nas teias

Morte deseja mais morte

morte deseja mais morte, e sua teia está cheia:
eu me lembro da garagem de meu pai, quando criança
eu ia limpar os corpos das moscas
das janelas que elas pensavam ser saídas –
seus pegajosos, feios e vibrantes corpos
estourando-se como cachorros insandecidos contra o vidro
somente para girar e rodopiar
naquele segundo maior que o inferno e que o céu
para dentro do limite do limite,
e então a aranha de seu buraco negro
nervosa e exposta
o seu corpo crescendo inchando
pendurado ali
sem realmente saber,
e então sabendo –
alguma coisa a mandando pra baixo em seu fio,
a úmida teia,
na direção do fraco escudo de zumbidos,
a pulsação;
um último movimento desesperado
ali contra o vidro
ali vivo contra o sol,
girando em branco;
e quase como amor:
o enclausuramento,
o silencioso e primeiro sugar da aranha:
enchendo seu abdômen
sobre essa coisa que vivia;
se agachando ali sobre suas costas
forçando seu sangue certo
enquanto o mundo segue lá fora
e minha têmpora grita
e eu arremesso a vassoura contra eles:
a aranha sonsa com sua raiva-de-aranha
ainda pensando sobre sua presa
e acenando uma assombrosa perna troncha
a mosca imóvel,
um naco sujo preso na palha da vassoura;
eu sacudo a assassina desconjuntada
e ela caminha fraca e enervada
até algum canto escuro
mas eu intercepto seu lento esforço
arrastando-se como algum herói fudido,
e a palha esmaga suas pernas
agora arqueadas
sobre sua cabeça
e olhando
olhando o inimigo
e de alguma forma ainda valente,
morrendo sem aparente dor
simplesmente se arrastando para trás
pedaço por pedaço
deixando nada ali
até que finalmente seu saco visceral vermelho
espirra
seus segredos,
e eu corro como criança
com a raiva de Deus logo atrás de mim,
de volta aos simples raios de sol,
imaginando
à medida que o

Não me dê trégua

ENCARGO

Não me dê trégua, não me perdoes nunca.
Fustiga-me no sangue, que cada coisa cruel seja tu que
voltas.
Não me deixes dormir, não me dê paz!
Então ganharei meu reino,
nascerei lentamente.
Não me perdas como uma música fácil, não sejas carícia nem
luva;
tálha-me como um sílex, desespéra-me.
Guarda teu amor humano, teu sorriso, teu cabelo. Os dê.
Vem a mim com tua cólera seca de fósforos e escamas.
Grita. Vomíta-me areia na boca, rompe-me as goelas.
Não me importa ignorar-te em pleno dia,
saber que jogas cara ao sol e ao homem.
Compartilha!

Eu te peço a cruel cerimônia do talho,
o que ninguém te pede: as espinhas
até o osso. Arranca-me esta cara infame,
obriga-me a gritar ao fim meu verdadeiro nome.

INSTRUÇÕES PARA CHORAR

Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um choro que não penetre no escândalo, que não insulte o sorriso com sua semelhança desajeitada e paralela. O choro médio ou comum consiste numa contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e muco, este no fim, pois o choro acaba no momento em que a gente se assoa energicamente. Para chorar, dirija a imaginação a você mesmo, e se isto lhe for impossível por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas e nesses golfos do estreito de Magalhães nos quais não entra ninguém, nunca. Quando o choro chegar, você cobrirá o rosto com delicadeza, usando ambas as mãos com a palma para dentro. As crianças chorarão esfregando a manga do casaco na cara, e de preferência num canto do quarto. Duração média do choro, três minutos.

