Praquês

Mergulhado esta semana nos livros, tentando escrever alguma coisa da dissertação de mestrado… mergulhado em gramsci… nesses mergulhos não é difícil ir esquecendo das motivações reais de tudo isso (a universidade, o intelecto, a vaidade vão te seduzindo com outras tantas motivações). Aqui tra(b)duzo um poema do Roque Dalton que me ajuda a não esquecer dos verdadeiros porquês. E depois um trechinho que achei bonito do Gramsci…

A pequena burguesia

(sobre uma de suas manifestações)

Os que
no melhor dos casos
querem fazer a revolucão
para a História para a lógica
para a ciência e natureza
para os livros do próximo ano ou do futuro
para ganhar a discussão e inclusive
para sair, enfim, nos jornais
e não simplesmente
para eliminar a fome
dos que têm fome
para eliminar a exploração dos explorados.
É natural então
que na prática revolucionária
cedam somente ante ao juízo da História
da moral do humanismo da lógica e das ciências
dos livros e dos periódicos
e se neguem a conceder a última palavra
aos esfomeados, aos explorados
que têm sua própia história de horror
sua própria lógica implacável
e terão seus própios livros
sua própria ciência
natureza
e futuro.

Trecho Gramsci sobre mudança individual x social

“(…)O homem deve ser concebido como um bloco histórico de elementos puramente subjetivos e individuais e de elementos de massa e objetivos ou materiais, com os quais o indivíduo está em relação ativa. Transformar o mundo exterior, as relações gerais, significa fortalecer a si mesmo, desenvolver a si mesmo. É uma ilusão e um erro supor que o “melhoramento” ético seja puramente individual: a síntese dos elementos constitutivos da individualidade é “individual”, mas ela não se realiza e desenvolve sem uma atividade para fora, transformadora das relações externas, desde aquelas com a natureza e com os outros homens em vários níveis, nos diversos círculos em que se vive, até a relação máxima, que abarca todo o gênero humano. Por isso, é possível dizer que o homem é essencialmente “político”, já que a atividade para transformar e dirigir conscientemente os outros homens realiza sua “humanidade”, a sua “natureza humana”.”
[pag. 406-407 (cadernos do cárcere, caderno 10)]

Os policiais e os guardas

OS POLICIAIS E OS GUARDAS
(poeta guerrilheiro Roque Dalton, El Salvador, 1935-1975)

Sempre viram o povo
como um montão de costas que corriam pra longe
como um campo para deixar cair com ódio os cassetetes.

Sempre viram o povo com o olho de afinar a pontaria
e e entre o povo e o olho
a mira da pistola ou a do fuzil.

(Um dia eles também foram povo
mas com a desculpa da fome e do desemprego
aceitaram uma arma
um cassetete um soldo mensal
para defender os que causam fome e aos que desempregam).

Sempre viram o povo aguentando
suando
vociferando
levantando cartazes
levantando os punhos
e também dizendo-lhes:
“Cachorros filhos da puta o dia de vocês vai chegar!”

(E cada dia que passava
eles acreditavam ter feito um grande negócio
ao trair o povo do qual nasceram:
“O povo é um monte de fracos e sem vergonhas -pensavam-
que bem fizemos ao passarmos para o lado dos vivos e dos fortes”).

E então era só apertar o gatilho
e as balas iam da margem dos policiais e guardas
contra a margem do povo
assim iam sempre
de lá pra cá
e o povo caía sangrando
semana após semana ano após ano
quebrados seus ossos
chorando pelos olhos de mulheres e crianças
fugia espantado
deixava de ser povo para ser tropel vermelho
desaparecia na forma como cada um se salvava
para sua casa e logo nada mais
só os bombeiros lavando o sangue das ruas.

(Os coronéis acabavam de os convencer:
“É isso homens -lhes diziam-
duro e na cabeça com os civis
fogo com o populacho
vocês também são pilares uniformizados da Nação
sacerdotes de primeira linha
no culto à bandeira ao escudo ao hino aos próceres
à democracia representativa ao partido oficial e ao mundo livre
cujos sacrifícios não esquecerá a gente decente deste país
ainda que hoje não possamos subir vosso soldo
como é nosso desejo”).

Sempre viram o povo
franzido no quarto das torturas
pendurado
espancado
fraturado
inchado
asfixiado
violado
furado com agulhas nos ouvidos e nos olhos
eletrocutado
afogado em urina e merda
cuspido
arrastado
soltando fumaça em seus últimos restos
no inferno da cal viva.

(Quando resultou morto o décimo Guarda Nacional. Morto pelo povo
e o quinto rato bem esmagado pela guerrilha urbana
os ratos e os Guardas Nacionais começaram a pensar
sobre tudo até porque os coronéis já mudavam de tom
e a cada fracasso jogavam a culpa
aos “elementos da tropa tão moles que temos”).

O fato é que os policiais e os guardas
sempre viram o povo de lá pra cá
e as balas só caminhavam de lá pra cá.

Que pensem muito…
que eles mesmos decidam se é muito tarde
pra buscar a margem do povo
e disparar dali
ombro a ombro
junto conosco.

Que pensem muito…
mas, enquanto isso,
que não se mostrem surpreendidos
nem ponham essa cara de ofendidos,
hoje, quando algumas balas
começam a chegar até eles vindas deste lado
de onde segue o mesmo povo de sempre
só que a esta altura já estufa o peito
e traz cada vez mais fuzis.

(tradução de Jeff Vasques | mais poesias: facebook/eupassarin)

[foto de origem desconhecida]

Roque Dalton presente!


Roque-Dalton

Hoje, 14 de maio de 2015, Roque Dalton, um dos maiores-poetas lutadores da América, faria 80 anos, e aqui celebramos sua vida e sua poesia com a tradução de seu poema “Canto a nossa posição”. Roque foi assassinado há 40 anos atrás, no dia 10 de maio, por seus próprios companheiros de partido, motivados por sua postura não dogmática, profundamente questionadora e rebelde. Apesar de sua enorme influência na poesia e inspiração na luta revolucionária, continua um quase desconhecido no Brasil. Roque Dalton presente!!!

