Do amor…

Um trecho de Rayuela, de Cortázar, tradução de Fernando de Castro, indicação da apaixonada Tatiana Vargas! 😉

Mas o amor, essa palavra… Moralista, Horácio, temeroso de paixões sem uma razão de águas fundas, desconcertado e arisco na cidade onde o amor se chama com todos os nomes de todas as ruas, de todas as casas, de todos os andares, de todos os quartos, de todas as camas, de todos os sonhos, de todos os esquecimentos ou recordações. Amor meu, não te amo por ti nem por mim nem pelos dois juntos, não te amo porque o sangue me faça te amar, amo-te porque tu não és minha, porque tu estás do outro lado, desse lado para onde me convidas a saltar e não posso dar o salto, porque no mais profundo de tudo tu não estás em mim, e não te alcanço, não consigo passar para lá do seu corpo, do teu riso, há horas em que me atormento por saber que tu me amas (como gostas de usar o verbo amar, com que pretensão vais deixando cair o verbo amar sobre os pratos, os lençóis e os ônibus), atormento-me com o teu amor que não me serve de ponte, pois uma ponte não se apóia de um lado só, Wright ou Le Corbusier jamais farão uma ponte apoiada de um só lado e na me olhes assim com esses olhos de pássaro, para ti a operação do amor é muito fácil, tu ficarás curada antes de mim, e a verdade é que não amo aquilo que amas em mim. É claro que tu depressa te curarás, porque vives na saúde, depois de mim será outro qualquer, isso muda como os espartilhos. É tão triste ouvir o cínico Horácio que deseja um amor passaporte, amor alpinista, amor chave, amor revólver, amor que lhe dê os mil olhos de Argos, a ubiqüidade, o silêncio no qual a música é possível, a raiz na qual se poderia começar a tecer uma língua. E é ridículo porque tudo isto dorme um pouco em ti, seria suficiente submergir-te num copo de água, como uma flor japonesa, e estou certo de que, pouco a pouco, começariam a brotar pétalas coloridas, as formas curvas aumentariam, a beleza cresceria. Doadora de infinito, eu não sei tomar, perdoa-me. Tu parece oferecer-me uma maçã e eu deixei os dentes sobre a mesa de cabeceira. Stop, tudo já está bem, assim. Também sei ser grosseiro, note bem. Mas note bem porque não é gratuito.
Por que stop? Por medo de começar as fabricações, são tão fáceis. Tira-se uma ideia de algum lugar, um sentimento de outra estante, amarra-se tudo com a ajuda de palavras, cadelas negras: e resulta que te amo. Total parcial: te amo. Total geral: te amo. Muitos amigos meus vivem assim, sem falar de um tio e dois primos, convencidos do amor-que-sentem-por-suas-esposas. Da palavra ao ato, meu amigo; em geral, sem verba não há comida. Aquilo que muita gente chama amar consiste em escolher uma mulher e casar com ela. Escolhem, juro, já os vi. Como se se pudesse escolher no amor, como se amar não fosse um raio que quebra os ossos e nos deixa paralisados no meio do pátio. Tu dirás que eles escolhem porque-a-amam; creio que é o contrário. Não se pode escolher Beatriz, não se pode escolher Julieta. Não podemos escolher a chuva que nos vai encharcar até os ossos quando saímos de um concerto. (….)

Júlio Florencio Cortázar

Depois do fracasso de seu primeiro livro de poesias, os amigos o aconselharam a voltar praqueles continhos que escrevia desde sempre… seu afastamento da poesia foi o que lhe garantiu a fantástica carreira de contista e romancista: Julio Cortázar. Era um figura exótico: rolam boatos que tomou hormônios para desenvolver a barba (morria de vontade de ser barbudo), tinha certeza de que não viveria para além dos 30 (viveu até os 70), e era extremamente tímido (há várias histórias sobre relacionamentos enormes em que ele nem beijava a garota). Achei um poema que escreveu para sua primeira namorada, ainda no processo de conquistá-la: “Não pergunte quem coloca neste canto / uma alma destinada ao sofrimento / e um pobre coração que te ama tanto; / se tu o adivinhas, nada te espante; / mas se não me encontras em teu sentimento / de nada serve que te dê meu nome”. Curiosidades que ajudam a criar a imagem do mito, mas há o chão concreto, ali, em que pisou.

Socialista, a medida que foi se engajando concretamente, passou a apoiar diversas lutas durante o período das guerrilhas na américa latina. Nesse mesmo passo, sua literatura foi radicalizando-se em experimentos vanguardistas, mas também absorvendo reflexões das lutas que acompanhava, atento à necessidade de que os valores de um futuro socialista fossem cultivados desde já, na luta contra os inimigos: “a luta pelo socialismo na América Latina deve enfrentar o horror cotidiano guardando, de maneira preciosa e zelosa, aquela capacidade de viver que desejamos para esse futuro, com tudo aquilo que isso supõe de amor, de jogo e de alegria”. Tornou-se amigo de vários escritores guerrilheiros como Ernesto Cardenal e Roque Dalton. Dizia, sempre provocativo: “Temos mais necessidade de Che Guevaras da linguagem e de revolucionários da literatura do que de letrados da revolução”. Em seu universo, a política convivia com a literatura sem que uma fosse considerada mais ou menos verdadeira que a outra: “Quando faço política, faço política. E quando faço literatura, faço literatura. Mesmo quando faço literatura de conteúdo político – como O livro de Manuel, por exemplo, faço literatura. O que eu simplesmente faço é colocar o veículo literário, não direi a serviço, mas em uma direção que possa ser politicamente útil”. Importante apontar, também, que foi criticado por vários grupos de esquerda por possuir uma posição cômoda de apoio à luta socialista, por ter se auto-exilado em Paris durante a ditadura na Argentina.