POEMA

Te amo pela sombrancelha. pelo cabelo, te debato em
corredores branquíssimos donde jorram
as fontes de luz,
te discuto a cada nome, te arranco com
delicadeza de cicatriz.
vou te pondo no cabelo cinzas de relâmpago
e fitas que dormiam na chuva.
Não quero que tenha uma forma, que seja
precisamente o que vier detrás de tua mão.
porque a água, observa a água e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitetura de nada,
incendiando as lâmpadas à metade do
encontro.
Toda manhã é a lousa onde te invento
te desenho.
Pronto para te apagar, assim não és, nem tampouco com
esse cabelo escorrido, esse sorriso.
Busco teu sumo, a borda da taça onde o
vinho é também a lua e o espelho,
Busco essa linha que faz tremer a um homem
em uma galeria de museu.
Ademais te quero, e faz tempo e frio.

HAPPY NEW YEAR

Veja, não peço muito,
somente tua mão, tê-la
como um sapinho que dorme assim contente.
Necessito essa porta que me davas
para entrar a teu mundo, esse trocinho
de açúcar verde, de redondo alegre.
Não me emprestas tua mão nesta noite
de fim de ano de esfomeados roncos?
Não podes, por razões técnicas.
Então a tramo no ar, urdindo cada dedo,
o pêssego sedoso da palma
e o dorso, esse país de árvores azuis.
Assim a tomo e a sustento,
como se disso dependesse
muitíssimo do mundo,
a sucessão das quatro estações,
o canto dos galos, o amor dos homens.

AMOR 77

E depois de fazer tudo o que fazem, se levantam, se banham, se
entalcam, se perfuman,
se penteiam, se vestem, e assim progresivamente vão voltando a ser
o que não são.

Jogar a vida

Estou lendo o “Rayuela” de Cortázar (em português, “Jogo de Amarelinha”). É considerado a obra máxima do autor. São muitos livros dentro de um, já que vc pode montar o livro segundo a ordem de capítulos que quiser. Há pelo menos duas leituras sugeridas no prefácio por Cortázar. O livro fala sobre a vida, as paixões e as possibilidades de se jogar esse jogo da vida, essa que sempre se coloca a nossa frente e pergunta “quer jogar?”. O livro trata disso e da possibilidade de se chegar ao “céu” (da vida e do jogo da amarelinha), e claro, ao “inferno”. Há algum tempo assisti um show do Gotan Project numa noite muito bonita e especial pra mim, noite de coração cheio. Lá eles cantaram uma música em homenagem ao Cortázar chamada “Rayuela” que diz

“Hay que saber mover los pies.
En la rayuela, o en la vida
vos podes elegir un día.
¿Por que costado, de que lado saltarás?”

Durante a música, aparece a voz de cortázar declamando trechos de “Rayuela”. Um desses trechos segue abaixo. O vídeo do clip da música também. E depois mais alguns poemas de Cortázar que tra(b)duzo.

CLIP DA MÚSICA “RAYUELA” DO GOTAN PROJECT

UM TRECHO DE RAYUELA LIDO POR CORTÁZAR NA MÚSICA

“Toco a sua boca com um dedo, toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se, pela primeira vez, a sua boca entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade, eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto, e que, por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que minha mão desenha em você. Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõe-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem, com um perfume antigo e um grande silêncio. Então as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se estivéssemos com a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.”

TALA

Leve estes olhos, pedrinhas de cores,
este nariz de tótem, estes lábios que sabem
todas as tábuas de multiplicar e as poesias mais seletas.
Te dou a face inteira, com a língua e o cabelo,
me livro das unhas e dentes e lhe completo o peso.
Não serve
essa maneira de sentir. Que olhos nem que dedos.
Nem essa comida requentada, a memória,
nem a atenção, como uma matraca perniciosa.
Tome as induções e os cabides
onde se penduram as palavras lavadas e engomadas.
Fustigue com a casa, fora de tudo,
deixe-me como um oco, ou uma estaca.
Talvez então, quando não me valha
a generosidade de Deus, esse menino escoteiro,
e esteja igual ao tapete que suportou
sua lenta chuva de sapatos oitenta anos
e é urdido somente, claro esqueleto donde
se apagaram os ricos pavões de prata,
pode ser que sim vos diga teu nome certo
pode ocorrer que alcance sem mãos tua cintura.

