“Não me peçam” de Pablo Neruda


O Denis me presenteou com 3 revistas “Nerudianas” direto do Chile, dedicadas a esmiuçar a vida e obra de Pablo Neruda. Numa delas, descobri este poema… que não é dos melhores, mas importante pois onde o poeta se posiciona claramente sobre questões (est)éticas. Depois segue o próprio Neruda declamando o poema.

NÃO ME PEÇAM

Pedem alguns que este assunto humano
com nomes, sobrenomes e lamentos
não os aborde nas folhas de meus livros,
não lhes dê a escritura de meus versos.

Dizem que aqui morreu a poesia,
dizem alguns que não devo fazê-lo:
a verdade é que sinto não agradar-lhes,
os saúdo e lhes tiro meu chapéu
e os deixo viajando no Parnaso
como ratos alegres no queijo.

Eu pertenço à outra categoria
e só um homem sou de carne e osso,
por isso se espancam a meu irmão
com o que tenho a mão o defendo
e cada uma de minhas linhas leva
um perigo de pólvora ou de ferro,
que cairá sobre os desumanos,
sobre os cruéis, sobre os soberbos.

Mas o castigo de minha paz furiosa,
não ameaça aos pobres nem aos bons.
Com minha lamparina busco aos que caem,
alivio suas feridas e as fecho.

E estes são os ofícios do poeta,
do aviador e do que trabalha na pedreira:
Devemos fazer algo nesta terra
porque neste planeta nos pariram
e temos que arrumar as coisas dos homens
porque não somos pássaros nem cachorros.

E bem, se quando ataco o que odeio
ou quando canto a todos os que amo
a poesia quer abandonar
as esperanças de meu manifesto,
eu sigo com as tábuas de minha lei
acumulando estrelas e armamentos.

No duro dever americano,
não me importa uma rosa mais ou menos.
Tenho um pacto de amor com a formosura,
tenho um pacto de sangue com meu povo.

“Não me peçam” declamado por Neruda


“Assim a poesia não se cantará em vão”


A querida amiga Ana Elisa, que compartilha o teto comigo, me trouxe do Chile um pequeno livrinho com o discurso proferido por Pablo Neruda ao receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1971. Pablo era embaixador do Chile que vivia um período conturbado de ataques ao governo de esquerda de Allende. Abaixo, traduzo alguns trechos que me chamaram a atenção.

Trechos do discurso de Pablo Neruda ao receber o Nobel

(…)

“De tudo isso, amigos, surge um ensinamento que o poeta deve aprender dos demais homens. Não há solidão inexpugnável. Todos os caminhos levam ao mesmo ponto: à comunicação do que somos. E é preciso atravessar a solidão e a aspereza, a falta de comunicação e o silêncio para chegar ao recinto mágico em que podemos dançar torpemente ou cantar com melancolia; mas nessa dança ou nessa canção estão consumados os mais antigos ritos da consciência; da consciência de ser homem e de crer em um destino comum”

(…)

“O poeta não é um ‘pequeno deus’. Não, não é um ‘pequeno deus’. Não está marcado por um destino cabalístico superior ao de quem exerce outros ofícios. Sempre digo que o melhor poeta é o homem que nos entrega o pão de cada dia: o padeira mais próximo, que não se crê deus. Ele cumpre sua majestosa e humilde trabalho de amassar, meter no forno, dourar e entregar o pão de cada dia, com uma obrigação comunitária. E se o poeta chega a alcançar essa simples consciência, poderá também a simples consciência converter-se em parte de uma artesania colossal, de uma construção simples ou complicada, que é a construção da sociedade, a transformação das condições que rodeiam o homem, a entrega da mercadoria: pão, verdade, vinho, sonhos. Se o poeta se incorpora a essa nunca gasta luta por consignar cada um em mãos dos outros sua ração de compromisso, sua dedicação e ternura ao trabalho comum de cada dia e de todos os homens, o poeta tomará parte no suor, no pão, no vinho, no sonho da humanidade inteira. Só por esse caminho inalienável de ser homem comum chegaremos a restituir à poesia o amplo espaço que lhe vão retirando em cada época, que lhe vamos retirando em cada época nós mesmos.”

