Maus tempos para a poesia


Maus tempos aqui pra postar no blog… mudanças gerais, mudança de casa, de ares, abrindo portas e janelas e tem ainda a qualificação… correria demais pra conseguir postar algo… mas, passado o carnaval (pro qual estava me guardando 😉 voltamos a normalidade passarinheira!

MAU TEMPO PARA A POESIA (BRECHT)

Sim, eu sei: só o homem feliz
É querido. Sua voz
É ouvida com prazer. Seu rosto é belo.

A árvore aleijada no quintal
Indica o solo pobre, mas
Os passantes a maltratam por ser um aleijão
E estão certos.

Os barcos verdes e as velas alegres da baía
Eu não enxergo. De tudo
Vejo apenas a rede partida dos pescadores.
Por que falo apenas
Da camponesa de quarenta anos que anda curvada?
Os seios das meninas
São quentes como sempre.

Em minha canção uma rima
Me pareceria quase uma insolência.

Em mim lutam
O entusiasmo pela macieira que floresce
E o horror pelos discursos do pintor.
Mas apenas o segundo
Me conduz à escrivaninha.

(Brecht; poemas – 1913-1956. Trad. Paulo Cesar Souza. Brasiliense, 1986. p. 229.)

Hans Magnus Enzensberger (Alemanha, 1929)


Cansado de trabalhar na dissertação, comecei a dar uma olhada na estante e reencontrei dois livros do poeta alemão Hans Magnus Enzensberger e decidi postar alguns poemas aqui. Esses poemas já estão traduzidos para o português, mas como sua poesia é pouco conhecida por aqui, resolvi divulgar uma seleção.

Hans Magnus é considerado um dos maiores poetas vivos da Alemanha. Estudou literatura, línguas e filosofia em universidades alemãs e na Sorbonne. É Ensaísta, organizador de livros, autor infanto-juvenil, dramaturgo, biógrafo e romancista. Com tom sarcástico, sua poesia ataca o capitalismo e a vida burguesa, mas tampouco poupa a esquerda esclerosada.

As traduções são de Kusrt Scharf e Armindo Trevisan, com exceção de “Defesa dos Lobos contra os cordeiros” traduzido por Afrânio Novaes.

BREVE HISTÓRIA DA BURGUESIA

Este foi o momento, quando nós,
sem nos apercebermos, durante cinco minutos
estávamos imensamente ricos, generosamente
refrigerados com a eletricidade no verão,
ou caso fosse o inverno,
a lenha, trazida de longe via aérea, ardia
em lareiras estilo renascentista. Curioso:
havia tudo, vindo por avião,
de certa maneira automaticamente. Elegantes
éramos, ninguém nos aturava.
Jogávamos pelas janelas concertos de solistas,
chips, orquídeas embrulhadas em celofane. Nuvens
que diziam: “Eu”. Únicos!

Íamos a todas as partes em vôos de carreira. Mesmo os nossos suspiros
eram pagos com cartões de crédito. Xingávamos
como gralhas, todos ao mesmo tempo. Cada um
guardava a sua própria desgraça debaixo do assento,
à mão. Que pena!
Era tão prático. A água
corria à toa das torneiras.
Lembram-se? Simplesmente atordoados
por nossos sentimentos minúsculos
comíamos pouco. Se soubéssemos
que tudo passaria
em cinco minutos, teríamos saboreado
bem mais, muito mais, o roast-beef Wellington.

PARA O LIVRO DE LITERATURA DE SEGUNDO GRAU

Não leia odes, meu filho, lê os horários
(dos trens, dos ônibus, dos aviões):
são mais exatos. Abre os mapas náuticos
antes que seja tarde demais. Sê vigilante, não cantes.
Chegará o dia em que eles, de novo, pregarão listas
no portão e desenharão marcas no peito daqueles que dizem
não. Aprende a ir incógnito, aprende mais do que eu:
a mudar de bairro, de passaporte, de rosto.
Entende da pequena traição,
da salvação suja de todos os dias. Úteis
são as encíclicas para se fazer fogo,
e os manifestos: para a manteiga e sal
dos indefesos. É preciso raiva e paciência
para se soprar nos pulmões do poder
o fino pó mortal, moído
por aqueles, que aprenderam muito,
que são exatos por ti.

