Baldomero Fernández Moreno (Argentina, 1886-1950)

A minha querida amiga e companheira de lutas Tina acabou de chegar de Cuba e trouxe pra mim vários livros de poesia cubana: antologia de Nicolás Guillén (maior poeta cubano), poesias de José Martí para crianças, uma antologia de poesia cubana organizada por José Lezama Lima e vários poetas contemporâneos cubanos!!! Imaginem minha felicidade! =) Material que estou sedento por ler e traduzir aqui pra vcs! Um dos livros é uma deliciosa antologia de ˜poesia amorosa da américa latina˜. Abri essa antologia rapidinho e dei de cara com um curioso soneto de Baldomero Fernandez, poeta argentino que era muito admirado por Jorge Luis Borges. Segue:

SONETO DE TUAS VÍSCERAS

Farto já de louvar tua pele dourada,
tuas externas e muitas perfeições,
canto o jardim azul de teus pulmões
e a tua traquéia elegante e anelada.

Canto a tua massa intestinal rosada,
ao baço, ao pâncreas, aos omentos**
ao duplo filtro cinza de teus rins
e a tua matriz profunda e renovada.

Canto o tutano doce de teus ossos,
à linfa que embebe teus tecidos,
ao acre odor orgânico que exalas.

Quero gastar tuas vísceras a beijos,
viver dentro de ti com meus sentidos…
Eu sou um sapo negro com duas asas.

** omentos: são reflexões peritoniais largas e amplas, que se dispõe entre duas vísceras.

Do amor…

Um trecho de Rayuela, de Cortázar, tradução de Fernando de Castro, indicação da apaixonada Tatiana Vargas! 😉

Mas o amor, essa palavra… Moralista, Horácio, temeroso de paixões sem uma razão de águas fundas, desconcertado e arisco na cidade onde o amor se chama com todos os nomes de todas as ruas, de todas as casas, de todos os andares, de todos os quartos, de todas as camas, de todos os sonhos, de todos os esquecimentos ou recordações. Amor meu, não te amo por ti nem por mim nem pelos dois juntos, não te amo porque o sangue me faça te amar, amo-te porque tu não és minha, porque tu estás do outro lado, desse lado para onde me convidas a saltar e não posso dar o salto, porque no mais profundo de tudo tu não estás em mim, e não te alcanço, não consigo passar para lá do seu corpo, do teu riso, há horas em que me atormento por saber que tu me amas (como gostas de usar o verbo amar, com que pretensão vais deixando cair o verbo amar sobre os pratos, os lençóis e os ônibus), atormento-me com o teu amor que não me serve de ponte, pois uma ponte não se apóia de um lado só, Wright ou Le Corbusier jamais farão uma ponte apoiada de um só lado e na me olhes assim com esses olhos de pássaro, para ti a operação do amor é muito fácil, tu ficarás curada antes de mim, e a verdade é que não amo aquilo que amas em mim. É claro que tu depressa te curarás, porque vives na saúde, depois de mim será outro qualquer, isso muda como os espartilhos. É tão triste ouvir o cínico Horácio que deseja um amor passaporte, amor alpinista, amor chave, amor revólver, amor que lhe dê os mil olhos de Argos, a ubiqüidade, o silêncio no qual a música é possível, a raiz na qual se poderia começar a tecer uma língua. E é ridículo porque tudo isto dorme um pouco em ti, seria suficiente submergir-te num copo de água, como uma flor japonesa, e estou certo de que, pouco a pouco, começariam a brotar pétalas coloridas, as formas curvas aumentariam, a beleza cresceria. Doadora de infinito, eu não sei tomar, perdoa-me. Tu parece oferecer-me uma maçã e eu deixei os dentes sobre a mesa de cabeceira. Stop, tudo já está bem, assim. Também sei ser grosseiro, note bem. Mas note bem porque não é gratuito.
Por que stop? Por medo de começar as fabricações, são tão fáceis. Tira-se uma ideia de algum lugar, um sentimento de outra estante, amarra-se tudo com a ajuda de palavras, cadelas negras: e resulta que te amo. Total parcial: te amo. Total geral: te amo. Muitos amigos meus vivem assim, sem falar de um tio e dois primos, convencidos do amor-que-sentem-por-suas-esposas. Da palavra ao ato, meu amigo; em geral, sem verba não há comida. Aquilo que muita gente chama amar consiste em escolher uma mulher e casar com ela. Escolhem, juro, já os vi. Como se se pudesse escolher no amor, como se amar não fosse um raio que quebra os ossos e nos deixa paralisados no meio do pátio. Tu dirás que eles escolhem porque-a-amam; creio que é o contrário. Não se pode escolher Beatriz, não se pode escolher Julieta. Não podemos escolher a chuva que nos vai encharcar até os ossos quando saímos de um concerto. (….)

Olga Orozco – mais traduções

Resgatando e melhorando duas antigas tra(b)duções de poemas de Orozco que, por sua vez, me tra(b)duzem 😉

O jardim das delícias (Olga Orozco)

Acaso é nada mais que uma zona de abismos e vulcões em
plena ebulição, predestinada às cegas para as cerimônias da
espécie nesta inexplicável travessia para baixo? Ou talvez um
atalho, uma emboscada obscura onde o demônio aspira a inocência
e sela à sangue e fogo sua condenação na estirpe da alma? Ou
quiça tão somente uma região marcada como uma cruz de encontro
e desencontro entre dois corpos submissos como sóis?
Não. Nem viveiro da Perpetuação, nem frágua do pecado original,
nem armadilha do instinto, por mais que apenas um vento exasperado
propague por sua vez a fumaça, a combustão e a cinza. Nem sequer
um lugar, ainda que se precipite o firmamento e haja um céu que
foje, inumerável, como todo instantâneo paraíso.

