Teoria queer: de acordo com minha avó

SP - PARADA GAY/SP - GERAL - Participantes durante a 19ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo 2015, denominada "Eu Nasci Assim, Eu Cresci Assim, Vou Ser Sempre Assim: Respeitem- me!" na Avenida Paulista neste domingo, 07. 07/06/2015 - Foto: SÉRGIO CASTRO/ESTADÃO CONTEÚDO
SP – PARADA GAY/SP – GERAL – Participantes durante a 19ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo 2015, denominada “Eu Nasci Assim, Eu Cresci Assim, Vou Ser Sempre Assim: Respeitem- me!” na Avenida Paulista neste domingo, 07. 07/06/2015 – Foto: SÉRGIO CASTRO/ESTADÃO CONTEÚDO

(foto de Sérgio Castro – performance da atriz transexual Viviany Beleboni na 19ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo 2015)

TEORIA QUEER: DE ACORDO COM MINHA AVÓ
(Richard Blanco, Espanha, 1968)

Nunca beber refrigerante com um canudo
de milk shake? Talvez.
Pare de olhar o catálogo Avon de sua mãe,
e a roupa íntima dos homens nesses folhetos da Sears.
Eu tô de olho em você…
Fique de fora das festas de Tupperware dela
e de seus frascos de perfume – não deixe ela te beijar,
ela te beija muito demais.
Evite abraçar homens, mas se você precisar,
dê uns tapinhas bem fortes
nas costas, mesmo
se for teu pai.
Você tem que ter esse gato? Não acaricie ele tanto,
por que você não gosta de cães?
Nunca brinque de casinha, mesmo se você for o marido.
Pare de sair com aquele garoto, Henry, ele é muito pálido,
e eu não me importo como você chama
aqueles bonecos GI Joes dele…
são bonecas.
Não desenhe arco-íris ou flores ou pôr do sol.
Eu tô de olho em você…
Ainda melhor, não desenhe – nada de livros de colorir também.
Abandone seus lápis-crayons, suas comidinhas Play-Doh, seus Legos.
Onde estão seus HotWheels,
sua arma laser e algemas,
as facas que lhe dei?
Nunca empine pipa ou ande de patins, mas lance
quantos fogos de artifício você quiser,
mate todos os lagartos que você puder, corte minhocas –
alimente seu gato com elas.
Não se sente daquele jeito indiano, com as pernas cruzadas –
você não é indiano.
Pare de ficar fazendo barulho com suas sandálias –
você não é nenhuma menina.
Pelo amor de Deus, nunca faça xixi sentado.
Eu tô de olho em você…
Nunca tome banho de espuma ou lave o cabelo
com shampoo – shampoo é para as mulheres.
E também o condicionador.
E o mousse de cabelo.
E loção para as mãos.
Nunca lixe suas unhas ou use o secador de cabelos –
vá ao barbeiro com o seu avô –
você não é unissex.
Fique fora da cozinha. Os homens não cozinham –
eles comem. Coma o que você quiser, exceto:
ovos cozidos*
pirulitos
croissants (rosca? talvez.)
sanduíches de pepino
petit fours.
Não assista Bewitched ou I Dream of Jeannie.
Não olhe fixamente para The Six Million Dollar Man.
Eu tô de olho em você…
Nunca dance sozinho em seu quarto:
Donna Summer, Barry Manilow, Captain
and Tennille, Bette Midler, e todos os musicais –
proibidos.
Posters de gatinhos, Star Wars, ou da Torre Eiffel –
proibidos.
Esses livros chiques sobre arquitetura e arte –
eu os joguei no lixo.
Você não pode usar água de colônia ou conchas
e é melhor eu não te pegar com tamancos.
Se eu te ver com um rabo de cavalo – vou cortar fora.
O quê? Não, você não pode furar sua orelha,
lado esquerdo ou direito –
não me importa –
você não vai parecer uma maldita bicha
eu tô de olho em você…
mesmo se você for uma.

* devilled eggs

(tradução de jeff vasques)

Manifesto


Morreu ontem o escritor comunista, Pedro Lemebel, lutador ferrenho contra todas as opressões, em especial, a homofobia, ícone da contra-cultura chilena. Na foto, aparece com a foice e o martelo pintadas no rosto… foi assim que, num encontro clandestino de partidos de esquerda, durante a ditadura de Pinochet, de salto alto, leu o poema abaixo!

articles-83117_thumbnail
MANIFESTO
(FALO POR MINHA DIFERENÇA)

Pedro Lemebel (Chile, 1952-2014)