“Roque Dalton era um homem que aos quarenta anos dava a impressão de um menino de dezenove. Tinha algo de criança, condutas de criança, era travesso, brincalhão. Era difícil saber e se dar conta da força, da seriedade e da eficácia que se escondiam detrás desse rapaz.” (Júlio Cortázar)

“Ninguém menos solene que Roque Dalton, ninguém mais capaz de fazer rir até nas horas negras, mais disposto a aventurar-se de peito aberto contra o perigo…” (Eduardo Galeano)

Ouça o poema “À Roque” feito por Mario Benedetti: https://www.youtube.com/watch?v=7eCwVeZLXQc

CANTO A NOSSA POSIÇÃO
(Roque Dalton, El Salvador, 1935-1975)
a Otto René Castillo

Nos perguntam os poetas de pavorosos bigodes,
os acadêmicos empoeirados, amigos das aranhas,
os novos escritores assalariados,
os que suspiram para que a metafísica dos caracóis
lhes cubra a impudicícia:

Que fazeis vós de nossa poesia açucarada e virgem?
Que, do suspiro atroz e dos cisnes puríssimos?
Que, da rosa solitária, do abstrato vento?
Em que grupo os classificaremos?
Em que lugar os enquadraremos?

E não dizemos nada.

E não dizemos nada.
E não dizemos nada.

Porque ainda que não digamos nada,
os poetas do hoje estamos em um lugar exato:
estamos
no lugar em que nos obrigam
a estabelecer o grito.
(Ah, como dou risadas dos antigos poetas
obstinados em vendar seus olhos
e em untar de pétalas e de passarinhos famélicos
a corcunda da dor desconcertante
que se monta sólida
em cima do ombro positivo universal
desde o primeiro amanhecer e do primeiro vento,
e que se esqueceram do homem)
Estamos
no lugar exato que a noite precisa
para ascender à aurora.
(Muitos poetas inclinaram suas insônias antigas
sobre a fácil almofada azul da tristeza.
Construíram cidades e astros e universos
sobre a anatomia medíocre
de um ninho de manequins cristalinos
e exilaram a voz elementar
em planos altíssimos, desnudados
da raiz vital e da esperança.
Mas se esqueceram do homem)
Estamos
no lugar onde se gesta definitivamente
a alegria total que se atará à terra.
(Ai, poetas,
Como pudestes cantar vergonhosamente
as abstratas rosas e a lua brilhante
quando se caminhava paralelamente ao litoral da fome
e se sentia a alma sepultada
de baixo de um vulcão de chicotes e cárceres,
de patrões bêbados, de gangrenas
e de obscuros desperdícios de vida sem estrelas?
Gritastes alegria
sobre um amontoado de cadáveres,
cantastes a plumagem mimada
e as cidades cegas
à toda sorte de tísicas amantes;
mas se esqueceram do homem)
Estamos
no lugar onde começa o estaleiro
que vai inundar os mares com sorrisos lançados.

(Ai, poetas que esquecestes do homem,
que esquecestes
de como doem as meias rasgadas,
que esquecestes
do final dos meses dos inquilinos,
que esquecestes
do proletário que ficou na esquina
com um bocejo eterno inacabado,
cheio de balas e sem sangue,
cheio de formigas e definitivamente sem pão,
que esquecestes
das crianças doentes sem brinquedos,
que esquecestes
do modo de tragar das mais negras minas,
que esquecestes
da noite de estréia das prostitutas,
que esquecestes dos choferes de taxi vertiginosos,
dos ferroviários
dos operários dos andaimes,
das repressões assassinantes
contra o que pede pão
para que não se morram de tédio
os dentes na boca,
que esquecestes
de todos os escravos do mundo,
ai, poetas,
como me doem
vossas estaturas inúteis!)

Estamos no lugar em que se encontra o homem.
Estamos no lugar em que se assassina o homem,
no lugar
em que os poços mais negros se submergem no homem.
Estamos com o homem
porque antes muitíssimo antes que poetas
somos homens.
Estamos com o povo,
porque antes, muitíssimo antes que maritacas alimentadas
somos povo.
Estamos com uma rosa vermelha entre as mãos
arrancada do peito para oferecê-la ao homem!
Estamos com uma rosa vermelha entre as mãos
arrancada do peito para oferecê-la ao homem!
Estamos com uma rosa vermelha entre as mãos
arrancada do peito para oferecê-la ao Povo!
Estamos com uma rosa vermelha entre as mãos
arrancada do peito para oferecê-la ao Povo!

(tradução de Jeff Vasques | para mais poesias de Dalton: https://eupassarin.wordpress.com/tag/roque-dalton/)

Lei da vida


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(foto da manifestação contra o aumento da passagem em São Paulo, 13/06/2003)

LEI DA VIDA

(Roque Dalton, poeta-guerrilheiro de El Salvador, 1935-1975)

A árvore poderosa começa na semente
e ainda que o amor seja profundo e alto
é também mínima a semente do homem.
O nascimento do arroio do pólen
do ovinho da branca pomba
da pedra que rolou pelo monte nevado
desde sua pequenez chegam ao mar
ao girassol ao vôo interminável
ao planeta de neve que nada deterá.

Na luta social também os grandes rios
nascem dos pequenos olhos d’água
caminham muito mais e crescem
até chegar ao mar.

Na luta social também pela semente
se chega ao fruto
à árvore
ao infinito bosque que o vento fará cantar.

Tradução de Jeff Vasques

Homenagem a Roque Dalton

Há 37 anos atrás assassinavam, no dia 10 de maio, o poeta guerrilheiro Roque Dalton. Ele foi “justiçado” por seus próprios companheiros de organização, pois seu jeito heterodoxo, irreverente, provocativo, irônico e questionador foi interpretado pela moral conservadora desses militantes como uma vinculação com a CIA, como um infiltrado que tentava destruir por dentro a luta comunista. Assassinavam injustamente um dos poetas que mais lutou pela libertação de seu povo (El Salvador) e punham fim a escritura genial deste guerrilheiro.

Roque Dalton é o poeta-lutador que mais admiro dentro do panorama latinoamericano, o que mais venho traduzindo aqui no Passarin e o que mais tem me influenciado. Presto aqui esta singela homenagem traduzindo mais algumas de suas poesias. Quiçá ainda lançarei um livro em português com suas poesias traduzidas… é enorme a necessidade de tornar esse poeta, sua luta e poesia mais conhecida no Brasil… espero também, não daqui muito tempo, visitar El Salvador, seu país natal, e conhecer sua família.

