Poesia angolana de revolta



Chegou hoje outro livro que encomendei via Estante Virtual, uma antologia de poesia angolana de revolta organizada em Portugal. Angola é o segundo maior produtor de petróleo da África mas um de seus países mais miseráveis e com um longo histórico de dominação estrangeira. Do primeiro contato rápido com a antologia segue abaixo 4 poesias que selecionei. Observação: há vários termos angolanos que, aparentemente, são compartilhados pelo português de Portugal e portanto não são explicados no livro, o que dificulta um pouco o entendimento geral, mas não o impede.

IDENTIDADE (Eduardo Brazão Filho)

Tinha tanga
e cubata.
Tinha sambo noutro tempo.

Noutro tempo tinha a mata
Livre de andar.
Tinha batuque, muxique
e as anharas para caçar.

E de repente
no entrechoque do tempo
lhe encontrei aí, na estrada.

Tinha calça
e no bolso roto,
bilhete de identidade
mais nada.

POEMA (Maria José Abranches)

Senhora zangou
porque na festa
a negra Joana entrou.
Essa negra danada
que mexe
e remexe
e dá o seu corpo
no branco que o quer.
Senhora zangou
e Joana se riu…
Mas dentro do peito
da Joana vadia
entrou uma coisa…
Talvez cazumbi*…
Que deu força nela.
E ela
gritou:
“VADIA ME FEZ, O HOMEM QUE É TEU
COM AQUELE DINHEIRO QUE ROUBA NA GENTE…”
E senhora zangou
Joana sorriu
sorriu e chorou.

* cazumbi: feitiço

POEMA DE ALIENAÇÃO (Antonio Jacinto)

Não é este ainda o meu poema
o poema da minha alma e do meu sangue
não
eu ainda não sei nem posso escrever o meu poema
o grande poema que sinto já circular em mim

O meu poema anda por aí vadio
no mato ou na cidade
na voz do vento
no marulhar do mar
no Gesto e no Ser.

O meu poema anda por aí afora
envolto em panos garridos
vendendo-se
vendendo
“ma limonje ma limonjééé”

O meu poema corre nas ruas
com um quibalo podre à cabeça
oferecendo-se
oferecendo
“carapau sardinha matona
ji ferrera ji ferrerééé…”

O meu poema calcurreia ruas
“olha a probíncia” “diááário”
e nenhum jornal traz ainda
o meu poema

O meu poema entra nos cafés
“amanhã anda à roda amanhã anda à roda”
e a roda do meu poema
gira que gira
volta que volta
“amanhã anda à roda
amanhã anda à roda”

O meu poema vem do musseque
ao sábado traz a roupa
à segunda leva a roupa
ao sábado entrega a roupa e entrega-se
à segunda entrega-se e leva a roupa

O meu poema está na aflição
da filha da lavadeira
esquiva
no quarto fechada
do patrão nuinho a passear
a fazer apetite a querer violar

O meu poema é quitata
no musseque à porta caída duma cubata
“remexe remexe
paga dinheiro
vem dormir comigo”

O meu poema joga a bola despreocupado
no grupo onde todo o mundo é criado
e grita
“obeçaite golo golo”

O meu poema é contratado
anda nos cafezais a trabalhar
o contrato é um fardo
que custa a carregar
“monangambééé”

O meu poema anda descalço na rua

O meu poema carrega sacos no porto
enche porões
esvazia porões
e arranja forças cantando
“tué tué tué trr
arrimbum puim puim”

O meu poema vai nas cordas
encontrou cipaio
tinha imposto, o patrão
esqueceu assinar o cartão

vai na estrada
cabelo cortado
“cabeça raspada
galinha assada
ó Zé”

picareta que pesa
chicote que canta

O meu poema anda na praça trabalha na cozinha
vai à oficina
enche a taberna e a cadeia
é pobre roto e sujo
vive na noite da ignorância
O meu poema nada sabe de si
nem sabe pedir
O meu poema foi feito para se dar
para se entregar
sem nada exigir

Mas o meu poema não é fatalista
o meu poema é um poema que já quer
e já sabe
o meu poema sou eu-branco
montado em mim-preto
a cavalgar pela vida.

MONANGAMBA* (Antonio Jacinto)

Naquela roça grande não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações.

Naquela roça grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.

O café vai ser torrado,
pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do contratado.

Negro da cor do contratado!

Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de algre serpentear
e ao vento forte do sertão:
Quem se levanta cedo? Quem vai à tonga?
quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdém
fubá podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares
“porrada se refilares”?

Quem?

Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer
– Quem?

Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de preto para os motores?

Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande – ter dinheiro?
– Quem?

E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:

-“Monangambééé…”

Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
deixem-me beber maruvo, maruvo
e esquecer diluído nas minhas bebedeiras

“Monangambééé…”

* Monangamba: servente, contratado