Amantes go home!


AMANTES GO HOME!
(Mario Benedetti, trad. Jeff Vasques)

Agora que comecei o dia
voltando a teu olhar
e me encontraste bem
e te encontrei mais linda.

Agora que por fim
está bastante claro
onde estás e onde estou.

Sei pela primeira vez
que terei forças
para construir contigo
uma amizade tão legal,
que do vizinho
território do amor,
esse desesperado,
começarão a nos olhar
com inveja,
e acabarão organizando
excursões
para nos perguntar
como fizemos.

Não te rendas

nao se renda

NÃO TE RENDAS
(Mario Benedetti, Uruguai, 1920-2009)

Não te rendas, ainda é tempo
de alcançar e começar de novo,
aceitar tuas sombras,
enterrar teus medos,
liberar o lastro,
retomar o vôo.
Não te rendas que a vida é isso,
continuar a viajem,
perseguir teus sonhos,
destravar o tempo,
correr os escombros,
e destapar o céu.
Não te rendas, por favor não cedas,
ainda que o frio queime,
ainda que o medo morda,
ainda que o sol se esconda,
e se cale o vento,
ainda há fogo em tua alma
ainda há vida em teus sonhos.
Porque a vida é tua e teu também o desejo
porque o tens desejado e porque te quero
porque existe o vinho e o amor, é certo.
Porque não há feridas que não cure o tempo.
Abrir as portas,
tirar as trancas,
abandonar as muralhas que te protegeram,
viver a vida e aceitar o desafio,
recuperar o riso,
ensaiar um canto,
baixar a guarda e estender as mãos
despregar as asas
e tentar de novo,
celebrar a vida e retomar os céus.
Não te rendas, por favor não cedas,
Ainda que o frio queime,
ainda que o medo morda,
ainda que o sol se ponha e se cale o vento,
ainda há fogo em tua alma,
ainda há vida em teus sonhos
Porque cada dia é um começo novo,
porque esta é a hora e o melhor momento.
Porque não estás sozinho, porque eu te amo.

(tradução de Jeff Vasques)

Um painosso latinoamericano

UM PAINOSSO LATINOAMERICANO
(Mario Benedetti, Uruguai, 1920-2009)

Pai nosso que estais nos céus
com as andorinhas e os mísseis
quero que volte antes que se esqueça
como se chega ao sul do Rio Grande
Pai nosso que estais no exílio
quase nunca te lembras dos meus
de todo modo onde quer que estejas
santificado seja teu nome
não quem santificam em teu nome
fechando um olho para não ver as unhas
sujas da miséria
em agosto de mil novecentos e sessenta
já não serve te pedir
venha a nós o teu reino
porque teu reino também está aqui embaixo
metido nos rancores e no medo
nas vacilações e na sujeira
na desilusão e na modorra
nesta ânsia de te ver apesar de tudo
quando falaste do rico
da agulha e do camelo
e votamos todos em você
por unanimidade para a Glória
também alçou sua mão o índio silencioso
que te respetaiva mas resistia
a pensar seja feita tua vontade
no entanto uma vez a cada tanto
tua vontade se mistura com a minha
a domina
a acende
a duplica
mais árduo é conhecer qual é minha vontade
quando creio de verdade no que digo crer
assim em tua onipresença como em minha solidão
asim na terra como no céu
sempre
estarei mais seguro da terra que piso
que do céu intratável que me ignora
mas quem sabe
não vou decidir
que teu poder se faça ou se desfaça
tua vontade igual se está fazendo no vento
nos Andes de neve
no pássaro que fecunda a pássara
nos chanceleres que murmuram yes sir
em cada mão que se converte em punho
claro não estou seguro se me agrada o estilo
que tua vontade escolhe para fazer-se
isso digo com irreverência e gratidão
dois emblemas que logo serão a mesma coisa
isso digo sobretudo pensando no pão nosso
de cada dia e de cada pedacinho de dia
ontem nos tomaste
nos dê hoje
ou ao menos o direito de nos darmos nosso pão
não somente o que era símbolo de Algo
mas o de miolo e casca
o pão nosso
já que nos sobra poucas esperanças e dúvidas
perdoa se podes nossas dúvidas
mas não nos perdoe a esperança
não nos perdoe nunca nossos créditos
o mais tardar amanhã
saldemos a cobrar os fajutos
tangíveis e sorridentes foragidos
aos que têm “garras para a arpa”
e um panamericano temor com que se enxugam
a última cuspida que escorre de seu rosto
pouco importa que nossos credores perdoem
assim como nós
uma vez
por erro
perdoamos a nossos devedores
todavia
nos devem como um século
de insônias e porrete
como três mil kilometros de injúrias
como vinte medalhas a Somoza
como uma só Guatemala morta
não nos deixe cair na tentação
de esquecer ou vender este passado
ou arrendar um só hectar de seu esquecimento
agora que é a hora de saber quem somos
e vão cruzar o rio
o dólar e seu amor contra-reembolso
nos arranque da alma o último mendigo
e nos livre de todo mal de consciência
amém.

(Tradução de Jeff Vasques | Mais poesias de Benedetti aqui: http://eupassarin.wordpress.com/tag/mario-benedetti/)

Estados de ânimo


benedetti
Tradução de mais dois poemas de Benedetti… engraçado pensar que antigamente não gostava da poesia dele… e agora não paro de ler… 😉

ESTADOS DE ÂNIMO (Mário Benedetti)

As vezes me sinto
como uma águia no ar
(de uma canção de Pablo Milanés)

Umas vezes me sinto
como pobre colina
e outras como montanha
dentre cumes repetida.

Umas vezes me sinto
como um escarpado
e em outras como um céu
azul mas distante.

Às vezes se é
manancial entre rochas
e outras vezes uma árvore
com as últimas folhas.
Mas hoje me sinto apenas
como lagoa insone
com um embarcadouro
já sem embarcações
uma lagoa verde
imóvel e paciente
como suas algas
seus musgos e seus peixes,
sereno em minha confiança
confiando que em uma tarde
te aproximes e te olhes,
te olhes ao olhar-me.

ENTRE SEMPRE E JAMAIS (Mario Benedetti)

Entre sempre e jamais
o rumo o mundo oscilam
e já que amor e ódio
nos voltam categóricos
ponhamos etiquetas
de rotina e comparação

-jamais voltarei a te ver
-unidos para sempre
-não morrerão jamais
-sempre e quando me admitam
-jamais do jamais
-(e até a fé dialética
de) por sempre jamais
-etcétera etcétera

de acordo
no entanto
que alguém sempre abre um futuro
e alguém jamais se faz um abismo
meu sempre pode ser
jamais de outros tantos

sempre é um planalto
com borda com final
jamais é uma escura
caverna de impossíveis
e no entanto às vezes
nos ajuda um indício

que cada sempre leva
seu osso de jamais
que os jamais têm
arroubos de sempres

assim
incansavelmente
insubornavelmente
entre sempre e jamais
flui a vida insone
passam os grandes olhos
abertos da vida.

