Duas canções de Cohen

Cohen, sempre Leonard Cohen voltando pra mim. Abaixo, traduzo duas canções desse poeta: “The partisan”, sobre a resistência dos judeus ao nazismo (Cohen ainda se afirma judeu, apesar de ter sido ordenado monge zen); e, “Please, Dont pass me by”, sobre uma situação corriqueira que vivenciamos todo dia e que Cohen, com sua visão política e apocalíptica, inverte e transforma.

THE PARTISAN – O PARTIDÁRIO


Quando eles vieram pela orla
Eu fui avisado para render-me,
isto é o que eu não poderia fazer.
Peguei minha arma e desapareci.
Eu mudei meu nome tantas vezes,
Eu perdi minha esposa e filhos
mas eu tenho muitos amigos
e alguns deles estão comigo.

Uma senhora nos deu abrigo,
nos manteve escondidos no sótão
então os soldados vieram,
ela morreu em silêncio.

Haviam três de nós esta manhã,
sou o único esta tarde
mas eu preciso ir em frente;
as fronteiras são minha prisão.

Oh, o vento, o vento está soprando
através dos túmulos ele está soprando,
a liberdade breve virá;
então nós viremos das sombras.

Os alemães estiveram em minha casa
eles disseram: “Identifique-se”,
mas eu não estou com medo
Eu recuperei minha arma.

Eu mudei meu nome uma centena de vezes
Eu perdi minha esposa e filhos
Mas eu tenho tantos amigos,
Eu tenho toda a França.

Um velho homem num sótão
nos escondeu durante a noite,
Os alemães o capturaram,
e ele morreu sem surpresa.

Oh, o vento, o vento está soprando
através dos túmulos ele está soprando,
a liberdade breve virá;
então nós viremos das sombras.

PLEASE, DON’T PASS ME BY

Eu estava andando em nova york e trombei com um homem na minha frente. Eu senti uma placa presa nas suas costa. E quando nós passamos o poste de luz, eu pude ler, e dizia “por favor, não me deixe de lado – Eu sou cego, mas você pode ver – Eu sou totalmente cego – por favor, não passe por mim.” Eu estava andando na Sétima avenida, quando eu entrei na 14a. rua e vi na esquina curiosas mutilações
da forma humana; era uma escola para deficientes. E havia aleijados, e pessoas em cadeira de rodas e com bengalas e estava nevando, e tive essa sensação de que a cidade toda estava cantando:

Oh please don’t pass me by,
Oh please don’t pass me by,
For I am blind, but you can see,
Yes, I’ve been blinded totally,
Oh please don’t pass me by.

E você sabe, à medida que eu ia andando eu pensei que eram eles que estavam cantando isso, eu pensei que eram os outros que estavam cantando isso, eu pensei que era outra pessoa.Mas à medida que eu segui eu soube que era eu, e que eu estava cantando isso para mim. Era assim:

Please don’t pass me by,
Oh please don’t pass me by,
For I am blind, but you can see,
Well, I’ve been blinded totally,
Oh please don’t pass me by.
Oh please don’t pass me by.

Agora eu sei que você está sentado no fundo de seus assentos de veludo e estão pensando “ah, ele está lá dizendo alguma coisa que ele pensa de mim, mas eu nunca vou ter que cantar essa canção”. Mas eu vos prometo, meus amigos, que vocês cantarão esta canção: talvez não esta noite, talvez não amanhã, mas algum dia vocês estarão de joelhos e eu quero que saibam a letra quando chegar o momento. Porque vocês terão que cantar para vocês mesmos, ou para outros, ou para seu irmão. Vocês terão que aprender a cantar esta canção, que vai assim:

Please don’t pass me by,
Ah you don’t have to sing this .. not for you.
Please don’t pass me by,
For I am blind, but you can see,
Yes, I’ve been blinded totally,
Oh please don’t pass me by.

