campos
onde a luz é só um repetido começo de penumbras,
as remotas paredes, as efêmeras coisas a que retornavas
com a triste paciência de quem guarda, laborioso, no olhar,
paisagens habituais que mais tarde
aliviarão o peso das horas em sabido desterro.

Tu pedias tão pouco.
Apenas se anseia um tranquilo viver que prolongasse a duracão de tua alma
em idéntico amor,
em radiante amizade, em devoção sagrada
por gentes que existiram com a simples nobreza da terra,
sem glórias nem ambições.
Tu amavas o imortal, o grandioso terrestre.

Mas não pode o débil chamado de tua vida contra pesadas portas
aposentos malditos, épocas miseraveis
onde o destino dorme surdamente seu legendário esquecimento-,
nadas tu na distância contra os invenciveis mares do inútil,
nadas tu juventude contra esse rosto
que entre desalentadas rebeldias, nostalgias e furiosos pesares,
infatigavelmente se assomou a teus desvelos;
e umas noites sentimos dentro do coração um rouco ondear,
amargamente vivo,
no preciso lugar onde ardia em nós,
como nós mesmos, duradoura,
tua calada grandeza.

Agora estamos mais sós por império da morte,
por um corpo ganhado como um palmo de terra pela terra baldia,
recobrando ao conjuro do mais distante sopro
realidades perdidas no mais esquecido dos antigos dias,
imagens que juntos transpassamos, que juntos nos esperam;
porque nao é a recordação do passado dispersos alhures
-folhas e ramas que acendemos
para chorar ao humos de uma lânguida fogueira-,
senão fiéis sinais de uma região dormente que aguarda nosso passo
com as pegadas de outrora suspendidas como eternas roupagens.

Não é só por dizer, Eduardo, quando alguém nos morre,
não há um lugar vazio, não há um tempo vazio,
há lufadas imensas que se buscam a sós, sem consolo,
pois aqui, e mais além,
tanto do que ele foi respira conosco a fadiga do pó passageiro,
tanto do que somos repousa irrecobrável entre sua morte
que assim sobrevivemos
levando cada um uma sombra do outro pelos distantes céus.
Alguma vez se acercarão,
Então, quando estivermos contigo para sempre,
Últimos como tu, como tu verdadeiros.

Júlio

“Sempre serei como um menino para tantas coisas, mas um desses guris que desde o começo carregam consigo o adulto, de maneira que quando o monstrinho chega verdadeiramente à idade do adulto ocorre que, por sua vez, carrega consigo o menino, e no meio do caminho se dá uma coexistência poucas vezes pacífica de pelo menos duas aberturas para o mundo.

Isto pode ser entendido metaforicamente, mas indica, em todo caso, um temperamento que não renuncia à visão pueril como preço da visão adulta, e essa justaposição que convém ao poeta e talvez ao criminoso, e também ao cronópio e ao humorista (questão de doses diferentes, de acentuação aguda ou esdrúxula, de escolhas: agora jogo, agora mato) manifesta-se no sentimento de não estar de todo em qualquer das estruturas, em quaisquer das teias que a vida arma e onde somos ao mesmo tempo aranha e mosca.” (Cortázar)

ÚLTIMOS CINCO POEMAS PARA CRIS

I.
Agora escrevo pássaros.
Não os vejo chegar, não escolho,
de repente estão aí,
um bando de palavras
a pousar
uma
por
uma
nos arames da página,
entre chilreios e bicadas,
chuva de asas,
e eu sem pão para dar,
tão somente deixo-os vir.
Talvez seja isto uma árvore,
ou quem sabe, o amor.

ANTES, DEPOIS…

Como os jogos ao pranto
como a sombra à coluna
o perfume desenha o jasmim
o amante precede o amor
como a carícia à mão
o amor sobrevive ao amante
porém inevitavelmente
ainda que não haja rastro nem presságio

ainda que não haja rastro nem presságio
como a carícia à mão
o perfume desenha o jasmim
o amante precede o amor
porém inevitavelmente
o amor sobrevive ao amante
como os jogos ao pranto
como a sombra à coluna

como a carícia à mão
ainda que não haja rastro nem presságio
o amante precede o amor
o perfume desenha o jasmim
como os jogos ao pranto
como a sombra à coluna
o amor sobrevive ao amante
porém inevitavelmente…

BOLERO

Que vaidade imaginar
que posso te dar tudo, o amor e o futuro,
itinerários, música, joguetes.
É certo que é assim:
tudo meu te dou, é certo,
mas tudo meu não te basta
como a mim não me basta que me dês
tudo teu.

