o preto no branco


– eterno –
o branco
aguarda
o espanto

– efêmero –
o corpo
fermenta
o verbo

qual palavra
arderá o novo?

abro a boca
e espero.

a pós


pós-tudo
pós-tanto

arrumando
a casa

brincos
presilhas
grampos

mais nada?

Curtas e grossas…


um leminski em mim que se lê…

I.

a língua é longa
a palavra pouca
e rouca

abandona
– minino –
o nome
das coisas

a coisa em si
não se ouve

se diz
boca a boca

II.


onde
a língua
perde a fala:
falo

III.

dentro de ti
fora de si

entre
ter-se

IV.

a lua
lá fora
tão cheia
de si

cá dentro
eu já
nem sei
se…

V.

entre o aqui
e o agora
há uma longa
longa história…

VI.

nada nesta manga
nada nesta outra
e eis que pulsa
um coração na boca

do armor


armar o amor
até os dentes

farpar os peitos
de alarmas e sirenes

entricheirar-se
na vala comum dos medos

e espreitar em silêncio
que o desejo
(essa bomba de tempo)
te atire
– de novo –
na linha de fogo:

frente a frente
você e o outro

uma rosa na mão
uma granada no peito
e fôlego
(muito fôlego)

amar é
olho no olho
dente por dente
os evangelhos
– você sabe –
mentem:
arames ao próximo
como a ti
sempre

sonhos

(inspirado em um sonho … não consegui decidir qual versão seria a definitiva… resolvi deixar as três! (coisa de preguiçoso)… de novo, meu lugar comum: o sublime na morte… queria fazer só poemas de amor e de vida – uma parte de mim são todos os poemas de amor, são todas as vidas possíveis – mas esses aí, dum escuro que brilha, brotam sempre, sabe-se lá de quais profundidades… pra mim são todos igualmente belos, como se quisesse apreender ou me ensinar a beleza, essa força viva da vida que está dentro da vida e também da morte… )

1a versão (já alterada!)

nada tão absorto
quanto o olhar
dum morto

seus olhos
não contemplam céus
não vislumbram infernos

estão
abertos
apenas

refletindo
refletindo
in
findos

2a versão

nada tão absorto
quanto o olhar
dum morto

findo
refletindo
o infindo

3a versão

nada tão absorto
quanto o olhar
dum morto

in findo

Nós

(ainda inconclusa…)


dentro da noite
os corpos conspiram

se despem
do que o dia
travestiu
de medo

e deixam
que o silêncio
– pouco a pouco –
os subvertam

olhos
mãos
peitos

sussurram
aos ouvidos
– em línguas secretas –
nomes proibidos

(se organizam
como se arma
uma granada
de sorrisos)

e amassam
entre desejos
entre seus corpos
entre seus peitos
uma noz
dura
e pequenina
que aberta
brilha
(clandestina)
dentro da noite
da américa latina

dentro da noite
os corpos transpiram
contra o dia

Pílulas


1.
no querer,
se perder…

no deixar-se,
durar…

perdurar!
perdurar!

2.
deixar
que o susto
e o sopro
descubram
o corpo
num outro

3.
esse sorriso
que te acorda
à boca
antes que a manhã
possa
sussurrar qualquer coisa
como
“feliz”

4.
a falta se acoberta no frio que faz

Ausências (2a versão)


Foi publicado na revista Miséria 5 uma versão mais curta do meu texto “Ausências” sobre os desaparecidos políticos da Argentina. O texto foi inspirado nas imagens do projeto “Ausências” do fotógrafo argentino Gustavo Germano (seguem algumas fotos ao final). Quem tiver interesse em adquirir a revista entre em contato comigo: jeffvasques@gmail.com