Não sou Pasolini pedindo explicações.
Não sou Ginsberg expulso de Cuba.
Não sou uma bicha disfarçada de poeta.
Não preciso de disfarces
aqui está minha cara
falo por minha diferença.
Defendo o que sou
e não sou tão esquisito.
Me repugna a injustiça
e suspeito dessa dança democrática.
Mas não me fale do proletariado
porque ser pobre e bicha é pior.
Há que ser ácido para suportar.
É ter que dar voltas nos machinhos da esquina
é um pai que te odeia
porque o filho desmunheca
é ter uma mãe de mãos marcadas pelo cloro
envelhecidas de limpeza
te ninando como doente
por maus modos
por má sorte
como a ditadura
pior que a ditadura
porque a ditadura passa
e vem a democracia
e logo depois o socialismo.
E então?
Que farão com nossos companheiros?
Irão nos amarrar às tranças em fardos
com destino a um sidário[2] cubano?
Irão nos enfiar em algum trem para parte alguma
como no barco do general Ibáñez [3]
onde aprendemos a nadar
mas ninguém chegou até à costa.
Por isso Valparaíso apagou suas luzes vermelhas.
Por isso as casas de caramba[4]
brindaram com uma lágrima negra
os carneiros comidos pelos caranguejos.
Este ano que a Comissão de Direitos Humanos
não lembra.
Por isso companheiro te pergunto
existe ainda o trem siberiano
da propaganda reacionária?
Esse trem que passa por suas pupilas
quando minha voz fala demasiado doce?
E você?
Que fará com essa lembrança de meninos
se tocando e outras coisas
nas férias de Cartagena?
O futuro será em preto e branco?
O tempo será noite e dia de trabalho
sem ambiguidades?
Não haverá uma bichona em alguma esquina
desequilibrando o futuro de seu novo homem?
Vão nos deixar bordar pássaros
nas bandeiras da pátria livre?
O fuzil eu deixo a você
que tem o sangue frio.
E não é medo.
O medo foi indo embora de mim
no bloquear de facadas
nos inferninhos sexuais onde andei.
E não se sinta agredido
se te falo dessas coisas
e te olho o volume.
Não sou hipócrita
acaso os peitos de uma mulher
não te fazem baixar a vista?
Você não acredita
que sozinhos na serra
algo se passaria entre nós?
Embora depois me odiasse
por corromper sua moral revolucionária.
Tem medo que se homessexualize a vida?
E não falo de te enfiar e tirar
e tirar e te enfiar somente
falo de ternura companheiro.
Você não sabe
como custa encontrar o amor
nestas condições.
Você não sabe
o que é carregar essa lepra.
As pessoas ficam à distância.
As pessoas compreendem e dizem:
é viado mas escreve bem
é viado mas é um bom amigo
super-boa-onda[5].
Eu não sou boa-onda.
Eu aceito o mundo
sem lhe pedir essa boa-onda.
Mas ainda assim riem.
Tenho cicatrizes de risos nas costas.
Você acredita que eu penso com o pau
E que à primeira parrillada[6] da CNI[7]
eu ia soltar tudo.
Não sabe que a hombridade
nunca a aprendi nos quartéis.
Minha hombridade me ensinou a noite
atrás de um poste.
Essa hombridade de que você se gaba
te enfiaram em um regimento
um milico assassino
desses que ainda estão no poder.
Minha hombridade não recebi do partido
porque me rechaçaram com risadinhas
muitas vezes.
Minha hombridade aprendi militando
na dureza desses anos
e riram da minha voz afeminada
gritando: vai cair, vai cair.
E embora você grite como homem
não conseguiu que caísse.
Minha hombridade foi amordaçada.
Não fui ao estádio
e me peguei nas porradas pelo Colo Colo[7].
O futebol é outra homossexualidade encoberta
como o boxe, a política e o vinho.
Minha hombridade foi morder as provocações
engolir a raiva para não matar todo mundo.
Minha hombridade é me aceitar diferente
ser covarde é muito mais duro.
Eu não dou a outra face
dou o cu companheiro
e esta é a minha vingança.
Minha hombridade espera paciente
que os machos fiquem velhos
porque a esta altura do campeonato
a esquerda entrelaça seu cu flácido
no parlamento.
Minha hombridade foi difícil
por isso não subo nesse trem
sem saber aonde vai.
Eu não vou mudar pelo marxismo
que me rechaçou tantas vezes.
Não preciso mudar
sou mais subversivo que vocês.
Não vou mudar somente
porque os pobres porque os ricos…
a outro cachorro com esse osso.
Tampouco porque o capitalismo é injusto
em Nova Iorque as bichas se beijam na rua
mas esta parte deixo para você
que tanto te interessa.
Que a revolução não se apodreça completamente.
A vocês entrego esta mensagem
e não é por mim
eu estou velho
e sua utopia é para as gerações futuras.
Há tantas crianças que vão nascer com a asinha quebrada
e eu quero que voem companheiro.
Que sua revolução
dê a eles um pedaço de céu vermelho
para que possam voar.
_________________

[1] Este texto foi lido como intervenção em um ato político da esquerda em setembro de 1986, em Santiago, Chile. Leia o poema original aqui: http://lemebel.blogspot.com.br/…/manifiesto-hablo-por-mi-di…

[2] Apesar de Sidario ser um nome próprio muito comum no Chile, o autor o usa como substantivo para denominar clínicas para tratamento de soropositivos. Cf.: livro de crônicas de Pedro Lemebel chamado “Loco afán: crónicas de sidariorio”, com textos que tratam, sobretudo, da marginalização de travestis e AIDS.

[3] Carlos Ibáñez del Campo reprimiu duramente os homossexuais sob seu governo… era comum soltar opositores de barco, com peso amarrado em seus pés, em alto mar

[4] Casas onde se cantam tonadillas. O termo alude à cantora tonadillera do século XVIII Maria Antónia Fernández, cujo apelido era Caramba.

[5] No original “buena-onda”, um trocadilho: alegre/ fresco.

[6] Prato típico chileno com diversos tipos de carne e frutos do mar, naturalmente no poema se trata de um trocadilho.

[7] CNI – Central Nacional de Informaciones de Chile – foi um organismo de inteligência do regime militar chileno. Criada em 1977, foi responsável por inúmeros casos de infiltração política, assassinatos, sequestros e tortura aos opositores do regime, além de estar relacionada ao roubo de banco e o tráfico de drogas e armas. Foi dissolvida em 1990, pouco antes do retorno da democracia. Muitos de seus agentes então foram realocados em outros cargos públicos, inclusive de segurança.

[8] Time de futebol chileno.

_________________________________________

(Tradução de Jeff Vasques, tendo por base tradução e notas de Nina Rizzi)

Etcétera


ETCÈTERA

(Ángela Figuera Aymerich, Espanha)

O pai trabalhava na mina.
A mãe trabalhava nas casas.
O menino andava pela rua
aprendendo boa conduta.

Ao fim da noite os três juntos
ao redor do jarro e da sopa.
O pai em seu legítimo direito,
tomava para si a melhor parte.
A mãe dava ao menino do seu.
O menino sorvia e terminava
pedindo chocolate ou tangerinas.
O pai lhe golpeava quatro gritos
(sempre bebia ao fim além da conta)
e logo falava mal do governo
e logo se deitava com as botas.
O menino dormia sobre o cotovelo.
A mãe o deitava os pescoções
e logo abria a torneira e reclamava,
que vida, Deus, esfregando as louças,
e logo falava mal do marido
e logo lhe lavava a camisa
e logo se deitava como é justo.