Assunção de ti


Tiersen para ouvir enquanto lê o poema de Benedetti que traduzi…

Assunção de ti (Mario Benedetti)

Quem acreditaria que falava
sozinho no ar, oculto,
teu olhar.
Quem acreditaria essa terrível
ocasião de nascer posta ao alcance
de minha sorte e meus olhos,
E que tu e eu iríamos, despojados
de todo bem, de todo mal, de tudo,
nos prender no mesmo silêncio,
nos inclinar sobre a mesma fonte
para nos ver e nos ver
mutuamente espiados no fundo,
tremendo desde a água,
descobrindo, pretendendo alcançar
quem eras tu detrás dessa cortina,
quem era eu detrás de mim.
E todavia não vimos nada.
Espero que alguém venha, inexorável,
sempre temo e espero,
e que acabe por nos nomear em um signo,
por nos situar em alguma estação
por nos deixar ali, como dois gritos
de assombro.
Mas nunca será. Tu não és essa,
eu não sou este, esses, os que fomos
antes de sermos nós.

Eras si mas agora
soas um pouco a mim.
Era si mas agora
venho um pouco de ti.
Não demasiado, somente um toque,
acaso um leve traço familiar,
mas que force a todos a nos abarcar
a ti e a mim quando nos pensem sós.

2
Chegamos ao crepúsculo neutro
onde o dia e a noite se fundem e se igualam.
Ninguém poderá esquecer este descanso.
Passa sobre minhas pálpebras o céu fácil
a deixar-me os olhos vazios de cidade.
Não penses agora no tempo de agulhas,
no tempo de pobres desesperos.
Agora só existe o anseio desnudo,
o sol que se desprende de suas nuvens de pranto,
teu rosto que se interna noite adentro
até somente ser voz e rumor de sorriso.

3
Podes querer a alvorada
quando ames.
Podes
vir a reclamar-te como és.
Conservei intacta tua paisagem.
A deixarei em tuas mãos
quando estas cheguem, como sempre,
anunciando-te.
Podes
vir a reclamar-te como eras.
Ainda que já não sejas tu.
Ainda que minha voz te espere
só em seu azar
queimando
e teu sonho seja isso e muito mais.
Podes amar na alvorada
quando queiras.
Minha solidão aprendeu a te ostentar.
Esta noite, outra noite
tu estarás
e voltará a gemer o tempo giratório
e os lábios dirão
esta paz agora, esta paz agora.
Agora pode vir a reclamar-te,
penetrar em teus lençóis de alegre angústia,
reconhecer teu tíbio coração sem desculpas,
os quadros persuadidos,
te saber aqui.
Haverá para viver qualquer fuga
e o momento da espuma e do sol
que aqui permaneceram.
Haverá para aprender outra piedade
e o momento do sonho e do amor
que aqui permaneceram.
Esta noite, outra noite
tu estarás,
tíbia estarás ao alcance de meus olhos,
longe já da ausência que não nos pertence.
Conservei intacta tua paisagem
mas não sei até onde este intacto sem ti,
sem que tu lhe prometas horizontes de névoa,
sem que tu lhe reclames sua janela de areia.
Podes querer a alvorada quando ames.
Deves vir a reclamar-te como eras.
Ainda que já não sejas tu,
ainda que contigo tragas
dor e outros milagres.
Ainda que sejas outro rosto
de teu céu até mim.

Por que cantamos

Por que cantamos – Mario Benedetti

Se cada hora vem com sua morte
se o tempo é um covil de ladrões
os ares já não são tão bons ares
e a vida é nada mais que um alvo móvel

você perguntará por que cantamos

se nossos bravos ficam sem abraço
a pátria está morrendo de tristeza
e o coração do homem se fez cacos
antes mesmo de explodir a vergonha

você perguntará por que cantamos

se estamos longe como um horizonte
se lá ficaram as árvores e céu
se cada noite é sempre alguma ausência
e cada despertar um desencontro

você perguntará por que cantamos

cantamos porque o rio esta soando
e quando soa o rio / soa o rio
cantamos porque o cruel não tem nome
embora tenha nome seu destino

cantamos pela infância e porque tudo
e porque algum futuro e porque o povo
cantamos porque os sobreviventes
e nossos mortos querem que cantemos

cantamos porque o grito só não basta
e já não basta o pranto nem a raiva
cantamos porque cremos nessa gente
e porque venceremos a derrota

cantamos porque o sol nos reconhece
e porque o campo cheira a primavera
e porque nesse talo e lá no fruto
cada pergunta tem a sua resposta

cantamos porque chove sobre o sulco
e somos militantes desta vida
e porque não podemos nem queremos
deixar que a canção se torne cinzas.

Sou um caso perdido


Sou um Caso Perdido – Mario Benedetti

Por fim um crítico sagaz revelou
(eu já sabia que iam descobrir)
que nos meus contos sou parcial
e tangencialmente apela
que assuma a neutralidade
como qualquer intelectual que se respeite

creio que tem razão
sou parcial
disto não tem dúvida
mais ainda eu diria que um parcial irrecuperável
caso perdido enfim
já que por mais esforço que faça
nunca poderei chegar a ser neutro
em vários países deste continente
especialistas destacados
fizeram o possível e o impossível
para curar-me da parcialidade
por exemplo na biblioteca nacional do meu país
ordenaram o expurgo parcial
dos meus livros parciais
na Argentina me deram quarenta e oito horas
(e senão me matavam) para que me fosse
com minha parcialidade nos ombros
por último no peru isolaram minha parcialidade
e a mim me deportaram
de ter sido neutro
não teria necessitado
essas terapias intensivas
porém que se vai fazer
sou parcial
incuravelmente parcial
e mesmo que possa soar um pouco estranho
totalmente
parcial

já sei
isso significa que não poderia aspirar
a tantíssimas honras e reputações
e preces e dignidades
que o mundo reserva para os intelectuais
que se respeitam
quer dizer para os neutros
com um agravante
como cada vez existem menos neutros
as distinções se dividem
entre pouquíssimos

além disso e a partir
das minhas confessas limitações
devo reconhecer que a esses poucos neutros
tenho certa admiração
ou melhor lhes reservo certo assombro
já que na realidade é necessário uma têmpera de aço
para se manter neutro diante de episódios como
girón
tlatelolco
trelew
pando
la moneda

