José Angel Buesa (Cuba)

Bom, tava procurando poetas novos e topei com o Buesa… vi que era cubano e pensei “hummm… pode ser coisa boa”… já associando sua poesia com o processo revolucionário e tudo mais. Nada disso. Angel foi daqueles que fugiu de Cuba depois da revolução. (Engraçado que nos textos que encontrei apenas se diz “teve que deixar Cuba”, mas não explicam por quê…). Sua obra foi meio que “banida” de Cuba, tida como mau exemplo (tanto pela qualidade – que realmente não é estupenda – como pelos riscos de “contaminação ideológica”). Mas, recentemente, em 1997, a editorial Letras Cubanas reeditou uma antologia de Buesa que é enormemente procurada pelos cubanos, para desespero da “vanguarda literária revolucionária”.

Apesar disso tudo, fui ler, porque poesia é poesia. Buesa foi muito famoso em sua época em Cuba: seu livro “Oásis” é um dos mais lidos na américa latina só perdendo pro “20 poemas de amor e uma canção desesperada” do Neruda. Era conhecido como “poeta enamorado”, “poeta dos enamorados”, porque só escrevia sobre amor, paixão e seus apêndices… sentimentalóide, simples, e, por isso mesmo, muito popular e um tanto desprezado pela crítica. A sua poesia é bobinha, de fato, um tanto inocente, mas tem um poder encantatório, pela própria simplicidade como aborda os temas e também pela gostosa montagem sonora, que me fizeram gostar de vários de seus poemas. Claro, não é algo assim “nossa, você tem que ler isso”… mas ele consegue carregar um pouco da singeleza do Bandeira numa abordagem tão popular e direta dos assuntos do coração que em vários momentos imaginei seus poemas como canções, como sambinhas, com versos do tipo “segundo dizem você já tem outro amante”. Feito e dito: muitos poemas seus foram musicados!

Bom, apesar dos pesares, seguem algumas tra(b)duções que fiz de Buesa… não compartilho com a forma singela e simples com que observar o amor, mas me cativa esse seu jeito ingênuo… tem lá sua beleza (meio folclórica, de uma abordagem tão sentimental e simples que semelha um bibelôzinho de geladeira, com corações e setas… algo entre lupcínio rodrigues e wando).

Ah, me lembrei, em boa hora, que o Roque Dalton (o poeta guerrilheiro) tem um poema em que cita o Buesa (criticando-o indiretamente)… já tra(b)duzi esse poema aqui (aliás, percebi hoje, alegre, que já traduzi quase todo o Dalton!). Coloco primeiro esse poema do Dalton como pré-antídoto para os poemas do Buesa… ahahah. (quem quiser pode pulá-lo e deixar para ler no final 🙂

Poema de Roque Dalton em que cita Buesa:

A cultura e o louco amor (Roque Dalton)

Eu te disse com toda seriedade
“que grande caminho andei
para chegar até aqui”
e você me disse que isso parecia José Angel Buesa
e então me ri todo
e te disse que os versos eram de Nicolas Guillén**
e você (que acabara de sair de tua aula de francês)
me contestou que então era Nicolas Guillén
quem se parecia a José Angel Buesa
eu te disse que se desculpasse imediatamente com
Nicolas Guillén e comigo
e então me disse
que o verdadeiro culpado era eu
por chegar ao José Angel Buesa essencial
através de Nicolas Guillén
então eu te disse que a verdadeira culpada era você
por ser tão puta
e aí foi que você pediu perdão
que estava equivocada
não é que você se parece ao José Angel Buesa
você é um José Angel Buesa.

Então eu saquei a pistola…

** Nicolas Guillén foi um poeta cubano revolucionário. Você pode encontrar tra(b)duções minhas dele aqui mesmo.

POEMA DA RENÚNCIA (José A. Buesa)

Passarás por minha vida sem saber que passaste.
Passarás em silêncio por meu amor, e ao passar,
fingirei um sorriso, como um doce contraste
da dor de querer-te… e jamais o saberá.

Sonharei com o nácar virginal de tua fronte;
sonharei com teus olhos de esmeraldas de mar;
sonharei com teus lábios desesperadamente;
sonharei com teus beijos… e jamais o saberá.

Quiçá passes com outro que te diga ao ouvido
essas frases que ninguém como eu te dirá;
e, afogando para sempre meu amor inadvertido,
te amarei mais que nunca… e jamais o saberá.

Eu te amarei em silêncio, como algo inacessível,
como um sonho que nunca lograrei realizar;
e o distante perfume de meu amor impossível
roçará teus cabelos … e jamais o saberá.

E se um dia uma lágrima denuncia meu tormento,
— o tormento infinito que te devo ocultar —
te direi sorridente: “Não é nada … foi o vento”.
Enxugarei a lágrima … e jamais o saberá!

CANÇÃO DO AMOR DISTANTE (José A. Buesa)

Ela não foi, dentre todas, a mais bela,
mas me deu o amor mais fundo e longo.
Outras me amaram mais; e, no entanto,
a nenhuma desejei como a ela.

Talvez porque a amei de longe,
como a uma estrela desde minha janela…
e a estrela que brilha mais distante
nos parece que tem mais reflexos.

Tive seu amor como uma coisa distante
como uma praia cada vez mais solitária,
que unicamente guarda da onda
uma umidade de sal sobre a areia.

Ela esteve em meus braços sem ser minha,
como a água no cântaro sedento,
como um perfume que se foi no vento
e que volta no vento todavia.

Me penetrou sua sede insatisfeita
como um arado sobre a planície,
abrindo em seu fugaz desprendimento
a esperança feliz da colheita.

Ela foi o próximo no longínquo,
mas preechia todo o vazio,
como o vento nas velas do navio,
como a luz no espelho quebrado.

Por isso ainda penso na mulher, aquela,
a que me deu o amor mais fundo e longo…
Nunca foi minha. Não era a mais bela.
Outras me amaram mais… E, no entanto,
a nenhuma desejei como a ela.

POEMA DA CULPA (José A. Buesa)

Eu a amei, e era de outro, que também a queria.
Perdoai a ela, Senhor, porque a culpa é minha.
Depois de haver beijado seus cabelos de trigo,
nada importa à culpa, pois não importa o castigo.

Foi um pecado desejá-la, Senhor, e, no entanto
meus lábios estão doces por esse amor amargo.
Ela foi como uma água calada que corria…
Se é culpa ter sede, toda a culpa é minha.

Perdoai a ela, Senhor, tu que destes a ela
sua frescura de chuva e esplendor de estrela.
Sua alma era transparente como um vaso vazio:
eu o enchi de amor. Todo o pecado é meu.

Mas, como não amá-la, se tu fizestes que fosse
pertubadora e fragante como a primavera?
Como não havê-la amado, se era como o orvalho
sobre a erva seca e ávida da estiagem?

