¨Deve-se atuar a poesia / acioná-la¨ (Ibero)


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A partir de amanha comeco uma serie de entrevistas e filmagens acerca de Ibero Gutierrez, poeta lutador que foi barbaramente assassinado pela ditadura no Uruguai (foi torturado e seu corpo encontrado com 13 balas e junto um bilhete do Esquadrao da Morte dizendo ¨Voce tambem pediu perdao bala por bala, morte por morte”). Tenho me emocionado muito e aprendido muito ao reler suas poesias e outros materiais sobre sua história e paixao pela vida e pela arte. Ibero viveu tao pouco, 22 anos, mas tanto e de forma tao coerente consigo e com o mundo!

Amanha converso com Luis Bravo, organizador da antologia de Ibero (suas poesias soh foram publicadas postumamente) e grande pensador da cultura e da literatura latino-americana! Depois de amanha converso com Ricardo Viscardi, grande filosofo uruguaio e amigo de juventude de Ibero. No sabado, visito o Museu da Memória para ver o acervo de pinturas e fotografias de Ibero e, por fim, vou conhecer a casa onde Ibero cresceu e onde mora hoje sua irma, a querida Sara Gutierrez.

Assim vou descobrindo o que eh ser poeta e lutador nesta America e fincando minhas raizes no chao que escolho… 🙂 Abaixo, uma declaracao linda da esposa de Ibero (alguns dias depois de seu assassinato) sobre a relacao de amor dos dois… que linda forma de viver o amor!

¨“Nós nos demos conta que tínhamos que viver de urgência, porque talvez o tempo era curto. Tínhamos que viver cada momento e vivê-lo plenamente. Mas nao para nós sozinhos, senao em relacao ao mundo. Sentíamos que nosso companherismo era importante, nos queríamos. Mas nao fazia sentido se nao era em relacao com os demais, com a causa, a causa da liberacao do povo. Tinhamos perdido a individualidade, ja nao éramos eu e ele; éramos o casal e nos sentíamos integrados. E no entanto, nao podíamos realizarnos mais alem. Era o sistema que estava nos cerceando. Nos haviamos casado ha cinco meses, e nao íamos ter filhos por agora, apesar de que Ibero quería muitissimo ter um filho. Mas teria sido muito comodo dizer: bem, o mundo marcha por ali e nos por aquí, em nosso lugar, realizándo-nos. Com tudo o que desejava viver em suas coisas, Ibero nao quería ilhar-se dos outros, e assim é como tratou de fazer o que entendía que era bom para todos. Costumavamos dizer que a relacao carnal do casal era nada sem a relacao ideológica e a relacao afetiva, e vivíamos nos queréndo no meio das lutas estudantis e das tarefas políticas. O domingo (em que Ibero foi assassinado) foi assim e havía sido sempre assim, durante os últimos dois anos.” (Olga Martinez Gutierrez, esposa de Ibero Gutierrez)

Ibero Gutiérrez (Uruguai, 1949-1972)


Ibero era artista autodidata (poeta, pintor e fotógrafo) e militante da Frente Ampla (partido de esquerda que se forjou durante a ditadura uruguaia). Ganhou um prêmio internacional aos 18 anos o que permitiu que ele conhecesse Cuba, Madrid e Paris, onde teve contato com as movimentações de Maio de 68. Ibero representou o espírito libertário de 68 no Uruguai. Foi preso várias vezes por causa de sua militância estudantil e em 1972, com 21 anos, foi sequestrado, torturado e assassinado por um “esquadrão da morte” (Comando Caça Tupamaros, algo como o Comando de Caça aos Comunistas no Brasil… inclusive, algum tempo antes de seu assassinato, o delegado Fleury – um dos mais terríveis torturadores brasileiros – havia passado pelo Uruguai para dar “aulas” de repressão e tortura).

Mario Benedetti foi quem primero difundiu seus poemas e dizia: “um dos poetas melhor dotados de uma geracão que se formou entre dois fogos: a rebeldia e a repressão”. (Abaixo é possível ouvir Benedetti declamando o poema “Ouço Bob Dylan e ela”.)

