Os aliens

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OS ALIENS
(Charles Bukowski, EUA, 1920-1994)

talvez você não acredite
mas há pessoas
que passam a vida
sem o menor
atrito ou
agonia
eles se vestem bem, comem
bem, dormem bem
estão satisfeitos com a vida
em família.
eles têm momentos de
melancolia
mas no geral
não são incomodados
e, frequentemente,
sentem-se
muito bem quando morrem
é uma morte fácil, geralmente,
dormem.
talvez você não acredite
porém essas pessoas existem.
mas eu não sou
uma delas
ah não, eu não sou
uma delas
eu nem chego perto
de ser
uma
delas
mas elas estão

e eu estou
cá!

Notificação

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(foto de protesto dos professores no Rio de Janeiro, jan/2014)

NOTIFICAÇÃO
(Charles Bukowski, EUA, 1920-1994)

Cidadãos do mundo
eu renuncio a vocês.

Eu renunciei
há muito tempo.
mas isto é uma notificação
formal
eu contra
vocês
uma ordem de
restrição.

Fodam-se
ressequem
desapareçam.

Não venham até
minha porta
com pizza
bucetas
ou ofertas de
paz.

É tarde demais.

A música
congelou no
ar
castrada pela
ausência de sua
presença.

Charles Bukowski


Muita correria, sem tempo de escrever ou traduzir. Segue aqui então três poemas do Buk traduzidos e publicados em meu antigo blog.

SOZINHO COM TODO MUNDO

a carne cobre o osso
e eles jogam uma mente
ali dentro e
às vezes até alma,
e as mulheres quebram
vasos contra as paredes
e os homens bebem
muito
e ninguém acha
aquele escolhido que procuram
mas continuam
rastejando pra dentro e pra fora
das camas.
o osso e a
carne procurando
mais do que
carne.

não há chance
alguma:
estamos todos presos
por um destino
singular.

ninguém nunca encontra
o outro que procura.

os esgotos enchem
os ferros-velhos enchem
os hospícios enchem
os hospitais enchem
os cemitérios enchem

nada mais
se preenche.

OLÁ, COMO VAI VOCÊ?

este medo de ser o que eles são:
um morto.

pelo menos eles não circulam pelas ruas, eles
se cuidam e ficam lá dentro, aqueles
branquelas esquizóides
que se sentam solitários na frente de suas tvs,
com suas vidas cheias de risadinhas mutiladas e enlatadas.

sua vizinhança ideal
de carros estacionados
de gramadinhos verdes
de casinhas
de portinhas que se abrem e se fecham
quando seus parentes aparecem pra uma visitinha nos feriados
as portas se fechando
diante dos que morrendo morrem tão lentamente
diante dos mortos que ainda estão vivos
na sua quieta e típica vizinhança
de ruas sinuosas
de agonia
de confusão
de horror
de medo
de ignorância.

um cachorro parado atrás da cerca.

um homem silencioso na janela.

TARDE DEMAIS

Ah sim

há coisa piores que
estar sozinho
mas leva-se décadas,
em geral,
pra se perceber isso
e na maioria das vezes
quando você percebe
é tarde demais

e não há nada pior
do que
tarde demais.

dedo médio na Mostra Luta


A Mostra Luta cumpriu mais uma vez o papel de me injetar muita energia e força pra luta, me reafirmou a importância da cultura, da formação e da comunicação especialmente na conjuntura que vivemos no Brasil de fragmentação e apatia. O sarau de encerramento foi muito forte pra mim… ainda processando tudo que está girando dentro do peito. Novos contatos feitos, com poetas e lutadores. Abaixo, o ótimo poema do beatnik Ferlinghetti lido pelo amigo e poeta Cássio durante o sarau!

SAUDAÇÃO (Lawrence Ferlinghetti)

A cada animal que abate ou come sua própria
espécie
E cada caçador com rifles montados em
camionetas
E cada miliciano ou atirador particular
com mira telescópica
E cada capataz sulista de botas com seus cães
& espingardas de cano serrado
E cada policial guardião da paz com seus cães
treinados para rastrear & matar
E cada tira à paisana ou agente secreto
com seu coldre oculto cheio de morte
E cada funcionário público que dispara contra o
público ou que alveja-para-matar
criminosos em fuga
E cada Guardia Civil em qualquer pais que
guarda os civis com algemas & carabinas
E cada guarda-fronteiras em tanto faz qual
posto da barreira em tanto faz qual lado de
qual Muro de Berlim cortina de Bambu ou
de Tortilha
E cada soldado de elite patrulheiro rodoviário
em calças de equitação sob medida &
capacete protetor de plástico &
revólver em coldre ornado de prata
E cada radiopatrulha com armas antimotim &
sirenes e cada tanque antimotim com
cassetetes & gás lacrimogênio
E cada piloto de avião com foguetes & napalm
sob as asas
E cada capelão que abençoa bombardeiros que
decolam
E qualquer Departamento de Estado de qualquer
superestado que vende armas aos dois lados
E cada Nacionalista em tanto faz que Nação em
tanto faz qual mundo Preto Pardo ou Branco
que mata por sua Nação
E cada profeta com arma de fogo ou branca e
quem quer que reforce as luzes do espírito
à força ou reforce o poder de qualquer
estado com mais Poder
E a qualquer um e a todos que matam & matam & matam & matam pela Paz
Eu ergo meu dedo médio na única saudação apropriada

Prisão de Santa Rita, 1968