Você pode ler mais poesias que traduzi dele aqui.

CATÓLICOS E COMUNISTAS NA AMÉRICA LATINA:
ALGUNS ASPECTOS ATUAIS DO PROBLEMA

Me expulsaram do Partido Comunista
muito antes de me excomungarem
na Igreja Católica.

Isso não é nada:
me excomungaram na Igreja Católica
depois que me expulsaram do Partido Comunista.

Bah!
Me expulsaram do Partido Comunista
porque me excomungaram na Igreja Católica.

MISCELÂNEAS

Ironizar sobre o socialismo
parece ser aqui um bom digestivo,
mas te juro que em meu país
primero deve-se conseguir o jantar.

Para mim, o socialismo é ainda uma etapa burguesa
na história marxista da humanidade. E o digo
precisamente em uma manhã em que me reconheço
lúcido, quando faz quase uma semana que não provo
uma gota de álcool.

O imperialismo deseja que a nação salvadorenha seja a Nação Salvadorenha S.A., Made in USA.

Digam o que somos do que somos: um povo sofrido, um
povo analfabeto, desnutrido e no entanto forte, porque
outro povo já teria morrido…

Sabe o que seria El Salvador se fosse do tamanho do Brasil?

POEMA DE AMOR

Os que ampliaram o Canal do Panamá
(e foram classificados como “rolo de prata” e não como “rolo de ouro”*),
os que repararam a frota do Pacífico
nas bases da Califórnia,
os que apodreceram nos cárceres da Guatemala,
México, Honduras, Nicarágua,
por ladrões, por contrabandistas, por estafadores,
por famintos,
os sempre suspeitos de tudo
(“Permita-me me remeter ao morto
por vagabundo suspeito
e com o agravante de ser salvadorenho”),
as que encheram os bares e bordéis
de todos os portos e capitais da zona
(“A gruta azul”, “O Shortinho”, “Terra feliz”),
os semeadores de milho em plena selva estrangeira,
os reis das páginas vermelhas***,
os que nunca sabem de ninguém de onde são,
os melhores artesãos do mundo,
os que foram cozidos a balaços ao cruzar a fronteira,
os que morreram de malária
ou das picadas de escorpiões e das barbas amarelas**
no inferno dos bananais,
os que choraram bêbados com o hino nacional
debaixo dum ciclone do Pacífico ou da neve do norte,
os agregados, os mendigos, os maconheiros,
os safados filhos de uma grande puta,
os que apenas e somente puderam regressar,
os que tiveram um pouco mais de sorte,
os eternos sem-documentos,
os fazem-tudo, os vendem-tudo, os comem-tudo,
os primeiros a sacar a faca,
os tristes mais tristes do mundo,
meus compatriotas,
meus irmãos.

* Na construção do canal do Panamá, os índios e negros (que ganhavam segundo padrão “silver roll”) recebiam menos e viviam em piores condições do que os trabalhadores brancos (“gold roll”).
** uma cobra venenosa bem comum na américa central.
*** os que mais aparecem nas páginas criminais dos jornais

NÃO FIQUE BRAVO, POETA

A vida paga suas contas com teu sangue
e tu segues crendo que és um ruisenhor.

Agarra a garganta dela de uma vez, a desnuda,
a tombe e faça nela tua peleja de fogo,
recheia sua tripa majestosa, a engravida,
a põe a parir cem anos pelo coração.

Mas com lindo modo, irmão,
com um gesto
propício para a melancolia.

HORA DA CINZA

Finaliza setembro. É hora de dizer-te
o difícil que foi morrer.

Por exemplo, esta tarde
tenho nas mãos cinzentas
livros formosos que não entendo,
não poderia cantar ainda que tenha cessado a chuva
e me cai sem motivo a recordação
do primeiro cachorro a quem amei quando criança.

Desde ontem que te foi
há umidade e frio até na música.

Quando eu morrer,
só recordarão meu júbilo matutino e palpável,
minha bandeira sem direito a se cansar,
a concreta verdade que reparti desde o fogo,
o punho que fiz unânime
com o clamor de pedra que exigiu a esperança.

Faz frio sem ti. Quando eu morrer,
quando eu morrer
dirão com boas intenções
que eu não soube chorar.

Agora chove de novo.
Nunca foi tão tarde às 25 pras 7
como hoje.

Sinto desejos de rir
ou de matar-me.

A memória – Roque Dalton


Assim eram as tardes de nossa primeira juventude
ouvíamos as Folhas Mortas My Foolish Heart
ou Sem Palavras no Hotel do Porto
e você tinha um nome claro
que soava muito bem em voz baixa
e eu acreditava nos deuses de meus antigos pais
e te contava doces mentiras
sobre a vida nos distantes países que visitei.
E nas noites de sábado
dávamos largos passeios sobre a areia úmida
descalços de mãos dadas em um profundo silêncio
que só interrompiam os pescadores em suas embarcações iluminadas
desejando-nos a gritos felicidade.

Depois regressávamos à cabana de Billy
e tomávamos um copo de conhaque frente ao fogo
sentados na pequena almofada de Lurçat
e logo eu te beijava a cabeleira solta
e começava a percorrer teu corpo com estas mãos sábias
que nunca tremeram no amor ou na batalha.

Tua nudez surgia na pequena noite da alcova
do fogo entre as coisas de madeira
debaixo da lâmpada golpeada
como uma flor rara a de todos os dons
sempre para encher-me de assombro
e chamar-me a novos descobrimentos.

E tua respiração e minha respiração eram dois rios vizinhos
e tua pele e minha pele dois territórios sem fronteira
e eu em ti como a tormenta tocando a raiz dos vulcões
e tu para mim como o desfiladeiro chovido
para a luz do amanhecer.

E chegava o momento em que eras só o mar
só o mar com seus peixes e seus sais
para minha sede com seus vermelhos secretos coralinos
e eu te bebia com a generosidade do pequenino
outra vez o mistério de toda a água junta
no pequeno buraco aberto na areia pelo menino.

Ai amor e esta é a hora poucos anos depois
em que teu rosto começa a fazer-se débil
e minha memória está cada vez mais vazia de ti.

Teu nome era pequeno e aparecia numa canção
daquele tempo.

