Manifesto


Morreu ontem o escritor comunista, Pedro Lemebel, lutador ferrenho contra todas as opressões, em especial, a homofobia, ícone da contra-cultura chilena. Na foto, aparece com a foice e o martelo pintadas no rosto… foi assim que, num encontro clandestino de partidos de esquerda, durante a ditadura de Pinochet, de salto alto, leu o poema abaixo!

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MANIFESTO
(FALO POR MINHA DIFERENÇA)

Pedro Lemebel (Chile, 1952-2014)

Não sou Pasolini pedindo explicações.
Não sou Ginsberg expulso de Cuba.
Não sou uma bicha disfarçada de poeta.
Não preciso de disfarces
aqui está minha cara
falo por minha diferença.
Defendo o que sou
e não sou tão esquisito.
Me repugna a injustiça
e suspeito dessa dança democrática.
Mas não me fale do proletariado
porque ser pobre e bicha é pior.
Há que ser ácido para suportar.
É ter que dar voltas nos machinhos da esquina
é um pai que te odeia
porque o filho desmunheca
é ter uma mãe de mãos marcadas pelo cloro
envelhecidas de limpeza
te ninando como doente
por maus modos
por má sorte
como a ditadura
pior que a ditadura
porque a ditadura passa
e vem a democracia
e logo depois o socialismo.
E então?
Que farão com nossos companheiros?
Irão nos amarrar às tranças em fardos
com destino a um sidário[2] cubano?
Irão nos enfiar em algum trem para parte alguma
como no barco do general Ibáñez [3]
onde aprendemos a nadar
mas ninguém chegou até à costa.
Por isso Valparaíso apagou suas luzes vermelhas.
Por isso as casas de caramba[4]
brindaram com uma lágrima negra
os carneiros comidos pelos caranguejos.
Este ano que a Comissão de Direitos Humanos
não lembra.
Por isso companheiro te pergunto
existe ainda o trem siberiano
da propaganda reacionária?
Esse trem que passa por suas pupilas
quando minha voz fala demasiado doce?
E você?
Que fará com essa lembrança de meninos
se tocando e outras coisas
nas férias de Cartagena?
O futuro será em preto e branco?
O tempo será noite e dia de trabalho
sem ambiguidades?
Não haverá uma bichona em alguma esquina
desequilibrando o futuro de seu novo homem?
Vão nos deixar bordar pássaros
nas bandeiras da pátria livre?
O fuzil eu deixo a você
que tem o sangue frio.
E não é medo.
O medo foi indo embora de mim
no bloquear de facadas
nos inferninhos sexuais onde andei.
E não se sinta agredido
se te falo dessas coisas
e te olho o volume.
Não sou hipócrita
acaso os peitos de uma mulher
não te fazem baixar a vista?
Você não acredita
que sozinhos na serra
algo se passaria entre nós?
Embora depois me odiasse
por corromper sua moral revolucionária.
Tem medo que se homessexualize a vida?
E não falo de te enfiar e tirar
e tirar e te enfiar somente
falo de ternura companheiro.
Você não sabe
como custa encontrar o amor
nestas condições.
Você não sabe
o que é carregar essa lepra.
As pessoas ficam à distância.
As pessoas compreendem e dizem:
é viado mas escreve bem
é viado mas é um bom amigo
super-boa-onda[5].
Eu não sou boa-onda.
Eu aceito o mundo
sem lhe pedir essa boa-onda.
Mas ainda assim riem.
Tenho cicatrizes de risos nas costas.
Você acredita que eu penso com o pau
E que à primeira parrillada[6] da CNI[7]
eu ia soltar tudo.
Não sabe que a hombridade
nunca a aprendi nos quartéis.
Minha hombridade me ensinou a noite
atrás de um poste.
Essa hombridade de que você se gaba
te enfiaram em um regimento
um milico assassino
desses que ainda estão no poder.
Minha hombridade não recebi do partido
porque me rechaçaram com risadinhas
muitas vezes.
Minha hombridade aprendi militando
na dureza desses anos
e riram da minha voz afeminada
gritando: vai cair, vai cair.
E embora você grite como homem
não conseguiu que caísse.
Minha hombridade foi amordaçada.
Não fui ao estádio
e me peguei nas porradas pelo Colo Colo[7].
O futebol é outra homossexualidade encoberta
como o boxe, a política e o vinho.
Minha hombridade foi morder as provocações
engolir a raiva para não matar todo mundo.
Minha hombridade é me aceitar diferente
ser covarde é muito mais duro.
Eu não dou a outra face
dou o cu companheiro
e esta é a minha vingança.
Minha hombridade espera paciente
que os machos fiquem velhos
porque a esta altura do campeonato
a esquerda entrelaça seu cu flácido
no parlamento.
Minha hombridade foi difícil
por isso não subo nesse trem
sem saber aonde vai.
Eu não vou mudar pelo marxismo
que me rechaçou tantas vezes.
Não preciso mudar
sou mais subversivo que vocês.
Não vou mudar somente
porque os pobres porque os ricos…
a outro cachorro com esse osso.
Tampouco porque o capitalismo é injusto
em Nova Iorque as bichas se beijam na rua
mas esta parte deixo para você
que tanto te interessa.
Que a revolução não se apodreça completamente.
A vocês entrego esta mensagem
e não é por mim
eu estou velho
e sua utopia é para as gerações futuras.
Há tantas crianças que vão nascer com a asinha quebrada
e eu quero que voem companheiro.
Que sua revolução
dê a eles um pedaço de céu vermelho
para que possam voar.
_________________