Bem eu canto isto para os judeus e para os ciganos e para a fumaça que fazem. E eu canto isto para as crianças da Inglaterra, suas faces tão graves. E eu canto isto para o salvador sem ninguém para salvar. Vocês não se desnudarão para mim? Hey, vocês não se desnudarão para mim? E vai:

Please don’t pass me by,
Oh please don’t pass me by,
For I am blind, but you can see,
Yes, I’ve been blinded totally,
Oh now, please don’t pass me by.

Agora não há nada que eu diga que te ajudará a conectar a noite de sangue torturado com o dia que vem a seguir. Mas eu quero te machucar, e quero que isso tenha fim. Oh, vocês não se desnudarão para mim?

Please don’t pass me by,
Oh please don’t pass me by,
For I am blind, but you can see,
Yes, I’ve been blinded totally,
Oh now, please don’t pass me by.

Bem, eu canto esta canção para as bestas loiras, eu canto esta canção para você Vênus sobre suas conchas na espuma do mar. E eu canto isto para os esquisitos, para os aleijados, e para os corcundas, e para os queimados, e para os que estão queimando, e para os desfigurados, os quebrados, os rasgados, e para todos aqueles de que vocês falam nos cafés, nos encontros, e nas demonstrações, e nas ruas, em sua música, nas minhas canções. Eu falo dos que realmente estão queimando, eu falo dos que estão realmente queimando

Please don’t pass me by,
Oh please don’t pass me by,
For I am blind, but you can see,
Yes, I’ve been blinded totally,
Oh now, please don’t pass me by.

Eu sei que você ainda pensa que sou eu. Eu sei que você pensa que há outra pessoa qualquer. Eu sei que estas palavras não são suas. Mas eu digo, meus amigos, que um dia

você estará de joelhos
você estará de joelhos
você estará de joelhos
Please don’t pass me by,
Oh please don’t pass me by,
For I am blind, but you can see,
Yes, I’ve been blinded totally,
Oh now, please don’t pass me by.

Bem, você sabe que eu tenho minhas canções e meus poemas. Eu tenho meu livro e eu tenho as armas, e algumas vezes eu tenho seu aplauso. Eu faço algum dinheiro, mas você sabe, meus amigos, eu ainda estou lá fora na esquina. Estou com os esquisitos, com os perseguidos, com os desfigurados, sim com os rasgados, com os de baixo, eu estou com os pobres. Agora vamos…

Please don’t pass me by,
Oh please don’t pass me by,
For I am blind, but you can see,
Yes, I’ve been blinded totally,
Oh now, please don’t pass me by.

Agora eu quero tirar minha dignidade, sim, tirar minha dignidade. Meus amigos, tirar minha dignidade, tirar minha forma, tirar meu estilo, tirar minha honra, tirar minha coragem, tiragar meu tempo, tirar meu tempo, tempo… Porque vocês sabem eu estou cantando esta canção. E eu gostaria que você fosse, gostaria que você fosse, eu gostaria que você fosse para casa com outra pessoa. Gostaria que você fosse pra casa com outra pessoa. Gostaria que você fosse pra casa com outra pessoa. Não seja a pessoa com quem você veio aqui. Oh, Não seja a pessoa com quem você veio aqui. Oh, Não seja a pessoa com quem você veio aqui. Ah, eu não serei. Eu não suporto ele. Eu não suporto quem sou. É por isso que eu tenho que ficar de joelhos. Porque eu não posso sozinho. Eu não estou sozinho mais porque o homem que eu fui antes era um tirano, ele era um escravo, ele estava algemado, estava quebrado e então ele cantava:

Please don’t pass me by,
Oh please don’t pass me by,
For I am blind, but you can see,
Yes, I’ve been blinded totally,
Oh now, please don’t pass me by.

Bem, eu espero ver vocês lá fora na esquina. Sim, eu espero que quando eu passe ouça você sussurrando com a brisa. Porque eu vou deixá-los agora, eu vou encontrar alguém novo. Encontrar alguém novo. E, por favor, não me deixe de lado.