Elementos (Roque Dalton)


A organização de vanguarda
nível de experiência e organização das massas
a análise de conjunto e dos detalhes
a conjuntura de auge
a audácia as armas a serenidade a tenacidade
a intransigência na estratégia
a flexibilidade na tática
a clareza nos princípios
a clandestinidade operativa
a localização do momento preciso
os motores do amor e do ódio
métodos meios e preparação adequados
técnica ciência e arte
o conhecimento de toda a experiência anterior
mais e mais audácia
ofensiva constante
a concentração na direção principal
queimar as pontes e ao mesmo tempo
não jogar todo o jogo em uma só carta
máxima segurança só depois de aceitar
as últimas conseqüências
alianças uniões apoios neutralizações
planejamento global da confrontação
marco mundial
nível moral de nossas forças
mais audácia
autocrítica constante
e mais audácia

As promessas (Roque Dalton)


Tu serás a última mulher da minha vida
Oh Rosei Marie “blanche colombienne” lábios de flor recém colhida

Teus olhos profundos alcançam – e preenchem de luz –
os anos que me restam para adivinhar o dia de minha morte.

(As melhores promessas são as que – ditas ardentemente –
se violam logo com grande dor
debaixo da sombra de todos os remorsos).

Tu serás a última mulher da minha vida
oh pequena Cristina…

V.I. em seu escritório, a sós


Lênin chega à estação Finlândia-Rússia, voltando de seu exílio suiço. Em seu discurso na própria estação defende, contra a opinião de todos do partido, a necessidade de levar a revolução adiante.


Abaixo um pequeno poema do “Livro Vermelho para Lênin” do poeta Roque Dalton. Pra mim, esse poema descreve o momento em que Lênin, exilado em Berna, na Suíça, diante dos dilemas teóricos e concretos do processo revolucionário russo, decide estudar a obra mais difícil de Hegel: A Lógica. Por que exatamente estudar Hegel em um momento tão turbulento? “Ora, Lênin sentiu a necessidade de buscar pressupostos científicos e filosóficos para fundamentar em um novo patamar teórico suas posições políticas. Tudo indica que, ao procurar Hegel, o dirigente russo não queria politizar a filosofia mecanicamente, mas teorizar a política dialeticamente. Em certo sentido seguia os passos de Marx, que sentira a necessidade de voltar à Ciência da Lógica antes de redigir O Capital.” (trecho do texto de Cristiano Capovilla)

Depois da absorção da dialética em nível mais profundo, Lênin volta para a Rússia certo de que a tomada do poder deveria ser levada a cabo… convence seus companheiros de partido ao longo de debates e mais debates (todos eram contrários a tomada do poder naquele momento) e a revolução russa tem início. Pra mim, esse poema descreve esse momento único na história da humanidade, em que Lênin, lendo a Lógica de Hegel compreende num mais profundo nível a dialética viva da história e percebe a necessidade de fazer a revolução mesmo que as condições históricas aparentes não indicassem essa possibilidade.

V.I. EM SEU ESCRITÓRIO, A SÓS

A Jesús Diaz

Pensar em plena meianoite histórica:
oh fogo cordial na casa que cresce
em meio à tempestade,
oh vibração que salva a vigília,
oh rio que saúda o deserto invadindo-lhe.

Dois olhos vivos,
microscopiantes e telescópicos
no lago de luz da pequena lamparina.

E o livro.

O livro,
um amigo-inimigo,
um irmão exigente,
um desafio ou uma armadilha,
uma arma, um trampolim,
uma semente crítica.

E a página branca,
como toda a história da terra
serva dos próximos minutos.

“Lênin foi um poeta, irmão, um poeta”


“Quatro pequenas histórias” abre “Um livro vermelho para Lênin” do poeta guerrilheiro Roque Dalton. Esse “poema” em quatro partes aparece antes mesmo do prólogo onde vai explicar o que se propõem a fazer com o livro. Logo, “Quatro pequenas histórias” funciona quase como uma epígrafe no livro, onde ele vai lançar um pequeno panorama, já polêmico, sobre Lênin. Com a história 1, Dalton nos diz querer fugir do lugar-comum-Lênin usando palavras sólidas, concretas (a questão da concretude volta na última história); na história 2, ironiza sua inocente aproximação das idéias e dos feitos do líder bolchevique; na história 3, Roque nos oferece um mosaico de apresentações sobre quem foi Lênin, frases e trechos que vão da direita à ultra-esquerda (apenas uma das frases não aparece com aspas, o que nos indica que é sua própria voz) Seria legal tentar descobrir quem proferiu cada umas dessas frases… algo pro futuro; e, por fim, na história 4, fala da contribuição de Lênin, um lutador que deu coração à verdade, deu carne e vida à luta. Dalton faz questão de mostrar como Lênin, ao contrário do que se diz dele, é um pensador de extremo dinamismo, pois entende a verdade como concreta: não concreta como um pedra, mas concreta como a própria luta de classes. Uma bonita abertura para o livro, já apontando o que nos espera.

1
Quatro pequenas histórias

“Um homem passou pela terra
e deixou seu coração ardendo entre os homens…
Tua morte criou um aniversário
maior que o aniversário de uma montanha…

Contigo a morte se faz maior que a vida…
Desde hoje nosso dever é defender-te de ser Deus.”
Vicente Huidobro

I
As palavras

É fácil dizer
o maior homem deste século
expor as palavras como flâmulas
porque outra festa vai começar
o mais humano o mais simples
coração do pensamento e
pensamento do coração
(incitados simplesmente a nos alegrar
o coração feito um jovem acordeón
para hinos e loas)
o que mais construiu
o que melhor ensinou a destruição construtiva
e a simples construção baseada no trabalho.

Porque a um homem como ele
se pode acudir tranquilamente com um lugar comum
com uma sentença tirada dos livros sagrados
ou com o que diz uma criança ao despertar.

