Catando feijão II

(Cantando feijão: poemas que foram excluídos da seleção final de meu livrinho, como pedras ou cascas secas)


No meu livrinho há um poema chamado “Poesia Incidental” que, na verdade, faz parte de uma série de poemas incidentais. A morte, ou melhor, a fragilidade da vida sempre me assustou, fascinou, estarreceu… tempos atrás, fazia inúmeros poemas sobre acidentes que via, ouvia, ou só imaginava, e seguia construindo a morte nas páginas talvez tentando fugir da morte real, ou domá-la… Incluí apenas uma “poesia incidental” no livro porque não me identifico tanto mais com essas poesias e porque outras dessas desviariam o foco do fio de sentido que imaginei pro livrinho.

Poesia Incidental II

Uma unha no asfalto
ainda vive
arranha.

Um pneu solitário
sai da estrada
grogue.

(assim é morrer?)
um quase olho
fechado
sonha.

Do alto
– e acima de qualquer poema –
corvos espreitam
o inevitável.

Catando feijão I

Li, há pouco tempo, um livro do Caio Fernando Abreu chamado “Ovelhas Negras”. É uma coletânea dos textos de Caio que não entraram em suas obras, os textos rejeitados por ele, seja pela qualidade, pela incompletude, pela imaturidade… É um livro para fãs ou pessoas interessadas no processo criativo do Caio, porque, no geral, é muito inferior aos seus outros contos. Bom, tudo isso pra dizer que eu gostei da idéia (não do título que carrega valores preconceituosos). Então eu também, ahahaha, estou lançando, aqui no blog, claro, as poesias que não entraram no meu livrinho… seja porque eram inferiores, ou não tão significativas pra sequência que escolhi, ou ingênuas, ou porque ainda precisam ser melhor trabalhadas… como se fosse mostrando as pedras ou cascas que se retiram do feijão…


Eu gosto deste poema, “Paisagem urbana”… tenho um carinho especial por ele, porque sempre que o leio consegue trazer de volta, de forma viva, o instante de seu nascimento. Um instante que, com certeza, todo mundo já experimentou na vida: quando parece que desligam a máquina do mundo, a máquina do tempo e que tudo pára, bóia. Ainda me surpreendo com esses instantes e sempre fico na dúvida se é real ou algo subjetivo, iluminação interna… ahahah… Bom, não entrou no livro porque, apesar de gostar dele, acho bobinho, meio sem sal… e também não teria lugar dentro da estrutura de três partes que montei.

Paisagem urbana

Um espirro é contido
em alguma parte.
Uma janela
se abre.
Um cachorro manca
entre as coisas.
Poeira de encontro
ao silêncio solar.
É tarde.
As cigarras não ardem.
Todos aguardam um sinal.
O velho na cadeira
esqueceu.
No varal,
as roupas aproveitam
e não secam.
O ronco
dum avião
engorda o céu.
É tarde.
Demais.

Verde.
Olhinhos contra o vidro
acenam adeus.

Fragmentos de escrita semi-automática II: siderações

(fragmentos para retomar com calma e aprofundar)