DEPOIS DAS FESTAS

E quando todo mundo se foi
e restamos os dois
entre vasos vazios e cinzeiros sujos,

que bonito era saber que estavas
alí como um remanso,
sozinha comigo à beira da noite,
e que duravas, eras mais que o tempo,

eras a que não se ia
porque um mesmo travesseiro
e uma mesma preguiça indolente
iria charmar-nos outra vez
para despertar ao novo dia,
juntos, rindo, descabelados.

UMA CARTA DE AMOR

Tudo que de você eu quis
é tão pouco no fundo
porque no fundo é tudo,

como um cachorro que passa, uma colina,
essas coisas de nada, cotidianas,
espiga, cabeleira e dois torrões
o odor de teu corpo,
o que diz de qualquer coisa,
comigo ou contra mim,

tudo isso é tão pouco,
e quero tudo isso de vós porque te quero.

Que olhes para além de mim,
que me ames com violenta prescindência
da manhã, que o grito
de sua entrega se lance
na cara de um chefe de repartição,

e que o prazer que juntos inventamos
seja outro signo da liberdade.

 

Duas canções de Cohen

Cohen, sempre Leonard Cohen voltando pra mim. Abaixo, traduzo duas canções desse poeta: “The partisan”, sobre a resistência dos judeus ao nazismo (Cohen ainda se afirma judeu, apesar de ter sido ordenado monge zen); e, “Please, Dont pass me by”, sobre uma situação corriqueira que vivenciamos todo dia e que Cohen, com sua visão política e apocalíptica, inverte e transforma.

THE PARTISAN – O PARTIDÁRIO


Quando eles vieram pela orla
Eu fui avisado para render-me,
isto é o que eu não poderia fazer.
Peguei minha arma e desapareci.
Eu mudei meu nome tantas vezes,
Eu perdi minha esposa e filhos
mas eu tenho muitos amigos
e alguns deles estão comigo.

Uma senhora nos deu abrigo,
nos manteve escondidos no sótão
então os soldados vieram,
ela morreu em silêncio.

Haviam três de nós esta manhã,
sou o único esta tarde
mas eu preciso ir em frente;
as fronteiras são minha prisão.

Oh, o vento, o vento está soprando
através dos túmulos ele está soprando,
a liberdade breve virá;
então nós viremos das sombras.

Os alemães estiveram em minha casa
eles disseram: “Identifique-se”,
mas eu não estou com medo
Eu recuperei minha arma.

Eu mudei meu nome uma centena de vezes
Eu perdi minha esposa e filhos
Mas eu tenho tantos amigos,
Eu tenho toda a França.

Um velho homem num sótão
nos escondeu durante a noite,
Os alemães o capturaram,
e ele morreu sem surpresa.

Oh, o vento, o vento está soprando
através dos túmulos ele está soprando,
a liberdade breve virá;
então nós viremos das sombras.

PLEASE, DON’T PASS ME BY

Eu estava andando em nova york e trombei com um homem na minha frente. Eu senti uma placa presa nas suas costa. E quando nós passamos o poste de luz, eu pude ler, e dizia “por favor, não me deixe de lado – Eu sou cego, mas você pode ver – Eu sou totalmente cego – por favor, não passe por mim.” Eu estava andando na Sétima avenida, quando eu entrei na 14a. rua e vi na esquina curiosas mutilações
da forma humana; era uma escola para deficientes. E havia aleijados, e pessoas em cadeira de rodas e com bengalas e estava nevando, e tive essa sensação de que a cidade toda estava cantando:

Oh please don’t pass me by,
Oh please don’t pass me by,
For I am blind, but you can see,
Yes, I’ve been blinded totally,
Oh please don’t pass me by.