Tratarei de rechaçá-la, Senhor, inutilmente,
como um sulco que tenta rechaçar a semente.
Era de outro. Era de outro que não a merecia,
e por isso, em seus braços, seguia sendo minha.

Era de outro, Senhor, mas há coisas sem dono:
as rosas e os rios, e o amor e o sonho.
E ela me deu seu amor como se dá uma rosa
como quem dá tudo, dando tão pouca coisa…

Uma embriaguês estranha nos venceu pouco a pouco:
ela não foi culpada, Senhor… nem eu tampouco
A culpa é toda tua, porque a fizestes bela
e me destes os olhos para mirá-la.

Sim. Nossa culpa é tua, se é uma culpa amar
e se é culpado o rio quando corre até o mar.
É tão bela, Senhor, e é tão suave, e tão clara,
que seria pecado maior se não a amasse.

E por isso, perdoa-me, Senhor, porque é tão bela,
que tu, que fizestes a água, e a flor, e a estrela,
tu, que ouves o lamento desta dor sem nome,
tu tambem a amarias, se pudesses ser homem.

BALADA DO MAU AMOR (José A. Buesa)

Que lástima, garota,
que não te possa amar.
Eu sou uma árvore seca que só espera o machado,
e você um arroio alegre que sonha com o mar.

Eu joguei minha rede no rio…
Rompeu-se a rede…
Não junte teu vaso cheio ao meu vazio,
pois se bebo em teu vaso vou sentir mais sede.

Beija-se pelo beijo,
por amar o amor…
Esse é teu amor de agora, mas o amor não é esse,
pois só nasce o fruto quando morre a flor.

Amar é tão simples,
tão sem saber por quê…
Mas assim como perde a moeda seu brilho,
a alma, pouco a pouco, vai perdendo sua fé.

Que lástima, garota,
que não te possa amar!
Há velas que se rompem à primera rajada,
e há tantas velas rasgadas no fundo do mar!

Mas ainda que toda ferida
deixe uma cicatriz,
não importa a folha seca de uma rama florida
se a dor dessa folha não chega à raiz.

A vida, chama ou neve,
é um moinho que
vai moendo em seus braços o vento que o move,
triturando as recordações do que já houve…

Já o meu foi meu,
e agora vou ao azar…
Se uma rosa é mais bela molhada de orvalho,
o golpe da chuva a pode desfolhar…

Tive um amor covarde.
O tive e o perdi…
Para teu amor prematuro já é demasiado tarde,
porque na minha alma anoitece o que amanhece em ti.

O vento enche a vela, mas à esfiapa,
e a água dos rios se faz amarga no mar…
Que lástima, garota,
que não te possa amar!

 

Há um poema


HÁ UM POEMA

Há um poema que me busca há muito tempo.
Suspeito que já estivemos, sem nos ver, nos mesmos lugares,
e não é improvável que tenhamos amado, alguma vez, a mesma mulher,
que juntos tenhamos rido muito de nada, destinos,
ou que tenhamos perdido alguns cabelos pelos mesmos sofrimentos.
Há um poema que me busca há muito tempo,
e não se cansa,
e este dura já 34 anos.

(Luis Rogelio Nogueras, Cuba, trad. Jeff Vasques)

Balada do soldado e do policial


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Diante da violência da polícia nos atos mundiais e também aqui, no Brasil, na luta pela redução do preço da passagem do ônibus, vale lembrar deste poema de Guillén, musicado por Adolfo Celdrán:

BALADA DO POLICIAL E DO SOLDADO

(Nicolás Guillén, Cuba, 1902-1989)

Soldado de traje amarelo,
policial de azul cáqui;
mão cega, surdo brilho:
pau e fuzil.

Sobre as ruas desnudas,
fosca noite sem astros
envolve duas sombras rudes
de olhos ferozes.

O fuzil, aço mal,
grita, se a luz lhe dá;
sobre as pedras, o pau
grunhe: tra, tra!

(O soldado foi torneiro;
o policial, sapateiro.)

Ah, soldado, meu soldado,
como podes escapar?
Os torneiros que te buscam
pronto te vão a encontrar!
Policial,
onde fostes parar?
Os sapateiros perguntam
por teu feroz avental!

Passos na rua escura
onde a dupla está.
Grita o fuzil com voz dura:
– Alto! Quem vem lá?
– Vai um torneiro,
que anda atrás de seu companheiro;
venho porque quero te falar…
-Não é torneiro, que é soldado
grita o fuzil sem compaixão,
e depois cospe irado:
– Vá p’atrás!

Passos na rua escura
onde a dupla está.
Grita o pau com voz dura:
– Alto! Quem vem lá?
– Sapateiro,
aqui está teu companheiro;
venho, porque quero te falar…
Mas o pau grita feroz:
– Tome! Tome! Tome e tome!
Avise se quiser mais;
tombe por aí e não incomode.
– Vá p’atrás!

Silêncio. Mas depois
da noite desce um canto
como uma lua de fel:
“Torneiros, muito cuidado,
que agora é soldado o torneiro;
soldado de corpo inteiro
e vão vendados os olhos.
Sapateiro, policial,
veja que já se faz dia
e estás de uniforme novo!”

(Tadução de Jeff Vasques)

Madrigal


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MADRIGAL
(Roberto Fernández Retamar, Cuba, 1930)

Havia a pequena burguesia,
a burguesia compradora,
os latifundiários,
o proletariado,
o campesinato,
outras classes,
e você,
toda estremecimento, toda ilusão.

(tradução de Jeff Vasques)

EPITÁFIO DE UM INVASOR

6747_133305506855870_989173573_n(Foto da invasão da Playa Girón, Cuba, por forças norteamericanas, 1962)

EPITÁFIO DE UM INVASOR
(Roberto Fernández Retamar, Cuba, 1930)

Teu bisavô cavalgou por Texas
violou mexicanas trigueiras e roubou cavalos
até que se casou com Mary Stonehill e fundou um lar
de móveis de carvalho e “Deus abençoe nossa casa”.
Teu avô desembarcou em Santiago de Cuba,
viu afundar a Esquadra espanhola, e levou ao lugar
o bafo de rum e uma escura nostalgia de mulatas.
Teu pai, homem de paz,
só pagou o soldo de doze rapazes na Guatemala.
Fiel aos teus,
te dispuseste a invadir Cuba, no outono de 1962.

Hoje serves de adubo às ceibas.