Ausências (jefferson vasques)

querido,
esperei você até tarde, ontem. não entendo o silêncio. tampouco o seu. começo a me perder no absurdo que é o fundo de toda espera. a paciência não tem feito bem às minhas pernas, que andam pra lá e pra cá. o buraco no meio de tudo não faz sentido. e parece crescer. até uma torneira pingando ou a luz da tarde contra o pó da sala me parecem incrivelmente absurdos. a vontade que tenho é dizer-lhes: por quê? ao cisco suspenso no ar. ao ar que o sustém. ao raio de sol. ao brilho de tudo. à beleza que, não entendo, pode persistir. reconheço que eu mesma não me sei mais. escrevo mesmo sem saber a que endereço remeter este estranhamento que, apesar de opiniões em contrário, não o tenho como desespero ou loucura. Achei de bom tom redigir algo que fosse um diálogo de intestino para intestino. Espero assim ser sincera como a digestão nos faz carne. Por isso, achei que era saudável escrever estas palavras na parede do muro em frente. assim espero que o vento, os vizinhos, o governo e as aves marinhas que hora ou outra se assentam sobre a cal possam espalhar os sinais deste sim que te repito através de diferentes palavras. Enfim, confio que te chegue, mesmo que em partes, mesmo como silêncio embutido numa respiração mais funda, mesmo que embrulhadas em papel de pêras (que tanto adorava), mesmo que dissolvida nessa chuva conveniente ao húmus. que lhe chegue ao menos na forma de uma vontade repentina de sorvete ou então como sorriso nascido antes que se perceba.

Há meses abandonei o impertinente artifício de enteder. agora. espero. simplesmente. Destravei desde então a necessária calma, como um dique que estoura ao reverso. E assim passei a viver numa alegria tensa que estala às noites os pisos de madeira como seus passos chegando, uma esperança tão bonita e forte que de início assustou a todos. Aprendi logo, com a discórdia e com as lesmas, que vêm se multiplicando desde sua partida, a confiar a espera no olhar baixo de beber xícaras e no olhar discreto que desfecho contra o céu, entre um segundo e outro de conversa banal com a vizinhança. A espera aninhou-se num respirar mais contínuo e espaçado. As braçadas agora são longas como se deve a quem decide-se pela certeza de terra em mar aberto. E, às vezes, se necessário, finjo um desespero breve à família, artifícios que acalmam e justificam o que não se explica. assim escondo o precioso desta espera e sorrio soturnamente pelos corredores escuros da nossa casa, após visitas.

volte, querido. a casa exala cheiros estranhos dos espelhos. e a sensação de que as portas a qualquer momento vão se abrir me deixam suspensa na fome. venha logo. a vida esfria na mesa posta, nas geometrias próprias que elaboro e reelaboro, pacientemente, em exigente simetria. prato com prato. garfo com garfo. faca com faca. cálices. velas. flores. guardanapos. e eu, perdida, diante de sua cadeira e casacos. confesso ter pensado em abandonar tuas roupas nas esquinas que me lembraram do teu pé encostado à parede, como um poste de luz torto de fios. as criancas vão bem. cresceram por onde não sei. Enormes. maiores que o medo que tenho de confundi-los com você. bem maiores que as lesmas. as crianças me amarram com nós apertados ao cotidiano. As crianças sorriem também. aprenderam comigo. treinamos muito. tenho te procurado também, caso ache melhor ser achado. evito os lugares de sempre. penso em estranhos terrenos, esquinas de subúrbios, becos, embaixo de mesas, fundos de mares, à porta da frente, flor na mão. assim te farejo como um sino que toca longifundo lembrando aos fiéis do metal de que é feita a fé.

visitamos fúnebres generais e militares, políticos e congregados. acossamos seus bigodes venenosos contra mães e filhos. todas cortamos nossos cabelos e os demos como perucas que lhe tapassem a calvície viciosa e também lhe trouxessem alguma espécie de memória estrangeira. que se enganassem certo dia e fossem outros. foram gentis no seu calafrio vivo e sagaz de nos atender com chás. fomos amargas como convém as que aguardam. pra sempre. Cheguei a tirar a roupa certa hora na busca de que assinassem sobre minha pele a sentença definitiva, que me talhassem com suas espadas uma certeza que sangrasse. pedi mesmo que deixassem cicatrizes, milhares, visíveis de longe, que me fizessem doer como carne, pedi açoites e palavras sujas. implorei que me enterrassem em seguida na vala mais comum, sem piedade, usando dos requintes técnicos do esmagar, torcer, esticar e quebrar. não deixei de cobrar que me cuspissem toda a cara com tapas. que me ensinassem a virtude do sangue e a honra e a glória do saber-se atacada. cara a cara. ao que fui negada veementemente. Pedi então que me abraçassem com o nojo devido. Ao que também fui negada. entao vesti-me e jurei-lhes que o chá estava ótimo aproveitando para entregar-lhes uma minúscula caixinha de músicas com teu jeito de me olhar e uma formiguinha dentro. depois acendi o fogo negro e lento com  que venho fervendo compotas e coágulos em banho-maria, para as reuniões socias. Desde então distribuo fotos pelas ruas. Espero assim causar risos, carinhos, constrangimentos, suicídos. Espero que ao verem tua foto desistam de tudo e que, infelizes, aceitem a necessidade de cozinhar deus numa panela de pressão e servi-lo em gomos aos pobres. no fundo espero um dia entregar-lhe uma foto sua a você mesmo, querido, (e é sempre a próxima foto) e então sorrir encabulada da situação e riríamos juntos.

