Ao lutador

AO LUTADOR

(Luis Vidales, Colômbia, 1900-1990)

Alerta o olho e a consciência pura
resiste a morrer tua jovem morte.
Olha a verde idade do céu, adverte:
há pouco esteve ali a noite escura.

Somente a sorte de hoje é insegura
e se a muda transformará tua sorte.
Ao novo céu, como à árvore forte,
a colheita de ontem o transfigura.

Só o futuro é sólido e eterno,
indestrutível, alerta, vigilante,
fundo aceso de teu ser interno.

E se é que em tua luta adormeces,
observa ele ali: o único habitante
se alimenta de tempo. E cresce. E cresce.

(Tradução de Jeff Vasques)

¨Deve-se atuar a poesia / acioná-la¨ (Ibero)


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A partir de amanha comeco uma serie de entrevistas e filmagens acerca de Ibero Gutierrez, poeta lutador que foi barbaramente assassinado pela ditadura no Uruguai (foi torturado e seu corpo encontrado com 13 balas e junto um bilhete do Esquadrao da Morte dizendo ¨Voce tambem pediu perdao bala por bala, morte por morte”). Tenho me emocionado muito e aprendido muito ao reler suas poesias e outros materiais sobre sua história e paixao pela vida e pela arte. Ibero viveu tao pouco, 22 anos, mas tanto e de forma tao coerente consigo e com o mundo!

Amanha converso com Luis Bravo, organizador da antologia de Ibero (suas poesias soh foram publicadas postumamente) e grande pensador da cultura e da literatura latino-americana! Depois de amanha converso com Ricardo Viscardi, grande filosofo uruguaio e amigo de juventude de Ibero. No sabado, visito o Museu da Memória para ver o acervo de pinturas e fotografias de Ibero e, por fim, vou conhecer a casa onde Ibero cresceu e onde mora hoje sua irma, a querida Sara Gutierrez.

Assim vou descobrindo o que eh ser poeta e lutador nesta America e fincando minhas raizes no chao que escolho… 🙂 Abaixo, uma declaracao linda da esposa de Ibero (alguns dias depois de seu assassinato) sobre a relacao de amor dos dois… que linda forma de viver o amor!

¨“Nós nos demos conta que tínhamos que viver de urgência, porque talvez o tempo era curto. Tínhamos que viver cada momento e vivê-lo plenamente. Mas nao para nós sozinhos, senao em relacao ao mundo. Sentíamos que nosso companherismo era importante, nos queríamos. Mas nao fazia sentido se nao era em relacao com os demais, com a causa, a causa da liberacao do povo. Tinhamos perdido a individualidade, ja nao éramos eu e ele; éramos o casal e nos sentíamos integrados. E no entanto, nao podíamos realizarnos mais alem. Era o sistema que estava nos cerceando. Nos haviamos casado ha cinco meses, e nao íamos ter filhos por agora, apesar de que Ibero quería muitissimo ter um filho. Mas teria sido muito comodo dizer: bem, o mundo marcha por ali e nos por aquí, em nosso lugar, realizándo-nos. Com tudo o que desejava viver em suas coisas, Ibero nao quería ilhar-se dos outros, e assim é como tratou de fazer o que entendía que era bom para todos. Costumavamos dizer que a relacao carnal do casal era nada sem a relacao ideológica e a relacao afetiva, e vivíamos nos queréndo no meio das lutas estudantis e das tarefas políticas. O domingo (em que Ibero foi assassinado) foi assim e havía sido sempre assim, durante os últimos dois anos.” (Olga Martinez Gutierrez, esposa de Ibero Gutierrez)

Peru e Javier Heraud


Javier_Heraud

Aqui no Peru pude ter acesso a antologia de Javier Heraud (impossível de conseguir no brasil), jovem poeta lutador que foi assassinado barbaramente ha alguns quilometros de onde estou (Cusco), em Puerto Maldonado. Pena minha passagem pelo peru ser tao rapida, pois gostaria de entrar em contato com familiares e amigos de Heraud… mas certamente voltarei para ca, porque realmente me apaixonei pelo povo, pela paisagem e pela cultura peruana! Abaixo traduzi um trechinho dum poema premonitório… pois Javier foi assassinado enquanto estava num barco, no meio de um rio da selva peruana… e como nesse poema, tambem tenho sede e tambem venho perguntando e me perguntando pelos caminhos… e nao ha resposta, a nao ser a que eu mesmo consiga construir comigo e com todos…

Elegia(fragmento) Javier Heraud

Tu quisestes descansar
em terra morta e no esquecimento.
Acreditavas poder viver sozinho
no mar, ou nos montes.
Logo soubestes que a vida
é solidao entre os homens
e solidao entre os vales.
Que os dias que circulavam
em teu peito só eram mostras
de dor entre teu pranto. Pobre
amigo. Nao sabias nada nem choravas nada
Eu nunca me rio
da morte.
Simplesmente
sucede que
nao tenho
medo
de
morrer
entre
pássaros e árvores
Eu nao me rio da morte.
Mas as vezes tenho sede
e peco um pouco de vida,
as vezes tenho sede e pergunto
diariamente, e como sempre
sucede que nao há respostas
senao uma gargalhada profunda
e negra. Já te disse, nunca
se deve rir da morte,
mas sim conheco seu branco
rosto, sua tétrica vestimenta.