Bem de manhã no dia seguinte
o pai descia aos poços,
a mãe subia às casas,
o menino saía à rua.
Etcétera. Etcétera. Etcétera.

(Não sei porque comecei a contá-la.
É uma história chata
e todos sabem como acaba.)

Mahmoud Darwish (Palestina, 1941-2008)



Alguns dias atrás, conversava com uma querida amiga acerca de sua viagem a Israel, sobre o massacre e a humilhação cotidiana a que o povo palestino é submetido por Israel e sobre a resistência dos palestinos. Fiquei pensando cá com meus botões como conhecemos pouco a história dessas lutas e resistências. Imaginei que, certamente, deveria haver poesia da resistência palestina. E fui procurar, curioso por conhecer e por torná-las conhecidas. E fiquei bem feliz de encontrar muita coisa, muitos poetas lutadores palestinos: Hayil’Assaqilah, Mu’Ammar Hammuda Az-zaghbi, Fadwa Tuqan e muitos outros! Neste post, em específico, optei por falar de Mahmoud Darwish que é considerado o maior poeta da causa palestina.

Na época da Nakba (êxodo palestino de 1948), Darwish tinha sete anos. Fugiu com a sua família de Birweh, uma aldeia na Galiléia. A família voltou em 1949, correndo o risco de ser assassinada pelas milícias sionistas que impediam os palestinos de voltar às suas casas. O seu avô decidiu ir viver numa colina de onde se via a sua terra. Até morrer, o seu avô observou os imigrantes judeus do Iemen que viviam em sua casa, que ele nem sequer podia visitar. Darwish conquistou aos 12 anos a reputação de poeta precoce. Pediram-lhe, então, que escrevesse um poema para um recital público no “Dia da Independência” de Israel. O seu poema descrevia os sentimentos de uma criança que regressa à sua cidade para descobrir outras pessoas dormindo na sua cama e cultivando as terras do seu pai. Chamado pelo governo militar, disseram a Darwish que se ele continuasse a escrever material subversivo revogariam a autorização de trabalho do seu pai. Esse incidente marcaria Darwish para toda a vida.

Os seus poemas militantes definiram a existência palestiniana face à afirmação de Golda Meir (uma das fundadoras do Estado de Israel) de que “não há palestinos”. Entre 1961 e 1976, foi encarcerado cinco vezes. Israel acabaria por retirar de Darwish sua “cidadania” e ele passou a fazer parte da diáspora palestina (circulou pelo Egito, Jordânia e finalmente Líbano). Como membro do Partido Comunista israelita passou um ano estudando na União Soviética, onde ficou desiludido com o stalinismo.

Em 2002, o ministro israelita da Educação tentou que fossem introduzidos cinco poemas de Darwish num currículo escolar “multicultural”. Isso gerou um turbilhão de controvérsias no parlamento israelita, onde a proposta foi totalmente derrotada. Darwish comentou: “Eles ensinam aos estudantes que o país estava vazio. Se ensinassem os poetas palestinos, romperiam esse conhecimento. A maior parte da minha poesia fala do amor pelo meu país.” E acrescentou: “É difícil acreditar que o país militarmente mais poderoso do Médio Oriente seja ameaçado por um poema”. O governo israelita considerou, até ao fim, Mahmoud Darwish um perigoso inimigo.

Darwish foi o autor da Declaração de Independência Palestina, escrita em 1988 e lida pelo líder palestino Iasser Arafat quando declarou unilateralmente a criação do Estado Palestino.

“Bilhete de Identidade”, logo abaixo, é o seu poema mais famoso. Escrito em primeira pessoa, conta o momento em que um árabe fornece os números de seu documento em uma barreira israelense, na tentativa de retornar à sua terra. Escreveu 20 livros de poesia e foi traduzido em mais de 20 línguas.

BILHETE DE IDENTIDADE

Toma nota!
Sou árabe
O número do meu bilhete de identidade: cinquenta mil
Número de filhos: oito
E o nono… chegará depois do verão!
Será que ficas irritado?

Toma nota!
Sou árabe
Trabalho numa pedreira com os meus companheiros de fadiga
E tenho oito filhos
O seu pedaço de pão
As suas roupas, os seus cadernos
Arranco-os dos rochedos…
E não venho mendigar à tua porta
Nem me encolho no átrio do teu palácio.
Será que ficas irritado?

Toma nota!
Sou árabe
Sou o meu nome próprio – sem apelido
Infinitamente paciente num país onde todos
Vivem sobre as brasas da raiva.
As minhas raízes…
Foram lançadas antes do nascimento do tempo
Antes da efusão do que é duradouro
Antes do cipreste e da oliveira
Antes da eclosão da erva
O meu pai… é de uma família de lavradores
Nada tem a ver com as pessoas notáveis
O meu avô era camponês – um ser
Sem valor – nem ascendência.
A minha casa, uma cabana de guarda
Feita de troncos e ramos
Eis o que eu sou – Agrada-te?
Sou o meu nome próprio – sem apelido!

Toma nota!
Sou árabe
Os meus cabelos… da cor do carvão
Os meus olhos… da cor do café
Sinais particulares:
Na cabeça uma kufia com o cordão bem apertado
E a palma da minha mão é dura como uma pedra
… esfola quem a aperta
A minha morada:
Sou de uma aldeia isolada…
Onde as ruas já não têm nomes
E todos os homens… trabalham no campo e na pedreira.
Será que ficas irritado?

Toma nota!
Sou árabe
Tu saqueaste as vinhas dos meus pais
E a terra que eu cultivava
Eu e os meus filhos
Levaste-nos tudo excepto
Estas rochas
Para a sobrevivência dos meus netos
Mas o vosso governo vai também apoderar-se delas
… ao que dizem!

… Então

Toma nota!
Ao alto da primeira página
Eu não odeio os homens
E não ataco ninguém mas
Se tiver fome
Comerei a carne de quem violou os meus direitos
Cuidado! Cuidado
Com a minha fome e com a minha raiva!