é claro que a gente
e talvez seja isto o que o crítico queria me dizer
poderia ser parcial na vida privada
e neutro nas belas-letras
digamos indignar-se contra Pinochet
durante a insônia
e escrever contos diurnos
sobre a atlântida

não é má ideia
e lógico
tem a vantagem
de que por um lado
a gente tem conflitos de consciência
e isso sempre representa
um bom nutrimento para a arte
e por outro não deixa flancos para que o fustigue
a imprensa burguesa e/ou o neutro

não é má ideia
mas
já me vejo descobrindo ou imaginando
no continente submerso
a existência de oprimidos e opressores
parciais e neutros
torturados e verdugos
ou seja a mesma confusão
cuba sim ianques não
dos continentes não submergidos

de modo que
como parece que não tenho remédio
e estou definitivamente perdido
para a frutífera neutralidade
o mais provável é que continue escrevendo
contos não neutros
e poemas e ensaios e canções e novelas não neutras
mas aviso que será assim
mesmo que não tratem de torturas e prisões
ou outros tópicos que ao que parece
tornam-se insuportáveis para os neutros

será assim mesmo que tratem de borboletas e nuvens
e duendes e peixinhos

“Estes poetas são meus”


Poeta-lutador uruguaio Ibero Gutierrez


Traduzo este poema de Mario Benedetti em homenagem ao poeta-lutador uruguaio Ibero Gutierrez e vários outros poetas-lutadores que assumiram a árdua tarefa de ser artista-em-luta. Dedido este poema também a poeta colombiana Angye Gaona, que vem sendo perseguida pelo governo colombiano por crimes que não cometeu. Aproveito para agradecer a irmá de Ibero, Sara Gutierrez, que me brindou com material muito bonito sobre a obra de Ibero (que era artista plástico também). Como já disse Pedro Tierra no belo poema “Há um lugar na barricada”: “Se entre os companheiros ainda / há quem pergunte a razão / dos poetas, // encontra, primeiro, teu lugar na / barricada, depois, entre os combatentes,/ aponta / o rosto enérgico de tua poesia”. O caminho dos poetas-lutadores e dos artistas-em-luta, no geral, não é fácil até porque muitas vezes são mal vistos pelos próprios companheiros de luta… mas esses são essenciais tanto pra compreensão concreta e profunda do espírito de uma época, quanto pra vislumbrar o novo…

ESTES POETAS SÃO MEUS – MARIO BENEDETTI

“Estes poetas são meus”
Carlos Drummond de Andrade

Roque leonel ibero rigoberto
ricardo paco otto-rené javier
quantas vezes e em quantas reuniões e assembléias
os terão (mal) tratado de pequeno-burgueses
terão ficado sozinhos com seu antigo costume
de raciocionar / ou a sós com o rigor científico
a sós com um impulso moral / a sós em uma
solidão não querida nem buscada
a sós com seus amores ao próximo à próxima
com a preocupação de que os segregavam
sozinhos para entender tudo e a todos

quantas vezes e em quantas esperanças ou rotas
terão andado tateando a relâmpagos
deixando repousar o tempo da poesia
eles infatigáveis rebentando-se
sabendo que não eram os pequenos burgueses
que os rudes companheiros diziam

que não eram os frouxos os livrescos
olhando-se no espelho até desentranhá-lo
como narcisos nunca / olhando-se autocríticos
jamais desalentados / tratando de encontrar
o resquício a brecha o abrigo o mérito
de ser como os outros ou algo assim

quantas vezes e em quantos cochilos insones
terão considerado a pena ou o atalho
de apagar a poesia / de apagar-se
como poetas / apagar o modesto delírio
e juntar as palavras voláteis
e transformá-las por outras as concretas
e revolucionar as vinte e quatro horas
e por-se no esquema e abandonar os tropos
e andar ao mesmo passo / nadar o mesmo rio
e fabricar assim a infundada esperança
de serem iguais aos outros / serem
igualmente julgados e medidos

quantas vezes e em quantas lagoas e memórias
terão querido ser / luz vermelha / terra verde
e compartilhar a luta em pedacinhos
aprender sangue a sangue o alfabeto
qual se não o soubessem / desde baixo
arder na bondade elementar
sentir a fúria como um calafrio
continuar o amor sem os alertas
companheríssimos nas difíceis
joviais nas fáceis
igualmente medidos e julgados

mas um dia uma noite uma qualquercoisa
arriscaram o corpo a miséria os versos
souberam de repente que a lei era velha
que os suaves poetas ainda que se esgoelem
ainda que vençam o vento e a lua
dispõem de uma só ocasião decisiva
a fim de que os rudes queridos companheiros
admitam que nem sempre / mas às vezes /
esses da palavra esses de calma em germe
podem ser valorosos como um sonho
leais como um rio
fortes como um imã
o grave é que sua única ocasião
é morrer
uma forma talvez de desmorrer-se
defendendo uma causa pela que outros
não precisariam morrer para serem aceitos
para serem abraçados e acreditados.

quantas vezes e em quantas substancias e cegueiras
terão insistido na candura
e buscado argumentos com raiva / resistido
para apontar o inimigo / o chumbo
que vinha no ar aniquilando
matando desmintindo desabrigando ardendo
e terão desesperado a esperança
de encurralar a confiança ou de inspirá-la

e no entanto / logo / em um segundo
em uma eucaristia de tiros
na revelação das explosões
na tortura sem promessa e última
em um instante breve como um trago
sem argumentos / sem palavras / ternos
tristíssimos finalmente e desapegados
nesse instante que não tem fim
desfeitos e refeitos de coragem
explodidos de fé / mortos de pena
deixaram de aspirar quando o lampejo
quando o sabor final e o vislumbre
quando mudaram a tênue amargura
de pequeno burguês pela de mártir.