 

Como falar poesia, por Leonard Cohen

Segue abaixo a tra(b)dução que fiz de um texto muito interessante do Leonard Cohen sobre como falar poesia. Faz mais sentido traduzir “speak poetry” como “falar poesia” e não “recitar/declamar poesia” porque Cohen, justamente, vai atacar essa última forma, mais teatral, que tira a força da palavra. É claro que é extremamente polêmico tudo que ele diz aí. Mas, em grande medida, Cohen parece praticar o que escreve. Veja o vídeo, abaixo, com ele falando uma poesia e comprove 🙂 Ah, o texto é longo, mas vale muito a pena… e o final, surpreende!

“Tome a palavra borboleta. Para usar essa palavra não é necessário fazer a voz pesar menos do que uma onça ou equipá-la com pequenas asas empoeiradas. Não é necessário inventar um dia ensolarado ou um campo de narcisos. Não é necessário estar amando, ou estar apaixonado por borboletas. A palavra borboleta não é uma borboleta real. Há a palavra e a borboleta. Se você confunde esses dois itens as pessoas têm o direito de rir de você. Não faça muito da palavra. Você está tentando sugerir que você ama borboletas mais perfeitamente que qualquer outro, ou realmente entende sua natureza? A palavra borboleta é apenas dado. Não é uma oportunidade pra você pairar, planar, fazer amizade com flores, simbolizar beleza e fragilidade, ou de qualquer forma personificar uma borboleta. Não represente palavras. Nunca represente palavras. Nunca tente sair do solo quando você fala sobre voar. Nunca feche seus olhos e puxe rapidamente sua cabeça para um lado quando você fala de morte. Não fixe seus olhos flamejantes em mim quando você fala de amor. Se você quer me impressionar quando você fala de amor ponha sua mão no bolso ou embaixo de seu vestido e brinque com você mesma. Se a ambição e a fome por aplausos tem te guiado a falar sobre amor você deveria aprender como fazer isso sem desonrar você mesma ou o material.

Qual é a expressão que a nossa era demanda? A era não demanda expressão de qualquer forma. Nós temos visto fotografias de mães asiáticas de luto. Nós não estamos interessados na agonia de seus órgãos descuidados. Não há nada que você possa mostrar em sua face que possa se comparar ao o horror deste tempo. Nem mesmo tente. Você vai apenas se conservar no desprezo daqueles que sentem as coisas profundamente. Nós temos visto reportagens de humanos em extremos de dor e deslocamento. Todo mundo sabe que você está comendo bem e está mesmo sendo pago para ficar aí de pé. Você está brincando com pessoas que experimentaram uma catástrofe. Isso deveria te deixar muito quieto.

Fale as palavras, expresse os dados, um passo atrás. Todo mundo sabe que você está sofrendo. Você não pode contar à audiência tudo que você sabe sobre amor em cada linha de sua fala. Saia da frente e eles saberão o que você sabe porque eles já sabem mesmo. Você não tem nada a ensiná-los. Você não é mais bonito do que eles são. Você não é mais sábio. Não grite com eles. Não force uma entrada a seco. Isso é sexo ruim. Se você mostrar as linhas de sua genital, então entregue o que prometeu.

E lembre-se que a maioria das pessoas não querem realmente um acróbata na cama. Qual é a nossa necessidade? Estar perto do homem natural, estar perto da mulher natural. Não finja que você é um cantor adorado com uma vasta e leal audiência que seguiu os altos e baixos de sua vida até este último momento. As bombas, os lança-chamas, e toda aquela merda que destruíu mais do que árvores e vilas. Eles também destruíram o palco. Você pensou que sua profissão escaparia à destruição geral? Não há mais palco. Não há mais luzes da ribalta. Você está entre as pessoas. Então seja modesto. Fale as palavras, expresse os dados, um passo atrás. Fique sozinho. Fique no seu quarto. Não se coloque.

