Há um poema


HÁ UM POEMA

Há um poema que me busca há muito tempo.
Suspeito que já estivemos, sem nos ver, nos mesmos lugares,
e não é improvável que tenhamos amado, alguma vez, a mesma mulher,
que juntos tenhamos rido muito de nada, destinos,
ou que tenhamos perdido alguns cabelos pelos mesmos sofrimentos.
Há um poema que me busca há muito tempo,
e não se cansa,
e este dura já 34 anos.

(Luis Rogelio Nogueras, Cuba, trad. Jeff Vasques)

Roque Dalton presente!


Roque-Dalton

Hoje, 14 de maio de 2015, Roque Dalton, um dos maiores-poetas lutadores da América, faria 80 anos, e aqui celebramos sua vida e sua poesia com a tradução de seu poema “Canto a nossa posição”. Roque foi assassinado há 40 anos atrás, no dia 10 de maio, por seus próprios companheiros de partido, motivados por sua postura não dogmática, profundamente questionadora e rebelde. Apesar de sua enorme influência na poesia e inspiração na luta revolucionária, continua um quase desconhecido no Brasil. Roque Dalton presente!!!

“Roque Dalton era um homem que aos quarenta anos dava a impressão de um menino de dezenove. Tinha algo de criança, condutas de criança, era travesso, brincalhão. Era difícil saber e se dar conta da força, da seriedade e da eficácia que se escondiam detrás desse rapaz.” (Júlio Cortázar)

“Ninguém menos solene que Roque Dalton, ninguém mais capaz de fazer rir até nas horas negras, mais disposto a aventurar-se de peito aberto contra o perigo…” (Eduardo Galeano)

Ouça o poema “À Roque” feito por Mario Benedetti: https://www.youtube.com/watch?v=7eCwVeZLXQc

CANTO A NOSSA POSIÇÃO
(Roque Dalton, El Salvador, 1935-1975)
a Otto René Castillo

Nos perguntam os poetas de pavorosos bigodes,
os acadêmicos empoeirados, amigos das aranhas,
os novos escritores assalariados,
os que suspiram para que a metafísica dos caracóis
lhes cubra a impudicícia:

Que fazeis vós de nossa poesia açucarada e virgem?
Que, do suspiro atroz e dos cisnes puríssimos?
Que, da rosa solitária, do abstrato vento?
Em que grupo os classificaremos?
Em que lugar os enquadraremos?

E não dizemos nada.

E não dizemos nada.
E não dizemos nada.

Porque ainda que não digamos nada,
os poetas do hoje estamos em um lugar exato:
estamos
no lugar em que nos obrigam
a estabelecer o grito.
(Ah, como dou risadas dos antigos poetas
obstinados em vendar seus olhos
e em untar de pétalas e de passarinhos famélicos
a corcunda da dor desconcertante
que se monta sólida
em cima do ombro positivo universal
desde o primeiro amanhecer e do primeiro vento,
e que se esqueceram do homem)
Estamos
no lugar exato que a noite precisa
para ascender à aurora.
(Muitos poetas inclinaram suas insônias antigas
sobre a fácil almofada azul da tristeza.
Construíram cidades e astros e universos
sobre a anatomia medíocre
de um ninho de manequins cristalinos
e exilaram a voz elementar
em planos altíssimos, desnudados
da raiz vital e da esperança.
Mas se esqueceram do homem)
Estamos
no lugar onde se gesta definitivamente
a alegria total que se atará à terra.
(Ai, poetas,
Como pudestes cantar vergonhosamente
as abstratas rosas e a lua brilhante
quando se caminhava paralelamente ao litoral da fome
e se sentia a alma sepultada
de baixo de um vulcão de chicotes e cárceres,
de patrões bêbados, de gangrenas
e de obscuros desperdícios de vida sem estrelas?
Gritastes alegria
sobre um amontoado de cadáveres,
cantastes a plumagem mimada
e as cidades cegas
à toda sorte de tísicas amantes;
mas se esqueceram do homem)
Estamos
no lugar onde começa o estaleiro
que vai inundar os mares com sorrisos lançados.

(Ai, poetas que esquecestes do homem,
que esquecestes
de como doem as meias rasgadas,
que esquecestes
do final dos meses dos inquilinos,
que esquecestes
do proletário que ficou na esquina
com um bocejo eterno inacabado,
cheio de balas e sem sangue,
cheio de formigas e definitivamente sem pão,
que esquecestes
das crianças doentes sem brinquedos,
que esquecestes
do modo de tragar das mais negras minas,
que esquecestes
da noite de estréia das prostitutas,
que esquecestes dos choferes de taxi vertiginosos,
dos ferroviários
dos operários dos andaimes,
das repressões assassinantes
contra o que pede pão
para que não se morram de tédio
os dentes na boca,
que esquecestes
de todos os escravos do mundo,
ai, poetas,
como me doem
vossas estaturas inúteis!)

