Ary dos Santos (Portugal, 1937-1984)



“ Fazer versos é, para mim, uma função tão natural ou necessária como dormir, comer ou fazer amor”. (Ary dos Santos)

Cheguei a Ary dos Santos por uma amiga, por acaso. Estou conhecendo ainda, mas já estou adorando sua pegada simples na escrita, própria de canções, cheia de influências da poesia popular portuguesa. Dentro de toda essa simplicidade por vezes brota umas imagens lindas e complexas… Abaixo, umas palavrinhas sobre ele e depois poemas, videos dele declamando e um poema cantado por Zeca Afonso.

José Carlos Ary dos Santos foi um poeta e declamador de poesia português. Conhecido por Ary dos Santos, fugiu de casa ainda jovem (era de uma familia da alta burguesia) e passou a viver de mascates. Viveu a morte de sua mãe ainda jovem fato que o marcou toda sua vida (todos o reconheciam como cheio de ternuras e carente por esse fato). Não se adaptou a madrasta e fugiu. Desde os 16 anos suas habilidades poéticas já eram reconhecidas, mas só em 1963 publicou seu primeiro livro “Liturgia do Sangue”. Em 1969 entra para o Partido Comunista Português (PCP), participando ativamente nas sessões de poesia do então intitulado “canto livre perseguido”, tornando-se agitador cultural da esquerda portuguesa.

Concorre, com pseudónimo, ao Festival RTP da Canção com os poemas Desfolhada Portuguesa (1969), Menina do Alto da Serra (1971) e Tourada (1973), obtendo os primeiros prémios. É aliás através deste campo – o da música – que o poeta se torna conhecido entre o grande público (fez mais de 600 poemas para canções e fados). O povo português sabia muitos de seus poemas de cor; passou para a história como “poeta do povo”, “poeta da revolução [dos cravos]”.


“ Com bandarilhas de esperança, afugentamos a fera/ Estamos na praça da Primavera/ Nós vamos pegar o mundo pelos cornos da desgraça/ e fazer da tristeza graça”. (Ary dos Santos)

OS PUTOS

Uma bola de pano, num charco
Um sorriso traquina, um chuto
Na ladeira a correr, um arco
O céu no olhar, dum puto.

Uma fisga que atira a esperança
Um pardal de calções, astuto
E a força de ser criança
Contra a força dum chui, que é bruto.

Parecem bandos de pardais à solta
Os putos, os putos
São como índios, capitães da malta
Os putos, os putos
Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
É a ternura que volta
E ouvem-no a falar do homem novo
São os putos deste povo
A aprenderem a ser homens.

As caricas brilhando na mão
A vontade que salta ao eixo
Um puto que diz que não
Se a porrada vier não deixo

Um berlinde abafado na escola
Um pião na algibeira sem cor
Um puto que pede esmola
Porque a fome lhe abafa a dor.

A CIDADE

A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.

A CIDADE cantada por ZECA AFONSO

ORIGINAL É O POETA

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho ás palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz
devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce á rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse uma mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

ARY DOS SANTOS declamando “MUITOS HOMENS NA PRISÃO”

Zeca Afonso (1929-1987)



Algumas coisas estão tão coladas em mim que até me esqueço de divulgá-las, de espalhá-las… esses pequenos tesouros que temos sorte de tropeçar. Nem me lembro como conheci Zeca Afonso, acho que foi através de João Arruda, violeiro dos melhores aqui de Barão… Já vinha de antes, de sei lá que lugares do coração, essa paixão por Portugal (e Espanha). Conhecer o fado de Zeca foi abrir outras tantas portas e janelas de minha curiosidade sobre essa terra e povo (que se entrelaçam tão intimamente com nossa história e cultura.)

Oriundo do fado de Coimbra, Zeca Afonso foi uma figura central do movimento de renovação da música portuguesa na década de 1960. De caráter político ativo, Zeca ficou associado na memória portuguesa à Revolução dos Cravos, pois uma de suas composições, “Grândola, Vila Morena”, foi utilizada como senha pelo Movimento das Forças Armadas (MFA) para começar a revolução em 25 de Abril de 1974.

