silogismo e machismo

SILOGISMO E MACHISMO

Todo homem é mortal (potencialmente).
Sócrates é homem (desconstruído, de esquerda, legal).
Sócrates (ainda) é (potencialmente) mortal.

Teoria queer: de acordo com minha avó

SP - PARADA GAY/SP - GERAL - Participantes durante a 19ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo 2015, denominada "Eu Nasci Assim, Eu Cresci Assim, Vou Ser Sempre Assim: Respeitem- me!" na Avenida Paulista neste domingo, 07. 07/06/2015 - Foto: SÉRGIO CASTRO/ESTADÃO CONTEÚDO
SP – PARADA GAY/SP – GERAL – Participantes durante a 19ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo 2015, denominada “Eu Nasci Assim, Eu Cresci Assim, Vou Ser Sempre Assim: Respeitem- me!” na Avenida Paulista neste domingo, 07. 07/06/2015 – Foto: SÉRGIO CASTRO/ESTADÃO CONTEÚDO

(foto de Sérgio Castro – performance da atriz transexual Viviany Beleboni na 19ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo 2015)

TEORIA QUEER: DE ACORDO COM MINHA AVÓ
(Richard Blanco, Espanha, 1968)

Nunca beber refrigerante com um canudo
de milk shake? Talvez.
Pare de olhar o catálogo Avon de sua mãe,
e a roupa íntima dos homens nesses folhetos da Sears.
Eu tô de olho em você…
Fique de fora das festas de Tupperware dela
e de seus frascos de perfume – não deixe ela te beijar,
ela te beija muito demais.
Evite abraçar homens, mas se você precisar,
dê uns tapinhas bem fortes
nas costas, mesmo
se for teu pai.
Você tem que ter esse gato? Não acaricie ele tanto,
por que você não gosta de cães?
Nunca brinque de casinha, mesmo se você for o marido.
Pare de sair com aquele garoto, Henry, ele é muito pálido,
e eu não me importo como você chama
aqueles bonecos GI Joes dele…
são bonecas.
Não desenhe arco-íris ou flores ou pôr do sol.
Eu tô de olho em você…
Ainda melhor, não desenhe – nada de livros de colorir também.
Abandone seus lápis-crayons, suas comidinhas Play-Doh, seus Legos.
Onde estão seus HotWheels,
sua arma laser e algemas,
as facas que lhe dei?
Nunca empine pipa ou ande de patins, mas lance
quantos fogos de artifício você quiser,
mate todos os lagartos que você puder, corte minhocas –
alimente seu gato com elas.
Não se sente daquele jeito indiano, com as pernas cruzadas –
você não é indiano.
Pare de ficar fazendo barulho com suas sandálias –
você não é nenhuma menina.
Pelo amor de Deus, nunca faça xixi sentado.
Eu tô de olho em você…
Nunca tome banho de espuma ou lave o cabelo
com shampoo – shampoo é para as mulheres.
E também o condicionador.
E o mousse de cabelo.
E loção para as mãos.
Nunca lixe suas unhas ou use o secador de cabelos –
vá ao barbeiro com o seu avô –
você não é unissex.
Fique fora da cozinha. Os homens não cozinham –
eles comem. Coma o que você quiser, exceto:
ovos cozidos*
pirulitos
croissants (rosca? talvez.)
sanduíches de pepino
petit fours.
Não assista Bewitched ou I Dream of Jeannie.
Não olhe fixamente para The Six Million Dollar Man.
Eu tô de olho em você…
Nunca dance sozinho em seu quarto:
Donna Summer, Barry Manilow, Captain
and Tennille, Bette Midler, e todos os musicais –
proibidos.
Posters de gatinhos, Star Wars, ou da Torre Eiffel –
proibidos.
Esses livros chiques sobre arquitetura e arte –
eu os joguei no lixo.
Você não pode usar água de colônia ou conchas
e é melhor eu não te pegar com tamancos.
Se eu te ver com um rabo de cavalo – vou cortar fora.
O quê? Não, você não pode furar sua orelha,
lado esquerdo ou direito –
não me importa –
você não vai parecer uma maldita bicha
eu tô de olho em você…
mesmo se você for uma.

* devilled eggs

(tradução de jeff vasques)

é cego


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Um poema para “celebrar” o dia dos namorados, para “celebrar” esse “amor” responsável por 10% dos homicídios no mundo, sendo a grande maioria das vítimas, mulheres (80% das agressões, abusos e estupros contra mulheres são realizados por pessoas “amadas”).