(…)

Em tempos difíceis


“Em tempos difíceis” – Herberto Padilla (Cuba)

À aquele homem lhe pediram seu tempo
para que o juntasse ao tempo da História.
Lhe pediram as mãos,
porque para uma época difícil
nada há melhor que um par de boas mãos.
Lhe pediram os olhos
que alguma vez tiveram lágrimas
para que não contemplasse o lado claro
(especialmente o lado claro da vida)
porque para o horror basta um olho de assombro.
Lhe pediram seus lábios
ressecados e rachados para afirmar,
para erigir, com cada afirmação, um sonho
(o-alto-sonho);
lhe pediram as pernas,
duras e nodosas,
(suas velhas pernas andarilhas)
porque em tempos difíceis
há algo melhor que um par de pernas
para a construção ou para a trincheira?
Lhe pediram o bosque que nutriu desde menino,
com sua árvore obediente.
Lhe pediram o peito, o coração, os ombros.
Lhe disseram
que isso era estritamente necessário.
Lhe explicaram depois
que toda esta doação resultaría inútil
sem entregar a língua,
porque em tempos difíceis
nada é tão útil para cortar o ódio e a mentira.
E finalmente lhe rogaram
que, por favor, começasse a andar,
porque em tempos difíceis
esta é, sem dúvida, a prova decisiva.

Canto do companheiro de rota


Tradução de um belo poema de José Pedroni, poeta argentino (1889-1968).

Canto do companheiro de rota

Deixa-me marchar com vocês,
poetas surgidos do povo;
deixa-me ser vosso companheiro de rota
em meu último trecho.

Não quero ficar esquecido
em um mundo velho.
Quero marchar com aqueles que “entoam
os cantos novos dos tempos novos.”

Deixa-me ser vosso companheiro de viagem.
Venho de longe.
Veja aquele confim de pedra e fumaça;
aquele deserto.

Para alcançá-los na marcha
me livrei de todo o peso.
Tive que atravessar minha própria noite
de extremo a extremo;
abrir-me passo entra as ramas negras
de um bosque seco…
Para alcançá-los na rota
do ar fresco.

Cheguei, por fim,
mas estou pelo chão.
Ajuda-me a me por de pé,
poetas surgidos do povo;
leva-me onde a água;
dá-me vosso lenço;
ensina-me um lugar de trigo jovem,
para jogar-me de peitos,
e deixa-me dormir meu primeiro dia
em vosso dia novo.

Toda a noite comtemplei as luzes
da cidade sem medo.
Está ali, junto a um rio,
onde o trigal se encontra com o céu.
Porque vou alcançá-la e perdê-la,
quero chegar com os primeiros.

Cheio de ramas mortas está a árvore
do mundo velho.
Já se o vê no poente.
O vento é forte e fresco.
Traz o rumor de vocês
do batalhão do povo
que às costas leva a árvore e os pássaros
do mundo novo.
Os poetas estão no caminho
e fazem ali os versos.
Estão poeta, operário e campesino
unidos na folha do trevo.
Há quem olha e não vê; há quem não olha
o canto mensageiro,
e há quem se põe à rua
para alcançar o trovão
da marcha de vocês e de papoulas.
Eu sou um destes.
Minha porta fica aberta
e a golpeia o vento.

Deixa-me ir com vocês
companheiros!

Uma pomba que me guia, branca,
será meu formoso sonho;
a pomba que espera e se adianta,
de curtos voos;
a pombra que todos vemos
uma vez ao menos;
que se recorda como a um anjo,
o anjo bom.

Ao despertar-me, não digam de mim
nem isto nem aquilo.
Atrás deixei a noite do passado,
e já não a recordo.
Se algo quer dizer,
diga: – Chegou o bom velho.
Diga: – Quer ser nosso companheiro de rota;
quer que o levemos;
quer marchar com aqueles que “entoam
os cantos novos dos tempos novos”

Atrás deixei os fardos do passado.
Já não os sinto.
Não me deixavam ver os cumes.
Me livrei deles.
Como a planta sem a pedra,
estou direito.
E agora quero marchar com vós,
poetas verdadeiros;
fazer vosso caminho
de sol e nascimento
de trigo e bosque resgatados
e de galos que cantam nos tetos.

Dá-me a voz, que é tarde,
logo, que se vai o tempo.
Sobre a rota estou com meu cavalo.
Não posso contê-lo.

A lua com gatilho – Raúl González Tuñón


Abaixo a tradução que fiz do poema-manifesto do poeta-lutador argentino Raúl González Tuñón. Mais uma reflexão sobre o papel da poesia nos dias de bárbarie em que vivemos.

