Os policiais e os guardas

OS POLICIAIS E OS GUARDAS
(poeta guerrilheiro Roque Dalton, El Salvador, 1935-1975)

Sempre viram o povo
como um montão de costas que corriam pra longe
como um campo para deixar cair com ódio os cassetetes.

Sempre viram o povo com o olho de afinar a pontaria
e e entre o povo e o olho
a mira da pistola ou a do fuzil.

(Um dia eles também foram povo
mas com a desculpa da fome e do desemprego
aceitaram uma arma
um cassetete um soldo mensal
para defender os que causam fome e aos que desempregam).

Sempre viram o povo aguentando
suando
vociferando
levantando cartazes
levantando os punhos
e também dizendo-lhes:
“Cachorros filhos da puta o dia de vocês vai chegar!”

(E cada dia que passava
eles acreditavam ter feito um grande negócio
ao trair o povo do qual nasceram:
“O povo é um monte de fracos e sem vergonhas -pensavam-
que bem fizemos ao passarmos para o lado dos vivos e dos fortes”).

E então era só apertar o gatilho
e as balas iam da margem dos policiais e guardas
contra a margem do povo
assim iam sempre
de lá pra cá
e o povo caía sangrando
semana após semana ano após ano
quebrados seus ossos
chorando pelos olhos de mulheres e crianças
fugia espantado
deixava de ser povo para ser tropel vermelho
desaparecia na forma como cada um se salvava
para sua casa e logo nada mais
só os bombeiros lavando o sangue das ruas.

(Os coronéis acabavam de os convencer:
“É isso homens -lhes diziam-
duro e na cabeça com os civis
fogo com o populacho
vocês também são pilares uniformizados da Nação
sacerdotes de primeira linha
no culto à bandeira ao escudo ao hino aos próceres
à democracia representativa ao partido oficial e ao mundo livre
cujos sacrifícios não esquecerá a gente decente deste país
ainda que hoje não possamos subir vosso soldo
como é nosso desejo”).

Sempre viram o povo
franzido no quarto das torturas
pendurado
espancado
fraturado
inchado
asfixiado
violado
furado com agulhas nos ouvidos e nos olhos
eletrocutado
afogado em urina e merda
cuspido
arrastado
soltando fumaça em seus últimos restos
no inferno da cal viva.

(Quando resultou morto o décimo Guarda Nacional. Morto pelo povo
e o quinto rato bem esmagado pela guerrilha urbana
os ratos e os Guardas Nacionais começaram a pensar
sobre tudo até porque os coronéis já mudavam de tom
e a cada fracasso jogavam a culpa
aos “elementos da tropa tão moles que temos”).

O fato é que os policiais e os guardas
sempre viram o povo de lá pra cá
e as balas só caminhavam de lá pra cá.

Que pensem muito…
que eles mesmos decidam se é muito tarde
pra buscar a margem do povo
e disparar dali
ombro a ombro
junto conosco.

Que pensem muito…
mas, enquanto isso,
que não se mostrem surpreendidos
nem ponham essa cara de ofendidos,
hoje, quando algumas balas
começam a chegar até eles vindas deste lado
de onde segue o mesmo povo de sempre
só que a esta altura já estufa o peito
e traz cada vez mais fuzis.

(tradução de Jeff Vasques | mais poesias: facebook/eupassarin)

[foto de origem desconhecida]

Balada do soldado e do policial


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Diante da violência da polícia nos atos mundiais e também aqui, no Brasil, na luta pela redução do preço da passagem do ônibus, vale lembrar deste poema de Guillén, musicado por Adolfo Celdrán:

BALADA DO POLICIAL E DO SOLDADO

(Nicolás Guillén, Cuba, 1902-1989)

Soldado de traje amarelo,
policial de azul cáqui;
mão cega, surdo brilho:
pau e fuzil.

Sobre as ruas desnudas,
fosca noite sem astros
envolve duas sombras rudes
de olhos ferozes.

O fuzil, aço mal,
grita, se a luz lhe dá;
sobre as pedras, o pau
grunhe: tra, tra!

(O soldado foi torneiro;
o policial, sapateiro.)

Ah, soldado, meu soldado,
como podes escapar?
Os torneiros que te buscam
pronto te vão a encontrar!
Policial,
onde fostes parar?
Os sapateiros perguntam
por teu feroz avental!

