Homenagem a Roque Dalton

Há 37 anos atrás assassinavam, no dia 10 de maio, o poeta guerrilheiro Roque Dalton. Ele foi “justiçado” por seus próprios companheiros de organização, pois seu jeito heterodoxo, irreverente, provocativo, irônico e questionador foi interpretado pela moral conservadora desses militantes como uma vinculação com a CIA, como um infiltrado que tentava destruir por dentro a luta comunista. Assassinavam injustamente um dos poetas que mais lutou pela libertação de seu povo (El Salvador) e punham fim a escritura genial deste guerrilheiro.

Roque Dalton é o poeta-lutador que mais admiro dentro do panorama latinoamericano, o que mais venho traduzindo aqui no Passarin e o que mais tem me influenciado. Presto aqui esta singela homenagem traduzindo mais algumas de suas poesias. Quiçá ainda lançarei um livro em português com suas poesias traduzidas… é enorme a necessidade de tornar esse poeta, sua luta e poesia mais conhecida no Brasil… espero também, não daqui muito tempo, visitar El Salvador, seu país natal, e conhecer sua família.

Você pode ler mais poesias que traduzi dele aqui.

CATÓLICOS E COMUNISTAS NA AMÉRICA LATINA:
ALGUNS ASPECTOS ATUAIS DO PROBLEMA

Me expulsaram do Partido Comunista
muito antes de me excomungarem
na Igreja Católica.

Isso não é nada:
me excomungaram na Igreja Católica
depois que me expulsaram do Partido Comunista.

Bah!
Me expulsaram do Partido Comunista
porque me excomungaram na Igreja Católica.

MISCELÂNEAS

Ironizar sobre o socialismo
parece ser aqui um bom digestivo,
mas te juro que em meu país
primero deve-se conseguir o jantar.

Para mim, o socialismo é ainda uma etapa burguesa
na história marxista da humanidade. E o digo
precisamente em uma manhã em que me reconheço
lúcido, quando faz quase uma semana que não provo
uma gota de álcool.

O imperialismo deseja que a nação salvadorenha seja a Nação Salvadorenha S.A., Made in USA.

Digam o que somos do que somos: um povo sofrido, um
povo analfabeto, desnutrido e no entanto forte, porque
outro povo já teria morrido…

Sabe o que seria El Salvador se fosse do tamanho do Brasil?

POEMA DE AMOR

Os que ampliaram o Canal do Panamá
(e foram classificados como “rolo de prata” e não como “rolo de ouro”*),
os que repararam a frota do Pacífico
nas bases da Califórnia,
os que apodreceram nos cárceres da Guatemala,
México, Honduras, Nicarágua,
por ladrões, por contrabandistas, por estafadores,
por famintos,
os sempre suspeitos de tudo
(“Permita-me me remeter ao morto
por vagabundo suspeito
e com o agravante de ser salvadorenho”),
as que encheram os bares e bordéis
de todos os portos e capitais da zona
(“A gruta azul”, “O Shortinho”, “Terra feliz”),
os semeadores de milho em plena selva estrangeira,
os reis das páginas vermelhas***,
os que nunca sabem de ninguém de onde são,
os melhores artesãos do mundo,
os que foram cozidos a balaços ao cruzar a fronteira,
os que morreram de malária
ou das picadas de escorpiões e das barbas amarelas**
no inferno dos bananais,
os que choraram bêbados com o hino nacional
debaixo dum ciclone do Pacífico ou da neve do norte,
os agregados, os mendigos, os maconheiros,
os safados filhos de uma grande puta,
os que apenas e somente puderam regressar,
os que tiveram um pouco mais de sorte,
os eternos sem-documentos,
os fazem-tudo, os vendem-tudo, os comem-tudo,
os primeiros a sacar a faca,
os tristes mais tristes do mundo,
meus compatriotas,
meus irmãos.

* Na construção do canal do Panamá, os índios e negros (que ganhavam segundo padrão “silver roll”) recebiam menos e viviam em piores condições do que os trabalhadores brancos (“gold roll”).
** uma cobra venenosa bem comum na américa central.
*** os que mais aparecem nas páginas criminais dos jornais

NÃO FIQUE BRAVO, POETA

A vida paga suas contas com teu sangue
e tu segues crendo que és um ruisenhor.

Agarra a garganta dela de uma vez, a desnuda,
a tombe e faça nela tua peleja de fogo,
recheia sua tripa majestosa, a engravida,
a põe a parir cem anos pelo coração.

Mas com lindo modo, irmão,
com um gesto
propício para a melancolia.

HORA DA CINZA

Finaliza setembro. É hora de dizer-te
o difícil que foi morrer.

Por exemplo, esta tarde
tenho nas mãos cinzentas
livros formosos que não entendo,
não poderia cantar ainda que tenha cessado a chuva
e me cai sem motivo a recordação
do primeiro cachorro a quem amei quando criança.

Desde ontem que te foi
há umidade e frio até na música.

Quando eu morrer,
só recordarão meu júbilo matutino e palpável,
minha bandeira sem direito a se cansar,
a concreta verdade que reparti desde o fogo,
o punho que fiz unânime
com o clamor de pedra que exigiu a esperança.