(tradução de Jeff Vasques)

Um salve ao porvir


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Me delicio ao descobrir novos e fantásticos poetas lutadores… desta vez, descobri um cubano e um bem famoso: Roberto Fernandéz Retamar!! Não sei como não o conheci antes… aqui 4 poesias que traduzi…

UM SALVE AO PORVIR

Não há provas.
As provas são que não há provas.
Não estavam, não estão, não estarão dadas as condições.
Crer porque é absurdo,
e cremos.
Mais absurdo que crer é ser,
e somos.
Nada garantirá que seja menos absurdo
Não ser e não crer.
As chamadas provas ficam pela terra,
úmidas relíquias da nau.
Se derrumbaram as estátuas enquanto dormíamos.
Eram de pedra, de mármore, de bronze.
Eram de cinza.
E um grito de anatídeos as fez ruir em revoadas.

Não guardar tesouros onde
a umidade, os bichinhos os mordisquem.
Não guardar tesouros.
O tesouro é não guardá-los.
O tesouro é crer.
O tesouro é ser.

Não existem as façanhas nem os horrores do passado.
O presente é mais veloz que a leitura destas mesmas
palavras.
O poeta saúda as coisas por vir
com um salve na noite escura.
Só o difícil.
Só o escuro.
E contra ele, nele, o fogo levantando
Sua coluna viva, dourada, real.

O amor é
Quem vê.

UM HOMEM E UMA MULHER

Que há de ser
um homem e uma mulher?

Tirso de Molina

Se um homem e uma mulher atravessam ruas que ninguém vê
senão eles,
ruas populares que vão dar ao entardecer, ao ar,
com um fundo de paisagem nova e antiga mais parecida
a uma música que a uma paisagem;
se um homem e uma mulher fazem nascer árvores a seu passo,
e deixam acesas as paredes,
e fazem virar as caras como atraídas por um toque de
trombeta
ou por um desfile multicor de saltimbancos;
se quando um homem e uma mulher atravessam se detém
a conversa do bairro,
param as cadeiras de balanço sobre a calçada, caem os chaveiros
nas esquinas,
as respirações fatigadas se fazem suspiros:
será por que o amor cruza tão poucas vezes que vê-lo é motivo
de estranheza, de sobressalto, de assombro, de nostalgia,
como ouvir falar um idioma que acaso alguma vez já se soube
e do qual apenas restam nas bocas
murmúrios e ruínas de murmúrios?

FELIZES OS NORMAIS

Felizes os normais, esses seres estranhos
Os que não tiveram mãe louca, um pai alcoólatra, um filho delinqüente.
Casa em lugar nenhum, uma doença desconhecida,
os que não foram reduzidos a cinzas por un amor devorante,
os que viveram os dezessete rostos da alegria e um pouco mais.
Os cheios de sapatos, os arcanjos com chapéus,
os satisfeitos, os gordos, os lindos,
os rintintin e seus seqüazes, os que “como não, por aqui”,
os que ganham, os que são queridos até o punho,
os flautistas acompanhados por ratos,
os vendedores e seus compradores
os cavalheiros ligeiramente sobre-humanos
os homens vestidos de trovões e as mulheres de relâmpagos,
os delicados, os sensatos, os finos
os amáveis, os doces, os comíveis e os bebíveis.
Felizes as aves, o estrume, as pedras.

Mas que dêem passagem aos que fazem os mundos e os sonhos,
as ilusões, as sinfonias, as palavras que nos destróem
e nos constróem,os mais loucos que suas mães, mais bêbados
que seus pais e mais delinqüentes que seus filhos
e mais devorados por amores calcinantes.
Que a eles seja dado seu lugar no inferno, e basta.

O OUTRO

Nós, os sobreviventes,
A quem devemos a sobrevida?
Quem morreu por mim no calabouço,
quem recebeu a minha bala,
a que era para mim em seu coração?
Sobre qual morto estou eu vivo,
Seus ossos permanecendo nos meus,
os olhos que lhe arrancaram, vendo
pelo olhar de minha cara,
e a mão que não é sua mão,
que também já não é a minha,
escrevendo palavras rotas
Onde ele não está, na sobrevida?

Em tempos difíceis


“Em tempos difíceis” – Herberto Padilla (Cuba)

À aquele homem lhe pediram seu tempo
para que o juntasse ao tempo da História.
Lhe pediram as mãos,
porque para uma época difícil
nada há melhor que um par de boas mãos.
Lhe pediram os olhos
que alguma vez tiveram lágrimas
para que não contemplasse o lado claro
(especialmente o lado claro da vida)
porque para o horror basta um olho de assombro.
Lhe pediram seus lábios
ressecados e rachados para afirmar,
para erigir, com cada afirmação, um sonho
(o-alto-sonho);
lhe pediram as pernas,
duras e nodosas,
(suas velhas pernas andarilhas)
porque em tempos difíceis
há algo melhor que um par de pernas
para a construção ou para a trincheira?
Lhe pediram o bosque que nutriu desde menino,
com sua árvore obediente.
Lhe pediram o peito, o coração, os ombros.
Lhe disseram
que isso era estritamente necessário.
Lhe explicaram depois
que toda esta doação resultaría inútil
sem entregar a língua,
porque em tempos difíceis
nada é tão útil para cortar o ódio e a mentira.
E finalmente lhe rogaram
que, por favor, começasse a andar,
porque em tempos difíceis
esta é, sem dúvida, a prova decisiva.

Poesias e Canções para Che


Che Guevara é, dentre todos os lutadores, o que mais inspirou obras artísticas e homenagens. Abaixo segue para download um CD só de canções para Che Guevara e abaixo uma pequena seleção de poesias para Che de Julio Cortazar, Eduardo Galeano, Nicolas Guillen e um longo e bonito poema de Ferreira Gullar descrevendo o instante da morte de Che Guevara.

Para baixar o CD “Che Vive!” clique aqui!

CHE – Julio Cortazar

Eu tive um irmão
Não nos vimos nunca
mas não importava.

Eu tive um irmão
que andava na selva
enquantto eu dormia.

O amei ao meu modo,
lhe tomei a voz
livre como a água,
caminhei às vezes
perto de sua sombra.
meu irmão desperto
enquanto eu dormia.

Meu irmão mostrando-me
por detrás da noite
a sua estrela eleita.

O NASCEDOR – Eduardo Galeano

Por que será que o Che
tem esse perigoso costume
de seguir sempre
renascendo?
Quanto mais o insultam,
o manipulam
o tradicionam, mais renasce.
Ele é o mais renascedor de todos!
Não será porque o Che
dizia o que pensava,
e fazia o que dizia?
Não será por isso, que segue
sendo tão extraordinário,
num mundo em que
as palavras e os fatos
raramente se encontram?
E quando se encontram,
raramente se saúdam,
porque não se
reconhecem?

CHE GUEVARA – Nicolas Guillen

Como se a mão pura de San Martín*
Tivesse se estendido para seu irmão, Martí,
E o Prata, de margens verdejantes, corresse pelo mar
Para se juntar à embocadura cheia de amor do Cauto.