[1] Este texto foi lido como intervenção em um ato político da esquerda em setembro de 1986, em Santiago, Chile. Leia o poema original aqui: http://lemebel.blogspot.com.br/…/manifiesto-hablo-por-mi-di…

[2] Apesar de Sidario ser um nome próprio muito comum no Chile, o autor o usa como substantivo para denominar clínicas para tratamento de soropositivos. Cf.: livro de crônicas de Pedro Lemebel chamado “Loco afán: crónicas de sidariorio”, com textos que tratam, sobretudo, da marginalização de travestis e AIDS.

[3] Carlos Ibáñez del Campo reprimiu duramente os homossexuais sob seu governo… era comum soltar opositores de barco, com peso amarrado em seus pés, em alto mar

[4] Casas onde se cantam tonadillas. O termo alude à cantora tonadillera do século XVIII Maria Antónia Fernández, cujo apelido era Caramba.

[5] No original “buena-onda”, um trocadilho: alegre/ fresco.

[6] Prato típico chileno com diversos tipos de carne e frutos do mar, naturalmente no poema se trata de um trocadilho.

[7] CNI – Central Nacional de Informaciones de Chile – foi um organismo de inteligência do regime militar chileno. Criada em 1977, foi responsável por inúmeros casos de infiltração política, assassinatos, sequestros e tortura aos opositores do regime, além de estar relacionada ao roubo de banco e o tráfico de drogas e armas. Foi dissolvida em 1990, pouco antes do retorno da democracia. Muitos de seus agentes então foram realocados em outros cargos públicos, inclusive de segurança.

[8] Time de futebol chileno.

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(Tradução de Jeff Vasques, tendo por base tradução e notas de Nina Rizzi)

“Estes poetas são meus”


Poeta-lutador uruguaio Ibero Gutierrez


Traduzo este poema de Mario Benedetti em homenagem ao poeta-lutador uruguaio Ibero Gutierrez e vários outros poetas-lutadores que assumiram a árdua tarefa de ser artista-em-luta. Dedido este poema também a poeta colombiana Angye Gaona, que vem sendo perseguida pelo governo colombiano por crimes que não cometeu. Aproveito para agradecer a irmá de Ibero, Sara Gutierrez, que me brindou com material muito bonito sobre a obra de Ibero (que era artista plástico também). Como já disse Pedro Tierra no belo poema “Há um lugar na barricada”: “Se entre os companheiros ainda / há quem pergunte a razão / dos poetas, // encontra, primeiro, teu lugar na / barricada, depois, entre os combatentes,/ aponta / o rosto enérgico de tua poesia”. O caminho dos poetas-lutadores e dos artistas-em-luta, no geral, não é fácil até porque muitas vezes são mal vistos pelos próprios companheiros de luta… mas esses são essenciais tanto pra compreensão concreta e profunda do espírito de uma época, quanto pra vislumbrar o novo…