Estamos no lugar em que se encontra o homem.
Estamos no lugar em que se assassina o homem,
no lugar
em que os poços mais negros se submergem no homem.
Estamos com o homem
porque antes muitíssimo antes que poetas
somos homens.
Estamos com o povo,
porque antes, muitíssimo antes que maritacas alimentadas
somos povo.
Estamos com uma rosa vermelha entre as mãos
arrancada do peito para oferecê-la ao homem!
Estamos com uma rosa vermelha entre as mãos
arrancada do peito para oferecê-la ao homem!
Estamos com uma rosa vermelha entre as mãos
arrancada do peito para oferecê-la ao Povo!
Estamos com uma rosa vermelha entre as mãos
arrancada do peito para oferecê-la ao Povo!

(tradução de Jeff Vasques | para mais poesias de Dalton: https://eupassarin.wordpress.com/tag/roque-dalton/)

Outras poesias de Juan Gelman


Poemas que traduzi de Juan Gelman (Argentina).

LIMITES

Quem disse alguma vez: até aqui a sede,
até aqui a água?

Quem disse alguma vez: até aqui o ar,
até aqui o fogo?

Quem disse alguma vez: até aqui o amor,
até aqui o ódio?

Quem disse alguma vez: até aqui o homem,
até aqui não?

Só a esperança tem os joelhos nítidos.
Sangram.

O JOGO EM QUE ANDAMOS

Se me permitissem escolher, eu escolheria
esta saúde de saber que estamos muito doentes,
esta felicidade de andarmos tão infelizes.
Se me permitissem escolher, eu escolheria
esta inocência de não ser um inocente,
esta pureza em que ando impuro.
Se me permitissem escolher, eu escolheria
este amor com que odeio,
esta esperança que come pãos desesperados.
Aqui se passa, senhores,
que me juegoaposto a morte.

Confianças

senta-se à mesa e escreve
“com este poema não tomarás o poder” diz
“com estes versos não farás a revolução” diz
“nem com milhares de versos farás a revolução” diz

e mais: esses versos não vão servir para que
peões professores lenhadores vivam melhor
comam melhor ou ele mesmo coma viva melhor
nem para apaixoná-la servirá

não ganhará dinheiro com eles
não entrará no cinema grátis com eles
não lhe darão roupa por eles
não conseguirá tabaco ou vinho por eles

nem papagaios nem cachecóis nem barcos
nem touros nem guarda-chuvas conseguirá por eles
se contar com eles a chuva o molhará
não alcançará perdão ou graça por eles

“com este poema não tomarás o poder” diz
“com estes versos não farás a revolução” diz
“nem com milhares de versos farás a revolução” diz
Senta-se à mesa e escreve

 

 

 

XCI

toda poesia é hostil ao capitalismo
pode tornar-se seca e dura mas não
porque seja pobre mas
para não contribuir com a riqueza oficial

pode ser sua maneira de protestar de
tornar-se magra já que há fome
amarela de sede e sofrida
de pura dor que há pode ser que

ao contrário abra os becos do delírio e as bestas
cantem atropelando-se vivas de
fúria de calor sem destino pode
ser que se negue a si mesma como outra

maneira de vencer a morte
assim como se chora nos velórios
poetas de hoje
poetas deste tempo

nos separaram do rebanho não sei que será de nós
conservadores comunistas apolíticos quando
aconteça o que vai acontecer mas
toda poesia é hostil ao capitalismo.

 

Por que cantamos

Por que cantamos – Mario Benedetti

Se cada hora vem com sua morte
se o tempo é um covil de ladrões
os ares já não são tão bons ares
e a vida é nada mais que um alvo móvel

você perguntará por que cantamos

se nossos bravos ficam sem abraço
a pátria está morrendo de tristeza
e o coração do homem se fez cacos
antes mesmo de explodir a vergonha

você perguntará por que cantamos

se estamos longe como um horizonte
se lá ficaram as árvores e céu
se cada noite é sempre alguma ausência
e cada despertar um desencontro

você perguntará por que cantamos

cantamos porque o rio esta soando
e quando soa o rio / soa o rio
cantamos porque o cruel não tem nome
embora tenha nome seu destino

cantamos pela infância e porque tudo
e porque algum futuro e porque o povo
cantamos porque os sobreviventes
e nossos mortos querem que cantemos

cantamos porque o grito só não basta
e já não basta o pranto nem a raiva
cantamos porque cremos nessa gente
e porque venceremos a derrota

cantamos porque o sol nos reconhece
e porque o campo cheira a primavera
e porque nesse talo e lá no fruto
cada pergunta tem a sua resposta

cantamos porque chove sobre o sulco
e somos militantes desta vida
e porque não podemos nem queremos
deixar que a canção se torne cinzas.