Me abraça. Faz frio. Faz noite. Faz silêncio. Deixa o rio ali escorrendo. Me abraça. Esquece o vento. Esquece os animais de dentro. Me abraça, aqui, na superfície. Me abraça onde tua dor esquece. Só pele. Sol. Não desce. Não tenta entrar. Nem me toque como se fosse mais, além… não! à pele, à fala… esquece… vem… Quero tua carne. Não tua sede. Quero tua ossatura contra minha arcada. Quero esse quase nada no universo, esse atrito pouco, um oco de gosto e cheiro. Nada de horizontes, sonhos, olhares, apenas ossos e pele. E não tente me invadir, me domar, me amar como a um leãozinho, como a uma lua vista do fundo dágua, como a um calafrio. Nunca! Deixa ali nas várzeas todas as chaves e cadeados. E não me olha direto nos olhos. Desvia teus modos, tua raiva, tua dor clandestina, tua beleza corcunda. Despreza teu céu esta noite se quer minha companhia. Deita tuas estrelas no chão, ou as guarda numa caixa velha de músicas, onde uma bailarina ainda gira, gira, inocente, gira. Sim, as luzes se apagarão, sim. será breu. não se perca. tão pouco te guio! aguenta! usa as mãos, teus tatos, segue o faro, os contornos, o exato, não desce, não sobe, não transborde. Fica! Esfola tudo que não seja o agora contra meu peito. Não se entregue ao que não vou te dar. Não se dissolva em mim. Lambe. Apenas lambe. Ou desenha com as unhas tua raiva em minha coluna. Silêncio! Não diga nada. Não ouse usar qualquer palavra. Não sonhe investiduras contra a minha armada. Estou em guarda. Não soletre meu nome, não recite solenidades. Vão! Deixa teu verbo lá onde o sol ferve as memórias. Onde brilha a verdade mais que clara do tempo. Aqui, entre nós, palavras são como vento! Sombras! Frisos n’água… Mas fique. Estabelece-te aqui no limite, no entre. Fica à pele do instante. Não investe contra a murada, não peça conselhos à senhora-velha, não ofereça balas à menina-moça, não sussurre, não gemas… as portas e janelas foram bem trancadas… finge a fortaleza. Finge! Finge a ti mesmo como um amor armado de silêncios. Finge e Fica! Fica à porta, à janela, não se vá, não me adentra, fica. Não te quero ao longe, vulto vulgar. Não te quero qualquer outro, tantos que são você. mas nem lá, nem cá: te quero aqui. vis-à-vis. Fica. entre o osso e o sopro. Assente. sejamos sós e nus. Mas não me deite em teu corpo todo, não tente ler tua sorte em minha mão, não tente costurar tua fome às minhas vísceras, não, não arme armadilhas, que sou a voz antes de tua nuca sentir o arrepio. Espanta qualquer intenção de mergulho. Flutua, flana, frui. Vê as águas. Vê a suave superfície sonora. Seja assim. Só. Enfrenta a tua face crua. Não inventa. Não destrói. Não consome. Não vingue. Não voe. Não ame. Bebe a imagem apenas. Sorve o durante. Vê! Ouve! Sou tua calma (fecha os olhos). Sou teu horror diante desta calma (abre os olhos). Nada mais. Nada além. Te sirvo os sulcos do tempo. Te sirvo os húmus da vida. Nada aquém. Nada a fundo. Te acalma e me observa, cristalino. E quase nem me toca. Espera. Aceita. Ora. Sou apenas tua imagem e semelhança, Narciso.

Como falar poesia, por Leonard Cohen

Segue abaixo a tra(b)dução que fiz de um texto muito interessante do Leonard Cohen sobre como falar poesia. Faz mais sentido traduzir “speak poetry” como “falar poesia” e não “recitar/declamar poesia” porque Cohen, justamente, vai atacar essa última forma, mais teatral, que tira a força da palavra. É claro que é extremamente polêmico tudo que ele diz aí. Mas, em grande medida, Cohen parece praticar o que escreve. Veja o vídeo, abaixo, com ele falando uma poesia e comprove 🙂 Ah, o texto é longo, mas vale muito a pena… e o final, surpreende!

“Tome a palavra borboleta. Para usar essa palavra não é necessário fazer a voz pesar menos do que uma onça ou equipá-la com pequenas asas empoeiradas. Não é necessário inventar um dia ensolarado ou um campo de narcisos. Não é necessário estar amando, ou estar apaixonado por borboletas. A palavra borboleta não é uma borboleta real. Há a palavra e a borboleta. Se você confunde esses dois itens as pessoas têm o direito de rir de você. Não faça muito da palavra. Você está tentando sugerir que você ama borboletas mais perfeitamente que qualquer outro, ou realmente entende sua natureza? A palavra borboleta é apenas dado. Não é uma oportunidade pra você pairar, planar, fazer amizade com flores, simbolizar beleza e fragilidade, ou de qualquer forma personificar uma borboleta. Não represente palavras. Nunca represente palavras. Nunca tente sair do solo quando você fala sobre voar. Nunca feche seus olhos e puxe rapidamente sua cabeça para um lado quando você fala de morte. Não fixe seus olhos flamejantes em mim quando você fala de amor. Se você quer me impressionar quando você fala de amor ponha sua mão no bolso ou embaixo de seu vestido e brinque com você mesma. Se a ambição e a fome por aplausos tem te guiado a falar sobre amor você deveria aprender como fazer isso sem desonrar você mesma ou o material.