ESTES POETAS SÃO MEUS – MARIO BENEDETTI

“Estes poetas são meus”
Carlos Drummond de Andrade

Roque leonel ibero rigoberto
ricardo paco otto-rené javier
quantas vezes e em quantas reuniões e assembléias
os terão (mal) tratado de pequeno-burgueses
terão ficado sozinhos com seu antigo costume
de raciocionar / ou a sós com o rigor científico
a sós com um impulso moral / a sós em uma
solidão não querida nem buscada
a sós com seus amores ao próximo à próxima
com a preocupação de que os segregavam
sozinhos para entender tudo e a todos

quantas vezes e em quantas esperanças ou rotas
terão andado tateando a relâmpagos
deixando repousar o tempo da poesia
eles infatigáveis rebentando-se
sabendo que não eram os pequenos burgueses
que os rudes companheiros diziam

que não eram os frouxos os livrescos
olhando-se no espelho até desentranhá-lo
como narcisos nunca / olhando-se autocríticos
jamais desalentados / tratando de encontrar
o resquício a brecha o abrigo o mérito
de ser como os outros ou algo assim

quantas vezes e em quantos cochilos insones
terão considerado a pena ou o atalho
de apagar a poesia / de apagar-se
como poetas / apagar o modesto delírio
e juntar as palavras voláteis
e transformá-las por outras as concretas
e revolucionar as vinte e quatro horas
e por-se no esquema e abandonar os tropos
e andar ao mesmo passo / nadar o mesmo rio
e fabricar assim a infundada esperança
de serem iguais aos outros / serem
igualmente julgados e medidos

quantas vezes e em quantas lagoas e memórias
terão querido ser / luz vermelha / terra verde
e compartilhar a luta em pedacinhos
aprender sangue a sangue o alfabeto
qual se não o soubessem / desde baixo
arder na bondade elementar
sentir a fúria como um calafrio
continuar o amor sem os alertas
companheríssimos nas difíceis
joviais nas fáceis
igualmente medidos e julgados

mas um dia uma noite uma qualquercoisa
arriscaram o corpo a miséria os versos
souberam de repente que a lei era velha
que os suaves poetas ainda que se esgoelem
ainda que vençam o vento e a lua
dispõem de uma só ocasião decisiva
a fim de que os rudes queridos companheiros
admitam que nem sempre / mas às vezes /
esses da palavra esses de calma em germe
podem ser valorosos como um sonho
leais como um rio
fortes como um imã
o grave é que sua única ocasião
é morrer
uma forma talvez de desmorrer-se
defendendo uma causa pela que outros
não precisariam morrer para serem aceitos
para serem abraçados e acreditados.

quantas vezes e em quantas substancias e cegueiras
terão insistido na candura
e buscado argumentos com raiva / resistido
para apontar o inimigo / o chumbo
que vinha no ar aniquilando
matando desmintindo desabrigando ardendo
e terão desesperado a esperança
de encurralar a confiança ou de inspirá-la

e no entanto / logo / em um segundo
em uma eucaristia de tiros
na revelação das explosões
na tortura sem promessa e última
em um instante breve como um trago
sem argumentos / sem palavras / ternos
tristíssimos finalmente e desapegados
nesse instante que não tem fim
desfeitos e refeitos de coragem
explodidos de fé / mortos de pena
deixaram de aspirar quando o lampejo
quando o sabor final e o vislumbre
quando mudaram a tênue amargura
de pequeno burguês pela de mártir.

Camarim de Prisioneiro



Algumas poesias do segundo e último livro do poeta-guerrilheiro Alex Polari. O livro, escrito no período de transição do presídio para a liberdade condicional, é uma retomada de toda sua história, desde a infância, passando pelo envolvimento com a militância, com as atividades clandestinas durante a ditadura, os tempos de presídio e a liberdade. Obra fundamental da literatura brasileira moderna… vi na internet que talvez ele dê depoimento sobre seu tempo de calabouço e tortura para a novela “Amor e Revolução”…

A CÉLULA DO SETOR SECUNDARISTA

À noite sonhávamos
e durante o dia
comíamos os sonhos
da padaria
em frente.

PROFISSÃO DE FEL

Enquanto vocês se vendiam
barato
com ares de grande dignidade
fiquei por aí
zanzando feito uma besta
fazendo a revolução dos imberbes
praticando a pureza dos tolos.

Minhas concepções mudaram
mas tenho muito orgulho
de não ter sido um burocrata.

Dizem que os desvios de direita
são mais fáceis de consertar.
Mas sempre gostei de errar pela esquerda
mesmo correndo o risco de não ficar vivo
prá fazer auto-crítica.

DECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS

Dancem os que tenham motivos
divirtam-se os imbecis convictos
eu por mim só canto
o que me desespera
o resto, adio.