Sozinha, só um número insensato, uma prega nas membranas
da ausência, um relâmpago sepultado em um jardim.

Mas basta o desejo, o sobressalto do amor, a sirena da
viagem, e então é mais um nó tenso em torno do feixe de
todos os sentidos e suas múltiplas ramas ramificadas até a
árvore da primeira tentação, até o jardim das delícias e
suas secretas ciências de extravio que se expandem de repente
da cabeça até os pés igual que um sorriso, o mesmo
que uma rede de ansiosos filamentos arrancados dum raio, a
corrente eriçada arrastando-se em busca do extermínio ou da saída,
escorrendo-se para dentro, rastejada por esses sortilégios que são
como tentáculos de mar e que arrebatem com vertigem indizível
até o fundo do tato, até o centro sem fim que se desfunda
caindo desde do alto, enquanto passa e trespassa essa orgânica
noite interrogante de cristas e focinhos e buzinas, com
ofegar de besta fugitiva, com seu flanco atiçado pelo chicote
do horizonte inalcançável, com seus olhos abertos aos mistério
da dupla treva, derrubando com cada sacudida a nebulosa
maquinaria do planeta, pondo em suspensão corolas como
lábios, esferas como frutos palpitantes, borbulhas onde pulsa
a espuma de outro mundo, constelações extraídas vivas de seu
prado natal, um êxodo de galáxias semelhantes a plumas girando
loucamente em um grande aluvião, nesse torvelinho estrondoso que
já se precipita pelo funil da morte com todo o universo
em expansão, com todo o universo em contração para o parto
do céu, e faz estalar de repente a redoma e dispersa no
sangue a criação.

O sexo, sim,
melhor, uma medida:
a metade do desejo, que é apenas a metade do amor.

Para se fazer um talismã (Olga Orozco)

Só é necessário teu coração
feito à viva imagem de teu demônio ou de teu deus.
Apenas seu coração, como um incensário em brasa para a idolatria.
Nada mais que um indefeso coração enamorado.

Abandone-o às intempéries,
deixa-o
lá onde a erva uiva suas queixas de ama louca
e não o permite dormir,
lá onde o vento e a chuva derrubam seu castigo
em um golpe de azul-calafrio
mas sem convertê-lo em mármore
e nem partí-lo em dois
lá onde a escuridão abre suas tocas à todas as selvagerias
e não o deixa, ah,
e não o permite
esquecer…

Ajeita-o, depois, do alto de seu amor
ao fervedouro fundo das brumas.
Então, deixa-o secando no surdo regaço da pedra,
e escava nele, com uma agulha fria e funda,
até arrancar o último grão de esperança.

Permita que o sufoquem as febres e a urtiga,
que o sacuda o trote ritual das matilhas,
que o envolva a injúria feita com os farrapos de suas antigas glórias.
E quando um-dia for um-ano o aprisione com as garras dum século,
antes que seja tarde, antes que seja nunca,
antes que se converta em múmia deslumbrante,
e abre de par em par, pétala-por-pétala,
todas sua feridas:
e as exiba ao sol piedoso do meio-dia como um mendigo o faria,
e lamenta, em delírio, no deserto,
até que somente o eco
de um nome cresça
ali dentro
como a fome
cresce em fúria:
o golpear incessante da colher contra um prato vazio.

Se ainda pulsa,
chegou até aqui como a viva imagem de teu demõnio ou teu deus:
eis aí teu talismã
mais inflexível que a lei,
mais forte que as armas e o mal de teu inimigo.
Guarde-o na vigília de teu peito como um sentinela,
mas… alerta!
Pois pode crescer aí dentro como a mordedura da lepra,
pode se tornar seu carrasco:
o inocente monstro, o insaciável comensal de tua morte!

e dá-lhe Cortázar!

Trecho de “Rayuela” de Cortázar

“Toco a sua boca com um dedo, toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se, pela primeira vez, a sua boca entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade, eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto, e que, por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que minha mão desenha em você. Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõe-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem, com um perfume antigo e um grande silêncio. Então as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se estivéssemos com a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.”

Poema (Cortázar)

Te amo pela sombrancelha. pelo cabelo, te debato em
corredores branquíssimos donde jorram
as fontes de luz,
te discuto a cada nome, te arranco com
delicadeza de cicatriz.
vou te pondo no cabelo cinzas de relâmpago
e fitas que dormiam na chuva.
Não quero que tenha uma forma, que seja
precisamente o que vier detrás de tua mão.
porque a água, observa a água e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitetura de nada,
incendiando as lâmpadas à metade do
encontro.
Toda manhã é a lousa onde te invento
te desenho.
Pronto para te apagar, assim não és, nem tampouco com
esse cabelo escorrido, esse sorriso.
Busco teu sumo, a borda da taça onde o
vinho é também a lua e o espelho,
Busco essa linha que faz tremer a um homem
em uma galeria de museu.
Ademais te quero, e faz tempo e frio.