Amor, revolução e literatura compuseram o triângulo da aventura cortaziana. Aqui, tra(b)duzo alguns poemas sobre o primeiro elemento, o amor, seus relacionamentos, desventuras e tudo mais. Ao final, de brinde ;), segue um vídeo onde Julio explica como surgiram as figuras dos cronópios e famas, personagens fantásticos de seu livro “Histórias de Cronópios e Famas”.

UMA CARTA DE AMOR

Tudo que de você eu quis
é tão pouco no fundo
porque no fundo é tudo,

como um cachorro que passa, uma colina,
essas coisas de nada, cotidianas,
espiga, cabeleira e dois torrões
o odor de teu corpo,
o que diz de qualquer coisa,
comigo ou contra mim,

tudo isso é tão pouco,
e quero tudo isso de vós porque te quero.

Que olhes para além de mim,
que me ames com violenta prescindência
da manhã, que o grito
de sua entrega se lance
na cara de um chefe de repartição,

e que o prazer que juntos inventamos
seja outro signo da liberdade.

OS AMANTES

Quem os vê andar pela cidade
se todos estão cegos?
Eles se tomam pelas mãos: algo fala
entre seus dedos, línguas doces
lambem a úmida palma, gozam pelas falanges,
e acima está a noite cheia de olhos.

São os amantes, sua ilha flutua à deriva
até mortes de relva, até portos
que se abrem entre lençóis.
Tudo se desordena através deles,
tudo encontra sua cifra escamoteada;
Mas eles nem sequer sabem
que enquanto rodam em sua amarga arena
há uma pausa na obra do nada,
o tigre é um jardim que joga.

Amanhece nos carros de lixo,
começam a sair os cegos,
o ministério abre suas portas.
Os amantes rendidos se olham e se tocam
uma vez mais antes de cheirar o dia.

Já estão vestidos, já se vão pela rua.
E é só então
quando estão mortos, quando estão vestidos,
que a cidade os recupera hipócrita
e lhes impõe os deveres cotidianos.

TALVEZ A MAIS QUERIDA

Me disse a intempérie,
a leve sombra de tua mão
passando pela minha cara.
Me disse o frio, a distância,
o amargo café da meia-noite
entre mesas vazias.

A LENTA MÁQUINA DO DESAMOR

A lenta máquina do desamor,
as engrenagens do refluxo,
os corpos que abandonam os travesseiros,
os lençóis, os beijos,
e de pé ante o espelho interrogando-se
cada um a si mesmo,
já não se olhando entre eles,
já não desnudos para o outro,
já não te amo,
meu amor.

O BREVE AMOR

Com que tersa doçura
me levanta do leito em que sonhava
profundas plantações perfumadas,

me passeia os dedos pela pele e me desenha
no espaço, de forma instável, até que o beijo
se pousa curvo e recorrente,

para que o fogo lento comece
a dança cadenciada da fogueira
tecendo-se em rajadas, em hélices,
ir e vir de um furacão de fumaça…

Por quê, depois,
o que sobra de mim
é só um inundar-se entre as cinzas
sem um adeus, sem nada mais que o gesto
de liberar as mãos?

O QUE ME AGRADA DE TEU CORPO…

O que me agrada de teu corpo é o sexo.
O que me agrada de teu sexo é a boca.
O que me agrada de tua boca é a língua.
O que me agrada de tua língua é a palavra.

ORIGEM DOS CRONÓPIOS E FAMAS

e dá-lhe Cortázar!

Trecho de “Rayuela” de Cortázar

“Toco a sua boca com um dedo, toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se, pela primeira vez, a sua boca entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade, eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto, e que, por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que minha mão desenha em você. Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõe-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem, com um perfume antigo e um grande silêncio. Então as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se estivéssemos com a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.”

Poema (Cortázar)

Te amo pela sombrancelha. pelo cabelo, te debato em
corredores branquíssimos donde jorram
as fontes de luz,
te discuto a cada nome, te arranco com
delicadeza de cicatriz.
vou te pondo no cabelo cinzas de relâmpago
e fitas que dormiam na chuva.
Não quero que tenha uma forma, que seja
precisamente o que vier detrás de tua mão.
porque a água, observa a água e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitetura de nada,
incendiando as lâmpadas à metade do
encontro.
Toda manhã é a lousa onde te invento
te desenho.
Pronto para te apagar, assim não és, nem tampouco com
esse cabelo escorrido, esse sorriso.
Busco teu sumo, a borda da taça onde o
vinho é também a lua e o espelho,
Busco essa linha que faz tremer a um homem
em uma galeria de museu.
Ademais te quero, e faz tempo e frio.

Julio falando sobre caminhar pelas cidades

Júlio

“Sempre serei como um menino para tantas coisas, mas um desses guris que desde o começo carregam consigo o adulto, de maneira que quando o monstrinho chega verdadeiramente à idade do adulto ocorre que, por sua vez, carrega consigo o menino, e no meio do caminho se dá uma coexistência poucas vezes pacífica de pelo menos duas aberturas para o mundo.