DEFESA DOS LOBOS CONTRA OS CORDEIROS

(Tradução de Afrânio Novaes)

deve o abutre se alimentar de flores?
o que exigis do chacal?
que ele mude de pele? e do lobo? que
ele mesmo limpe os dentes?
o que não apreciais
nos coronéis e nos papas?
o que vos deixa perplexos
na tela mentirosa?

quem irá então costurar para o general
a condecoração sanguinária em sua calça? quem
irá fatiar o capão diante do agiota?
quem irá ostentar orgulhoso a cruz-de-ferro
diante da barriga que ronca? quem
irá pegar a gorjeta, a soma,
a propina? há
muitos roubados, poucos ladrões; quem
então os aplaude? quem
lhes coloca a insígnia? quem
é ávido pela mentira?

vede no espelho: covardes,
que evitam a fadiga da verdade,
avessos ao aprender, o pensar
é deixado a critério dos lobos,
a coleira é vossa jóia mais cara,
nenhuma ilusão é tão estúpida, nenhum
consolo é tão barato, qualquer chantagem
ainda é para vós branda demais.

cordeiros, irmãs são
as gralhas comparadas a vós:
cegais uns aos outros.
a irmandade reina
entre os lobos:
eles vão em bandos.

louvados sejam os predadores: vós,
convidativos ao estupro,
vos atirais sobre o leito negligente
da obediência. mentis e ainda
soltais ganidos. quereis
ser estraçalhados. vós
não mudais o mundo.

UMA VAGA LEMBRANÇA

Nos nossos debates, companheiros,
me parece às vezes
havermos esquecidos algo,
não é o inimigo.
não é a linha.
não é a meta.
não consta no Breve Curso.

Se nunca o tivéssemos sabido
não haveria luta.
Não me perguntem o que é.
Não sei como se chama.
Apenas sei que é
o mais importante
aquilo que esquecemos.

RAZÕES ADICIONAIS PARA OS POETAS MENTIREM

Porque o momento
no qual a palavra feliz
é pronunciada,
jamais é o momento feliz.
Porque quem morre de sede
não pronuncia sua sede
Porque na boca da classe operária
não existe a palavra classe operária.
Porque quem desespera
não tem vontade de dizer:
“Sou um desesperado”.
Porque orgasmo e orgasmo
não são conciliáveis.
Porque o moribundo em vez de alegar:
“Estou morrendo”
só deixa perceber um ruído surdo
que não compreendemos.
Porque são os vivos
que chateiam os mortos
com suas notícias catastróficas.
Porque as palavras chegam tarde demais,
ou cedo demais
Porque, portanto, é sempre um outro,
sempre um outro
quem fala por aí,
e porque aquele
do qual se fala
se cala.

MODELO DA TEORIA DO CONHECIMENTO

Aqui tens
uma grande caixa
com o rótulo:
caixa.
Se a abrires
encontraras nela
uma caixa
com o rótulo:
caixa.
Se a abrires –
agora me refiro
a esta caixa
não àquela – ,
encontrarás nela
uma caixa
com o rótulo
etcetra;
e se continuares
depois de infindáveis fadigas
uma caixa
infinitamente pequena
com um rótulo
tão miúda
que, por assim dizer,
se evapora diante de teus olhos.
É uma caixa
que existe só na tua imaginação.
Uma caixa totalmente
vazia.

Os leninistas também amam


Sim, piada infame… e pra dar conteúdo a ela seguem 3 poemas de Brecht sobre amor e sexo (autor que, pralém de seus fantásticos poemas políticos, possui vários poemas eróticos). Brecht, ao contrário do tímido Cortázar, era um namorador… estava sempre acompanhado e não era incomum que desenvolvesse algumas relações concomitantes. Mas, segundo Konder (em “A poesia de Brecht e a história”), apesar da grande quantidade de amantes, Brecht possuía grande dificuldade para se envolver por inteiro nas relações.