A LUA COM GATILHO

É preciso que nos entendamos.
Eu falo de algo certo e de algo possível.
Certo é que todos comam
e vivam dignamente
e é possível saber algum dia
muitas coisas que hoje ignoramos.
Então, é necessário que isto mude.

O carpinteiro fez esta mesa
verdadeiramente perfeita
onde se inclina a menina dourada
e o pai celeste resmunga.
Um ebanista, um pedreiro,
um ferreiro, um sapateiro,
também sabem o seu.

O mineiro desce à mina,
ao fundo da estrela morta.
O campesino semeia e ceifa
a estrela já ressuscitada.
Tudo seria maravilhoso
se cada qual vivesse dignamente.

Um poema não é uma mesa,
nem um pão,
nem um muro,
nem uma cadeira,
nem uma bota.

Com uma mesa,
com um pão,
com um muro,
com uma cadeira,
com uma bota,
não se pode mudar o mundo.

Com uma carabina,
com um livro,
isso é possível.

Compreendes por que
o poeta e o soldado
podem ser uma mesma coisa?

Marchei atrás dos operários lúcidos
e não me arrependo.
Eles sabem o que querem
e eu quero o que eles querem:
a liberdade, bem entendida.

O poeta é sempre poeta
mas é bom que ao fim compreenda
de uma maneira alegre e terrível
quão melhor seria para todos
que isto mudasse.

Eu os segui
e eles me seguiram.
Aí está a coisa!

Quando se tiver que lançar a pólvora
o homem lançará a pólvora.
Quando se tiver que lançar o livro
o homem lançará o livro.
Da união da pólvora e do livro
pode brotar a rosa mais pura.

Digo ao pequeno padre
e ao ateu de botequim
e ao ensaísta,
ao neutro,
ao solene,
e ao frívolo,
ao tabelião e à corista,
ao bom coveiro,
ao silencioso vizinho de um terceiro,
a minha amiga que toca o acordeon:
-Olhai a mosca sufocada
embaixo da redoma de vidro.

Não quero ser a mosca sufocada.
Tampouco tenho nada a ver com o macaco.
Não quero ser abelha.
Não quero ser unicamente cigarra.
Tampouco tenho nada a ver com o macaco.
Eu sou um homem ou quero ser um verdadeiro homem
e não quero ser, jamais,
uma mosca sufocada debaixo da redoma de vidro.

Nem colméia, nem formigueiro,
não compares os homens
a nada mais que não seja homem.

Dá ao homem tudo o que necessite.
Os pesos para pesar,
as medidas para medir,
o pão ganhado altivamente,
a flor do ar,
a dor autêntica,
a alegria sem uma mancha.

Tenho direito ao vinho,
ao azeite, ao museu,
à Enciclopédia Britânica,
a um lugar no ônibus,
a um parque abandonado,
a um cais,
a uma açucena,
a sair,
a ficar,
a dançar sobre a pele
do Último Homem Antigo,
com meu esqueleto novo,
coberto com pele nova
de homem reluzente.

Não posso cruzar os braços
e interrogar agora o vazio.
Me rodeiam a indignidade
e o desprezo;
me ameaçam o cárcere e a fome.
Não me deixarei subornar!

Não. Não se pode ser livre interamente
nem estritamente digno agora
quando o chacal está à porta
esperando
que nossa carne caia, apodrecida.

Subirei ao céu,
lhe colocarei gatilho à lua
e desde cima fuzilarei o mundo,
suavemente,
para que este mude de uma vez.

“Há poucas coisas tão ensurdecedoras como o silêncio!”



A frase título do post é do escritor uruguaio Mário Benedetti (1920-2009), um dos escritores latino-americanos mais conhecidos e lidos na atualidade. Mário Benedetti foi um escritor engajado, colaborou em um dos maiores semanários do mundo, “Marcha”, dirigido na época por Eduardo Galeano e que tinha como colaboradores os maiores escritores engajados do mundo, tais como Bertrand Russel, Júlio Cortazar, Simone Beauvoir, Darcy Ribeiro, Carlos Fuentes, etc. Viveu mais de 10 anos em exílio por causa da ditadura uruguaia.

“- Literatura comprometida?

– Mais de uma vez disse que o panfleto é um gênero tão legítimo como qualquer outro. Existem obras mestras do panfleto: Marx. Engels, Lenin, o Che, Fanon, Fidel têm verdadeiras obras mestras, mas a literatura panfletária é outra coisa, e não me entusiasma para nada… Falta saber o que passa com os artistas do exílio, como trabalha em cada um a nostalgia, o ódio, a apartação, como se afirma ou se debilita sua identidade nacional. Isto nos traz de novo a falar do papel do escritor.