Assim Guevara, gaúcho de voz forte, agiu para dedicar
Seu sangue guerrilheiro a Fidel,
E sua mão larga teve mais espírito de camaradagem
Quando nossa noite era mais negro, mais escura.

A morte recuou. De suas sombras impuras,
Do punhal, do veneno e das feras,
Só restam lembranças selvagens.

Fundida dos dois, uma única alma brilha,
Como se a mão pura de San Martín
Tivesse se estendido para seu irmão, Martí.

* San Martin foi um grande general argentino que lutou pela independência de seu país, assim como Martí em Cuba.

DENTRO DA NOITE VELOZ – Ferreira Gullar

I
Na quebrada do Yuro
eram 13,30 horas
(em São Paulo
era mais tarde; em Paris anoitecera;
na Ásia o sono era seda)
Na quebrada do rio Yuro
a claridade da hora
mostrava seu fundo escuro:
as águas limpas batiam
sem passado e sem futuro.
Estalo de mato, pio
de ave, brisa nas folhas
era silêncio o barulho
a paisagem
(que se move)
está imóvel, se move
dentro de si
(igual que uma máquina de lavar
lavando sob o céu boliviano, a paisagem
com suas polias e correntes de ar)
Na quebrada do Yuro
não era hora nenhuma
só pedras e águas

II
Não era hora nenhuma
até que um tiro
explode em pássaros
e animais até que passos
vozes na água rosto nas folhas
peito ofegando a clorofila
penetra o sangue humano
e a história se move a paisagem
como um trem começa a andar
Na quebrada do Yuro eram 13,30 horas

III
Ernesto Che Guevara
teu fim está perto
não basta estar certo
para vencer a batalha
Ernesto Che Guevara
Entrega-te à prisão
não basta ter razão
pra não morrer de bala
Ernesto Che Guevara
não estejas iludido
a bala entra em teu corpo
como em qualquer bandido
Ernesto Che Guevara
por que lutas ainda?
a batalha está finda
antes que o dia acabe
Ernesto Che Guevara
é chegada a tua hora
e o povo ignora
se por ele lutavas

IV
Correm as águas do Yuro, o tiroteio agora
é mais intenso, o inimigo avança
e fecha o cerco.
Os guerrilheiros
em pequenos grupos divididos
agüentam a luta, protegem a retirada
dos companheiros feridos.
No alto,
grandes massas de nuvens se deslocam lentamente
sobrevoando países
em direção ao Pacífico, de cabeleira azul.
Uma greve em Santiago. Chove
na Jamaica. Em Buenos Aires há sol
nas alamedas arborizadas, um general maquina um golpe.
Uma família festeja bodas de prata num trem que se aproxima
de Montevidéu. À beira da estrada
muge um boi da Swift. A Bolsa
no Rio fecha em alta ou baixa.
Inti Peredo, Benigno, Urbano, Eustáquio, Ñato
castigam o avanço dos rangers .
Urbano tomba, Eustáquio
Che Guevara sustenta
o fogo, uma rajada o atinge, atira ainda, solve-se-lhe
o joelho, no espanto
os companheiros voltam
para apanhá-lo. É tarde. Fogem.
A noite veloz se fecha sobre o rosto dos mortos.

V
Não está morto, só ferido
Num helicóptero iangue
é levado para Higuera
onde a morte o espera
Não morrerá das feridas
ganhas no combate
mas de mão assassina
que o abate
Não morrerá das feridas
ganhas a céu aberto
mas de um golpe escondido
ao nascer do dia
Assim o levam pra morte
(sujo de terra e de sangue)
subjugado no bojo
de um helicóptero ianque
É seu último vôo
sobre a América Latina
sob o fulgir das estrelas
que nada sabem dos homens
que nada sabem do sonho,
da esperança, da alegria,
da luta surda do homem
pela flor da cada dia
É seu último vôo
sobre a choupana de homens
que não sabem o que se passa
naquela noite de outubro
quem passa sobre seu teto
dentro daquele barulho
quem é levado pra morte
naquela noite noturna

VI
A noite é mais veloz nos trópicos
(com seus na vertigem das folhas na explosão
monturos) das águas sujas
surdas
nos pantanais
é mais veloz sob a pele da treva, na
conspiração de azuis
e vermelhos pulsando
como vaginas frutas bocas
vegetais (confundidos com sonhos)
ou um ramo florido feito um relâmpago
parado sobre uma cisterna d´água
no escuro
É mais funda
a noite no sono
do homem na sua carne
de coca e de fome
e dentro do pote uma caneca
de lata velha de ervilha
da Armour Company
A noite é mais veloz nos trópicos
com seus monturos
e cassinos de jogos
entre as pernas das putas
o assalto a mão armada
aberta em sangue a vida.
É mais veloz (e mais demorada)
nos cárceres
a noite latino-americana
entre interrogatórios
e torturas (lá fora as violetas)
e mais violenta (a noite)
na cona da ditadura
Sob a pele da treva, os frutos
crescem
conspira o açúcar
(de boca para baixo) debaixo
das pedras, debaixo
da palavra escrita no muro
ABAIX
e inacabada Ó Tlalhuicole
as vozes soterradas da platina
Das plumas que ondularam já não resta
mais que a lembrança
no vento
Mas é o dia (com seus monturos)
pulsando dentro do chão
como um pulso
apesar da South American Gold and Platinum
é a língua do dia
no azinhavre
Golpeábamos en tanto los muros de adobe
y era nuestra herencia una red de agujeros
é a língua do homem
sob a noite
no leprosário de San Pablo
nas ruínas de Tiahuanaco
nas galerias de chumbo e silicose
da Cerro de Pasço Corporation
Hemos comido grama salitrosa
piedras de adobe lagartijas ratones
tierra en polvo y gusanos
até que
(de dentro dos monturos) irrumpa
com seu bastão turquesa

VII
Súbito viemos ao mundo
E nos chamamos Ernesto
Súbito viemos ao mundo
e estamos
na América Latina
Mas a vida onde está
nos perguntamos
Nas tavernas?
nas eternas tardes tardas?
nas favelas
onde a história fede a merda?
no cinema?
na fêmea caverna de sonhos
e de urina?
ou na ingrata
faina do poema?
(a vida
que se esvai
no estuário do Prata)
Serei cantor
serei poeta?
Responde o cobre (da Anaconda Copper):
Serás assaltante
E proxeneta
Policial jagunço alcagueta
Serei pederasta e homicida?
serei o viciado?
Responde o ferro (da Bethlehem Steel):
Serás ministro de Estado
e suicida
Serei dentista
talvez quem sabe oftalmologista?
Otorrinolaringologista?
Responde a bauxita (da Kaiser Aluminium):
serás médico aborteiro
que dá mais dinheiro
Serei um merda
quero ser um merda
Quero de fato viver.
Mas onde está essa imunda
vida – mesmo que imunda?
No hospício?
num santo
ofício?
no orifício da bunda?
Devo mudar o mundo,
a República? A vida
terei de plantá-la
como um estandarte
em praça pública?