É CEGO

foi paixão
à primeira vista;
casa, comida
e roupa lavada;
o que deus uniu,
nada separa.

do homem, a praça,
da mulher, a casa;
trair e coçar,
é só começar;
à mulher casada,
o marido lhe basta.

mãos frias,
coração quente;
pancada
de amor
não dói;
quem ama,
sempre entende.

entre marido e mulher,
ninguém mete a colher;
o que os olhos não vêem,
o coração não sente.
quem má cama faz,
nela jaz.

o amor tudo sofre,
tudo crê, tudo espera,
tudo suporta;

quem vê cara,
não vê coração;
à primeira vista,
foi paixão…

agora,
Inês é morta.

(Jeff Vasques)

CONSELHOS PARA A MULHER FORTE

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(foto de manifestação pró-aborto na Itália em 1971)

CONSELHOS PARA A MULHER FORTE
(Gioconda Belli, Nicarágua, 1948)

Se és uma mulher forte
te protejas das hordas que desejarão
almoçar teu coração.
Elas usam todos os disfarces dos carnavais da terra:
se vestem como culpas, como oportunidades, como preços que se precisa pagar.
Te cutucam a alma; metem o aço de seus olhares ou de seus prantos
até o mais profundo do magma de tua essência
não para alumbrar-se com teu fogo
senão para apagar a paixão
a erudição de tuas fantasias.

Se és uma mulher forte
tens que saber que o ar que te nutre
carrega também parasitas, varejeiras,
miúdos insetos que buscarão se alojar em teu sangue
e se nutrir do quanto é sólido e grande em ti.

Não percas a compaixão, mas teme tudo que te conduz
a negar-te a palavra, a esconder quem és,
tudo que te obrigue a abrandar-se
e te prometa um reino terrestre em troca
de um sorriso complacente.

Se és uma mulher forte
prepara-te para a batalha:
aprende a estar sozinha
a dormir na mais absoluta escuridão sem medo
que ninguém te lance cordas quando rugir a tormenta
a nadar contra a corrente.

Treine-se nos ofícios da reflexão e do intelecto.
Lê, faz o amor a ti mesma, constrói teu castelo
o rodeia de fossos profundos
mas lhe faça amplas portas e janelas.

É fundamental que cultives enormes amizades
que os que te rodeiam e queiram saibam o que és
que te faças um círculo de fogueiras e acendas no centro de tua habitação
uma estufa sempre ardente de onde se mantenha o fervor de teus sonhos.

Se és uma mulher forte
se proteja com palavras e árvores
e invoca a memória de mulheres antigas.

Saberás que és um campo magnético
até onde viajarão uivando os pregos enferrujados
e o óxido mortal de todos os naufrágios.
Ampara, mas te ampara primeiro.
Guarda as distâncias.
Te constrói. Te cuida.
Entesoura teu poder.
O defenda.
O faça por você.
Te peço em nome de todas nós.

(tradução de Jeff Vasques)

Sejamos Putas


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SEJAMOS PUTAS

(autora desconhecida)

Se você sai com um cara e transa com ele na primeira noite:
“Essa Puta é uma fácil”
Se você sai com um cara e não transa com ele na primeira noite:
“Essa Puta se faz de difícil”
Se você prefere roupas mais curtas:
“Essa Puta é uma exibida”
Se você prefere roupas mais longas:
“Essa Puta é uma hipócrita/ se finge de santa”
Se você gosta de beber:
“Essa Puta é uma bêbada, ridícula, sem moral”
Se você não gosta de beber
“Essa Puta é totalmente careta”
Se você gosta de falar de sexo
“Essa Puta é vulgar demais”
Se você não gosta de falar de sexo
“Essa Puta só pode ser frígida”
Se você fala palavrão
“Essa Puta não tem educação”
Se você não fala palavrão
“Essa Puta é metida a certinha”
Se você trabalha fora
“Essa Puta não cuida da casa, do marido. Depois reclama se ele acha quem cuide”
Se você não trabalha fora
“Essa Puta é uma mercenária, fica coçando o dia inteiro, vive às custas do marido”
Se você não quer se casar
“Essa Puta só quer saber de dar pra todo mundo”
Se você sofre violência doméstica e não denuncia
“Essa Puta só pode gostar de apanhar”
Se você sofre violência doméstica e denuncia
“Essa Puta deve ter feito alguma coisa pra merecer, e agora ferra a vida do coitado”
Se seu companheiro está num relacionamento extra-conjugal
“Essa Puta não dá em casa, ele procura na rua”
Se é você em um relacionamento extra-conjugal
“Essa Puta paga com um par de chifres tudo que o coitado faz por ela”
Se você não tem condições, engravida e resolve ter o filho
“Essa Puta não se cuidou e agora põe mais um inocente pra sofrer no mundo”
Se você não tem condições, engravida e resolve abortar
“Essa Puta não se cuidou e agora quer tirar a vida do inocente”
Essa Puta
Essa Puta
Puta
Puta
Puta
Puta…