Mas seu envolvimento político já vem de antes: professor em Moçambique, foi preso várias vezes por desenvolver intensa atividade anticolonialista. Em 1963, as canções políticas “Os Vampiros” e “Menino do Bairro Negro”, que integravam o disco Baladas de Coimbra, seriam proibidos pela Censura. “Os Vampiros” viria a tornar-se um dos símbolos de resistência antifascista da época. Entre 1967 e 1970, mantém contato com a LUAR (Liga Unitária de Ação Revolucionária) e o Partico Comunista Português (PCP) o que lhe custará várias detenções pela PIDE (polícia política de Portugal).

Em 1983, quando Zeca Afonso já se encontrava doente, foi-lhe atribuída a Ordem da Liberdade, que o cantor recusou solenemente.

Abaixo seguem algumas coisinhas que selecionei: 1. “Grândola, Vila Morena” com sua letra. 2. Um vídeo com Zeca falando sobre o que achava de sua música ter sido a senha da Revolução dos Cravos. 3. Depois uma canção de protesto de Zeca sobre o “Alípio de Freitas”, padre português que veio para o Brasil e se tornou militante revolucionário durante a ditadura militar, participando da AP (Ação Popular). Essa canção dialoga diretamente com a situação do Brasil da época, era uma canção de protesto, uma canção de alerta internacional sobre o que ocorria no Brasil. Alípio só soube dessa canção em 79, quando ela já tinha rodado o mundo. Alípio acredita que essa canção foi, em grande parte, responsável por sua libertação do cárcere. (Alípio acompanhou seu amigo Zeca Afonso até os ultimos dias no hospital.) 4. E por fim, “Cantigas do Maio”, cantiga que fala das idas e vindas dos amores, seus sofrimentos e alegrias, baseada em quadras populares portuguesas. Essa canção marca outra faceta muito importante de Zeca Afonso: o resgate/recriação da cultura popular portuguesa, algo como faz o Dércio Marques no Brasil. 5. E por fim, mesmo, um poema de Zeca… o Zeca poeta ficou um tanto apagado diante do Zeca cantor. Poema lindo, de final forte.

1. “GRÂNDOLA, VILA MORENA”

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina, um amigo
Em cada rosto, igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto, igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola, a tua vontade

Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade

2. ZECA AFONSO FALA SOBRE “GRÂNDOLA”

3. “ALÍPIO DE FREITAS”

4. “CANTIGAS DO MAIO”

5. DOS MUITOS FILHOS GRADOS

Dos muitos filhos grados
que tiveste
nem um se lembra
da velha casa térrea
onde concebeste sem pecado
e estragaste os teus dias
entre a corda da roupa
a cozinha e o homem
Amanhã sem aviso
apanhas um eléctrico*
mudas de roupa
acompanhas
o trajecto dos astros
De repente
é o arco-íris em volta
o guarda-freio** a volúpia
a rua o beiral
duma grande família

Não voltes

* eléctrico: bonde
** guarda-freio: funcionário dos bondes

Nunca mais corvos e Poe

(Cantando feijão: poemas que foram excluídos da seleção final de meu livrinho, como pedras ou cascas secas.)


Embalado pelo tom macabro dos meus últimos dois posts aproveito pra ressuscitar aqui mais um poema de estilo similar que foi deixado de fora do meu livrinho de poesias. É um poema que fiz numa época em que estava fortemente influenciado pelas leituras decadentistas de Edgar Allan Poe (à esquerda na foto) e Baudelaire (à direita). (Aliás, me lembrei que o poemeto “Cena”, dois posts atrás, certamente é influência do poema “Uma Carniça” de Baudelaire, do “Flores do Mal”, pai de toda a linhagem posterior de poetas malditos… hoje, o mundo é tão mais terrível e tétrico do que na época de Baudelaire que tá difícil até de ser poeta, quanto mais “maldito”). Bom, voltando, o meu poema “Nunca mais?” é uma singela homenagem à poética de Poe, onde utilizo elementos do seu poema mais famoso “O Corvo”, mas, principalmente, sob influência direta de seu texto “Filosofia da Composição“, onde explica, passo por passo, como montou seu poema “O Corvo” de forma totalmente racional, planejada: pensou que efeito queria causar no público; qual tamanho do poema pra isso; que tipo de sonoridade usar; métrica; que imagens suscitar; etc

Bem, tentei seguir o método do Poe ao fazer o poema “Nunca mais?”, e, claro, ficou bizarro, uma construção toda barroca, travada… Percebi que, ou eu não dava pra coisa, ou esse método todo racional de construção de Poe era furada (ou, ambos, sim, ambos). Tempos depois confirmei, em debates com estudiosos do Poe, que é mesmo pura lorota que o Edigárde tenha seguido seu planejamento na construção desse famoso poema. O “Filosofia da Composição” é uma criação, assim como o poema “O Corvo”, e que tenta, a posteriori, transmitir uma imagem de pura engenharia poética. Poe queria quebrar a idéia clássica da necessidade de inspiração para se fazer poesia, mesmo que isso custasse exagerar a racionalidade de seu processo de criação. A tentativa de convencer o leitor sobre sua engenharia é boa e vale a leitura desse texto que é um dos fundadores da modernidade na literatura (o texto não é longo!): Filosofia da Composição.