Poesia Trunca


Estou aqui com um sorriso bobo no rosto, abraçado a dois livros fantásticos que chegaram hoje, encomendas que fiz pela estante virtual. Um deles é o “Camarim de Prisioneiro”, 2o e último livro do fantástico poeta-guerrilheiro brasileiro Alex Polari. O livro é da 1a edição de 1980 e veio com dedicatória irreverente, marca do autor: “Pra Daniel e pra Cida com um abraço sem imaginação para dedicatórias” =)

E o segundo livro, motivo deste post, é o “Poesia Trunca” uma coletânea de poetas revolucionários da América Latina organizada por Mario Benedetti. Há algum tempo estava atrás desse livro, porque quero ainda este ano publicar uma antologia semelhante a partir de traduções de poetas-lutadores que venho fazendo há algum tempo… portanto, ter acesso a seleção do Benedetti seria muito importante! E finalmente encontrei o livro disponível na Estante Virtual, um único exemplar! Comprei no ato! E pra minha alegria desmedida, o livro veio com dedicatória do próprio punho do Benedetti para o Ignácio de Loyola Brandão!!!! =)

A coletânea é de 77 e foi impresso pela Casa das Américas, importante organização cultural cubana que vem até hoje promovendo a unidade da cultura latinoamericana. Ou seja, o livro veio de cuba, passou pela mão de Benedetti que o deu para Ignácio de Loyola que por algum motivo se desfez dele e agora está em boas mãos! =)

Eis a lista de poetas revolucionários ou revolucionários poetas presentes na coletânea: Che Guevara, Juan Oscar Alvarado, Otto René Castillo, Edwin Castro, Roque Dalton, Mónica Ertl, Argimiro Gabaldón, Raúl Gómez García, Agustín Gómez, Ibero Gutiérrez, Javier Heraud, Victor Jara, Rony Lescouflair, Rigoberto López Pérez, Carlos Marighella, Ricardo Morales, Roberto Obregón,. Frank País, Néstor Paz Zamora, Leonel Rugama, Aldo Sá Brito, Luiz Saíz, Sergio Saíz, Jorge Salerno, Edgardo Tello, Francisco Urondo, Rita Valdivia, Jacques Viau.

Eu não conheço diversos desses poetas, o que me dá um ânimo fantástico de mergulhar na leitura! Certamente, se Benedetti tivesse conhecido à época a poesia de Alex Polari (das melhores que já li de todos os poetas-lutadores que venho conhecendo) teria certamente o incluído nessa coletânea.

Segue abaixo a tradução de alguns trechos da interessante apresentação do livro feita pelo próprio Benedetti. Também descobri que Benedetti gravou um DVD em que lê diversas poesias desse livro. Para quem quiser baixá-lo, basta clicar aqui.

PRÓLOGO – POESIA TRUNCA – MARIO BENEDETTI

Esta é uma antologia muito particular, já que inclui vinte e oito poetas latinoamericanos que deram suas vidas pela causa revolucionaria. A maioria deles morreu em plena juventude (alguns saíam apenas da adolescência), e aqueles poucos que já eram homens maduros, estiveram tão consubstanciados com o espírito libertário e com os afãs de justiça da juventude, que a decisão de incluí-los neste volume não só não contradiz, senão afirma a intenção de homenagem ao XI Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes que ocorrerá em Havana em 1978.

Alguns destes poetas revolucionários morreram em combate ou cumprindo uma missão insurrecional; outros, na prisão ou na tortura; houve aqueles que desapareceram em alguma emboscada e nunca mais se soube deles; outros, cujos cadáveres apareceram crivados ou mutilados por esqudrões da morte ou comandos paramilitares; alguns foram assassinados quando estavam desarmados ou ainda quando dormiam. Todos eram militantes revolucionários e, portanto, haviam assumido seu compromisso, aceitando o risco de morrer pela causa e pela pátria que defendiam. Quiçá uns foram revolucionários que, além de tudo, escreviam versos, enquanto outros eram poetas que, além de tudo, lutavam pela revolução. Aqui, no entanto, estão todos juntos, porque quando se entrega a vida, as outras matizes e prioridades se diluem nesse grande holocausto.

O volume inclui poetas da Argentina, Bolívia, Brasil, Cuba, Chile, El Salvador, Guatemala, Haiti, Nicarágua, Perú, República Dominicana, Uruguai e Venezuela. (…)

Cada vez fica mais claro que se o escritor abandona sua atitude contemplativa para jogar-se por seu povo, ou seja, se sente-se efetivamente parte do mesmo, também correrá os riscos que o povo corre em todas suas lutas. Os países latinoamericanos em que foram tomadas as mais duras medidas contra a cultura, são precisamente aqueles onde essa mesma cultura, por seu desenvolvimento progressivo, por seu labor persuasivo, por sua dimensão massiva, foi adquirindo uma função de esclarecimento ideológico e de mobilização política contra a estrutura capitalista.

Mariano Rodríguez, José M. Rodríguez (Pirole), Haydée Santamaría (fundadora da Casa das Américas), Mario Benedetti. [foto de Pedro Meyer ©]

Enquanto a cultura é um luxo, um elemento decorativa – ainda que às vezes rebelde – da burguesia, é tolerada por diversos tipos de repressão, tantos os de tipo nacional como os de assessoria estrangeira. Inclusive cai bem que os salões burgueses acolham escritores e artistas conhecidos, seja para exibí-los como personagens insólitos, e outras vezes como simples púcaros ou floreadores. Mas quando a cultura começa a chegar paulatinamente a cada vez mais setores do povo, a sensibilizar a opinião pública, a desmascarar hipocrisias, a assinalar responsáveis, a mobilizar rebeldias, ou seja, quando a cultura adquire uma vigência massiva e esclarecedora, então as forças regressivas arremetem contra ela com a mesma ferocidade que contra qualquer outro setor que se alce contra a oligarquia e contra o poder colonial.

O imperialismo sabe melhor que ninguém (as vezes melhor que o próprio artista) que se bem a arte por si só não derruba tiranias nem muda as estruturas, tem sido, não obstante, através da história um elemento nada desprezível em sua capacidade de converter em imagens, em cor, em pensamento certeiro, certos princípios regentes dos povos. Quando as mais obscuras forças da reação chegam a esse convencimento em determinado momento de uma transformação possível, então não vacilam em pagar um evidente preço político en sua arremetida contra os criadores e as formas de arte.

(…)

Ainda que limitado a um só gênero (a poesia), este volume é também uma mostra dessa busca (busca de nossa própria expressão), e um testemunho acerca do fervor com que esses poetas a levaram a cabo. No entanto, convém esclarecer que a política não é o único tema que estes poetas revolucionários alegeram. Algo que certa vez expressei com respeito a poesia de Ibero Gutierrez (totalmente inédita no momento em que é massacrado pela Esquadrão da Morte, em Montevideu), poderia ser estendido aos demais poetas: “Só uma parte (e não a maior) de seus poemas, são políticos. O resto são poemas de amor, alguns deles estupendos, ou observações líricas ante certas perplexidades próprias ou alheias, ou metáforicos diálogos com seu complicado ambiente […] Essa bondade, essa preocupação pelo próximo, essa esperança incólume, que estão presentes nos poemas, são uma comovedora mostra da riqueza interior de um revolucionário. Nós mesmos às vezes perdemos de vista esse nível humano, que não por humano deixa de ser político senão que é mais político que nunca.”