 

Jacinta Passos

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Menina, minha menina,
carocinho de araçá,
cante
estude
reze
case
faça esporte
e até discurso,
faça tudo o que quiser
Menina!
não esqueça que é mulher.
Jacinta Passos

Certamente, há pouquíssimas vidas tão inspiradoras como a de Jacinta Passos (1914-1973) no Brasil (e na América!), no período em que viveu. Nascida numa cidadezinha do interior da Bahia, Cruz das Almas, numa família abastada e profundamente católica, Jacinta vai aos poucos renegar todos os valores tradicionais, assumindo uma busca incessante por sua liberdade e a de todos. Dedicada à poesia e à escritura, torna-se uma importante jornalista e ativista social na década de 40 em Salvador, abandona o catolicismo e se aproxima de intelectuais comunistas como Jorge Amado. Jonalista, intelectual e poeta, Jacinta sabia que precisava se esforçar em dobro para enfrentar os valores conservadores, machistas e patriarcais tão vivos na década de 40. Casa-se em 1944 com James Amado (irmão mais novo de Jorge Amado) e filia-se ao PCB, carregando, desde então, mais um estigma, a de militante comunista. Chegou mesmo a ser candidata em 1945 a deputada, única mulher candidata no período, mas não foi eleita.

jacintapassos03bb_1944Produziu uma pequena, mas fantástica obra literária que foi elogiada por Mário de Andrade e Antônio Candido. Com a ilegalidade do PCB, Jacinta passa para a militância clandestina, sempre usando de suas poesias para os trabalhos de propaganda políticas. Em 1951, encontrava-se no Rio de Janeiro quando sofre sua primeira crise nervosa com delírios, eram os sinais da esquizofrenia. Desse período em diante, já separada do marido, até o fim da sua vida viverá o preconceito múltiplo, por ser mulher, artista, comunista e, agora, “louca”. Em diversos momentos, sua família justificou seus posicionamentos políticos radicais como “loucura” e foi mesmo presa em um sanatório por um prefeito que, incomodado com sua militância, alegava sua demência pela extremada virulência de suas palavras e posturas.

Seu tipo de esquizofrenia permitiria uma vida dita “comum”, em sociedade, caso fosse tratada adequadamente. Mas foi internada e submetida à choques elétricos, injeções de insulina e tranquilizantes. Jacinta Passos sempre afirmava que era uma presa política e por isso não aceitava nenhum tipo de regalia nos manicômios. Durante os 7 anos que ficou internada, continuou escreveu regularmente, compondo à mão poemas, peças para teatro, radioteatro, aforismos, textos sobre teoria da arte, poesias e reflexões políticas (preencheu cerca de 3.348 páginas de caderno manuscritas no período, quase 560 páginas por ano, quase 16 páginas por dia). A lucidez de sua escrita, como atesta o poema abaixo, evidencia como não portava nenhum distúrbio grave que impedisse sua vida cotidiana. A sua “loucura” era ser “mulher, artista e comunista”:

Estudos de lógica:jacintapassos05a_1948
O sanatório é Bahia ou Bahia é um sanatório?
A mulher está presa porque é comunista ou é comunista porque está
presa?
O homem tem família porque tem propriedade privada ou
tem propriedade privada porque tem família?
Este homem faz
continência porque trabalha ou
trabalha para fazer continência?
Os trabalhadores da arte trabalham para fazer figuração ou
fazem figuração porque trabalham?
Eu faço arte porque sou artista ou sou artista porque faço arte?
(caderno 14, escrito em setembro ou outubro de 1967)

imagesO esquecimento (apagamento) da vida e obra de Jacinta corroboram o tratamento que como mulher e militante recebeu por toda sua vida. Mas, felizmente, sua luta e poesia aos poucos vão sendo resgatadas: em 2010, sua filha Janaína Amado, organizou uma bela antologia “Jacinta Passos, coração militante: obra completa: poesia e prosa, biografia, fortuna crítica” e também um site: http://jacintapassos.com.br/. Alguns estudos também começam a aparecer. Para quem se interessar há um artigo de Rosângela Santos “Jacinta Passos, loucura ou marginalização?” e o livro “A história esquecida de Jacinta Passos” de Dalila Machado. Abaixo selecionei quatro poemas e um vídeo em que sua filha, Janaína, fala da vida de sua mãe.