Bom, pra entender melhor meu poema seria interessante conhecer o poema “O Corvo”. Felizmente, há traduções fantásticas para o português de nada menos do que: Fernando Pessoa, Machado de Assis, Haroldo de Campos, Paulo Leminski!!! Pra mim, a melhor tradução é do Pessoa (apesar dele não inserir o nome de “Lenore”, personagem importante da história, em sua tradução). A tradução feita pelo Leminski, atualizando a linguagem para nosso tempo, é saborosíssima! O Machado erra completamente a mão, e só achei uma estrofe da tradução do Haroldo (não entendi se ele traduziu inteiro ou só uma estrofe mesmo). Coloco abaixo os links para cada uma dessas traduções (menos do Haroldo), dando o gostinho da primeira estrofe de cada uma. Ah, e, de brinde, vai o episódio do Simpsons em que representam o poema “O Corvo” – em versos! – com as devidas subversões satíricas. (Ah, claro, no final de tudo, se ainda tiver paciência, tem meu poema construído de forma totalmente racional, sem o uso de musas inspiradoras, como queria o mestre Poe.)

“O Corvo” – tradução de Fernando Pessoa

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
“Uma visita”, eu me disse, “está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais.”

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“O Corvo” – tradução de Machado de Assis

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho
E disse estas palavras tais:
“É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais.”

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“O Corvo” – tradução de Haroldo de Campos

E o corvo, sem revôo, pára e pousa, pára e pousa
No pálido busto de Palas, justo sobre meus umbrais;
E seus olhos têm o fogo de um demônio que repousa,
E o lampião no soalho faz, torvo, a sombra onde ele jaz;
E minha alma dos refolhos dessa sombra onde ele jaz
Ergue o vôo – nunca mais!

“O Corvo” – tradução de Paulo Leminski – ERRATA: Essa tradução é falsamente atribuída a Leminski (descubri depois de publicar o post). A autoria correta é: Antônio Thadeu Wojciechowski, Roberto Prado, Marcos Prado e Edilson Del Grassi. publicado na revista Raposa em 1985 e republicado em Os catalépticos, Lagarto Editores, Curitiba, 1991.

Num dia desses,
no exato momento do último instante
eu, bêbado como sempre,
num sonho de escriba extravagante
delirava às vezes demais

Daquele gélido julho
não vou esquecer jamais.
Eu, matando saudades da morta
sugava do litro e de um livro
que já não idolatro mais.

Dois toques na porta.
Eu, com um copo a mais
tive a nítida impressão.
“Um estúpido corvo bate à minha porta.
Só pode ser isso, nada mais”.

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“O Corvo” – versão dos Simpsons

Nunca mais? (à poética de Poe)

de Jefferson Vasques

Uma rede balança na varanda…
e uma pá escava.

Uma rede balança na varanda…
e uma pá escava, esquece.

A pá que já cava a minha cova
por um instante pára
suspensa:

Graves batidas à grande porta
ecoando incertas entre dois mundos (murros)
o gótico timbre da memória
no derradeiro umbral mediúnico.

A pá que já cava a minha cova
por um instante pára
suspensa:

Sufocados sons arranham a vida
tampa de madeira, papel e tinta
roem-raspam-riscam-arranham até
parada a respiração cardíaca.

A pá que já cava a minha cova
por um instante pára
suspensa:

Ah, Lembrança! Essa vaga senhora…
É, sim, preciso enterrar todos vivos,
mas é preciso enterrá-los mortos.
Esquecimento! Às vagas, Lenora…

Uma rede balança na varanda…
e uma pá escava.

Uma rede balança na varanda
e uma pá escrava, escreve.

Volta a cavar a vala em valsa
o velório cântico das reticências…
num canto o busto de Atenas chora,
n’outro, ri de um corvo um esqueleto.