Qual é a expressão que a nossa era demanda? A era não demanda expressão de qualquer forma. Nós temos visto fotografias de mães asiáticas de luto. Nós não estamos interessados na agonia de seus órgãos descuidados. Não há nada que você possa mostrar em sua face que possa se comparar ao o horror deste tempo. Nem mesmo tente. Você vai apenas se conservar no desprezo daqueles que sentem as coisas profundamente. Nós temos visto reportagens de humanos em extremos de dor e deslocamento. Todo mundo sabe que você está comendo bem e está mesmo sendo pago para ficar aí de pé. Você está brincando com pessoas que experimentaram uma catástrofe. Isso deveria te deixar muito quieto.

Fale as palavras, expresse os dados, um passo atrás. Todo mundo sabe que você está sofrendo. Você não pode contar à audiência tudo que você sabe sobre amor em cada linha de sua fala. Saia da frente e eles saberão o que você sabe porque eles já sabem mesmo. Você não tem nada a ensiná-los. Você não é mais bonito do que eles são. Você não é mais sábio. Não grite com eles. Não force uma entrada a seco. Isso é sexo ruim. Se você mostrar as linhas de sua genital, então entregue o que prometeu.

E lembre-se que a maioria das pessoas não querem realmente um acróbata na cama. Qual é a nossa necessidade? Estar perto do homem natural, estar perto da mulher natural. Não finja que você é um cantor adorado com uma vasta e leal audiência que seguiu os altos e baixos de sua vida até este último momento. As bombas, os lança-chamas, e toda aquela merda que destruíu mais do que árvores e vilas. Eles também destruíram o palco. Você pensou que sua profissão escaparia à destruição geral? Não há mais palco. Não há mais luzes da ribalta. Você está entre as pessoas. Então seja modesto. Fale as palavras, expresse os dados, um passo atrás. Fique sozinho. Fique no seu quarto. Não se coloque.

Esta é uma paisagem interior. É dentro. É privado. Respeite a privacidade do material. Estes pedaços foram escritos em silêncio. A coragem do jogo é falá-los. A disciplina do jogo é não violá-los. Deixe a audiência sentir seu amor pela privacidade mesmo que não haja privacidade. Seja uma boa puta. O poema não é um slogan. Não pode fazer propaganda de você. Não pode promover sua reputação de sensibilidade. Você não é um garanhão. Você não é um matador. Todo esse lixo sobre gangsters do amor. Você é um estudante da disciplina. Não represente as palavras. As palavras morrem quando você as representa, elas murcham, e somos deixados sem nada a não ser com sua ambição.

Fale as palavras com a exata precisão com a qual você checaria uma lista da lavanderia. Não se torne emotivo sobre a renda da blusa. Não fique de pau duro quando você diz calcinhas. Não fique cheio de calafrios por causa da toalha. Os lençóis não deveriam provocar uma expressão sonhadora sobre os olhos. Não há necessidade de chorar no lenço. As meias estão lá não para te lembrar de estranhas e distantes viagens. É apenas a tua lavanderia. São apenas suas roupas. Não fique espiando através delas. Apenas as use.

O poema não é nada mais do que informação. É a Constituição de um país interno. Se você o declama e o explode com suas nobres intenções então você não é melhor que os políticos que você despreza. Você é apenas alguém balançando uma bandeira e fazendo o apelo mais barato para um certo tipo de patriotismo emocional. Pense nas palavras como ciência, não como arte. Elas são um relatório. Você está falando diante de um encontro do Clube de Exploradores da National Geographic Society. Essas pessoas conhecem todos os riscos de se escalar montanhas. Eles te honram por tomar isso por certo. Se você enrubescer suas faces fazendo o contrário será um insulto à hospitalidade deles. Fale pra eles da altura da montanha, sobre o equipamento que você usou, seja específico sobre as superfícies e o tempo que tomou para escalá-la.. Não trabalhe com a audiência buscando arquejos e suspiros. Se você está buscando arquejos e suspiros não será de sua apreciação do evento mas da deles. Serão as estatísticas e não a voz trêmula ou o cortar do ar com suas mãos. Estará nos dados e na quieta organização de sua presença.