Que a memóriva viva da vida e luta de Jacinta Passos, enfrentando preconceitos familiares, sociais, políticos, possam inspirar tantas outras mulheres, e homens! (por Jeff Vasques)

Canção do amor livre

Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.

Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.

Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.

Se me quiseres amar.

Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.
Teu corpo.

Relâmpago depois repouso
sem memória, noturno.

Canção da liberdade

Eu só tenho a vida minha.
Eu sou pobre pobrezinha,
tão pobre como nasci,
não tenho nada no mundo,
tudo que tive, perdi.
Que vontade de cantar:
a vida vale por si.

Nada eu tenho neste mundo,
Sozinha!
Eu só tenho a vida minha.

Eu sou planta sem raiz
que o vento arrancou do chão,
já não quero o que já quis,
livre, livre o coração,
vou partir para outras terras,
nada mais eu quero ter,
só o gosto de viver:

Nada eu tenho neste mundo,
sozinha!
Eu só tenho a vida minha.

Sem amor e sem saúde,
sem casa, nenhum limite,
sem tradição, sem dinheiro,
sou livre como a andorinha,
tem por pátria o mundo inteiro,
pelos céus cantando voa,
cantando que a vida é boa.

Nada eu tenho neste mundo,
Sozinha!
Eu só tenho a vida minha.

Canção da partida

Bernadete é preta
é preta que nem tição.
Bernadete é pobre,
é pobre sem um tostão.

(…)

– Pelo sinal da pobreza!
– Pelo sinal de mulher!
– Pelo sinal!
da nossa cor!
Nós somos gente marcada
– ferro em brasa em boi zebu –
ninguém precisa dizer:
Bernadete, quem és tu?

Canção atual

Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.

Não quero a rosa do tempo aberta
nem o cavalo de nuvem
não quero
as tranças de Julieta.

Este chão já comeu coisa
tanta que eu mesma nem sei,
bicho
pedra
lixo
lume
muita cabeça de rei.

Muita cidade madura
e muito livro da lei.
Quanto deus caiu do céu
tanto riso neste chão,
fala de servo calado
pisado
soluço de multidão.

Coisas de nome trocado
– fome e guerra, amor e medo –

Tanta dor de solidão.

Muito segredo guardado
aqui dentro deste chão.
Coisa até que ninguém viu
ai! tanta ruminação
quanto sangue derramado
vai crescendo deste chão.

Não quero a sina de Deus
nem a que trago na mão.
Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.

Gioconda Belli

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Gioconda Belli (Nicarágua, 1948) é uma das poetas nicaraguenses mais conhecidas dentro e fora de seu país. Ainda jovem se integrou às fileiras da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) na luta pela derrubada do governo ditatorial de Somoza. Foi correio clandestino, transportou armas, viajou pela Europa e América recolhendo recursos e divulgando a luta sandinista. E, claro, no meio de tudo isso, escrevia suas poesias. Com o triunfo da Revolução Nicaraguense, em 1979, ocupou vários cargos dentro do governo revolucionário. Com a posterior burocratização do partido no poder, Gioconda se afasta da FSLN e passa a criticar duramente seu “endireitamento”.

De início, a poesia de Belli, produzida no contexto da revolução nicaraguense, coloca grande ênfase na união dos nicaragüenses contra a tirania de Somoza, tratando o amor de um casal como metáfora da unidade sociopolítica e de gênero em oposição a tirania. Esse amor era “arma contra a opressão… o desejo dionisíaco que vence a morte, o desespero”. Belli apresentava, então, a mulher como a entidade destinada principalmente a dar amor, associada com o sentimental e com o passivo. Ela era a natureza e a paisagem nicaragüenses, a terra que esperava ser possuída pelo amante-guerrilheiro (ativo, forte e que domina o espaço público), dicotomia de gênero própria do universo patriarcal.