VIII
A vida muda como a cor dos frutos
lentamente
e para sempre
A vida muda como a flor em fruto
velozmente
A vida muda como a água em folhas
o sonho em luz elétrica
a rosa desembrulha do carbono
o pássaro da boca
mas
quando for tempo
E é tempo todo o tempo
mas
não basta um século para fazer a pétala
que um só minuto faz
ou não
mas
a vida muda
a vida muda o morto em multidão

Guillén

Tudo muito corrido. tanta coisa. tanto… sigo só traduzindo e aproveitando algum material antigo. Tra(b)duções do poeta aclamado pelos cubanos como seu artista maior, ficando atrás, em popularidade, apenas de José Martí. Ao final, um vídeo com o grupo Quilapayún – que espero ainda este ano assistir no Chile! – cantando o poema “Muralla” de Guillén.

PROBLEMAS DO SUBDESENVOLVIMENTO

Monsieur Dupont te chama de burro,
porque ingoras qual era o neto
preferido de Victor Hugo.

Herr Müller começou a gritar,
porque não sabes o dia
(exato) em que morreu Bismark.

Teu amigo, Mr. Smith,
inglês ou yanqui, eu não sei,
se revolta quando escreves shell.
(Parece que poupas um éle,
e, pior, que pronuncias chel.)

Olha só,
quando sacar qualé,
mande dizerem cacarajícara
e onde está o Aconcágua,
e quem era Sucre,
e em que lugar deste planeta
morreu Martí.

E, por favor:
que te falem sempre em espanhol.

UM POEMA DE AMOR

Não sei. O ignoro.
Desconheço todo o tempo que andei
sem encontrá-la novamente.
Talvez um século? Acaso.
Acaso um pouco menos: noventa e nove anos.
Ou um mês? Poderia ser. De qualquer forma
um tempo enorme, enorme, enorme.

Ao fim, como uma rosa súbita,
repentina campânula tremendo,
a notícia.
Saber de repente
que iria a ver outra vez, que a teria
próxima, tangível, real, como nos sonhos.
Que explosão contida!
Que trovão surdo
circulando por minhas veias,
fervilhando de cima
à baixo meu sangue, em
uma noturna tempestade!
E o achado, em seguida? E a maneira
de nos cumprimentarmos, de maneira
que ninguém compreendera
que esta é nossa própria maneira?
Um roçar apenas, um contato elétrico,
mão ques se apertam conspirando, um olhar,
um palpitar do coração
gritando, uivando com silenciosa voz.

Depois
(Já sabia desde os quinze anos)
esse esvoaçar das palavras presas,
palavras de olhos baixos,
penintenciais,
entre testemunhas inimigas,
todavia
um amor de “te amo”
de “tu”, de “bem queria,
mas é impossível…” De “não podemos,
não, pense melhor…”
É um amor assim,
é um amor de abismo em primavera,
cortês, cordial, feliz, fatal.
A despedida, logo,
genérica,
no turbilhão de amigos.
Vê-la partir e amá-la como nunca;
seguí-la com os olhos,
e já sem olhos seguir vendo distante,
além das distâncias, e ainda seguí-la
mais longe ainda,
feita de noite,
de mordedura, beijo, insônia,
veneno, êxtase, convulsão,
suspiro, sangue, morte…
Feita
dessa substância conhecida
com que amassamos uma estrela.

A FOME

Esta é a fome. Um animal
todo canino e olho.
Ninguém o engana ou distrai.
Não se farta em uma mesa.
Não se contenta
com um almoço ou uma ceia.
Anuncia sempre sangue.
Ruge como leão, aperta como jibóia,
pensa como pessoa.

O exemplar que aqui se oferece
foi caçado na Índia (subúrbios de Bombaim),
mas existe em estado mais ou menos selvagem
em outras muitas partes.

Não se aproxime.

BURGUESES

Não me dão pena os burgueses vencidos.
E quando penso que vão me dar pena,
aperto bem os dentes e fecho bem os olhos.

Penso em meus longos dias sem sapatos nem rosas.
Penso em meus longos dias sem chapéus nem nuvens.
Penso em meus longos dias sem camisas nem sonhos.
Penso em meus longos dias com minha pele proibida.
Penso em meus longos dias.

Não passe, por favor. Isto é um clube.
A relação está cheia.
Não há vaga no hotel.
O senhor saiu.

Precisa-se de meninas.
Fraude nas eleições.
Grande baile para cegos.

Saiu o Prêmio Maior em Santa Clara.
Bingo para órfãos.
O cavalheiro está em Paris.
A senhora marquesa não recebe.
Enfim, e

que tudo recordo e como tudo recordo,
que porra me pede você pra fazer?
E, além do mais, pergunte-lhes.
Estou seguro que também
recordarão.

Quilapayun interpreta “La muralla” de Guillén

LA MURALLA – NICOLÁS GUILLÉN

Para hacer esta muralla,
tráiganme todas las manos:
los negros sus manos negras,
los blancos sus manos [blancas.
Ay,
una muralla que vaya
desde la playa hasta el monte,
desde el monte hasta la playa,
allá sobre el horizonte.
– ¡Tun, tun!
– ¿Quién es?
– Una rosa y un clavel …
– ¡Abre la muralla!
– ¡Tun, tun!
– ¿Quién es?
– El sable del coronel …
– ¡Cierra la muralla!
– ¡Tun, tun!
– ¿Quién es?
– La paloma y el laurel …
– ¡Abre la muralla!
– ¡Tun, tun!
– ¿Quién es?
El alacrán y el ciempiés …
– ¡Cierra la muralla!
Al corazón del amigo,
abre la muralla;
al veneno y al puñal,
cierra la muralla;
al mirto y la yerbabuena,
abre la muralla;
al diente de la serpiente,
cierra la muralla;
al ruiseñor en la flor,
abre la muralla …
Alcemos una muralla
juntando todas las manos;
los negros, sus manos negras,
los blancos, sus blancas manos.
Una muralla que vaya
desde la playa hasta el monte,
desde el monte hasta la playa,
allá sobre el horizonte …

Revolucionaria mente: José Martí (1835-1895)

Estátua de José Martí no Central Park (Nova Iorque-EUA)

.
Achei, aqui nos meus arquivos, uma matéria que fiz sobre José Martí para o finado jornal GERAIS que circulou pelo movimento estudantil da Unicamp, anos atrás, apenas por 3 edições, mas que marcou época, sendo uma das iniciativas de comunicação política melhor elaboradas que já acompanhei, e, também, das mais ambiciosas: chegamos a ter 10 mil exemplares (na época, acho que o jornal Brasil de Fato nem chegava a tanto!). Bom, apesar do título piegas, a matéria é boa (e grande!). Descreve um pouco da vida de José Martí, esse que é dos maiores lutadores e escritores de “Nuestra América”; trata da tensão entre vida e arte, colocando na mesa, novamente, o debate entre duas grandes posturas literárias: a da palavra-signo-sagrada e a da palavra-verbo-encarnado; e, por fim, discute a ética de sua estética, ou vice-versa. [Confesso que vejo um pouco de exagero apaixonado na minha interpretação da estética de Martí, mas, no geral, ainda gosto :)]. Aproveitei e traduzi os dois poemas que, à época, foram divulgados em espanhol mesmo. Tome fôlego e conheça essa figura fundamental de seu continente! Ao final, de brinde, vai um vídeo com a poesia “Versos Sencillos” de Martí (que deu origem a conhecidíssima “Guantanamera”) numa outra versão, menos conhecida, musicada por Pablo Milanes e cantada por Sara Gonzales.