Passos na rua escura
onde a dupla está.
Grita o fuzil com voz dura:
– Alto! Quem vem lá?
– Vai um torneiro,
que anda atrás de seu companheiro;
venho porque quero te falar…
-Não é torneiro, que é soldado
grita o fuzil sem compaixão,
e depois cospe irado:
– Vá p’atrás!

Passos na rua escura
onde a dupla está.
Grita o pau com voz dura:
– Alto! Quem vem lá?
– Sapateiro,
aqui está teu companheiro;
venho, porque quero te falar…
Mas o pau grita feroz:
– Tome! Tome! Tome e tome!
Avise se quiser mais;
tombe por aí e não incomode.
– Vá p’atrás!

Silêncio. Mas depois
da noite desce um canto
como uma lua de fel:
“Torneiros, muito cuidado,
que agora é soldado o torneiro;
soldado de corpo inteiro
e vão vendados os olhos.
Sapateiro, policial,
veja que já se faz dia
e estás de uniforme novo!”

(Tadução de Jeff Vasques)

Nascimento Volátil – Angye Gaona


Essa é a capa do livro “Nascimento Volátil” da poeta colombiana Angye Gaona, que será lançado no Festival de Cultura da Fábrica Ocupada Flaskô! A Angye continua ameaçade de 20 anos de prisão pelo goverto ditatorial da Colômbia. Seu “crime” é apoiar a luta dos trabalhadores e dos presos políticos. O lançamento desse livro é uma importante iniciativa do selo CEMOP de Arte e Cultura da Flaskô. A tradução é minha e as ilustrações são do Batata! Assim que tiver o dia certinho do lançamento, posto aqui!

Para que esse Festival aconteça com toda sua força ele precisa de seu apoio político e financeiro! Ajude! Clique no link abaixo e colabore! SOLIDARIEDADE DE CLASSE PARA UMA CULTURA DE CLASSE!

http://catarse.me/pt/projects/811-3-festival-flasko-fabrica-de-cultura — com Denis Forigo e 16 outros.

Não mais presos políticos na Colômbia


Neste domingo, 03/junho, das 16h às 23h, no ECLA (Espaço Cultural Latino-Americano – Rua Abolição, 244, Bixiga, SP), ocorrerá o ato-político cultural em solidariedade ao povo colombiano, a seus presos políticos e à poeta Angye Gaona, ameaçada de 20 anos de prisão por afirmar a liberdade e se posicionar ao lado dos trabalhadores.

Para entender melhor a situação da colômbia, clique aqui!
Tragam músicas, poesias, cenas!

FALA O VULCÃO

(Angye Gaona, poeta ameaçada de prisão por defender a liberdade e os trabalhadores da Colômbia)

Milhares de perguntas ardem
debaixo da terra,
preparam a erupção.

Já fervem, já se sacodem;
de combate provocadas,
pronto falam as crateras,
estão por surgir.

Mãos são e nas montahas se alçam,
mãos de magma tomam as estâncias.
Não ficam em pé trono
nem possessão nem usura alguma.

Sonham as perguntas,
estalos nos tímpanos oficiais.
Se recordam os nomes fustigados,
os desmembrados insepultos,
ocultos debaixo do lodo impune.
Se avivam os nomes nas vozes;
podem desmoronar os muros das prisões,
podem se tomar os tronos,
se diluem as fronteiras,
se envocam esses nomes.
Nenhuma arma, nenhuma injúria, nada,
haverá de replicar esses nomes calcinantes.

Carta de Juan Gelman ao juiz do caso de Angie


Juan Gelman, um dos maiores poetas vivos da América, enviou uma carta ao juiz do caso da poeta colombiana Angye Gaona, que está sendo acusada injustamente de “narcotráfico” e “rebeldia”. Ajude Angye enviando também cartas ao juiz, veja aqui como.

Carta de Juan Gelman ao juiz do caso Angye Gaona

México, D.F., 6 de febrero de 2012

Senhor Juiz:

Me vejo na necessidade de expresar-lhe, com o devido respeito a sua alta investidura, meu assombro ante o processo perpetrado contra a poeta colombiana Angye Gaona.


Não é verossímel a acusação de “narcotraficante” que se aplica a esta grande poeta e verdadeira jóia da rica literatura da Colômbia, conhecida e reconhecida em toda América Latina e Europa. E se acusam de “rebelde” a quem se solidariza com os sofrimentos de seu povo, não seria difícil escolher o rótulo adequado a esses que os causam.