No entanto
queremos para nomeá-lo palavras sólidas
que resistam em meio à noite
aos novos ventos do mundo
palavras filhas de suas palavras
fundadoras
pétreas
incomovíveis
preparadas para a luta e para a fraternidade
para a luta da fraternidade

As palavras não para a dança
ou declamação em nosso mundo urgente
senão para desentranhar a sede
o grito
o proclamado “Basta já!” dos famintos
mestiços pela obscuridade da exploração
e para a luz da fúria

As palavras para o canto das consciências

II
Em 1975 eu vi a Lênin em Moscou (I)

E escrevi então um poema com pedidos muito íntimos, de acordo completamente com os vintedois anos de idade de uma pessoa que desejaria ter toda a vida vintedois anos de idade:

“Para os campesinos de minha pátria
quero a voz de Lênin.

Para os proletários de minha pátria
quero a luz de Lênin.

Para os perseguidos de minha pátria
quero a paz de Lênin.

Para a juventude de minha pátria
quero a esperança de Lênin.

Para os assassinos de minha pátria,
para os carcereiros de minha pátria,
para os que que desdenham minha pátria,
quero o ódio de Lênin,
quero o punho de Lênin,
quero a pólvora de Lênin.”

Eu era ainda católico militante e, no entanto, antes de regressar a El Salvador, depois de uma longa travessia soviético-européia, fui interrogado ao sair de Lisboa, impedido de descer a terra em Barcelona e nas Ilhas Canárias, perseguido em Caracas (onde desembarquei por erro das autoridades pérez-jimenistas do porto de La Guaira), detido pelo FBI no Panamá, etcétera. Comecei a saber que Lênin, e tudo que se relacionava com ele era algo muito sério. Muito sério.

III
Concurso no Terceiro Mundo

“Me perguntam quem foi Vladimiro Ilich Uliánov, chamado Lênin, ou mais bem dito Ene Lênin, que era o pseudônimo que usara na clandestinidade e para assinar muitos artigos. Como todo o mundo sabe, Lênin foi quem aplicou o marxismo ao problema da tomada do poder na Rússia e à construção do primeiro Estado proletário do mundo. Mas não é isso o mais importante. Em seu livro fundamental, Materialismo e empirocriticismo, página 52 da edição Rússia, Lênin disse…”

“Lênin? O anticristo, sem dúvida. Tenho um pequeno opúsculo, com base rigorosamente bíblica, que o prova terminantemente.”

“Lênin, como Jesuscristo, era uma visão evoluída, no sentido de Teilhard de Chardin, do amor.”

“O camarada Lênin foi o genial discípulo e continuador de Marx, mestre do camarado Stalin, fundador da pátria do proletariado mundial, pai de todos os trabalhadores do mundo.”

“Lênin foi simplesmente um homem sério e disciplinado. Um homem de sentido comum. Ou seja: todo o contrário de um aventureiro. O que passa é que essas virtudes tão necessárias em um dirigente se encontram já juntas nestes tempos.”

“O companheiro Lênin foi, como todo estudioso sabe, antes de tudo, o autor do par de livros mais importantes da história do pensamento econômico moderno: O desenvolvimento do capitalismo na Rússia e O imperialismo, fase superior do capitalismo.

“Lênin foi o fundador da teoria da revolução permanente.”

“Lênin é a liberdade do homem na história. Um símbolo.”

“Lênin foi o homem novo que, como todo o mundo sabe, existiu sempre…”

“O camarada Lênin foi quem ordenou aos destacamentos revolucionários para se armarem “por si mesmos e com o que podiam (fuzil, revólver, bombas, facas, luvas, garrotes, cordas ou escadas de corda, pás para construir barricadas, minas de piroxilina, arames de puas, pregos contra a cavalaria, etcétera, etcétera)”. E foi quem agregou: “Em nenhum caso se deverá esperar a ajuda indireta, de cima, de fora: tudo deverá obter-se por meios próprios” (1905)”.

Lênin foi a primeira vítima importante de Stálin.

“Lênin? (Tosse). Bom, depois da paz de Brest…”

“Lenine foi o grande amigo e camarada (em sentido dialético) de León Trotsky”.

“Lênin foi quem formulou, em essência, a teoria do foco insurrecional.”

“Lênin salvou o bolchevismo do trotskismo.”

“Lênin? Uma formidável força moral. Não existirá outro Lênin e a autêntica revolução não poderá fazer-se em um país incapaz de produzir um Lênin. Não digo eu em nosso, em que um mínimo sentido de decência nos obriga aos revolucionários a renunciar aos êxitos de uma larga vida política, irreprovável e clara, e preferir o duro retiro e a meditação nas aras do dever moral de hoje, expulso das ruas e refugiado nos corações individuais dos fortes de espírito… (Tosse grave)”.

“Lênin: uma psicologia interessantíssima, com muito de oriental…”

“Lênin foi um poeta, irmão, um poeta”.

IV
A verdade é concreta

(a)

Tu destes um coração de carne e sangue à verdade
mas nos advertiu que funcionava
como uma bomba de tempo
ou como uma maçã.

Que poderia servir para voar a maquinaria do ódio
mas que também poderia apodrecer.

(b)
Ai dos que crêem que porque a verdade é concreta
ela é somente como uma pedra, como um bloco de concreto ou um ladrilho!

Uma bicicleta,
um jato,
uma astronave,
são coisas concretas como a verdade.

O mesmo que um quebra-cabeça.
E um combate corpo a corpo.

Dialética das gêneses, crises e renascimentos


(Tradução de um poema de Roque Dalton (“Un libro rojo para Lenin”) que vou utilizar como epígrafe no meu texto de qualificação para o mestrado.)

Dialética das gêneses, crises e renascimentos

I
Por ti evitamos pôr o Partido nos altares.

Porque nos ensinastes que o Partido
é um organismo que existe no cambiante mundo do real
e que sua enfermidade é semelhante a uma bancarrota.

Por ti sabemos, Lênin,
que o melhor berço do Partido
é o fogo.

II
Por ti compreendemos que o Partido pode aceitar qualquer clandestinidade
menos a clandestinidade moral.

Por ti sabemos que o Partido se constrói
à imagem e semelhança dos homens
e quando não é à imagem e semelhança dos melhores homens
é necessário voltar a começar.