E você sabe, à medida que eu ia andando eu pensei que eram eles que estavam cantando isso, eu pensei que eram os outros que estavam cantando isso, eu pensei que era outra pessoa.Mas à medida que eu segui eu soube que era eu, e que eu estava cantando isso para mim. Era assim:

Please don’t pass me by,
Oh please don’t pass me by,
For I am blind, but you can see,
Well, I’ve been blinded totally,
Oh please don’t pass me by.
Oh please don’t pass me by.

Agora eu sei que você está sentado no fundo de seus assentos de veludo e estão pensando “ah, ele está lá dizendo alguma coisa que ele pensa de mim, mas eu nunca vou ter que cantar essa canção”. Mas eu vos prometo, meus amigos, que vocês cantarão esta canção: talvez não esta noite, talvez não amanhã, mas algum dia vocês estarão de joelhos e eu quero que saibam a letra quando chegar o momento. Porque vocês terão que cantar para vocês mesmos, ou para outros, ou para seu irmão. Vocês terão que aprender a cantar esta canção, que vai assim:

Please don’t pass me by,
Ah you don’t have to sing this .. not for you.
Please don’t pass me by,
For I am blind, but you can see,
Yes, I’ve been blinded totally,
Oh please don’t pass me by.

Bem eu canto isto para os judeus e para os ciganos e para a fumaça que fazem. E eu canto isto para as crianças da Inglaterra, suas faces tão graves. E eu canto isto para o salvador sem ninguém para salvar. Vocês não se desnudarão para mim? Hey, vocês não se desnudarão para mim? E vai:

Please don’t pass me by,
Oh please don’t pass me by,
For I am blind, but you can see,
Yes, I’ve been blinded totally,
Oh now, please don’t pass me by.

Agora não há nada que eu diga que te ajudará a conectar a noite de sangue torturado com o dia que vem a seguir. Mas eu quero te machucar, e quero que isso tenha fim. Oh, vocês não se desnudarão para mim?

Please don’t pass me by,
Oh please don’t pass me by,
For I am blind, but you can see,
Yes, I’ve been blinded totally,
Oh now, please don’t pass me by.

Bem, eu canto esta canção para as bestas loiras, eu canto esta canção para você Vênus sobre suas conchas na espuma do mar. E eu canto isto para os esquisitos, para os aleijados, e para os corcundas, e para os queimados, e para os que estão queimando, e para os desfigurados, os quebrados, os rasgados, e para todos aqueles de que vocês falam nos cafés, nos encontros, e nas demonstrações, e nas ruas, em sua música, nas minhas canções. Eu falo dos que realmente estão queimando, eu falo dos que estão realmente queimando

Please don’t pass me by,
Oh please don’t pass me by,
For I am blind, but you can see,
Yes, I’ve been blinded totally,
Oh now, please don’t pass me by.

Eu sei que você ainda pensa que sou eu. Eu sei que você pensa que há outra pessoa qualquer. Eu sei que estas palavras não são suas. Mas eu digo, meus amigos, que um dia

você estará de joelhos
você estará de joelhos
você estará de joelhos
Please don’t pass me by,
Oh please don’t pass me by,
For I am blind, but you can see,
Yes, I’ve been blinded totally,
Oh now, please don’t pass me by.

Bem, você sabe que eu tenho minhas canções e meus poemas. Eu tenho meu livro e eu tenho as armas, e algumas vezes eu tenho seu aplauso. Eu faço algum dinheiro, mas você sabe, meus amigos, eu ainda estou lá fora na esquina. Estou com os esquisitos, com os perseguidos, com os desfigurados, sim com os rasgados, com os de baixo, eu estou com os pobres. Agora vamos…

Please don’t pass me by,
Oh please don’t pass me by,
For I am blind, but you can see,
Yes, I’ve been blinded totally,
Oh now, please don’t pass me by.