E algumas palavras da companheira de Ibero que nos ajudam a entender o espírito de sua vida: “Nos queríamos, sabíamos que nossa relação era importante, mas que não tinha sentido, que perdia todo sentido se não se estendia aos demais, se não existia na relação a causa da libertação de nosso povo. Assim vivíamos nos querendo, entre a militância e as lutas estudantis e as tarefas políticas. Ibero era um homem, um militante, um lutador. Não queria se ilhar, ficar só dentro de suas coisas, separar-se dos demais, do que compreendia que era bom para os outros. E essa foi, sempre, sua luta”.

Abaixo algumas traduções que fiz da poesia de Ibero.

NA ESTAÇÃO D’ORLEANS

Na Estação d`Orleans podemos ler uma revista pornográfica ou mastigar
um “chewing gum” porque Deus está presente em cada um dos
papéis imprestáveis ou vice-versa.
Não há razões lógicas para não lustrarmos os sapatos em uma máquina
automática mas no céu as estrelas seguirão cintilando a milhões
de anos luz de distância.
Essa segurança pode ser angustiante mas podemos tomar uma aspirina.

Paris, 20/2/69


Auto-retrato de Ibero Gutierrez

OUÇO BOB DYLAN E ELA

na voz de Mario Benedetti:

ouço Bob Dylan e ela
a uma distância de um respiro
dorme um minúsculo sonho
suspira a sesta
ao entrar em outro tempo

escrevo:
a paz virá
com a libertação

então ela
não dorme e se desperta
para sonhar melhor

Pintura de Ibero Gutiérrez

DEITADOS NAS MURADAS DA RAMBLA

Deitados nas muradas da rambla
debaixo da noite fria e do ruído das folhas
recebendo as estrelas de abismo para cima
o mundo perceptivo se transforma
e parecemos dois hippies os dois ali estirados

creio que conheço teu cabelo curto e fino
creio que conheço teu perfume na roupa
creio que conheço tua cara de pomba
creio que conheço tua boca pequena
creio que conheço tua pequena risada

através do olhar
contra as luzes do luxo consumido
fazemos um contraste de corpos naturais
manchados de pintura vermelha
vagamos às coisas fazendo companhia
fazendo
um mar obscuro para sermos selvagens
trasgredimos as normas automaticamente
para inaugurar a grande viagem
para poder voar com poças nas mãos
com um pouco de barro da terra do mundo
e chegar a olhar com todos os sentidos
para poder imaginar todas as coisas
e transformar uma vez mais nosso campo perceptivo
com o amor de a dois e das estrelas.

Pintura de Ibero Gutiérrez

SE PODE SABER COM QUE TERNURA

se pode saber com que ternura
meus olhos são de um pedaço da noite
encontrando os companheiros velhos com todo o tempo aquele
que sem meus olhos
talvez
é todo simultâneo de liberdade
correr o dique vazio na música
ter a roupa fedendo tabacos infinitos

meus olhos queimaram letra
que apenas foram

talvez
nem existiram a rua estreita
a liberdade
quase não sei se isto existe
eu sei (o sabemos os companheiros velhos)

quase pendendo da fumaça
que não se comunica
como um telefone de espera e de
fuga

roçando o corpo de nafta
tragando-me as mãos cruas
arrancando-me os olhos
cortando-me as pernas e os braços
com toda a ternura de meus olhos que estalam
por não poder falar as coisas
e ter assim que ser poesia.

Pintura de Ibero Gutiérrez

ESTÁS CAÍDO

(A Salerno)*

Estás caído
Baixo de uns eucaliptos
Com as palmas das mãos
abertas
olhando para cima.
Estás estendido na relva
e um pouco de sombra
se acompanha
con um pouco de sol
ao meio, amornando a cara;
A tarde calorosa de outubro
Se põe de pé e te descobre.
Um pouco mais além
-talvez não alcances ver-
um tronco retorcido, grosso
sugere um céu
com o subir frondoso
e o canto das aves.

Estás pois, ali dormido
Com as vintequatro primaveras
e a boca semiaberta
e o traje escuro
o cabelo confundido com o pasto;
Estás, sim
ali
e o eucalipto, como o mundo
numa muda expectativa
e o olhar incerto
compartilhando o sol e a sombra
de um vasto cenário
povoado de escolas e silêncios
(os silêncios das tardes calorosas
de outubro entre as granjas
e o incessante dizer das cigarras
mais o ar inundado de luz
e caminhos de terra, sem final
sempre percorridos, sem pressa).

* Jorge Salerno: poeta e lutador uruguaio assassinado em 8 de outubro de 1969.