Amarrei em minhas pernas todos teus pertences e me acostumei a arrastá-los como uma noiva e sua cauda de júbilos secretos. Me sinto, às vezes, prenhe de um novo filho teu. mas aborto com severidade a idéia. Em casa, o tempo segue descobrindo o azedo nas comidas que te sirvo regularmente. Queria espalhar por toda a cidade esse cheiro. Entrei ontem mesmo numa casa acesa e sentei no sofá em meio a família surpresa. entreguei-lhes solenemente tua regata branca. ao que não me responderam, certamente emocionados.

às vezes sonho que todos, após verem meu olhar vasto, passam a vomitar o oceano que, aos poucos, inunda a cidade. são sonhos bons. acordo pensando em impedir a existência de helicópteros e aviões. talvez impedir que o som dos tiros aflorem nas noites como bottoms luminosos com teu nome. pensei em explicar às crianças o ódio que o inexplicável morde no osso. Pensei em explicar amor aos generais enquanto cavamos com seus sorrisos de medalhas a cova que desse conta de nosso abraço. São alucinações que acordo, querido.

Coleciono numa caixinha de veludo um miúdo seu de últimas palavras. Cultivo como fungos mudos que se aveludam com o passar do tempo. Bolores belos. é onde nossa aliança resiste… mas não abro, porque sempre soa como uma pá, do outro lado.

Esses dias segui as lemas imaginado que tivessem indícios do seu paradeiro. pareciam agir como se soubessem o que eu não sabia. Eu mesmo imaginei o incômodo caso alguém nos visse nesse exercício incomum e rastejante. Mas me fez bem entender o tempo, mesmo, com que levam, as lesmas, o desejo de algo a esmo. aprendo o denso esperar das paredes.

acusei todos os possíveis encarregados deste silêncio. apontei a lua como cúmplice. o mar facínora. não aceito a indiferença do vento que parece o mesmo desde quando. E me revira os estômagos o sim que o sol repete sem sombras de dúvida. todo dia. quente. na minha cara. mas abandonei acusações, já que dia, mundo e vida persistem.

imagino tuas mortes. as crio com engenharia e remorso. São sempre sofridas e acredito melhor não descrevê-las que não são coisas descritíveis. Apenas as imagino, aqui, tentando por fim ao teu sofrimento, querido. Te mato com o desvelo, desprendimento e carinho próprios que alguém nunca-antes-morto merece. Mas algo teu resiste, terrestre: um sorriso, um jeito do cabelo cair sobre o rosto, um último suspiro. Então desisto, e sorridente grito e corro e te salvo heroicamente e assim nos beijamos e o padre volta e repete, solenemente, que seremos felizes para choques, cotovelos, pauladas, queixos, menos que olhos, furos, fêmurs, unhas, medos e o silêncio longo da queda n’água. nos intervalos dos sonhos pego a pá e volto à vala. vou tornando-a maior a cada noite. Espero enterrar tudo. bem fundo. nos intervalos da dor, quando o céu abre um azul miserável e inocente, eu pego nos teus braços, como os lembro, e aguardo um movimento. qualquer. e quando, às vezes, por segundos te esqueço, sigo respirando. Outro dia quebrei um espelho só de dizer teu nome. também no intervalo das chuvas aguardo as roupas secarem. nao temo seu regresso. espreito a surpresa, velha cansada. Mesmo que não venha, apareça, querido. A mesa está posta. o carinho, albino e ulcerado pelo escuro dos cômodos, ainda tem algo de mesmo e sempre, creio.

