Elvio Romero – Por quê?


elvioromero

POR QUÊ?

(Elvio Romero, poeta-lutador paraguaio, 1926-2004)

Por que não devemos querer nós todos
o que nunca quisemos; por exemplo, uma casa
sobre o remanso de um rio,
com vitórias régias em seu costado,
com suas janelas em regozijo.

Por que não devemos escutar nós todos
o que a noite escuta; por exemplo, uma sombra
que nos sirva de abrigo,
que ali morra misteriosamente
assumindo a cor de seus domínios.

Por que não devemos pisar nós todos
o que jamais pisamos; por exemplo, uma vereda
com cheirosos cachos,
com uma fogueira que ali se acenda,
com grandes chuvas que nunca vimos.

Por que não devemos sonhar nós todos
com um eco que soe; por exemplo, um murmúrio
que trema no som ido,
e que responda às perguntas
que junto ao fogo reunimos.

E por que não buscar sempre
o que é parada em um caminho,
o que há de outono em um verão,
o que há de ardente no mais frio,
o que é rubor em uns lábios,
o que é Lembrança no Olvido,
o que é pergunta na resposta,
o que é ofegar em um suspiro,
o que é vital dessa alegria,
dessa tristeza em que se vive.

Homenagem a Roque Dalton

Há 37 anos atrás assassinavam, no dia 10 de maio, o poeta guerrilheiro Roque Dalton. Ele foi “justiçado” por seus próprios companheiros de organização, pois seu jeito heterodoxo, irreverente, provocativo, irônico e questionador foi interpretado pela moral conservadora desses militantes como uma vinculação com a CIA, como um infiltrado que tentava destruir por dentro a luta comunista. Assassinavam injustamente um dos poetas que mais lutou pela libertação de seu povo (El Salvador) e punham fim a escritura genial deste guerrilheiro.

Roque Dalton é o poeta-lutador que mais admiro dentro do panorama latinoamericano, o que mais venho traduzindo aqui no Passarin e o que mais tem me influenciado. Presto aqui esta singela homenagem traduzindo mais algumas de suas poesias. Quiçá ainda lançarei um livro em português com suas poesias traduzidas… é enorme a necessidade de tornar esse poeta, sua luta e poesia mais conhecida no Brasil… espero também, não daqui muito tempo, visitar El Salvador, seu país natal, e conhecer sua família.

Você pode ler mais poesias que traduzi dele aqui.

CATÓLICOS E COMUNISTAS NA AMÉRICA LATINA:
ALGUNS ASPECTOS ATUAIS DO PROBLEMA

Me expulsaram do Partido Comunista
muito antes de me excomungarem
na Igreja Católica.

Isso não é nada:
me excomungaram na Igreja Católica
depois que me expulsaram do Partido Comunista.

Bah!
Me expulsaram do Partido Comunista
porque me excomungaram na Igreja Católica.

MISCELÂNEAS

Ironizar sobre o socialismo
parece ser aqui um bom digestivo,
mas te juro que em meu país
primero deve-se conseguir o jantar.

Para mim, o socialismo é ainda uma etapa burguesa
na história marxista da humanidade. E o digo
precisamente em uma manhã em que me reconheço
lúcido, quando faz quase uma semana que não provo
uma gota de álcool.

O imperialismo deseja que a nação salvadorenha seja a Nação Salvadorenha S.A., Made in USA.

Digam o que somos do que somos: um povo sofrido, um
povo analfabeto, desnutrido e no entanto forte, porque
outro povo já teria morrido…

Sabe o que seria El Salvador se fosse do tamanho do Brasil?

