Estados de ânimo


benedetti
Tradução de mais dois poemas de Benedetti… engraçado pensar que antigamente não gostava da poesia dele… e agora não paro de ler… 😉

ESTADOS DE ÂNIMO (Mário Benedetti)

As vezes me sinto
como uma águia no ar
(de uma canção de Pablo Milanés)

Umas vezes me sinto
como pobre colina
e outras como montanha
dentre cumes repetida.

Umas vezes me sinto
como um escarpado
e em outras como um céu
azul mas distante.

Às vezes se é
manancial entre rochas
e outras vezes uma árvore
com as últimas folhas.
Mas hoje me sinto apenas
como lagoa insone
com um embarcadouro
já sem embarcações
uma lagoa verde
imóvel e paciente
como suas algas
seus musgos e seus peixes,
sereno em minha confiança
confiando que em uma tarde
te aproximes e te olhes,
te olhes ao olhar-me.

ENTRE SEMPRE E JAMAIS (Mario Benedetti)

Entre sempre e jamais
o rumo o mundo oscilam
e já que amor e ódio
nos voltam categóricos
ponhamos etiquetas
de rotina e comparação

-jamais voltarei a te ver
-unidos para sempre
-não morrerão jamais
-sempre e quando me admitam
-jamais do jamais
-(e até a fé dialética
de) por sempre jamais
-etcétera etcétera

de acordo
no entanto
que alguém sempre abre um futuro
e alguém jamais se faz um abismo
meu sempre pode ser
jamais de outros tantos

sempre é um planalto
com borda com final
jamais é uma escura
caverna de impossíveis
e no entanto às vezes
nos ajuda um indício

que cada sempre leva
seu osso de jamais
que os jamais têm
arroubos de sempres

assim
incansavelmente
insubornavelmente
entre sempre e jamais
flui a vida insone
passam os grandes olhos
abertos da vida.

Em tempos difíceis


“Em tempos difíceis” – Herberto Padilla (Cuba)

À aquele homem lhe pediram seu tempo
para que o juntasse ao tempo da História.
Lhe pediram as mãos,
porque para uma época difícil
nada há melhor que um par de boas mãos.
Lhe pediram os olhos
que alguma vez tiveram lágrimas
para que não contemplasse o lado claro
(especialmente o lado claro da vida)
porque para o horror basta um olho de assombro.
Lhe pediram seus lábios
ressecados e rachados para afirmar,
para erigir, com cada afirmação, um sonho
(o-alto-sonho);
lhe pediram as pernas,
duras e nodosas,
(suas velhas pernas andarilhas)
porque em tempos difíceis
há algo melhor que um par de pernas
para a construção ou para a trincheira?
Lhe pediram o bosque que nutriu desde menino,
com sua árvore obediente.
Lhe pediram o peito, o coração, os ombros.
Lhe disseram
que isso era estritamente necessário.
Lhe explicaram depois
que toda esta doação resultaría inútil
sem entregar a língua,
porque em tempos difíceis
nada é tão útil para cortar o ódio e a mentira.
E finalmente lhe rogaram
que, por favor, começasse a andar,
porque em tempos difíceis
esta é, sem dúvida, a prova decisiva.

Tudo é muito simples…

Tudo é muito simples (Idea Vilariño)

Tudo é muito simples muito
mais simples e no entanto
ainda assim há momentos
em que é demais para mim
em que não entendo
e não sei se rio de mim a gargalhadas
ou se choro de medo
ou se me deixo aqui sem pranto
sem risos
em silêncio
assumindo minha vida
meu trânsito
meu tempo.

Etcétera


ETCÈTERA

(Ángela Figuera Aymerich, Espanha)

O pai trabalhava na mina.
A mãe trabalhava nas casas.
O menino andava pela rua
aprendendo boa conduta.

Ao fim da noite os três juntos
ao redor do jarro e da sopa.
O pai em seu legítimo direito,
tomava para si a melhor parte.
A mãe dava ao menino do seu.
O menino sorvia e terminava
pedindo chocolate ou tangerinas.
O pai lhe golpeava quatro gritos
(sempre bebia ao fim além da conta)
e logo falava mal do governo
e logo se deitava com as botas.
O menino dormia sobre o cotovelo.
A mãe o deitava os pescoções
e logo abria a torneira e reclamava,
que vida, Deus, esfregando as louças,
e logo falava mal do marido
e logo lhe lavava a camisa
e logo se deitava como é justo.

Bem de manhã no dia seguinte
o pai descia aos poços,
a mãe subia às casas,
o menino saía à rua.
Etcétera. Etcétera. Etcétera.