(…)

“Nos vemos indefectivelmente conduzidos à realidade e ao realismo, ou seja, a tomar consciência direta do que nos rodeia e dos caminhos da transformação, e logo compreendemos, quando parece tarde, que construímos uma limitação tão exagerada que matamos o vivo em vez de conduzir a vida a desenvolver-se e florescer. Nos impomos um realismo que posteriormente nos resulta mais pesado que o ladrilho das construções, sem que por isso tenhamos erigido o edifício que contemplávamos como parte integral de nosso dever. E em sentido contrário, se alcançamos a criar o fetiche do incompreensível (ou do compreensível para uns poucos), o fetiche do seleto e do secreto, se suprimimos a realidade e suas degenerações realistas, nos veremos logo rodeados de um terreno impossível, de um atoleiro de folhas, de barro, de nuvens, em que se fundem nossos pés e nos afoga uma incomunicação opressiva.”

(…)

“Estendo estes deveres do poeta, na verdade ou no erro, até suas últimas consequências, decidi que a atitude dentro da sociedade e ante a vida devia ser também humildemente partidária. O decidi vendo gloriosos fracassos, solitárias vitórias, derrotas deslumbrantes. Compreendi, metido no cenário das lutas da América, que minha missão humana não era outra senão agregar-me com sangue e alma, com paixão e esperança, porque só dessa torrente repleta podem nascer os caminhos necessários aos escritores e aos povos. E ainda que minha posição levantasse ou levante objeções amargas ou amáveis, o certo é que não há outro caminho para o escritor de nossos amplos e cruéis países, se queremos que floresça a obscuridade, se pretendemos que os milhões de homens que ainda não aprenderam a nos ler nem a ler, que todavia não sabem escrever nem escrever-nos, se estabeleçam no terreno da dignidade sem a qual não é possível ser homem integral.”

(…)

“Eu escolhi o difícil caminho de uma responsabilidade compartilhada e, antes de reiterar a adoração do indivíduo como sol central do sistema, preferi entregar com humildade meu serviço a um considerável exército que por períodos pode se equivocar, mas que caminha sem descanso e avança cada dia enfrentando tanto aos anacrônicos recalcitrantes como aos vaidosos impacientes. Porque creio que meus deveres de poeta não só me indicavam a fraternidade com a rosa e a simetria, com o exaltado amor e com a nostalgia infinita, senão também com as ásperas tarefas humanas que incorporei a minha poesia.”

Guerra Civil Espanhola, Neruda, “Ay, Carmela!”


Esta foto, acima e abaixo, é de um antepassado assassinado durante a Guerra Civil Espanhola [não sei de que lado lutava, mas é muito provável que do lado dos franquistas 🙁 ]. Todos meus avós fogem da Espanha nesse período e vêm pro Brasil. Se instalaram no único “bairro espanhol” do Brasil, que fica em Sorocaba, na região do “Além Ponte”, bairro “Vila Hortência”. Todas as ruas desse bairro fazem referência à Espanha. Nasci na rua Sevilha e brincava nas vizinhas ruas Madrid e Catalunha. Na minha infância, era comum ouvir pelas ruas expressões e comentários em espanhol… os palavrões e repreensões, invariavelmente, saíam em espanhol! Teimosos, turrões, mãos-de-vaca, pobres, os espanhóis ali, como meus avós, começaram trabalhando na terra (eram conhecidos como “ceboleiros” pelas enormes plantações de cebola, cultura que trouxeram da Espanha), e aos poucos foram se metendo a fazer de tudo.

Bom, essa introdução toda é porque, de uns tempos pra cá, tenho buscado resgatar minhas raízes… nessa busca, achei um ótimo livro “Os Espanhóis”, de Sérgio Coelho de Oliveira, que conta a história do bairro em que cresci… fala das famílias, da cultura que trouxeram dalém mar… um livro muito bonito e forte, pra mim… descobri, inclusive, surpreso, que desse bairro surgiram núcleos de resistência anarco-sindicalistas que tiveram importante influência e foram inclusive perseguidos durante a ditadura!

Meu interesse tem passado, obviamente, pela poesia espanhola. Recentemente, ganhei de uma amiga querida algumas antologias sobre a poesia espanhola, basca, catalã… é nítido como a poesia recente da Espanha é fortemente marcada pela Guerra Civil. Ainda estou me aproximando dessa poesia e selecionando algo pra por aqui no Passarin. Por agora, vai uma poesia de Neruda sobre a Guerra Civil (vai um vídeo também em que o poeta chileno, antes de declamar seu poema, fala como a Guerra Civil foi um marco de virada na sua vida e poesia, donde surge o livro “Espanha no Coração”… a declamação é encantatória!). Neruda era diplomata e morava em Madrid, na famosa Casa das Flores de que trata o poema abaixo, quando explodem os bombardeios que também darão origem à “Guernica” de Picasso (a Casa das Flores pode ser visitada e possui uma arquitetura ímpar, veja aqui).