Abaixo segue minha tra(b)dução da “Canção do sim e do não” do espanhol (comecei a traduzir do alemão, mas, como ainda sou um chucrutz nessa língua, desisti, demoraria muito). Talvez você ache que essa “Canção do sim e do não” se pareça com a letra de “Terezinha” de Chico Buarque (vídeo da música também abaixo)… e não é mera coincidência: “Terezinha” faz parte da “Ópera do malandro” que Chico elaborou inspirado na “Ópera dos 3 vinténs” de Brecht (onde consta a “canção do sim e do não”). Seguem mais dois poemas De Bertolt, um “erótico-herege”, e outro lindo, lindo, lindo sobre sua primeira namorada, Marie. No final, um brinde, uma curiosidade (como já é hábito aqui): Nina Simone cantando “Jenny e os piratas”, canção também da “Ópera dos 3 Vinténs” e que influenciou Chico na criação da famosa “Geni” da ópera do malandro (essa canção de Brecht também influenciou o argumento do filme “Dogville” de Lars Von Trier… lembram do final? Grace é a Geni, só que não salva a cidade, como na versão “light” do Chico, manda fuzilar todos!). Escutem e vejam as semelhanças!


Brecht e Kurt Weil, criadores da “Ópera dos 3 Vinténs”, que revolucionaram o genêro operístico ao trabalharem com personagens costumeiramente repudiados: prostitutas, ladrões, vigaristas etc.

1. CANÇÃO DO SIM E DO NÃO (Ópera dos 3 Vinténs – Brecht)

1.
Houve um tempo em que acreditava, quando ainda era inocente,
e o fui já faz tempo igual a você:
quiçá também alguém se chegue a mim
e então tenho que saber o que fazer.
E se tem dinheiro
e se é amável
e seu colarinho está limpo também de segunda a sexta
e se sabe o que merece uma senhora
então direi “Não”.
Há que se manter a cabeça bem alta
e ficar assim como se não se passara nada.
Certo que a lua brilhou toda a noite,
certo que a barca se desatou da margem,
mas nada mais pôde acontecer.
Sim, não se pode entregar-se simplesmente,
sim, há que ser fria e sem coração.
Sim, tantas coisas poderiam acontecer,
ai, a única resposta possível: Não.

2.
O primeiro que veio foi um homem de Kent
que era como um homem deve ser.
O segundo tinha três barcos no porto
e o terceiro estava louco por mim.
E ao possuir dinheiro
e ao ser amável
e ao levar os colarinhos limpos inclusive de segunda a sexta
e ao saber o que merece uma senhora,
lhes disse a todos: “Não”.
Mantive a cabeça bem alta
e fiquei como se não se passara nada.
Certo que a lua brilhou toda a noite,
certo que a barca se desatou da margem,
Sim, não se pode entregar-se simplesmente,
sim, há que ser fria e sem coração.
Sim, tantas coisas poderiam acontecer,
ai, a única resposta possível: Não.

3.
No entanto, um belo dia, e era um dia azul,
chegou um que não me pediu nada
e pendurou seu chapéu num prego de meu quarto
e eu já não sabia o que fazia.
E mesmo sem dinheiro
e ainda que pouco amável
e que seu colarinho não estivesse limpo nem sequer ao domingo
e nem mesmo soubesse o que merece uma senhora,
a ele não disse: “Não”.
Não mantive a cabeça bem alta
e não fiquei como se não se passara nada.
Ai, a lua brilhou toda a noite,
e a barca permaneceu amarrada à margem,
e não podia ser de outra forma!
Sim, não há nada além do que entregar-se simplesmente,
sim, não se pode permanecer fria nem sem coração.
Ai, tiveram que se passar tantas coisas,
sim, não pôde haver nenhum Não.

(tra(b)duzido da versão em espanhol de Jesús Munárriz y Jenaro Talens)

2. “Terezinha” de Chico Buarque

2. MARIA SEJAS LOUVADA, Brecht

Maria sejas louvada
Como és tão apertada
Uma virgindade assim
É coisa demais p’ra mim.