COLÔNIA PENAL BRASILIENSIS

Desligaram as máquinas
o que restou, jogaram no fosso
dos ossos fizeram pentes
dos corpos piruetas
dos cabelos perucas
dos pentelhos palitos
da pele roupas
e da voz agoniada e rouca
eles foram costurando cada grito e cada boca
um por um deles foram juntando
eco por eco de desespero
caco por caco de amargura
e assim eles inventaram esse silêncio.

REFLEXÃO SOBRE NOSSO FUTURO E DOS TEMPOS

Já amei várias mulheres
e com elas corri da polícia
me entoquei em sobrelojas decadentes
mictórios de bares, velhos sobrados
onde bradei meus slogans
debaixo de marquises cinzentas
próximo a notórios líderes procurados
durante cargas de cavalaria
e chuva de papel picado.
Porém quando começamos a namorar
eu estava numa masmorra
e ainda não havia manifestação de massa.
Antes de qualquer ativismo
e vínculo ideológico
nos prendia o velho tesão
de homem e mulher.

Hoje, porém, nessa passeata
eu percebi como é bonito e inquietante
pensar a mãe que você é
do meu próprio filho
lá, toda agitada, nervosa
no meio daquele barato todo
enquanto eu fico aqui
preocupado feito o diabo
com a sua pneumonia.
Algo me diz:
o pulsar das novas eras
vai ter esse sacolejo
ritmo esquisito
e sopinha do filhote
deixado em casa
e a palavra de ordem
gritada na desordem
das ruas
e o sorriso dele
e a pauleira do comício
a tarja preta pelos mortos
e a pulseira colorida pela vida.

E quem começou pelo fim
terminará achando seu início.

CONFISSÕES DE ÚLTIMA HORA

Hoje, nesta visita íntima
senti-me sem qualquer intimidade
com esse mês de setembro
que prenuncia minha saída.
Já mais próximo do meu livramento condicional
me vejo incondicionalmente vítima de tudo,
vitrine de minha própria loucura.

E vivo a merda de um vazio despropositdo
uma total indiferença ante a liberdade
e até uma certa náusea por ela.

Tenho medo de sair, preguiça de viver
e horror de ser tomado por tal letargia
no dia que puser os pés fora dessa prisão.

Tudo perdeu o sentido
e eu escolhi me decretar atingido
por fatos que normalmente tiro de letra.
Fiz toda força que pude prá me fragilizar
antes que fosse tarde
e mais uma vez eu subisse ao pódium
para uma vitória à custa de minha emoção.
Eu que durante tanto tempo
resisti na esperança desse momento
na sensação de superioridade que ele me daria
caso eu conseguisse retê-lo
tenho apenas algumas semanas
para recuperar minha fantasia
sem a qual sairei daqui derrotado
e todos esses anos não terão tido qualquer sentido.
Confesso,
é uma sensação tão doida, doída
contraditória com tudo
que por um momento quase não publico esse livro.

POEMA DE SAÍDA BREVE

Viver, Porra!!!

Alex Polari de Alverga (Brasil, 1951)

Alex Polari de Alverga nasceu em João Pessoa, em 1951 e participou da luta armada contra a ditadura militar na VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) que realizava ações armadas contra o regime militar e lutava pela liberação de presos políticos. Foi um dos principais responsáveis pelo sequestro do embaixador alemão, nos anos 1970. Foi preso no DOI-CODI em 1971 e barbaramente torturado. Polari sobreviveu para denunciar ao próprio Tribunal Militar o assassinato de Stuart Angel (filho da estilista Zuzu Angel) retratado no poema “Canção para Paulo” e as torturas que sofreu e presenciou.

Em 1978, ainda preso, lançou seu primeiro livro de poesia: “Inventário de Cicatrizes”. Em 1980 foi finalmente libertado e se envolveu com o Santo Daime, não escrevendo mais poemas.

A poesia de Polari é coloquial, direta, despojada e bem humorada, apesar de profundamente marcada pela experiência da clandestinidade, do cárcere, da tortura. Abaixo uma pequena seleção que fiz… incluindo o poema “Amar em aparelhos” que, pra mim, é de seus melhores. (“Aparelho” é como os militantes chamavam as casas em que atuavam clandestinamente).