(1964)
[Tradução de Júlio de Magalhães]

ELE É CALMO, E EU TAMBÉM

Ele é calmo,
E eu também.
Ele bebe chá de limão,
e eu bebo café.
(esta é a única coisa diferente entre nós)
Ele, como eu, usa uma camisa folgada básica
E eu olho, como ele, para uma revista mensal.
Ele não me vê enquanto eu o olho discretamente;
Eu não o vejo enquanto ele me olha discretamente.
Ele é calmo,
E eu também.
Ele pede algo ao garçom;
Eu peço algo ao garçom.
Um gato preto passa entre nós,
E eu toco sua noite de pêlos;
Ele toca sua noite de pêlos.
Eu não digo a ele: o céu está claro hoje,
mais azul;
Ele não me diz: o céu está claro hoje.
Ele é o visto e o que vê;
Eu sou o visto e o que vê.
Eu movo minha perna esquerda;
Ele move sua perna direita;
Eu balbucio a melodia de uma canção;
Ele balbucia a melodia de uma canção.
Eu penso: Ele é o espelho onde eu me vejo?
Então eu olho direto em seus olhos, e eu não o vejo.
Eu deixo o Café com pressa,
Eu penso: talvez ele seja um assassino,
ou talvez ele é apenas um homem passando
e eu sou um assassino.

(tradução minha do inglês)

CONFISSÃO DE UM TERRORISTA

Ocuparam minha pátria
Expulsaram meu povo
Anularam minha identidade
E me chamaram de terrorista

Confiscaram minha propriedade
Arrancaram meu pomar
Demoliram minha casa
E me chamaram de terrorista

Legislaram leis fascistas
Praticaram odiada apartheid
Destruíram, dividiram, humilharam
E me chamaram de terrorista

Assassinaram minhas alegrias,
Seqüestraram minhas esperanças,
Algemaram meus sonhos,
Quando recusei todas as barbáries

Eles… mataram um terrorista!

NÃO ME CANSO DE FALAR

Não me canso de falar sobre a diferença ténue entre as
mulheres e as árvores,
sobre a magia da terra, sobre um país cujo carimbo não
encontrei em nenhum passaporte.
Pergunto: Senhoras e senhores de bom coração, a terra
dos homens é, como vós afirmais, de todos os homens?
Onde está então o meu casebre? Onde estou eu? A
assembleia aplaudiu-me
durante três minutos, três minutos de liberdade e de
reconhecimento… A assembleia acaba de aprovar
o nosso direito ao regresso, como o de todas as galinhas e
todos os cavalos, a um sonho de pedra.
Aperto-lhes a mão, um a um, depois faço uma saudação,
inclinando-me… e continuo a viagem
para outro país, onde falarei sobre a diferença entre
miragens e chuva.
E perguntarei: Senhoras e senhores de bom coração, a
terra dos homens é
de todos os homens?

ÁRVORE DOS SALMOS

No dia em que minhas palavras forem terra…
Serei um amigo para o perfilhamento do trigo
No dia em que minhas palavras forem ira
Serei amigo das correntes
No dia em que minhas palavras forem pedras
Serei um amigo para represar
No dia em que minhas palavras forem uma rebelião
Serei um amigo para terremotos
No dia em que minhas palavras forrem maças de sabor amargo
Serei um amigo para o otimismo
Mas quando minhas palavras se transformarem em mel…
Moscas cobrirão
Meus lábios!…

(Traduzido por Fabio Vieira)

Solano Trindade, o poeta negro


Aproveitando o embalo do post anterior, resgato outra matéria que fiz, só que, desta vez, para outro jornal, o “Mea Boca”, ótimo jornal, também de vida curta, do CALL (Centro Acadêmico de Letras e Linguística da Unicamp). É uma matéria sobre um poeta e artista brasileiro fantástico, mas terrivelmente esquecido: Solano Trindade. Lembro que na época, só consegui ter acesso a seus livros de poesia através de sua filha, Raquel, também fantástica artista popular. O texto é longo (novamente), mas vale a pena conhecer este que cumpriu no Brasil um papel muito similar ao do Nicomedes Santa Cruz, no Peru: de resgatar a força e a beleza da cultura negra. Ao final, um vídeo com sua filha Raquel declamando o famosíssimo “Tem gente com fome” que chegou a ser musicado pelos Secos & Molhados.

O Poeta NEGRO

“A leitura dos seus versos deu-me confiança no poeta que é capaz de escrever Poema do Homem e O Canto dos Palmares. Há nesses versos uma força natural e uma voz individual, rica e ardente, que se confunde com a voz coletiva.”
[ Carlos Drumond de Andrade, em carta a Solano, 02/12/1944 ]

Ele foi operário, comerciário, funcionário público, jornalista, poeta, cineasta, pintor, homem de teatro e um dos maiores animadores culturais brasileiros do seu tempo. Foi premiado no exterior e elogiado por celebridades como Carlos Drummond, Darcy Ribeiro, Otto Maria Carpeaux, Sérgio Milliet e tantos outros. Esse negro (e pobre) escritor recifense está hoje esquecido nos círculos culturais, apesar de tudo o que fez pela cultura brasileira, pelo resgate da arte popular e pela independência da cultura negra. Esquecido justamente porque fez dos seus versos, como de toda sua arte, “uma arma, um toque de clarim, que desperta as energias, levanta os corações, combate por um mundo melhor.”, nas palavras do sociólogo francês Roger Bastides. Este artista simples e contundente, genial e pobre, crítico e negro ainda não foi digerido por nossa inteligentsia. Nós, brancos, porque na universidade somos todos brancos, reverenciamos agora este negro poeta negro.