ontem pensei te ver caindo, do céu, junto com a chuva no centro. caía e me sorria. tranqüilo. depois te vi se arrastando no meio da avenida, enrolado em algas e anêmonas. seus olhos eram estrelas do mar que me olhavam sem me ver, enquanto os carros passavam rápidos pela minha surpresa. Depois te vi quando veio me pedir esmolas prometendo que nao iria mais beber. não acreditei.

querido, confesso, enforquei com as próprias mãos o nosso primeiro beijo. esperei até seu último suspiro. foi uma morte lenta. como merecia. nem por isso, querido, pense que não te quero de volta. venha. a qualquer hora. não me avise. apenas surja. mesmo que como um facho na sala escura quando algum carro faz a cuva lá fora. não me enlouqueceria teu sorriso.

querido. é tarde. já é hora, agora, de me deitar e por as mordaças. cada vez mais difícil achar lugar entre as lesmas. espero que a cidade não durma esta noite. já deitada, sorrio, ao lembrar de algo tão vivo. como você. querido.

Projeto Ausências

Ausencias es un proyecto expositivo que partiendo de material fotográfico de álbumes familiares muestra diecisiete casos a través de los cuales se pone rostro al universo de los que ya no están: trabajadores, militantes barriales, estudiantes, obreros, profesionales, familias enteras; ellas y ellos víctimas del plan sistemático de represión ilegal y desaparición forzada de personas, instaurado por la dictadura militar argentina, entre 1976 y 1983.

EXCELENTE TRABAJO DEL FOTÓGRAFO GUSTAVO GERMANO,



Ni olvido ni perdon…
Son imágenes de desaparecidos y sobrevivientes en un mismo lugar, con 30 años de diferencia. “Partí de una necesidad expresiva personal de ponerle presencia a la ausencia, pero al mismo tiempo de buscar aportar a la memoria”, señaló Germano, fotógrafo radicado en España, cuyo hermano Eduardo fue secuestrado a los 18 años, en 1976.”

A poesia na cultura popular


No último 9 e 10 aconteceu em Campinas o 2o ato Campo-Cidade. Foi um ato político-cultural que aconteceu em parte no Parque Oziel, região periféria e maior ocupação urbana da América Latina. O evento foi organizado pelo MST e MTD de Campinas. A Camará, produtora popular onde milito e trabalho, filmou o evento. Nesse dia de festa, rolou apresentações de maracatu, rap e jongo. Uma coisa comum a essas 3 manifestações populares é a improvisação de versos. Fiquei boquiaberto com um trio de meninos rapers que improvisavam rima com uma facilidade absurda… fiquei pensando quanto tempo eu demoro pra elaborar um poeminha simples… a cultura popular tem suas próprias técnicas. Queria beber mais aí nessa fonte, não só por causa de minhas raízes, mas pela técnica lapidadada nos anos e anos de uso e improviso. Nesse dia, também, entrei e dancei na roda de jongo, do jongo Dito Ribeiro… e foi muito forte. Abaixo um pequeno poeminha sobre essa experiência (que fiz pra que vire música) e depois a primeira parte de um vídeo muito interessante sobre a poesia nas manifestações populares, mas só achei a primeira parte até agora… 🙁

no jogo di dentro
do jongo dangola
riso branco na forja
dum fogo negro

tambú ti chamando
pro centro da roda
pro baque da vida
numbigo do mundo

tambú ti ensinando
que a história dá voltas,
revoltas, guerreiro!
tira a palha de
cana do terreiro!

tambú ti candonga
no jongo de dentro
tambú forja um novo
nego dito ribeiro

* tambú é como chamam o tambor no jongo;
* “retira a casca de cana do terreiro” é um verso tradicional do jongo que diz aos jongueiros que a escravidão já acabou, que não é preciso sofrer mais, que se deve retirar o cativeiro de si.
* candongar é algo como “enfeitiçar”, te envolver na magia…

um poema para criancinhas (2a versão)


tem noite
que algo não estala na prateleira
e o silêncio são antenas
se mexendo
nas baratas

tem noite
que é como
se minha avó
entrasse
se arrastando
pela sala

noites
em que
um telefone
toca toca toca
bem no meio
do nada

noites
em que você
nem olha
pra não ver
quem vai
– do espelho –
te olhar
de volta

noites
em que você se esforça
mas não lembra
se trancou
ou não
a porta

em que o melhor
a fazer
é fechar os olhos
prender o ar
e se fingir
de morta

E mais pílulas

a madrugada
me ensinou

este silêncio
– lento –

do azul
desbotando
o negro

———————-

À Musa

tava aqui
te lembrando…

teus sons
teu corpo

a poesia toda,
saca?

vontade
de te dizer
uma coisa

(não uma palavra)

————–

Jorro

Adoro
como aceita
minhas palavras
na boca

tão
gentil

assim

mas,
me conta:

engole
ou as cospe
no fim?