É notória a existência de pressões que politizam a justiça e convertem a este mundo em uma sorte de compra-e-venda de consciências. Confio que sua aquilatada experiência e conhecimento jurídicos não agregarão uma injustiça a mais às muitas que imperam nestes tempos de pobreza espiritual.

Atenciosamente,
Juan Gelman
Premio Cervantes 2007

Novo poema de Angye Gaona


Novo poema de Angye Gaona “à memória dos assassinados sem devido processo”, enviado ontem pra mim… para lê-lo é bom ter em mente que a tortura é prática comum na Colômbia, onde há mais de 50 mil desaparecidos/assassinados… A campanha por sua liberdade segue: angyegaonalivre.wordpress.com

“À memória dos assassinados sem devido processo”

profunda estrela,
alta
ruge na ampla dor
finita
da noite universal humanidade.

estrela em sangue negro flutuando no ardor.
oh esperança.
Como raízes no sudário,
estrela irmã
jorrando
beijando paciente
os cumes e as covas.
Alude a deslizamentos avalanches em todo o país;
enquantos as jóias sobrevivem incansáveis,
inalcançáveis.

estrela esta
conhecendo o alto:
coros transparentes debaixo das almofadas de musgo para sua acolhida.
água de estrela nas copas anfitriã
da fértil morte.

estrela de choque e geléia,
de pólen qualitativo abundante derramado na ampla dor
e a esperança peneirada sobre o manto.
estrela de guia passo invocação
de vitória contida;
no dorso do nada fulgurando
encandescendo encharcada.

“Não tive tempo para ter medo”


No dia 05 de dezembro completou 100 anos do nascimento do lutador revolucionário e poeta Carlos Marighella. Aqui segue uma pequena homenagem com uma seleção de seus poemas. Cada vez mais são divulgadas suas poesias o que nos ajuda a compreender melhor quem foi esse grande homem. Ao final, segue uma canção feita recentemente por Mano Brown em homenagem à Marighella. Para saber mais sobre quem foi Marighella, sugiro este link.

LIBERDADE

Não ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.

Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.

Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome.

E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome”

(Presídio Especial, 1939)

O PAÍS DE UMA NOTA SÓ

Não pretendo nada,
nem flores, louvores, triunfos.
nada de nada.

Somente um protesto,
uma brecha no muro,
e fazer ecoar,
com voz surda que seja,
e sem outro valor,
o que se esconde no peito,
no fundo da alma
de milhões de sufocados.
Algo por onde possa filtrar o pensamento,
a idéia que puseram no cárcere.

A passagem subiu,
o leite acabou,
a criança morreu,
a carne sumiu,
o IPM prendeu,
o DOPS torturou,
o deputado cedeu,
a linha dura vetou,
a censura proibiu,
o governo entregou,
o desemprego cresceu,
a carestia aumentou,
o Nordeste encolheu,
o país resvalou.

Tudo dó,
tudo dó,
tudo dó…

E em todo o país
repercute o tom
de uma nota só…
de uma nota só…

RONDÓ DA LIBERDADE

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

Há os que têm vocação para escravo,
mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão.

Não ficar de joelhos,
que não é racional renunciar a ser livre.
Mesmo os escravos por vocação
devem ser obrigados a ser livres,
quando as algemas forem quebradas.

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

O homem deve ser livre…
O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo,
e pode mesmo existir quando não se é livre.
E no entanto ele é em si mesmo
a expressão mais elevada do que houver de mais livre
em todas as gamas do humano sentimento.

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

PÃO DE ACÚCAR

Manhã clara de sol toda ouro e azul
e no fundo do céu,
a corcova apontando,
a silhueta do Pão de Açúcar.
Bem no alto o bondinho
– Lá embaixo a floresta,
o verde tropical,
e mais embaixo, profundo,
o mar rolando em espumas na praia.
Pão de Açúcar
– uma doce mentira!
Nunca foste pão,
és somente granito, rocha viva,
ornamento selvagem da natureza dos trópicos.
Bom seria que foras mesmo um pão enormíssimo,
um pão de verdade,
que daria talvez para alimentar muito tempo
os famintos que rolam pela aí na cidade.
E que te olham, Pão de Açúcar,
e não podem te ver,
que a miséria os cegou,
secando-lhes para sempre os olhos da poesia.