Porém, Belli também já incluía em seus versos elementos inovadores da representação feminina, fissuras no discurso patriarcal que evidenciavam a negociação que a escritora fazia entre o tradicional e o novo. Com a vitória da revolução nicaraguense, essas fissuras vão aos poucos crescendo e uma nova identidade feminina vai se assumindo como voz dominante em sua poética, ainda que com recaídas próprias das tensões com o velho discurso. Belli realiza uma corajosa autocrítica do eu-feminino, reconhece o excessivo idealismo com que encarava as relações amorosas, passa a questionar abertamente a submissão da mulher e a defender que esta possa estabelecer seus próprios limites, suas próprias regras, o que realmente quer ou não quer no amor.

Vista em sua totalidade, a poesia de Belli é um fantástico registro da trajetória do eu-feminino, com seus conflitos e contradições de identidade até uma consciência feminista. Um retrato bastante genuíno das latinoamericanas-lutadoras do século XX e começo do XXI, com seus acertos e também com sua incansável negociação com a opressão tradicional de nossa cultura machista e patriarcal.

Jeff Vasques

NOVA TESE FEMINISTA
(Gioconda Belli, tradução de Jeff Vasques)

Como te dizer
homem
que não te necessito?
Não posso cantar a liberação feminina
se não te canto
e te convido a descobrir liberações comigo.

Não me agrada a gente que se engana
dizendo que o amor não é necessário
-“tenha medo, eu tremo”

Há tanto novo que aprender,
formosos homens da caverna a resgatar,
novas maneiras de amar que ainda não inventamos.

Em nome próprio declaro
que gosto de me saber mulher
frente a um homem que se sabe homem,
que sei de ciência certa
que o amor
é melhor que as multi-vitaminas,
que o casal humano
é o princípio inevitável da vida,

que por isso não quero jamais liberar-me do homem;
o amo
com todas suas debilidades
e gosto de compartilhar sua teimosia
todo este amplo mundo
onde ambos somos imprescindíveis.

Não quero que me acusem de mulher tradicional
mas podem me acusar
tantas como quantas vezes queiram
de mulher.

REGRAS DO JOGO PARA OS HOMENS QUE QUEIRAM MULHERES MULHERES
(Gioconda Belli, tradução de Silvio Diogo)

I
O homem que me amar
deverá saber abrir as cortinas da pele,
encontrar a profundidade de meus olhos
e conhecer o que se aninha em mim,
a andorinha transparente da ternura.

II
O homem que me amar
não desejará possuir-me como uma mercadoria,
nem me exibir como troféu de caça,
saberá estar a meu lado
com o mesmo amor
com o qual estarei ao lado seu.

III
O amor do homem que me amar
será forte como as árvores de ceibo,
protetor e seguro como elas,
puro como uma manhã de dezembro.

IV
O homem que me amar
não duvidará de meu sorriso
nem temerá a abundância de meu cabelo,
respeitará a tristeza, o silêncio
e com carícias tocará meu ventre como violão
para que brotem música e alegria
do fundo de meu corpo.

V
O homem que me amar
poderá encontrar em mim
a rede onde descansar
do pesado fardo de suas preocupações,
a amiga com quem compartilhar seus íntimos segredos,
o lago onde flutuar
sem medo de que a âncora do compromisso
o impeça de voar quando queira ser pássaro.
de vir a ser pássaro.

VI
O homem que me amar
fará poesia com sua vida,
construindo cada dia
com o olhar posto no futuro.

VII
Acima de todas as coisas,
o homem que me amar
deverá amar o povo
não como uma palavra abstrata
tirada da manga,
mas como algo real, concreto,
a quem render homenagem com ações
e dar a vida, se necessário.

VIII
O homem que me amar
reconhecerá meu rosto na trincheira
joelhos no chão me amará
enquanto os dois disparam juntos
contra o inimigo.

IX
O amor de meu homem
não conhecerá o temor da entrega,
nem terá medo de se descobrir ante a magia da paixão
em uma praça cheia de multidões.
Poderá gritar – te amo –
ou colocar placas no alto dos edifícios
proclamando seu direito de sentir
o mais lindo e humano dos sentimentos.

X
O amor de meu homem
não fugirá das cozinhas,
nem das fraldas do filho,
será como um vento fresco
levando consigo, entre nuvens de sonho e de passado,
as fraquezas que, durante séculos, nos mantiveram separados
como seres de distintas estaturas.