Revolucionaria mente: José Martí (1835-1895)

AO MORRER em combate, em 19 de maio de 1895, no local conhecido como Dois Rios, no oriente cubano, na guerra que havia preparado contra a Espanha, José Martí tinha apenas 42 anos e já se convertera em um dos grandes heróis de “Nossa América”. Um dia antes, em carta inconclusa a seu amigo mexicano, Manuel Mercado, escreveu:

“Estou todos os dias na iminência de dar a vida por meu país e por meu dever – pois essa é a minha decisão e estou disposto a realizá-la – de impedir a tempo, com a independência de Cuba, que os Estados Unidos estendam seu domínio pelas Antilhas e caiam, com essa força mais, sobre Nossa América. Tudo quanto fiz até hoje, e continuarei fazendo, é para realizar essa missão (…) impedir que em Cuba se abra, pela anexação dos imperialistas e dos espanhóis, o caminho que facilitará – e com o nosso sangue não permitiremos – a anexação dos povos de Nossa América pelo Norte violento e brutal que os deprecia…”

Desde sua adolescência foram grandes as lutas e os sacrifícios pela independência de Cuba e a felicidade de todos os cubanos. Com apenas 16 anos tornou-se preso político e, pouco tempo depois, com a deportação, teve início seu exílio. Num longo peregrinar por países da América Latina e Caribe aprendeu a conhecer e a amar os povos de Nossa América, desde o Rio Bravo até a Patagônia, e a lutar por sua integração. Amou sua pátria tanto como a todas e a cada um dos povos irmãos da América Latina e Caribe. Nos legou seu conceito universal de pátria: “Pátria é humanidade”.

Por sua fidelidade à defesa dos interesses dos povos latino-americanos, os governos do Uruguai, Paraguai e Argentina o designaram Cônsul dos seus países em Nova York. O Uruguai o nomeou, além disso, seu representante na Conferência Monetária Internacional, que se realizou em Washington; e de tal forma se destacou que se tornou o responsável pela derrota da tese dos Estados Unidos, que se propunham a ser os maiores produtores de prata, e defendiam o bimetalismo das moedas (que poderiam ser fundidas em ouro ou prata), o que tornaria os países latino-americanos dependentes, de forma quase exclusiva, dos Estados Unidos e alijada de maior aproximação com os países europeus. Os mais de 15 anos vividos nos Estados Unidos permitiram-lhe apreciar as virtudes do seu povo e os projetos expansionistas dos seus dirigentes: “vivi dentro do monstro e conheci suas entranhas”.

A palavra de Martí é a todo o momento um instrumento educador de primeira ordem, e a educação que o interessa é a que conduza o homem latino-americano a ser dono de si, universal e livre por sua cultura, autóctone por seus valores, lúcido ante todos os perigos, fraterno com todos os homens de boa vontade. Sua proximidade das dores e virtudes da raça negra na América e do esplendor destruído das culturas indígenas está na base do seu profundo americanismo literário. Sentia-se espiritualmente mestiço, irmão do escravo, do preso e do pária.

Entendeu a América por dentro, o que se pode ver em suas assombrosas evocações das “Las ruínas índias” ou de “La pampa”. Partindo dessa capacidade de identificação através do tempo e do espaço, pôde chegar a ser o primeiro latino-americano, filho de todos os povos do continente e das ilhas do Caribe, primogênito de Bolívar e pai de Davi, das ilhas Turcas, que dele se despediram chorando.

Arte & Vida irmanadas

“Quem é o ignorante que sustenta que a poesia não é indispensável aos povos? Há pessoas de tão curta visão mental, que crêem que toda a fruta se resume a sua casca. A poesia, que congrega ou desagrega, que fortifica ou angustia, que sustenta ou demoli as almas, que dá ou tira dos homens a fé e o alento, é mais necessária aos povos que a própria indústria, pois esta lhes proporciona o modo de subsistir, enquanto que aquela lhes dá o desejo e a força da vida.” José Martí

Estátua de Martí em Cuba

Nas mais significativas páginas de José Martí, desde “El presídio político en Cuba” (1871) até seu último “Diário de Campaña” (1895), o conteúdo revolucionário e a criação artística resultam inseparáveis. Nasce desse feito a grande dificuldade para apresentar uma seleção de sua obra especificamente “literária”, da qual deveriam ser excluídos aqueles textos políticos (artigos como “Nuestra América”), discursos (como “Con todos y para el bien de todos”), e os testemunhos de sua ação revolucionária em cartas e diários. São exatamente nesses textos onde se encontram, com freqüência, o mais fecundo e o mais perdurável de sua expressão.

Compreendemos, então, que o cerne dessa dificuldade consiste na essência de Martí como escritor, caracterizado por uma obra em que literatura e revolução, literatura e serviço, literatura e redenção histórica do homem são elementos inextrincáveis, unidos desde o impulso original da palavra. A rigor não é possível despojar nenhuma página de Martí de seu caráter nativamente ético, moralizador, e, em seu sentido mais profundo, político e revolucionário. Tal é a substancia mesma de sua palavra, tanto em sua obra lírica, como na periodística, como na obra de propaganda e de conscientização para a guerra libertadora e antiimperialista.

Em Martí, vida e arte, realidade e imaginação são irmãs:

Duas Pátrias

Duas pátrias tenho eu: Cuba e a noite.
Ou são uma as duas? Mal retira
sua majestade o sol, com largos véus
e um cravo na mão, silenciosa,
Cuba, qual viúva triste me aparece.
Eu sei qual é esse cravo sangrento
que em sua mão treme! Está vazío
meu peito, destroçado está e vazío
onde estava o coração. Já é hora
de começar a morrer. A noite é boa
para dizer adeus. A luz estorva
a palavra humana. O universo
fala melhor que o homem.
Como bandeira
que convida a batalhar, a chama vermelha
da vela flameja. As janelas
abro, já apertado em mím. Muda, rompendo
as folhas do cravo, como uma nuvem
que turva o céu, Cuba, viúva, passa…

Um outro modernismo

Nos mesmos anos em que Stéphane Mallarmé levava até suas últimas conseqüências o sentido sagrado, ou até mesmo religioso, da escritura, José Martí dava um exemplo magno da escritura como encarnação.