(Não sei porque comecei a contá-la.
É uma história chata
e todos sabem como acaba.)

Paulo José Vieira (Brasil)

Aqui, uma pequena seleção de poemas de meu amigo Paulo José Vieira. Uma dessas figuras impressionantes de se conhecer, que fazem a gente se sentir pequeno-querendo-ser-grande.

XIII. Caridade

Quando o restaurante fecha
ele lava bem as mãos
dos vermes de todas as notas
antes de pegar nos restos
de folhas que usará
no sopa que dará aos pobres

XVIII.

Uma obreira da igreja me chamou para entrar, quando eu caminhava na Santa Isabel
Não insistiu, nos últimos meses minha fisionomia é alegre e de pouco colesterol
Aceitei colocar o meu nome no caderno de orações, como minha gratidão
E coloquei também o nome da Andressa, do Alberto Caeiro e do filho que terei

Ela se preocupou comigo, ela não tinha metas de quantos pedestres pôr pra dentro
Ela me disse que Deus me ama e que pediria a Deus por mim e eu respondi
Que todo o Universo a ama, até Rimbaud e Judas, e que ela não se esquecesse
Do semáforo, a força elétrica de gesto humano que paira sobre nós e nos aconselha

Ela quis que a maior coisa do mundo e que fez o mundo perdesse tempo comigo
Essa noite rezarei por ela a Roberto Piva e não amaldiçoarei o mundo por tê-la
Proibido da poesia, porque minha poesia não é o Evangelho e nunca acreditei que
O Evangelho devesse chegar a toda criatura, o Evangelho nunca será pronto

Minha irmã no átomo, de saia longa e saia de uma verdade sem cor, amiga de Deus
Quero ouvir o Evangelho do seu amor, o Evangelho do que fez você ser obreira
O Evangelho do dia em que nasceu até os doze anos, e depois dos trinta até agora
Quero ouvir sua zombaria ao professor de olhos grandes, aquela ainda é você e bela

O muro do estacionamento da igreja anuncia cinco sessões de descarregos às terças-feiras
Usei as cinco sessões em minha casa para esvaziar minha mesa e ter dois livros por vez
Fico pensando que tudo é sacro se nada for, se o sagrado for melhor repartido
Aprendi com a obreira a propor sem malícias e a questionar no ouvinte o que proponho

Queria que o pastor roubasse a dicção da obreira e conhecesse o Evangelho dela
E o usasse nas sessões do descarrego, pois não creio que se descarregue algo a berros
Ele poderia usar de frases longas e mais ou menos autônomas, umas após as outras
As pessoas iam perdendo o conteúdo e ficando com o ritmo, até que ao final o branco

Ou as pessoas poderiam ouvir João Gilberto e lerem o Whitman rezar
E comentar os poemas uns dos outros, cada poema fosse lido uma só vez
Como o Evangelho do instante, como o esquecimento do Evangelho dos livros apócrifos
Que todos se vissem ali não concorrentes para o Céu, para o hospital, para um emprego

Atualizarão o Evangelho diariamente, e a voz do pastor será a voz daquela pequena obreira

XXXI. Terceirização

Antes de mais nada, me demitirão pela firma
e me contratarão pela firma contratada pela firma

A diferença entre o que eu poderia ser
e o que eu era na primeira firma
é o meu primeiro patrão

A diferença entre o que eu era na primeira firma
e o que eu serei na segunda firma
será o meu segundo patrão

A diferença entre o que eu poderia ser
e o que eu serei na segunda firma
é um trio de diletantes portando enciclopédias

Se eu martelasse menos a metalúrgica
teria ouvidos intactos para ouvir de madrugada
Stan Getz tocar saxofone do seu apartamento

(Ousaram terceirizar o Stan Getz em Kenny G)

Eu poderia ser uma porcentagem do Stan Getz
e de mais um cardápio da humanidade, sem virtuose
Ter minhas cinco reencarnações na única vida que tenho
e fazer não só bigornas, mas o que eu vim fazer aqui: viver

Eu poderia promover lingotes de alumínio a saxofones
e conhecer tanto o processo de produção a ponto de ao final tocá-los
a ponto de Sartre explicando a Jean Genet quem foi Jean Genet

Eu abriria um orfanato e resgataria todos os bilhetes
não premiados da probabilidade do que eu não fui
e reciclaria os tickets usados de metrô em vales (arbitrários feito notas)
que pudessem ser trocados por horas de folga

Mas, antes disso, me demitirão pela firma
e me contratarão pela firma contratada pela firma
E dirão que o sonho é luxo
agora que o sono é muito

XXXVI.

