A Hora da Semeadura

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(foto do enterro de Cláudia Silva Ferreira assassinada covardemente por PMs no Rio de Janeiro)

A HORA DA SEMEADURA
(Manuel José Arce Leal, Guatemala, 1935-1985)

E não nos deixaram outro caminho.
E está bem que assim seja.
Recebemos o golpe na rosto,
o chute na cara.
E demos a outra face,
silenciosos e mansos,
resignados.

Então começaram os açoites,
começou a tortura.
Chegou a morte.
Chegou noventa mil vezes a morte.
A lavravam devagar,
rindo-se,
com alegria de nosso sofrimento.

Já não se trata somente de nós os homens.
O saque constante de nossas energias,
o roubo permanente do suor
em quadrilha, à mão armada, com a lei a seu lado.
Já não se trata somente da morte por fome.
Já não se trata somente de nós os homens.
Também às mulheres,
aos filhos,
a nossos pais e a nossas mães.
Os violam, os torturam, os matam.
Também a nossas casas,
as queimam.
E destroem as plantações.
E matam as galinhas, os porcos, os cães.
E envenenam os rios.
E não nos deixam outro caminho.
E está bem que assim seja.

Trabalhávamos.
Trabalhávamos além das forças.
Começávamos a trabalhar quando aprendíamos a caminhar
e não nos detíamos senão no momento de nossa morte.
Morríamos de velhos aos trinta anos.
Trabalhávamos.
O suor era um rio que se bifurcava:
de um lado se tornava miséria, fadiga e morte para nós:
do outro lado, riqueza, vício e poder para eles.
No entanto,
seguimos trabalhando e morrendo século após século.
Mas nem assim se abrandavam suas caras para nós.
Vieram com suas armas
e suas armas vieram para nos matar.
E não nos deixaram outro caminho.

E tivemos que empunhar as armas
também.
A princípio eram as pedras,
os galhos das árvores.
Logo, os instrumentos da lavoura,
as enxadas, os facões, as foices,
nossas armas.
Nosso conhecimento da terra,
o passo incansável,
nossa capacidade de sofrimento,
o olho que conhece e reconhece cada folha,
o animal que avisa,
o silêncio que aperta as mandíbulas.
Essas foram primero nossas armas.
Não tínhamos armas.
Eles sim tinham:
as compravam com nosso trabalho
e logo as usavam contra nós.

Agora temos armas:
as deles.
Quando vieram noturnos para nos matar
os enfrentamos,
caímos como raios
e tomamos as armas,
agarramos as armas.
Cada fuzil custa muitas vidas.
Mas são maiores as mortes que nos custa
se seguem nas mãos deles.
E não nos deixaram outro caminho.
E está bem que assim seja.

Porque desta vez
as coisas
vão mudar definitivamente.
Estão mudando.
Já mudaram.

Cada bala que disparamos leva
a verdade do amor por nossos filhos,
por nossas mulheres e nossos mais velhos
e pela terra mesma e por suas árvores.
E por isso há mulheres e crianças combatendo junto a nós.
Quando semeamos o milho,
sabemos que deverão se passar luas e sóis
até que a espiga sorria com seus grãos e se torne alimento.
E quando disparamos nossas armas
é como se semeássemos
e sabemos
que virá uma colheita.
Talvez não a vejamos.
Talvez não comeremos de nossa semeadura.
Mas ficam plantadas as sementes.
As balas que eles atiram só levam morte.
Nossas balas germinam,
se tornam vida e liberdade,
são metal de esperança.

As coisas se tranformaram.
E está bem que assim seja.
Temos limpado e azeitado as armas.
Colocamos as sementes no alforje e empreendemos a marcha
sérios e silenciosos por entre a montanha.
É a hora da semeadura.

(tradução de Jeff Vasques)

Otto René Castillo

Otto René Castillo, poeta guerrilheiro, é hoje muito celebrado em seu país, a Guatemala. Sofreu influência decisiva de Roque Dalton (outro poeta guerrilheiro) que conheceu em seu exílio em El Salvador (teve que fugir da Guatemala apenas com 18 anos devido a sua militância estudantil). Fundou com Dalton um círculo literário muito influente (Círculo Literário Universitário), responsável por publicar muitos dos principais poetas da américa central que compartilhavam de suas posições político-estéticas. Otto tornou-se rapidamente o ideólogo desse grupo, apesar da figura mais carismática e conhecida ser o Dalton. As influências de Otto por essa época eram Neruda, Hernandez e César Vallejo.