Pílulas

Uma cachoeira sempre jorra
ao fundo de que tudo
penso
e se intento
co’olhar procurá-la..

silêncio
não mais que

—————

Ah, lua…
Sua puta!
Ainda te pego
nas bocas da noite
e te aprisiono
– imensidão brilhante –
num obscuro olhar
de moça

—————-

A lua vai…
A lua vem…

teu olhar
– além –
nu vem

————-

À um pássaro
da poesia
asas
pra tudo
que é
dia

————-

Chuva em cima de mim
Vento ao lado da chuva
um oblíquo hai
kai em minha
orelha.

———————

Ao que só era ouvido
– língua ao lado –
agora pinto
em glande estilo
um novo lábio
no orifíssil em
que enfim o
falo:

gemido!
(por escrito)

——————-

O cu que finge um pfeido
faz do silêncio
um cheiro

Fragmentos de escrita semi-automática: A aceitação (3a versão e última)

O resto é correr.

Mas não teve tempo, a faca veio antes. E o furo. Ainda sem dor, era o susto. Mesmo assim correu. A dor correndo atrás. Talvez, nunca parar. Não seria ruim, pensou, viver uma vida correndo. faca no peito. Mas avistou o mar. E queria ser ave. Queria ser sol. Também nuvem. Mas a faca não permitiria. Ela tinha brilhos. Tinha quase sorrisos. Sorriu também. “Amor?”, imaginou. Ou o horizonte inteiro. dava o mesmo. Mas a dor o alcançou. Encolheu-se. era um vômito por dentro. O mar era também imenso. Pensou em chorar. Pensou em lembrar de alguém. Viu dois pés se aproximando. “Ajoelha!”, ouviu. A dor o segurava pelos cabelos. uma gaivota ou outra nem via. Esplêndido domingo. Sanguíneo era o negror de sua língua. O corpo dormente. Só ali, na faca, vivo. “Ajoelha!”, ouvia. Era digno de ser menos. O sol era digno. se punha. “Ajoelha!”. Pensou em chorar de novo. Mas o sangue do nariz saiu rindo. O cancro espesso descendo o reto, riu. Talvez, também, tenha rido. O mar indo e vindo. Zunia um zinco no ouvido. os dois pés tão próximos. um fogo frio ardeu as costas.Tossiu o estômago. O esôfago no chão. Ou o enjôo. Invejou o nojo. esplêndido domingo. Dois dentes. Ou três. Brilhando. Sol se pondo. Tinha pena da dor ser tão grande. A verdade brilhava no mar. O fogo no horizonte. A noite era líquida. e certa. “Ajoelha!”, ouviu, “e aceita!”. E de dentro lhe saiu uma víbora. Uma naja. uma última coisa. Uma faca. (Silêncio de lâmina trocando bainhas). (palavra cortada. ao meio.) (Silêncio travessando pescoço.) Engasgos. Jorros. E os dois caídos. Esplêndido domingo. Os olhos na areia se olhando. Sangues. Carinhos. espelhos secando. um defronte ao outro. o ar mal entrando. e saindo. asfixia das nuvens paradas. nem lua. nem nada. E uma voz mal dizendo: “te amo”, “te amo”. mais jorros. engasgos. Os sorrisos expondo-se. aos pássaros. O mar chegando. arrastando peles. panos. e o peso dos ossos deixando, na areia, marcas. O sal coagulando ambos. Vento abrindo o lacre às carnes, os gomos escuros dos óleos. Cancros de tendão, terra e sal. o pôr do sol. aves. “Amor”, imaginou. mares. e logo mais, oceano.

este exercício foi feito a partir do estímulo desta música:

Varando o varal

Dando sequência ao “Desafios do olhar ou Foto-grafia”, eu, o Cássio Corrêa e o Paulo Vieira fizemos um poema sobre a foto, abaixo, elaborada pela camará Tina exclusivamente para este exercício. São três poemas com “pegadas” bem distintas. A minha versão ficou um tanto bizarra, apesar de boas sacadas. Antes de ler os poemas, sugiro uma boa olhada na foto. 🙂

foto cristina beskow

“Varal” por Cássio Corrêa

O inventário das bicicletas e camisas
Se faz com o trançado das trepadeiras
Que emoldura o quintal dos sentidos:
Há algo no verde das folhas
Que transforma o verde em verde.