Esta é uma paisagem interior. É dentro. É privado. Respeite a privacidade do material. Estes pedaços foram escritos em silêncio. A coragem do jogo é falá-los. A disciplina do jogo é não violá-los. Deixe a audiência sentir seu amor pela privacidade mesmo que não haja privacidade. Seja uma boa puta. O poema não é um slogan. Não pode fazer propaganda de você. Não pode promover sua reputação de sensibilidade. Você não é um garanhão. Você não é um matador. Todo esse lixo sobre gangsters do amor. Você é um estudante da disciplina. Não represente as palavras. As palavras morrem quando você as representa, elas murcham, e somos deixados sem nada a não ser com sua ambição.

Fale as palavras com a exata precisão com a qual você checaria uma lista da lavanderia. Não se torne emotivo sobre a renda da blusa. Não fique de pau duro quando você diz calcinhas. Não fique cheio de calafrios por causa da toalha. Os lençóis não deveriam provocar uma expressão sonhadora sobre os olhos. Não há necessidade de chorar no lenço. As meias estão lá não para te lembrar de estranhas e distantes viagens. É apenas a tua lavanderia. São apenas suas roupas. Não fique espiando através delas. Apenas as use.

O poema não é nada mais do que informação. É a Constituição de um país interno. Se você o declama e o explode com suas nobres intenções então você não é melhor que os políticos que você despreza. Você é apenas alguém balançando uma bandeira e fazendo o apelo mais barato para um certo tipo de patriotismo emocional. Pense nas palavras como ciência, não como arte. Elas são um relatório. Você está falando diante de um encontro do Clube de Exploradores da National Geographic Society. Essas pessoas conhecem todos os riscos de se escalar montanhas. Eles te honram por tomar isso por certo. Se você enrubescer suas faces fazendo o contrário será um insulto à hospitalidade deles. Fale pra eles da altura da montanha, sobre o equipamento que você usou, seja específico sobre as superfícies e o tempo que tomou para escalá-la.. Não trabalhe com a audiência buscando arquejos e suspiros. Se você está buscando arquejos e suspiros não será de sua apreciação do evento mas da deles. Serão as estatísticas e não a voz trêmula ou o cortar do ar com suas mãos. Estará nos dados e na quieta organização de sua presença.

Evite o floreio. Não tenha medo de ser fraco. Não fique com medo de ficar cansado. Você fica bem quando está cansado. Você parece como se pudesse ir adiante pra sempre. Agora vem pros meus braços. Você é a imagem da minha beleza.”

do livro “Death of a Lady’s Man” de Leonard Cohen.

Leonard Cohen II

Puta merda! Teve um show em Londres, ano passado, com o velhinho (e charmosíssimo) Cohen alucinando como nunca no palco. Show de consagração, maravilhoso! Abaixo coloco apenas 1 música desse show e sua tradução, mas vale a pena olhar o show todo no youtube. Há relatos na web que esse foi um dos melhores shows do Cohen, com público chorando descompassadamente, sendo que “Hallellujah” teria sido o ponto alto da noite. Por isso escolhi essa música e também porque é a que melhor expressa a mistura dramática que Cohen faz entre a busca pelo amor e a busca pelo sagrado (ambos, aparentemente, sempre impossíveis de se alcançar, ou inexistentes). É como se Cohen estivesse sempre ajoelhado diante de suas mulheres como um judeu ajoelhado diante de seu Jeovah raivoso ou indiferente. Sugiro uma leitura atenta do texto, percebendo todas as referências ao texto bíblico, a situação amorosa do eu-lírico, o erotismo mesclado a veneração espiritual… uma das melhores composições de Cohen!