Um trompete em silêncio, guardado na caixa
e enfiado na mochila da garupa da moto
só o barulho da moto do Cássio*

Insisto, o trompete está em silêncio
está apenas sendo transportado

E dizer que não é hora de ouvi-lo –
porque ele vai na garupa da moto
e o Rodrigo* não pode tocar agora
porque usa as mãos para se segurar
e vai do ensaio direto
para o trabalho noturno nos Correios
– é já ouvir o trompete soar

Pelo menos na poesia é assim
O aço do trompete toca por si só
crava um ré metálico na imaginação
E por isso os católicos e Descartes
condenavam o corpo que há na imaginação

Mas, se eu disser “1, 2, 3… meu infarto agora!”
nada me acontecerá – veja, ainda escrevo
Porque o músculo do infarto (esse que vem
acabar a poesia quando menos se espera)
não se rende aos lábios sonoros da poesia

* Cássio, Rodrigo, Paulo, Gera e eu tocamos na banda “Paramnese“.

“Há poucas coisas tão ensurdecedoras como o silêncio!”



A frase título do post é do escritor uruguaio Mário Benedetti (1920-2009), um dos escritores latino-americanos mais conhecidos e lidos na atualidade. Mário Benedetti foi um escritor engajado, colaborou em um dos maiores semanários do mundo, “Marcha”, dirigido na época por Eduardo Galeano e que tinha como colaboradores os maiores escritores engajados do mundo, tais como Bertrand Russel, Júlio Cortazar, Simone Beauvoir, Darcy Ribeiro, Carlos Fuentes, etc. Viveu mais de 10 anos em exílio por causa da ditadura uruguaia.

“- Literatura comprometida?

– Mais de uma vez disse que o panfleto é um gênero tão legítimo como qualquer outro. Existem obras mestras do panfleto: Marx. Engels, Lenin, o Che, Fanon, Fidel têm verdadeiras obras mestras, mas a literatura panfletária é outra coisa, e não me entusiasma para nada… Falta saber o que passa com os artistas do exílio, como trabalha em cada um a nostalgia, o ódio, a apartação, como se afirma ou se debilita sua identidade nacional. Isto nos traz de novo a falar do papel do escritor.

Creio que não se deve exigir a priori que um artista assuma tal ou qual atitude: Primeiro deverá transformar-se como ser humano e depois essa transformação se refletirá em sua obra a posteriori. Quando um autor escreve sobre temas políticos sem que isso esteja respaldado por uma atitude consequente, sua obra soará oca. É como escrever poemas de amor sem estar enamorado, sem sentir o amor, e a política é também uma forma de amor. (Mário Benedetti)”

Abaixo segue um poema em homenagem ao Che (escrito assim que soube de seu assassinato); outro poema lindo sobre o companheirismo (obrigado, Poli, por me enviar!); um poema homenagem ao poeta e guerrilheiro salvadorenho Roque Dalton (que morreu “justiçado” pelos próprios companheiros de Partido, pois seu jeito irreverente e heterodoxo causava “suspeitas”; Roque era famoso por ter conseguido escapar de prisões mais de uma vez, mas não escapou, ironicamente, de seu próprios companheiros de luta) e por fim um poema sobre os “desaparecidos” pelas ditaduras… ao final, esse mesmo poema musicado por Daniel Viglietti (Benedetti declama o poema ao fundo!).

CONSTERNADOS, RAIVOSOS

Assim estamos
consternados
raivosos
ainda que esta morte seja
um dos absurdos previsíveis

dá vergonha olhar
os quadros
as poltronas
os tapetes
pegar uma garrafa da geladeira
teclar as três letras mundiais de teu nome
na rígida máquina
que nunca
nunca esteve
com a fita tão pálida

vergonha ter frio
e enconstar-se no aquecedor como sempre
ter fome e comer
essa coisa tão simples
abrir o toca-discos e escutar o silêncio
sobretudo se é um quarteto de Mozart

dá vergonha o conforto
e a asma dá vergonha
quando teu comandante está caindo
metralhado
fabuloso
nítido