Creio que não se deve exigir a priori que um artista assuma tal ou qual atitude: Primeiro deverá transformar-se como ser humano e depois essa transformação se refletirá em sua obra a posteriori. Quando um autor escreve sobre temas políticos sem que isso esteja respaldado por uma atitude consequente, sua obra soará oca. É como escrever poemas de amor sem estar enamorado, sem sentir o amor, e a política é também uma forma de amor. (Mário Benedetti)”

Abaixo segue um poema em homenagem ao Che (escrito assim que soube de seu assassinato); outro poema lindo sobre o companheirismo (obrigado, Poli, por me enviar!); um poema homenagem ao poeta e guerrilheiro salvadorenho Roque Dalton (que morreu “justiçado” pelos próprios companheiros de Partido, pois seu jeito irreverente e heterodoxo causava “suspeitas”; Roque era famoso por ter conseguido escapar de prisões mais de uma vez, mas não escapou, ironicamente, de seu próprios companheiros de luta) e por fim um poema sobre os “desaparecidos” pelas ditaduras… ao final, esse mesmo poema musicado por Daniel Viglietti (Benedetti declama o poema ao fundo!).

CONSTERNADOS, RAIVOSOS

Assim estamos
consternados
raivosos
ainda que esta morte seja
um dos absurdos previsíveis

dá vergonha olhar
os quadros
as poltronas
os tapetes
pegar uma garrafa da geladeira
teclar as três letras mundiais de teu nome
na rígida máquina
que nunca
nunca esteve
com a fita tão pálida

vergonha ter frio
e enconstar-se no aquecedor como sempre
ter fome e comer
essa coisa tão simples
abrir o toca-discos e escutar o silêncio
sobretudo se é um quarteto de Mozart

dá vergonha o conforto
e a asma dá vergonha
quando teu comandante está caindo
metralhado
fabuloso
nítido

és nossa consciência crivada

dizem que te queimaram
com que fogo
vão queimar as boas
as boas novas
a irascível ternura
que trouxeste e levaste
com tua tosse
com teu barro

dizem que incineraram
toda tua vocação
menos um dedo

suficiente para nos mostrar o caminho
para acusar o monstro e seus tições
para apertar de novo os gatilhos

assim estamos
consternados
raivosos
claro que com o tempo a plúmbea
consternação
nos irá passando
a raiva diminuirá
se fará mais limpa

estás morto
estás vivo
estás caindo
estás nuvem
estás chuva
estás estrela

onde estejas
se é que estás
se estás chegando

aproveita enfim
para respirar tranqüilo
para encher de céu os pulmões

onde estejas
se é que estás
se estás chegando
será uma pena que não exista Deus

mas haverão outros
claro que haverão outros
dignos de te receber
comandante

ME SERVE E NÃO ME SERVE

A esperança tão doce
tão polida tão triste
a promessa tão leve
não me serve

não me serve tão mansa
a esperança

a raiva tão submissa
tão débil tão humilde
o furor tão prudente
não me serve

não me serve tão sábia
tanta raiva

o grito tão exato
se o tempo o permite
alarido tão belo
não me serve

não me serve tão bom
tanto trovejar

a coragem tão dócil
a bravura tão afiada
a intrepidez tão lenta
não me serve

não me serve tão fria
a ousadia

sim me serve a vida
que é vida até morrer-se
o coração alerta
sim me serve

me serve quando avança
a confiança

me serve teu olhar
que é generoso e firme
e teu silêncio franco
sim me serve

me serve a medida
de tua vida

me serve teu futuro
que é um presente livre
e tua luta de sempre
sim me serve

me serve tua batalha
sem medalha

me serve a modéstia
de teu orgulho possível
e tua mão segura
sim me serve

me serve teu caminho
companheiro.

À ROQUE

Chegaste cedo ao bom humor
ao amor cantado
ao amor decantado

chegaste cedo
ao rum fraterno
às revoluções

cada vez que te arrancavam do mundo
não havia calabouço que te caísse bem
assomavas a alma por entre os barrotes
e mal os barrotes se afrouxavam turvados
aproveitavas para livrar o corpo

usavas a metáfora pé-de-cabra
para abrir os ferrolhos e os ódios
com a urgência inconsolável de quem quer
regressar ao assombro dos livres

tinhas ojeriza ao proibido
às desgarraduras para pretensão e orquestra
ao dedo admoestador de algum colega isento
algum apócrifo bom samaritano
que desde da europa te queria ensinar
a ser um bom latinoamericano

tinhas ojeriza à pureza
porque sabias como somos de impurezas
como mesclamos sonhos e vigília
como nos pesam a razão e o risco

por sorte eras impuro
fugido de cárceres e armadilhas
não de responsabilidades e outros gozos
impuro como um poeta
que isso eras
apesar de tantas outras coisas

agora recorro trama a trama
nossos muitos acordos
e tambem nossos poucos desacordos
e sinto que nos restam diálogos inconclusos
reciprocas perguntas nunca ditas
malentendidos e benentendidos
que não poderemos embaralhar de novo

mas tudo volta a adquirir seu sentido
sim recordo teus olhos de garoto
que eram quase um abraço quase um dogma

o fato é que chegaste
cedo ao bom humor
ao amor cantando
ao amor decantado
ao rum fraterno
às revoluciones
mas sobretudo chegaste cedo
demasiado cedo
a uma morte que não era a tua
e que a esta altura não saberá que fazer com tanta vida.