Lira Moderna

LIRA MODERNA

ô,
minha
musa…

te juro!
palavra!

isto
não é
poesia…

magina!

É cantada!

Da Crise

Lênin
se indagava
“Que fazer?”

Hoje
é só lástima…
“Fazer o quê?”

Vertentes do Socialismo (versão didática)

1. Socialismo já!
2. Socialismo já já…
3. Socialismo já já jaz.

“Assim a poesia não se cantará em vão”


A querida amiga Ana Elisa, que compartilha o teto comigo, me trouxe do Chile um pequeno livrinho com o discurso proferido por Pablo Neruda ao receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1971. Pablo era embaixador do Chile que vivia um período conturbado de ataques ao governo de esquerda de Allende. Abaixo, traduzo alguns trechos que me chamaram a atenção.

Trechos do discurso de Pablo Neruda ao receber o Nobel

(…)

“De tudo isso, amigos, surge um ensinamento que o poeta deve aprender dos demais homens. Não há solidão inexpugnável. Todos os caminhos levam ao mesmo ponto: à comunicação do que somos. E é preciso atravessar a solidão e a aspereza, a falta de comunicação e o silêncio para chegar ao recinto mágico em que podemos dançar torpemente ou cantar com melancolia; mas nessa dança ou nessa canção estão consumados os mais antigos ritos da consciência; da consciência de ser homem e de crer em um destino comum”

(…)

“O poeta não é um ‘pequeno deus’. Não, não é um ‘pequeno deus’. Não está marcado por um destino cabalístico superior ao de quem exerce outros ofícios. Sempre digo que o melhor poeta é o homem que nos entrega o pão de cada dia: o padeira mais próximo, que não se crê deus. Ele cumpre sua majestosa e humilde trabalho de amassar, meter no forno, dourar e entregar o pão de cada dia, com uma obrigação comunitária. E se o poeta chega a alcançar essa simples consciência, poderá também a simples consciência converter-se em parte de uma artesania colossal, de uma construção simples ou complicada, que é a construção da sociedade, a transformação das condições que rodeiam o homem, a entrega da mercadoria: pão, verdade, vinho, sonhos. Se o poeta se incorpora a essa nunca gasta luta por consignar cada um em mãos dos outros sua ração de compromisso, sua dedicação e ternura ao trabalho comum de cada dia e de todos os homens, o poeta tomará parte no suor, no pão, no vinho, no sonho da humanidade inteira. Só por esse caminho inalienável de ser homem comum chegaremos a restituir à poesia o amplo espaço que lhe vão retirando em cada época, que lhe vamos retirando em cada época nós mesmos.”

(…)

“Nos vemos indefectivelmente conduzidos à realidade e ao realismo, ou seja, a tomar consciência direta do que nos rodeia e dos caminhos da transformação, e logo compreendemos, quando parece tarde, que construímos uma limitação tão exagerada que matamos o vivo em vez de conduzir a vida a desenvolver-se e florescer. Nos impomos um realismo que posteriormente nos resulta mais pesado que o ladrilho das construções, sem que por isso tenhamos erigido o edifício que contemplávamos como parte integral de nosso dever. E em sentido contrário, se alcançamos a criar o fetiche do incompreensível (ou do compreensível para uns poucos), o fetiche do seleto e do secreto, se suprimimos a realidade e suas degenerações realistas, nos veremos logo rodeados de um terreno impossível, de um atoleiro de folhas, de barro, de nuvens, em que se fundem nossos pés e nos afoga uma incomunicação opressiva.”