Julio falando sobre caminhar pelas cidades

José Angel Buesa (Cuba)

Bom, tava procurando poetas novos e topei com o Buesa… vi que era cubano e pensei “hummm… pode ser coisa boa”… já associando sua poesia com o processo revolucionário e tudo mais. Nada disso. Angel foi daqueles que fugiu de Cuba depois da revolução. (Engraçado que nos textos que encontrei apenas se diz “teve que deixar Cuba”, mas não explicam por quê…). Sua obra foi meio que “banida” de Cuba, tida como mau exemplo (tanto pela qualidade – que realmente não é estupenda – como pelos riscos de “contaminação ideológica”). Mas, recentemente, em 1997, a editorial Letras Cubanas reeditou uma antologia de Buesa que é enormemente procurada pelos cubanos, para desespero da “vanguarda literária revolucionária”.

Apesar disso tudo, fui ler, porque poesia é poesia. Buesa foi muito famoso em sua época em Cuba: seu livro “Oásis” é um dos mais lidos na américa latina só perdendo pro “20 poemas de amor e uma canção desesperada” do Neruda. Era conhecido como “poeta enamorado”, “poeta dos enamorados”, porque só escrevia sobre amor, paixão e seus apêndices… sentimentalóide, simples, e, por isso mesmo, muito popular e um tanto desprezado pela crítica. A sua poesia é bobinha, de fato, um tanto inocente, mas tem um poder encantatório, pela própria simplicidade como aborda os temas e também pela gostosa montagem sonora, que me fizeram gostar de vários de seus poemas. Claro, não é algo assim “nossa, você tem que ler isso”… mas ele consegue carregar um pouco da singeleza do Bandeira numa abordagem tão popular e direta dos assuntos do coração que em vários momentos imaginei seus poemas como canções, como sambinhas, com versos do tipo “segundo dizem você já tem outro amante”. Feito e dito: muitos poemas seus foram musicados!

Bom, apesar dos pesares, seguem algumas tra(b)duções que fiz de Buesa… não compartilho com a forma singela e simples com que observar o amor, mas me cativa esse seu jeito ingênuo… tem lá sua beleza (meio folclórica, de uma abordagem tão sentimental e simples que semelha um bibelôzinho de geladeira, com corações e setas… algo entre lupcínio rodrigues e wando).

Ah, me lembrei, em boa hora, que o Roque Dalton (o poeta guerrilheiro) tem um poema em que cita o Buesa (criticando-o indiretamente)… já tra(b)duzi esse poema aqui (aliás, percebi hoje, alegre, que já traduzi quase todo o Dalton!). Coloco primeiro esse poema do Dalton como pré-antídoto para os poemas do Buesa… ahahah. (quem quiser pode pulá-lo e deixar para ler no final 🙂

Poema de Roque Dalton em que cita Buesa:

A cultura e o louco amor (Roque Dalton)

Eu te disse com toda seriedade
“que grande caminho andei
para chegar até aqui”
e você me disse que isso parecia José Angel Buesa
e então me ri todo
e te disse que os versos eram de Nicolas Guillén**
e você (que acabara de sair de tua aula de francês)
me contestou que então era Nicolas Guillén
quem se parecia a José Angel Buesa
eu te disse que se desculpasse imediatamente com
Nicolas Guillén e comigo
e então me disse
que o verdadeiro culpado era eu
por chegar ao José Angel Buesa essencial
através de Nicolas Guillén
então eu te disse que a verdadeira culpada era você
por ser tão puta
e aí foi que você pediu perdão
que estava equivocada
não é que você se parece ao José Angel Buesa
você é um José Angel Buesa.

Então eu saquei a pistola…

** Nicolas Guillén foi um poeta cubano revolucionário. Você pode encontrar tra(b)duções minhas dele aqui mesmo.

POEMA DA RENÚNCIA (José A. Buesa)

Passarás por minha vida sem saber que passaste.
Passarás em silêncio por meu amor, e ao passar,
fingirei um sorriso, como um doce contraste
da dor de querer-te… e jamais o saberá.

Sonharei com o nácar virginal de tua fronte;
sonharei com teus olhos de esmeraldas de mar;
sonharei com teus lábios desesperadamente;
sonharei com teus beijos… e jamais o saberá.

Quiçá passes com outro que te diga ao ouvido
essas frases que ninguém como eu te dirá;
e, afogando para sempre meu amor inadvertido,
te amarei mais que nunca… e jamais o saberá.

Eu te amarei em silêncio, como algo inacessível,
como um sonho que nunca lograrei realizar;
e o distante perfume de meu amor impossível
roçará teus cabelos … e jamais o saberá.

E se um dia uma lágrima denuncia meu tormento,
— o tormento infinito que te devo ocultar —
te direi sorridente: “Não é nada … foi o vento”.
Enxugarei a lágrima … e jamais o saberá!

CANÇÃO DO AMOR DISTANTE (José A. Buesa)

Ela não foi, dentre todas, a mais bela,
mas me deu o amor mais fundo e longo.
Outras me amaram mais; e, no entanto,
a nenhuma desejei como a ela.

Talvez porque a amei de longe,
como a uma estrela desde minha janela…
e a estrela que brilha mais distante
nos parece que tem mais reflexos.

Tive seu amor como uma coisa distante
como uma praia cada vez mais solitária,
que unicamente guarda da onda
uma umidade de sal sobre a areia.

Ela esteve em meus braços sem ser minha,
como a água no cântaro sedento,
como um perfume que se foi no vento
e que volta no vento todavia.

Me penetrou sua sede insatisfeita
como um arado sobre a planície,
abrindo em seu fugaz desprendimento
a esperança feliz da colheita.

Ela foi o próximo no longínquo,
mas preechia todo o vazio,
como o vento nas velas do navio,
como a luz no espelho quebrado.

Por isso ainda penso na mulher, aquela,
a que me deu o amor mais fundo e longo…
Nunca foi minha. Não era a mais bela.
Outras me amaram mais… E, no entanto,
a nenhuma desejei como a ela.