Por isso não seremos nunca
o casal perfeito, o cartão postal,
se não somos capazes de aceitar
que só na aritmética
o dois nasce do um mais um.

Por aqui um papelzinho
que somente diz:

Sempre fostes meu espelho,
quero dizer que para me ver tinha que te olhar.

SEMPRE COMEÇAVA A CHOVER

Sempre começava a chover
na metade da película,
a flor que te levei tinha
uma aranha esperando entre as pétalas.

Creio que o sabias
e que favorecestes a desgraça.
Sempre esqueci o guarda-chuvas
antes de ir te buscar,
o restaurante estava cheio
e anunciavam a guerra nas esquinas.

Fui uma letra de tango
para tua indiferente melodia.

 

nas teias

Morte deseja mais morte

morte deseja mais morte, e sua teia está cheia:
eu me lembro da garagem de meu pai, quando criança
eu ia limpar os corpos das moscas
das janelas que elas pensavam ser saídas –
seus pegajosos, feios e vibrantes corpos
estourando-se como cachorros insandecidos contra o vidro
somente para girar e rodopiar
naquele segundo maior que o inferno e que o céu
para dentro do limite do limite,
e então a aranha de seu buraco negro
nervosa e exposta
o seu corpo crescendo inchando
pendurado ali
sem realmente saber,
e então sabendo –
alguma coisa a mandando pra baixo em seu fio,
a úmida teia,
na direção do fraco escudo de zumbidos,
a pulsação;
um último movimento desesperado
ali contra o vidro
ali vivo contra o sol,
girando em branco;
e quase como amor:
o enclausuramento,
o silencioso e primeiro sugar da aranha:
enchendo seu abdômen
sobre essa coisa que vivia;
se agachando ali sobre suas costas
forçando seu sangue certo
enquanto o mundo segue lá fora
e minha têmpora grita
e eu arremesso a vassoura contra eles:
a aranha sonsa com sua raiva-de-aranha
ainda pensando sobre sua presa
e acenando uma assombrosa perna troncha
a mosca imóvel,
um naco sujo preso na palha da vassoura;
eu sacudo a assassina desconjuntada
e ela caminha fraca e enervada
até algum canto escuro
mas eu intercepto seu lento esforço
arrastando-se como algum herói fudido,
e a palha esmaga suas pernas
agora arqueadas
sobre sua cabeça
e olhando
olhando o inimigo
e de alguma forma ainda valente,
morrendo sem aparente dor
simplesmente se arrastando para trás
pedaço por pedaço
deixando nada ali
até que finalmente seu saco visceral vermelho
espirra
seus segredos,
e eu corro como criança
com a raiva de Deus logo atrás de mim,
de volta aos simples raios de sol,
imaginando
à medida que o

Não me dê trégua

ENCARGO

Não me dê trégua, não me perdoes nunca.
Fustiga-me no sangue, que cada coisa cruel seja tu que
voltas.
Não me deixes dormir, não me dê paz!
Então ganharei meu reino,
nascerei lentamente.
Não me perdas como uma música fácil, não sejas carícia nem
luva;
tálha-me como um sílex, desespéra-me.
Guarda teu amor humano, teu sorriso, teu cabelo. Os dê.
Vem a mim com tua cólera seca de fósforos e escamas.
Grita. Vomíta-me areia na boca, rompe-me as goelas.
Não me importa ignorar-te em pleno dia,
saber que jogas cara ao sol e ao homem.
Compartilha!

Eu te peço a cruel cerimônia do talho,
o que ninguém te pede: as espinhas
até o osso. Arranca-me esta cara infame,
obriga-me a gritar ao fim meu verdadeiro nome.

INSTRUÇÕES PARA CHORAR

Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um choro que não penetre no escândalo, que não insulte o sorriso com sua semelhança desajeitada e paralela. O choro médio ou comum consiste numa contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e muco, este no fim, pois o choro acaba no momento em que a gente se assoa energicamente. Para chorar, dirija a imaginação a você mesmo, e se isto lhe for impossível por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas e nesses golfos do estreito de Magalhães nos quais não entra ninguém, nunca. Quando o choro chegar, você cobrirá o rosto com delicadeza, usando ambas as mãos com a palma para dentro. As crianças chorarão esfregando a manga do casaco na cara, e de preferência num canto do quarto. Duração média do choro, três minutos.