POEMA DE AMOR

Os que ampliaram o Canal do Panamá
(e foram classificados como “rolo de prata” e não como “rolo de ouro”*),
os que repararam a frota do Pacífico
nas bases da Califórnia,
os que apodreceram nos cárceres da Guatemala,
México, Honduras, Nicarágua,
por ladrões, por contrabandistas, por estafadores,
por famintos,
os sempre suspeitos de tudo
(“Permita-me me remeter ao morto
por vagabundo suspeito
e com o agravante de ser salvadorenho”),
as que encheram os bares e bordéis
de todos os portos e capitais da zona
(“A gruta azul”, “O Shortinho”, “Terra feliz”),
os semeadores de milho em plena selva estrangeira,
os reis das páginas vermelhas***,
os que nunca sabem de ninguém de onde são,
os melhores artesãos do mundo,
os que foram cozidos a balaços ao cruzar a fronteira,
os que morreram de malária
ou das picadas de escorpiões e das barbas amarelas**
no inferno dos bananais,
os que choraram bêbados com o hino nacional
debaixo dum ciclone do Pacífico ou da neve do norte,
os agregados, os mendigos, os maconheiros,
os safados filhos de uma grande puta,
os que apenas e somente puderam regressar,
os que tiveram um pouco mais de sorte,
os eternos sem-documentos,
os fazem-tudo, os vendem-tudo, os comem-tudo,
os primeiros a sacar a faca,
os tristes mais tristes do mundo,
meus compatriotas,
meus irmãos.

* Na construção do canal do Panamá, os índios e negros (que ganhavam segundo padrão “silver roll”) recebiam menos e viviam em piores condições do que os trabalhadores brancos (“gold roll”).
** uma cobra venenosa bem comum na américa central.
*** os que mais aparecem nas páginas criminais dos jornais

NÃO FIQUE BRAVO, POETA

A vida paga suas contas com teu sangue
e tu segues crendo que és um ruisenhor.

Agarra a garganta dela de uma vez, a desnuda,
a tombe e faça nela tua peleja de fogo,
recheia sua tripa majestosa, a engravida,
a põe a parir cem anos pelo coração.

Mas com lindo modo, irmão,
com um gesto
propício para a melancolia.

HORA DA CINZA

Finaliza setembro. É hora de dizer-te
o difícil que foi morrer.

Por exemplo, esta tarde
tenho nas mãos cinzentas
livros formosos que não entendo,
não poderia cantar ainda que tenha cessado a chuva
e me cai sem motivo a recordação
do primeiro cachorro a quem amei quando criança.

Desde ontem que te foi
há umidade e frio até na música.

Quando eu morrer,
só recordarão meu júbilo matutino e palpável,
minha bandeira sem direito a se cansar,
a concreta verdade que reparti desde o fogo,
o punho que fiz unânime
com o clamor de pedra que exigiu a esperança.

Faz frio sem ti. Quando eu morrer,
quando eu morrer
dirão com boas intenções
que eu não soube chorar.

Agora chove de novo.
Nunca foi tão tarde às 25 pras 7
como hoje.

Sinto desejos de rir
ou de matar-me.

“Não me peçam” de Pablo Neruda


O Denis me presenteou com 3 revistas “Nerudianas” direto do Chile, dedicadas a esmiuçar a vida e obra de Pablo Neruda. Numa delas, descobri este poema… que não é dos melhores, mas importante pois onde o poeta se posiciona claramente sobre questões (est)éticas. Depois segue o próprio Neruda declamando o poema.

NÃO ME PEÇAM

Pedem alguns que este assunto humano
com nomes, sobrenomes e lamentos
não os aborde nas folhas de meus livros,
não lhes dê a escritura de meus versos.

Dizem que aqui morreu a poesia,
dizem alguns que não devo fazê-lo:
a verdade é que sinto não agradar-lhes,
os saúdo e lhes tiro meu chapéu
e os deixo viajando no Parnaso
como ratos alegres no queijo.

Eu pertenço à outra categoria
e só um homem sou de carne e osso,
por isso se espancam a meu irmão
com o que tenho a mão o defendo
e cada uma de minhas linhas leva
um perigo de pólvora ou de ferro,
que cairá sobre os desumanos,
sobre os cruéis, sobre os soberbos.

Mas o castigo de minha paz furiosa,
não ameaça aos pobres nem aos bons.
Com minha lamparina busco aos que caem,
alivio suas feridas e as fecho.

E estes são os ofícios do poeta,
do aviador e do que trabalha na pedreira:
Devemos fazer algo nesta terra
porque neste planeta nos pariram
e temos que arrumar as coisas dos homens
porque não somos pássaros nem cachorros.

E bem, se quando ataco o que odeio
ou quando canto a todos os que amo
a poesia quer abandonar
as esperanças de meu manifesto,
eu sigo com as tábuas de minha lei
acumulando estrelas e armamentos.

No duro dever americano,
não me importa uma rosa mais ou menos.
Tenho um pacto de amor com a formosura,
tenho um pacto de sangue com meu povo.