(…)

“Estendo estes deveres do poeta, na verdade ou no erro, até suas últimas consequências, decidi que a atitude dentro da sociedade e ante a vida devia ser também humildemente partidária. O decidi vendo gloriosos fracassos, solitárias vitórias, derrotas deslumbrantes. Compreendi, metido no cenário das lutas da América, que minha missão humana não era outra senão agregar-me com sangue e alma, com paixão e esperança, porque só dessa torrente repleta podem nascer os caminhos necessários aos escritores e aos povos. E ainda que minha posição levantasse ou levante objeções amargas ou amáveis, o certo é que não há outro caminho para o escritor de nossos amplos e cruéis países, se queremos que floresça a obscuridade, se pretendemos que os milhões de homens que ainda não aprenderam a nos ler nem a ler, que todavia não sabem escrever nem escrever-nos, se estabeleçam no terreno da dignidade sem a qual não é possível ser homem integral.”

(…)

“Eu escolhi o difícil caminho de uma responsabilidade compartilhada e, antes de reiterar a adoração do indivíduo como sol central do sistema, preferi entregar com humildade meu serviço a um considerável exército que por períodos pode se equivocar, mas que caminha sem descanso e avança cada dia enfrentando tanto aos anacrônicos recalcitrantes como aos vaidosos impacientes. Porque creio que meus deveres de poeta não só me indicavam a fraternidade com a rosa e a simetria, com o exaltado amor e com a nostalgia infinita, senão também com as ásperas tarefas humanas que incorporei a minha poesia.”

“Estes poetas são meus”


Poeta-lutador uruguaio Ibero Gutierrez


Traduzo este poema de Mario Benedetti em homenagem ao poeta-lutador uruguaio Ibero Gutierrez e vários outros poetas-lutadores que assumiram a árdua tarefa de ser artista-em-luta. Dedido este poema também a poeta colombiana Angye Gaona, que vem sendo perseguida pelo governo colombiano por crimes que não cometeu. Aproveito para agradecer a irmá de Ibero, Sara Gutierrez, que me brindou com material muito bonito sobre a obra de Ibero (que era artista plástico também). Como já disse Pedro Tierra no belo poema “Há um lugar na barricada”: “Se entre os companheiros ainda / há quem pergunte a razão / dos poetas, // encontra, primeiro, teu lugar na / barricada, depois, entre os combatentes,/ aponta / o rosto enérgico de tua poesia”. O caminho dos poetas-lutadores e dos artistas-em-luta, no geral, não é fácil até porque muitas vezes são mal vistos pelos próprios companheiros de luta… mas esses são essenciais tanto pra compreensão concreta e profunda do espírito de uma época, quanto pra vislumbrar o novo…

ESTES POETAS SÃO MEUS – MARIO BENEDETTI

“Estes poetas são meus”
Carlos Drummond de Andrade

Roque leonel ibero rigoberto
ricardo paco otto-rené javier
quantas vezes e em quantas reuniões e assembléias
os terão (mal) tratado de pequeno-burgueses
terão ficado sozinhos com seu antigo costume
de raciocionar / ou a sós com o rigor científico
a sós com um impulso moral / a sós em uma
solidão não querida nem buscada
a sós com seus amores ao próximo à próxima
com a preocupação de que os segregavam
sozinhos para entender tudo e a todos

quantas vezes e em quantas esperanças ou rotas
terão andado tateando a relâmpagos
deixando repousar o tempo da poesia
eles infatigáveis rebentando-se
sabendo que não eram os pequenos burgueses
que os rudes companheiros diziam

que não eram os frouxos os livrescos
olhando-se no espelho até desentranhá-lo
como narcisos nunca / olhando-se autocríticos
jamais desalentados / tratando de encontrar
o resquício a brecha o abrigo o mérito
de ser como os outros ou algo assim

quantas vezes e em quantos cochilos insones
terão considerado a pena ou o atalho
de apagar a poesia / de apagar-se
como poetas / apagar o modesto delírio
e juntar as palavras voláteis
e transformá-las por outras as concretas
e revolucionar as vinte e quatro horas
e por-se no esquema e abandonar os tropos
e andar ao mesmo passo / nadar o mesmo rio
e fabricar assim a infundada esperança
de serem iguais aos outros / serem
igualmente julgados e medidos

quantas vezes e em quantas lagoas e memórias
terão querido ser / luz vermelha / terra verde
e compartilhar a luta em pedacinhos
aprender sangue a sangue o alfabeto
qual se não o soubessem / desde baixo
arder na bondade elementar
sentir a fúria como um calafrio
continuar o amor sem os alertas
companheríssimos nas difíceis
joviais nas fáceis
igualmente medidos e julgados

mas um dia uma noite uma qualquercoisa
arriscaram o corpo a miséria os versos
souberam de repente que a lei era velha
que os suaves poetas ainda que se esgoelem
ainda que vençam o vento e a lua
dispõem de uma só ocasião decisiva
a fim de que os rudes queridos companheiros
admitam que nem sempre / mas às vezes /
esses da palavra esses de calma em germe
podem ser valorosos como um sonho
leais como um rio
fortes como um imã
o grave é que sua única ocasião
é morrer
uma forma talvez de desmorrer-se
defendendo uma causa pela que outros
não precisariam morrer para serem aceitos
para serem abraçados e acreditados.