Pra entender melhor essa música é preciso sacar um pouco da história de David… aqui vai um minúsculo resumo pra se situar: David&lt aparece, inicialmente, na narrativa bíblica como tocador de harpa. Mandava muito bem o garoto, compondo músicas e poesias em louvor à deus (David compôs os salmos… lembre que o termo Aleluia aparece lá e significa “Louvem a Jah (abreviatura de Jahve)”).Tocava tão belamente que fazia as ovelhas adormecerem (era pastor), acalmava o rei de Israel, Saul, e até exorcisava os demônios dos possuídos. E você deve lembrar, também, que foi esse mesmo David que derrotou Golias e assim pôde se casar com a filha do rei e, depois, se tornar o rei de Israel. Certa noite o rei David, que tinha fama de “catador” (há boatos biblícos de que por ele teriam passado mais de 400 mulheres – olha aí o paralelo de novo com o Cohen e sua música!), se encantou por Betsabá (uma das mulheres mais gostosas do velho testamento). Ele tava em cima do telhado e a viu se banhando em seu quintal do jeito que o diabo… ah, vc sabe, né… (há uma discussão entre os devotos (dicussão a-la-Capitu) se Betsabá não teria se banhado ali de propósito para atiçar o desejo do rei David… mas, só deus mesmo sabe dos movimentos do coração de uma mulher, ou nem ele…). Como David era rei e podia tudo, forçou-a a se entregar e a conheceu no mais puro sentido bíblico. Bet engravidou, claro. Só que tinha um probleminha: ela era casada! Pra esconder a cagada David mexe uns pauzinhos e manda o marido de Bet, que era soldado, pra batalha mais sangrenta de toda a guerra de unificação de Israel. E pronto, o cara morre ali. Todos esses pecados foram desmascarados pelo profeta Natã, enviado direto do senhor. David se arrepende (demonstra arrependimento sincero) e passa a amar mais ainda a deus e sua justiça (mesmo tendo essa justiça ceifado a vida de seu filho, resultado do adultério com Betsabá).



“Hallellujah”

Now I’ve heard there was a secret chord
That David played, and it pleased the Lord
But you don’t really care for music, do you?
It goes like this
The fourth, the fifth
The minor fall, the major lift
The baffled king composing Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

Your faith was strong but you needed proof
You saw her bathing on the roof
Her beauty and the moonlight overthrew you
She tied you
To a kitchen chair
She broke your throne and she cut your hair
And from your lips she drew the Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

Well maybe there’s a god above
But for me all I’ve ever learned from love
Is how to shoot someone who outdrew you
And it’s not a cry that you hear tonight
It’s not some pilgrim who claims to see the light
It’s a cold and it’s a broken Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

Baby, I’ve been here before
I know this room and I’ve walked this floor
You see, I used to live alone before I knew you
I’ve seen your flag on the marble arch
But love is not a kind of victory march
It’s a cold and it’s a broken Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

Well there was a time when you let me know
What’s really going on below
But now you never even show it to me do you
But remember when I moved in you
And the holy dove was moving too
And every breath we drew was hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

I’ve done my best, i know it wasn’t much
I couldn’t feel, so I learned to touch
I’ve told the truth, I didn’t come (here to London) just to fool you
And even though
It all went wrong
I’ll stand before the Lord of Song
With nothing on my tongue but Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

Tradução – Aleluia

Agora eu soube que havia um acorde secreto
Que David tocava e agradava ao Senhor
Mas você realmente não liga para música, não é?
É assim:
A quarta, a quinta
A menor cai,  A maior sobe (além da conotação músical, pode ser traduzido como: uma ‘pequena queda’ e ‘uma grande restauração (erguida)’, como David que cai e depois restaura sua aliança com deus)
O rei perplexo compondo Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia

Sua fé era forte mas você precisou de provas
Você a viu tomando banho do telhado
A beleza dela e a luz do luar te arruinaram
Ela amarrou você
numa cadeira de cozinha
Ela destruiu seu trono e ela cortou seu cabelo (Sansão, cujos cabelos lhe davam poder, também cai em troca de uma paixão… mais um personagem que cai por uma mulher)
E de seus lábios ela extraiu a Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia

Bem, talvez exista um Deus lá em cima
Mas tudo que sempre aprendi do amor
Foi como atirar em alguém que te “desarmou” (ou traiu, ou alguém que sacou a arma primeiro… não há uma tradução direta para “outdrew”)
E não é um choro que você ouve esta noite
Não é um peregrino que clama pra ver a luz
É um frio e é um despedaçado Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia

Baby, eu já estive aqui antes
Eu conheço este quarto e andei neste chão
Eu costumava viver sozinho antes de te conhecer
E eu vi sua bandeira no arco de mármore
Mas o amor não é uma Marcha da Vitória  (lembre que David unifica Israel pela guerra, em nome do senhor!)
É um frio e despedaçado Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia

Bem, houve um tempo em que você me deixava saber
O que realmente se pasava aí abaixo (por baixo, dentro)
Mas agora você nunca nem mesmo me mostra, não é?
Mas se lembre de quando eu me movia em você (me instalei em você)
E a pomba sagrada (espírito santo)  também se movia em você
E cada respiração exalada era Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia

Eu fiz o meu melhor, não foi muito
Eu não podia sentir, então aprendi a tocar
Eu disse a verdade, eu não vim te enganar
E mesmo assim
Deu tudo errado
Eu vou ficar diante do Senhor da Música
Sem nada na minha língua a não ser Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia

Leonard Cohen I

Conheci o canadense Leonard Cohen pelo meu amigo-poeta Cássio (que aliás me apresentou um monte de coisas legais, dos Beats ao Belchior – o Dylan brasileiro). Conheci primeiro a música. É sempre estranho o primeiro contato com a música do Cohen: sua voz grave (em grande medida por causa do cigarro) numa melancolia sepucral cantando músicas que mais lembram, como já disse Dylan, orações, ou cânticos de pastores-perdidos-na-vida, falando de seus amores como quem se dirige ao sagrado. Ouvindo mais fui percebendo a qualidade das letras (poesia pura) e fui entrando em seu mood (aquela história de Ler-o-Autor que disse no post anterior). Percebi que ele deveria ser, antes de tudo, poeta. Fui atrás e dito-e-feito: já tinha escrito romances e muita poesia, mas resolveu ser cantor porque queria que sua poesia chegasse a mais gente. E conseguiu! Chegou até aqui, em Campinas, nos meus ouvidos!

Como é acima de tudo poeta, há pouca diferença entre as letras de suas músicas e poesias. Apesar de ter uma escrita muito próxima a pegada beatnik, os beats-famosos (ginsberg, kerouac etc) não gostavam do Cohen (dizem que é porque ele se vestia muito bem, sempre de terno). Então Cohen ficou meio a parte. Sua poesia tem uma mistura louca de zen-budismo (viveu uns 5 anos num mosteiro) com temas do judaísmo, tudo isso sobre o prisma da vida moderna e de suas paixões, o eixo em torno do qual parece que tudo gira, a mulher e seu apaixonamento.
Tô com o livro “Stranger Music”, um taludão com compilação de letras de música e poesia, tudo em inglês. Tava feliz pq achei que iria fazer traduções inéditas aqui, mas descobri que tem uma antologia do Cohen em português: “Atrás das linhas inimigas de meu amor”. Tudo bem, sigo traduzindo…

MARITA

Marita
por favor me ache
eu já tenho quase 30

A RAZÃO PORQUE ESCREVO

A razão porque escrevo
é pra fazer alguma coisa
tão bonita como você é
Quando estou com você
Eu quero ser o tipo de herói
que eu queria ser
quando eu tinha sete anos
um homem perfeito
que mata

VOCÊ NÃO TEM QUE ME AMAR

Você não tem que me amar
só porque
você é todas as mulheres
que eu sempre quis
Eu nasci pra te seguir
toda noite
enquanto eu sou ainda
os vários homens que te amam
Eu te conheci numa mesa.
eu tive tua palma entre minhas mãos
num taxi solene.
Eu acordei sozinho
minha mão em sua ausência
no Hotel Disciplina.
Eu escrevi todas estas canções pra você
Eu queimei velas vermelhas e pretas
moldadas como um homem e uma mulher
Eu me casei com a fumaça
de duas pirâmides de sândalo
Eu orei por você
eu orei pra que você me amasse

e pra que você não me amasse