O otimismo histórico

O otimismo histórico – Raúl González Tuñon

O otimismo histório
(Raul Gonzalez Tunon)

Eu sei que tudo muda,
que nada se detém,
nem uma árvore se detém
e ainda a pedra é peregrina.
A solidão não existe,
o mundo é compahia.
Nem a morte está sozinha.
Tudo o que é, é luta.
Sou imortal, pois passo.
Somente a estátua fica.
E ainda ela se move.
Em vão eles se empenham
em deter a história.
Sei que chegará o dia!
Também o sabe o sol.

A lua com gatilho – Raúl González Tuñón


Abaixo a tradução que fiz do poema-manifesto do poeta-lutador argentino Raúl González Tuñón. Mais uma reflexão sobre o papel da poesia nos dias de bárbarie em que vivemos.

A LUA COM GATILHO

É preciso que nos entendamos.
Eu falo de algo certo e de algo possível.
Certo é que todos comam
e vivam dignamente
e é possível saber algum dia
muitas coisas que hoje ignoramos.
Então, é necessário que isto mude.

O carpinteiro fez esta mesa
verdadeiramente perfeita
onde se inclina a menina dourada
e o pai celeste resmunga.
Um ebanista, um pedreiro,
um ferreiro, um sapateiro,
também sabem o seu.

O mineiro desce à mina,
ao fundo da estrela morta.
O campesino semeia e ceifa
a estrela já ressuscitada.
Tudo seria maravilhoso
se cada qual vivesse dignamente.

Um poema não é uma mesa,
nem um pão,
nem um muro,
nem uma cadeira,
nem uma bota.

Com uma mesa,
com um pão,
com um muro,
com uma cadeira,
com uma bota,
não se pode mudar o mundo.

Com uma carabina,
com um livro,
isso é possível.

Compreendes por que
o poeta e o soldado
podem ser uma mesma coisa?

Marchei atrás dos operários lúcidos
e não me arrependo.
Eles sabem o que querem
e eu quero o que eles querem:
a liberdade, bem entendida.

O poeta é sempre poeta
mas é bom que ao fim compreenda
de uma maneira alegre e terrível
quão melhor seria para todos
que isto mudasse.

Eu os segui
e eles me seguiram.
Aí está a coisa!

Quando se tiver que lançar a pólvora
o homem lançará a pólvora.
Quando se tiver que lançar o livro
o homem lançará o livro.
Da união da pólvora e do livro
pode brotar a rosa mais pura.

Digo ao pequeno padre
e ao ateu de botequim
e ao ensaísta,
ao neutro,
ao solene,
e ao frívolo,
ao tabelião e à corista,
ao bom coveiro,
ao silencioso vizinho de um terceiro,
a minha amiga que toca o acordeon:
-Olhai a mosca sufocada
embaixo da redoma de vidro.

Não quero ser a mosca sufocada.
Tampouco tenho nada a ver com o macaco.
Não quero ser abelha.
Não quero ser unicamente cigarra.
Tampouco tenho nada a ver com o macaco.
Eu sou um homem ou quero ser um verdadeiro homem
e não quero ser, jamais,
uma mosca sufocada debaixo da redoma de vidro.

Nem colméia, nem formigueiro,
não compares os homens
a nada mais que não seja homem.

Dá ao homem tudo o que necessite.
Os pesos para pesar,
as medidas para medir,
o pão ganhado altivamente,
a flor do ar,
a dor autêntica,
a alegria sem uma mancha.

Tenho direito ao vinho,
ao azeite, ao museu,
à Enciclopédia Britânica,
a um lugar no ônibus,
a um parque abandonado,
a um cais,
a uma açucena,
a sair,
a ficar,
a dançar sobre a pele
do Último Homem Antigo,
com meu esqueleto novo,
coberto com pele nova
de homem reluzente.

Não posso cruzar os braços
e interrogar agora o vazio.
Me rodeiam a indignidade
e o desprezo;
me ameaçam o cárcere e a fome.
Não me deixarei subornar!

Não. Não se pode ser livre interamente
nem estritamente digno agora
quando o chacal está à porta
esperando
que nossa carne caia, apodrecida.

Subirei ao céu,
lhe colocarei gatilho à lua
e desde cima fuzilarei o mundo,
suavemente,
para que este mude de uma vez.

A Rosa Blindada I


A “Rosa Blindada” é o nome de um importante livro de poesias do poeta argentino Raúl González Tuñón. Neruda chegou a dizer que Tuñon foi o primeiro a “blindar a rosa”, ou seja, o primeiro de toda uma geração a defender a poesia como uma arma de luta. Estou traduzindo os prólogos que o próprio Raúl fez a seu livro, onde faz interessante debate sobre a poesia revolucionária, tema que me interessa justamente pela antologia de poesias revolucionárias que estou organizando e traduzindo. Em breve continuo com as outras partes do prólogo

A nós a poesia

(prólogos do livro “A Rosa Blindada” de Raúl Tuñon)

“Sem compreender claramente que só com a assimilação completa da cultura criada por todo o desenvolvimento da humanidade se pode organizar uma cultura proletária, não conseguiremos esse objetivo”…”Devemos por em primeiro lugar a instrução e a educação pública mais ampla. Isto criará um terreno favorável à cultura, com a condição, naturalmente, de solucionar o problema do pão. Sobre este terreno deve nascer realmente uma nova arte comunista que criará a forma que corresponde a seu conteúdo.” Lenin
Vamos desde uma arte sem travas, desde a autêntica arte pura, passando pela arte revolucionária primeiro e pela arte proletária depois.

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O poeta se dirige à massa. Se a massa não entende totalmente é porque, desde já, deve ser elevada ao poeta. Não se trata de nivelar a todos, pela revolução, à fome e à incultura senão à comodidade e à cultura.