Evite o floreio. Não tenha medo de ser fraco. Não fique com medo de ficar cansado. Você fica bem quando está cansado. Você parece como se pudesse ir adiante pra sempre. Agora vem pros meus braços. Você é a imagem da minha beleza.”

do livro “Death of a Lady’s Man” de Leonard Cohen.

À deriva (7a versão e última!)

I.
as bocas
se engolem
sem fôlego
aos goles

se respiram
no oco
afogar
das fomes

II.
nas peles
se agarram
se arranham,
se mordem

buscam no outro
– um sim?
um sopro? –
o que os salvem.

III.
as línguas
se torcem
num gemido,
último,

e os corpos
transbordam,
lentamente,
afundam.

IV.
passada
a ressaca

nas manhãs
nos mares

boiarão
sós

as carnes

Nicolás Guillén

O Paulo me emprestou uma coletânea da Poesia Social Cubana, o que vem a calhar com o meu projeto de montar um livro de poesias sociais dos poetas revolucionários latinos. Já, de cara, abri no Nicolás Guillén, poeta revolucionário cubano que já conhecia (inclusive traduzi no blog antigo algumas coisas, veja aqui). Mas, pela qualidade do que li, agora, fiquei animado de me aprofundar. Ele mistura uma linguagem moderna com a luta social e a luta dos negros (sem deixar de lado, também, questões existenciais). Depois posto (existe esse verbo? bem, agora existe!) algo mais sobre o Guillén (quem foi, influências, por que olhos morria…), por agora vão só as tra(b)duções de 2 poemas que, pelo que pesquisei na net, não existem para o português. Ah, a poesia “Tengo”, abaixo, refere-se às mudanças trazidas pela revolução cubana e, descobri, foi musicada por Pablo Milanês, ouça aqui.

Está bem

Tudo bem que cantes quando choras, negro irmão,
negro do Sul crucificado;
vai bem teus cantos espirituais*
teus estandartes,
tuas marchas e as alegações
de teus advogados.
Está muito bem.

Tudo bem que patine atrás da justiça,
– oh, aquele ingênuo patinador
tragando o ar até Washington desde Chicago! -;
bem teus protestos nos diários,
bem teus punhos cerrados
e Lincoln em seu retrato.
Está muito bem.

Bem teus sermões nos templos dinamitados,
bem tua insistência heróica
em estar junto dos brancos,
porque a lei – a lei? – proclama
a igualdade de todos os americanos.
Bem.
Está muito bem.
Extremamente bem
Irmão negro do Sul crucificado.
mas lembre-se de John Brown**.
Que não era negro e te defendeu com um fuzil nas mãos.

Fuzil: arma de fogo portátil
(é o que diz o dicionário)
com que disparam os soldados.
Há que se acrescentar: Fuzil (em inglês “gun”):
Arma também com que respondem
os escravos.

Mas se acontecer (isso acontece),
mas se acontecer, irmão,
que não tenhas fuzil, pois então,
nesse caso
digo, não sei,
busca algo
– uma marreta, um pau,
uma pedra – algo
que doa,
algo duro que fira,
que golpeie,
que tire sangue,
algo.

* (“spirituals” no original)
** abolicionista branco que praticou a insurreição armada para libertar os escravos negros


Tenho

Quando me vejo e me toco
eu, João sem Nada ontem mesmo,
e hoje João com Tudo,
e hoje com tudo,
volto meus olhos, observo,
me vejo e me toco
e me pergunto como pode ser.

Tenho, vamos ver,
tenho o gosto de andar por meu país,
dono de quanto há nele,
olhando bem de perto o que antes
não tive nem podia ter.

Safra posso dizer,
monte posso dizer,
cidade posso dizer,
exército dizer,
já meus para sempre e teus, nossos,
e um amplo resplendor
de raio, estrela, flor.