(…)

Por todo o exposto, esta não é uma antologia tradicional. A chamamos de Poesia Truncada (“Poesia Trunca”, pode-se também traduzir por Poesia Mutilada, Interrompida…) porque todos esses poetas revolucionários e revolucionários poetas estavam em plena produção, uns gerando poesia, outros gerando revolução, e outros mais, ambas as coisas de uma vez. É truncada, ainda, porque todos eles eram suficientemente jovens, ou juvenilmente maduros, como para que possamos considerá-los poetas em pleno desenvolvimento. A morte interrompe, parte essa evolução, mas não a rompe. A vida do poeta pode ser despedaçada, mas a obra, truncada mas intacta, fica, e ao final se converte em sua vida. E até pode seguir crescendo, sempre e quando novos jovens se acerquem dessa poesia interrompida, a envolvam com sua própria juventude, a continuem com sua própria vida em revolução. Oxalá que esta antologia facilite essa continuidade.

Um livro vermelho para Lênin



O poeta e guerrilheiro de El Salvador, Roque Dalton, e sua família

Roque Dalton é o poeta da américa-latina que mais admiro, tanto por sua disposição militante para a luta, quanto pela sua poesia de vanguarda. Já venho traduzindo poesias dele há algum tempo. Parte dela pode ser vista aqui. Tempos atrás, ganhei de uma querida amiga o livro “Un libro rojo para Lênin”, em que Dalton elabora uma de suas mais ousadas obras, uma colagem de poesias suas e fragmentos de outros pensadores. Esse livro é fruto de seu longo estudo sobre o pensamento do líder da revolução russa, Lênin. Infelizmente, o pensamento leniniano, após a falência da experiência russa, foi enormemente distorcido. Muitos ainda associam a Lênin violência, autoritarismo, irracionalismo. Desprezam que Lênin foi justamente o filósofo-lutador marxista que mais brilhantemente se debruçou sobre o processo de consciência, sobre o processo necessário de organização, sobre a democracia operária. Roque Dalton busca com seu “livro vermelho”, ao mesmo tempo, prestar homenagem a esse grande pensador, mas também desafiá-lo, buscando compreender como o pensamento de Lênin poderia se adaptar a realidade latina (que na época passava pelas guerrilhas). Dalton monta seu discurso, ao longo do livro, recortando trechos de outros discursos e os iluminando a partir de seu olhar. Por isso, uma colagem. Dalton consegue, ao mesmo tempo, elaborar uma obra de arte e elaborar um livro filosófico, reflexivo, de teses. Homenageia e desafia Lênin como Lênin, certamente, gostaria.

Estou decidido a traduzir esse livro para o português. Abaixo alguns poemas. Antes, um dos últimos poemas de Mario Benedetti (grande poeta uruguaio que faleceu em 2009), um inédito divulgado recentemente pelo jornal La Vanguardia. Interessante notar como em um de seus últimos poemas Benedetti menciona Dalton, um dos poetas que mais admirava.

“LIVROS”, POEMA INÉDITO DE MARIO BENEDETTI

Quero ficar no meio dos livros
vibrar com Roque Dalton com Vallejo e Quiroga
ser uma de suas páginas a mais inesquecível
e dali julgar o pobre mundo
não pretendo que ninguém me encaderne
quero pensar rusticamente
com as pupilas verdes da memória franca
no breviário da noite instável
meu abecedario dos sentimentos
sabe pousar em meus queridos nomes
me sento cômodo entre tantas folhas
com advérbios que são revelações
sílabas que me pedem um socorro
adjetivos que parecem joguetes
quero ficar no meio dos livros
neles aprendi a dar meus passos
a conviver com manhas* e sopros vitais
a compreender o que criaram outros
e a ser por fim este pouco que sou.”

* pode ser também: manhãs

ELEMENTOS (Roque Dalton)

A organização de vanguarda
nível de experiência e organização das massas
a análise de conjunto e dos detalhes
a conjuntura de auge
a audácia as armas a serenidade a tenacidade
a intransigência na estratégia
a flexibilidade na tática
a clareza nos princípios
a clandestinidade operativa
a localização do momento preciso
os motores do amor e do ódio
métodos meios e preparação adequados
técnica ciência e arte
o conhecimento de toda a experiência anterior
mais e mais audácia
ofensiva constante
a concentração na direção principal
queimar as pontes e ao mesmo tempo
não jogar todo o jogo em uma só carta
máxima segurança só depois de aceitar
as últimas conseqüências
alianças uniões apoios neutralizações
planejamento global da confrontação
marco mundial
nível moral de nossas forças
mais audácia
autocrítica constante
e mais audácia

AS FORMOSAS CAIXINHAS (Roque Dalton)

Não nos negamos a nos auto-batizarmos
como marxistas-leninistas-maotsetunguistas-hochiminhistas-
kimilsunguistas-fidelistas-guevaristas.

Apenas
pensamos em dar os primeiros passos.

Porém
que orgulho interior!,
que imensa alegria,
se amanhã,
algum dia,
aqueles que não tenham medo das palavras
nos qualificarem assim!

RETRATO (A) (Roque Dalton)

“Como você, como eu, foi semelhante a todos.
Somente, talvez, bem perto dos olhos,
o traço do pensar lhe enrugava a pele
mais que em nós
e eram talvez mais firmes
e zombeteiros seus lábios.”

Maiakovsky, em V.I. Lenin.

RETRATO (D) (Roque Dalton)

(A idade de Lênin no aniversário de seu centenário)

Quando morreu tinha
54 anos de idade física.
E (unanimemente aceito como computável)
1924 anos de idade (sabedoria) mental.

Hoje (ainda que no mausoléu não aparente)
tem 100 anos de idade física.

E 1970 da outra.

