Nascimento Volátil – Angye Gaona


Essa é a capa do livro “Nascimento Volátil” da poeta colombiana Angye Gaona, que será lançado no Festival de Cultura da Fábrica Ocupada Flaskô! A Angye continua ameaçade de 20 anos de prisão pelo goverto ditatorial da Colômbia. Seu “crime” é apoiar a luta dos trabalhadores e dos presos políticos. O lançamento desse livro é uma importante iniciativa do selo CEMOP de Arte e Cultura da Flaskô. A tradução é minha e as ilustrações são do Batata! Assim que tiver o dia certinho do lançamento, posto aqui!

Para que esse Festival aconteça com toda sua força ele precisa de seu apoio político e financeiro! Ajude! Clique no link abaixo e colabore! SOLIDARIEDADE DE CLASSE PARA UMA CULTURA DE CLASSE!

http://catarse.me/pt/projects/811-3-festival-flasko-fabrica-de-cultura — com Denis Forigo e 16 outros.

Não mais presos políticos na Colômbia


Neste domingo, 03/junho, das 16h às 23h, no ECLA (Espaço Cultural Latino-Americano – Rua Abolição, 244, Bixiga, SP), ocorrerá o ato-político cultural em solidariedade ao povo colombiano, a seus presos políticos e à poeta Angye Gaona, ameaçada de 20 anos de prisão por afirmar a liberdade e se posicionar ao lado dos trabalhadores.

Para entender melhor a situação da colômbia, clique aqui!
Tragam músicas, poesias, cenas!

FALA O VULCÃO

(Angye Gaona, poeta ameaçada de prisão por defender a liberdade e os trabalhadores da Colômbia)

Milhares de perguntas ardem
debaixo da terra,
preparam a erupção.

Já fervem, já se sacodem;
de combate provocadas,
pronto falam as crateras,
estão por surgir.

Mãos são e nas montahas se alçam,
mãos de magma tomam as estâncias.
Não ficam em pé trono
nem possessão nem usura alguma.

Sonham as perguntas,
estalos nos tímpanos oficiais.
Se recordam os nomes fustigados,
os desmembrados insepultos,
ocultos debaixo do lodo impune.
Se avivam os nomes nas vozes;
podem desmoronar os muros das prisões,
podem se tomar os tronos,
se diluem as fronteiras,
se envocam esses nomes.
Nenhuma arma, nenhuma injúria, nada,
haverá de replicar esses nomes calcinantes.

Carta de Juan Gelman ao juiz do caso de Angie


Juan Gelman, um dos maiores poetas vivos da América, enviou uma carta ao juiz do caso da poeta colombiana Angye Gaona, que está sendo acusada injustamente de “narcotráfico” e “rebeldia”. Ajude Angye enviando também cartas ao juiz, veja aqui como.

Carta de Juan Gelman ao juiz do caso Angye Gaona

México, D.F., 6 de febrero de 2012

Senhor Juiz:

Me vejo na necessidade de expresar-lhe, com o devido respeito a sua alta investidura, meu assombro ante o processo perpetrado contra a poeta colombiana Angye Gaona.


Não é verossímel a acusação de “narcotraficante” que se aplica a esta grande poeta e verdadeira jóia da rica literatura da Colômbia, conhecida e reconhecida em toda América Latina e Europa. E se acusam de “rebelde” a quem se solidariza com os sofrimentos de seu povo, não seria difícil escolher o rótulo adequado a esses que os causam.


É notória a existência de pressões que politizam a justiça e convertem a este mundo em uma sorte de compra-e-venda de consciências. Confio que sua aquilatada experiência e conhecimento jurídicos não agregarão uma injustiça a mais às muitas que imperam nestes tempos de pobreza espiritual.

Atenciosamente,
Juan Gelman
Premio Cervantes 2007

Coletivo Miséria e Angye Gaona


O Batata, do Coletivo Miséria, desenhou o poema “A fuga” da poeta colombiana Angye Gaona, que está sendo perseguida e será julgada dia 23 de janeiro por crimes que não cometeu (www.angyegaonalivre.wordpress.com). A luta contra as ditaduras, que mais rápido ou mais lentamente, vão retornando à América Latina é uma luta de todos nós! Não mais presos políticos na Colômbia, no Brasil e em qualquer canto! Angye Gaona Livre!