O primeiro parece inscrever-se na linhagem iniciada no Ocidente pelo Oráculo de Delfos que, segundo Heráclito, “não diz, nem oculta, apenas sinaliza”: essência do signo como ídolo da literatura, que vem desde o hieróglifo até a letra impressa (e seus brancos).

O segundo pode remontar-se originariamente à idéia evangélica do verbo encarnado a serviço dos homens. Dessa idéia evangélica, excluindo-se o sentido teológico, se desprende uma concepção da palavra humanizada como participação e sacrifício no mundo laico e político. Sua escritura não é portadora de uma liturgia senão de uma paixão; não se define pela espacialidade senão pela temporalidade; não tem um interesse icônico, senão um impulso missionário e redentor. Deste modo, Martí se situa na antípoda da tendência dominante nas décadas finais do século XIX – parnasianismo, decadentismo, modernismo em sua primeira fase -, para converter-se no maestro e arauto de uma literatura de serviço e agonia cujo fundamento não é o signo mas a voz, como ocorrerá também, por exemplo, em Miguel de Unamuno e em César Vallejo.

O que está presente em todas as páginas de Martí, o que não falta nunca, nos escapa. Não nos escapa por sutileza de conteúdo (seu pensamento é sempre claro) nem por obscuridade da expressão (sua palavra é sempre radiante). Nos escapa por sua presença, como a luz em que se encontra imersa uma paisagem. Gostaríamos de apresentar essa luz, saber o que significa, o que nos diz. “O discurso do escritor – observa Roland Barthes – diz o que diz mas também diz que é literatura”. Não é assim o caso de Martí. Sua literatura não diz que é literatura (mesmo que também o seja): por debaixo de seus outros dizeres, diz que é vida, que é compaixão, que é homem. Ou melhor, não diz em realidade: é vida, é homem, é fome e sede de justiça. Sendo se diz: não há fissura para um distanciamento do ser e do dizer. A estética de Martí fulmina a ficção, encarna o que diz e nos remete sempre a um campo de luta extra-literário: o da eticidade militante.

Meus versos vão revoltos…

Meus versos vão revoltos e acesos
como meu coração: bom é que corra
manso o arroio que em fácil plano
entre gramas frescas desliza:
Ai!; mas a água que do monte vem
arrebatada; que por fundas fendas
desce, destroçada; que em sedentos
pedregulhos tropeça, e entre rudes
troncos salta em quebrados borbotões,
Como, despedaçada, poderá logo
qual cão de salão, jorrar submissa
no jardím podado com as flores,
ou em aquário de ouro ondear alegre
para o querer de damas cheirosas?

Inundará o palácio perfumado,
como profanação: entrará como fera
pelos brilhantes gabinetes, onde
os bardos, lindos como abades, fiam
tenras quintilhas *1 e rimas doces
com agulha de prata em branca seda.
E sobre seus divãs espantadas
as senhoras, os pés de meia suave
recolherão, – enquanto a água turva,
falsa, como tudo o que expira,
beija humilde o chapín *2 abandonado,
e em bruscos saltos alterada morre!

*1: forma poética de 5 versos
*2: calçado exótico, típico da nobreza

Eticidade Militante


Escrever a partir do que vem de si seria a única maneira de manter a palavra viva. Glosando um apontamento de Martí, se pode afirmar que para “renovar a forma poética” (em verso ou prosa) se faz necessário “escrever vivendo”, o que significa, no contexto martíniano, escrever o que a vida nos dita com estrita fidelidade às suas formas fluídas, à sua mutante natureza e sentido; e, também, assumindo e amando a realidade, em perene combustão de sacrifício. Não esqueçamos como sintetizou Martí sua própria vida: “Tenho padecido com amor”. Esta identificação de Arte e Vida, de forma e amoroso sacrifício é sua principal diferença com o tipo de modernismo representado em Cuba por Julian Del Casal, e desde logo com as correntes parnasianas, esteticistas e arte-puristas. Essa identificação, por sua vez, exige dois princípios: “a expressão sincera” e “o pensamento livre”.

A sinceridade de Martí não é somente um valor ético, mas também estético, enquanto inclui os valores de fidelidade e participação, isto é, comprometimento. O ajuste intrínseco entre conteúdo e forma se origina na verdade do estilo, e essa verdade só pode ser alcançada mediante a participação efetiva. Essa liberdade, com sua retórica sempre em estado nascente e criador, tem que romper sem cessar as travas da outra retórica, a esclerosada e escravizadora.

Em Martí se apresenta as sementes do que poderá ser nossa literatura quando a justiça e a arte puderem realmente consumar-se e coincidir. Uma literatura dona da imaginação assim como da realidade, cujo centro seja o homem inteiro e novo, trabalhador e artista, amoroso e justiceiro. Martí era um homem comprometido e desse comprometimento nascia sua liberdade. Suas palavras assim foram, livres e comprometidas:

“Não há letras, que sejam expressão, enquanto não houver essência que expressar nelas. Nem haverá Literatura Hispano-Americana, enquanto não houver Hispano-América”.

“Versos sencillos” de Martí/Pablo Milanés cantado por Sara Gonzales

Casa das Américas

Sabia que existia no IEL (instituto de estudos da linguagem da unicamp) a revista Casa das Américas, que é uma organização cubana muito porreta que existe desde a revolução e que promove a cultura latino-americana… Seus prêmio literários lançaram diversos artistas porretas como Roque Dalton (traduzido aqui neste blog) e Eduardo Galeano. Fui procurar no acervo e descobri que o IEL tem essa revista arquivada desde a década de 60!!!! Aaaahhhhh! Agora vou eu, aos poucos e desesperado, lendo uma por uma e traduzindo coisas aqui pra vocês… este primeiro que traduzo é o Nelson Simon, um dos expoentes da poesia homoerótica de Cuba! É! Isso mesmo! Poesia homoerótica em Cuba: vanguardíssima! 😉

RAGAZZO

A palavra “ragazzo” não tem tradução:
aprendi isso debaixo da luz intensa do verão de Roma,
ainda fascinado pelo mármore piedoso
da fonte de Trevi; enquanto percorria
– invisível e absorto – Piazza Venezia.