AS ASPIRAÇÕES (MÍNIMAS E URGENTES) DE UM LENINISTA LATINOAMERICANO (Roque Dalton)

Aspiramos
(mas com nossa ação
não com nossos narizes)
à criação de um partido revolucionário de combate
que dirija as mais amplas massas do povo
como vanguarda da classe operária
real ou em potência
(as palavras “real ou em potência” se referem aqui
à classe operária não à vanguarda)
a uma estratégia tatificada
e a uma tática filha de uma estratégica
aspiramos
a honrosa inimizade dos oportunistas
a esvaziar as armas da crítica
e a carregá-las outra vez para disparar de novo
a exercer
a crítica das armas *
(depois de conseguir
construir
engraxar
manejar até a perfeição
e saber quando e contra quem usar
essas armas)
aspiramos dar três passos adiante **
para cada passo atrás
aspiramos nos curar de nossas doenças infantis ***
mas sem envelhecer
aspiramos a saúde juvenil perene
não a normal senilidade
e aspiramos
acima de todas as coisas
(por agora
mas também desde agora)
ao poder político em nossa nação
ao poder político
ao poder
ao poder

* Referência a famosa frase de Marx: “As armas da crítica não podem, de fato, substituir a crítica das armas; a força material tem de ser deposta por força material, mas a teoria também se converte em força material uma vez que se apossa dos homens.” (Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel)
** Referência ao famoso artigo de Lênin “Um passo adiante, dois passos atrás”.
*** Referência ao famoso texto de Lênin “Esquerdismo: doença infantil do comunismo”

RECORDA (Roque Dalton)

(tese)

Tu
que pensas que aos homens
se deve jugá-los pelo que fazem
e não pelo que dizem
pensa bem
porém
recorda
que há alguns homens
que o que fazem
é dizer QUE FAZER*.

* Um dos livros mais célebres de Lênin, onde elabora, de forma inicial, sua teoria de organização, sua teoria do partido revolucionário, chama-se: “Que fazer?”

Idea Vilariño (Uruguai, 1920-2009)


Eu estava chateado por só traduzir poetas revolucionários… me decidi por procurar poetisas revolucionárias =) Encontrei de pronto Idea Vilariño, uma das maiores expressões poéticas do Uruguai. Foi da famosa geração literária uruguaia de 45 ao lado de Mario Benedetti (de quem era grande amiga), Juan Carlos Onetti (que foi seu amante por alguns anos), Emir Rodriguez Monegal…

Filha de um poeta anarquista, com irmãos chamados Alma, Númen, Poema e Azul, e com o próprio nome de Idéia (Idea), não é de surpreender o caminho libertário trilhado por Vilariño. Idea converteu-se em “mito literário” de sua geração, tão intensa quanto reservada, tão apaixonada quanto solitária, autora de versos amargos e desolados, dona duma personalidade e posição diante da vida e da literatura sui generis. Rejeitou todos os prêmios e nomeações que recebeu, não era afeita a publicidade e às luzes próprias dos círculos literários burgueses. Raramente concedeu entrevistas. Apesar disso, ganhou vários prêmios internacionais e sua poesia se encontra traduzida em diversas línguas.

Sua poesia é marcada por versos curtos, quase sem rima ou métricas fixas, pela bela rítmica e simplicidade. Já faz parte do dia-a-dia do povo uruguaio, tendo vários de seus poemas musicados. Idea assume firme compromisso com a causa do socialismo e da libertação nacional. A partir de 1948, escreve no semanário Marcha, que reunia o melhor da intelectualidade antiimperialista uruguaia. Rompe com a revista em 1955 porque um verso seu (“um lenço com sangue, sêmen, lágrimas”) é censurado pelo mais puro moralismo de esquerda!!! Retorna a Marcha em 1967, em razão do acirramento da luta política no Uruguai, e fica até o fechamento pela ditadura em 1973. Após a queda do regime, em 1985, funda, junto com Benedetti e outros remanescentes de Marcha, o semanário Brecha, com o qual rompe em 1993 por divergências sobre Cuba (Idea apoiava incondicionalmente a revolução).

Além de sua poesia marcadamente engajada, Idea ficou muito conhecida por sua poesia de amor. Sua vida amorosa é profundamente marcada pelo turbulento envolvimento com o gigante da literatura uruguaia, Juan Carlos Onetti. Neste primeiro contato, selecionei mais poesias de amor, uma poesia sobre a morte do Che, e uma música do fantástico grupo Los Olimareños feita a partir da poesia de Idea chamada “Ya me voy pa la guerrilla” (me desculpem, mas não consegui ouvir ainda com calma para por a letra da música… tampouco achei na internet). Também segue, ao final, uma curiosidade: uma carta de Mário Benedetti respondendo ao questionamento de Idea sobre a aceitação ou não do prêmio Guggenheim (EUA)…

COMPARAÇÃO

Na voz de Idea:

Como na praia virgem
dobra o vento
o leve junco verde que desenha
um delicado círculo na areia

assim em mim
te recordo.

SABES

Na voz de Idea:

Sabes
dissestes
nunca
fui tão feliz como esta noite.
Nunca. E isso me dissestes
no mesmo momento
em que eu decidia não te dizer
sabes
seguramente me engano
mas creio
que esta me parece
a noite mais bonita da minha vida.

O AMOR

Na voz de Idea:

Um pássaro me canta
e eu lhe canto
me gorjea ao ouvido
e lhe gorjeo
me fere e eu o sangro
me destroça
o quebro
me desfaz
o rompo
me ajuda o
levanto
pleno todo de paz
todo de guerra
todo de ódio de amor
e solto
geme sua voz e gemo
ri e rio
e me olha e o olho
me diz e eu lhe digo
e me ama e o amo
– não se trata de amor
damos a vida-
e me pede e lhe peço
e me vence e o venço
e me acaba e o acabo.

A NOITE

Na voz de Idea:

A noite não era o sonho
era sua boca
era seu bonito corpo despojado
de seus gestos inúteis
era sua pálida cara olhando-me na sombra.
A noite era sua boca
sua força e sua paixão
era seus olhos sérios
essas pedras de sombra
caindo-se em meus olhos
e era seu amor em mim
invadindo tão lenta
tão misteriosamente.

DIZER NÃO

Dizer não
dizer não
atar-me ao mastro
mas
desejando que o vento o derrube
que a sereia suba e com os dentes
corte as cordas e me arraste ao fundo
dizendo não não não
mas a seguindo.

QUASE TODAS AS VEZES

Conheço tua ternura
como a mesma palma de minha mão.
Às vezes entre sonhos a recordo
como se já a houvesse perdido alguma vez.
Quase todas as noites
quase todas as vezes que adormeço
nesse mesmo instante
você com teu grave abraço me confina
me rodeia
me envolve na morna caverna de teu sonho
e apoias minha cabeça sobre teu ombro.