DESAPARECIDOS

Estão em algum lugar marcados
desconcertados surdos
buscando-se buscando-nos
bloqueados pelos signos e pelas dúvidas
contemplando as velhas das praças
os timbres das portas as velhas que enlouquecem
ordenando seus sonhos seus esquecimentos
quiçá convalescentes de sua morte privada

ninguém os explicou com certeza
se já se foram ou se não
se são faixas ou tremores
sobreviventes ou superstições

vêem passar árvores e pássaros
e ignoram a que sombra pertencem

quando começaram a desaparecer
há três cinco sete cerimônias
a desaparecer como sem sangue
como sem rosto e sem motivo
vieram pela janela de sua ausência
o que ficava atrás desse arcabouço
de abraços céu e fumaça

quando começaram a desaparecer
como o oásis nos espelhismos
a desaparecer sem últimas palavras
tinham em suas mãos os pedacinhos
de coisas que queriam

estão em algum lugar nuvem ou tumba
estão em algum lugar estou seguro
lá no sul da alma
é possível que tenham extraviado a bússola
e hoje vagueiam perguntando perguntando
onde caralho fica o bom amor
porque vêm do ódio.

Daniel Viglietti & Mario Benedetti – Desaparecidos


Atahualpa Yupanqui (Argentina) I



Em língua quechua: Ata: vem; Ku: de longe; Alpa: terra; Yupanqui: que vai contar. Logo, “Aquele que vem de longe para contar algo”… e vinha de longe mesmo! Atahualpa Yupanqui era o pseudônimo que Héctor Roberto Chavero se deu em sua adolescência quando andava diariamente 15 quilômetros para ter aulas com seu mestre de violão. Era também uma homenagem aos dois últimpos imperadores incas: Atahualpa e Tupac Yupanc.

Atahualpa nasceu no Campo de la Cruz, Partido de Pergamino, uma pequena localidade da região norte da Província de Buenos Aires. A data de seu nascimento está registrada no dia 31 de janeiro de 1908; filho de uma típica família do interior argentino: seu pai é crioulo e sua mãe vasco-espanhola. É dessa vida própria dos pampas que Atahualpa vai retirar toda sua musicalidade e poesia inicial:

“Os dias de minha infância transcorriam de assombro em assombro, de revelação em revelação. Nasci em um meio rural e cresci frente a um horizonte de balidos e relinchos. Era um mundo de sons doces e bárbaros a uma só vez. (…) Galopam-me no sangue trezentos anos de América, desde que Don Diego Abad Martin Chavero chegou para abater quebrachos e afarrobeiras e fazer portas e colunas para igrejas e capelas. Pelo lado materno venho de Regino Haram, de Guipuzcoa.”. (“El canto del viento”, Atahualpa)

É difícil dimensionar a profundidade da influência de Atahualpa na música e cultura latino-americana deste século. Profundamente conectado à vida campesina dos pampas argentinos mas também influenciado pelas tribos e comunidades pobres de diversos países por onde peregrinou, Yupanqui funcionou, assim como Zeca Afonso em Portugal e Dércio Marques no Brasil, como um coletor e intérprete das canções emanadas do povo latino, as retornando ao mesmo povo para que fossem irmanadas agora como símbolo de unidade de todos filhos da Grande Pátria.

“Eu viajei durante anos pelas serranias de minha pátria. Vivi longos anos nas profundas quebradas, nos morros, nas terras sedentas, onde o salitral ostenta seus ilusórios mares e seus falsos diamantes. Passei temporadas entre índios, entre kollas, mestiços e paisanos. Dormi em palhoças, onde a miséria sufoca todas as paisagens. Passei noites nos cumes, nos vales abandonados. (…) A luz que ilumina o coração do artista é uma lâmpada milagrosa que o povo usa para encontrar a beleza no caminho, a solidão, o medo, o amor e a morte.”. (“El canto del viento”, Atahualpa)

Don Ata, como se tornou conhecido, é um artista essencial para entender o cancioneiro latino-americano dos anos 30 em diante, especialmente a Canção Nova (surgida nos anos 60-70, com Victor Jara, Violeta Parra, Mercedes Sosa, Quilapayun, IntiIllimani, etc) em que a cultura popular deixa de ser vista por um viés esteticizante, folclorista, para funcionar como chão cultural do qual se levanta uma voz compromissada com a realidade social da maioria e com a luta por sua transformação. Engajou-se no Partido Comunista Argentino (1945) por alguns anos o que lhe rendeu perseguições, a censura de suas músicas (toda música de Atahualpa foi proibida de ser cantada na Argentina), diversas prisões (veja terrível relato abaixo das torturas que sofreu) e exílio (conheceu e se tornou amigo de Edith Piaf durante o exílio). Em 52 resolveu se afastar do partido, mas não das questões políticas. Toma essa decisão para poder se dedicar integralmente a música e a poesia, onde se encontrava sua missão maior, cantar junto ao povo.