CAPOEIRA

Capoeira quem te mandou,
capoeira, foi teu padrinho.

O berimbau retinindo
na corda retesa,
cadência marcada
da ginga do jogo.

Zum, zum, zum,
capoeira mata um.

A perna direita
lançada pra frente,
o peso do corpo equilibrado na esquerda,
os braços jogando
de um lado pro outro…

Capoeira quem te ensinou?

De repente uma queda,
o capoeira na terra,
o aú,
de cabeça pra baixo,
as pernas no ar,
a rasteira varrendo
como foice no chão,
o corta-capim, o rabo-de-arraia,
e o inimigo caindo
de supetão,
ao puxavante
da baianada.

Luta africana
que o mestiço encampou,
que os guerreiros da mata,
quilombos, palmares,
souberam jogar.
Que o angolano nos trouxe,
que o mestre Pastinha nos soube ensinar.

Coreografia. Jongo do povo.

Zum, zum, zum
capoeira mata um.

CANÇÃO DOS LÍRIOS

Eu canto à vida,
eu canto a liberdade,
como os lírios crescem em nossos campos,
livres, selvagens.

Se já não crescem como antes,
existe algo sombrio,
é preciso abrir uma clareira no bosque.

Não me limitarei ao campo da arte…
e não escolherei momento, tempo e modo,
de exaltar-te,
lírio, flor, canção, fruto,
amor – a liberdade.
Não calarei jamais
e sempre te direi a mais bela, a mais pura.

Se já não crescem como antes os lírios
em nossos campos,
existe algo sombrio,
é preciso abrir uma clareira no bosque.

MÚSICA DE MANO BROWN EM HOMENAGEM À MARIGHELLA

11 de Setembro e Victor Jara


11 de setembro é a data do golpe auxiliado pelos EUA que derrubou Allende no Chile e assassinou milhares de lutadores. Victor Jara, um dos maiores músicos da Nueva Canción foi provavelmente assassinado nesse dia. Este post é uma singela homenagem a Victor e ao povo chileno que viveu outro 11 de setembro.

No dia 11 de setembro, sabendo do golpe que derrubava Allende, Jara correu para a universidade onde trabalhava para se juntar aos 600 estudantes que ocupavam o prédio. Dali, mesmo sem muito armamento, resistiriam aos militares. Os tanques cercaram a universidade. Um companheiro vendo Jara com seu violão lhe disse: “Chegou a hora de trocar o violão pelo fuzil!”. Victor Jara respondeu, de maneira simples, que não sabia atirar e continuaria a usar sua melhor arma… cantou sem parar, animando a resistência. Depois de uma luta desigual, foram obrigados a se render. A multidão foi levada para o estádio Chile. Victor foi rapidamente reconhecido por um oficial: “Você é aquele maldito cantor, não é?”. Separado dos demais, foi duramente espancado. Quando o soltaram ensanguentado, junto aos companheiros na arquibancada, Victor presenciou cenas terríveis… estudantes torturados, outros executados ao tentarem escapar… outros, ainda, suicidando-se, perdidos em desespero. Percebeu logo seu destino. Pediu pedaços de papel e lápis aos companheiros. Mal acabara de escrever este que seria seu último poema, militares o puxavam para conduzi-lo ao Estádio Nacional do Chile. Antes de sair, conseguiu clandestinamente passar o papel para um companheiro que, passando a outro e a outro e a outro, salvaram o manuscrito.

Poucos dias depois, a esposa de Victor identificou seu corpo num terreno baldio. Apresentava sinais nítidos de tortura e dezenas de furos de balas pelo corpo. Os militares, indignados com o poder (humano) de sua poesia e música, haviam brutalmente dilacerado suas mãos. Não percebiam assim que semeavam dez mil outras.

Último poema de Victor Jara

Somos cinco mil
nesta pequena parte da cidade.

Somos cinco mil.
Quantos seremos no total,
nas cidades e em todo o país?
Somente aqui, dez mil mãos que semeiam
e fazem andar as fábricas.

Quanta humanidade
com fome, frio, pânico, dor,
pressão moral, terror e loucura!

Seis de nós se perderam
no espaço das estrelas.

Um morto, um espancado como jamais imaginei
que se pudesse espancar um ser humano.