DIGO QUE NÃO MORREU

(Tradução: Sonia Lanzillotte)

Digo que não morreu
eu não o creio
– não o deixaram ser visto pelo irmão
e tantas outras coisas –
e além disso
como ia morrer o Che
quando restava
tanta tarefa por fazer
quando tinha
que percorrer a América Latina
formoso como um raio
incendiando-a
como um raio de amor
destruindo e criando
destruindo e criando, como em Cuba. Como ia
morrer, o Che?
Como ia morrer? Mas essa foto atroz
aquela bota
como partia a alma aquela bota
a suja e norte-americana bota
mostrando a ferida com desprezo. Não tenho que acreditar.
Houve
tantas contradições
– não o deixaram ser visto pelo irmão –
e o deram por morto tantas vezes.
-Como ia morrer, o Che.
Ele muito menos
se ia deixar cercar nesse vale
ia sair em um descampado
ia se deixar
estar ali
a deixar
que lhe estraçalhe as pernas a metralhadora. Eu não vou
acreditar
ainda que chore Cuba
ainda que haja luto
em toda a América Latina. Não tenho que acreditar. Um dia
um belo dia se dirá… está no Brasil
ou se levantará na Colômbia ou Venezuela
a ajudar
a ajudar-nos
e nesse dia
uma onda de amor americano
moverá o continente
levantará o Che da América. Não creio que morreu
não posso crê-lo
e não vou crê-lo
ainda que o afirme o próprio Fidel Castro. Mas amigos
irmãos
não esquecer
não esquecer nunca o rosto desprezado
o coração mais sujo que essa bota
nem a mão vendida
lembrar-se do rosto e da mão
lembrar-se do nome
até que chegue o dia
e quando chegue
quando soe a hora
lembrar-se do nome e do rosto
desse tenente Prado*.

* Gary Prado Salmón: tenente que capturou Che

“YA ME VOY PA LA GUERRILLA” MUSICADO POR LOS OLIMAREÑOS


CARTA DE BENEDETTI À IDEA VILARIÑO

(Tradução: Henrique Júdice)

Madri, 2 de setembro de 1982

Querida Idea:
escrevo-lhe no único pedaço de papel que tenho à mão neste hotel de Madri. Faz dois dias que cheguei da Dinamarca (estive com Daniel (1) o Cantor) e amanhã parto rumo ao México. Luz (2) acaba de ler para mim, por telefone, sua carta-consulta, e aqui estou – procurando, como você me pede, ser absolutamente sincero em minha resposta. E ela não é fácil, dadas as circunstâncias atuais. Você sabe que, por volta de 65 ou 66, me ofereceram a Guggenheim (por indicação de Frasconi [3]) e eu a recusei. Antes, no entanto (em 59/60), havia aceito o convite do American Council para assistir peças de teatro nos Estados Unidos durante cinco meses. Essa viagem me transformou num anti-ianque vitalício. Desta forma, em minha própria história, constam um Sim e um Não. Essa aparente contradição se explica – creio – porque mudamos, e é provável que tenha podido decidir o Não de 65 em razão do que aprendi quando do Sim de 60. Sei de gente de esquerda (como Haroldo Conti (4) e, mais recentemente, Jorge Musto [5]) que recusou a Guggenheim, e sei de outras pessoas, também de esquerda (como Augusto Boal, além do já citado Frasconi), que a aceitou em diversas épocas sem que isso tenha debilitado sua militância. Talvez por isso, minha tendência atual é não ser esquemático quanto ao assunto, menos ainda nas atuais circunstâncias do Cone Sul. Creio que o essencial é como se sente cada um. Se alguém aceita isso a contrapelo de si mesmo, o resultado pode ser negativo; mas se encontra em si mesmo uma motivação legitima, provavelmente será bom. Não descarte, além do mais, a hipótese de que, apesar de tudo, te neguem o visto. No ano passado, a universidade e a ordem dos advogados de Porto Rico me convidaram para uma conferência e leitura de poemas e decidi aceitar, primeiro porque era Porto Rico e segundo porque os organizadores eram independentistas. No entanto, tudo ficou na estaca zero, pois o Departamento de Estado me negou o visto. A essa altura, você provavelmente deve estar pensando que ainda não te respondi. Mas a verdade é que, sinceramente, não posso ir além disso, pois eu tampouco sei claramente qual deve ser sua resposta. Se você me tivesse feito a pergunta em 1960, eu lhe diria que não, sem hesitar. Mas hoje, o conselho não pode ser tão taxativo, e creio que as razões que você menciona em sua carta são muito convincentes, e também é convincente o espaço que a aceitação abriria a seu próprio trabalho. Ou seja, retorno ao que disse antes: o essencial, para que tudo não se transforme em frustração, é o estado de ânimo, a disposição que permita superar as interpretações alheias e enfrentar os próprios escrúpulos. Dentro de aproximadamente 20 dias, estarei de volta; digo isso para o caso de que queiras escrever-me novamente. Não sei se sabes que, no fim de julho, morreu a mãe de Claribel (6). Certamente me encontrarei no México com ela e com Bud. Parece que estarão novamente em Mallorca no começo de outubro, pois já terminaram sua segunda etapa nica (7). Agora estou me dedicando a um novo livro de contos, mas ainda falta bastante. Lembranças a Jorge(8), beijos de Luz e um forte abraço de Mario.

NOTAS
(1) Daniel Viglietti, cantor e compositor uruguaio (Nota do Tradutor).
(2) Luz López Alegre, esposa de Benedetti (N do T).
(3) Antonio Frasconi (1919), pintor e gravador uruguaio. Foi chargista de Marcha (Nota de Brecha).
(4) Escritor argentino (1925-76) assassinado pela ditadura de Videla (N do T).
(5) Escritor e dramaturgo uruguaio nascido em 1927 (N do T).
(6) Claribel Alegría, a poeta salvadorenha, Bud é seu marido (Nota de Brecha).
(7) Diminutivo carinhoso de nicaraguense (N do T).
(8) Jorge Liberatti, marido de Idea (Nota de Brecha).

“Há poucas coisas tão ensurdecedoras como o silêncio!”



A frase título do post é do escritor uruguaio Mário Benedetti (1920-2009), um dos escritores latino-americanos mais conhecidos e lidos na atualidade. Mário Benedetti foi um escritor engajado, colaborou em um dos maiores semanários do mundo, “Marcha”, dirigido na época por Eduardo Galeano e que tinha como colaboradores os maiores escritores engajados do mundo, tais como Bertrand Russel, Júlio Cortazar, Simone Beauvoir, Darcy Ribeiro, Carlos Fuentes, etc. Viveu mais de 10 anos em exílio por causa da ditadura uruguaia.

“- Literatura comprometida?

– Mais de uma vez disse que o panfleto é um gênero tão legítimo como qualquer outro. Existem obras mestras do panfleto: Marx. Engels, Lenin, o Che, Fanon, Fidel têm verdadeiras obras mestras, mas a literatura panfletária é outra coisa, e não me entusiasma para nada… Falta saber o que passa com os artistas do exílio, como trabalha em cada um a nostalgia, o ódio, a apartação, como se afirma ou se debilita sua identidade nacional. Isto nos traz de novo a falar do papel do escritor.