Faz frio sem ti. Quando eu morrer,
quando eu morrer
dirão com boas intenções
que eu não soube chorar.

Agora chove de novo.
Nunca foi tão tarde às 25 pras 7
como hoje.

Sinto desejos de rir
ou de matar-me.

Hans Magnus Enzensberger (Alemanha, 1929)


Cansado de trabalhar na dissertação, comecei a dar uma olhada na estante e reencontrei dois livros do poeta alemão Hans Magnus Enzensberger e decidi postar alguns poemas aqui. Esses poemas já estão traduzidos para o português, mas como sua poesia é pouco conhecida por aqui, resolvi divulgar uma seleção.

Hans Magnus é considerado um dos maiores poetas vivos da Alemanha. Estudou literatura, línguas e filosofia em universidades alemãs e na Sorbonne. É Ensaísta, organizador de livros, autor infanto-juvenil, dramaturgo, biógrafo e romancista. Com tom sarcástico, sua poesia ataca o capitalismo e a vida burguesa, mas tampouco poupa a esquerda esclerosada.

As traduções são de Kusrt Scharf e Armindo Trevisan, com exceção de “Defesa dos Lobos contra os cordeiros” traduzido por Afrânio Novaes.

BREVE HISTÓRIA DA BURGUESIA

Este foi o momento, quando nós,
sem nos apercebermos, durante cinco minutos
estávamos imensamente ricos, generosamente
refrigerados com a eletricidade no verão,
ou caso fosse o inverno,
a lenha, trazida de longe via aérea, ardia
em lareiras estilo renascentista. Curioso:
havia tudo, vindo por avião,
de certa maneira automaticamente. Elegantes
éramos, ninguém nos aturava.
Jogávamos pelas janelas concertos de solistas,
chips, orquídeas embrulhadas em celofane. Nuvens
que diziam: “Eu”. Únicos!

Íamos a todas as partes em vôos de carreira. Mesmo os nossos suspiros
eram pagos com cartões de crédito. Xingávamos
como gralhas, todos ao mesmo tempo. Cada um
guardava a sua própria desgraça debaixo do assento,
à mão. Que pena!
Era tão prático. A água
corria à toa das torneiras.
Lembram-se? Simplesmente atordoados
por nossos sentimentos minúsculos
comíamos pouco. Se soubéssemos
que tudo passaria
em cinco minutos, teríamos saboreado
bem mais, muito mais, o roast-beef Wellington.

PARA O LIVRO DE LITERATURA DE SEGUNDO GRAU

Não leia odes, meu filho, lê os horários
(dos trens, dos ônibus, dos aviões):
são mais exatos. Abre os mapas náuticos
antes que seja tarde demais. Sê vigilante, não cantes.
Chegará o dia em que eles, de novo, pregarão listas
no portão e desenharão marcas no peito daqueles que dizem
não. Aprende a ir incógnito, aprende mais do que eu:
a mudar de bairro, de passaporte, de rosto.
Entende da pequena traição,
da salvação suja de todos os dias. Úteis
são as encíclicas para se fazer fogo,
e os manifestos: para a manteiga e sal
dos indefesos. É preciso raiva e paciência
para se soprar nos pulmões do poder
o fino pó mortal, moído
por aqueles, que aprenderam muito,
que são exatos por ti.

DEFESA DOS LOBOS CONTRA OS CORDEIROS

(Tradução de Afrânio Novaes)

deve o abutre se alimentar de flores?
o que exigis do chacal?
que ele mude de pele? e do lobo? que
ele mesmo limpe os dentes?
o que não apreciais
nos coronéis e nos papas?
o que vos deixa perplexos
na tela mentirosa?

quem irá então costurar para o general
a condecoração sanguinária em sua calça? quem
irá fatiar o capão diante do agiota?
quem irá ostentar orgulhoso a cruz-de-ferro
diante da barriga que ronca? quem
irá pegar a gorjeta, a soma,
a propina? há
muitos roubados, poucos ladrões; quem
então os aplaude? quem
lhes coloca a insígnia? quem
é ávido pela mentira?

vede no espelho: covardes,
que evitam a fadiga da verdade,
avessos ao aprender, o pensar
é deixado a critério dos lobos,
a coleira é vossa jóia mais cara,
nenhuma ilusão é tão estúpida, nenhum
consolo é tão barato, qualquer chantagem
ainda é para vós branda demais.

cordeiros, irmãs são
as gralhas comparadas a vós:
cegais uns aos outros.
a irmandade reina
entre os lobos:
eles vão em bandos.

louvados sejam os predadores: vós,
convidativos ao estupro,
vos atirais sobre o leito negligente
da obediência. mentis e ainda
soltais ganidos. quereis
ser estraçalhados. vós
não mudais o mundo.

UMA VAGA LEMBRANÇA

Nos nossos debates, companheiros,
me parece às vezes
havermos esquecidos algo,
não é o inimigo.
não é a linha.
não é a meta.
não consta no Breve Curso.