Novo poema de Angye Gaona


Novo poema de Angye Gaona “à memória dos assassinados sem devido processo”, enviado ontem pra mim… para lê-lo é bom ter em mente que a tortura é prática comum na Colômbia, onde há mais de 50 mil desaparecidos/assassinados… A campanha por sua liberdade segue: angyegaonalivre.wordpress.com

“À memória dos assassinados sem devido processo”

profunda estrela,
alta
ruge na ampla dor
finita
da noite universal humanidade.

estrela em sangue negro flutuando no ardor.
oh esperança.
Como raízes no sudário,
estrela irmã
jorrando
beijando paciente
os cumes e as covas.
Alude a deslizamentos avalanches em todo o país;
enquantos as jóias sobrevivem incansáveis,
inalcançáveis.

estrela esta
conhecendo o alto:
coros transparentes debaixo das almofadas de musgo para sua acolhida.
água de estrela nas copas anfitriã
da fértil morte.

estrela de choque e geléia,
de pólen qualitativo abundante derramado na ampla dor
e a esperança peneirada sobre o manto.
estrela de guia passo invocação
de vitória contida;
no dorso do nada fulgurando
encandescendo encharcada.

Libertem Angye Gaona!


Em solidariedade à poeta colombiana Angye Gaona presa pelo governo colombiano, traduzi alguns de seus poemas (com exceção do poema “Irmão Maior”). Abaixo segue texto que recebi e fala do acontecido. Depois dos poemas, um vídeo que traz algumas informações e dados sobre a ditadura velada de Juan Manuel Santos, e antes de Uribe. Mais info sobre os presos políticos na Colômbia, aqui.

P.S.: Ah, um pequeno comentário. O poema “Caminho” me lembra muito o que está acontecendo agora no Egito… esse raio que ilumina, repentino, o caminho e move a todos… pena que dure tão pouco, tão poucos continem, depois, no “caminho”.

PELA LIBERTAÇÃO DA POETA ANGYE GAONA

por Samuel Trigueiros

Está presa a poeta e jornalista Angye Gaona. O Estado colombiano quer calá-la para manter a obscuridade genocida. Angye Gaona, poetisa e comunicadora, foi presa por pensar. O fato só reafirma que a Colômbia é um país em que o Estado converteu o ato de pensar em crime.

Angye Gaona é uma mulher criativa e comprometida socialmente, sempre ativa no desenvolvimento e fomento da cultura. Fez parte do comitê organizador do conhecido Festival Internacional de Poesia de Medellín, cuja qualidade é reflexo do trabalho e dos sonhos tecidos entre os povos.

Se faz urgente a mobilização internacional por sua libertação e, também, pela apuração de denúncias de que o Estado colombiano mantém encarceradas mais de 7.500 pessoas pelo “delito de opinião”. Estamos ante uma verdadeira ditadura camuflada!

A situação é insuportável: cada dia detém, assassinam ou desaparecem com um opositor político, estudante, sindicalista, sociólogo, camponês… A repressão exercida pelo Estado colombiano contra o povo, com o objetivo de calar suas reivindicações sociais, é brutal. É preciso que o mundo se mobilize em solidariedade! É necessário que o mundo conheça esta realidade e entenda que suas dimensões ultrapassam todo o Universo!

TECIDO BRANDO

Calma e tino te digo, peito brando.
Não queiras conter toda a água dos mares.
Toma uns litros de ondas bravas,
de espuma fera.
Deixa que se encrespe dentro de ti,
cavalo afrontado,
mas não domes esta água
que o tempo a requer viva
e pulsante.
Respira e prepara-te, peito brando.
Não queiras conter todo o ar dos abismos,
toma só o de tua pequena inspiracão,
o acaricie por instantes,
o susurre como se ao último alento
e o deixa livre ir ali,
aonde tu também querias:
vasto, imenso, indistinto.
Sopra forte o que guardas.
Não recolhas mais lágrimas, peito brando.
E se um menino preso chora, dirás,
e se um homem é torturado, dirás.
Que não é tempo de guardar a ira, te digo.
É momento de forjar e fazer luzir
o fio da navalha.

CAMINHO

O caminho entrou pela janela como um ramo que a tormenta afugenta. Chovia.
Agudos nomes caíam gravemente,
lá de cima entoados,
chamados a rodar pelas calçadas.
As casas se tornaram caminhos ou foram atravessadas por eles. A lucidez se apoderou das casas.
Os habitantes buscaram os terraços,
ascenderam e alçaram suas faces com fervor
para o raio que revelou o caminho,
por um instante.