quantas vezes e em quantas substancias e cegueiras
terão insistido na candura
e buscado argumentos com raiva / resistido
para apontar o inimigo / o chumbo
que vinha no ar aniquilando
matando desmintindo desabrigando ardendo
e terão desesperado a esperança
de encurralar a confiança ou de inspirá-la

e no entanto / logo / em um segundo
em uma eucaristia de tiros
na revelação das explosões
na tortura sem promessa e última
em um instante breve como um trago
sem argumentos / sem palavras / ternos
tristíssimos finalmente e desapegados
nesse instante que não tem fim
desfeitos e refeitos de coragem
explodidos de fé / mortos de pena
deixaram de aspirar quando o lampejo
quando o sabor final e o vislumbre
quando mudaram a tênue amargura
de pequeno burguês pela de mártir.

A Rosa Blindada I


A “Rosa Blindada” é o nome de um importante livro de poesias do poeta argentino Raúl González Tuñón. Neruda chegou a dizer que Tuñon foi o primeiro a “blindar a rosa”, ou seja, o primeiro de toda uma geração a defender a poesia como uma arma de luta. Estou traduzindo os prólogos que o próprio Raúl fez a seu livro, onde faz interessante debate sobre a poesia revolucionária, tema que me interessa justamente pela antologia de poesias revolucionárias que estou organizando e traduzindo. Em breve continuo com as outras partes do prólogo

A nós a poesia

(prólogos do livro “A Rosa Blindada” de Raúl Tuñon)

“Sem compreender claramente que só com a assimilação completa da cultura criada por todo o desenvolvimento da humanidade se pode organizar uma cultura proletária, não conseguiremos esse objetivo”…”Devemos por em primeiro lugar a instrução e a educação pública mais ampla. Isto criará um terreno favorável à cultura, com a condição, naturalmente, de solucionar o problema do pão. Sobre este terreno deve nascer realmente uma nova arte comunista que criará a forma que corresponde a seu conteúdo.” Lenin
Vamos desde uma arte sem travas, desde a autêntica arte pura, passando pela arte revolucionária primeiro e pela arte proletária depois.

**

O poeta se dirige à massa. Se a massa não entende totalmente é porque, desde já, deve ser elevada ao poeta. Não se trata de nivelar a todos, pela revolução, à fome e à incultura senão à comodidade e à cultura.

Agora bem, existe uma massa a que o poeta pode dirigir-se e cumprir sua missão principal. Está composta por operários que puderam alcançar certos elementos de cultura; por operários nos quais a sensibilidade, o instinto poético supre a falta desses elementos; por intelectuais, artistas, jornalistas, pintores, maestros, estudantes que desejam a transformação da sociedade, que abundam e que são também massa.

O poeta não deve, pois, renunciar a ser poeta, mas isto não quer dizer que renuncie a ser homem. Em uma época como a que vivemos, intensa, dramática, de negação e criação, o poeta deve estar ao serviço dos outros. Se é um poeta autêntico fará isso sem o definhamento dos valores poéticos esenciais.
Devemos temer o caos nós, poetas, nós, pensamento militante? E o caos atual? De outra forma será difícil que a nós nos aturda o primeiro tapa brutal da revolução. Sergio Esenin e Vladimir Maiakowski sucumbiram, se eliminaram porque, finalmente, o tapa os aturdiui. Apesar de haver aderido a revolução a abandonaram para morrer voluntariamente. Mas eles estavam no entanto, e apesar deles, com um pé na burguesia. Haviam conhecido seu veneno. Deve-se recordar que outros poetas que sempre haviam sido revolucionários, sucumbiram também porque acreditaram que a revolução ia consagrá-llos imediatamente, dar-lhes em seguida todos os elementos. Uns e outros não compreenderam que o que estava acontecendo na Rússia era maior que eles e maior que a poesia mesma ou a poesia mesma!

Nós teremos a sorte de recebir a revolução cantando, depois de haver cantado e desejado, sem descuidar da técnica e sem deixar de haver intervindo mais ou menos concretamente na luta.