“Em tempos de Perón estive vários anos sem poder trabalhar na Argentina… Me acusavam de tudo, até do crime da semana que vem. Desde essa esquecível época tenho o indicador da mão direita quebrado. Uma vez colocaram sobre minha mão uma máquina de escrever e logo se sentavam em cima, outros saltavan. Buscavan desfazer-me a mão mas não se perceberam de um detalhe: me ferraram a mão direita e eu, para tocar a guitarra, sou canhoto. Todavia hoje, a vários anos desse feito, há tons como o Si menor que me custa fáze-los. Os posso executar porque uso a técnica, a manha; mas realmente me custam.” (“El canto del viento”, Atahualpa)

Eu sou apaixonado pelas composições de Don Ata, a singeleza, por vezes enganadora, donde se esconde sua arguta acidez, corroendo a ordem capitalista (a poeisa de Atahualpa me lembra da poesia de José Marti, como em Versos Sencillos). Certamente, será necessário mais de 1 post pra dar conta desse mestre. Abaixo segue 2 canções clássicas e uma pouco conhecida: 1. “Duerme, negrito”, que ficou tão conhecida através de diversos outros intérpretes, menos na voz de seu intérprete original: nesse vídeo, antes de cantar a canção que se tornou símbolo de identificação dos povos da américa, Atahualpa explica onde a coletou, entre mães trabalhadoras na divisa com a Venezuela! 2. “Los Hermanos”, que foi imortalizada na voz de Mercedes Sosa e, por mais batida que seja, tem uma poesia forte que merece ser revista na voz de seu criador. 3. “Preguntitas a Dios”, dura e ácida canção que parte dos problemas do povo mas não se deixa dominar por sua origem e questiona o próprio povo (Atahualpa lança mão de um recurso muito interessante: se protege do confronto direto com a opinião popular colocando as indagações na voz de uma criança que questiona os adultos).

Ah, Aqui você pode baixar diversos discos de Atahualpa!!!

“DUERME NEGRITO”

Duerme, duerme, negrito, / que tu mamá está en el campo, / negrito…

Te va a traer / codornices para ti. / Te va a traer / rica fruta para ti.
Te va a traer / carne de cerdo para ti. / Te va a traer / muchas cosas para ti
Y si el negro no se duerme, / viene el diablo blanco / y ¡zas! Le come la patita,
¡chacapumba!

Duerme, duerme, negrito, / que tu mamá está en el campo, / negrito…
Trabajando, / trabajando duramente, / trabajando sí.
Trabajando y no le pagan, / trabajando sí.
Trabajando y va tosiendo, / trabajando, sí.
Trabajando y va de luto, / trabajando sí.
Para el negrito chiquitito, / trabajando, sí.
Duramente, sí. / Va tosiendo, sí.
Va de luto, sí. / Duramente, sí

Duerme, duerme, negrito, / que tu mama está en el campo, / negrito…

“LOS HERMANOS”

Yo tengo tantos hermanos / que no los puedo contar. / En el valle, la montaña, / en la pampa y en el mar.

Cada cual con sus trabajos, / con sus sueños, cada cual. / Con la esperanza adelante, / con los recuerdos detrás.

Yo tengo tantos hermanos / que no los puedo contar. / Gente de mano caliente / por eso de la amistad,
Con uno lloro, pa llorarlo, / con un rezo pa rezar. / Con un horizonte abierto / que siempre está más allá.
Y esa fuerza pa buscarlo / con tesón y voluntad.

Cuando parece más cerca / es cuando se aleja más. / Yo tengo tantos hermanos / que no los puedo contar.

Y así seguimos andando / curtidos de soledad. / Nos perdemos por el mundo, / nos volvemos a encontrar.

Y así nos reconocemos / por el lejano mirar, / por la copla que mordemos, / semilla de inmensidad.

Y así, seguimos andando / curtidos de soledad. / Y en nosotros nuestros muertos / pa que nadie quede atrás.

Yo tengo tantos hermanos / que no los puedo contar, / y una novia muy hermosa / que se llama ¡Libertad!

“PREGUNTITAS A DIOS”

Un día yo pregunté: / ¿Abuelo, dónde esta Dios? / Mi abuelo se puso triste, / y nada me respondió.

Mi abuelo murió en los campos, / sin rezo ni confesión. / Y lo enterraron los indios / flauta de caña y tambor.

Al tiempo yo pregunté: / ¿Padre, qué sabes de Dios? / Mi padre se puso serio / y nada me respondió.

Mi padre murió en la mina / sin doctor ni protección. / ¡Color de sangre minera / tiene el oro del patrón!

Mi hermano vive en los montes / y no conoce una flor. / Sudor, malaria y serpientes, / es la vida del leñador.

Y que naide le pregunte / si sabe dénde esta Dios: / Por su casa no ha pasado / tan importante señor.