Os outros quatro quiseram livrar-se de todos os temores
um saltando no vazio,
outro batendo a cabeça contra o muro,
mas todos com o olhar fixo da morte.

Que espanto causa o rosto do fascismo!

Colocam em prática seus planos com precisão arteira,
sem que nada lhes importe.

O sangue, para eles, são medalhas.

A matança é ato de heroísmo.

É este o mundo que criaste, meu Deus?
Para isto os teus sete dias de assombro e trabalho?

Nestas quatro muralhas só existe um número
que não cresce,
que lentamente quererá mais morte.

Mas prontamente me golpeia a consciência
e vejo esta maré sem pulsar,
mas com o pulsar das máquinas
e os militares mostrando seu rosto de parteira,
cheio de doçura.

E o México, Cuba e o mundo?

Que gritem esta ignomínia!
Somos dez mil mãos a menos
que não produzem.

Quantos somos em toda a pátria?

O sangue do companheiro Presidente
golpeia mais forte que bombas e metralhas.

Assim golpeará nosso punho novamente.

Como me sai mal o canto
quando tenho que cantar o espanto!

Espanto como o que vivo
como o que morro, espanto.

De ver-me entre tantos e tantos
momentos do infinito
em que o silêncio e o grito
são as metas deste canto.

O que vejo nunca vi,
o que tenho sentido e o que sinto
fará brotar o momento…”

(Victor Jara, Estádio de Chile, Setembro 1973).

IDENTIFICADO O ASSASSINO DE VICTOR JARA

Edwin Dimter Bianchi não esperava nada daquilo,passados todos estes 30 anos de esquecimento. Pode ser, também, que sempre estivesse à espera deste dia. Como todas as manhãs Edwin seguiu a sua rotina em direcção ao seu local de trabalho, como chefe de um departamento de controle de superintendência da AFP em Santiago do Chile. Quando lá chegou deu os bons dias, tomou um café, falou com os colegas, e seguindo as hierarquias ocupou,com um certo desdém, a sua secretária.

Foi então que o som dos batuques se começou a ouvir. De princípio, o ruído era imperceptível, longínquo, como se viessem de um passado remoto, ainda que insistente e resistente. Mas a verdade é que o murmúrio ia crescendo. Tambores e mais tambores acompanham os cantos que se escutavam desde o passeio da avenida. O estrondo parou à porta do edifício do ministério do trabalho. Edwin começou então a suar rios de recordações. Ouvia gritos e choros. As vozes tornaram-se muito nítidas. Eles estavam ali.Edwin Dimter Bianchi ouviu claramente como gritavam o seu nome, alto e bom som, entre refrões e contratempos. Um autêntico clamor.

Quem trabalhava por perto começou a olhá-lo como nunca o havia feito. Os gritos e os cantos daquele numeroso grupo, armado de tambores e cartazes, alertava também os transeuntes e todos os funcionários do ministério. E todos eles ficaram a saber que alí estava «O Príncipe». Anos a fio gozando do maior anonimato como um incógnito e cinzento funcionário não impediram a sua identificação e localização. Haviam-no descoberto.

Edwin Dimter Bianchi, «o príncipe», é recordado por muitos pela sua crueldade quando, por ocasião do golpe de estado militar de 1973, esteve no Estádio do Chile durante aqueles dias. Foi Edwin Dimter Bianchi, «o princípe», que assassinou Victor Jara depois de o ter torturado ao longo de várias horas. Victor Jara recebeu então quarenta e quatro tiros. Desde então, os tribunais nada fizeram. Mas as gentes não esquecem. E Edwin Dimter sabe agora que a sua tranquilidade, tal como a sua impunidade, acabaram. Desmascararam-no.
As mãos de Victor Jara perseguem-no e lançam-no ao inferno. Que se foda.

Abel Ortiz

Tradução para português do texto de Abel Ortiz.
Ver o original em:
http://abelortiz.blogspot.com/

Inventário de Cicatrizes


Cela do DOPS com dízeres da época da ditadura nas paredes (foto de Mariana Schmitz)

Por um desses acasos felizes do ócio, enquanto perambulava por um sebo perto de casa, cruzei com o livro de poesias “Inventário de Cicatrizes” de Alex Polari de Alverga, poeta-lutador que sobreviveu a 9 anos nos porões da ditadura brasileira (1971-1980). Comprei imediatamente e ansioso já vim lendo no caminho pra casa. É um livro muito forte e belíssimo… acredito que um marco na “poesia de luta” brasileira. Inacreditável como Polari consegue manter, apesar da situação em que se encontrava, o humor, a auto-ironia, e uma linguagem tão despojada e simples capaz de nos dar uma visão clara e interessante da sua luta, de suas contradições, da tortura e da vida cotidiana que ia se tornando extraordinária.