“Ainda sou poeta
meu poema
levanta os meus irmãos.
Minhas amadas
se preparam para a luta,
os tambores
não são mais pacíficos
até as palmeiras
têm amor à liberdade”.
(trecho do poema “Canto dos Palmares”)

O palco é Recife, 1908, apenas vinte anos após a abolição da escravidão. Ali, no humilde bairro de São José, no dia 24 de julho, enquanto seu pai batia sola e sua mana pisava milho no pilão para o angu das manhãs, nascia, co´a alma batizada pelos tambores, atabaques, gonguês e agogôs, o negro Francisco Solano Trindade.
Considerado por vários críticos o criador da poesia assumidamente negra no Brasil, Solano Trindade nasceu imerso na cultura popular pernambucana, fortemente marcada pelas raízes negras. Desde criança acompanhava seu pai, o sapateiro e cômico Manuel Abílio, nas danças do Pastoril e do Bumba-meu-boi e lia, a pedido de sua mãe Emerenciana, quituteira e operária, novelas, literatura de cordel e poesia romântica. O primeiro encontro sistemático de Solano com a poesia surgiu quando freqüentava a igreja presbiteriana. Logo, seus primeiros versos tratavam de assuntos religiosos. Algum tempo depois, rompeu com a acomodação da igreja em relação aos problemas sociais citando uma passagem do evangelho de João: “quem não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê”.

A década de 1930 no Brasil é marcada por uma releitura da questão racial brasileira, especialmente depois que Gilberto Freyre lança seu “Casa Grande & Senzala”. Intelectuais brancos tendem a valorizar a contribuição cultural dos descendentes africanos. Com esse cenário montado, em 1934, Solano, que desde cedo buscava compreender sua identidade e raízes, organiza o I e II Congressos Afro-Brasileiros no Recife e em Salvador. Funda ainda o Centro Cultural Afro-Brasileiro e a Frente Negra Pernambucana, uma extensão da Frente Negra Brasileira. Por essa mesma época publica os seus “Poemas Negros”.

Estátua de Solano Trindade em Recife-PE

POEMA AUTOBIOGRÁFICO

“Quando eu nasci,
Meu pai batia sola,
Minha mana pisava milho no pilão,
Para o angu das manhãs…
Portanto eu venho da massa,
Eu sou um trabalhador…

Ouvi o ritmo das máquinas,
E o borbulhar das caldeiras…
Obedeci ao chamado das sirenes…
Morei num mucambo do “”Bode””,
E hoje moro num barraco na Saúde…

Não mudei nada…”

Na década de 1940, depois de deixar o Recife, Solano fixa residência no Rio de Janeiro. Na cidade maravilhosa, frequentava o Café Vermelhinho onde se reuniam intelectuais, políticos e artistas. Ali era amigo de pessoas como o Barão de Itararé e Santa Rosa. Em meio a essa efervescência cultural, Solano funda o comitê Democrático Afro-Brasileiro, o Teatro Folclórico Brasileiro, lança, no auditório da UNE, a Orquestra Afro-Brasileira e cria o Teatro Experimental do Negro (TEN). Durante a estréia no Rio, em maio de 1945, o TEN sofreu violentos ataques dos conservadores. Em editorial, o jornal O Globo chegou a afirmar que se tratava de “um grupo palmarista tentando criar um problema artificial no País” referindo-se ao racismo que segundo o jornal não existia no Brasil. Para Darcy Ribeiro o TEN foi “um núcleo ativo de conscientização dos negros, para assumirem orgulhosamente sua identidade e lutar contra a discriminação”.

“A minha poesia continuará com o estilo do nosso populário, buscando no negro o ritmo, no povo em geral as reivindicações sociais e políticas e nas mulheres, em particular, o amor. Deixem-me amar a tudo e a todos”. (Solano)

Mais tarde (1950), Solano concretizou um dos seus grandes sonhos, fundando, com apoio do sociólogo Edson Carneiro, o Teatro Popular Brasileiro (TPB), cujo elenco era formado por operários, domésticas, comerciários e estudantes. O TPB apresentava espetáculos de batuques, congadas, caboclinhos, capoeira, coco e outras manifestações populares, viajando por toda a Europa. Em 1955 criou o Brasiliana, grupo de dança brasileira que bateu recorde de apresentações no exterior. Realizou ainda em Praga o documentário “Brasil Dança”.

Núcleo de Teatro Experimental do Negro-SP (1951) / Diretor Solano Trindade

OLORUM ÈKE **

“Olorum Ekê
Olorum Ekê
Eu sou poeta do povo
Olorum Ekê

A minha bandeira
É de cor de sangue
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Da cor da revolução
Olorum Ekê

Meus avós foram escravos
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Eu ainda escravo sou
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Os meus filhos não serão
Olorum Ekê
Olorum Ekê”

** Olorum Ekê: “povo do Santo forte”, termo Iorubá.

De volta ao Brasil, Solano vem a São Paulo e é convidado pelo escultor Assis para apresentar-se no Embu. Leva todo o seu grupo. Dormem no barracão de Assis nos finais de semana, quando mostram sua arte para multidões. Solano apaixona-se pelo Embu, muda-se para lá e sua casa torna-se uma núcleo artístico. É a atividade de Solano e do escultor Assis que faz surgir a feira de artesanato e revoluciona o local, fazendo do Embu “das Artes”, como passou a ser conhecido, um centro de cultura popular. Depois que Embu passou a ser atração mais turístico-comercial que artística, deixa a cidade e vai viver na capital paulista.

Como ator, trabalhou nos filmes “Agulha no Palheiro”, “Mistérios da Ilha de Vênus”, “Santo Milagroso” e “A hora e a vez de Augusto Matraga” e mais: foi co-produtor do filme “Magia Verde”, premiado em Cannes. No teatro, foi Solano Trindade quem primeiro encenou (1956) a peça “Orfeu da Conceição”, de Vinícuis de Morais, depois transformada em filme pelo francês Marcel Cammus com o nome de “Orfeu Negro”.

Solano construía, de forma indissociável sua vida política e sua veia artística. Possuía a felicidade dos homens que se dedicam a uma grande obra e se confundem com ela. Essa era sua ética, sua vida, sua luta, mais do que uma estética. Filiado ao Partido Comunista, Solano Trindade promovia reuniões da célula Tiradentes na sua própria casa. Durante a perseguição aos “vermelhos”, empreendida pelo governo Dutra, invadem sua casa. A polícia vira o colchão, à procura de armas. Exemplares de seus livros são apreendidos e o “Poemas de uma Vida Simples” é tirado de circulação. A filha Raquel lembra: “Papai jamais esconderia armas. Sua luta era feita com idéias”. Preso, por causa do poema “Tem gente com fome”, Solano não se abala. Raquel e a mãe, Margarida, percorrem as cadeias até encontrá-lo. Quando sai, Solano parece fortalecido. Embora tenha olhos tristonhos, seu otimismo é contagiante, nasce do seu amor pela arte e pela vida. Continua escrevendo, fazendo teatro e espalhando sonhos e esperanças por onde passa. Em 1964, um dos seus quatro filhos (Francisco) é assassinado numa prisão da didatura militar.