Um livro vermelho para Lênin



O poeta e guerrilheiro de El Salvador, Roque Dalton, e sua família

Roque Dalton é o poeta da américa-latina que mais admiro, tanto por sua disposição militante para a luta, quanto pela sua poesia de vanguarda. Já venho traduzindo poesias dele há algum tempo. Parte dela pode ser vista aqui. Tempos atrás, ganhei de uma querida amiga o livro “Un libro rojo para Lênin”, em que Dalton elabora uma de suas mais ousadas obras, uma colagem de poesias suas e fragmentos de outros pensadores. Esse livro é fruto de seu longo estudo sobre o pensamento do líder da revolução russa, Lênin. Infelizmente, o pensamento leniniano, após a falência da experiência russa, foi enormemente distorcido. Muitos ainda associam a Lênin violência, autoritarismo, irracionalismo. Desprezam que Lênin foi justamente o filósofo-lutador marxista que mais brilhantemente se debruçou sobre o processo de consciência, sobre o processo necessário de organização, sobre a democracia operária. Roque Dalton busca com seu “livro vermelho”, ao mesmo tempo, prestar homenagem a esse grande pensador, mas também desafiá-lo, buscando compreender como o pensamento de Lênin poderia se adaptar a realidade latina (que na época passava pelas guerrilhas). Dalton monta seu discurso, ao longo do livro, recortando trechos de outros discursos e os iluminando a partir de seu olhar. Por isso, uma colagem. Dalton consegue, ao mesmo tempo, elaborar uma obra de arte e elaborar um livro filosófico, reflexivo, de teses. Homenageia e desafia Lênin como Lênin, certamente, gostaria.

Estou decidido a traduzir esse livro para o português. Abaixo alguns poemas. Antes, um dos últimos poemas de Mario Benedetti (grande poeta uruguaio que faleceu em 2009), um inédito divulgado recentemente pelo jornal La Vanguardia. Interessante notar como em um de seus últimos poemas Benedetti menciona Dalton, um dos poetas que mais admirava.

“LIVROS”, POEMA INÉDITO DE MARIO BENEDETTI

Quero ficar no meio dos livros
vibrar com Roque Dalton com Vallejo e Quiroga
ser uma de suas páginas a mais inesquecível
e dali julgar o pobre mundo
não pretendo que ninguém me encaderne
quero pensar rusticamente
com as pupilas verdes da memória franca
no breviário da noite instável
meu abecedario dos sentimentos
sabe pousar em meus queridos nomes
me sento cômodo entre tantas folhas
com advérbios que são revelações
sílabas que me pedem um socorro
adjetivos que parecem joguetes
quero ficar no meio dos livros
neles aprendi a dar meus passos
a conviver com manhas* e sopros vitais
a compreender o que criaram outros
e a ser por fim este pouco que sou.”

* pode ser também: manhãs

ELEMENTOS (Roque Dalton)

A organização de vanguarda
nível de experiência e organização das massas
a análise de conjunto e dos detalhes
a conjuntura de auge
a audácia as armas a serenidade a tenacidade
a intransigência na estratégia
a flexibilidade na tática
a clareza nos princípios
a clandestinidade operativa
a localização do momento preciso
os motores do amor e do ódio
métodos meios e preparação adequados
técnica ciência e arte
o conhecimento de toda a experiência anterior
mais e mais audácia
ofensiva constante
a concentração na direção principal
queimar as pontes e ao mesmo tempo
não jogar todo o jogo em uma só carta
máxima segurança só depois de aceitar
as últimas conseqüências
alianças uniões apoios neutralizações
planejamento global da confrontação
marco mundial
nível moral de nossas forças
mais audácia
autocrítica constante
e mais audácia

AS FORMOSAS CAIXINHAS (Roque Dalton)

Não nos negamos a nos auto-batizarmos
como marxistas-leninistas-maotsetunguistas-hochiminhistas-
kimilsunguistas-fidelistas-guevaristas.

Apenas
pensamos em dar os primeiros passos.

Porém
que orgulho interior!,
que imensa alegria,
se amanhã,
algum dia,
aqueles que não tenham medo das palavras
nos qualificarem assim!

RETRATO (A) (Roque Dalton)

“Como você, como eu, foi semelhante a todos.
Somente, talvez, bem perto dos olhos,
o traço do pensar lhe enrugava a pele
mais que em nós
e eram talvez mais firmes
e zombeteiros seus lábios.”

Maiakovsky, em V.I. Lenin.

RETRATO (D) (Roque Dalton)

(A idade de Lênin no aniversário de seu centenário)

Quando morreu tinha
54 anos de idade física.
E (unanimemente aceito como computável)
1924 anos de idade (sabedoria) mental.

Hoje (ainda que no mausoléu não aparente)
tem 100 anos de idade física.

E 1970 da outra.

AS ASPIRAÇÕES (MÍNIMAS E URGENTES) DE UM LENINISTA LATINOAMERICANO (Roque Dalton)

Aspiramos
(mas com nossa ação
não com nossos narizes)
à criação de um partido revolucionário de combate
que dirija as mais amplas massas do povo
como vanguarda da classe operária
real ou em potência
(as palavras “real ou em potência” se referem aqui
à classe operária não à vanguarda)
a uma estratégia tatificada
e a uma tática filha de uma estratégica
aspiramos
a honrosa inimizade dos oportunistas
a esvaziar as armas da crítica
e a carregá-las outra vez para disparar de novo
a exercer
a crítica das armas *
(depois de conseguir
construir
engraxar
manejar até a perfeição
e saber quando e contra quem usar
essas armas)
aspiramos dar três passos adiante **
para cada passo atrás
aspiramos nos curar de nossas doenças infantis ***
mas sem envelhecer
aspiramos a saúde juvenil perene
não a normal senilidade
e aspiramos
acima de todas as coisas
(por agora
mas também desde agora)
ao poder político em nossa nação
ao poder político
ao poder
ao poder

* Referência a famosa frase de Marx: “As armas da crítica não podem, de fato, substituir a crítica das armas; a força material tem de ser deposta por força material, mas a teoria também se converte em força material uma vez que se apossa dos homens.” (Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel)
** Referência ao famoso artigo de Lênin “Um passo adiante, dois passos atrás”.
*** Referência ao famoso texto de Lênin “Esquerdismo: doença infantil do comunismo”

RECORDA (Roque Dalton)

(tese)

Tu
que pensas que aos homens
se deve jugá-los pelo que fazem
e não pelo que dizem
pensa bem
porém
recorda
que há alguns homens
que o que fazem
é dizer QUE FAZER*.