POEMA DA CULPA (José A. Buesa)

Eu a amei, e era de outro, que também a queria.
Perdoai a ela, Senhor, porque a culpa é minha.
Depois de haver beijado seus cabelos de trigo,
nada importa à culpa, pois não importa o castigo.

Foi um pecado desejá-la, Senhor, e, no entanto
meus lábios estão doces por esse amor amargo.
Ela foi como uma água calada que corria…
Se é culpa ter sede, toda a culpa é minha.

Perdoai a ela, Senhor, tu que destes a ela
sua frescura de chuva e esplendor de estrela.
Sua alma era transparente como um vaso vazio:
eu o enchi de amor. Todo o pecado é meu.

Mas, como não amá-la, se tu fizestes que fosse
pertubadora e fragante como a primavera?
Como não havê-la amado, se era como o orvalho
sobre a erva seca e ávida da estiagem?

Tratarei de rechaçá-la, Senhor, inutilmente,
como um sulco que tenta rechaçar a semente.
Era de outro. Era de outro que não a merecia,
e por isso, em seus braços, seguia sendo minha.

Era de outro, Senhor, mas há coisas sem dono:
as rosas e os rios, e o amor e o sonho.
E ela me deu seu amor como se dá uma rosa
como quem dá tudo, dando tão pouca coisa…

Uma embriaguês estranha nos venceu pouco a pouco:
ela não foi culpada, Senhor… nem eu tampouco
A culpa é toda tua, porque a fizestes bela
e me destes os olhos para mirá-la.

Sim. Nossa culpa é tua, se é uma culpa amar
e se é culpado o rio quando corre até o mar.
É tão bela, Senhor, e é tão suave, e tão clara,
que seria pecado maior se não a amasse.

E por isso, perdoa-me, Senhor, porque é tão bela,
que tu, que fizestes a água, e a flor, e a estrela,
tu, que ouves o lamento desta dor sem nome,
tu tambem a amarias, se pudesses ser homem.

BALADA DO MAU AMOR (José A. Buesa)

Que lástima, garota,
que não te possa amar.
Eu sou uma árvore seca que só espera o machado,
e você um arroio alegre que sonha com o mar.

Eu joguei minha rede no rio…
Rompeu-se a rede…
Não junte teu vaso cheio ao meu vazio,
pois se bebo em teu vaso vou sentir mais sede.

Beija-se pelo beijo,
por amar o amor…
Esse é teu amor de agora, mas o amor não é esse,
pois só nasce o fruto quando morre a flor.

Amar é tão simples,
tão sem saber por quê…
Mas assim como perde a moeda seu brilho,
a alma, pouco a pouco, vai perdendo sua fé.

Que lástima, garota,
que não te possa amar!
Há velas que se rompem à primera rajada,
e há tantas velas rasgadas no fundo do mar!

Mas ainda que toda ferida
deixe uma cicatriz,
não importa a folha seca de uma rama florida
se a dor dessa folha não chega à raiz.

A vida, chama ou neve,
é um moinho que
vai moendo em seus braços o vento que o move,
triturando as recordações do que já houve…

Já o meu foi meu,
e agora vou ao azar…
Se uma rosa é mais bela molhada de orvalho,
o golpe da chuva a pode desfolhar…

Tive um amor covarde.
O tive e o perdi…
Para teu amor prematuro já é demasiado tarde,
porque na minha alma anoitece o que amanhece em ti.

O vento enche a vela, mas à esfiapa,
e a água dos rios se faz amarga no mar…
Que lástima, garota,
que não te possa amar!

 

Não me dê trégua

ENCARGO

Não me dê trégua, não me perdoes nunca.
Fustiga-me no sangue, que cada coisa cruel seja tu que
voltas.
Não me deixes dormir, não me dê paz!
Então ganharei meu reino,
nascerei lentamente.
Não me perdas como uma música fácil, não sejas carícia nem
luva;
tálha-me como um sílex, desespéra-me.
Guarda teu amor humano, teu sorriso, teu cabelo. Os dê.
Vem a mim com tua cólera seca de fósforos e escamas.
Grita. Vomíta-me areia na boca, rompe-me as goelas.
Não me importa ignorar-te em pleno dia,
saber que jogas cara ao sol e ao homem.
Compartilha!

Eu te peço a cruel cerimônia do talho,
o que ninguém te pede: as espinhas
até o osso. Arranca-me esta cara infame,
obriga-me a gritar ao fim meu verdadeiro nome.

INSTRUÇÕES PARA CHORAR

Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um choro que não penetre no escândalo, que não insulte o sorriso com sua semelhança desajeitada e paralela. O choro médio ou comum consiste numa contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e muco, este no fim, pois o choro acaba no momento em que a gente se assoa energicamente. Para chorar, dirija a imaginação a você mesmo, e se isto lhe for impossível por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas e nesses golfos do estreito de Magalhães nos quais não entra ninguém, nunca. Quando o choro chegar, você cobrirá o rosto com delicadeza, usando ambas as mãos com a palma para dentro. As crianças chorarão esfregando a manga do casaco na cara, e de preferência num canto do quarto. Duração média do choro, três minutos.