A FUGA

Perde a casa,
salte do leito,
enche os bolsos de fugas,
olha passar pela janelas
tua conta pendente de paisagens intocadas.

Encontra, de madrugada,
o grito interior do distante;
ou de tarde,
a bola de lodo às costas:
acumulação malsã de famílias enoveladas
que te deram em uso seus nomes,
agora gastos, errantes.

Marcha até o tédio, sangue meu.
Não queiras pisar o povo fértil que te chama a sua memória
só até perder-se mais,
perder-se melhor onde prefiras:
no oceano de graças deslumbrantes e profundas,
no deserto letárgico e equidistante de casa,
na montanha fecunda onde se multiplicam os caminhos.

Pisa aqui e ali até agonizar.
Volta a partir quando te tomem por louca
e tentem te enviar de barco a outro porto
ou te tratem como mercadoria que se perde nos bazares
de quem ninguém sabe de onde seu brilho ou avaria.

Entretanto, estará teu povo fértil
crescendo abundante como terra descansada,
esperando ver florescer
teu galho
e teu fazer.

FALA O VULCÃO

Milhares de perguntas ardem
debaixo da terra,
preparam a erupção.

Já fervem, já se sacodem;
de combate provocadas,
pronto falam as crateras,
estão por surgir.

Mãos são e nas montahas se alçam,
mãos de magma tomam as estâncias.
Não ficam em pé trono
nem possessão nem usura alguma.

Sonham as perguntas,
estalos nos tímpanos oficiais.
Se recordam os nomes fustigados,
os desmembrados insepultos,
ocultos debaixo do lodo impune.
Se avivam os nomes nas vozes;
podem desmoronar os muros das prisões,
podem se tomar os tronos,
se diluem as fronteiras,
se envocam esses nomes.
Nenhuma arma, nenhuma injúria, nada,
haverá de replicar esses nomes calcinantes.

CANHÃO ADENTRO

Sigo o caminho do esterno,
busco a origem da sede,
vou ao fundo de um canhão de paredes prateadas,
sólidas à mercê do tempo,
movediças quando o aluvião,
quando a infância, era glacial.

Coleto as raízes do pensamento.
As carrego às costas erodidas
junto ao agreste esquecimento que cai de mim.

Se somam,
desde pequenas covas,
os indícios da dor;
velozes burlam as miradas
e voltam a ocultar-se na pele do canhão.

Inscritas nas paredes,
as coordenadas indecifráveis
do raio pré-histórico
que formou minha face.
Tempo da fundura,
tempo sem sílaba,
quando sou só um som
em trânsito à fadiga.

Busco um manancial
que banhe a pergunta aderida a minha história.
Busco a vida recém nascida
e acho a sed.

Sigo a senda do esterno.

IRMÃO MAIOR

Tradução: Daniel Oliveira

Às nações indígenas de América

A dançar vem o Sol à pele,
dourada por Deus.

A dançar,
tinem os dentes de ouro,
brincam os solos
nas unhas do touro.

Corre pelos caminhos,
pelas artérias.

Sangue vivo,
sangue do corpo passado.

Escorre meu sangue;
entra a circular pelo teu nome.

Sou uma mescla,
sou um pão,
sou mestiço.

Teus antepassados e teus filhos
lançam pedras contra mim.

Ao alcançar-me as pedras
se unem ao meu corpo,
se convertem em pães.

Toma este pão,
toma esta vida,
toma a Terra
que és tua.

Terra onde pariram todas nossas mães,
onde vivos bebemos leite da estrela.

A dançar, vem o Sol
com seus dentes de ouro.

Brinca na pele que levas
dourada pelos deuses.

Toma este sangue;
é o que sei sagrado
para um pacto.

Sangue antigo é.

Vem de dois rios,
duas correntes,
talvez três ou quatro afluentes.

É um rio silencioso,
espera sua hora para bramar.

A hora quando se juntam os rios,
a céu aberto abaixo o Sol,
em secreto ânimo de dançar
e ser um com os deuses,
em um pacto alto
que se chame Terra,
que se chame Mãe,
que nos chame irmãos.

A DITADURA VELADA DE URIBE NA COLÔMBIA