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Ainda que de extração social operária não tenho a pretensão de ser um poeta proletário. Por outra parte não há poetas proletários nos países burgueses. Talvez não os haja todavia na Rússia porque como já disse Lenin a arte proletária deverá nascer da cultura proletária, e esta por sua vez, da revolução em grau avançado. Mas há uma arte revolucionária que corresponde ao período pré-revolucionário. E se uma pretensão tenho é a de ser um poeta revolucionário, a de haver abandonado essa espécie de virtuosismo burguês decadente, não para cair na vulgar crônica grosseira que pretende ser clara e direta e resulta tola, senão para vincular minha sensibilidade e meu conhecimento da técnica do ofício aos feitos sociais que sacodem o mundo. Sem que o político menospreze ao artístico ou viceversa, confundindo, de forma melhorada, ambas realidades em uma.

Não por isso creio haver resolvido todos os problemas que a questão arte-política me há apresentado, mas sim os fundamentais. Nesse sentido o discurso de Gide no Congreso de Escritores e os pensamentos de Lenin a respeito me serviram muito assim como a leitura recente do livro de Benjamín Goriely Os poetas na revolução Russa, que recomendo aos camaradas que não o conheçam. Adiro ao discurso “Defesa da Cultura” porque Gide comprendeu – e era lógico – os problemas que a pre-revolução coloca ao artista e os problemas que a revolução coloca ao artista. Porque declara que os intelectuais, se são auténticos, por compreensão de sua função histórica e se querem conservar a herança cultural e defender a dignidade do pensamento, devem estar com a revolução. Porque exige uma arte de oposição. Porque assinala ao mesmo tempo o perigo que significa encarar o problema arte-política de uma maneira simplista. Porque afirma seu individualismo e diz que, precisamente por ser individualista se sente profundamente comunista porque somente a sociedade comunista pode oferecer ao individuo todos os elementos para seu desenvolvimento sem travas das diferenças de classe, da injustiça social. Porque afirma sua condição de francês e diz que precisamente por ser nacional se sente profundamente internacional. Porque declara que se há artistas grandes que não podem comunicar-se com o povo é essa uma das causas pelas quais é imperiosa a necessidade de elevar ao povo a arte e a cultura e isso só poderá conseguir-se com a transformação da sociedade.

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Creio que a poesía revolucionaria é autêntica:
1º Quando poesia e revolução se confundem, são consubstanciais, como no caso de Brecha, Gold, Alberti, Aragón, etc., e, no passado, como no caso de Heine (Os tecedores de Silesia). Ou seja, não menosprezando a poesia em si, fazendo-a perdurável por seu conteúdo estético pralém de seu conteúdo humano. Porque ainda quando as condições sociais de vida dos tecedores de Silésia tenham mudado, o alto dramatismo poético subsiste, a poesia subsiste.

2º Quando o conteúdo social corresponde à nova técnica. Não se trata de negar o proceso poético que, como o pictórico, teve suas etapas criadoras maravilhosas – nas quais, detalhe importante, nunca a arte esteve desvinculada do feito social- mas resulta absurdo compor hoje poemas presos a esta ou aquela regra formal.

3º Mas não há que confundir técnica nova com ocultismo poético, travessuras gramaticais, etc., ou poemas sem ritmo (que podem ser feitos quando o tema o exija como em meu poema “O pequeno cemitério fusilado”, ainda que o ritmo exista aqui como a água dentro da rocha). Porque, geralmente, essa atitude poética que foi uma reação saudável contra o academismo, esta concorrendo com esse ritmo de marcha, de hino – para cantar– que deve ter quase sempre o poema revolucionário. Chamo “técnica nova” ao conhecimiento e à superação de todas as técnicas, à desenvoltura que nos dá esse conhecimento, à liberdade de tons, ritmos, imagens, palavras e ao que sempre tiveram os poetas de cada época criadora, ao que segue a linha poética que nasceu com a primeira palavra pronunciada pelo homem na terra: à personalidade de um poeta.