POEMA

Te amo pela sombrancelha. pelo cabelo, te debato em
corredores branquíssimos donde jorram
as fontes de luz,
te discuto a cada nome, te arranco com
delicadeza de cicatriz.
vou te pondo no cabelo cinzas de relâmpago
e fitas que dormiam na chuva.
Não quero que tenha uma forma, que seja
precisamente o que vier detrás de tua mão.
porque a água, observa a água e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitetura de nada,
incendiando as lâmpadas à metade do
encontro.
Toda manhã é a lousa onde te invento
te desenho.
Pronto para te apagar, assim não és, nem tampouco com
esse cabelo escorrido, esse sorriso.
Busco teu sumo, a borda da taça onde o
vinho é também a lua e o espelho,
Busco essa linha que faz tremer a um homem
em uma galeria de museu.
Ademais te quero, e faz tempo e frio.

HAPPY NEW YEAR

Veja, não peço muito,
somente tua mão, tê-la
como um sapinho que dorme assim contente.
Necessito essa porta que me davas
para entrar a teu mundo, esse trocinho
de açúcar verde, de redondo alegre.
Não me emprestas tua mão nesta noite
de fim de ano de esfomeados roncos?
Não podes, por razões técnicas.
Então a tramo no ar, urdindo cada dedo,
o pêssego sedoso da palma
e o dorso, esse país de árvores azuis.
Assim a tomo e a sustento,
como se disso dependesse
muitíssimo do mundo,
a sucessão das quatro estações,
o canto dos galos, o amor dos homens.

AMOR 77

E depois de fazer tudo o que fazem, se levantam, se banham, se
entalcam, se perfuman,
se penteiam, se vestem, e assim progresivamente vão voltando a ser
o que não são.

Jogar a vida

Estou lendo o “Rayuela” de Cortázar (em português, “Jogo de Amarelinha”). É considerado a obra máxima do autor. São muitos livros dentro de um, já que vc pode montar o livro segundo a ordem de capítulos que quiser. Há pelo menos duas leituras sugeridas no prefácio por Cortázar. O livro fala sobre a vida, as paixões e as possibilidades de se jogar esse jogo da vida, essa que sempre se coloca a nossa frente e pergunta “quer jogar?”. O livro trata disso e da possibilidade de se chegar ao “céu” (da vida e do jogo da amarelinha), e claro, ao “inferno”. Há algum tempo assisti um show do Gotan Project numa noite muito bonita e especial pra mim, noite de coração cheio. Lá eles cantaram uma música em homenagem ao Cortázar chamada “Rayuela” que diz

“Hay que saber mover los pies.
En la rayuela, o en la vida
vos podes elegir un día.
¿Por que costado, de que lado saltarás?”

Durante a música, aparece a voz de cortázar declamando trechos de “Rayuela”. Um desses trechos segue abaixo. O vídeo do clip da música também. E depois mais alguns poemas de Cortázar que tra(b)duzo.

CLIP DA MÚSICA “RAYUELA” DO GOTAN PROJECT

UM TRECHO DE RAYUELA LIDO POR CORTÁZAR NA MÚSICA

“Toco a sua boca com um dedo, toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se, pela primeira vez, a sua boca entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade, eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto, e que, por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que minha mão desenha em você. Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõe-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem, com um perfume antigo e um grande silêncio. Então as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se estivéssemos com a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.”

TALA

Leve estes olhos, pedrinhas de cores,
este nariz de tótem, estes lábios que sabem
todas as tábuas de multiplicar e as poesias mais seletas.
Te dou a face inteira, com a língua e o cabelo,
me livro das unhas e dentes e lhe completo o peso.
Não serve
essa maneira de sentir. Que olhos nem que dedos.
Nem essa comida requentada, a memória,
nem a atenção, como uma matraca perniciosa.
Tome as induções e os cabides
onde se penduram as palavras lavadas e engomadas.
Fustigue com a casa, fora de tudo,
deixe-me como um oco, ou uma estaca.
Talvez então, quando não me valha
a generosidade de Deus, esse menino escoteiro,
e esteja igual ao tapete que suportou
sua lenta chuva de sapatos oitenta anos
e é urdido somente, claro esqueleto donde
se apagaram os ricos pavões de prata,
pode ser que sim vos diga teu nome certo
pode ocorrer que alcance sem mãos tua cintura.

DEPOIS DAS FESTAS

E quando todo mundo se foi
e restamos os dois
entre vasos vazios e cinzeiros sujos,

que bonito era saber que estavas
alí como um remanso,
sozinha comigo à beira da noite,
e que duravas, eras mais que o tempo,

eras a que não se ia
porque um mesmo travesseiro
e uma mesma preguiça indolente
iria charmar-nos outra vez
para despertar ao novo dia,
juntos, rindo, descabelados.

UMA CARTA DE AMOR

Tudo que de você eu quis
é tão pouco no fundo
porque no fundo é tudo,

como um cachorro que passa, uma colina,
essas coisas de nada, cotidianas,
espiga, cabeleira e dois torrões
o odor de teu corpo,
o que diz de qualquer coisa,
comigo ou contra mim,

tudo isso é tão pouco,
e quero tudo isso de vós porque te quero.

Que olhes para além de mim,
que me ames com violenta prescindência
da manhã, que o grito
de sua entrega se lance
na cara de um chefe de repartição,

e que o prazer que juntos inventamos
seja outro signo da liberdade.