Agora eu quero tirar minha dignidade, sim, tirar minha dignidade. Meus amigos, tirar minha dignidade, tirar minha forma, tirar meu estilo, tirar minha honra, tirar minha coragem, tiragar meu tempo, tirar meu tempo, tempo… Porque vocês sabem eu estou cantando esta canção. E eu gostaria que você fosse, gostaria que você fosse, eu gostaria que você fosse para casa com outra pessoa. Gostaria que você fosse pra casa com outra pessoa. Gostaria que você fosse pra casa com outra pessoa. Não seja a pessoa com quem você veio aqui. Oh, Não seja a pessoa com quem você veio aqui. Oh, Não seja a pessoa com quem você veio aqui. Ah, eu não serei. Eu não suporto ele. Eu não suporto quem sou. É por isso que eu tenho que ficar de joelhos. Porque eu não posso sozinho. Eu não estou sozinho mais porque o homem que eu fui antes era um tirano, ele era um escravo, ele estava algemado, estava quebrado e então ele cantava:

Please don’t pass me by,
Oh please don’t pass me by,
For I am blind, but you can see,
Yes, I’ve been blinded totally,
Oh now, please don’t pass me by.

Bem, eu espero ver vocês lá fora na esquina. Sim, eu espero que quando eu passe ouça você sussurrando com a brisa. Porque eu vou deixá-los agora, eu vou encontrar alguém novo. Encontrar alguém novo. E, por favor, não me deixe de lado.

 

Ainda em Orozco

Em viagem… segue uma tradução do antigo blog…

DENSOS VÉUS TE COBREM, POESIA (Olga Orozco)

Não é neste vulcão que há debaixo de minha língua falaz onde te busco,
nem esta espuma azul que ferve e se cristaliza na minha cabeça,
senão nessas regiões que mudam de lugar quando se nomeiam,
como o secreto eu e as indecifráveis colônias de outro mundo.
Noites e dias com os olhos abertos sob o insuportável pestenajar do sol,
espiando no céu um sinal,
a sombra de um eclipse fulgurante sobre o rosto do tempo,
uma fissura branca como um corte de Deus na muralha do planeta.
Algo com que iluminar as sílabas dispersas de um código perdido
para poder ler nestas pedras meu costado invisível.

Mas nenhum pentecostes de asas ardentes descendo sobre mim.
Variações de fumaça, retalhos de trevas com máscaras de chumbo,
meteoros inominados que me subtraem a visão entre um bater de portas!
Noites e dias fortificada na clausura desta pele,
escavando no sangue como uma toupeira,
removendo no ossos as fundações e lápides,
em busca de um indício como de um talismã que me reverta à divisão e a queda.
Onde foi sepultada a semente de meu pequeno verbo mesmo sem formular?
Em que Delfos perdido na corrente
sobem como o vapor as vozes desprendidas que reclamam minha voz para manifestar-se?
E como agarrar o signo à deriva – esse e não qualquer outro –
em que deve encarnar cada fragmento deste imenso silêncio?
Não há resposta que estoure como uma constelação entre farrapos noturnos,
Apenas se fantasmas insondáveis das profundidades,
territórios que comunicam com pântanos,
lascas de palavras e seixos que se dissolvem no insolúvel nada!

No entanto
agora mesmo
ou alguma vez
não sei
quem sabe
pode ser
através das duplas espessuras que fecham a saída
ou acaso suspendida por um erro de séculos na rede do instante
cri te ver surgir como uma ilha
quiçá como uma barca entrea as nuvens ou um castelo em que alguém canta
ou uma gruta que avança tormentosa com todos os sobrenaturais fogos acesos.

Ah, as mãos cortadas,
os olhos que avivam e o ouvido que troveja!
Um punhado de polvo, meus vocábulos!

 

Buk

Três tra(b)duções que fiz do Bukowski. O primeiro poema traz esse seu “lirismo” duro, de lágrimas secas; o segundo parte de seu sarcasmo pela vida dita normal de cada um; o último mostra todo seu desprezo pela literatura e, em especial, pela sua (vejam, esse desprezo é também construído, seu lugar comum tipico).