XI
O amor de meu homem
não desejará rotular ou etiquetar,
me dará ar, espaço,
alimento para crescer e ser melhor,
como uma Revolução
que faz de cada dia
o começo de uma nova vitória.

NÃO ME ARREPENDO DE NADA
(Gioconda Belli, tradução base de Silvio Diogo, versão de Jeff Vasques)

Daqui, da mulher que sou,
às vezes me entrego a contemplar
aquelas que eu podia ter sido;
as mulheres primorosas,
modelo de virtudes,
trabalhadoras boas esposas
que minha mãe desejou para mim.

Não sei por quê
passei minha vida inteira me rebelando
contra elas
odeio suas ameaças em meu corpo
a culpa que suas vidas impecáveis
por um estranho feitiço,
me inspiram;

revolto-me contra seus bons ofícios,
os prantos noturnos sob o travesseiro,
às escondidas do marido
o pudor da nudez, por baixo da passada e engomada
roupa íntima.

Estas mulheres, no entanto,
olham-me do interior de seus espelhos,
levantam um dedo acusador
e, às vezes, cedo a seus olhares de reprimenda
e gostaria de ter a aceitação universal,
ser a “boa menina”, a “mulher decente”
a impecável Gioconda,
tirar dez em conduta
com o partido, o estado, as amizades,
minha família, meus filhos e todos os demais seres
que, abundantes, povoam este nosso mundo.

Nesta contradição invisível
entre o que deveria ter sido e o que é
travei numerosas batalhas mortais,
batalhas inúteis delas contra mim
– elas contra mim que sou eu mesma –

Com a “psique dolorida” despenteio-me
transgredindo ancestrais programações
desgarrando-me das mulheres internas
que, desde a infância, torcem o rosto para mim
pois não me encaixo no molde perfeito de seus sonhos,
pois me atrevo a ser esta louca falível, terna e vulnerável
que se apaixona feito puta triste
por causas justas, homens bonitos e palavras brincalhonas
pois, já adulta, atrevi-me a viver a infância proibida,
e fiz amor sobre escrivaninhas em horários comerciais
e rompi laços invioláveis e me atrevi a desfrutar
o corpo são e sinuoso com que os genes
de todos os meus ancestrais me dotaram.

Não culpo ninguém. Melhor, agradeço a eles pelos dons.
Não me arrependo de nada, como disse Edith Piaf.
Porém, nos poços escuros em que me afundo;
nas manhãs em que, ao entreabrir os olhos,
sinto as lágrimas fazerem força
apesar da felicidade
que finalmente conquistei
rompendo estratos e camadas de rocha terciária
e quaternária,
vejo minhas outras mulheres sentadas no vestíbulo
fitando-me com olhos doídos
e me culpe pela felicidade.

Irracionais boas meninas
rodeiam-me e desfilam suas canções infantis contra mim;
contra esta mulher
feita
plena
esta mulher de peitos em peito
e largos quadris
que, por minha mãe e contra ela,
eu gosto de ser.

Economia doméstica


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ECONOMIA DOMÉSTICA
(Rosário Castellanos, México, 1926-1974)

Aqui está a regra de ouro, o segredo da ordem:
ter um lugar para cada coisa
e ter
cada coisa em seu lugar. Assim arrumei minha casa.
Impecável prateleira a dos livros:
um compartimento para as novelas,
outro para o ensaio
e a poesia em tudo mais.

Se abres um armário sentes a alfazema
e não confundirás as toalhas de linho
com as que se usam cotidianamente.
E há também a louça de grande ocasião
e a outra que se usa, se quebra, se repõe
e nunca está completa.
A roupa em sua gaveta correspondente.

E os móveis guardando as distâncias
e a composição que os faz harmoniosos.
Naturalmente que a superfície
(do que seja) está polida e limpa.

E é também natural
que o pó não se esconda nos cantos.
Mas há algumas coisas
que provisoriamente coloquei aqui e ali
ou que deixei no lugar dos utensílios.
Algumas coisas. Por exemplo, um pranto
que não se chorou nunca;
uma nostalgia de que me distraí,
uma dor, uma dor da qual se apagou o nome,
um juramento não cumprido, uma ânsia.

Que se desvaneceu como o perfume
de um frasco mal fechado
e retalhos do tempo perdido em qualquer parte.
Isto me inquieta. Sempre digo: amanhã…
e logo esqueço. E mostro às visitas,
orgulhosa, uma sala na qual resplandesce
a regra de ouro que me deu minha mãe.

