A sintaxe do ferro

Achei por acaso este poema de Ricardo Rizzo. Gostei bastante. Seu único e primeiro livro devidamente encomendados… algumas coisas são pá-pum… 😉

A sintaxe do ferro (Ricardo Rizzo)

MENCIONAR O FERRO

Mencionar o ferro é expô-lo
à dura nudez de palavra

no registro encerrada, sílabas
articulando matéria, antimatéria.

Em que categoria confinar o ferro
todo o ferro que há no mundo,
insuspeito?

Se em uma só palavra, e curta,
traz a geografia de mundos, estrelas?

O ferro do despeito
vaza a sintaxe,
fere e desnorteia.

Não é o ferro palatável, o ferro
que a todos resume, paroxítono.

Dizer o ferro é lambê-lo,
comê-lo, fruta escura,

é atividade carnal, antes
tenso combate subterrâneo

que se trava, ou melhor, se turva
entre noite e sombra nos edifícios.

Mas já um sal do ferro convida
a dobrar o ferro utilitário

a romper o ferro posto
vingar-lhe o porte mortuário

mencionar o ferro é mudá-lo
em terrena dor de gente;

é fecundar-lhe o ventre
divergente e proletário.