 

Bomba

BOMBA

já tentei
o sarcasmo
e a ironia

já tentei
a indiferença
e a negação

já tentei
entorpecimento
com drogas
sexo e rock
bom

já tentei
subornos e
adestramentos

já tentei
absolutamente
esquecê-lo

(blindá-lo
do lado de fora
do tempo)

já tentei
– até mesmo –
entendê-lo:
bisturis, divãs,
ciências…

e controlá-lo
com ameaças,
com a sedução
das falsas
reverências

já tentei
toda forma
de negociação

o sim
o talvez
o não

mas…

tudo
em vão

pra minha
infeliz
felicidade

ele
segue
bom

nunca aceita
– rebelde –
nada menos

sim,
eu tento
explicar-lhe:
o mundo é um muro
que os peitos vão duros
as mãos fechadas
as bocas ressequidas
falo dos desencontros
dos machucados,
dou-lhe fatos,
fotos, dados,
estatísticas

mas

pra minha
infeliz
felicidade

tudo
em vão

ele segue
bom bom
bando e
batendo e
pulsando e
ardendo e
prestes a

explodir
tudo.

CONSELHOS PARA A MULHER FORTE

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(foto de manifestação pró-aborto na Itália em 1971)

CONSELHOS PARA A MULHER FORTE
(Gioconda Belli, Nicarágua, 1948)

Se és uma mulher forte
te protejas das hordas que desejarão
almoçar teu coração.
Elas usam todos os disfarces dos carnavais da terra:
se vestem como culpas, como oportunidades, como preços que se precisa pagar.
Te cutucam a alma; metem o aço de seus olhares ou de seus prantos
até o mais profundo do magma de tua essência
não para alumbrar-se com teu fogo
senão para apagar a paixão
a erudição de tuas fantasias.

Se és uma mulher forte
tens que saber que o ar que te nutre
carrega também parasitas, varejeiras,
miúdos insetos que buscarão se alojar em teu sangue
e se nutrir do quanto é sólido e grande em ti.

Não percas a compaixão, mas teme tudo que te conduz
a negar-te a palavra, a esconder quem és,
tudo que te obrigue a abrandar-se
e te prometa um reino terrestre em troca
de um sorriso complacente.

Se és uma mulher forte
prepara-te para a batalha:
aprende a estar sozinha
a dormir na mais absoluta escuridão sem medo
que ninguém te lance cordas quando rugir a tormenta
a nadar contra a corrente.

Treine-se nos ofícios da reflexão e do intelecto.
Lê, faz o amor a ti mesma, constrói teu castelo
o rodeia de fossos profundos
mas lhe faça amplas portas e janelas.

É fundamental que cultives enormes amizades
que os que te rodeiam e queiram saibam o que és
que te faças um círculo de fogueiras e acendas no centro de tua habitação
uma estufa sempre ardente de onde se mantenha o fervor de teus sonhos.

Se és uma mulher forte
se proteja com palavras e árvores
e invoca a memória de mulheres antigas.

Saberás que és um campo magnético
até onde viajarão uivando os pregos enferrujados
e o óxido mortal de todos os naufrágios.
Ampara, mas te ampara primeiro.
Guarda as distâncias.
Te constrói. Te cuida.
Entesoura teu poder.
O defenda.
O faça por você.
Te peço em nome de todas nós.

(tradução de Jeff Vasques)

Cantar de amigo – Geir Campos


Chegou finalmente o livro “Cantar de amigo ao outro homem da mulher amada” de Geir Campos. Acho que o úncio grande poeta – que eu saiba – que tem um livro de poesia sobre a temática do amor livre! O livro é de 82 e veio com dedicatória do autor! ^^ Vou postando alguns poemas aqui! Este é o poema de abertura:

ABERTURA
(Geir Campos)

A ninguém se condena por ter mais
de um amigo ou amiga, e até se diz
que amizades adubam a raiz
do sucesso nas rodas sociais.

Já se a mesma pessoa tiver mais
de um amado ou amada, o que se diz
é que deve extirpar o mal pela raiz
esse cancro das rodas sociais.

Mas amor e amizade não serão
dois nomes de uma única emoção?
Se amizade é tão só um amor sem sexo,

que amigos e amigas enfim serão
os que, abrindo o estatuto da emoção,
dão também foro de amizade ao sexo?

Amantes go home!


AMANTES GO HOME!
(Mario Benedetti, trad. Jeff Vasques)

Agora que comecei o dia
voltando a teu olhar
e me encontraste bem
e te encontrei mais linda.

Agora que por fim
está bastante claro
onde estás e onde estou.

Sei pela primeira vez
que terei forças
para construir contigo
uma amizade tão legal,
que do vizinho
território do amor,
esse desesperado,
começarão a nos olhar
com inveja,
e acabarão organizando
excursões
para nos perguntar
como fizemos.

Jacinta Passos

jacintapassos05b_1949
Menina, minha menina,
carocinho de araçá,
cante
estude
reze
case
faça esporte
e até discurso,
faça tudo o que quiser
Menina!
não esqueça que é mulher.
Jacinta Passos

Certamente, há pouquíssimas vidas tão inspiradoras como a de Jacinta Passos (1914-1973) no Brasil (e na América!), no período em que viveu. Nascida numa cidadezinha do interior da Bahia, Cruz das Almas, numa família abastada e profundamente católica, Jacinta vai aos poucos renegar todos os valores tradicionais, assumindo uma busca incessante por sua liberdade e a de todos. Dedicada à poesia e à escritura, torna-se uma importante jornalista e ativista social na década de 40 em Salvador, abandona o catolicismo e se aproxima de intelectuais comunistas como Jorge Amado. Jonalista, intelectual e poeta, Jacinta sabia que precisava se esforçar em dobro para enfrentar os valores conservadores, machistas e patriarcais tão vivos na década de 40. Casa-se em 1944 com James Amado (irmão mais novo de Jorge Amado) e filia-se ao PCB, carregando, desde então, mais um estigma, a de militante comunista. Chegou mesmo a ser candidata em 1945 a deputada, única mulher candidata no período, mas não foi eleita.