Seja como for o sémen
Sempre o derramo expedito:
Ao fim dum tempo infinito
Muito antes do amen.

Maria sejas louvada
Tua virgindade encruada
‘Inda me pões fora de mim.
Porque és tão fiel assim?

Por que devo eu, que dialho
Só porque esperaste tanto
Logo eu, o teu encanto
Em vez doutro ter trabalho?

(tradução de Ardilio Correia)

3. RECORDAÇÃO DE MARIE A., Brecht

Naquele dia, num mês azul de setembro
Em silêncio, à sombra da ameixeira
Eu a tomei nos braços, amor pálido e
Quieto, como um sonho formoso.
E acima de nós, no belo céu do verão
Havia uma nuvem, que olhei longamente
Era bem alva, estava bem no alto
Ao olhar novamente, desapareceu.

Desde então muitas luas passaram
Mostrando no céu seu alvor
As ameixeiras foram talvez cortadas
E se me perguntas para onde foi o amor
Respondo: Não consigo lembrar.
Mas sim, sei o que queres dizer
Suas feições, porém, para sempre se foram
Sei apenas que naquele dia a beijei.

E mesmo o beijo, já o teria esquecido
Não fosse aquela nuvem no céu
Dela sei e sempre saberei:
Era bem alva, estava bem no alto.
As ameixeiras talvez ainda cresçam
E ela agora deve ter muitos filhos
Mas aquela nuvem cresceu alguns minutos
Ao olhar novamente, desapareceu.

NINA SIMONE CANTA “Pirate Jenny” da Ópera dos 3 Vinténs

(1928) Bertolt Brecht, Kurt Weill

You people can watch while I’m scrubbing these floors
And I’m scrubbin’ the floors while you’re gawking
Maybe once ya tip me and it makes ya feel swell
In this crummy Southern town
In this crummy old hotel
But you’ll never guess to who you’re talkin’.
No. You couldn’t ever guess to who you’re talkin’.

Then one night there’s a scream in the night
And you’ll wonder who could that have been
And you see me kinda grinnin’ while I’m scrubbin’
And you say, “What’s she got to grin?”
I’ll tell you.

There’s a ship
The Black Freighter
with a skull on its masthead
will be coming in

You gentlemen can say, “Hey gal, finish them floors!
Get upstairs! What’s wrong with you! Earn your keep here!
You toss me your tips
and look out to the ships
But I’m counting your heads
as I’m making the beds
Cuz there’s nobody gonna sleep here, honey
Nobody
Nobody!

Then one night there’s a scream in the night
And you say, “Who’s that kicking up a row?”
And ya see me kinda starin’ out the winda
And you say, “What’s she got to stare at now?”
I’ll tell ya.

There’s a ship
The Black Freighter
turns around in the harbor
shootin’ guns from her bow

Now
You gentlemen can wipe off that smile off your face
Cause every building in town is a flat one
This whole frickin’ place will be down to the ground
Only this cheap hotel standing up safe and sound
And you yell, “Why do they spare that one?”
Yes.
That’s what you say.
“Why do they spare that one?”

All the night through, through the noise and to-do
You wonder who is that person that lives up there?
And you see me stepping out in the morning
Looking nice with a ribbon in my hair

And the ship
The Black Freighter
runs a flag up its masthead
and a cheer rings the air

By noontime the dock
is a-swarmin’ with men
comin’ out from the ghostly freighter
They move in the shadows
where no one can see
And they’re chainin’ up people
and they’re bringin’ em to me
askin’ me,
“Kill them NOW, or LATER?”
Askin’ ME!
“Kill them now, or later?”

Noon by the clock
and so still by the dock
You can hear a foghorn miles away
And in that quiet of death
I’ll say, “Right now.
Right now!”

Then they’ll pile up the bodies
And I’ll say,
“That’ll learn ya!”

And the ship
The Black Freighter
disappears out to sea
And
on
it
is
me