Alex Escobar, na apresentação do livro (que foi vendido para reverter fundos para o Comitê Brasileiro pela Anistia) nos diz: “Alex político e Alex poeta, como alguns dos seus muitos companheiros em diferentes prisões do país, alguns já libertados, outros exilados, poderão significar toda uma postura e uma produção artística (na poesia, na pintura e no romance) que rompe com os padrões estéreis e reacionários de até então.”

Selecionei 5 das melhores e mais representativas poesias do livro… a 1a poesia abaixo, que dá nome ao livro, traz essa imagem terrível de um Congresso mundial dos mutilados, de todos aqueles que foram marcados pelos porões do ultra-conservadorismo manifesto nas ditaduras espalhadas pelo planeta. Não há, nesse poema, passar de mão na cabeça ou falso otimismo… as marcas não serão apagadas. Pelo contrário, as chagas devem ser inventariadas, estudadas, debatidas, divulgadas amplamente pra que se saiba quem são esses “seres” capazes de tudo para manter a vida miserável, para defender o funcionamento do sistema capitalista.

Bom, pensei em falar um pouco sobre cada um dos poemas, mas agora resisti… deixo que o contato seja direto… só queria apontar que “ESCUSAS POÉTICAS”, o último poema desta seleção, é uma das poesias mais importantes, ao meu ver, da poesia de luta brasileira… é um marco, é um manifesto das potencialidades e limites da poesia dentro da luta revolucionária, é uma defesa da poesia e da vida dentre os próprios companheiros de trincheira, é fazer a arte expressão do concreto e não apenas do que sonhamos ou desejamos que seja a vida… logo, se sou esse ser contraditório, que apesar de mergulhado no modo de vida burguês luta pra superá-lo, minha poesia também deve ser essa tensão entre minhas contradições e a luta por sua superação. Não há porque fingir o panfleto, forçar a palavra de ordem… é preciso que se “cante e anuncie de todas as formas possíveis”… fantástico!

INVENTÁRIO DE CICATRIZES

Estamos todos perplexos
à espera de um congresso
dos mutilados de corpo e alma.

Existe espalhado por aí
de Bonsucesso à Amsterdam
do Jardim Botânico à Paris
de Estocolmo à Frei Caneca
uma multidão de seres
que portam pálidas cicatrizes
esmanecidas pelo tempo
bem vivas na memória envoltas
em cinzas, fios cruzes
oratórios,
elas compõem uma catedral
de vítimas e vitrais
uma Internacional de Feridas.

Quem passou por esse país subterrâneo e não oficial
sabe a amperagem em que opera seus carrascos
as estações que tocam em seus rádios
para encobrir os gritos de suas vítimas
o destino das milhares de viagens sem volta.

Cidadãos do mundo
habitantes da dor
em escala planetária

todos que dormiram no assoalho frio
das câmaras de tortura
todos os que assoaram
os orvalhos de sangue de uma nova era
todos os que ouviram os gritos, vestiram o capuz
todos os que gozaram coitos interrompidos pela morte
todos os que tiveram os testículos triturados
todas as que engravidaram dos próprios algozes
estão marcados,
se demitiram do direito da própria felicidade futura.

POEMA DE 22 DE MARÇO

(Para Gerson e Maurício)

Ele caiu no asfalto
não pode reagir
faltou o pente sobressalente
faltou a cobertura
faltou a sorte
faltou o ar.

Ele foi levado ainda com vida
dentro de um porta-malas
a camisa rasgada
a calça Lee suja de sangue.

Era preciso avisar Teresa
era preciso fingir serenidade no espelho
era preciso comer rápido o sanduíche de queijo
era preciso cobrir os pontos
era preciso esvaziar o aparelho
era necessário escravizar o medo
e domesticar o ódio

Quando cheguei em casa era noite
vi as portas abertas
as lâmpadas acesas
as mariposas alertas
as certezas cobertas de poeira
a chave na janela
os cartazes que nos punham a cabeça à prêmio
e a chuva que caía no telhado
como os passos de pássaros
esparsos

E saí por aí, sozinho,
com as mãos nos bolsos
pensando no impasse da luta nas cidades
pensando no isolamento político
pensando na nossa situação
e no nosso despreparo,
me dividindo entre o esforço
de analisar as coisas com frieza
e a ânsia de encher de tiros
o primeiro camburão que passasse.