Se nunca o tivéssemos sabido
não haveria luta.
Não me perguntem o que é.
Não sei como se chama.
Apenas sei que é
o mais importante
aquilo que esquecemos.

RAZÕES ADICIONAIS PARA OS POETAS MENTIREM

Porque o momento
no qual a palavra feliz
é pronunciada,
jamais é o momento feliz.
Porque quem morre de sede
não pronuncia sua sede
Porque na boca da classe operária
não existe a palavra classe operária.
Porque quem desespera
não tem vontade de dizer:
“Sou um desesperado”.
Porque orgasmo e orgasmo
não são conciliáveis.
Porque o moribundo em vez de alegar:
“Estou morrendo”
só deixa perceber um ruído surdo
que não compreendemos.
Porque são os vivos
que chateiam os mortos
com suas notícias catastróficas.
Porque as palavras chegam tarde demais,
ou cedo demais
Porque, portanto, é sempre um outro,
sempre um outro
quem fala por aí,
e porque aquele
do qual se fala
se cala.

MODELO DA TEORIA DO CONHECIMENTO

Aqui tens
uma grande caixa
com o rótulo:
caixa.
Se a abrires
encontraras nela
uma caixa
com o rótulo:
caixa.
Se a abrires –
agora me refiro
a esta caixa
não àquela – ,
encontrarás nela
uma caixa
com o rótulo
etcetra;
e se continuares
depois de infindáveis fadigas
uma caixa
infinitamente pequena
com um rótulo
tão miúda
que, por assim dizer,
se evapora diante de teus olhos.
É uma caixa
que existe só na tua imaginação.
Uma caixa totalmente
vazia.

Anti-poesia de Nicanor Parra


Nicanor Parra é um grande poeta chileno, considerado um dos maiores da América Latina… indicado várias vezes ao Nobel… ele é de uma família de artistas populares, dos Parra, violeta parra e tudo mais… apesar disso tudo, é ainda muito pouco conhecido no Brasil… é responsável por, lá nos idos de 50, dar uma paulada na espinha da grandiloquência da poesia latina… inventou a sua anti-poesia, com seus anti-poemas… trouxe a poesia pro chão, pra fala coloquial, pra brincadeira, pro campo do popular… em suas próprias palavras:

“Durante medio siglo
la poesía fue
el paraíso del tonto solemne.
Hasta que vine yo
y me instalé con mi montaña rusa.

Suban, si les parece.
Claro que yo no respondo si bajan
echando sangre por boca y narices.”

FICA COM TEU BORGES

ele te oferece a recordação de uma flor amarela
vista ao anoitecer
anos antes que você nascera
interessante puxa que interessante
em troca eu não te prometo nada
nem dinheiro nem sexo nem poesia
um iogurte é o que + poderia te oferecer

Obs.: Roque Dalton tem um poema de tom semelhante falando sobre o Borges que pode ser visto aqui. de nome “DE UM REVOLUCIONÁRIO A J. L. BORGES”

MOSCAS NA MERDA

Ao senhor – ao turista – ao revolucionário
gostaria de lhes fazer uma só pergunta:
alguma vez viram uma nuvem de moscas
esvoaçar ao redor de um monte de merda
pousar e trabalhar na merda?
Viram moscas alguma vez na merda?

porque eu nasci e me criei com as moscas
em uma casa rodeada de merda

REGRA DE TRÊS

Independentemente
Dos vinte milhões de desaparecidos
Quanto vocês crêem que custou
A campanha de endeusamento de Stalin
Em dinheiro constante e sonante:

Afinal, os monumentos custam dinheiro.

Quanto vocês crêem que custou
Demolir essas massas de concreto?

Apenas a remoção da múmia
Do mausoléu para a vala comum
Deve ter custado uma fortuna.

E quanto vocês crêem que gastaremos
Para repor as estátuas sagradas?

TESTE

O que é um antipoeta:
Um comerciante de urnas e ataúdes?
Um sacerdote que não crê em nada?
Um general que duvida de si mesmo?
Um vagabundo que ri de tudo
Até da velhice e da morte?
Um interlocutor de mau caráter?
Um bailarino a beira do abismo?
Um narciso que ama todo o mundo?
Um brincalhão sangrento
Deliberadamente miserável?

Um poeta que dorme em uma cadeira?
Um alquimista dos tempos modernos?
Um revolucionário de bolso?
Um pequeno burguês?
Um charlatão?
………………. um deus?
………………………… um inocente?
Um aldeão de Santiago do Chile?
Sublinhe a frase que considere correta.

O que é a antipoesia:
Um temporal em uma xícara de chá?
Uma mancha de neve em uma rocha?
Um açafate cheio de excrementos humanos
Como crê o padre Salvatierra²?
Um espelho que diz a verdade?
Um bofetão no rosto
Do Presidente da Sociedade de Escritores?
(Deus o tenha em seu santo reino)
Uma advertência aos poetas jovens?
Um ataúde a jato?
Um ataúde a força centrífuga?
Um ataúde a gás de parafina?
Uma capela ardente sem defunto?

Marque com uma cruz
A definição que considere correta.