Creio que não se deve exigir a priori que um artista assuma tal ou qual atitude: Primeiro deverá transformar-se como ser humano e depois essa transformação se refletirá em sua obra a posteriori. Quando um autor escreve sobre temas políticos sem que isso esteja respaldado por uma atitude consequente, sua obra soará oca. É como escrever poemas de amor sem estar enamorado, sem sentir o amor, e a política é também uma forma de amor. (Mário Benedetti)”

Abaixo segue um poema em homenagem ao Che (escrito assim que soube de seu assassinato); outro poema lindo sobre o companheirismo (obrigado, Poli, por me enviar!); um poema homenagem ao poeta e guerrilheiro salvadorenho Roque Dalton (que morreu “justiçado” pelos próprios companheiros de Partido, pois seu jeito irreverente e heterodoxo causava “suspeitas”; Roque era famoso por ter conseguido escapar de prisões mais de uma vez, mas não escapou, ironicamente, de seu próprios companheiros de luta) e por fim um poema sobre os “desaparecidos” pelas ditaduras… ao final, esse mesmo poema musicado por Daniel Viglietti (Benedetti declama o poema ao fundo!).

CONSTERNADOS, RAIVOSOS

Assim estamos
consternados
raivosos
ainda que esta morte seja
um dos absurdos previsíveis

dá vergonha olhar
os quadros
as poltronas
os tapetes
pegar uma garrafa da geladeira
teclar as três letras mundiais de teu nome
na rígida máquina
que nunca
nunca esteve
com a fita tão pálida

vergonha ter frio
e enconstar-se no aquecedor como sempre
ter fome e comer
essa coisa tão simples
abrir o toca-discos e escutar o silêncio
sobretudo se é um quarteto de Mozart

dá vergonha o conforto
e a asma dá vergonha
quando teu comandante está caindo
metralhado
fabuloso
nítido

és nossa consciência crivada

dizem que te queimaram
com que fogo
vão queimar as boas
as boas novas
a irascível ternura
que trouxeste e levaste
com tua tosse
com teu barro

dizem que incineraram
toda tua vocação
menos um dedo

suficiente para nos mostrar o caminho
para acusar o monstro e seus tições
para apertar de novo os gatilhos

assim estamos
consternados
raivosos
claro que com o tempo a plúmbea
consternação
nos irá passando
a raiva diminuirá
se fará mais limpa

estás morto
estás vivo
estás caindo
estás nuvem
estás chuva
estás estrela

onde estejas
se é que estás
se estás chegando

aproveita enfim
para respirar tranqüilo
para encher de céu os pulmões

onde estejas
se é que estás
se estás chegando
será uma pena que não exista Deus

mas haverão outros
claro que haverão outros
dignos de te receber
comandante

ME SERVE E NÃO ME SERVE

A esperança tão doce
tão polida tão triste
a promessa tão leve
não me serve

não me serve tão mansa
a esperança

a raiva tão submissa
tão débil tão humilde
o furor tão prudente
não me serve

não me serve tão sábia
tanta raiva

o grito tão exato
se o tempo o permite
alarido tão belo
não me serve

não me serve tão bom
tanto trovejar

a coragem tão dócil
a bravura tão afiada
a intrepidez tão lenta
não me serve

não me serve tão fria
a ousadia

sim me serve a vida
que é vida até morrer-se
o coração alerta
sim me serve

me serve quando avança
a confiança

me serve teu olhar
que é generoso e firme
e teu silêncio franco
sim me serve

me serve a medida
de tua vida

me serve teu futuro
que é um presente livre
e tua luta de sempre
sim me serve

me serve tua batalha
sem medalha

me serve a modéstia
de teu orgulho possível
e tua mão segura
sim me serve

me serve teu caminho
companheiro.

À ROQUE

Chegaste cedo ao bom humor
ao amor cantado
ao amor decantado

chegaste cedo
ao rum fraterno
às revoluções

cada vez que te arrancavam do mundo
não havia calabouço que te caísse bem
assomavas a alma por entre os barrotes
e mal os barrotes se afrouxavam turvados
aproveitavas para livrar o corpo

usavas a metáfora pé-de-cabra
para abrir os ferrolhos e os ódios
com a urgência inconsolável de quem quer
regressar ao assombro dos livres

tinhas ojeriza ao proibido
às desgarraduras para pretensão e orquestra
ao dedo admoestador de algum colega isento
algum apócrifo bom samaritano
que desde da europa te queria ensinar
a ser um bom latinoamericano

tinhas ojeriza à pureza
porque sabias como somos de impurezas
como mesclamos sonhos e vigília
como nos pesam a razão e o risco

por sorte eras impuro
fugido de cárceres e armadilhas
não de responsabilidades e outros gozos
impuro como um poeta
que isso eras
apesar de tantas outras coisas

agora recorro trama a trama
nossos muitos acordos
e tambem nossos poucos desacordos
e sinto que nos restam diálogos inconclusos
reciprocas perguntas nunca ditas
malentendidos e benentendidos
que não poderemos embaralhar de novo

mas tudo volta a adquirir seu sentido
sim recordo teus olhos de garoto
que eram quase um abraço quase um dogma

o fato é que chegaste
cedo ao bom humor
ao amor cantando
ao amor decantado
ao rum fraterno
às revoluciones
mas sobretudo chegaste cedo
demasiado cedo
a uma morte que não era a tua
e que a esta altura não saberá que fazer com tanta vida.

DESAPARECIDOS

Estão em algum lugar marcados
desconcertados surdos
buscando-se buscando-nos
bloqueados pelos signos e pelas dúvidas
contemplando as velhas das praças
os timbres das portas as velhas que enlouquecem
ordenando seus sonhos seus esquecimentos
quiçá convalescentes de sua morte privada

ninguém os explicou com certeza
se já se foram ou se não
se são faixas ou tremores
sobreviventes ou superstições

vêem passar árvores e pássaros
e ignoram a que sombra pertencem

quando começaram a desaparecer
há três cinco sete cerimônias
a desaparecer como sem sangue
como sem rosto e sem motivo
vieram pela janela de sua ausência
o que ficava atrás desse arcabouço
de abraços céu e fumaça

quando começaram a desaparecer
como o oásis nos espelhismos
a desaparecer sem últimas palavras
tinham em suas mãos os pedacinhos
de coisas que queriam

estão em algum lugar nuvem ou tumba
estão em algum lugar estou seguro
lá no sul da alma
é possível que tenham extraviado a bússola
e hoje vagueiam perguntando perguntando
onde caralho fica o bom amor
porque vêm do ódio.

Daniel Viglietti & Mario Benedetti – Desaparecidos