Otto dividiu em 1955 o prêmio Poesia da América Central com Dalton e posteriormente uma antologia de sua obra, chamada Poemas, recebe o importante prêmio Casa de las Américas, em Havana (sonho de todo poeta lutador ;). Depois do assassinato de Otto pelo exército da Guatemala (foi queimado vivo junto com vários outros guerrilheiros), Dalton recebeu da irmã de Otto vários poemas inéditos e escreveu um longo texto sobre esse importante intelectual e artista. Abaixo segue apenas um trecho que me pareceu importante:

“Extrovertido, vital, de personalidade forte e simpática, não foi, no entanto, uma figura isenta dos erros e das debilidades dos jóvens centroamericanos de sua época. Seu afã de viver intensa e apaixonadamente a vida, cobrou seu preço frente à severidade de seus camaradas maiores em idade e experiência e lhe significou conflitos, rompimentos, problemas. Pelo contrário, os jovens lhe aceitaram sempre em sua rica totalidade humana, necessariamente contraditória com o meio. Quiçá o motivo mais importante de citar este aspecto de sua personalidade seja o de salvá-lo do risco, que pode propiciar-lhe sua morte admirável, de passar à história como um santo, como um desses personagens planos a que nos tem acostumado o apologismo póstumo.” (Roque Dalton)

Curisoso é que Dalton tampouco deixava de ser uma figura apaixonada pela vida e polêmica, gerando tensões com seus companheiros de partido por seu jeito brincalhão e heterodoxo… enfim, seguem tra(b)duções.

Poética

Bela encontra a vida
quem a constrói bela.
Por isso amo em ti
o que tu amas em mim:
a luta pela construção
da beleza de nosso planeta.

Resposta

Se me perguntasse
o que é o que mais quero
sobre a amplidão da terra,
eu te responderia:
a ti, meu amor, e à gente
simples de meu povo.
Doce és, como a terra.
Como ela frutífera e formosa.
Mas a ti desejo.
Não por bela que és.
Nem pelo fluvial de teus olhos,
quando vêem que vou e venho,
buscando, como um cego, a cor
que de mim se perde na memória.
Nem pelo selvagem de teu corpo indomável.
Nem pela rosa de fogo, que se entrega
quando a levanto do fundo do sangue
com as mãos jardineiras de meus beijos.
A ti desejo, porque és a minha.
A companheira que a vida me deu,
para ir lutando pelo mundo.
Amo a gente simples de meu povo,
porque são sangue que necessito,
quando sofro e me dessangro;
homens que necessitam de mim quando sofrem.
Porque nós somos os mais fortes,
mas também os mais débeis. Somos a lágrima.
O sorriso. O dolorosamente humano. A unidade
do melhor e do mais deplorável. O que canta
sobre a terra e o que chora sobre ela.
Deles recebi esta voz, este coração inquieto
que me apóia e me fortalece e me leva consigo.
Por isso os amo como são
e também como serão.
Porque eles são bons
e serão melhores.
E juntos jogamos
com o destino, com nossas
mãos que tudo constroem.
Assim amo eu a vida
e amo a humanidade,
meu amor,
quando te amo e amo
aos homens simples
de meu belo e horrendo país.

Holocausto do abraço

Eu, que amo como ninguém a poesia,
que compreendo a tristeza de uma árvore;
a dor de um poeta, sua imensidão
condenada a um espaço exíguo;
seu ir e vir do sonho ao zelo;
seu galope louco pelos territórios,
onde a estrela fala,
o fogo investe
e a vida e a morte
são amantes do ciclone e do cisne;
eu, não posso chegar a abraçar
a todos os poetas;
ouvir como cresce a erva azul
da poesia desde sua alma;
navegar pelos rios
escondidos em suas mãos;
ouvir como caem o vento
no desfiladeiro
de suas palavras mais amargas;
nascer também desde seu peito
como uma rosa escura e anônima
e dizer-lhe ao tímido: toma
meu braço, marcharemos juntos.
E fazer-lhe sentir o resplendor
da amizade mais ampla,
para que não seja menor sua dor;
seu agônico passo pelo mundo.
E ensinar-lhe a tristeza
a bela cintura de uma risada,
para que sua tristeza
seja doce lamparina amorosa
e não lírio que se apaga
quando a solidão se acende.
E ao poeta de vigorosos aços
cultivar-lhe no peito
a rosa mais bela e maior
para que não passe pelo mundo
com a pupila cega
e a ternura manca
e saiba amar a vida
donde a mesma surge
com seu rosto flamejante.
E entender a todos
e a todos dizer-lhes: vive,
porque a vida
é a poesia mais alta.