Yo canto por los caminos, / y cuando estoy en prisión, / oigo las voces del pueblo / que canta mejor que yo.

Si hat una cosa en la tierra / más importante que Dios / es que naide escupa sangre / pa’ que otro viva mejor.

¿Qué Dios vela por los pobres? / Tal vez sí, y tal vez no. / Lo seguro es que Él almuerza / en la mesa del patrón.

“Que se renda tua mãe!”


A frase título deste post foi gritada por um jovem insolente de apenas 20 anos em resposta a ordem de render-se proferida por um batalhão da guarda nacional da Nicarágua armada de tanques e canhões. O garoto acompanhado de mais 2 companheiros (Róger Núñez Dávila, Mauricio Hernández Baldizón) resistiam durante muito tempo, o que fez com que uma multidão se aglomerasse ao redor da batalha desigual. Morreram todos, ali mesmo, assassinados pela ditadura nicaragüense. Era 1970, e o jovem insolente era Leonel Rugama, poeta e guerrilheiro.

A foto acima foi tirada pouco antes de sua morte. Preparava-se para sair do país, numa ativadade da Frente Sandinista de Libertação Nacional da qual era militante. Rugama foi seminarista mas abandonou tudo e foi para as montanhas, juntar-se à guerrilha, onde começou a escrever suas poesias. Sua poesia teve vida curta mas marcou a história da Nicarágua e influenciou muitos poetas e lutadores na América Latina. Seu poema “A Terra é um satélite da Lua” é a poesia nicaragüense mais lida em todo o mundo.

É importante recordar que toda uma geração de artistas e poetas foi assassinada nessa mesma época em lutas similares em outros lugares da América: Roque Dalton (El Salvador-75), Victor Jara (Chile-73), Otto René Castillo (guatemala-67), Javier Heraud (Peru-63), Rony Iescouflair (Haiti-67), Ricardo Morales (Nicarágua-73), Roberto Obregon (Guatemala-75), Aldo Sa Brito (Brasil-61), Edgardo Tello (Peru-75), Francisco Urondo (Argentina-76), Jacques Viav (Haiti-65), Rita Valdiva (Bolívia-69), Ibero Gutierrez (Uruguai-72), Nestor Paz Zamora (Bolívia-72), Jorge Salerno (Uruguai-69)…

Abaixo segue um texto do Galeano sobre Rugama e vários poemas que tra(b)duzi. Para finalizar, um vídeo com Carlos Mejía Godoy (fantástico músico revolucionário nicaraguense) com uma canção homenageando Leonel. Inclusive, Mejía mergulha definitivamente na canção de protesto ao presenciar o assassinato de Leonel Rugama. Ingressa, então, na Frente Sandinista e faz canções que se tornaram hinos da luta nicaraguense. Mais recentemente, Mejia toma a corajosa decisão de proibir o uso de suas canções pela Frente Sandinista que chegou ao poder com Ortega (coisas parecidas vemos por acá, com Lula e PT). Disse que assim que a Frente volte a estar com os trabalhadores cantará, de novo, alegremente nas praças. Mejía merece um post…

Eduardo Galeano sobre Leonel Rugama

O altivo poeta, o gorduchinho de sotana** que comungava a pé, dispara até o último tiro e cai lutando contra todo um batalhão da ditadura de Somoza. Leonel Rugama tinha 20 anos. Dos amigos, preferia os jogadores de xadrez. Dentre os jogadores de xadrez, os que perdem por culpa da moça que passa. Das que passam, a que fica. Das que ficam, a que todavia não chegou. Dos heróis, preferia os que não dizem que morrem pela pátria. Das pátrias, a nascida de sua morte.

** sotana: bata dos padres.

A TERRA É UM SATÉLITE DA LUA (LEONEL RUGAMA)

A Apolo 2 custou mais que a Apolo 1
a Apolo 1 custou bastante.

A Apolo 3 custou mais que a Apolo 2
a Apolo 2 custou mais que a Apolo 1
a Apolo 1 custou bastante.

A Apolo 4 custou mais que a Apolo 3
a Apolo 3 custou mais que a Apolo 2
a Apolo 2 custou mais que a Apolo 1
a Apolo 1 custou bastante.

A Apolo custou um montão, mas ninguém percebeu
porque os astronautas eram protestantes
e lá da lua leram a Bíblia,
maravilhando e alegrando a todos os cristãos
e na sua volta o papa Paulo VI lhes deu a benção.

A Apolo 9 custou mais que todas juntas
junto com a Apolo 1 que custou bastante.

Os bisavós da gente de Acahualinca** tinham menos
fome que os avós.

Os bisavós morreram de fome.

Os avós da gente de Acahualinca tinham menos
fome que os pais.

Os avós morreram de fome.

Os pais da gente de Acahualinca tinham menos
fome que a gente dali.

Os pais morreram de fome.

A gente de Acahualinca tem menos fome que
os filhos da gente dali.