DIA DA PARTIDA

Aí eu virei para mamãe
naquele fatídico outubro de 1969
e com dezenove anos na cara
uma mala e um 38 no sovaco,
disse: Velha,
a barra pesou, saiba que te gosto
mas que estás por fora
da situação. Não estou mais nessa
de passeata, grupo de estudo e panfletinho
tou assaltando banco, sacumé?
Esses trecos da pesada
que sai nos jornais todos os dias.
Caiu um cara e a polícia pode bater aí
qualquer hora, até qualquer dia,
dê um beijo no velho
diz pra ele que pode ficar tranqüilo
eu me cuido
e cuide bem da Rosa.
Depois houve os desmaios
as lamentações de praxe
a fiz cheirar amoníaco
com o olho grudado no relógio
dei a última mijada
e saí pelo calçadão do Leme afora
com uma zoeira desgraçada na cabeça
e a alma cheia de predisposições heróicas.
Tava entardecendo.

AMAR EM APARELHOS

Era uma coisa louca
trepar naquele quarto
com a cama suspensa
por quatro latas
com o fino lençol
todo ele impresso
pelo valor de teu corpo
e a tinta do mimeógrafo.

Era uma loucura
se despedir da coberta
ainda escuro
fazer o café
e a descoberta
de te amar
apesar dos pernilongos
e a consciência
de que a mentira
tem pernas curtas.

Não era fácil
fazer o amor
entre tantas metralhadoras
panfletos, bombas
apreensões fatais
e os cinzeiros abarrotados
eternamente com o teu Continental,
preferência nacional.

Era tão irracional
gemer de prazer
nas vésperas de nossos crimes
contra a segurança nacional
era duro rimar orgasmo
com guerrilha
e esperar um tiro
na próxima esquina.

Era difícil
jurar amor eterno
estando com a cabeça
à prêmio
pois a vida podia terminar
antes do amor.

CANÇÃO PARA “PAULO” (À STUART ANGEL)

Eles costuraram tua boca
com o silêncio
e trespassaram teu corpo
com uma corrente.
Eles te arrastaram em um carro
e te encheram de gases,
eles cobriram teus gritos
com chacotas.

Um vento gelado soprava lá fora
e os gemidos tinham a cadência
dos passos dos sentinelas no pátio.
Nele, os sentimentos não tinham eco
nele, as baionetas eram de aço
nele, os sentimentos e as baionetas
se calaram.

Um sentido totalmente diferente de existir
se descobre ali,
naquela sala.
Um sentido totalmente diferente de morrer
se morre ali,
naquela vala.

Eles queimaram nossa carne com os fios
e ligaram nosso destino à mesma eletricidade.
Igualmente vimos nossos rostos invertidos
e eu testemunhei quando levaram teu corpo
envolto em um tapete.

Então houve o percurso sem volta
houve a chuva que não molhou
a noite que não era escura
o tempo que não era tempo
o amor que não era mais amor
a coisa que não era mais coisa nenhuma.

Entregue a perplexidades como estas,
meus cabelos foram se embranquecendo
e os dias foram se passando.

INDAGAÇÕES I

Quando me interessei pelo mundo
e procurei o sentido da vida
a ética dependia da pontaria
a certeza era fácil
estava mais nas entranhas
e no coração
do que nos livros.
Hoje a coerência dos sistemas
me parece ridícula
e se nos livramos
de uma certa pressa
entendendo melhor
a vida e a teoria,
isso não significa que o problema da opção mudou.

IDÍLICA ESTUDANTIL

Nossa geração teve pouco tempo
começou pelo fim
mas foi bela a nossa procura
ah! moça, como foi bela a nossa procura
mesmo com tanta ilusão perdida
quebrada,
mesmo com tanto caco de sonho
onde até hoje
agente se corta.

SEMÂNTICA EXISTENCIAL

Debaixo da janela de minha cela
desfilam a 1ª Companhia, a 2ª Companhia,
a 3ª Companhia e as demais companhias
que não solucionam minha solidão

ZOOLÓGICO HUMANO

o que somos
é algo distante
do que fomos

ou pensamos ser.
Veja o mundo:
ele se move
sem nossa interferência
veja a vida:
ela prossegue
sem nossa licença
veja sua amiga:
ela se comove
por outros corpos
que não o seu.

Somos simplesmente
o que é mais fácil ser:
lembrança
sentimento fóssil
referência ética
apenas um belo ornamento
para a consciência dos outros.

A quem interessar possa:
Estamos abertos à visitação pública
sábados e domingos
das 8 às 17 horas.

Favor não jogar amendoim.

TRILOGIA MACABRA (I – O TORTURADOR)

O torturador
Difere dos outros
Por uma patologia singular
ser imprevisível
vai da infantilidade total
à frieza absoluta.