POEMA

Te amo pela sombrancelha. pelo cabelo, te debato em
corredores branquíssimos donde jorram
as fontes de luz,
te discuto a cada nome, te arranco com
delicadeza de cicatriz.
vou te pondo no cabelo cinzas de relâmpago
e fitas que dormiam na chuva.
Não quero que tenha uma forma, que seja
precisamente o que vier detrás de tua mão.
porque a água, observa a água e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitetura de nada,
incendiando as lâmpadas à metade do
encontro.
Toda manhã é a lousa onde te invento
te desenho.
Pronto para te apagar, assim não és, nem tampouco com
esse cabelo escorrido, esse sorriso.
Busco teu sumo, a borda da taça onde o
vinho é também a lua e o espelho,
Busco essa linha que faz tremer a um homem
em uma galeria de museu.
Ademais te quero, e faz tempo e frio.

HAPPY NEW YEAR

Veja, não peço muito,
somente tua mão, tê-la
como um sapinho que dorme assim contente.
Necessito essa porta que me davas
para entrar a teu mundo, esse trocinho
de açúcar verde, de redondo alegre.
Não me emprestas tua mão nesta noite
de fim de ano de esfomeados roncos?
Não podes, por razões técnicas.
Então a tramo no ar, urdindo cada dedo,
o pêssego sedoso da palma
e o dorso, esse país de árvores azuis.
Assim a tomo e a sustento,
como se disso dependesse
muitíssimo do mundo,
a sucessão das quatro estações,
o canto dos galos, o amor dos homens.

AMOR 77

E depois de fazer tudo o que fazem, se levantam, se banham, se
entalcam, se perfuman,
se penteiam, se vestem, e assim progresivamente vão voltando a ser
o que não são.

Jogar a vida

Estou lendo o “Rayuela” de Cortázar (em português, “Jogo de Amarelinha”). É considerado a obra máxima do autor. São muitos livros dentro de um, já que vc pode montar o livro segundo a ordem de capítulos que quiser. Há pelo menos duas leituras sugeridas no prefácio por Cortázar. O livro fala sobre a vida, as paixões e as possibilidades de se jogar esse jogo da vida, essa que sempre se coloca a nossa frente e pergunta “quer jogar?”. O livro trata disso e da possibilidade de se chegar ao “céu” (da vida e do jogo da amarelinha), e claro, ao “inferno”. Há algum tempo assisti um show do Gotan Project numa noite muito bonita e especial pra mim, noite de coração cheio. Lá eles cantaram uma música em homenagem ao Cortázar chamada “Rayuela” que diz

“Hay que saber mover los pies.
En la rayuela, o en la vida
vos podes elegir un día.
¿Por que costado, de que lado saltarás?”

Durante a música, aparece a voz de cortázar declamando trechos de “Rayuela”. Um desses trechos segue abaixo. O vídeo do clip da música também. E depois mais alguns poemas de Cortázar que tra(b)duzo.

CLIP DA MÚSICA “RAYUELA” DO GOTAN PROJECT

UM TRECHO DE RAYUELA LIDO POR CORTÁZAR NA MÚSICA

“Toco a sua boca com um dedo, toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se, pela primeira vez, a sua boca entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade, eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto, e que, por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que minha mão desenha em você. Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõe-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem, com um perfume antigo e um grande silêncio. Então as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se estivéssemos com a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.”

TALA

Leve estes olhos, pedrinhas de cores,
este nariz de tótem, estes lábios que sabem
todas as tábuas de multiplicar e as poesias mais seletas.
Te dou a face inteira, com a língua e o cabelo,
me livro das unhas e dentes e lhe completo o peso.
Não serve
essa maneira de sentir. Que olhos nem que dedos.
Nem essa comida requentada, a memória,
nem a atenção, como uma matraca perniciosa.
Tome as induções e os cabides
onde se penduram as palavras lavadas e engomadas.
Fustigue com a casa, fora de tudo,
deixe-me como um oco, ou uma estaca.
Talvez então, quando não me valha
a generosidade de Deus, esse menino escoteiro,
e esteja igual ao tapete que suportou
sua lenta chuva de sapatos oitenta anos
e é urdido somente, claro esqueleto donde
se apagaram os ricos pavões de prata,
pode ser que sim vos diga teu nome certo
pode ocorrer que alcance sem mãos tua cintura.