Mas estarão as camisas mutiladas,
Na tipóia do varal, esperando a cura pras suas umidades?
A ausência dos braços é deficiência ou esquecimento?
Diríamos mais: qual o limite entre o pano de chão e o traje a rigor?

Na casa parida pelas pilastras de madeira em posição de parto,
Haverá vestígio, resquício ou lascas de alguém?
Digo bandeira no alto do monte, não aluga-se.
O cabide no gancho de gaiola, significa eu.

Amèlie Poulain em lápis de cor 021 e 070, sento na beira do muro,
espiando a selva de coronel escondido
onde deixo minha poesia secar depois da chuva.

“No varal” por Paulo Vieira

O velho salta de máquinas de respirar
sem ar, um bungee-jump preso ao pulmão
correndo a semana uma maratona de lençol

De uma das vindas do hospital trouxe
para a velha umas bodas de ouro no bolso
da camisa que ela então lavava contente
com um sabão em pó de quem espalha sementes

Porque o velho trajava-se no leito
como se dali fosse direto a uma reunião
e esse compromisso o adiasse morrer

Aquela camisa social branca funcionou

Agora ela está pendurada no varal
erguendo-se como os crucificados erguiam-se
com braços em alavanca como se esticassem
o pescoço por sobre o muro para ver o ar do vizinho

E quase seca da pneumonia a camisa é pega pela chuva
trovões com pigarros na recaída do velho

É urgente que ele vá com qualquer roupa
a camisa social branca quando pronta
deverá seguir por telegrama ou malote ou talvez
no porta malas do diplomata que o aguarda para a reunião

Chouveu sete dias com as primas tentando
abafar trovões e esconder da velha
que a reunião foi cancelada

A chuva passa, a camisa é seca
mas um barro seco da pneumonia nela
poderá ser um remorso de quem lavou
a camisa direito e tratou bem do velho
e que na despedida pensa que não

Um vento de sol bate, é só o vento de sol
não é uma metáfora de alma
mas a velha sabe que tão velho é o vento de sol
que já é hora de desconfiar das primas
e recolher a roupa

“Isto não é um varal” por Jefferson Vasques


são duas camisas
com um monte de arbusto na frente
quem tirou a foto
realmente
não sabia o que tava fazendo
tem essa coisa desfocada
bem na nossa cara
e um resto sujo
de coisas esparsas…

ou então

trata-se
de um recurso refinado
de nos imputar humildades:
a inseta visão do mundo…
mas, não…
uma formiga teria mais que fazer
do que observar coisas a secar…
melhor hipótese seria
a de uma tentativa
de nos dar a visão objetiva
de deus
essa onipresença de olhos absolutos:
como num piscar dum flash divino
– etérnico e instantânico –
sobre as roupas que não secam
ou sobre os fantasmas da casa
sobre memórias ao vento
ou sobre esse monte de abandonos e nadas
que nos vêem a mente
enquanto olhamos a foto.

Mas por que deus, em pessoa,
baixaria nessa selva de pequenas coisas pirralhas
pra bater um instantâneo?

e então você olha de novo
tentando ver
como alguém que maquinou tudo…
“que peça nos pregaria
esse deus ex-machina?
um mistério?
uma tragédia?
uma farsa?”

Olhando o olhar de quem olhou pelo obturador
à olhar como quem olharia a foto
sinto como se o clic
se sujasse
numa intenção exagerada
de ser foto
demasiadamente foto
é um longo teatro do fazer-se flash
filme e making-of tudo junto
contracenando

putz, e se for isso mesmo
aí você se incomoda e começa a pensar
que não é só uma foto
é um jogo, um quebra-cabeça,
um crime, um presépio todo
de hipóteses se levantando
por entre as ramas do quintal…

tem aquele resto de pneu, no canto direito,
que juntado a uma ponta de guidão
com um teco de breque
nos dão a hipótese – mais confiável –
de uma bike encostada à parede.
E não estaria com isso nos dizendo
“não é tão evidente assim”, percebe?
“Não se afobe, investiga com calma,
não cede logo ao que tá na cara!
tira essas folhas da frente,
e segue…”

e seguindo essa lógica
fui me perguntando porque a rede
– único vermelho vivo no verde –
estaria desarmada numa varanda tão agradável…

ah, elementar, meu caro…

Como Blade Runner caçando andróides,
dou um zoom progressivo com o Photo Editor
e caço os vestígios.
E é assim que percebo, estupefato,
que – como naquele filme bizarro
do David Lynch –
“no hay orquestra”, “no hay banda”
é tudo play-back, farsa!