NEM SÓ DE POESIA VIVE O POETA **

“Nem só de poesia vive o poeta
há o “fim do mês”
o agasalho
a farmácia
a pinga
o tempo ruim, com chuva
alguém nos olhando
policialescamente
De vez em quando
um pouco de poesia
uma conta atrasada
um cobrador exigente
um trabalho mal pago
uma fome
um discurso à moda Ruy
E às vezes uma mulher fazendo carinho
Hoje a lua não é mais dos poetas
Hoje a lua é dos astronautas.”

** poema inédito até 2008, quando foi revelado por sua filha Raquel.

No início da década de 70, após o esvaziamento do Teatro Popular Brasileiro, Solano como sempre pobre e agora doente passa por vários hospitais. No dia 20 de fevereiro de 1974, o poeta morre como indigente, num hospital no Rio de Janeiro. Sua obra é reconhecida por poucos assim como sua morte, a ponto de sua produção sequer passar pelos portões das universidades, como acontece aqui na Unicamp. A literatura negra não tem “espaço” para estar nas salas de nosso instituto de letras: quantos negros temos no IEL? Quantos se interessariam? Em toda a Unicamp existe um único livro de Solano (no Instituto de Artes!)… doado pela própria filha, Raquel.

O reconhecimento de Solano vem mesmo do povo com quem lutou, vem do povo para quem se entregou. Em 1976, foi tema da escola de samba Vai-Vai, com enredo elaborado por sua filha. Os versos do samba ainda ecoam: “Canta meu povo, vamos cantar em homenagem ao poeta popular Vai-Vai é povo, está na rua saudoso poeta, a noite é sua.” Um das poucas tentativas de trazer de volta o nome de Solano Trindade para o grande público ocorreu entre 1975, quando o poema “Tem Gente com Fome” iria integrar o disco dos Secos & Molhados. Mas, como explicou João Ricardo (que musicou o poema), problemas com a censura impediram a gravação. Só na década de 80, Ney Matogrosso gravaria a canção.

A poesia de Solano o marcou. Orgulhava-se ser chamado de “poeta negro”. Foi comparado a importantes escritores como o cubano Nicolas Guilhén – de quem foi amigo – e o americano Langston Hughes. A fala poética de Solano Trindade, que não se afasta do realismo ingênuo e da solidão da vida cotidiana do povo, é sempre dominada pela intuição e fascinada pelo delírio da alma coletiva que canta com ternura e nobreza. Sua poesia enreda-se, quase sempre de maneira direta a um tema essencial: o anseio de liberdade tão próprio de sua etnia e tão latente em sua classe social, onde o poeta assume sem indiferença a sua circunstância em relação ao mundo.

As palavras escritas num poema à filha Raquel se tornariam proféticas: “Estou conservado no ritmo do meu povo. Me tornei cantiga determinadamente e nunca terei tempo para morrer.”

GRAVATA COLORIDA

“Quando eu tiver bastante pão
para meus filhos
para minha amada
pros meus amigos
e pros meus vizinhos
quando eu tiver
livros para ler
então eu comprarei
uma gravata colorida
larga
bonita
e darei um laço perfeito
e ficarei mostrando
a minha gravata colorida
a todos os que gostam
de gente engravatada…”

Raquel, Unicamp e Urucungos

Em 1988, Raquel Trindade foi convidada para lecionar na Unicamp, mesmo não tendo diploma universitário. Os conhecimentos transmitidos pelo pai ilustre e a luta contra a discriminação racial bastaram para que ela desse aulas de folclore, teatro negro e sincretismo religioso. “Quando cheguei lá”, conta Raquel “só tinha um negro na turma de graduação. Aí eu pedi à Universidade para que fosse criado um curso de extensão para que eu pudesse ensinar folclore à comunidade negra e às outras graduações”.

Na primeira turma de extensão universitária houve 170 inscritos para ouvir sobre folclore nacional e cultura negra. Para Raquel, samba precisa ser ensinado, sim. “Há coisas que as pessoas precisam saber. Precisa falar dos escravos de Campinas, da Fazenda Barão Geraldo, da Santa Genebra, Rio das Pedras. Lá, os escravos faziam rodas de samba de bumbo nas horas vagas. Precisa contar a história da dança, também. Nas Escolas Lavapés e Vai-Vai, o samba era dançado mais nos quadris do que nos pés. O samba de agora é todo copiado do Rio de Janeiro”.

A partir da procura pelo curso que passou a ministrar na Unicamp, a folclorista teve a idéia de criar o grupo Urucungos, puítas e quinjengues. Esses são nomes de instrumentos bantos que foram trazidos pelos escravos para São Paulo. “O Urucungo é composto de negros da comunidade, de funcionários da Unicamp, alunos e professores”. A maior parte das danças do grupo foram pesquisadas e criadas por Raquel. O grupo existe até hoje. Raquel parou de lecionar na Unicamp pois não agüentou o preconceito academicista que exigia saberes “diplomados” e “certificados”.

