Praquês

Mergulhado esta semana nos livros, tentando escrever alguma coisa da dissertação de mestrado… mergulhado em gramsci… nesses mergulhos não é difícil ir esquecendo das motivações reais de tudo isso (a universidade, o intelecto, a vaidade vão te seduzindo com outras tantas motivações). Aqui tra(b)duzo um poema do Roque Dalton que me ajuda a não esquecer dos verdadeiros porquês. E depois um trechinho que achei bonito do Gramsci…

A pequena burguesia

(sobre uma de suas manifestações)

Os que
no melhor dos casos
querem fazer a revolucão
para a História para a lógica
para a ciência e natureza
para os livros do próximo ano ou do futuro
para ganhar a discussão e inclusive
para sair, enfim, nos jornais
e não simplesmente
para eliminar a fome
dos que têm fome
para eliminar a exploração dos explorados.
É natural então
que na prática revolucionária
cedam somente ante ao juízo da História
da moral do humanismo da lógica e das ciências
dos livros e dos periódicos
e se neguem a conceder a última palavra
aos esfomeados, aos explorados
que têm sua própia história de horror
sua própria lógica implacável
e terão seus própios livros
sua própria ciência
natureza
e futuro.

Trecho Gramsci sobre mudança individual x social

“(…)O homem deve ser concebido como um bloco histórico de elementos puramente subjetivos e individuais e de elementos de massa e objetivos ou materiais, com os quais o indivíduo está em relação ativa. Transformar o mundo exterior, as relações gerais, significa fortalecer a si mesmo, desenvolver a si mesmo. É uma ilusão e um erro supor que o “melhoramento” ético seja puramente individual: a síntese dos elementos constitutivos da individualidade é “individual”, mas ela não se realiza e desenvolve sem uma atividade para fora, transformadora das relações externas, desde aquelas com a natureza e com os outros homens em vários níveis, nos diversos círculos em que se vive, até a relação máxima, que abarca todo o gênero humano. Por isso, é possível dizer que o homem é essencialmente “político”, já que a atividade para transformar e dirigir conscientemente os outros homens realiza sua “humanidade”, a sua “natureza humana”.”
[pag. 406-407 (cadernos do cárcere, caderno 10)]

Os aliens

1958080_228962760623477_1698747859_n


OS ALIENS
(Charles Bukowski, EUA, 1920-1994)

talvez você não acredite
mas há pessoas
que passam a vida
sem o menor
atrito ou
agonia
eles se vestem bem, comem
bem, dormem bem
estão satisfeitos com a vida
em família.
eles têm momentos de
melancolia
mas no geral
não são incomodados
e, frequentemente,
sentem-se
muito bem quando morrem
é uma morte fácil, geralmente,
dormem.
talvez você não acredite
porém essas pessoas existem.
mas eu não sou
uma delas
ah não, eu não sou
uma delas
eu nem chego perto
de ser
uma
delas
mas elas estão

e eu estou
cá!

praquês


Mergulhado esta semana nos livros, tentando escrever alguma coisa da dissertação de mestrado… mergulhado em gramsci… nesses mergulhos não é difícil ir esquecendo das motivações reais de tudo isso (a universidade, o intelecto, a vaidade vão te seduzindo com outras tantas motivações). Aqui tra(b)duzo um poema do Roque Dalton que me ajuda a não esquecer dos verdadeiros porquês. E depois um trechinho que achei bonito do Gramsci…

A pequena burguesia

(sobre uma de suas manifestações)

Os que
no melhor dos casos
querem fazer a revolucão
para a História para a lógica
para a ciência e natureza
para os livros do próximo ano ou do futuro
para ganhar a discussão e inclusive
para sair, enfim, nos jornais
e não simplesmente
para eliminar a fome
dos que têm fome
para eliminar a exploração dos explorados.
É natural então
que na prática revolucionária
cedam somente ante ao juízo da História
da moral do humanismo da lógica e das ciências
dos livros e dos periódicos
e se neguem a conceder a última palavra
aos esfomeados, aos explorados
que têm sua própia história de horror
sua própria lógica implacável
e terão seus própios livros
sua própria ciência
natureza
e futuro.

Trecho Gramsci sobre mudança individual x social

“(…)O homem deve ser concebido como um bloco histórico de elementos puramente subjetivos e individuais e de elementos de massa e objetivos ou materiais, com os quais o indivíduo está em relação ativa. Transformar o mundo exterior, as relações gerais, significa fortalecer a si mesmo, desenvolver a si mesmo. É uma ilusão e um erro supor que o “melhoramento” ético seja puramente individual: a síntese dos elementos constitutivos da individualidade é “individual”, mas ela não se realiza e desenvolve sem uma atividade para fora, transformadora das relações externas, desde aquelas com a natureza e com os outros homens em vários níveis, nos diversos círculos em que se vive, até a relação máxima, que abarca todo o gênero humano. Por isso, é possível dizer que o homem é essencialmente “político”, já que a atividade para transformar e dirigir conscientemente os outros homens realiza sua “humanidade”, a sua “natureza humana”.”
[pag. 406-407 (cadernos do cárcere, caderno 10)]