Poesia Trunca


Estou aqui com um sorriso bobo no rosto, abraçado a dois livros fantásticos que chegaram hoje, encomendas que fiz pela estante virtual. Um deles é o “Camarim de Prisioneiro”, 2o e último livro do fantástico poeta-guerrilheiro brasileiro Alex Polari. O livro é da 1a edição de 1980 e veio com dedicatória irreverente, marca do autor: “Pra Daniel e pra Cida com um abraço sem imaginação para dedicatórias” =)

E o segundo livro, motivo deste post, é o “Poesia Trunca” uma coletânea de poetas revolucionários da América Latina organizada por Mario Benedetti. Há algum tempo estava atrás desse livro, porque quero ainda este ano publicar uma antologia semelhante a partir de traduções de poetas-lutadores que venho fazendo há algum tempo… portanto, ter acesso a seleção do Benedetti seria muito importante! E finalmente encontrei o livro disponível na Estante Virtual, um único exemplar! Comprei no ato! E pra minha alegria desmedida, o livro veio com dedicatória do próprio punho do Benedetti para o Ignácio de Loyola Brandão!!!! =)

A coletânea é de 77 e foi impresso pela Casa das Américas, importante organização cultural cubana que vem até hoje promovendo a unidade da cultura latinoamericana. Ou seja, o livro veio de cuba, passou pela mão de Benedetti que o deu para Ignácio de Loyola que por algum motivo se desfez dele e agora está em boas mãos! =)

Eis a lista de poetas revolucionários ou revolucionários poetas presentes na coletânea: Che Guevara, Juan Oscar Alvarado, Otto René Castillo, Edwin Castro, Roque Dalton, Mónica Ertl, Argimiro Gabaldón, Raúl Gómez García, Agustín Gómez, Ibero Gutiérrez, Javier Heraud, Victor Jara, Rony Lescouflair, Rigoberto López Pérez, Carlos Marighella, Ricardo Morales, Roberto Obregón,. Frank País, Néstor Paz Zamora, Leonel Rugama, Aldo Sá Brito, Luiz Saíz, Sergio Saíz, Jorge Salerno, Edgardo Tello, Francisco Urondo, Rita Valdivia, Jacques Viau.

Eu não conheço diversos desses poetas, o que me dá um ânimo fantástico de mergulhar na leitura! Certamente, se Benedetti tivesse conhecido à época a poesia de Alex Polari (das melhores que já li de todos os poetas-lutadores que venho conhecendo) teria certamente o incluído nessa coletânea.

Segue abaixo a tradução de alguns trechos da interessante apresentação do livro feita pelo próprio Benedetti. Também descobri que Benedetti gravou um DVD em que lê diversas poesias desse livro. Para quem quiser baixá-lo, basta clicar aqui.

PRÓLOGO – POESIA TRUNCA – MARIO BENEDETTI

Esta é uma antologia muito particular, já que inclui vinte e oito poetas latinoamericanos que deram suas vidas pela causa revolucionaria. A maioria deles morreu em plena juventude (alguns saíam apenas da adolescência), e aqueles poucos que já eram homens maduros, estiveram tão consubstanciados com o espírito libertário e com os afãs de justiça da juventude, que a decisão de incluí-los neste volume não só não contradiz, senão afirma a intenção de homenagem ao XI Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes que ocorrerá em Havana em 1978.

Alguns destes poetas revolucionários morreram em combate ou cumprindo uma missão insurrecional; outros, na prisão ou na tortura; houve aqueles que desapareceram em alguma emboscada e nunca mais se soube deles; outros, cujos cadáveres apareceram crivados ou mutilados por esqudrões da morte ou comandos paramilitares; alguns foram assassinados quando estavam desarmados ou ainda quando dormiam. Todos eram militantes revolucionários e, portanto, haviam assumido seu compromisso, aceitando o risco de morrer pela causa e pela pátria que defendiam. Quiçá uns foram revolucionários que, além de tudo, escreviam versos, enquanto outros eram poetas que, além de tudo, lutavam pela revolução. Aqui, no entanto, estão todos juntos, porque quando se entrega a vida, as outras matizes e prioridades se diluem nesse grande holocausto.

O volume inclui poetas da Argentina, Bolívia, Brasil, Cuba, Chile, El Salvador, Guatemala, Haiti, Nicarágua, Perú, República Dominicana, Uruguai e Venezuela. (…)

Cada vez fica mais claro que se o escritor abandona sua atitude contemplativa para jogar-se por seu povo, ou seja, se sente-se efetivamente parte do mesmo, também correrá os riscos que o povo corre em todas suas lutas. Os países latinoamericanos em que foram tomadas as mais duras medidas contra a cultura, são precisamente aqueles onde essa mesma cultura, por seu desenvolvimento progressivo, por seu labor persuasivo, por sua dimensão massiva, foi adquirindo uma função de esclarecimento ideológico e de mobilização política contra a estrutura capitalista.