Isto pode ser entendido metaforicamente, mas indica, em todo caso, um temperamento que não renuncia à visão pueril como preço da visão adulta, e essa justaposição que convém ao poeta e talvez ao criminoso, e também ao cronópio e ao humorista (questão de doses diferentes, de acentuação aguda ou esdrúxula, de escolhas: agora jogo, agora mato) manifesta-se no sentimento de não estar de todo em qualquer das estruturas, em quaisquer das teias que a vida arma e onde somos ao mesmo tempo aranha e mosca.” (Cortázar)

ÚLTIMOS CINCO POEMAS PARA CRIS

I.
Agora escrevo pássaros.
Não os vejo chegar, não escolho,
de repente estão aí,
um bando de palavras
a pousar
uma
por
uma
nos arames da página,
entre chilreios e bicadas,
chuva de asas,
e eu sem pão para dar,
tão somente deixo-os vir.
Talvez seja isto uma árvore,
ou quem sabe, o amor.

ANTES, DEPOIS…

Como os jogos ao pranto
como a sombra à coluna
o perfume desenha o jasmim
o amante precede o amor
como a carícia à mão
o amor sobrevive ao amante
porém inevitavelmente
ainda que não haja rastro nem presságio

ainda que não haja rastro nem presságio
como a carícia à mão
o perfume desenha o jasmim
o amante precede o amor
porém inevitavelmente
o amor sobrevive ao amante
como os jogos ao pranto
como a sombra à coluna

como a carícia à mão
ainda que não haja rastro nem presságio
o amante precede o amor
o perfume desenha o jasmim
como os jogos ao pranto
como a sombra à coluna
o amor sobrevive ao amante
porém inevitavelmente…

BOLERO

Que vaidade imaginar
que posso te dar tudo, o amor e o futuro,
itinerários, música, joguetes.
É certo que é assim:
tudo meu te dou, é certo,
mas tudo meu não te basta
como a mim não me basta que me dês
tudo teu.

Por isso não seremos nunca
o casal perfeito, o cartão postal,
se não somos capazes de aceitar
que só na aritmética
o dois nasce do um mais um.

Por aqui um papelzinho
que somente diz:

Sempre fostes meu espelho,
quero dizer que para me ver tinha que te olhar.

SEMPRE COMEÇAVA A CHOVER

Sempre começava a chover
na metade da película,
a flor que te levei tinha
uma aranha esperando entre as pétalas.

Creio que o sabias
e que favorecestes a desgraça.
Sempre esqueci o guarda-chuvas
antes de ir te buscar,
o restaurante estava cheio
e anunciavam a guerra nas esquinas.

Fui uma letra de tango
para tua indiferente melodia.

 

Não me dê trégua

ENCARGO

Não me dê trégua, não me perdoes nunca.
Fustiga-me no sangue, que cada coisa cruel seja tu que
voltas.
Não me deixes dormir, não me dê paz!
Então ganharei meu reino,
nascerei lentamente.
Não me perdas como uma música fácil, não sejas carícia nem
luva;
tálha-me como um sílex, desespéra-me.
Guarda teu amor humano, teu sorriso, teu cabelo. Os dê.
Vem a mim com tua cólera seca de fósforos e escamas.
Grita. Vomíta-me areia na boca, rompe-me as goelas.
Não me importa ignorar-te em pleno dia,
saber que jogas cara ao sol e ao homem.
Compartilha!

Eu te peço a cruel cerimônia do talho,
o que ninguém te pede: as espinhas
até o osso. Arranca-me esta cara infame,
obriga-me a gritar ao fim meu verdadeiro nome.

INSTRUÇÕES PARA CHORAR

Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um choro que não penetre no escândalo, que não insulte o sorriso com sua semelhança desajeitada e paralela. O choro médio ou comum consiste numa contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e muco, este no fim, pois o choro acaba no momento em que a gente se assoa energicamente. Para chorar, dirija a imaginação a você mesmo, e se isto lhe for impossível por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas e nesses golfos do estreito de Magalhães nos quais não entra ninguém, nunca. Quando o choro chegar, você cobrirá o rosto com delicadeza, usando ambas as mãos com a palma para dentro. As crianças chorarão esfregando a manga do casaco na cara, e de preferência num canto do quarto. Duração média do choro, três minutos.

POEMA

Te amo pela sombrancelha. pelo cabelo, te debato em
corredores branquíssimos donde jorram
as fontes de luz,
te discuto a cada nome, te arranco com
delicadeza de cicatriz.
vou te pondo no cabelo cinzas de relâmpago
e fitas que dormiam na chuva.
Não quero que tenha uma forma, que seja
precisamente o que vier detrás de tua mão.
porque a água, observa a água e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitetura de nada,
incendiando as lâmpadas à metade do
encontro.
Toda manhã é a lousa onde te invento
te desenho.
Pronto para te apagar, assim não és, nem tampouco com
esse cabelo escorrido, esse sorriso.
Busco teu sumo, a borda da taça onde o
vinho é também a lua e o espelho,
Busco essa linha que faz tremer a um homem
em uma galeria de museu.
Ademais te quero, e faz tempo e frio.

HAPPY NEW YEAR

Veja, não peço muito,
somente tua mão, tê-la
como um sapinho que dorme assim contente.
Necessito essa porta que me davas
para entrar a teu mundo, esse trocinho
de açúcar verde, de redondo alegre.
Não me emprestas tua mão nesta noite
de fim de ano de esfomeados roncos?
Não podes, por razões técnicas.
Então a tramo no ar, urdindo cada dedo,
o pêssego sedoso da palma
e o dorso, esse país de árvores azuis.
Assim a tomo e a sustento,
como se disso dependesse
muitíssimo do mundo,
a sucessão das quatro estações,
o canto dos galos, o amor dos homens.