és nossa consciência crivada

dizem que te queimaram
com que fogo
vão queimar as boas
as boas novas
a irascível ternura
que trouxeste e levaste
com tua tosse
com teu barro

dizem que incineraram
toda tua vocação
menos um dedo

suficiente para nos mostrar o caminho
para acusar o monstro e seus tições
para apertar de novo os gatilhos

assim estamos
consternados
raivosos
claro que com o tempo a plúmbea
consternação
nos irá passando
a raiva diminuirá
se fará mais limpa

estás morto
estás vivo
estás caindo
estás nuvem
estás chuva
estás estrela

onde estejas
se é que estás
se estás chegando

aproveita enfim
para respirar tranqüilo
para encher de céu os pulmões

onde estejas
se é que estás
se estás chegando
será uma pena que não exista Deus

mas haverão outros
claro que haverão outros
dignos de te receber
comandante

ME SERVE E NÃO ME SERVE

A esperança tão doce
tão polida tão triste
a promessa tão leve
não me serve

não me serve tão mansa
a esperança

a raiva tão submissa
tão débil tão humilde
o furor tão prudente
não me serve

não me serve tão sábia
tanta raiva

o grito tão exato
se o tempo o permite
alarido tão belo
não me serve

não me serve tão bom
tanto trovejar

a coragem tão dócil
a bravura tão afiada
a intrepidez tão lenta
não me serve

não me serve tão fria
a ousadia

sim me serve a vida
que é vida até morrer-se
o coração alerta
sim me serve

me serve quando avança
a confiança

me serve teu olhar
que é generoso e firme
e teu silêncio franco
sim me serve

me serve a medida
de tua vida

me serve teu futuro
que é um presente livre
e tua luta de sempre
sim me serve

me serve tua batalha
sem medalha

me serve a modéstia
de teu orgulho possível
e tua mão segura
sim me serve

me serve teu caminho
companheiro.

À ROQUE

Chegaste cedo ao bom humor
ao amor cantado
ao amor decantado

chegaste cedo
ao rum fraterno
às revoluções

cada vez que te arrancavam do mundo
não havia calabouço que te caísse bem
assomavas a alma por entre os barrotes
e mal os barrotes se afrouxavam turvados
aproveitavas para livrar o corpo

usavas a metáfora pé-de-cabra
para abrir os ferrolhos e os ódios
com a urgência inconsolável de quem quer
regressar ao assombro dos livres

tinhas ojeriza ao proibido
às desgarraduras para pretensão e orquestra
ao dedo admoestador de algum colega isento
algum apócrifo bom samaritano
que desde da europa te queria ensinar
a ser um bom latinoamericano

tinhas ojeriza à pureza
porque sabias como somos de impurezas
como mesclamos sonhos e vigília
como nos pesam a razão e o risco

por sorte eras impuro
fugido de cárceres e armadilhas
não de responsabilidades e outros gozos
impuro como um poeta
que isso eras
apesar de tantas outras coisas

agora recorro trama a trama
nossos muitos acordos
e tambem nossos poucos desacordos
e sinto que nos restam diálogos inconclusos
reciprocas perguntas nunca ditas
malentendidos e benentendidos
que não poderemos embaralhar de novo

mas tudo volta a adquirir seu sentido
sim recordo teus olhos de garoto
que eram quase um abraço quase um dogma

o fato é que chegaste
cedo ao bom humor
ao amor cantando
ao amor decantado
ao rum fraterno
às revoluciones
mas sobretudo chegaste cedo
demasiado cedo
a uma morte que não era a tua
e que a esta altura não saberá que fazer com tanta vida.

DESAPARECIDOS

Estão em algum lugar marcados
desconcertados surdos
buscando-se buscando-nos
bloqueados pelos signos e pelas dúvidas
contemplando as velhas das praças
os timbres das portas as velhas que enlouquecem
ordenando seus sonhos seus esquecimentos
quiçá convalescentes de sua morte privada

ninguém os explicou com certeza
se já se foram ou se não
se são faixas ou tremores
sobreviventes ou superstições

vêem passar árvores e pássaros
e ignoram a que sombra pertencem

quando começaram a desaparecer
há três cinco sete cerimônias
a desaparecer como sem sangue
como sem rosto e sem motivo
vieram pela janela de sua ausência
o que ficava atrás desse arcabouço
de abraços céu e fumaça

quando começaram a desaparecer
como o oásis nos espelhismos
a desaparecer sem últimas palavras
tinham em suas mãos os pedacinhos
de coisas que queriam

estão em algum lugar nuvem ou tumba
estão em algum lugar estou seguro
lá no sul da alma
é possível que tenham extraviado a bússola
e hoje vagueiam perguntando perguntando
onde caralho fica o bom amor
porque vêm do ódio.

Daniel Viglietti & Mario Benedetti – Desaparecidos