Calma, te explico, veja:
não há varal!
Logo, como haver camisa,
camiseta, o escambau
pendurado pra secar?

As “camisas” estão suspensas em
coisas estranhas
com cara de ganchos pra plantas!
E por que não em varais,
numa casa grande como essa,
com jardins, rede e tais?

Elementar, elementar, meu caro…

As plantas e a rede
meticulosamente
desalojadas
estão cedendo assim
lugar
ao palco em que seria armada
a cena o drama
o fotograma todo:

observem como as mangas
duma camisa foram
forçosamente injetadas pra dentro
– ou vão me dizer que alguém pendura algo assim ao vento? –
e a outra,
toda aberta,
iconicamente,
prestes ao vôo lento
como quem se atira
ao destino

perceba,
não são camisas
nem há varal

há no mínimo
uma tragédia grega
no recinto

são dois seres perdidos
desencontrados
são os sinais claros
de um amor rompido
impossível
inviável

(o corte à altura do coração
não nos deixa outra interpretação:
é um sim de um lado
e do outro um não,
expandir-se e reclusão)

estamos diante
duma cena arquetípica:
as várias personificações da antiga
(e sempre mesma)
história trágica:
édipo e jocasta
romeu e julieta
sansão e dalila
betsabá e david
tristão e isolda
dulcinéia e quixote
werther e carlota
abelardo e heloísa…

duas camisas
condenadas
a secar
separadas
numa
fotografia

um pequeno drama
que se arma
nos quintais
todo dia.

Primeiras cinzas – 2a versão 20/02


“Pierrot” de Picasso

I. Outros carnavais

dedicado à Manuel Bandeira e seus pierrots


é carnaval
e não uso máscaras
a não ser esta
crua
à cara

é carnaval
e não jogo confetes
as mãos no bolso
vão
sem enfeites

é carnaval
e não empunho estandartes
mal sustento
à coluna
a carne

é carnaval
e não me perco à multidão
sempre sei
onde estou
e onde estão

é carnaval
e todos dançam e pulam
comovido observo
meus pés
lá no chão

é carnaval
e todos cantam
“a-la-la-ôs”, marchinhas
eu pronuncio
o seu nome
baixinho

é carnaval
e nas peles
suor e serpentinas…
lá dentro,
cada qual
com suas
cinzas

é carnaval
e sou levado pela turba fugaz
em meu olhar
– parado –
são outros
carnavais

é carnaval
– é o que dizem –

meu coração
(teu)
resiste

II. Pierrot e Colombina? *

o silêncio
dos olhos
já sabe

(o que o riso
nos lábios
imagina)

a palavra
exata
(que está quase)
nas pontas
das línguas

III. Colombina *

“é carnaval, rapaz!”
grita a turba

mas teu olhar
sussurra:
“é mais…”

IV. Pierrot *

hoje é quarta
feira
de cinzas

amanhã
já é
quinta

e, esta máscara?

como é
que tira?

*Pierrot é uma personagem tipo da Commedia dell’Arte. O seu caráter é aquele de um palhaço triste, apaixonado pela Colombina, que inevitavelmente lhe parte o coração e o deixa pelo Arlequim. A característica principal do seu comportamento é a sua ingenuidade, e é visto como um bobo, sendo sempre o alvo de partidas, mas mesmo assim continua a confiar nas pessoas. Pierrot também é representado como sendo lunático, distante e inconsciente da realidade.

A colombina (do francês colombine, “pombinha”) é uma personagem da commedia dell’arte. Em geral, aparece como uma serva ou empregada de alguma dama e é caracterizada como uma moça linda e inteligente, de humor rápido e irônico, apaixonada por arlequim, e amada em segredo pelo romântico pierrô.