AMOR 77

E depois de fazer tudo o que fazem, se levantam, se banham, se
entalcam, se perfuman,
se penteiam, se vestem, e assim progresivamente vão voltando a ser
o que não são.

Jogar a vida

Estou lendo o “Rayuela” de Cortázar (em português, “Jogo de Amarelinha”). É considerado a obra máxima do autor. São muitos livros dentro de um, já que vc pode montar o livro segundo a ordem de capítulos que quiser. Há pelo menos duas leituras sugeridas no prefácio por Cortázar. O livro fala sobre a vida, as paixões e as possibilidades de se jogar esse jogo da vida, essa que sempre se coloca a nossa frente e pergunta “quer jogar?”. O livro trata disso e da possibilidade de se chegar ao “céu” (da vida e do jogo da amarelinha), e claro, ao “inferno”. Há algum tempo assisti um show do Gotan Project numa noite muito bonita e especial pra mim, noite de coração cheio. Lá eles cantaram uma música em homenagem ao Cortázar chamada “Rayuela” que diz

“Hay que saber mover los pies.
En la rayuela, o en la vida
vos podes elegir un día.
¿Por que costado, de que lado saltarás?”

Durante a música, aparece a voz de cortázar declamando trechos de “Rayuela”. Um desses trechos segue abaixo. O vídeo do clip da música também. E depois mais alguns poemas de Cortázar que tra(b)duzo.

CLIP DA MÚSICA “RAYUELA” DO GOTAN PROJECT

UM TRECHO DE RAYUELA LIDO POR CORTÁZAR NA MÚSICA

“Toco a sua boca com um dedo, toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se, pela primeira vez, a sua boca entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade, eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto, e que, por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que minha mão desenha em você. Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõe-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem, com um perfume antigo e um grande silêncio. Então as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se estivéssemos com a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.”

TALA

Leve estes olhos, pedrinhas de cores,
este nariz de tótem, estes lábios que sabem
todas as tábuas de multiplicar e as poesias mais seletas.
Te dou a face inteira, com a língua e o cabelo,
me livro das unhas e dentes e lhe completo o peso.
Não serve
essa maneira de sentir. Que olhos nem que dedos.
Nem essa comida requentada, a memória,
nem a atenção, como uma matraca perniciosa.
Tome as induções e os cabides
onde se penduram as palavras lavadas e engomadas.
Fustigue com a casa, fora de tudo,
deixe-me como um oco, ou uma estaca.
Talvez então, quando não me valha
a generosidade de Deus, esse menino escoteiro,
e esteja igual ao tapete que suportou
sua lenta chuva de sapatos oitenta anos
e é urdido somente, claro esqueleto donde
se apagaram os ricos pavões de prata,
pode ser que sim vos diga teu nome certo
pode ocorrer que alcance sem mãos tua cintura.

DEPOIS DAS FESTAS

E quando todo mundo se foi
e restamos os dois
entre vasos vazios e cinzeiros sujos,

que bonito era saber que estavas
alí como um remanso,
sozinha comigo à beira da noite,
e que duravas, eras mais que o tempo,

eras a que não se ia
porque um mesmo travesseiro
e uma mesma preguiça indolente
iria charmar-nos outra vez
para despertar ao novo dia,
juntos, rindo, descabelados.

UMA CARTA DE AMOR

Tudo que de você eu quis
é tão pouco no fundo
porque no fundo é tudo,

como um cachorro que passa, uma colina,
essas coisas de nada, cotidianas,
espiga, cabeleira e dois torrões
o odor de teu corpo,
o que diz de qualquer coisa,
comigo ou contra mim,

tudo isso é tão pouco,
e quero tudo isso de vós porque te quero.

Que olhes para além de mim,
que me ames com violenta prescindência
da manhã, que o grito
de sua entrega se lance
na cara de um chefe de repartição,

e que o prazer que juntos inventamos
seja outro signo da liberdade.

 

Cortázar e Cris


Júlio Cortázar foi apaixonado pela escritora Cristina Peri Rossi que conheceu em seu exílio na França. O amor era não-correspondido ou parcialmente correspondido já que Cristina gostava de mulheres. Apesar disso, desenvolveram por muitos anos uma profunda amizade e intensa troca. Cortázar escreveu 15 poemas dedicados a “Cris”, como a chama… segue abaixo a tradução que fiz…

CINCO POEMAS PARA CRIS

I
Já muito além do meio
«camin de nostra vita»
existe um território do amor
um labirinto mais mental que mítico
onde é possível ser
lentamente feliz
sem o fio de Ariadne delirante
sem espumas nem lençóis nem coxas.

Tudo se cumpre em um reflexo do crepúsculo
teu cabelo teu perfume tua saliva.
E ali do outro lado te possuo
enquanto jogas com tua amiga
os jogos da noite.

II
Na realidade pouco me importa
que teus seios durmam
na azul simetría de outros seios.
Eu os teria pisado
com a cócega de meu roçar
e te riria justamente
quando o necessário e esperado
era que soluçasse.

III
Sei muito bem o que ganhas
quando te perdes no gozo.
Porque é exatamente
o que eu senti.

IV
(A justa errata)
termos nos encontrado ao final do dia
em um passeio público.