“Não me peçam” declamado por Neruda


Paulo José Vieira (Brasil)

Aqui, uma pequena seleção de poemas de meu amigo Paulo José Vieira. Uma dessas figuras impressionantes de se conhecer, que fazem a gente se sentir pequeno-querendo-ser-grande.

XIII. Caridade

Quando o restaurante fecha
ele lava bem as mãos
dos vermes de todas as notas
antes de pegar nos restos
de folhas que usará
no sopa que dará aos pobres

XVIII.

Uma obreira da igreja me chamou para entrar, quando eu caminhava na Santa Isabel
Não insistiu, nos últimos meses minha fisionomia é alegre e de pouco colesterol
Aceitei colocar o meu nome no caderno de orações, como minha gratidão
E coloquei também o nome da Andressa, do Alberto Caeiro e do filho que terei

Ela se preocupou comigo, ela não tinha metas de quantos pedestres pôr pra dentro
Ela me disse que Deus me ama e que pediria a Deus por mim e eu respondi
Que todo o Universo a ama, até Rimbaud e Judas, e que ela não se esquecesse
Do semáforo, a força elétrica de gesto humano que paira sobre nós e nos aconselha

Ela quis que a maior coisa do mundo e que fez o mundo perdesse tempo comigo
Essa noite rezarei por ela a Roberto Piva e não amaldiçoarei o mundo por tê-la
Proibido da poesia, porque minha poesia não é o Evangelho e nunca acreditei que
O Evangelho devesse chegar a toda criatura, o Evangelho nunca será pronto

Minha irmã no átomo, de saia longa e saia de uma verdade sem cor, amiga de Deus
Quero ouvir o Evangelho do seu amor, o Evangelho do que fez você ser obreira
O Evangelho do dia em que nasceu até os doze anos, e depois dos trinta até agora
Quero ouvir sua zombaria ao professor de olhos grandes, aquela ainda é você e bela

O muro do estacionamento da igreja anuncia cinco sessões de descarregos às terças-feiras
Usei as cinco sessões em minha casa para esvaziar minha mesa e ter dois livros por vez
Fico pensando que tudo é sacro se nada for, se o sagrado for melhor repartido
Aprendi com a obreira a propor sem malícias e a questionar no ouvinte o que proponho

Queria que o pastor roubasse a dicção da obreira e conhecesse o Evangelho dela
E o usasse nas sessões do descarrego, pois não creio que se descarregue algo a berros
Ele poderia usar de frases longas e mais ou menos autônomas, umas após as outras
As pessoas iam perdendo o conteúdo e ficando com o ritmo, até que ao final o branco

Ou as pessoas poderiam ouvir João Gilberto e lerem o Whitman rezar
E comentar os poemas uns dos outros, cada poema fosse lido uma só vez
Como o Evangelho do instante, como o esquecimento do Evangelho dos livros apócrifos
Que todos se vissem ali não concorrentes para o Céu, para o hospital, para um emprego

Atualizarão o Evangelho diariamente, e a voz do pastor será a voz daquela pequena obreira

XXXI. Terceirização

Antes de mais nada, me demitirão pela firma
e me contratarão pela firma contratada pela firma

A diferença entre o que eu poderia ser
e o que eu era na primeira firma
é o meu primeiro patrão

A diferença entre o que eu era na primeira firma
e o que eu serei na segunda firma
será o meu segundo patrão

A diferença entre o que eu poderia ser
e o que eu serei na segunda firma
é um trio de diletantes portando enciclopédias

Se eu martelasse menos a metalúrgica
teria ouvidos intactos para ouvir de madrugada
Stan Getz tocar saxofone do seu apartamento

(Ousaram terceirizar o Stan Getz em Kenny G)

Eu poderia ser uma porcentagem do Stan Getz
e de mais um cardápio da humanidade, sem virtuose
Ter minhas cinco reencarnações na única vida que tenho
e fazer não só bigornas, mas o que eu vim fazer aqui: viver

Eu poderia promover lingotes de alumínio a saxofones
e conhecer tanto o processo de produção a ponto de ao final tocá-los
a ponto de Sartre explicando a Jean Genet quem foi Jean Genet

Eu abriria um orfanato e resgataria todos os bilhetes
não premiados da probabilidade do que eu não fui
e reciclaria os tickets usados de metrô em vales (arbitrários feito notas)
que pudessem ser trocados por horas de folga

Mas, antes disso, me demitirão pela firma
e me contratarão pela firma contratada pela firma
E dirão que o sonho é luxo
agora que o sono é muito

XXXVI.