Como vivem recebendo
Elogios e medalhas
Como vivem subindo de posto,
Pouco importam pelos outros.
Obter confissões é uma arte
O que vale são os altos propósitos
O fim se justifica,
Mesmo pelos meios mais impróprios.

Além de tudo o torturador,
Agente impessoal que cumpre ordens superiores
No cumprimento de suas funções inferiores,
Não está impedido de ser um pai extremoso
De ter certos rasgos
E em alguns momentos ser até generoso.

Além disso acredita que é macho, nacionalista,
Que a tortura e a violência
São recursos necessários
Para a preservação de certos valores
E se no fundo ele é mercenário
Sabe disfarçar bem isso
Quando ladra.

Não se suja de sangue
Não macera nem marca,
(a não ser em casos excepcionais)
o corpo de suas vítimas,
trabalha em ambientes assépticos
com distanciamento crítico
– não é um açougueiro, é um técnico –
sendo fácil racionalizar
que apenas põe a serviço da pátria
da civilização e da família
uma sofisticada tecnologia da dor
que teria de qualquer maneira
de ser utilizada contra alguém
para o bem de todos.

Thiago de Mello (Brasil, 1926)


Amadeu Thiago de Mello (Barreirinha-AM, 1926) é um dos maiores poetas brasileiros vivos. Dono de um estilo forte, simples e lírico, Thiago tem obras traduzidas para mais de trinta idiomas. Sua poesia ficou muito conhecida pelo seu engajamento no período da ditadura com os livros “A Canção do Amor Armado”, “Faz escuro mais eu canto” e “Poesia comprometida com a minha e tua vida”. “Faz Escuro, mas eu Canto” foi transformado em show e tornou-se um libelo da luta pela liberdade naqueles anos escuros. Preso durante a ditadura, exilou-se no Chile, e se tornou bom amigo de Pablo Neruda. Com o fim do regime militar voltou a sua pequena cidade natal, Barreirinha, onde vive até hoje. Thiago traduziu para o português obras de Neruda, Cesar Vallejo, Ernesto Cardenal.

Sempre, desde o meu primeiro livro, fui um poeta comprometido com vida do homem (a minha de permeio). Escrevo sobre o que me comove, o que instiga a minha sensibilidade ou a minha inteligência. O que me alegra ou me dói. Quando a ditadura militar, com o seu terror cultural e a indignidade da tortura, feriu a própria dignidade da condição humana, os meus versos se ergueram em defesa do homem. Nunca fui panfletário (nada tenho contra o panfleto bem sucedido) nem populista. Não há porque negar que os meus livros Faz Escuro Mas Eu Canto e A Canção do Amor Armado me fizeram popular. O Faz Escuro vai hoje na sua vigésima edição. Não tenho culpa. “Escrevo sobre o silêncio sonoro da floresta ou sobre a menina que dorme com fome. Sobre as ancas da moça que passa ou sobre o milagre do telescópio que fotografou a luz fossilizada dos primeiros estilhaços do big-bang. Sobre a dor dos deserdados e a esperança de quem tem fé.” (Thiago de Mello)

Em especial, acho o “Poesia comprometida com a minha e tua vida” um dos melhores livros dessa sua vertente engajada, militante. É também um livro que me ajudou muito durante um período tenso de minha vida, de rachas políticos e emocionais. Havia comprado vários volumes desse livro, que é fininho, num sebo. Mas fui dando de presente e fiquei sem nenhum. Por isso mesmo, a seleção que faço desse livro é do que pude achar na internet ou tenho guardado, aqui, impresso.

O próprio nome do livrinho já traz uma reflexão sobre sua poesia e militância. O título mais óbvio seria “Poesia comprometida com a NOSSA vida”, mas Thiago fez questão de escrever “comprometida COM A MINHA E COM A TUA VIDA”! Está implícita, aqui, a necessidade de que o seu engajamento com a luta social deva passar, também, por sua própria vida. Portanto, o engajamento político não pode ser uma anulação de sua humanidade em prol de um coletivo abstrato, mas é porque ele deseja mais humanidade pra si, mais vida e alegria pra si, é que pode ele desejar e lutar por humanidade e vida para os outros. O contrário também é válido: a luta pela humanidade dos outros também traz mais vida pra si e o torna mais humano. O importante aqui é quebrar esse “NOSSA” que poderia tornar tudo abstrato e redentor demais, sem observar esse jogo tenso e, muitas vezes contraditório, entre lutar pela felicidade dos outros mas também pela sua.