V
(Gostaria que acreditasse
que isto é o irrisório jogo
das compensações
com que consolo esta distância.
Segue então dançando
no espelho do outro corpo
depois de haver sorrido
apenas
para mim.)

OUTROS CINCO POEMAS PARA CRIS

I
Tudo o que precede é como os primeros momentos de um encontro depois de muito tempo: sorrisos, perguntas, lentos reajustes.
É raro, me pareces menos morena que antes. Se melhorou enfim tua tia avó? Não, não me agrada a cerveja. É verdade, havia esquecido. E por debaixo, montacargas de sombra, ascende devagar outro presente. Em teu cabelo começam a tremer as abelhas, tua mão roça a minha e põe nela um doce algodão de fumaça. Cheiras de novo a sul.

II
Tens por vezes
a cara do exílio
esse que busca voz em teus poemas.
Meu exílio é menos duro,
lhe sobram as defesas,
mas quando te levo pela mão
por uma ruazinha de Paris
gostaria tanto que o passeio se acabasse
em uma esquina de Montevideo
ou na minha rua Corrientes

sem que ninguém viesse
pedir documentos.

III
As vezes creio que poderíamos
conciliar os contrários
falar a centritude imóvel da roda
sair do binário
ser o vertiginoso espelho que concentra
em um vértice último
esta ceremoniosa dança que dedico
a tua presente ausência.

Recordo a Saint-Exupéry “O amor
não é olhar o que se ama
senão olhar os dois em uma mesma direção”

Mas ele não suspeitou que tantas vezes
os dois miramos fascinados a uma mesma mulher
e que a esplêndida, feliz definição
cai por terra como um cinza fantoche.

IV
Creio que não te quero,
que somente quero a imposibilidade
tão óbvia de querer-te
como a mão esquerda
enamorada dessa luva
que vive na direita.

V
Ratinho, penugem, meialua,
caleidoscópio, barco na garrafa,
musgo, sino, diáspora,
palingenesia*, feto,

isso, e o doce de abóbora,
o bandoneón de Troilo**, e duas ou três
zonas da pele onde
faz ninho o alcião***,

são as palavras que contêm
tua cruel definição inalcançável,
são as coisas que guardam as substâncias
de que estás feita para que alguém
beba e possa e arda convencida
de conhecer-te inteira,
de que somente és Cris.

* renascimento, reencarnação
** Aníbal Troilo foi um dos mais importantes e
populares músicos da história do tango.
*** Ave mitológica que fazia ninho sobre o mar.

CINCO ÚLTIMOS POEMAS PARA CRIS

I
Agora escrevo pássaros.
Não os vejo chegar, não escolho,
de repente estão aí,
um bando de palavras
a pousar
uma
por
uma
nos arames da página,
entre chilreios e bicadas,
chuva de asas,
e eu sem pão para dar,
tão somente deixo-os vir.
Talvez seja isto uma árvore,

ou quem sabe,
o amor.

II
À noite te sonhei
sacerdotisa de Sekhmet, a deusa leontocéfala.
Ela desnuda em pórfiro*,
tua limpa pele desnuda.
Que oferenda lhe rendias a deidade selvagem
que olhava através de teu olhar
um horizonte eterno e implacável?
A taça de tuas mãos continha
a libação secreta, lágrimas
ou teu sangue menstrual, ou tua saliva.
Em todo caso não era sêmen
e meu sonho sabia
que a oferenda seria rechaçada
com um lento rugido desdenhoso
tal como desde sempre
o havia esperado.

Depois, quiçá, já não o sei,
as garras em teus seios,
te satisfazendo.

* tipo de rocha ígnea, formada a partir
da lava vulcânica.

III
Nunca saberei porque tua língua entrou em minha boca
quando nos despedimos em teu hotel
depois de um amistoso percorrer a cidade
e um ajuste preciso de distâncias.

Acreditei por um momento que me davas
um encontro futuro,
que abrias uma terra de ninguém, um interregno
por onde alcançar teu minucioso musgo.

Circundada de amigas me beijaste,
eu a exceção, o monstro,
e tu a transgressora murmurante.

Quem saberá a quem beijavas,
de quem te despedias.
Fui o vigário feliz de um só instante,
o que às vezes encontra em sua saliva
um breve gosto a madressilva
sob céus austrais.

IV
Quisera ser Tirésias* esta noite
e em uma lenta espera de bruços
receber-te e gemer sob teus chicotes
e tuas fracas medusas.

Sabendo que é a hora
da metamorfose recorrente,
e que ao baixar ao vórtice de espumas
te abririas chorando,
docemente empalada.

Para voltar depois
a teu imperioso reino de falanges,
ao cerco de tua pele, teus polvos úmidos,
até arrastar-nos juntos e alcançar abraçados
as areias do sonho.

Mas não sou Tirésias,
tão somente o unicórnio
que busca a água de tuas mãos
e encontra entre os beiços
um punhado de sal.

* Na mitologia grega, Tirésias foi um famoso profeta cego de Tebas – famoso por ter passado sete anos transformado em uma mulher.

V
Não te vou cansar com mais poemas.
Digamos que te disse
nuvens, tesouras, barriletes, lápis,
e por acaso alguma vez
sorristes.

Poesias e Canções para Che


Che Guevara é, dentre todos os lutadores, o que mais inspirou obras artísticas e homenagens. Abaixo segue para download um CD só de canções para Che Guevara e abaixo uma pequena seleção de poesias para Che de Julio Cortazar, Eduardo Galeano, Nicolas Guillen e um longo e bonito poema de Ferreira Gullar descrevendo o instante da morte de Che Guevara.