jacintapassos03bb_1944Produziu uma pequena, mas fantástica obra literária que foi elogiada por Mário de Andrade e Antônio Candido. Com a ilegalidade do PCB, Jacinta passa para a militância clandestina, sempre usando de suas poesias para os trabalhos de propaganda políticas. Em 1951, encontrava-se no Rio de Janeiro quando sofre sua primeira crise nervosa com delírios, eram os sinais da esquizofrenia. Desse período em diante, já separada do marido, até o fim da sua vida viverá o preconceito múltiplo, por ser mulher, artista, comunista e, agora, “louca”. Em diversos momentos, sua família justificou seus posicionamentos políticos radicais como “loucura” e foi mesmo presa em um sanatório por um prefeito que, incomodado com sua militância, alegava sua demência pela extremada virulência de suas palavras e posturas.

Seu tipo de esquizofrenia permitiria uma vida dita “comum”, em sociedade, caso fosse tratada adequadamente. Mas foi internada e submetida à choques elétricos, injeções de insulina e tranquilizantes. Jacinta Passos sempre afirmava que era uma presa política e por isso não aceitava nenhum tipo de regalia nos manicômios. Durante os 7 anos que ficou internada, continuou escreveu regularmente, compondo à mão poemas, peças para teatro, radioteatro, aforismos, textos sobre teoria da arte, poesias e reflexões políticas (preencheu cerca de 3.348 páginas de caderno manuscritas no período, quase 560 páginas por ano, quase 16 páginas por dia). A lucidez de sua escrita, como atesta o poema abaixo, evidencia como não portava nenhum distúrbio grave que impedisse sua vida cotidiana. A sua “loucura” era ser “mulher, artista e comunista”:

Estudos de lógica:jacintapassos05a_1948
O sanatório é Bahia ou Bahia é um sanatório?
A mulher está presa porque é comunista ou é comunista porque está
presa?
O homem tem família porque tem propriedade privada ou
tem propriedade privada porque tem família?
Este homem faz
continência porque trabalha ou
trabalha para fazer continência?
Os trabalhadores da arte trabalham para fazer figuração ou
fazem figuração porque trabalham?
Eu faço arte porque sou artista ou sou artista porque faço arte?
(caderno 14, escrito em setembro ou outubro de 1967)

imagesO esquecimento (apagamento) da vida e obra de Jacinta corroboram o tratamento que como mulher e militante recebeu por toda sua vida. Mas, felizmente, sua luta e poesia aos poucos vão sendo resgatadas: em 2010, sua filha Janaína Amado, organizou uma bela antologia “Jacinta Passos, coração militante: obra completa: poesia e prosa, biografia, fortuna crítica” e também um site: http://jacintapassos.com.br/. Alguns estudos também começam a aparecer. Para quem se interessar há um artigo de Rosângela Santos “Jacinta Passos, loucura ou marginalização?” e o livro “A história esquecida de Jacinta Passos” de Dalila Machado. Abaixo selecionei quatro poemas e um vídeo em que sua filha, Janaína, fala da vida de sua mãe.

Que a memóriva viva da vida e luta de Jacinta Passos, enfrentando preconceitos familiares, sociais, políticos, possam inspirar tantas outras mulheres, e homens! (por Jeff Vasques)

Canção do amor livre

Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.

Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.

Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.

Se me quiseres amar.

Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.
Teu corpo.

Relâmpago depois repouso
sem memória, noturno.

Canção da liberdade

Eu só tenho a vida minha.
Eu sou pobre pobrezinha,
tão pobre como nasci,
não tenho nada no mundo,
tudo que tive, perdi.
Que vontade de cantar:
a vida vale por si.

Nada eu tenho neste mundo,
Sozinha!
Eu só tenho a vida minha.

Eu sou planta sem raiz
que o vento arrancou do chão,
já não quero o que já quis,
livre, livre o coração,
vou partir para outras terras,
nada mais eu quero ter,
só o gosto de viver:

Nada eu tenho neste mundo,
sozinha!
Eu só tenho a vida minha.

Sem amor e sem saúde,
sem casa, nenhum limite,
sem tradição, sem dinheiro,
sou livre como a andorinha,
tem por pátria o mundo inteiro,
pelos céus cantando voa,
cantando que a vida é boa.

Nada eu tenho neste mundo,
Sozinha!
Eu só tenho a vida minha.

Canção da partida

Bernadete é preta
é preta que nem tição.
Bernadete é pobre,
é pobre sem um tostão.

(…)

– Pelo sinal da pobreza!
– Pelo sinal de mulher!
– Pelo sinal!
da nossa cor!
Nós somos gente marcada
– ferro em brasa em boi zebu –
ninguém precisa dizer:
Bernadete, quem és tu?

Canção atual

Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.

Não quero a rosa do tempo aberta
nem o cavalo de nuvem
não quero
as tranças de Julieta.

Este chão já comeu coisa
tanta que eu mesma nem sei,
bicho
pedra
lixo
lume
muita cabeça de rei.

Muita cidade madura
e muito livro da lei.
Quanto deus caiu do céu
tanto riso neste chão,
fala de servo calado
pisado
soluço de multidão.

Coisas de nome trocado
– fome e guerra, amor e medo –

Tanta dor de solidão.

Muito segredo guardado
aqui dentro deste chão.
Coisa até que ninguém viu
ai! tanta ruminação
quanto sangue derramado
vai crescendo deste chão.

Não quero a sina de Deus
nem a que trago na mão.
Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.