Tradução de Jeff Vasques

A mulher (A vida se esvai, companheira)


Volto de um estudo de 3 dias em são paulo sobre as questões de gênero, sobre a luta das mulheres por afirmarem sua humanidade.. volto pensando em todas as mulheres de minha vida e na alegria de poder chamá-las de companheiras… para elas dedico uma das músicas mais fortes que já ouvi sobre sua condição: “La Mujer (se va la vida, compañera)”, na voz de Amparo Uchôa, fantástica cantora mexicana! A letra segue abaixo numa tra(b)dução livre que fiz.

A MULHER

León Chávez Teixeiro

Abriu os olhos,
pôs um vestido,
e foi devagar pra cozinha.
Estava escuro e sem fazer ruído,
acendeu a estufa e a rotina.
Sentiu o silêncio como um aperto,
tudo começava no café da manhã.

Dobrou a coluna,
soltou um suspiro,
sentiu ridícula a esperança;
ao mais pequeno se lhe ardeu a pança,
rompeu o silêncio,
soltou um choro.
Serviu o esposo,
vestiu os meninos,
trocou as fraldas,
serviu os pães.

Levou seus filhos pra escola;
pensou no cardápio do dia.
Mediu o dinheiro,
comprou verduras.
Contou as cinzas de sua economia.
Esperou na fila por suas tortillas,
carregou Francisco,
olhou a rua.
Por toda parte havia mulheres,
todas compravam e se moviam;
seguiam ilhadas com seus deveres,
lhe recordavam todas à formigas.
Sentiu de repente que eram amigas,
sentiu que todas eram amigas.

Voltou a sua casa, casa alugada,
viu mais amigas desde a entrada.
Deu a Francisco o que brincar,
varreu o chão,
arrumou as camas.
Se viu no espelho,
olhando o branco dos cabelos,
juntou as coisas
pra cozinhar;
cortou as batatas,
as pôs no fogo
e na manteiga as fez chiar.
Agora o cru se transformava,
estava pronto para se almoçar.
A casa inteira com outro aspecto,
de novo ajeitada pra se usar.

Pôs a mesa,
serviu as crianças,
trocous as fraldas,
cortou os pães,
limpou de novo mesa e cozinha,
deu a Mercedes o remédio;
pediu seu turno nos tanques da lavanderia:
bateu vestidos e calças,
olhou ao sol a roupa estendida,
como se ontem já não o fizera.
A mesma esfregação todos os dias,
caminhando de novo o mesmo trecho,
sentiu a vida como prisão,
lhe escapava tudo que havia feito.
Se ia a vida, se ia pelo buraco
como o sebo, no tanque, pelo ralo.

Trocou palavras com suas vizinhas;
houve sorrisos em formação.
Toda a raça em seu beco,
se arrumando enquanto andavam.
Sempre mulheres, cumprindo oficios
que se entretecem sem ter fim.
Serem costureiras, serem cozinheiras,
camareiras e passadeiras;
serem enfermeiras e lavadeiras,
também garçonetes e educadoras.
Muito diligentes faxineiras,
às famílias deixam prontas,
rumo à escola ou para o trabalho
para que possam checar as listas.

Se dava conta de suas vontades
e do cinema sabia nada.
Para eles a vida sempre séria
se afogando na miséria.
Se vai a vida, se esvai pelo buraco
como o sebo, no tanque, pelo ralo.
Foi direto para seu ninho,
sempre pensando passou a roupa.
O que era rasgado deixou cerzido,
tinha um momento para descansar.
Abriu a porta e entrou o marido
também moído de trabalhar.
Pôs a mesa,
serviu a sopa,
para queixar-se não abriu a boca.
Riram juntos e papearam.
Falaram dos filhos e de dinheiro,
das vizinhas, de alguma dor,
dos caminhões e do patrão.
Lavou a louça,
tirou o lixo,
dormiu os meninos,
trocou as fraldas.
Como ar que entra pela fresta,
os dois brincaram com sua ternura.
E então deu a volta na fechadura;
dormiram cedo todos seus males.
Se vai a vida, se esvai pelo buraco
como o sebo, no tanque, pelo ralo.
Se vai, se esvai, companheira,
como o sebo, no tanque, pelo ralo.