Para baixar o CD “Che Vive!” clique aqui!

CHE – Julio Cortazar

Eu tive um irmão
Não nos vimos nunca
mas não importava.

Eu tive um irmão
que andava na selva
enquantto eu dormia.

O amei ao meu modo,
lhe tomei a voz
livre como a água,
caminhei às vezes
perto de sua sombra.
meu irmão desperto
enquanto eu dormia.

Meu irmão mostrando-me
por detrás da noite
a sua estrela eleita.

O NASCEDOR – Eduardo Galeano

Por que será que o Che
tem esse perigoso costume
de seguir sempre
renascendo?
Quanto mais o insultam,
o manipulam
o tradicionam, mais renasce.
Ele é o mais renascedor de todos!
Não será porque o Che
dizia o que pensava,
e fazia o que dizia?
Não será por isso, que segue
sendo tão extraordinário,
num mundo em que
as palavras e os fatos
raramente se encontram?
E quando se encontram,
raramente se saúdam,
porque não se
reconhecem?

CHE GUEVARA – Nicolas Guillen

Como se a mão pura de San Martín*
Tivesse se estendido para seu irmão, Martí,
E o Prata, de margens verdejantes, corresse pelo mar
Para se juntar à embocadura cheia de amor do Cauto.

Assim Guevara, gaúcho de voz forte, agiu para dedicar
Seu sangue guerrilheiro a Fidel,
E sua mão larga teve mais espírito de camaradagem
Quando nossa noite era mais negro, mais escura.

A morte recuou. De suas sombras impuras,
Do punhal, do veneno e das feras,
Só restam lembranças selvagens.

Fundida dos dois, uma única alma brilha,
Como se a mão pura de San Martín
Tivesse se estendido para seu irmão, Martí.

* San Martin foi um grande general argentino que lutou pela independência de seu país, assim como Martí em Cuba.

DENTRO DA NOITE VELOZ – Ferreira Gullar

I
Na quebrada do Yuro
eram 13,30 horas
(em São Paulo
era mais tarde; em Paris anoitecera;
na Ásia o sono era seda)
Na quebrada do rio Yuro
a claridade da hora
mostrava seu fundo escuro:
as águas limpas batiam
sem passado e sem futuro.
Estalo de mato, pio
de ave, brisa nas folhas
era silêncio o barulho
a paisagem
(que se move)
está imóvel, se move
dentro de si
(igual que uma máquina de lavar
lavando sob o céu boliviano, a paisagem
com suas polias e correntes de ar)
Na quebrada do Yuro
não era hora nenhuma
só pedras e águas

II
Não era hora nenhuma
até que um tiro
explode em pássaros
e animais até que passos
vozes na água rosto nas folhas
peito ofegando a clorofila
penetra o sangue humano
e a história se move a paisagem
como um trem começa a andar
Na quebrada do Yuro eram 13,30 horas

III
Ernesto Che Guevara
teu fim está perto
não basta estar certo
para vencer a batalha
Ernesto Che Guevara
Entrega-te à prisão
não basta ter razão
pra não morrer de bala
Ernesto Che Guevara
não estejas iludido
a bala entra em teu corpo
como em qualquer bandido
Ernesto Che Guevara
por que lutas ainda?
a batalha está finda
antes que o dia acabe
Ernesto Che Guevara
é chegada a tua hora
e o povo ignora
se por ele lutavas

IV
Correm as águas do Yuro, o tiroteio agora
é mais intenso, o inimigo avança
e fecha o cerco.
Os guerrilheiros
em pequenos grupos divididos
agüentam a luta, protegem a retirada
dos companheiros feridos.
No alto,
grandes massas de nuvens se deslocam lentamente
sobrevoando países
em direção ao Pacífico, de cabeleira azul.
Uma greve em Santiago. Chove
na Jamaica. Em Buenos Aires há sol
nas alamedas arborizadas, um general maquina um golpe.
Uma família festeja bodas de prata num trem que se aproxima
de Montevidéu. À beira da estrada
muge um boi da Swift. A Bolsa
no Rio fecha em alta ou baixa.
Inti Peredo, Benigno, Urbano, Eustáquio, Ñato
castigam o avanço dos rangers .
Urbano tomba, Eustáquio
Che Guevara sustenta
o fogo, uma rajada o atinge, atira ainda, solve-se-lhe
o joelho, no espanto
os companheiros voltam
para apanhá-lo. É tarde. Fogem.
A noite veloz se fecha sobre o rosto dos mortos.

V
Não está morto, só ferido
Num helicóptero iangue
é levado para Higuera
onde a morte o espera
Não morrerá das feridas
ganhas no combate
mas de mão assassina
que o abate
Não morrerá das feridas
ganhas a céu aberto
mas de um golpe escondido
ao nascer do dia
Assim o levam pra morte
(sujo de terra e de sangue)
subjugado no bojo
de um helicóptero ianque
É seu último vôo
sobre a América Latina
sob o fulgir das estrelas
que nada sabem dos homens
que nada sabem do sonho,
da esperança, da alegria,
da luta surda do homem
pela flor da cada dia
É seu último vôo
sobre a choupana de homens
que não sabem o que se passa
naquela noite de outubro
quem passa sobre seu teto
dentro daquele barulho
quem é levado pra morte
naquela noite noturna