Tenho, vamos ver,
tenho o gosto de ir
eu, camponês, operário, gente simples,
tenho o gosto de ir
(é um exemplo)
a um banco e falar com o administrador,
não em inglês,
não em senhor,
senão dizer-lhe compañero como se diz em espanhol.

Tenho, vamos ver,
que sendo um negro
ninguém me pode deter
à porta de um dancing ou de um bar.
Ou melhor, na recepção de um hotel
gritar-me que não há lugar
um mínimo lugar e não um lugar colossal,
um pequeno lugar onde eu possa descansar.

Tenho, vamos ver,
que não há guarda rural
que me agarre e me prenda em um quartel,
nem me arranque e me expulse da minha terra
no meio do caminho real*.

Tenho que como tenho a terra tenho o mar,
não “country”,
não “jailáif”**,
não “tennis” e não “yatch”,
senão de praia e onda em onda,
gigante azul aberto democrático:
enfim, o mar.

Tenho, vamos ver,
que já aprendí a ler,
a contar,
tenho que já aprendí a escrever
e a pensar
e a rír.
Tenho que já tenho
onde trabalhar
e ganhar
o que tenho que comer.
Tenho, vamos ver,
tenho o que tería que ter.

* “camiño real” era o nome dado às ruas da Cuba monárquica ou ainda das grandes ruas.
** não descobri o que seja… provavelmente algo chique e de uso dos norte-americanos em Cuba.

Otto René Castillo


Havia um guatemalteco metido a poeta, conhecido por Otto, que viu seu país sofrer um golpe em 54 (patrocinado pela CIA) e seu viu obrigado a exilar-se… esse rapaz viu mais sentido ainda em se meter com poesia, e não só com poesia… volta em 64 decidido a mudar a situação do país com sua arte e com sua ação política: passa a militar no Partido dos Trabalhadores, funda o Teatro Experimental e escreve poemas como uma metralhadora. Mas a liberdade andava em masmorras e calabouços por essa época… é preso, mas consegue fugir. Esse rapaz, poeta-militante, não aguentando o peso de novo exílio, retorna à Guatemala, agora secretamente, decidido a transformar a situação ditatorial de seu país através do movimento guerrilheiro. Em 1967, Otto René Castillo, já conhecido como poeta-guerrilheiro, é capturado com outros combatentes revolucionários. São brutalmente torturados e, a seguir, queimados vivos. Agora, 40 anos após o assassinato de Otto, sua poesia se mantém viva, sendo a mais difundida em toda a Guatemala (recitada pela maioria dos estudantes guatemaltecos).

Você conhecia Otto? O maior poeta da Guatemala e, certamente, um dos maiores da América do século XX? Provavelmente não, como eu.

É impressionante o desconhecimento que temos da cultura latino-americana… mais impressionante ainda é o desconhecimento que temos da cultura revoucionária latino-americana. De tempos em tempos, descubro algum novo poeta revolucionário de nossa Pátria Grande e me sinto ainda mais amador no que faço (ou tento fazer: poesia)! Esse tipo de informação e formação cultural circula tão pouco, mesmo dentro dos espaços de militância, é tão pouco valorizada… (é na hora da diversão-lazer-cultura que a maioria dos militantes e organizações se entregam a uma face conservadora, reproduzindo o que está dado, não se esforçando por recuperar a cultura revolucionária que se foi e vai forjando nas ruas).

É por isso que, em 2010, quero levar adiante uma idéia que já trago no peito há muito tempo: elaborar uma coletânea de “poesias de luta” ou de “poetas revolucionários”, incluindo alguns autores brasileiros e traduzindo outros de outras partes do mundo, mas, principalmente latino-americanos, nossos hermanos. Não digo, com isso, que não seja importante que um militante conheça a arte de poetas-não-engajados! Apenas acredito que seja essencial valorizar e cultivar a cultura desenvolvida pelos artistas revolucionários, que fizeram de sua poesia não só uma estética mas também uma ética, destruindo o muro entre a boca e a mão, como diz Thiago de Mello, buscando construir um mundo novo com uma forma nova de expressão, a medida que lutavam com as palavras e contra a ordem.