La mujer

Abrió los ojos. Se echó un vestido.
Se fue despacio pa’ la cocina.
Estaba oscuro. Sin hacer ruido,
prendió la estufa, y a la rutina.
Sintió el silencio como un apuro.
Todo empezaba en el desayuno.

Dobló su espalda, gozó un suspiro,
sintió ridícula la esperanza;
al más pequeño le ardió la panza,
rompió el silencio, soltó un llorido.

Sirvió a su esposo, vistió a los niños,
cambió pañales, sirvió los panes.
Llevó a sus hijos para la escuela;
pensó en la dieta que se comían.
Midió el dinero, compró verduras,
palpó lo gris de su economía.
Formó en la cola de las tortillas,
cargó a Francisco, miró la calle.
Por todas partes había mujeres,
todas compraban y se movían;
cumplían aisladas con sus deberes,
que recordaban a las hormigas.
Sintió de pronto que eran amigas,
sintió que todas eran amigas.

Volvió a su casa, casa rentada,
vio más amigas desde la entrada.
Le dio a Francisco con qué jugar,
barrió los pisos, tendió las camas.
Se vio al espejo, miró las canas,
juntó las cosas de cocinar;
cortó las papas, las puso al fuego
y a la manteca la hizo chillar.
Ahora lo crudo se ha transformado,
estaba listo para comer.
La casa entera tiene otro ver,
de nuevo listo pa’ ser usado.

Puso la mesa, sirvió a los niños,
cambió pañales, cortó los panes,
limpió de nuevo mesa y cocina,
le dio a Mercedes la medicina.
Pidió su turno en los lavaderos:
talló vestidos y pantalones.
Miró la ropa tendida al sol,
como si ayer no se hubiera hecho.
La misma friega todos los días,
se caminaba de nuevo el trecho.
Sintió la vida como prisión,
se le escapaba todo lo hecho.

Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.
Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.
Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.

Cruzó palabras con sus vecinas;
hubo sonrisas en formación.
Toda la raza en su cantón,
se las arregla con el trajín.
Siempre mujeres, cumpliendo oficios
que se entretejen sin tener fin.
Ser costureras, ser cocineras,
recamareras y planchadoras;
ser enfermeras y lavanderas,
también meseras y educadoras.
Muy diligentes afanadoras,
a sus familias las dejan listas,
rumbo a la escuela o hacia el trabajo
para que puedan checar las listas.
Se daba cuenta de sus afanes
y de los fines sabía un carajo.
Para ellos siempre la vida es seria,
pero se ahogaban en la miseria.

Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.
Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.
Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.

Se fue derecho para su nido,
siempre pensando planchó la ropa.
Todo lo roto dejó zurcido:
tenía un momento pa’ descansar.
Se abrió la puerta y entró el marido,
también molido de trabajar.
Puso la mesa, sirvió la sopa,
para quejarse no abrió la boca.
Se rieron juntos y platicaron.
Se habló de niños y de dinero,
de la vecinas, de algún dolor,
de los camiones y del patrón.
Lavó los trastos, tiró basura,
durmió a los niños, cambió pañales.
Como aire que entra por la ranura,
los dos jugaron con su ternura.
Le dio la vuelta a la cerradura,
durmió de pronto todos sus males.

Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.
Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.
Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.

Abrió los ojos. Se echó un vestido.
Se fue despacio pa’ la cocina.
Estaba oscuro. Sin hacer ruido,
prendió la estufa, y a la rutina.

Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.
Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.
Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.
Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.
Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.
Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.
Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.

Aborto


Abaixo um poema muito bom sobre aborto e o direito da mulher sobre seu corpo da Nancy Cardoso Pereira que achei no Passa-Palavra.

Me ensinaram a sentar sempre de perna fechada
etiqueta, selo, lacre
vão das pernas que nunca foi meu.
Me ensinaram a abri-las para um homem
aliança, cartório, meu bem!
Arrendada pra procriação.

Me ensinaram a ficar sempre de boca fechada
falar baixo, com jeito, graciosa
virgindade nas cordas vocais.
Estupro, abuso, abandono
balbucio monólogo aflito
grávida de não saber dizer não!

Kairós! Abro as pernas,
a grande boca de pequenos lábios,
e aborto por decisão.
Reassumo o vão entre as pernas
reforma agrária do meu próprio chão.
Gravidez? Só em estado de graça…
nunca mais filhos de aflição.
Mais que as pernas… quero abrir minha boca
Estrear minhas cordas vocais:
Eis o tempo de salvação!

Nancy Cardoso Pereira – do livro “Amantíssima e só”