Agora bem, existe uma massa a que o poeta pode dirigir-se e cumprir sua missão principal. Está composta por operários que puderam alcançar certos elementos de cultura; por operários nos quais a sensibilidade, o instinto poético supre a falta desses elementos; por intelectuais, artistas, jornalistas, pintores, maestros, estudantes que desejam a transformação da sociedade, que abundam e que são também massa.

O poeta não deve, pois, renunciar a ser poeta, mas isto não quer dizer que renuncie a ser homem. Em uma época como a que vivemos, intensa, dramática, de negação e criação, o poeta deve estar ao serviço dos outros. Se é um poeta autêntico fará isso sem o definhamento dos valores poéticos esenciais.
Devemos temer o caos nós, poetas, nós, pensamento militante? E o caos atual? De outra forma será difícil que a nós nos aturda o primeiro tapa brutal da revolução. Sergio Esenin e Vladimir Maiakowski sucumbiram, se eliminaram porque, finalmente, o tapa os aturdiui. Apesar de haver aderido a revolução a abandonaram para morrer voluntariamente. Mas eles estavam no entanto, e apesar deles, com um pé na burguesia. Haviam conhecido seu veneno. Deve-se recordar que outros poetas que sempre haviam sido revolucionários, sucumbiram também porque acreditaram que a revolução ia consagrá-llos imediatamente, dar-lhes em seguida todos os elementos. Uns e outros não compreenderam que o que estava acontecendo na Rússia era maior que eles e maior que a poesia mesma ou a poesia mesma!

Nós teremos a sorte de recebir a revolução cantando, depois de haver cantado e desejado, sem descuidar da técnica e sem deixar de haver intervindo mais ou menos concretamente na luta.

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Ainda que de extração social operária não tenho a pretensão de ser um poeta proletário. Por outra parte não há poetas proletários nos países burgueses. Talvez não os haja todavia na Rússia porque como já disse Lenin a arte proletária deverá nascer da cultura proletária, e esta por sua vez, da revolução em grau avançado. Mas há uma arte revolucionária que corresponde ao período pré-revolucionário. E se uma pretensão tenho é a de ser um poeta revolucionário, a de haver abandonado essa espécie de virtuosismo burguês decadente, não para cair na vulgar crônica grosseira que pretende ser clara e direta e resulta tola, senão para vincular minha sensibilidade e meu conhecimento da técnica do ofício aos feitos sociais que sacodem o mundo. Sem que o político menospreze ao artístico ou viceversa, confundindo, de forma melhorada, ambas realidades em uma.

Não por isso creio haver resolvido todos os problemas que a questão arte-política me há apresentado, mas sim os fundamentais. Nesse sentido o discurso de Gide no Congreso de Escritores e os pensamentos de Lenin a respeito me serviram muito assim como a leitura recente do livro de Benjamín Goriely Os poetas na revolução Russa, que recomendo aos camaradas que não o conheçam. Adiro ao discurso “Defesa da Cultura” porque Gide comprendeu – e era lógico – os problemas que a pre-revolução coloca ao artista e os problemas que a revolução coloca ao artista. Porque declara que os intelectuais, se são auténticos, por compreensão de sua função histórica e se querem conservar a herança cultural e defender a dignidade do pensamento, devem estar com a revolução. Porque exige uma arte de oposição. Porque assinala ao mesmo tempo o perigo que significa encarar o problema arte-política de uma maneira simplista. Porque afirma seu individualismo e diz que, precisamente por ser individualista se sente profundamente comunista porque somente a sociedade comunista pode oferecer ao individuo todos os elementos para seu desenvolvimento sem travas das diferenças de classe, da injustiça social. Porque afirma sua condição de francês e diz que precisamente por ser nacional se sente profundamente internacional. Porque declara que se há artistas grandes que não podem comunicar-se com o povo é essa uma das causas pelas quais é imperiosa a necessidade de elevar ao povo a arte e a cultura e isso só poderá conseguir-se com a transformação da sociedade.

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Creio que a poesía revolucionaria é autêntica:
1º Quando poesia e revolução se confundem, são consubstanciais, como no caso de Brecha, Gold, Alberti, Aragón, etc., e, no passado, como no caso de Heine (Os tecedores de Silesia). Ou seja, não menosprezando a poesia em si, fazendo-a perdurável por seu conteúdo estético pralém de seu conteúdo humano. Porque ainda quando as condições sociais de vida dos tecedores de Silésia tenham mudado, o alto dramatismo poético subsiste, a poesia subsiste.

2º Quando o conteúdo social corresponde à nova técnica. Não se trata de negar o proceso poético que, como o pictórico, teve suas etapas criadoras maravilhosas – nas quais, detalhe importante, nunca a arte esteve desvinculada do feito social- mas resulta absurdo compor hoje poemas presos a esta ou aquela regra formal.

3º Mas não há que confundir técnica nova com ocultismo poético, travessuras gramaticais, etc., ou poemas sem ritmo (que podem ser feitos quando o tema o exija como em meu poema “O pequeno cemitério fusilado”, ainda que o ritmo exista aqui como a água dentro da rocha). Porque, geralmente, essa atitude poética que foi uma reação saudável contra o academismo, esta concorrendo com esse ritmo de marcha, de hino – para cantar– que deve ter quase sempre o poema revolucionário. Chamo “técnica nova” ao conhecimiento e à superação de todas as técnicas, à desenvoltura que nos dá esse conhecimento, à liberdade de tons, ritmos, imagens, palavras e ao que sempre tiveram os poetas de cada época criadora, ao que segue a linha poética que nasceu com a primeira palavra pronunciada pelo homem na terra: à personalidade de um poeta.