VI
A noite é mais veloz nos trópicos
(com seus na vertigem das folhas na explosão
monturos) das águas sujas
surdas
nos pantanais
é mais veloz sob a pele da treva, na
conspiração de azuis
e vermelhos pulsando
como vaginas frutas bocas
vegetais (confundidos com sonhos)
ou um ramo florido feito um relâmpago
parado sobre uma cisterna d´água
no escuro
É mais funda
a noite no sono
do homem na sua carne
de coca e de fome
e dentro do pote uma caneca
de lata velha de ervilha
da Armour Company
A noite é mais veloz nos trópicos
com seus monturos
e cassinos de jogos
entre as pernas das putas
o assalto a mão armada
aberta em sangue a vida.
É mais veloz (e mais demorada)
nos cárceres
a noite latino-americana
entre interrogatórios
e torturas (lá fora as violetas)
e mais violenta (a noite)
na cona da ditadura
Sob a pele da treva, os frutos
crescem
conspira o açúcar
(de boca para baixo) debaixo
das pedras, debaixo
da palavra escrita no muro
ABAIX
e inacabada Ó Tlalhuicole
as vozes soterradas da platina
Das plumas que ondularam já não resta
mais que a lembrança
no vento
Mas é o dia (com seus monturos)
pulsando dentro do chão
como um pulso
apesar da South American Gold and Platinum
é a língua do dia
no azinhavre
Golpeábamos en tanto los muros de adobe
y era nuestra herencia una red de agujeros
é a língua do homem
sob a noite
no leprosário de San Pablo
nas ruínas de Tiahuanaco
nas galerias de chumbo e silicose
da Cerro de Pasço Corporation
Hemos comido grama salitrosa
piedras de adobe lagartijas ratones
tierra en polvo y gusanos
até que
(de dentro dos monturos) irrumpa
com seu bastão turquesa

VII
Súbito viemos ao mundo
E nos chamamos Ernesto
Súbito viemos ao mundo
e estamos
na América Latina
Mas a vida onde está
nos perguntamos
Nas tavernas?
nas eternas tardes tardas?
nas favelas
onde a história fede a merda?
no cinema?
na fêmea caverna de sonhos
e de urina?
ou na ingrata
faina do poema?
(a vida
que se esvai
no estuário do Prata)
Serei cantor
serei poeta?
Responde o cobre (da Anaconda Copper):
Serás assaltante
E proxeneta
Policial jagunço alcagueta
Serei pederasta e homicida?
serei o viciado?
Responde o ferro (da Bethlehem Steel):
Serás ministro de Estado
e suicida
Serei dentista
talvez quem sabe oftalmologista?
Otorrinolaringologista?
Responde a bauxita (da Kaiser Aluminium):
serás médico aborteiro
que dá mais dinheiro
Serei um merda
quero ser um merda
Quero de fato viver.
Mas onde está essa imunda
vida – mesmo que imunda?
No hospício?
num santo
ofício?
no orifício da bunda?
Devo mudar o mundo,
a República? A vida
terei de plantá-la
como um estandarte
em praça pública?

VIII
A vida muda como a cor dos frutos
lentamente
e para sempre
A vida muda como a flor em fruto
velozmente
A vida muda como a água em folhas
o sonho em luz elétrica
a rosa desembrulha do carbono
o pássaro da boca
mas
quando for tempo
E é tempo todo o tempo
mas
não basta um século para fazer a pétala
que um só minuto faz
ou não
mas
a vida muda
a vida muda o morto em multidão

Quarta, feira de cinzas…


Com o aval da carne… pós-carnaval… Cortázar:

AFTER SUCH PLEASURES

Esta noite, buscando tua boca em outra boca,
e quase crendo, porque assim de cego é este rio
que me lança em mulher e me submerge entre suas pálpebras,
que tristeza nadar ao fim até a orelha da sonolência
sabendo que o prazer é esse escravo desleal
que aceita as moedas falsas, as circula sorrindo.

Esquecida pureza, como gostaria de resgatar
essa dor de Buenos Aires, essa espera sem pausas nem
esperança.
Somente em minha casa aberta sobre o porto
outra vez começar a querer-te,
outra vez encontrar-te no café da manhã
sem que tanta coisa irrenunciável
houvesse ocorrido.
E não ter que lembrar-me deste esquecimento que sobe
para nada, para apagar do quadro-negro teus rabiscos
e não deixar-me mais que uma janela sem estrelas.

O FUTURO

Eu sei muito bem que não estarás.
Não estarás na rua
no murmúrio que brota da noite
nos postes de iluminação,
nem no gesto de escolher no cardápio,
nem no sorriso que alivia o aperto nos metrôs
nem nos livros emprestados,
nem nele até amanhã.
Não estarás em meus sonhos,
no destino original de minhas palavras,
nem em uma cifra telefônica estarás,
ou na cor de um par de luvas
ou numa blusa.
Me irritarei
meu amor
sem que seja por ti,
e comprarei bombons
mas não para ti,
e irei parar na esquina
a qual não virás
e direi as coisas que se dizem
e comerei as coisas que se comem
e sonharei os sonhos que se sonham.
E sei muito bem que não estarás
nem aqui dentro do cárcere onde te retenho,
nem ali afora
nesse rio de ruas e de pontes.
Não estarás para nada,
não serás minha recordação
e quando pense em ti
pensarei um pensamento
que obscuramente trata de lembrar-se de ti.