Um trompete em silêncio, guardado na caixa
e enfiado na mochila da garupa da moto
só o barulho da moto do Cássio*

Insisto, o trompete está em silêncio
está apenas sendo transportado

E dizer que não é hora de ouvi-lo –
porque ele vai na garupa da moto
e o Rodrigo* não pode tocar agora
porque usa as mãos para se segurar
e vai do ensaio direto
para o trabalho noturno nos Correios
– é já ouvir o trompete soar

Pelo menos na poesia é assim
O aço do trompete toca por si só
crava um ré metálico na imaginação
E por isso os católicos e Descartes
condenavam o corpo que há na imaginação

Mas, se eu disser “1, 2, 3… meu infarto agora!”
nada me acontecerá – veja, ainda escrevo
Porque o músculo do infarto (esse que vem
acabar a poesia quando menos se espera)
não se rende aos lábios sonoros da poesia

* Cássio, Rodrigo, Paulo, Gera e eu tocamos na banda “Paramnese“.

Ary dos Santos (Portugal, 1937-1984)



“ Fazer versos é, para mim, uma função tão natural ou necessária como dormir, comer ou fazer amor”. (Ary dos Santos)

Cheguei a Ary dos Santos por uma amiga, por acaso. Estou conhecendo ainda, mas já estou adorando sua pegada simples na escrita, própria de canções, cheia de influências da poesia popular portuguesa. Dentro de toda essa simplicidade por vezes brota umas imagens lindas e complexas… Abaixo, umas palavrinhas sobre ele e depois poemas, videos dele declamando e um poema cantado por Zeca Afonso.

José Carlos Ary dos Santos foi um poeta e declamador de poesia português. Conhecido por Ary dos Santos, fugiu de casa ainda jovem (era de uma familia da alta burguesia) e passou a viver de mascates. Viveu a morte de sua mãe ainda jovem fato que o marcou toda sua vida (todos o reconheciam como cheio de ternuras e carente por esse fato). Não se adaptou a madrasta e fugiu. Desde os 16 anos suas habilidades poéticas já eram reconhecidas, mas só em 1963 publicou seu primeiro livro “Liturgia do Sangue”. Em 1969 entra para o Partido Comunista Português (PCP), participando ativamente nas sessões de poesia do então intitulado “canto livre perseguido”, tornando-se agitador cultural da esquerda portuguesa.

Concorre, com pseudónimo, ao Festival RTP da Canção com os poemas Desfolhada Portuguesa (1969), Menina do Alto da Serra (1971) e Tourada (1973), obtendo os primeiros prémios. É aliás através deste campo – o da música – que o poeta se torna conhecido entre o grande público (fez mais de 600 poemas para canções e fados). O povo português sabia muitos de seus poemas de cor; passou para a história como “poeta do povo”, “poeta da revolução [dos cravos]”.


“ Com bandarilhas de esperança, afugentamos a fera/ Estamos na praça da Primavera/ Nós vamos pegar o mundo pelos cornos da desgraça/ e fazer da tristeza graça”. (Ary dos Santos)

OS PUTOS

Uma bola de pano, num charco
Um sorriso traquina, um chuto
Na ladeira a correr, um arco
O céu no olhar, dum puto.

Uma fisga que atira a esperança
Um pardal de calções, astuto
E a força de ser criança
Contra a força dum chui, que é bruto.

Parecem bandos de pardais à solta
Os putos, os putos
São como índios, capitães da malta
Os putos, os putos
Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
É a ternura que volta
E ouvem-no a falar do homem novo
São os putos deste povo
A aprenderem a ser homens.

As caricas brilhando na mão
A vontade que salta ao eixo
Um puto que diz que não
Se a porrada vier não deixo

Um berlinde abafado na escola
Um pião na algibeira sem cor
Um puto que pede esmola
Porque a fome lhe abafa a dor.

A CIDADE

A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.

A CIDADE cantada por ZECA AFONSO

ORIGINAL É O POETA

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho ás palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz
devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce á rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse uma mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

ARY DOS SANTOS declamando “MUITOS HOMENS NA PRISÃO”