Um sorriso para relembrar

Nós tínhamos peixes dourados e eles davam voltas e voltas
no aquário sobre a mesa perto da cortina pesada
que cobria a janela panorâmica e
minha mãe, sempre sorrindo, querendo que a gente
ficasse feliz, me dizia: “Alegria, Henry!”
e ela estava certa: é melhor ser feliz se você
pode.
Mas meu pai continuava batendo nela e em mim várias vezes na semana enquanto
se enfurecia em seus 1m e 80, porque não conseguia
entender o que estava atacando ele por dentro.

Minha mãe, pobre peixe,
querendo ser feliz, apanhando duas ou três vezes por
semana, me dizendo para ser feliz: “Henry, sorria!
Por que você nunca sorri?”

E então ela sorria, para me mostrar como, e era o
o sorriso mais triste que eu já vi.

Um dia os dourados morreram, todos os cinco,
eles boiaram na água, assim de lado, seus
olhos abertos ainda,
e quando meu pai chegou em casa ele os jogou pro gato
ali no chão da cozinha e nós assistíamos enquanto minha mãe
sorria.

E a lua e as estrelas e o mundo

Longas caminhadas à noite –
isso é o que é bom pra alma:
espiando pelas janelas
as esposas cansadas
tentando afastar
seus maridos pirados de cerveja.

Eu gosto de seus livros

Na fila de apostas outro
dia
um homem atrás de mim perguntou,
“Você é Henry
Chinaski?”

“Uh hum”, eu respondi.

“Eu gosto de seus livros”, ele
mandou.

“Obrigado”, eu respondi.

“Quem você prefere nesta
corrida?”, ele perguntou.

“Uh hum”, eu respondi.

“Eu gosto do cavalo 4”, ele
me disse.

Eu fiz minha aposta e voltei
pro meu lugar…

Na próxima corrida eu estou esperando
na fila e aqui está o mesmo homem
atrás de mim
de novo.
Tem pelo menos umas 50 filas
mas
ele tinha que achar a minha
de novo.

“Eu acho que esta corrida favorece
os fundistas”, ele disse para as costas
do meu pescoço. “A pista parece
pesada.”

“Escute”, eu disse, sem olhar
ao redor, “é dar sorte ao azar
falar sobre cavalos na
pista…”

“Que tipo de regra é essa?”
ele perguntou. “Deus não faz
regras…”

Eu me virei e olhei pra ele:
“talvez não, mas eu
faço.”

Depois da próxima corrida
eu fui pra fila, e dei uma espiada
atrás:
ele não estava.

Perdi outro leitor.

Eu perco 2 ou 3 por
semana.

Beleza.

Vamos deixar que voltem pro
Kafka.

Black Friday

BLACK FRIDAY
(em homenagem a Fidel Castro que morreu na sexta-feira 25 de novembro – recomendo ver o vídeo antes de ler o poema)

estão lado a lado e são muitos…
e têm raiva, gritam, correm, urram,
a energia transborda, explode uma disposição
irracional pra luta…

mas não estão juntos.

estão, ali, ombro a ombro,
são uma onda de vontades
e sonhos…

solitários.

são muitos,
mas não são um todo…
fragmentos, estilhaços
ricocheteando em desespero..

tantos e tão
ínfimos,
assim,
isolados
na capsula
que lhes foi conferida,

são ilhas

poderiam tomar toda a loja
poderiam tomar todas as fábricas
eram muitos e estavam – ali – ladoalado
em raiva
vida querendo mais vida

mas algo tapa
suas vistas

se chocam, se socam, mordem, batem, gritam
numa busca desumanamente humana
por algo de vida
com desconto
que lhes concedem
– rindo –
uma vez
ao ano.