Madrigal


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MADRIGAL
(Roberto Fernández Retamar, Cuba, 1930)

Havia a pequena burguesia,
a burguesia compradora,
os latifundiários,
o proletariado,
o campesinato,
outras classes,
e você,
toda estremecimento, toda ilusão.

(tradução de Jeff Vasques)

Estados de ânimo


benedetti
Tradução de mais dois poemas de Benedetti… engraçado pensar que antigamente não gostava da poesia dele… e agora não paro de ler… 😉

ESTADOS DE ÂNIMO (Mário Benedetti)

As vezes me sinto
como uma águia no ar
(de uma canção de Pablo Milanés)

Umas vezes me sinto
como pobre colina
e outras como montanha
dentre cumes repetida.

Umas vezes me sinto
como um escarpado
e em outras como um céu
azul mas distante.

Às vezes se é
manancial entre rochas
e outras vezes uma árvore
com as últimas folhas.
Mas hoje me sinto apenas
como lagoa insone
com um embarcadouro
já sem embarcações
uma lagoa verde
imóvel e paciente
como suas algas
seus musgos e seus peixes,
sereno em minha confiança
confiando que em uma tarde
te aproximes e te olhes,
te olhes ao olhar-me.

ENTRE SEMPRE E JAMAIS (Mario Benedetti)

Entre sempre e jamais
o rumo o mundo oscilam
e já que amor e ódio
nos voltam categóricos
ponhamos etiquetas
de rotina e comparação

-jamais voltarei a te ver
-unidos para sempre
-não morrerão jamais
-sempre e quando me admitam
-jamais do jamais
-(e até a fé dialética
de) por sempre jamais
-etcétera etcétera

de acordo
no entanto
que alguém sempre abre um futuro
e alguém jamais se faz um abismo
meu sempre pode ser
jamais de outros tantos

sempre é um planalto
com borda com final
jamais é uma escura
caverna de impossíveis
e no entanto às vezes
nos ajuda um indício

que cada sempre leva
seu osso de jamais
que os jamais têm
arroubos de sempres

assim
incansavelmente
insubornavelmente
entre sempre e jamais
flui a vida insone
passam os grandes olhos
abertos da vida.

Assunção de ti


Tiersen para ouvir enquanto lê o poema de Benedetti que traduzi…

Assunção de ti (Mario Benedetti)

Quem acreditaria que falava
sozinho no ar, oculto,
teu olhar.
Quem acreditaria essa terrível
ocasião de nascer posta ao alcance
de minha sorte e meus olhos,
E que tu e eu iríamos, despojados
de todo bem, de todo mal, de tudo,
nos prender no mesmo silêncio,
nos inclinar sobre a mesma fonte
para nos ver e nos ver
mutuamente espiados no fundo,
tremendo desde a água,
descobrindo, pretendendo alcançar
quem eras tu detrás dessa cortina,
quem era eu detrás de mim.
E todavia não vimos nada.
Espero que alguém venha, inexorável,
sempre temo e espero,
e que acabe por nos nomear em um signo,
por nos situar em alguma estação
por nos deixar ali, como dois gritos
de assombro.
Mas nunca será. Tu não és essa,
eu não sou este, esses, os que fomos
antes de sermos nós.

Eras si mas agora
soas um pouco a mim.
Era si mas agora
venho um pouco de ti.
Não demasiado, somente um toque,
acaso um leve traço familiar,
mas que force a todos a nos abarcar
a ti e a mim quando nos pensem sós.

2
Chegamos ao crepúsculo neutro
onde o dia e a noite se fundem e se igualam.
Ninguém poderá esquecer este descanso.
Passa sobre minhas pálpebras o céu fácil
a deixar-me os olhos vazios de cidade.
Não penses agora no tempo de agulhas,
no tempo de pobres desesperos.
Agora só existe o anseio desnudo,
o sol que se desprende de suas nuvens de pranto,
teu rosto que se interna noite adentro
até somente ser voz e rumor de sorriso.

3
Podes querer a alvorada
quando ames.
Podes
vir a reclamar-te como és.
Conservei intacta tua paisagem.
A deixarei em tuas mãos
quando estas cheguem, como sempre,
anunciando-te.
Podes
vir a reclamar-te como eras.
Ainda que já não sejas tu.
Ainda que minha voz te espere
só em seu azar
queimando
e teu sonho seja isso e muito mais.
Podes amar na alvorada
quando queiras.
Minha solidão aprendeu a te ostentar.
Esta noite, outra noite
tu estarás
e voltará a gemer o tempo giratório
e os lábios dirão
esta paz agora, esta paz agora.
Agora pode vir a reclamar-te,
penetrar em teus lençóis de alegre angústia,
reconhecer teu tíbio coração sem desculpas,
os quadros persuadidos,
te saber aqui.
Haverá para viver qualquer fuga
e o momento da espuma e do sol
que aqui permaneceram.
Haverá para aprender outra piedade
e o momento do sonho e do amor
que aqui permaneceram.
Esta noite, outra noite
tu estarás,
tíbia estarás ao alcance de meus olhos,
longe já da ausência que não nos pertence.
Conservei intacta tua paisagem
mas não sei até onde este intacto sem ti,
sem que tu lhe prometas horizontes de névoa,
sem que tu lhe reclames sua janela de areia.
Podes querer a alvorada quando ames.
Deves vir a reclamar-te como eras.
Ainda que já não sejas tu,
ainda que contigo tragas
dor e outros milagres.
Ainda que sejas outro rosto
de teu céu até mim.