“Tem gente com fome” de Solano lido por sua filha Raquel

Nicomedes Santa Cruz (Peru)

Hoje, fui filmar uns depoimentos no acampamento Elizabeth Teixeira do MST, na região de Campinas-Limeira, prum documentário que estou fazendo. Entrevistei o Ari, liderança da região. Já o conhecia de outras “atividades” do MST, mas nunca havia realmente conversado com ele. Putz! Que pessoa fantástica… tão simples e humilde e, ao mesmo tempo, figura inteligentíssima e muito sensível… sua inteligência não é daquelas típicas que estou acostumado a encontrar na universidade, mas daquela inteligência de minério temperado na terra, de lâmina que se vai afiando, lentamente, com as pedras do caminho. Fala com uma eloquência tranquila, sempre antenado ao contexto, procurando sacar os porquês da filmagem, o público, a inserção do filme, pra assim ajustar a linguagem, o discurso… Acabada as entrevistas, começamos um bate-papo informal… diz ele ter cursado até a 8a série, o que me espantou, pois me falava de suas leituras sobre os clássicos da filosofia política (Maquiavel, Hobbes, Marx…). Logo vc percebe que não foi da escola que ele tirou sua fome de entender o mundo, mas das contradições do seu caminhar coletivo. Na ação-conjunta de transformar o mundo é que foi sentindo a necessidade concreta de saber mais. É quando conhecimento deixa de ser acúmulo de informação, eruditismo, e torna-se o ar necessário da prática.

Foi com o Ari, hoje, que tive uma das conversas mais interessantes e agradáveis da minha vida sobre poesia… no meio da conversa, começou a declamar poemas de Castro Alves (um trecho do Navio Negreiro, em especial, que falava de como a luta contra mostros embrutece, me emocionou, pois há pouco conversávamos com uma acampada que nos dizia como o povo do acampamento andava mais isolado, tava perdendo a unidade do início). Pra minha mais apaixonante surpresa declamou, também, poemas do Augusto dos Anjos, um poeta difícil e não tão lembrado e pouco compreendido pelo qual sou fascinado! De quebra, conversando sobre a poesia de luta, me apresentou alguns poetas que desconhecia, dentre eles Nicomedes Santa Cruz, poeta peruano. Ah, que delícia! Seguem, abaixo, tra(b)duções de alguns poemas do peruano e uma entrevista que Nicomedes, que também foi jornalista, fez a Victor Jara.

Fiquei de levar, depois, pro Ari uma coletânea das tra(b)duções que tenho feito de poetas lutadores da América Latina… conversando com ele, ficou mais concreta a relevância de se ter um livro assim, pra militância, que apresente os poetas revolucionários de nossa Pátria Grande, o que me deu mais ânimo para acelerar minhas tra(b)duções!

Nicomedes Santa Cruz (Peru)

Nicomedes Santa Cruz Gamarra (1925-1992) foi poeta, cantor, pesquisador da cultura popular e jornalista, além de apresentador de rádio e televisão. É o representante máximo da negritude no Peru por ser o primeiro poeta a tratar do tema do negro ressaltando a importâncio do afro-peruano no desenvolvimento histórico do país. Interessante notar que ele cumpre um papel no Peru muito similar ao que cumpriu o artista negro Solano Trindade no Brasil: ambos trabalhando com a poesia negra, valorizando as raízes africanas, desenvolvendo trabalhos de teatro-dança resgatando e divulgando a cultura negra.

Nicomedes entrevista Victor Jara

A transcrição dessa entrevista pode ser encontrada em espanhol aqui! Dois meses depois dessa entrevista, Victor seria assassinado no golpe que derrubou o governo de Allende no Chile. Destaque para o trecho em que Victor e Nicomedes falam da necessidade de uma música que supere a canção de mobilização (panfletária), que permita que o trabalhador descubra a si mesmo em sua relação com seu companheiros de classe. O vídeo mostra um conjunto de fotos de Nicomedes e Jara bem legal.

Ritmos Negros do Peru (Nicomedes Santa Cruz)

Ritmos da escravatura
Contra amarguras e penas.
Ao compasso das correntes
Ritmos negros do Peru.

Da África chegou minha avó
vestida com “caracoles”/pixains**,
a trouxeram os espanhóis
em uma caravela.
A marcaram com candeia,
a carimba** foi sua cruz.
E na América do Sul
ao golpe de suas dores
deram os negros tambores
ritmos da escravatura

Por uma moeda só
a revenderam em Lima
e na Fazenda “La Molina”
serviu à gente espanhola.
Com outros negros de Angola
ganharam por sua labuta
pernilongos para suas veias
para dormir duro solo
e nadinha de consolo
contra amarguras e penas…

Na plantação de cana
nasceu o triste refúgio,
na venda de rum
o negro cantou a “zaña”**.
O facão e a foice
curtiram suas mãos morenas;
e os índios com suas quenas
e o negro com tamborete
cantaram sua triste sorte
ao compasso das correntes.

Morreram os negros velhos
mas entre a cana seca
se escuta seu “zambacueca”**
e o “panalivio”** ao longe.
E se escutam os festejos
que cantaram em sua juventude.
De Cañete a Tombuctú,
De Chancay a Mozambique
levam seus claros repiques
ritmos negros do Peru.


** “caracoles”: pelo que pesquisei poderia ser tanto o babado de alguma vestimenta como o pelo encaracolado, que traduzi como pixaim.
** “carimba”
: os negros eram marcados com um ferro chamado de “carimba”; “carimba!” também é uma interjeição de desgosto.
**”zaña”: O canto dos negros escravos do povoado de Zaña da província de Chiclayo cantavam nos galpões em que viviam depois da colheita agrícola para descansar e dormir. Seu canto foi proibido por senhores patrões por sua mensagem anticlerical e contestatória da escravidão, no século XVII.
**”zambacueca”: estilo musical e bailado de pares soltos, em que se representa o assédio amoroso de uma mulher por parte do homem. Faz alusão ao assédio similar entre galos e galinhas. Deriva da mestiçagem da música e dança trazidos por ciganos, escravos e negros de angola entre os séculos 16 e 17.
**”panlivio”: é o nome que se dá a uma canção-lamento criada pelos escravos da Costa peruana no século XVII para expressar os maus-tratos que sofriam.


Escute:

Amércia Latina (Nicomedes Santa Cruz)

Meu Camarada
Meu sócio**
Meu irmão

Parceiro
Camará**
Companheiro

Minhas pernas
Meu filhinho
Campesino…

Aqui estão meus vizinhos.
Aqui estão meus irmãos.