II.
não eram muitos
mas eram unos
eram juntos uma imensidão
vontade coletiva
e forjaram um só corpo
de braços nas serras e pés
nas esquinas
e depuseram um ditador
e tomaram a ilha
e enfrentaram o império
e se fizeram pontes
e se lançaram istmos
e nos davam o braço,
a mão, o canto
nos levantavam gritando
“é possível, ainda!”
e um sorriso ecoando noutro
ria-se do poder que
sempre fomos
e logo éramos
uma internacional
de sonhos
saqueando de volta
a vida,
sem descontos,
a integral,
merecida.

III.
Morreu Fidel
na black friday.

Imenso,
ele se riria,
certamente,
com essa
ironia.

Cuba segue
um continente
dentre um mar
de ilhas.

Os policiais e os guardas

OS POLICIAIS E OS GUARDAS
(poeta guerrilheiro Roque Dalton, El Salvador, 1935-1975)

Sempre viram o povo
como um montão de costas que corriam pra longe
como um campo para deixar cair com ódio os cassetetes.

Sempre viram o povo com o olho de afinar a pontaria
e e entre o povo e o olho
a mira da pistola ou a do fuzil.

(Um dia eles também foram povo
mas com a desculpa da fome e do desemprego
aceitaram uma arma
um cassetete um soldo mensal
para defender os que causam fome e aos que desempregam).

Sempre viram o povo aguentando
suando
vociferando
levantando cartazes
levantando os punhos
e também dizendo-lhes:
“Cachorros filhos da puta o dia de vocês vai chegar!”

(E cada dia que passava
eles acreditavam ter feito um grande negócio
ao trair o povo do qual nasceram:
“O povo é um monte de fracos e sem vergonhas -pensavam-
que bem fizemos ao passarmos para o lado dos vivos e dos fortes”).

E então era só apertar o gatilho
e as balas iam da margem dos policiais e guardas
contra a margem do povo
assim iam sempre
de lá pra cá
e o povo caía sangrando
semana após semana ano após ano
quebrados seus ossos
chorando pelos olhos de mulheres e crianças
fugia espantado
deixava de ser povo para ser tropel vermelho
desaparecia na forma como cada um se salvava
para sua casa e logo nada mais
só os bombeiros lavando o sangue das ruas.

(Os coronéis acabavam de os convencer:
“É isso homens -lhes diziam-
duro e na cabeça com os civis
fogo com o populacho
vocês também são pilares uniformizados da Nação
sacerdotes de primeira linha
no culto à bandeira ao escudo ao hino aos próceres
à democracia representativa ao partido oficial e ao mundo livre
cujos sacrifícios não esquecerá a gente decente deste país
ainda que hoje não possamos subir vosso soldo
como é nosso desejo”).

Sempre viram o povo
franzido no quarto das torturas
pendurado
espancado
fraturado
inchado
asfixiado
violado
furado com agulhas nos ouvidos e nos olhos
eletrocutado
afogado em urina e merda
cuspido
arrastado
soltando fumaça em seus últimos restos
no inferno da cal viva.

(Quando resultou morto o décimo Guarda Nacional. Morto pelo povo
e o quinto rato bem esmagado pela guerrilha urbana
os ratos e os Guardas Nacionais começaram a pensar
sobre tudo até porque os coronéis já mudavam de tom
e a cada fracasso jogavam a culpa
aos “elementos da tropa tão moles que temos”).

O fato é que os policiais e os guardas
sempre viram o povo de lá pra cá
e as balas só caminhavam de lá pra cá.

Que pensem muito…
que eles mesmos decidam se é muito tarde
pra buscar a margem do povo
e disparar dali
ombro a ombro
junto conosco.

Que pensem muito…
mas, enquanto isso,
que não se mostrem surpreendidos
nem ponham essa cara de ofendidos,
hoje, quando algumas balas
começam a chegar até eles vindas deste lado
de onde segue o mesmo povo de sempre
só que a esta altura já estufa o peito
e traz cada vez mais fuzis.