* Um dos livros mais célebres de Lênin, onde elabora, de forma inicial, sua teoria de organização, sua teoria do partido revolucionário, chama-se: “Que fazer?”

Dalton


Meu amor por ti é muito mais que amor…

Meu amor por ti é muito mais que amor,
é algo que se amassa dia a dia,
é projetar tua sombra junto a minha,
fazer com elas uma só vida.

Os olhares que já ao conhecer
se falam entre si na distância,
não fazem falta palavras…eu não ligo!
se já interpretamos o que clamam.

Os mil detalhes que tens tu por mim,
meu descaramento ao advertir o que falhas,
o ser sincero quando se deve dizer
o que sinceramente não se cala.

Meu amor por ti é muito mais que amor.
Meu amor por ti é como uma nevada,
uma torrente de luz, algo tão belo…
como o sol se por ou amanhecer a alba.

Tua companhia

Quando anoitece e fraca
uma forma de paz se me acerca,
é tua lembrança pão de semeadura, fio místico,
com que minhas mãos quietas
são previsoras para meu coração

Diría-se: para o cego distante
que mais dará a espuma, o pó?

Porém és tu solidão a que povoa minhas noites,
quem não me deixa só, a ponto de morrer.
Somos de tal maneira multitude silenciosa…

Dalton e Lênin!


Caderno que Roque usava pelo mundo afora (e na guerrilha) para escrever suas poesias. Clique para ampliar.

Abaixo a tra(b)dução de um poema do poeta guerrilheiro Roque Dalton que li num momento muito forte, daqueles momentos que te fazem sentir a beleza brilhante dos caminhos que se cruzam, que tudo é tanto (e ainda tão pouco). Esse poema está no livro “Un libro rojo para Lenin” do qual estou profundamente incubido de traduzir… esse livro é um dos livros mais ousados de Dalton, um ‘poema-collage’, como ele mesmo intitula, onde, através de fragmentos em prosa, em poesia, citação de documentos oficiais de Lênin, diálogos imaginários entre grandes personagens históricos, Roque faz uma homenagem desafiante a Lênin, quebrando toda a respeitosa-ortodoxia para tratar o leninismo (Dalton estudou longamente Lênin para fazer esse livro, construído ao longo de anos em vários países). Dalton queria, ao mesmo tempo, proteger o pensamento leninista do uso vulgar que ganhava espaço na União Soviética (Stalin) e levar adiante a reflexão de Lênin, colocando-a em contato com a realidade latinoamericana.

Roque Dalton e Lênin: maior tesão poético-revolucionário que isso?

Teria dito Otto René Castillo* pensando em Lênin

Ninguém vai à montanha buscar a glória. Ninguém
que não seja um imbecil, quero dizer. No fundo
ninguém elabora sua poesia pela glória. Ninguém
que seja um poeta, quero dizer. Admito
que os que vão à montanha, em ocasiões
se colocam o problema da morte eventual
em forma quase sensualista. Mas os poetas
costumam ser sensualistas e até obscenos, pode-se dizer.
Ir à montanha hoje na América Central
é aceitar o problema pessoal da vida e da morte
em uma proporção de sessenta por cento para a morte
e de quarenta por cento para a vida.
Assumir estas cifras
não é um desvio católico do marxismo. O inimigo
é mais forte que nunca porque nós
somos mais débeis e estamos mais divididos que nunca. Ir
à montanha é um ato político-militar
e não uma atitude poética tradicional. Se trata de por
uma pedra em nosso prato da balança
e não de uma efusão espiritual. Assim
cada um é livre para ir-se à montanha com
sua poesia, suas efusões espirituais, seus amuletos**.
Na verdade, as unidades guerrilheiras transbordam de poesia,
efusões espirituais e amuletos, mas se servem mais
e melhor da boa pontaria, da resistência física e das facas de caça.
Estas são algumas verdades que honram sobremaneira ao poeta guerrilheiro.
Em geral, é certo que o sacrifício
que não tenha uma eficácia real na história é idiota.
Creio que esta é uma conclusão de espírito leninista.
Porém, quem pode saber antecipadamente o que terá
eficácia real na história? Tratar de obter essa eficácia
arriscando a vida é a maior grandeza do homem.
O camarada Lênin estaria de acordo. Ele, que sempre
nos buscou a mística chaga da dignidade e da honra.
Ele, que vive em suas palavras unicamente para aqueles
que vão mais além das palavras.

* Otto René Castillo foi um poeta guerrilheiro da Guatemala amigo de Roque Dalton. Otto foi assassinado nas montanhas, na guerrilha para libertar seu país.

** A palavra original é ‘guardapelos’, daqueles pingentes que se pode abrir e ver uma foto dentro… geralmente trocados entre amantes… não achei um termo equivalente em português. Pensei em ‘relicário’, ou ‘pingente’ mesmo… mas senti que ‘amuleto’ transmitiria um pouco melhor a idéia que inferi do texto.

praquês


Mergulhado esta semana nos livros, tentando escrever alguma coisa da dissertação de mestrado… mergulhado em gramsci… nesses mergulhos não é difícil ir esquecendo das motivações reais de tudo isso (a universidade, o intelecto, a vaidade vão te seduzindo com outras tantas motivações). Aqui tra(b)duzo um poema do Roque Dalton que me ajuda a não esquecer dos verdadeiros porquês. E depois um trechinho que achei bonito do Gramsci…

A pequena burguesia

(sobre uma de suas manifestações)

Os que
no melhor dos casos
querem fazer a revolucão
para a História para a lógica
para a ciência e natureza
para os livros do próximo ano ou do futuro
para ganhar a discussão e inclusive
para sair, enfim, nos jornais
e não simplesmente
para eliminar a fome
dos que têm fome
para eliminar a exploração dos explorados.
É natural então
que na prática revolucionária
cedam somente ante ao juízo da História
da moral do humanismo da lógica e das ciências
dos livros e dos periódicos
e se neguem a conceder a última palavra
aos esfomeados, aos explorados
que têm sua própia história de horror
sua própria lógica implacável
e terão seus própios livros
sua própria ciência
natureza
e futuro.