É um livro de auto-crítica (lindamente anunciada no poema “Aprendizagem no vento”) e daí vem sua profundidade e honestidade. Após seus livros de engajamento mais feroz (“amor armado” e “faz escuro”) segue esse pequeno, mas potente, livrinho, onde repassa sua militância buscando compreender o que há de belo e justo, mas, também, de errado nela… daí vem sua beleza, dessa coragem de expor as dificuldades e tensões da militância política, algo que não é fácil já que há essa imagem tão consagrada de que os militantes de esquerda são super-heróis, melhores do que todos os outros… mas não, são humanos, formados na sociedade burguesa, carregados dos vícios e contradições dessa sociedade (o poema “Não somos os melhores” traduz muito bem isso). Com esse livro, Thiago desbanca a arrogância militante (que surge, muitas vezes, como uma defesa à hostilidade conservadora da sociedade às mudanças), buscando abrir o peito e se enxergar, concretamente, enquanto ser que depende dos outros e luta conjuntamente (como em “Para os que virão”). Defende a sua emoção e sensibilidade diante da frieza e racionalidade excessivas que a luta muitas vezes cobra em “Não aprendo a lição”. Defende também a importância do amor, palavrinha que muitas vezes é ridicularizada e esquecida dentro das organizações e movimentos populares, em “As ensinanças da dúvida” e “Recado de Companheiro”.

É um livro de auto-crítica e não de crítica. Portanto, é a voz de um militante-poeta observando a sua prática e a de seus companheiros. O dedo que se levanta e aponta o erro, a falha, aponta para si mesmo. Por isso, é um livro cheio de esperança, de que, apesar dos pesares, devemos continuar, mesmo que ainda seja difícil distinguir “o sujo do encardido”, é com esta luz mesmo, “difusa e dolorida”, que devemos avançar (“Mormaço da Primavera”). Para a atual conjuntura brasileira, um livrinho essencial, para repensar os erros e não desistir de avançar e lutar.

Infelizmente, esse livrinho (que chegou a ser premiado no período da ditatura!), é dos menos conhecidos dele. Por isso mesmo, divulgo aqui. No final, vão 2 vídeos: Thiago declamando “Os estatutos do homem”, poesia que eu não gosto muito, mas é sua poesia mais conhecida… então vá lá… e, uma curiosidade: um vídeo do Thiago no Tonico’s Bar aqui em Campinas, recentemente… perdi uma chance enorme de conhecê-lo nesse dia 🙁

APRENDIZAGEM NO VENTO

O vendaval findou.
Agora é só o vento
soprando a sua ferocidade
mais fria do que a pele
enrijecida e azulada
dos operários fuzilados.

O vendaval findou.
Agora é só o vento cotidiano,
implacavelmente morno, hálito podre.
É com ele que se tem de aprender
a lição do revés, vida vivida.

Dos tantos que saíram,
poucos, muito poucos, se reencontrarão
um dia, tomara, naquilo que foram
ou quenão puderam ser.
Por enquanto, a cordilheira transposta,
o que se alteia
é o desvario da boca,
é cada vez mais o muro
entre a boca e a mão.

Aos que sonhavam mesmo, vendo o claro,
e que puderam permanecer
no coração ardente da sombra,
cabe o labor maior da aprendizagem.
É aprender com tudo o que foi feito
e também com tudo que deixou de ser feito,
como rasgar o caminho da esperança
que lateja, que lateja,
na frágua da paciência operária.

O vendaval findou. Telhados ocos
não poderão servir de abrigo a pássaros.

PARA OS QUE VIRÃO

Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.

Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.

Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular – foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
– muito mais sofridamente –
na primeira e profunda pessoa
do plural.

Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
( Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros. )
Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.

AS ENSINANÇAS DA DÚVIDA

Tive um chão (mas já faz tempo)
todo feito de certezas
tão duras como lajedos.

Agora (o tempo é que fez)
tenho um caminho de barro
umedecido de dúvidas.

Mas nele (devagar vou)
me cresce funda a certeza
de que vale a pena o amor

NÃO SOMOS MELHORES

A vida repartida dia a dia
com quem vinha querendo que a vida
pudesse um dia ser vida,
posso dizer que alguma coisa aprendi
(primeiro com amargura,
depois com essa dolorida lucidez
que nos ensina a ver nossa feiúra.)