(tradução de Jeff Vasques | mais poesias: facebook/eupassarin)

[foto de origem desconhecida]

GOLPE DE MESTRE

GOLPE DE MESTRE

“O que é o roubo de um banco comparado à fundação de um banco?” (Brecht)

O que é

um golpe de Estado
que nos leva
– revoltados! –
às ruas

se comparado ao

golpe do Estado
que nos leva
– esperançosos! –
às urnas?

silogismo e machismo

SILOGISMO E MACHISMO

Todo homem é mortal (potencialmente).
Sócrates é homem (desconstruído, de esquerda, legal).
Sócrates (ainda) é (potencialmente) mortal.

A ÚNICA COISA A FAZER É TOCAR UM TANGO ARGENTINO

A ÚNICA COISA A FAZER É TOCAR UM TANGO ARGENTINO

I.
Entre
o que fora
e sonha

– como areia
entre os
dedos –

escorre
tua vida.

II.
E
se tenta
guardar

– como algo
que fora
ou sonha –

cada
grãozin
dessa coisa
viva…

escorre
– entre seus dedos tensos –
ainda mais
a vida.

III.
Entre
o que fora
e sonha

– como areia
entre os
dedos –

escorra
a vida.

eterno refluxo

ETERNO REFLUXO

nos domingos

a morte chega
sem susto
sem drama
sem sedução

não desafia
não cospe à cara
não promete aquele
abraço
abrigo
não ameaça nem oferece
a autopiedade de
morto antes de morto
maldito

só diz à porta
“tá pronto…
o almoço”

e só lá
pro segundo prato
você estranha

pensa “caramba”
e que deveria
chorar…
um pouco…

(alguém voltando
à boca, o macarrão
à bolonhesa,uma
lembrança)

mas ela
adianta a
sobremesa

e você
– já criança –
vai mergulhando a colher
de pé no iogurte

de pé!
na esperança

do domingo
nunca acabar.

Flagrante Capitalismo

FLAGRANTE CAPITALISMO
(a lei do loser e a lei do player)

Quando
a polícia encontra um sujeito
com as mãos sujas de sangue
na cena do crime,
cabe prisão preventiva
para posterior averiguação.
É o flagrante delito,
diz a lei, coisa e tal…

Mas,
se suas mãos
estiverem limpas
– com álcool-gel –
no escritório de sua
multinacional…

aí não importa
se matou cavalo, cachorro,
28 bixos humanos ou
um rio inteirinho…
só vai ter multa,
“não faça mais isso!”,
muitos dedos, muito tato
e juiz dizendo

“a questão requer cuidado
para que a empresa não seja demonizada
diante da intensa comoção social…
afinal,
ela é um importante player
das economias local, regional e nacional.”

(http://noticias.uol.com.br/…/juiz-de-mariana-bloqueia-r-300…)

Bomba

BOMBA

já tentei
o sarcasmo
e a ironia

já tentei
a indiferença
e a negação

já tentei
entorpecimento
com drogas
sexo e rock
bom

já tentei
subornos e
adestramentos

já tentei
absolutamente
esquecê-lo

(blindá-lo
do lado de fora
do tempo)

já tentei
– até mesmo –
entendê-lo:
bisturis, divãs,
ciências…

e controlá-lo
com ameaças,
com a sedução
das falsas
reverências

já tentei
toda forma
de negociação

o sim
o talvez
o não

mas…

tudo
em vão

pra minha
infeliz
felicidade

ele
segue
bom

nunca aceita
– rebelde –
nada menos

sim,
eu tento
explicar-lhe:
o mundo é um muro
que os peitos vão duros
as mãos fechadas
as bocas ressequidas
falo dos desencontros
dos machucados,
dou-lhe fatos,
fotos, dados,
estatísticas

mas

pra minha
infeliz
felicidade

tudo
em vão

ele segue
bom bom
bando e
batendo e
pulsando e
ardendo e
prestes a

explodir
tudo.