Adiei as reflexões maiores
adiei as conclusões mais penosas
visto que o cerco se fechava em meu redor
e um bom guerrilheiro
respeita sua própria paranóia
por uma questão de sobrevivência,
por uma questão de instinto.

MORAL E CÍVICA II

Eu me lembro
usava calças curtas e ia ver as paradas
radiante de alegria.
Depois o tempo passou
eu caí em maio
mas em setembro tava pelaí
por esses quartéis
onde sempre havia solenidades cívicas
e o cara que me tinha torturado
horas antes,
o cara que me tinha dependurado
no pau-de-arara
injetado éter no meu saco
me enchido de porrada
e rodado prazeirosamente
a manivela do choque
tava lá – o filho da puta
segurando uma bandeira
e um monte de crianças,
emocionado feito o diabo
com o hino nacional.

OS PRIMEIROS TEMPOS DA TORTURA

Não era mole aqueles dias
de percorrer de capuz
a distância da cela
à câmara de tortura
e nela ser capaz de dar urros
tão feios como nunca ouvi.

Havia dias que as piruetas no pau-de-arara
pareciam rídiculas e humilhantes
e nus, ainda éramos capazes de corar
ante as piadas sádicas dos carrascos.

Havia dias em que todas as perspectivas
eram prá lá de negras
e todas as expectativas
se resumiam à esperança algo céticas
de não tomar porradas nem choques elétricos.

Havia outros momentos
em que as horas se consumiam
à espera do ferrolho da porta que conduzia
às mãos dos especialistas
em nossa agonia.
Houve ainda períodos
em que a única preocupação possível
era ter papel higiênico
comer alguma coisa com algum talher
saber o nome do carcereiro de dia
ficar na expectativa da primeira visita
o que valia como uma aval da vida
um carimbo de sobrevivente
e um status de prisioneiro político.

Depois a situação foi melhorando
e foi possível até sofrer
ter angústia, ler
amar, ter ciúmes
e todas essas outras bobagens amenas
que aí fora reputamos
como experiências cruciais.

REQUERIMENTO CELESTE COM DIGRESSÕES JURÍDICAS
(POR OCASIÃO DO POUSO DA VIKING 1 EM MARTE)

Resolvi denunciar às amebas de Marte
(caso elas existam)
a minha sui generis situação jurídica
de condenado duplamente
à prisão perpétua,
olvidado em várias esferas
absolvido em uma das vidas
e esperando recurso da outra
e tendo ainda por cima
além de certas transcendências sustadas
mais quarenta e quatro anos de reclusão
a descontar não sei de qual existência.

Resolvi portanto,
romper meu silêncio de quase 6 anos
e denunciar em outros astros
a situação atroz que aqui prevalece
tendo o Ministério Público
pedido duas vezes minha condenação à morte.
Assim sendo, continuo sem grilhetas
cumprindo minha condenação
à danação perpétua
neste pedregulho
cheio de poluição
ditaduras e injustiças
que convencionaram chamar planeta
em eterna órbita
sem ternura ao redor
de uma estrela de 5a grandeza.
Nestes termos,
em lugar sobremaneira ermo,
pede deferimento
com o corpo cheio de feridas
o suplicante
irrecuperável militante
desta província celeste
encravada entre nebulosas
e sentimentos mais nebulosos ainda.

ESCUSAS POÉTICAS II

Alguns companheiros reclamam
que entre tantas imagens bonitas
eu diga em meus poemas que gosto de chupar bucetas
e não vejo como isso atrapalhe a marcha para o socialismo
que é também o meu rumo. Mais ainda,
eu gostaria que nessa nova sociedade por qual luto
todos passassem a chupar bucetas a contento
todos redescobrissem seus corpos massacrados
todos descobrissem que o medo e a aversão ao prazer
a que foram submetidos foi e será sempre
apenas a estratégia dos tiranos.

Outros companheiros reclamam
quanto ao uso da 1a pessoa
em meus poemas, a falta de desfechos
corretos do ponto de vista político
e os resquícios da classe que pertenço.