Acredito que com o material reunido, a editora Expressão Popular abraçaria a edição desse livrinho. Vou aproveitando o blog para ir traduzindo e juntando esse material. Por favor, me indiquem sugestões de poemas e poetas! Seguem 2 poemas de Otto que tra(b)duzi.

Os Amantes

Se haviam
encontrado faz pouco
e logo
se haviam separado,
levando
cada um consigo
seu nunca ou seu jamais
sua afirmação de esquecimento
sua golpeadora dor.

Porém o último beijo
que voara de suas bocas,
era um planeta azul.
Girando
em torno a sua ausência
e eles
viviam de sua luz
igual que de sua recordação.

Intelectuais apolíticos

Um dia,
os intelectuais
apolíticos
do meu país
serão interrogados
pelo homem
simples
do nosso povo

Serão perguntados
sobre o que fizeram
quando
a pátria se apagava
lentamente,
como uma fogueira frágil,
pequena e só.

Não serão interrogados
sobre os seus trajes,
nem acerca das suas longas
siestas
após o almoço,
tão pouco sobre os seus estéreis
combates com o nada,
nem sobre sua ontológica
maneira
de chegar às moedas.
Ninguém os interrogará
acerca da mitologia grega,
nem sobre o asco
que sentiram de si,
quando alguém, no seu fundo,
dispunha-se a morrer covardemente.
Ninguém lhes perguntará
sobre suas justificações
absurdas,
crescidas à sombra
de uma mentira rotunda.
Nesse dia virão
os homens simples.
Os que nunca couberam
nos livros e versos
dos intelectuais apolíticos,
mas que vinham todos os dias
trazer-lhes o leite e o pão,
os ovos e as tortilhas,
os que costuravam a roupa,
os que manejavam os carros,
cuidavam dos seus cães e jardins,
e para eles trabalhavam,
e perguntarão,
“Que fizestes quando os pobres
sofriam e neles se queimava,
gravemente, a ternura e a vida?”

Intelectuais apolíticos
do meu doce país,
nada podereis responder.

Um abutre de silêncio vos devorará
as entranhas.
Vos roerá a alma
vossa própria miséria.
E calareis,
envergonhados de vós próprios.

Leonard Cohen II

Puta merda! Teve um show em Londres, ano passado, com o velhinho (e charmosíssimo) Cohen alucinando como nunca no palco. Show de consagração, maravilhoso! Abaixo coloco apenas 1 música desse show e sua tradução, mas vale a pena olhar o show todo no youtube. Há relatos na web que esse foi um dos melhores shows do Cohen, com público chorando descompassadamente, sendo que “Hallellujah” teria sido o ponto alto da noite. Por isso escolhi essa música e também porque é a que melhor expressa a mistura dramática que Cohen faz entre a busca pelo amor e a busca pelo sagrado (ambos, aparentemente, sempre impossíveis de se alcançar, ou inexistentes). É como se Cohen estivesse sempre ajoelhado diante de suas mulheres como um judeu ajoelhado diante de seu Jeovah raivoso ou indiferente. Sugiro uma leitura atenta do texto, percebendo todas as referências ao texto bíblico, a situação amorosa do eu-lírico, o erotismo mesclado a veneração espiritual… uma das melhores composições de Cohen!