Trecho Gramsci sobre mudança individual x social

“(…)O homem deve ser concebido como um bloco histórico de elementos puramente subjetivos e individuais e de elementos de massa e objetivos ou materiais, com os quais o indivíduo está em relação ativa. Transformar o mundo exterior, as relações gerais, significa fortalecer a si mesmo, desenvolver a si mesmo. É uma ilusão e um erro supor que o “melhoramento” ético seja puramente individual: a síntese dos elementos constitutivos da individualidade é “individual”, mas ela não se realiza e desenvolve sem uma atividade para fora, transformadora das relações externas, desde aquelas com a natureza e com os outros homens em vários níveis, nos diversos círculos em que se vive, até a relação máxima, que abarca todo o gênero humano. Por isso, é possível dizer que o homem é essencialmente “político”, já que a atividade para transformar e dirigir conscientemente os outros homens realiza sua “humanidade”, a sua “natureza humana”.”
[pag. 406-407 (cadernos do cárcere, caderno 10)]

Dalton, o ressuscitador

tem noites, também, que o peito é uma chuva de ventos. aí, é marrar as palavras no mastro dum silêncio. e deixar a noite açoitar o barco. aguardar até o preciso que navegar é. âncora jogada, aqui… Roque Dalton, novamente.

O RESSUSCITADOR (Eduardo Galeano)

“Roque Dalton, aluno de Miguel Mármol no ofício muito salvadorenho de ressuscitar, se salvou duas vezes de morrer fuzilado. Uma vez se salvou porque caiu o governo e outra vez se salvou porque caiu a parede, graças a um oportuno terremoto que permitiu que fugisse. Também se salvou dos torturadores, que o deixaram destroçado mas vivo, e dos policiais que o cobriram de balaços. E se salvou dos antipáticos do futebol que o botavam pra correr a pauladas, e se salvou das fúrias de uma porca parida e de numerosos maridos sedentos de vingança. Poeta profundo e brincalhão, preferia arriscar a pele a se levar a sério, e assim se salvou da solenidade, da grandiloquência e de outras enfermidades que gravemente acometem a poesia política latinoamericana.

Não pode se salvar de seus companheiros. Com pena de morte castigaram sua discrepância, por ser a discrepância delito de alta traição.

Dalton não se salvou da bala que veio do seu lado.”

Trecho de depoimento de Ernesto Cardenal

“A Roque Dalton eu recordo rindo. Fraco, de un branco pálido, ossudo, narizão como eu, e sempre rindo. Não sei porque sempre te recordo rindo, Roque Dalton. Um revolucionário sorridente. Não é que os revolucionários sejam especialmente sérios nem muito menos, mas é que ele era um revolucionário especialmente sorridente. Se ria em primeiro lugar de si mesmo. Se ria de coisas ridículas de El Salvador, e sempre estava falando de El Salvador e é que gostava muitísimo de seu país, “Pulgarcito”. Se ria da burguesia salvadorenha naturalmente, e nos fazia rir a todos. Ria dos jesuítas com os quais se havia educado e em cujo colégio havia «perdido a fé» (também ria desta expressão) para entrar no Partido Comunista e também ria de coisas de seu Partido Comunista (porém, de todo modo era seu partido).”
Ernesto Cardenal (poeta lutador já apresentado aqui).

PARA A PAZ (Roque Dalton)

Será quando a lua se despedir da água
com sua corrente oculta de luz inenarrável

Roubaremos todos os fuzis
apressadamente.

Não há que matar o sentinela, o pobre
só é função de um sonho coletivo
um uniforme repleto de suspiros
recordando o arado.
Deixemos que beba ensimesmado sua lua e seu granito.

Bastará com a sombra lançando-nos suas pálpebras
para chegar ao ponto.

Roubaremos todos os fuzis
irremessivelmente.

Teremos que transportá-los com cuidado
mas sem nos determos
e abandoná-los entre detonações
nas pedras do pátio:

Fora dali, já somente o vento.

Teremos todos os fuzis
alvoroçadamente.

Não importará a geada momentânea
dando-se de pedradas com o suor de nosso sobressalto,
nem a duvidosa relação de nosso alento
com a ampla neblina, milionária em espaços:
caminharemos até os semeadouros
e enterraremos esperançosamente
a todos os fuzis
para que uma raiz de pólvora faça estalar em mariposas
seus caules minerais
em uma primavera futura e altiva
repleta de pombas.

O VAIDOSO (Roque Dalton)

Eu seria um grande morto.
Meus vícios então luziriam como jóias antígas
com essas deliciosas cores do veneno.
Haveria flores de todos os aromas em minha tumba
e imitariam os adolescentes meus gestos de júbilo,
minhas ocultas palavras de angústia.
Talvez alguém diria que fui leal e bom.
Mas só tu recordarias
minha maneira de olhar nos olhos.

O QUE FALTA (Roque Dalton)

“…a outra pessoa, como pessoa, se converteu em uma necessidade para ele…” Marx

“Os clássicos são interessantes.”
blasfêmia minha de ontem, ao sair de Romeu e Julieta.

Hoje aumentou a cota de tomate pra salada
e apareceram umas acelgas enormes.

O pão sobra, os ovos chegam, o arroz e o feijão
jorra e enjoa.

A escassez dá um pouco de fome mental
e muitíssima da outra, dizia ontem o gordo Flores.

Mas com merluza e duas bistecas
deixaremos a semana pra trás.
O que verdadeiramente falta em Cuba
é você.

MEDO (Roque Dalton)

para Julio Cortázar

Um anjo solitário na ponta do alfinete
ouve que alguém urina.

E APESAR DISSO, AMOR… (Roque Dalton)

E apesar disso, amor, através das lágrimas,
eu sabia que ao fim ia acabar
desnudo na ribeira do riso.
Aqui,
hoje,
digo:
sempre recordarei tua nudez entre minhas mãos,
teu cheiro de desfrutada madeira de sândalo
cravada junto ao sol da manhã;
tua risada de garota,
ou de arroio,
ou de pássaro;
tuas mãos largas e amantes
como um lírio traidor a suas antigas cores;
tua voz, teus olhos,
o abarcável de ti que entre meus passos
pensava sustentar com as palavras.

porém, já não há mais tempo de chorar…

Terminou
a hora das cinzas pro meu coração.

Faz frio sem você,
mas se vive.

O GENERAL MARTÍNEZ (Roque Dalton)

Dizem que foi um bom presidente
porque repartiu casas baratas
aos salvadorenhos que ficaram…