A Guerra Civil, apesar de toda a tragédia – que me fez estar aqui, agora – também foi um momento de forte organização dos trabalhadores e trabalhadoras de todo o mundo, com a participação ativa de brigadas e milícias internacionais. (Aqui um documentário interessante sobre a Guerra). No final do post, depois do poema de Neruda, vai uma das canções preferidas pelos milicianos, a “Ay, Carmela” onde se canta, de forma alegre, a resistência e o amor. Essa canção jocosa, insinua que é por Carmela que os milicianos resistem… se lutam com toda a energia é porque querem voltar para os braços de Carmela! 🙂 Essa música também é conhecida por “El Paso del Ebro” e “Viva la XV Brigada” e foi ganhando diferentes letras ao longo do tempo e em diferentes lugares. Abaixo, coloco a versão de Miguel Naharro, grande violonista espanhol, e outra, mais próxima do original (nesse vídeo, há imagens muito legais de cartazes da época chamando para a luta revolucionária).

PABLO NERUDA DECLAMANDO “EXPLICO ALGUMAS COISAS”

EXPLICO ALGUMAS COISAS – PABLO NERUDA

Perguntam-me: onde estão os lírios?
E a metafísica coberta de papoulas?
E a chuva que muitas vezes golpeava
suas palavras enchendo-as
de frestas e pássaros?

Vou lhes contar tudo o que me passa.

Eu vivia num bairro
de Madrid, com campanários,
com relógios, com árvores.
Dali se via
o rosto seco de Castela
como um oceano de couro.
Minha casa era chamada
a casa das flores, porque por todas as partes
brotavam gerânios: era uma bela casa
com cachorros e crianças.

Raul, lembra? **
Lembra, Rafael? **
Frederico, lembra? **
Debaixo da terra,
lembram da minha casa com balcões
onde a luz de junho afogava flores em suas bocas?
Irmão, irmão!

Tudo
era burburinho de vozes, o sal das mercadorias
aglomeração de pão palpitante,
mercados de meu bairro de Arguelles com sua estátua
como um tinteiro pálido entre as merluzas:
o azeite chegava em colheres,
uma profunda palpitação
de pés e mãos enchia as ruas,
metros, litros, essência
aguda da vida,
pescados amontoados,
contextura dos tetos com sol frio no qual
a flecha se fatiga,
delirante marfim fino das batatas,
tomates se espalhando até o mar.

E numa manhã tudo estava ardendo,
e numa manhã fogueiras
saiam da terra
devorando seres,
e desde então fogo,
pólvora desde então,
e desde então sangue.
Bandidos com aviões e mouros,
bandidos com anéis e duquesas,
bandidos com padres de preto abençoando-os
vinham pelos céus a matar crianças,
e pelas ruas o sangue de crianças
corria simplesmente, como sangue de crianças.

Chacais que os chacais rechaçariam,
pedras que o cardo seco morderia e cuspiria,
víboras que as próprias víboras odiariam!

Frente a vocês vi o sangue
de Espanha levantar-se
para afogá-los em uma só onda
de orgulho e de punhais!

Generais
traidores:
olhem minha casa morta,
olhem a Espanha dilacerada:
porém de cada casa morta sai metal ardendo,
em vez de flores,
porém de cada ferida da Espanha
desperta a Espanha,
porém de cada criança morta levanta-se um fuzil com olhos,
porém de cada crime nascem balas
que acharão um dia o vosso coração.

E me perguntam: por que os seus poemas
não falam dos sonhos, das folhas,
e dos grandes vulcões de seu país natal?

Venham ver o sangue pelas ruas,
venham ver
o sangue pelas ruas,
venham ver o sangue
pelas ruas!

** Neruda, provavelmente, está se referindo aos poetas Rafael Alberti,
Federico Garcia Lorca e Raúl Silva Castro. Lorca foi assassinado por nacionalistas durante a guerra. Segundo um juiz, ele era “mais perigoso com a caneta do que outros com o revólver”.

“AY, CARMELA!” versão Miguel Ángel Gómez Naharro

“AY, CARMELA” VERSÃO CLÁSSICA

El Ejécito del Ebro
Rumba la rumba la rumba la
Una noche el río pasó
Ay Carmela! Ay Carmela!
Pero nada pueden bombas
Rumba la rumba la rumba la
Donde sobra corazón
Ay Carmela! Ay Carmela!
Contraataques muy rabiosos
Rumba la rumba la rumba la
deberemos resisitr
Ay Carmela! Ay Carmela!
Pero igual que combatimos
Rumba la rumba la rumba la
Prometemos resistir
Ay Carmela! Ay Carmela!