As mesmas caras latinoamericanas
de qualquer ponto da América Latina:

Índiobranquinegros
Branquinegríndios
e Negríndiobrancos

Louros beiçudos
Índios barbudos
e negros alisados

Todos se queixam:
-Ah, se em meu país
não houvesse tanta política…!
-Ah, se em meu país
não houvesse gente paleolítica…!
-Ah, se em meu país
não houvesse militarismo,
nem oligarquía
nem chauvinismo
nem burocracia
nem hipocrisia
nem clerezia
nem antropofagia…
-Ah, se em meu país…!

Alguém pergunta de onde sou
(Eu não respondo o seguinte):

Nasci perto de Cuzco
admiro a Puebla
me inspira o rum das Antilhas
canto com voz argentina
creio em Santa Rosa de Lima
e nos Orixás da Bahia
Eu não colori meu Continente
nem pintei de verde o Brasil
amarelo Peru
vermelha Bolívia

Eu não tracei linhas territoriais
separando irmão de irmão.

Pouso a testa sobre Río Grande
me afirmo pétreo sobre o Cabo de Hornos
afundo meu braço esquerdo no Pacífico
e submerjo meu direito no Atlântico.

Pelas costas do oriente e ocidente
duzentas milhas entro à cada Oceano
submerjo mão e mão
e assim me aferro à nosso Continente
em um abraço Latinoamericano.

**”socio” talvez pudesse ser melhor traduzido como “parceiro”, mas como ele utiliza “aparcerado” logo abaixo, optei por um outro sentido possível de “socio” que é “sócio” mesmo…
**a palavra original é “camarado” pra qual não existe tradução… é “camarada” aplicada ao homem…

A noite

Nessas doze horas em que somos as costas do mundo
naquele diário eclipse
eclipse de povos
eclipse de montes e desertos/”páramos”
eclipse de humanos
eclipse de mar
o negro tinge à Terra metade da cara
por mais que se ponha luz artificial

negrura de sombra
sombra de negrura
que ninguém assombra
e a tudo perdura

escura a Espanha
e claro o Japão
escura Caracas
e claro Cantão
e sempre girando à Leste
aqui enegrece
lá está celeste

essa sombra imensa
essa sombra eterna
que teve começo no começo do começo
rotativo eclipse
eclipse total
pede aos humanos um solene rito
que é horizontal

e cada doze horas que chega me alegro
porque meio mundo está negro
e nele não cabe distinção racial.

Casa das Américas

Sabia que existia no IEL (instituto de estudos da linguagem da unicamp) a revista Casa das Américas, que é uma organização cubana muito porreta que existe desde a revolução e que promove a cultura latino-americana… Seus prêmio literários lançaram diversos artistas porretas como Roque Dalton (traduzido aqui neste blog) e Eduardo Galeano. Fui procurar no acervo e descobri que o IEL tem essa revista arquivada desde a década de 60!!!! Aaaahhhhh! Agora vou eu, aos poucos e desesperado, lendo uma por uma e traduzindo coisas aqui pra vocês… este primeiro que traduzo é o Nelson Simon, um dos expoentes da poesia homoerótica de Cuba! É! Isso mesmo! Poesia homoerótica em Cuba: vanguardíssima! 😉

RAGAZZO

A palavra “ragazzo” não tem tradução:
aprendi isso debaixo da luz intensa do verão de Roma,
ainda fascinado pelo mármore piedoso
da fonte de Trevi; enquanto percorria
– invisível e absorto – Piazza Venezia.

Perdido na conversação sem sentido
que sustentam os turistas; cansado
de admirar os estragos do tempo
que faz pó da carne e silêncio da pedra,
me sentei em um banco
a ver como a tarde descia até Trastevere.
Com ela, envolta em suas favas, ia minha alma,
e alguma ilusão vã como o país do qual havia chegado.
(Por então havia compreendido que a ilha
sempre falará de doermos como um cardo, que, pobre
se crava em nosso peito.)

A palavra “ragazzo” não tem tradução:
não a busque em vão nos dicionários,
não pergunte por seu significado nem nas praças mais nobres,
nem nas sórdidas tavernas onde o fumo do tabaco
e o odor da cerveja se entrecruzam como um cisne invisível
que te empurra até a tentação.
Os sensuais muchacos de La Habana,
abertamente tristes com suas praias,
nunca poderão ser nomeados com a palavra “ragazzi”.
Os alegres chicos de Andaluzia, com lábios
que se oferecem qual carnosas olivas,
nunca vão rir com a doce perversidade
de um ragazzo. Os modernos jovens de Nova York,
com seus músculos perfeitos como o aço que sustenta sua cidade
não podem abraçar com essa paixão antiga,
mescla de sangue
e lírio tostado pelo sol mediterrâneo,
que arrastam os ragazzi.

O “ragazzo” se sentou a meu lado num simples banco da Piazza Venezia,
e a cidade de Roma, até então só esplendor de ruínas e de sonhos,
foi outra de repente. Teve o mistério e o glamour
que eu havia imaginado pra ela.
Falou e apenas pude compreender
ao estender sua mão, firme como as pontes que atravessamos,
que me convidava a andar,
quando junto a tarde descemos até o Trastevere.
Vimos passar os botes e algum pássaro cinza, qual fantasmas românticos.
Sentimos em nós o aroma culpado dos homens
que antes se haviam amado junto às calmas águas.
Nunca deixei sua mão. Nunca disse seu nome nem quis lhe perguntar.
Pode chamar-se Adriano, Fabrizzio, Giuseppe, ou Giuliano:
nomes que sempre deixariam sua música no esmalte de meus dentes.
Seu perfil me acompanha ainda como as imagens desses jarros
que vi nos museus. Sua boca me segue recordando
a lua atada sobre o Trastévere. Seu cabelo descuidado,
seu corpo perfeito e disposto
só podem caber nessa palavra intraduzível: “ragazzo”.
Eu aprendi aquela tarde o que já Pasolini
havia visto nos “pepillos” romanos,
o que o fazia viver, cada noite, à borda do abismo,
sempre dentro do punho pálido e sedutor da morte.