Perdido na conversação sem sentido
que sustentam os turistas; cansado
de admirar os estragos do tempo
que faz pó da carne e silêncio da pedra,
me sentei em um banco
a ver como a tarde descia até Trastevere.
Com ela, envolta em suas favas, ia minha alma,
e alguma ilusão vã como o país do qual havia chegado.
(Por então havia compreendido que a ilha
sempre falará de doermos como um cardo, que, pobre
se crava em nosso peito.)

A palavra “ragazzo” não tem tradução:
não a busque em vão nos dicionários,
não pergunte por seu significado nem nas praças mais nobres,
nem nas sórdidas tavernas onde o fumo do tabaco
e o odor da cerveja se entrecruzam como um cisne invisível
que te empurra até a tentação.
Os sensuais muchacos de La Habana,
abertamente tristes com suas praias,
nunca poderão ser nomeados com a palavra “ragazzi”.
Os alegres chicos de Andaluzia, com lábios
que se oferecem qual carnosas olivas,
nunca vão rir com a doce perversidade
de um ragazzo. Os modernos jovens de Nova York,
com seus músculos perfeitos como o aço que sustenta sua cidade
não podem abraçar com essa paixão antiga,
mescla de sangue
e lírio tostado pelo sol mediterrâneo,
que arrastam os ragazzi.

O “ragazzo” se sentou a meu lado num simples banco da Piazza Venezia,
e a cidade de Roma, até então só esplendor de ruínas e de sonhos,
foi outra de repente. Teve o mistério e o glamour
que eu havia imaginado pra ela.
Falou e apenas pude compreender
ao estender sua mão, firme como as pontes que atravessamos,
que me convidava a andar,
quando junto a tarde descemos até o Trastevere.
Vimos passar os botes e algum pássaro cinza, qual fantasmas românticos.
Sentimos em nós o aroma culpado dos homens
que antes se haviam amado junto às calmas águas.
Nunca deixei sua mão. Nunca disse seu nome nem quis lhe perguntar.
Pode chamar-se Adriano, Fabrizzio, Giuseppe, ou Giuliano:
nomes que sempre deixariam sua música no esmalte de meus dentes.
Seu perfil me acompanha ainda como as imagens desses jarros
que vi nos museus. Sua boca me segue recordando
a lua atada sobre o Trastévere. Seu cabelo descuidado,
seu corpo perfeito e disposto
só podem caber nessa palavra intraduzível: “ragazzo”.
Eu aprendi aquela tarde o que já Pasolini
havia visto nos “pepillos” romanos,
o que o fazia viver, cada noite, à borda do abismo,
sempre dentro do punho pálido e sedutor da morte.

Nicolás Guillén

O Paulo me emprestou uma coletânea da Poesia Social Cubana, o que vem a calhar com o meu projeto de montar um livro de poesias sociais dos poetas revolucionários latinos. Já, de cara, abri no Nicolás Guillén, poeta revolucionário cubano que já conhecia (inclusive traduzi no blog antigo algumas coisas, veja aqui). Mas, pela qualidade do que li, agora, fiquei animado de me aprofundar. Ele mistura uma linguagem moderna com a luta social e a luta dos negros (sem deixar de lado, também, questões existenciais). Depois posto (existe esse verbo? bem, agora existe!) algo mais sobre o Guillén (quem foi, influências, por que olhos morria…), por agora vão só as tra(b)duções de 2 poemas que, pelo que pesquisei na net, não existem para o português. Ah, a poesia “Tengo”, abaixo, refere-se às mudanças trazidas pela revolução cubana e, descobri, foi musicada por Pablo Milanês, ouça aqui.

Está bem

Tudo bem que cantes quando choras, negro irmão,
negro do Sul crucificado;
vai bem teus cantos espirituais*
teus estandartes,
tuas marchas e as alegações
de teus advogados.
Está muito bem.

Tudo bem que patine atrás da justiça,
– oh, aquele ingênuo patinador
tragando o ar até Washington desde Chicago! -;
bem teus protestos nos diários,
bem teus punhos cerrados
e Lincoln em seu retrato.
Está muito bem.

Bem teus sermões nos templos dinamitados,
bem tua insistência heróica
em estar junto dos brancos,
porque a lei – a lei? – proclama
a igualdade de todos os americanos.
Bem.
Está muito bem.
Extremamente bem
Irmão negro do Sul crucificado.
mas lembre-se de John Brown**.
Que não era negro e te defendeu com um fuzil nas mãos.

Fuzil: arma de fogo portátil
(é o que diz o dicionário)
com que disparam os soldados.
Há que se acrescentar: Fuzil (em inglês “gun”):
Arma também com que respondem
os escravos.

Mas se acontecer (isso acontece),
mas se acontecer, irmão,
que não tenhas fuzil, pois então,
nesse caso
digo, não sei,
busca algo
– uma marreta, um pau,
uma pedra – algo
que doa,
algo duro que fira,
que golpeie,
que tire sangue,
algo.

* (“spirituals” no original)
** abolicionista branco que praticou a insurreição armada para libertar os escravos negros


Tenho

Quando me vejo e me toco
eu, João sem Nada ontem mesmo,
e hoje João com Tudo,
e hoje com tudo,
volto meus olhos, observo,
me vejo e me toco
e me pergunto como pode ser.

Tenho, vamos ver,
tenho o gosto de andar por meu país,
dono de quanto há nele,
olhando bem de perto o que antes
não tive nem podia ter.

Safra posso dizer,
monte posso dizer,
cidade posso dizer,
exército dizer,
já meus para sempre e teus, nossos,
e um amplo resplendor
de raio, estrela, flor.

Tenho, vamos ver,
tenho o gosto de ir
eu, camponês, operário, gente simples,
tenho o gosto de ir
(é um exemplo)
a um banco e falar com o administrador,
não em inglês,
não em senhor,
senão dizer-lhe compañero como se diz em espanhol.

Tenho, vamos ver,
que sendo um negro
ninguém me pode deter
à porta de um dancing ou de um bar.
Ou melhor, na recepção de um hotel
gritar-me que não há lugar
um mínimo lugar e não um lugar colossal,
um pequeno lugar onde eu possa descansar.

Tenho, vamos ver,
que não há guarda rural
que me agarre e me prenda em um quartel,
nem me arranque e me expulse da minha terra
no meio do caminho real*.

Tenho que como tenho a terra tenho o mar,
não “country”,
não “jailáif”**,
não “tennis” e não “yatch”,
senão de praia e onda em onda,
gigante azul aberto democrático:
enfim, o mar.

Tenho, vamos ver,
que já aprendí a ler,
a contar,
tenho que já aprendí a escrever
e a pensar
e a rír.
Tenho que já tenho
onde trabalhar
e ganhar
o que tenho que comer.
Tenho, vamos ver,
tenho o que tería que ter.

* “camiño real” era o nome dado às ruas da Cuba monárquica ou ainda das grandes ruas.
** não descobri o que seja… provavelmente algo chique e de uso dos norte-americanos em Cuba.