Aprendi, por exemplo,
que não somos os melhores.
Custou, mas aprendi.
Tempo largo levei para enxergar
que era de puro desamor a chama
que crescia no olhar do companheiro.

Não somos nem melhores nem piores.
Somos iguais. Melhor é a nossa causa.

Todos os que chegamos dessas águas
barrentas e burguesas, para dar
(pouco sabemos dar) uma demão
na roda e transformar a vida injusta
dos que conhecem mesmo a banda podre,
mostramos a nós mesmos, mais que aos outros,
a face verdadeira que levamos.

É repetir: melhor é a nossa causa.
Mas no viver da vida, a vida mesma,
quando é impossível disfarçar,
quando não se pode ser nada mais
do que o homem que a gente é mesmo,
na prática cotidiana da chamada vida,
que é a verdadeira prática do homem,
fomos sempre e somente como os outros,
e muitas vezes como os piores dos outros,
os que estão do outro lado,
os que não querem, nem podem, nem pretendem
mudar o que precisa ser mudado
para que a vida possa um dia
ser mesmo vida, e para todos.

Thiago de Mello com Pablo Neruda

NÃO APRENDO A LIÇÃO

A lição de conviver,
senão de sobreviver
no mundo feroz dos homens,
me ensina que não convém
permitir que o tempo injusto
e a vida iníqua me impeçam
de dormir tranquilamente.
Pois sucede que não durmo.

Frente à verdade ferida
pelos guardiães da injustiça,
ao escárnio da opulência
e o poderio dourado
cujo esplendor se alimenta
da fome dos humilhados,
o melhor é acostumar-se,
o mundo foi sempre assim.
Contudo, não me acostumo.

A lição persiste sábia:
convém cabeça, cuidado,
que as engrenagens esmagam
o sonho que não se submete.
E que a razão prevaleça
vigilante e não conceda
espaços para a emoção.
Perante a vida ofendida
não vale a indignação.
Complexas são as causas
do desamparo do povo.
Mas não aprendo a lição.
Concedo que me comovo.

O QUE ME ESPANTOU

Não foi a multidão indo para casa
(nós no meio dela, disfarçando),
cabeça baixa, as pernas pesadas,
seguindo a ordem que o inimigo lhe dava.
Eram operários, homens e mulheres.
Eram homens de todas as idades,
subindo silenciosos a Grande Avenida.
Nenhum brado, nenhum braço erguido.
Nem foi a organização perfeita do inimigo,
a pontaria espantosa de seus aviões,
o rigor implacável do seu ódio.
Nem a ingenuidade dos que atenderam
ao turvo e meloso apelo
da monstruosidade humana
repetido pelo rádio.
Pois acreditaram na idiosincrasia,
e de mão beijada se entregaram
ao reino das trevas e do ranger de dentes,
onde até hoje, tirante os que foram mortos,
aprendem todos os escalões do escárneo.
O que me espantou foi o assombro
que de repente, desorbitado,
o chão fugindo, o ar faltando,
eu vi se erguer no olhar, no peito,
nas mãos que não se achavam,
daquele companheiro
marinheiro de tanto mar,
quando ele compreendeu,
depois de tanto acreditar amando,
que as barricadas, os grupos de combate,
os cordões de milhares, a vanguarda de fogo,
não íam chegar, não íam se erguer, não,
e que os planos e projetos de resistência
(escorriam de brasa as suas lágrimas)
eram planos e projetos de palavras.

RECADO DE COMPANHEIRO

Para que não chegue o dia
em que a flama da esperança
que arde no chão de teu dia
amanheça recoberta
de uma fuligem tão fria
como um ferrão de incerteza
no azul da alegria;
para que esse dia – e é o dia
em que te começa a morte –
não chegue, tens de guardar
dia a dia, mesmo doendo,
o amor no teu coração:
sabendo que amor só cresce
quando se reparte inteiro
e se deixa de crescer
de ser amor também deixa…

MORMAÇO DE PRIMAVERA

Entre chuva e chuva, o mormaço.
A luz que nos entrega o dia
não dá ainda para distinguir
o sujo do encardido,
o fugaz, do provisório.
A própria luz é molhada.
De tão baça, não me deixa
sequer enxergar o fundo
dos olhos claros da mulher amada.

Mas é com esta luz mesmo,
difusa e dolorida,
que é preciso encontrar as cores certas
para poder trabalhar a Primavera.

THIAGO DECLAMA “OS ESTATUTOS DO HOMEM”

THIAGO DE MELLO NO TONICO’S BAR/CAMPINAS