Os filhos da gente de Acahualinca não nascem por fome,
e têm fome de nascer, para morrer de fome.

Bem-aventurados os pobres
porque deles será a lua.

**Acahualinca: bairro muito pobre de Manágua; é também região turística por possuir pegadas pré-históricas gravadas no barro.

BIOGRAFIA (LEONEL RUGAMA)

Nunca apareciou seu nome
nas tábuas velhas da reserva escolar.
Ao abandonar definitivamente a aula
ninguém percebeu sua ausência.
As sirenes do mundo guardaram silêncio,
jamais detectaram o incêndio de seu sangue.
O grau de suas chamas
se fazia cada vez mais insuportável.
Até que abraçou com o ruído de seus passos
a sombra da montanha.
Aquela terra virgem o amamentou com seu mistério
cada brisa lavava seu ideal
e o deixava como criança branca desnuda,
trêmula, recém banhada.
Todo mundo careceu de ouvidos e o combate
onde começou a nascer
passou desapercebido.

SANDINO (LEONEL RUGAMA)

“Havia um nica* de Niquinohomo**
que não era político
nem soldado”***
lutou em Las Segovias
e uma vez quando escreveu a Froylán Turcios
lhe disse que se os ianques
por ironia do destino
matassem a todos seus guerrilheiros
no coração deles
encontrariam o tesouro maior do patriotismo
e que isso humilharia a galinha
que em forma de águia
ostenta o escudo dos norte-americanos
e mais adiante lhe dizia
que de sua parte ao ver-se só (coisa que não cria)
se colocaria ao centro de cem quintais de dinamite
que trazia de suas pilhagens de guerra
e que com sua própria mão daria fogo
e que diriam todos a quatrocentos quilômetros:

Sandino está morto.

*nica: maneira informal como chamam os nicaraguenses fora da Nicarágua…
**Niquinohomo: cidade natal de Sandino.
***: Esse trecho está em aspas pois faz referência a um enorme e fantástico poema de Ernesto Cardenal sobre Sandino que pode ser lido aqui. Em breve traduzirei.

ACAHUALINCA É UM PASSEIO

Acahualinca** é um passeio.
Todos os seminaristas
íamos de passeio
pelas pegadas de Acahualinca.

Em 1969
os seminaristas
vão de passeio
pelas pegadas de Acahualinca.

**Acahualinca: bairro muito pobre de Manágua; é também região turística por possuir pegadas pré-históricas gravadas no barro. Leonel demarca com este poema sua opção por largar o seminário e ingressar na guerrilha.

EPITÁFIO (LEONEL RUGAMA)

Leonel Rugama
gozou da terra prometida
no mês mais cru da colheita
sem mais alternativa que a luta,
bem próximo da morte,
mas não do final.

EPITÁFIO (LEONEL RUGAMA)

Aqui jazem
os restos mortais
de quem em vida
buscou sem alívio
uma
a
uma
tua cara
em todos
os ônibus urbanos.

CARLOS MEJIA GODOY HOMENAGEIA LEONEL RUGAMA

NO SE ME RAJE MI COMPA

Cuenta Mercho Maldonado
En la bajura del rio
platico con tres muchachos
Vestidos de verde olivo
Tenian dijo el campisto
Limpia, limpia la mirada

piensen en la serenita exactita al ojo de agua
piensen en la serenita exactita al ojo de agua

Coro

No se me raje mi compa
no se me ponga chispon
Que la patria necesita su corage y su valor
No se me raje mi hermano
No Vuelva a ver para atras
La milpa esta reventando
Y es tiempo de cosechar

Te acordas de aquel muchacho
el que vendia tortillas
se salio del seminario
pa meterse en la guerria
murio como todo un hombre
aya por el sementerio
cometio el atros delito
de agarrar la vida en serio
cometio el atros delito
de agarrar la vida en serio

Coro

No se me raje mi compa
no se me ponga chispon
que la patria necesita
su corage y su valor
No se me raje mi hermano
no vuelva aver para atras
que la milpa esta reventando
y es tiempo de cosechar

Me contaba el otro dia
el que torturo a Ricardo
me daban miedo las chispas
de sus grandes ojo claros
Jamás pudimos sacarle
más palabras que las mismas
soy y sere militante de
la causa sandinistas
soy y sere militante de
la causa sandinista

Coro

No se me raje mi compa
no se me ponga chispon
Que la patria necesita su corage y su valor
No se me raje mi hermano
No Vuelva a ver para atras
La milpa esta reventando
Y es tiempo de cosechar

Dijo Julio Antonio Mega
si me pongo reprechero
no perdone camarada
ni el más leve parpadeo
si me espiaban saseguime
si paro empujame
y si a caso retrosedo ahi
mismo liquidame
y si a caso retrosedo ahi
mismo liquidame

Coro

No se me raje mi compa
no se me ponga chispon
que la patria necesita
su corage y su valor
No se me raje mi hermano
no vuelva aver para atras
que la milpa esta reventando
y es tiempo de cosechar