Mais poesia de Roque

Seguem algumas tra(b)duções do poeta-guerrilheiro de El Salvador, Roque Dalton. Quanto mais leio Roque mais admiro sua poesia… dentre os poetas revolucionários latinos, pra mim, é o mais interessante e inovador, é o que viveu de forma mais aberta o dilema entre ser revolucionário e ser poeta: seus poemas são sempre carregados de ironia e sarcasmo contras os valores burgueses e contra a própria idéia de poesia, de poeta, de artista etc. Ah, descobri que Júlio Cortázar era profundo admirador de Dalton! No final deste post, segue de brinde o poema “Alta hora da noite” do Dalton na declamação de Cortázar. 🙂 (Você pode encontrar tra(b)duções que fiz de outros poemas de Roque no blog antigo, aqui.)

EPIGRAMA

Somos o casal menos infinito e menos adâmico
que poderia se encontrar nestes último 30 anos de História.

Do ponto de vista muscular
temos feito pouco mais que dois cachorros.
Desde o ângulo cultural
temos despertado bem pouca inveja.

Mas este amor nos devolveu melhorados ao mundo
e, entre nós, inesquecíveis.

Agora vamos fazer que alguém sorria
ou saboreie um pedacinho da doce tristeza
falando de nosso amor neste poema.

LA JOIE DE AIMER

Não me ames
para esgotar teu destino.
Não me ames
com a fé de construir uma tragédia contemporânea.
Ria-te à todas luzes, carinho.
Ria em toda esta etapa de bela vizinhança.
Ria-te, ria-te,
ainda que seja de mim.

TERCEIRO POEMA DE AMOR

A quem diga que nosso amor é extraordinário
porque nasceu de circunstâncias extraordinárias
lhe responda que precisamente lutamos
para que um amor como o nosso
(amor entre companheiros de combate) chegue a ser em El Salvador
o amor mais comum e corrente quase o único.

DE UM REVOLUCIONÁRIO A J. L. BORGES *

É que para nosso Código de Honra,
você também, senhor,
foi dos tantos lúcidos que esgotaram a infâmia.
E em nosso Código de Honra
o dizer: “que escritor!”
é bem pouco atenuante;
é, quiçá,
outra infâmia…

* Jorge Luis Borges é um escritor argentino considerado – ao lado de Kafka – como um dos maiores inovadores da literatura do século XX. Um de seus livros mais famosos é o “História Universal da Infâmia”. Suas tendências conservadoras, de apoio à ditadura argentina, por exemplo, foram amplamente conhecidas à época.

NO FUTURO

Quando nossa sociedade for
basicamente justa,
ou seja,
socialista,
nas conversas de buteco
à hora das confissões íntimas
mais de um dirá, olhando pra baixo,
“eu tive propriedade privada sobre os meios de produção”
como quando hoje dizemos
“eu tive sífilis”
“eu tive tendências sexuais aberrantes”.

SÓ O INÍCIO

Uma amiga minha meio poetisa
definia assim o lamento
dos intelectuais da classe média:
“Sou prisioneiro da burguesia:
não posso sair de mim mesmo.”
E o mestre Bertold Brecht,
comunista, dramaturgo e poeta alemão
(nessa ordem) escreveu:
“Que é o assalto a um Banco
comparado ao crime
da fundação de um Banco?”
Por onde concluo
que se para sair de si mesmo
um intelectual da classe média
assalta um Banco,
não terá feito até então
senão ganhar cem anos de perdão.

PARA UM MELHOR AMOR

“O sexo é uma categoria política”
Kate Mills

Ninguém discute que o sexo
é uma categoria no universo dos casais:
daí sua ternura e suas ramas selvagens.
Ninguém discute que o sexo
é uma categoria familiar:
daí os filhos,
as noites em comum
e os dias divididos
(ele, buscando o pão nas ruas,
nas oficinas e nas fábricas;
ela, na retaguarda dos ofícios domésticos,
na estratégia e tática da cozinha
que permitam sobreviver à batalha comum
talvez até o fim do mês.)
Ninguém discute que o sexo
é uma categoria econômica:
basta mencionar a prostituição,
as modas,
as seções das revistas que são para ela
ou são para ele.
Onde começa a confusão
é quando uma mulher diz
que o sexo é uma categoria política.
Porque quando uma mulher diz
que o sexo é uma categoria política
pode começar a deixar de ser mulher em si
para converter-se em mulher para si,
constituir a mulher em mulher
a partir de sua humanidade
e não de seu sexo,
saber que o desodorante mágico com sabor de limão
e o sabão que acaricia voluptuosamente sua pele
são fabricados pela mesma empresa que fabrica o napalm
saber que os labores próprios do lar
são os labores próprios da classe social a que pertence esse lar,
que a diferença de sexos
brilha muito melhor na profunda noite amorosa
quando se conhece todos esses segredos
que nos manteriam mascarados e alheios.

Alta hora da noite

Quando souberes que morri não pronuncies meu nome
porque se deteria a morte e o repouso.

Tua voz, que é o sino dos cinco sentidos,
seria o tênue farol buscado por minha névoa.

Quando souberes que morri diga sílabas extravagantes,
pronuncia flor, abelha, lágrima, pão, tormenta.

Não deixes que teus lábios achem minhas onze letras.
Tenho sonho, amei, ganhei o silêncio.

Não pronuncies meu nome quando souberes que morri:
Desde a escura terra viria por tua voz.

Não pronuncies meu nome, não pronuncies meu nome.
Quando souberes que morri não pronuncies meu nome.