DEPOIS DAS FESTAS

E quando todo mundo se foi
e restamos os dois
entre vasos vazios e cinzeiros sujos,

que bonito era saber que estavas
alí como um remanso,
sozinha comigo à beira da noite,
e que duravas, eras mais que o tempo,

eras a que não se ia
porque um mesmo travesseiro
e uma mesma preguiça indolente
iria charmar-nos outra vez
para despertar ao novo dia,
juntos, rindo, descabelados.

UMA CARTA DE AMOR

Tudo que de você eu quis
é tão pouco no fundo
porque no fundo é tudo,

como um cachorro que passa, uma colina,
essas coisas de nada, cotidianas,
espiga, cabeleira e dois torrões
o odor de teu corpo,
o que diz de qualquer coisa,
comigo ou contra mim,

tudo isso é tão pouco,
e quero tudo isso de vós porque te quero.

Que olhes para além de mim,
que me ames com violenta prescindência
da manhã, que o grito
de sua entrega se lance
na cara de um chefe de repartição,

e que o prazer que juntos inventamos
seja outro signo da liberdade.

 

Duas canções de Cohen

Cohen, sempre Leonard Cohen voltando pra mim. Abaixo, traduzo duas canções desse poeta: “The partisan”, sobre a resistência dos judeus ao nazismo (Cohen ainda se afirma judeu, apesar de ter sido ordenado monge zen); e, “Please, Dont pass me by”, sobre uma situação corriqueira que vivenciamos todo dia e que Cohen, com sua visão política e apocalíptica, inverte e transforma.

THE PARTISAN – O PARTIDÁRIO


Quando eles vieram pela orla
Eu fui avisado para render-me,
isto é o que eu não poderia fazer.
Peguei minha arma e desapareci.
Eu mudei meu nome tantas vezes,
Eu perdi minha esposa e filhos
mas eu tenho muitos amigos
e alguns deles estão comigo.

Uma senhora nos deu abrigo,
nos manteve escondidos no sótão
então os soldados vieram,
ela morreu em silêncio.

Haviam três de nós esta manhã,
sou o único esta tarde
mas eu preciso ir em frente;
as fronteiras são minha prisão.

Oh, o vento, o vento está soprando
através dos túmulos ele está soprando,
a liberdade breve virá;
então nós viremos das sombras.

Os alemães estiveram em minha casa
eles disseram: “Identifique-se”,
mas eu não estou com medo
Eu recuperei minha arma.

Eu mudei meu nome uma centena de vezes
Eu perdi minha esposa e filhos
Mas eu tenho tantos amigos,
Eu tenho toda a França.

Um velho homem num sótão
nos escondeu durante a noite,
Os alemães o capturaram,
e ele morreu sem surpresa.

Oh, o vento, o vento está soprando
através dos túmulos ele está soprando,
a liberdade breve virá;
então nós viremos das sombras.

PLEASE, DON’T PASS ME BY

Eu estava andando em nova york e trombei com um homem na minha frente. Eu senti uma placa presa nas suas costa. E quando nós passamos o poste de luz, eu pude ler, e dizia “por favor, não me deixe de lado – Eu sou cego, mas você pode ver – Eu sou totalmente cego – por favor, não passe por mim.” Eu estava andando na Sétima avenida, quando eu entrei na 14a. rua e vi na esquina curiosas mutilações
da forma humana; era uma escola para deficientes. E havia aleijados, e pessoas em cadeira de rodas e com bengalas e estava nevando, e tive essa sensação de que a cidade toda estava cantando:

Oh please don’t pass me by,
Oh please don’t pass me by,
For I am blind, but you can see,
Yes, I’ve been blinded totally,
Oh please don’t pass me by.

E você sabe, à medida que eu ia andando eu pensei que eram eles que estavam cantando isso, eu pensei que eram os outros que estavam cantando isso, eu pensei que era outra pessoa.Mas à medida que eu segui eu soube que era eu, e que eu estava cantando isso para mim. Era assim:

Please don’t pass me by,
Oh please don’t pass me by,
For I am blind, but you can see,
Well, I’ve been blinded totally,
Oh please don’t pass me by.
Oh please don’t pass me by.