Mariano Rodríguez, José M. Rodríguez (Pirole), Haydée Santamaría (fundadora da Casa das Américas), Mario Benedetti. [foto de Pedro Meyer ©]

Enquanto a cultura é um luxo, um elemento decorativa – ainda que às vezes rebelde – da burguesia, é tolerada por diversos tipos de repressão, tantos os de tipo nacional como os de assessoria estrangeira. Inclusive cai bem que os salões burgueses acolham escritores e artistas conhecidos, seja para exibí-los como personagens insólitos, e outras vezes como simples púcaros ou floreadores. Mas quando a cultura começa a chegar paulatinamente a cada vez mais setores do povo, a sensibilizar a opinião pública, a desmascarar hipocrisias, a assinalar responsáveis, a mobilizar rebeldias, ou seja, quando a cultura adquire uma vigência massiva e esclarecedora, então as forças regressivas arremetem contra ela com a mesma ferocidade que contra qualquer outro setor que se alce contra a oligarquia e contra o poder colonial.

O imperialismo sabe melhor que ninguém (as vezes melhor que o próprio artista) que se bem a arte por si só não derruba tiranias nem muda as estruturas, tem sido, não obstante, através da história um elemento nada desprezível em sua capacidade de converter em imagens, em cor, em pensamento certeiro, certos princípios regentes dos povos. Quando as mais obscuras forças da reação chegam a esse convencimento em determinado momento de uma transformação possível, então não vacilam em pagar um evidente preço político en sua arremetida contra os criadores e as formas de arte.

(…)

Ainda que limitado a um só gênero (a poesia), este volume é também uma mostra dessa busca (busca de nossa própria expressão), e um testemunho acerca do fervor com que esses poetas a levaram a cabo. No entanto, convém esclarecer que a política não é o único tema que estes poetas revolucionários alegeram. Algo que certa vez expressei com respeito a poesia de Ibero Gutierrez (totalmente inédita no momento em que é massacrado pela Esquadrão da Morte, em Montevideu), poderia ser estendido aos demais poetas: “Só uma parte (e não a maior) de seus poemas, são políticos. O resto são poemas de amor, alguns deles estupendos, ou observações líricas ante certas perplexidades próprias ou alheias, ou metáforicos diálogos com seu complicado ambiente […] Essa bondade, essa preocupação pelo próximo, essa esperança incólume, que estão presentes nos poemas, são uma comovedora mostra da riqueza interior de um revolucionário. Nós mesmos às vezes perdemos de vista esse nível humano, que não por humano deixa de ser político senão que é mais político que nunca.”

(…)

Por todo o exposto, esta não é uma antologia tradicional. A chamamos de Poesia Truncada (“Poesia Trunca”, pode-se também traduzir por Poesia Mutilada, Interrompida…) porque todos esses poetas revolucionários e revolucionários poetas estavam em plena produção, uns gerando poesia, outros gerando revolução, e outros mais, ambas as coisas de uma vez. É truncada, ainda, porque todos eles eram suficientemente jovens, ou juvenilmente maduros, como para que possamos considerá-los poetas em pleno desenvolvimento. A morte interrompe, parte essa evolução, mas não a rompe. A vida do poeta pode ser despedaçada, mas a obra, truncada mas intacta, fica, e ao final se converte em sua vida. E até pode seguir crescendo, sempre e quando novos jovens se acerquem dessa poesia interrompida, a envolvam com sua própria juventude, a continuem com sua própria vida em revolução. Oxalá que esta antologia facilite essa continuidade.

Maus tempos para a poesia


Maus tempos aqui pra postar no blog… mudanças gerais, mudança de casa, de ares, abrindo portas e janelas e tem ainda a qualificação… correria demais pra conseguir postar algo… mas, passado o carnaval (pro qual estava me guardando 😉 voltamos a normalidade passarinheira!

MAU TEMPO PARA A POESIA (BRECHT)

Sim, eu sei: só o homem feliz
É querido. Sua voz
É ouvida com prazer. Seu rosto é belo.

A árvore aleijada no quintal
Indica o solo pobre, mas
Os passantes a maltratam por ser um aleijão
E estão certos.

Os barcos verdes e as velas alegres da baía
Eu não enxergo. De tudo
Vejo apenas a rede partida dos pescadores.
Por que falo apenas
Da camponesa de quarenta anos que anda curvada?
Os seios das meninas
São quentes como sempre.

Em minha canção uma rima
Me pareceria quase uma insolência.

Em mim lutam
O entusiasmo pela macieira que floresce
E o horror pelos discursos do pintor.
Mas apenas o segundo
Me conduz à escrivaninha.

(Brecht; poemas – 1913-1956. Trad. Paulo Cesar Souza. Brasiliense, 1986. p. 229.)