Pra entender melhor essa música é preciso sacar um pouco da história de David… aqui vai um minúsculo resumo pra se situar: David&lt aparece, inicialmente, na narrativa bíblica como tocador de harpa. Mandava muito bem o garoto, compondo músicas e poesias em louvor à deus (David compôs os salmos… lembre que o termo Aleluia aparece lá e significa “Louvem a Jah (abreviatura de Jahve)”).Tocava tão belamente que fazia as ovelhas adormecerem (era pastor), acalmava o rei de Israel, Saul, e até exorcisava os demônios dos possuídos. E você deve lembrar, também, que foi esse mesmo David que derrotou Golias e assim pôde se casar com a filha do rei e, depois, se tornar o rei de Israel. Certa noite o rei David, que tinha fama de “catador” (há boatos biblícos de que por ele teriam passado mais de 400 mulheres – olha aí o paralelo de novo com o Cohen e sua música!), se encantou por Betsabá (uma das mulheres mais gostosas do velho testamento). Ele tava em cima do telhado e a viu se banhando em seu quintal do jeito que o diabo… ah, vc sabe, né… (há uma discussão entre os devotos (dicussão a-la-Capitu) se Betsabá não teria se banhado ali de propósito para atiçar o desejo do rei David… mas, só deus mesmo sabe dos movimentos do coração de uma mulher, ou nem ele…). Como David era rei e podia tudo, forçou-a a se entregar e a conheceu no mais puro sentido bíblico. Bet engravidou, claro. Só que tinha um probleminha: ela era casada! Pra esconder a cagada David mexe uns pauzinhos e manda o marido de Bet, que era soldado, pra batalha mais sangrenta de toda a guerra de unificação de Israel. E pronto, o cara morre ali. Todos esses pecados foram desmascarados pelo profeta Natã, enviado direto do senhor. David se arrepende (demonstra arrependimento sincero) e passa a amar mais ainda a deus e sua justiça (mesmo tendo essa justiça ceifado a vida de seu filho, resultado do adultério com Betsabá).



“Hallellujah”

Now I’ve heard there was a secret chord
That David played, and it pleased the Lord
But you don’t really care for music, do you?
It goes like this
The fourth, the fifth
The minor fall, the major lift
The baffled king composing Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

Your faith was strong but you needed proof
You saw her bathing on the roof
Her beauty and the moonlight overthrew you
She tied you
To a kitchen chair
She broke your throne and she cut your hair
And from your lips she drew the Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

Well maybe there’s a god above
But for me all I’ve ever learned from love
Is how to shoot someone who outdrew you
And it’s not a cry that you hear tonight
It’s not some pilgrim who claims to see the light
It’s a cold and it’s a broken Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

Baby, I’ve been here before
I know this room and I’ve walked this floor
You see, I used to live alone before I knew you
I’ve seen your flag on the marble arch
But love is not a kind of victory march
It’s a cold and it’s a broken Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

Well there was a time when you let me know
What’s really going on below
But now you never even show it to me do you
But remember when I moved in you
And the holy dove was moving too
And every breath we drew was hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

I’ve done my best, i know it wasn’t much
I couldn’t feel, so I learned to touch
I’ve told the truth, I didn’t come (here to London) just to fool you
And even though
It all went wrong
I’ll stand before the Lord of Song
With nothing on my tongue but Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

Tradução – Aleluia

Agora eu soube que havia um acorde secreto
Que David tocava e agradava ao Senhor
Mas você realmente não liga para música, não é?
É assim:
A quarta, a quinta
A menor cai,  A maior sobe (além da conotação músical, pode ser traduzido como: uma ‘pequena queda’ e ‘uma grande restauração (erguida)’, como David que cai e depois restaura sua aliança com deus)
O rei perplexo compondo Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia

Sua fé era forte mas você precisou de provas
Você a viu tomando banho do telhado
A beleza dela e a luz do luar te arruinaram
Ela amarrou você
numa cadeira de cozinha
Ela destruiu seu trono e ela cortou seu cabelo (Sansão, cujos cabelos lhe davam poder, também cai em troca de uma paixão… mais um personagem que cai por uma mulher)
E de seus lábios ela extraiu a Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia

Bem, talvez exista um Deus lá em cima
Mas tudo que sempre aprendi do amor
Foi como atirar em alguém que te “desarmou” (ou traiu, ou alguém que sacou a arma primeiro… não há uma tradução direta para “outdrew”)
E não é um choro que você ouve esta noite
Não é um peregrino que clama pra ver a luz
É um frio e é um despedaçado Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia

Baby, eu já estive aqui antes
Eu conheço este quarto e andei neste chão
Eu costumava viver sozinho antes de te conhecer
E eu vi sua bandeira no arco de mármore
Mas o amor não é uma Marcha da Vitória  (lembre que David unifica Israel pela guerra, em nome do senhor!)
É um frio e despedaçado Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia

Bem, houve um tempo em que você me deixava saber
O que realmente se pasava aí abaixo (por baixo, dentro)
Mas agora você nunca nem mesmo me mostra, não é?
Mas se lembre de quando eu me movia em você (me instalei em você)
E a pomba sagrada (espírito santo)  também se movia em você
E cada respiração exalada era Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia

Eu fiz o meu melhor, não foi muito
Eu não podia sentir, então aprendi a tocar
Eu disse a verdade, eu não vim te enganar
E mesmo assim
Deu tudo errado
Eu vou ficar diante do Senhor da Música
Sem nada na minha língua a não ser Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia

Leonard Cohen I

Conheci o canadense Leonard Cohen pelo meu amigo-poeta Cássio (que aliás me apresentou um monte de coisas legais, dos Beats ao Belchior – o Dylan brasileiro). Conheci primeiro a música. É sempre estranho o primeiro contato com a música do Cohen: sua voz grave (em grande medida por causa do cigarro) numa melancolia sepucral cantando músicas que mais lembram, como já disse Dylan, orações, ou cânticos de pastores-perdidos-na-vida, falando de seus amores como quem se dirige ao sagrado. Ouvindo mais fui percebendo a qualidade das letras (poesia pura) e fui entrando em seu mood (aquela história de Ler-o-Autor que disse no post anterior). Percebi que ele deveria ser, antes de tudo, poeta. Fui atrás e dito-e-feito: já tinha escrito romances e muita poesia, mas resolveu ser cantor porque queria que sua poesia chegasse a mais gente. E conseguiu! Chegou até aqui, em Campinas, nos meus ouvidos!

Como é acima de tudo poeta, há pouca diferença entre as letras de suas músicas e poesias. Apesar de ter uma escrita muito próxima a pegada beatnik, os beats-famosos (ginsberg, kerouac etc) não gostavam do Cohen (dizem que é porque ele se vestia muito bem, sempre de terno). Então Cohen ficou meio a parte. Sua poesia tem uma mistura louca de zen-budismo (viveu uns 5 anos num mosteiro) com temas do judaísmo, tudo isso sobre o prisma da vida moderna e de suas paixões, o eixo em torno do qual parece que tudo gira, a mulher e seu apaixonamento.
Tô com o livro “Stranger Music”, um taludão com compilação de letras de música e poesia, tudo em inglês. Tava feliz pq achei que iria fazer traduções inéditas aqui, mas descobri que tem uma antologia do Cohen em português: “Atrás das linhas inimigas de meu amor”. Tudo bem, sigo traduzindo…

MARITA

Marita
por favor me ache
eu já tenho quase 30

A RAZÃO PORQUE ESCREVO

A razão porque escrevo
é pra fazer alguma coisa
tão bonita como você é
Quando estou com você
Eu quero ser o tipo de herói
que eu queria ser
quando eu tinha sete anos
um homem perfeito
que mata

VOCÊ NÃO TEM QUE ME AMAR

Você não tem que me amar
só porque
você é todas as mulheres
que eu sempre quis
Eu nasci pra te seguir
toda noite
enquanto eu sou ainda
os vários homens que te amam
Eu te conheci numa mesa.
eu tive tua palma entre minhas mãos
num taxi solene.
Eu acordei sozinho
minha mão em sua ausência
no Hotel Disciplina.
Eu escrevi todas estas canções pra você
Eu queimei velas vermelhas e pretas
moldadas como um homem e uma mulher
Eu me casei com a fumaça
de duas pirâmides de sândalo
Eu orei por você
eu orei pra que você me amasse

e pra que você não me amasse

Ao coração do palhaço

entre ingênuo e afoito,
arma, de novo, seu vôo
na garganta do futuro

mas o vento estanca
o sonho é mudo

e o palhaço na pose
de aviador intrépido
(é, assim, de braços abertos)
abre os olhos
aos poucos
enquanto os risos cessam

(e o silêncio pesa como uma lua)

com um risinho frouxo
vai encolhendo os braços
e guardando o vôo
nos bolsos
de trás,
(um pouco triste,
é verdade,
mas sem alarde.)

e é justo quando
o vento vem
e lhe bate
lhe bate
bate

(e os risos recomeçam
e o poema recomeça)