Agora eu sei que você está sentado no fundo de seus assentos de veludo e estão pensando “ah, ele está lá dizendo alguma coisa que ele pensa de mim, mas eu nunca vou ter que cantar essa canção”. Mas eu vos prometo, meus amigos, que vocês cantarão esta canção: talvez não esta noite, talvez não amanhã, mas algum dia vocês estarão de joelhos e eu quero que saibam a letra quando chegar o momento. Porque vocês terão que cantar para vocês mesmos, ou para outros, ou para seu irmão. Vocês terão que aprender a cantar esta canção, que vai assim:

Please don’t pass me by,
Ah you don’t have to sing this .. not for you.
Please don’t pass me by,
For I am blind, but you can see,
Yes, I’ve been blinded totally,
Oh please don’t pass me by.

Bem eu canto isto para os judeus e para os ciganos e para a fumaça que fazem. E eu canto isto para as crianças da Inglaterra, suas faces tão graves. E eu canto isto para o salvador sem ninguém para salvar. Vocês não se desnudarão para mim? Hey, vocês não se desnudarão para mim? E vai:

Please don’t pass me by,
Oh please don’t pass me by,
For I am blind, but you can see,
Yes, I’ve been blinded totally,
Oh now, please don’t pass me by.

Agora não há nada que eu diga que te ajudará a conectar a noite de sangue torturado com o dia que vem a seguir. Mas eu quero te machucar, e quero que isso tenha fim. Oh, vocês não se desnudarão para mim?

Please don’t pass me by,
Oh please don’t pass me by,
For I am blind, but you can see,
Yes, I’ve been blinded totally,
Oh now, please don’t pass me by.

Bem, eu canto esta canção para as bestas loiras, eu canto esta canção para você Vênus sobre suas conchas na espuma do mar. E eu canto isto para os esquisitos, para os aleijados, e para os corcundas, e para os queimados, e para os que estão queimando, e para os desfigurados, os quebrados, os rasgados, e para todos aqueles de que vocês falam nos cafés, nos encontros, e nas demonstrações, e nas ruas, em sua música, nas minhas canções. Eu falo dos que realmente estão queimando, eu falo dos que estão realmente queimando

Please don’t pass me by,
Oh please don’t pass me by,
For I am blind, but you can see,
Yes, I’ve been blinded totally,
Oh now, please don’t pass me by.

Eu sei que você ainda pensa que sou eu. Eu sei que você pensa que há outra pessoa qualquer. Eu sei que estas palavras não são suas. Mas eu digo, meus amigos, que um dia

você estará de joelhos
você estará de joelhos
você estará de joelhos
Please don’t pass me by,
Oh please don’t pass me by,
For I am blind, but you can see,
Yes, I’ve been blinded totally,
Oh now, please don’t pass me by.

Bem, você sabe que eu tenho minhas canções e meus poemas. Eu tenho meu livro e eu tenho as armas, e algumas vezes eu tenho seu aplauso. Eu faço algum dinheiro, mas você sabe, meus amigos, eu ainda estou lá fora na esquina. Estou com os esquisitos, com os perseguidos, com os desfigurados, sim com os rasgados, com os de baixo, eu estou com os pobres. Agora vamos…

Please don’t pass me by,
Oh please don’t pass me by,
For I am blind, but you can see,
Yes, I’ve been blinded totally,
Oh now, please don’t pass me by.

Agora eu quero tirar minha dignidade, sim, tirar minha dignidade. Meus amigos, tirar minha dignidade, tirar minha forma, tirar meu estilo, tirar minha honra, tirar minha coragem, tiragar meu tempo, tirar meu tempo, tempo… Porque vocês sabem eu estou cantando esta canção. E eu gostaria que você fosse, gostaria que você fosse, eu gostaria que você fosse para casa com outra pessoa. Gostaria que você fosse pra casa com outra pessoa. Gostaria que você fosse pra casa com outra pessoa. Não seja a pessoa com quem você veio aqui. Oh, Não seja a pessoa com quem você veio aqui. Oh, Não seja a pessoa com quem você veio aqui. Ah, eu não serei. Eu não suporto ele. Eu não suporto quem sou. É por isso que eu tenho que ficar de joelhos. Porque eu não posso sozinho. Eu não estou sozinho mais porque o homem que eu fui antes era um tirano, ele era um escravo, ele estava algemado, estava quebrado e então ele cantava:

Please don’t pass me by,
Oh please don’t pass me by,
For I am blind, but you can see,
Yes, I’ve been blinded totally,
Oh now, please don’t pass me by.

Bem, eu espero ver vocês lá fora na esquina. Sim, eu espero que quando eu passe ouça você sussurrando com a brisa. Porque eu vou deixá-los agora, eu vou encontrar alguém novo. Encontrar alguém novo. E, por favor, não me deixe de lado.