A isso tudo procuro responder
que a poesia reflete uma vivência particular,
se universaliza apenas nessa medida
e que não adianta você inventar um caminho
para um povo que você não conhece nem soube achar.
Eu bem que gostaria de ter essa solução, é minha senda,
eu estou sinceramente do lado dos oprimidos
só que de uma maneira abstrata
o que errei, errei por eles,
num processo não despido de angústia
e minha poesia teria que se ressentir disso.

Quanto as outras críticas,
o que posso dizer é que a falta de lógica de meus sentimentos
não acompanha a lógica dos manuais de dialética
e que minhas intenções e objetivos
nem sempre correspondem à minha vida real.

O que muitos não entendem
é que eu quero muito falar do meu povo
da sabedoria dele,
das coisas simples
que lhe são mais imediatas
mas que esse canto hoje soaria falso
e que só posso falar disso
quando não precisar inventar nada,
quando minha práxis for essa
o caminho escolhido o certo,
quando não precisar de metáforas.

O dia da redenção tanto pode ser uma aurora quanto um poente,
isso pouco importa
desde que se cante e anuncie
de todas as formas possíveis.

Libertem Angye Gaona!


Em solidariedade à poeta colombiana Angye Gaona presa pelo governo colombiano, traduzi alguns de seus poemas (com exceção do poema “Irmão Maior”). Abaixo segue texto que recebi e fala do acontecido. Depois dos poemas, um vídeo que traz algumas informações e dados sobre a ditadura velada de Juan Manuel Santos, e antes de Uribe. Mais info sobre os presos políticos na Colômbia, aqui.

P.S.: Ah, um pequeno comentário. O poema “Caminho” me lembra muito o que está acontecendo agora no Egito… esse raio que ilumina, repentino, o caminho e move a todos… pena que dure tão pouco, tão poucos continem, depois, no “caminho”.

PELA LIBERTAÇÃO DA POETA ANGYE GAONA

por Samuel Trigueiros

Está presa a poeta e jornalista Angye Gaona. O Estado colombiano quer calá-la para manter a obscuridade genocida. Angye Gaona, poetisa e comunicadora, foi presa por pensar. O fato só reafirma que a Colômbia é um país em que o Estado converteu o ato de pensar em crime.

Angye Gaona é uma mulher criativa e comprometida socialmente, sempre ativa no desenvolvimento e fomento da cultura. Fez parte do comitê organizador do conhecido Festival Internacional de Poesia de Medellín, cuja qualidade é reflexo do trabalho e dos sonhos tecidos entre os povos.

Se faz urgente a mobilização internacional por sua libertação e, também, pela apuração de denúncias de que o Estado colombiano mantém encarceradas mais de 7.500 pessoas pelo “delito de opinião”. Estamos ante uma verdadeira ditadura camuflada!

A situação é insuportável: cada dia detém, assassinam ou desaparecem com um opositor político, estudante, sindicalista, sociólogo, camponês… A repressão exercida pelo Estado colombiano contra o povo, com o objetivo de calar suas reivindicações sociais, é brutal. É preciso que o mundo se mobilize em solidariedade! É necessário que o mundo conheça esta realidade e entenda que suas dimensões ultrapassam todo o Universo!

TECIDO BRANDO

Calma e tino te digo, peito brando.
Não queiras conter toda a água dos mares.
Toma uns litros de ondas bravas,
de espuma fera.
Deixa que se encrespe dentro de ti,
cavalo afrontado,
mas não domes esta água
que o tempo a requer viva
e pulsante.
Respira e prepara-te, peito brando.
Não queiras conter todo o ar dos abismos,
toma só o de tua pequena inspiracão,
o acaricie por instantes,
o susurre como se ao último alento
e o deixa livre ir ali,
aonde tu também querias:
vasto, imenso, indistinto.
Sopra forte o que guardas.
Não recolhas mais lágrimas, peito brando.
E se um menino preso chora, dirás,
e se um homem é torturado, dirás.
Que não é tempo de guardar a ira, te digo.
É momento de forjar e fazer luzir
o fio da navalha.

CAMINHO

O caminho entrou pela janela como um ramo que a tormenta afugenta. Chovia.
Agudos nomes caíam gravemente,
lá de cima entoados,
chamados a rodar pelas calçadas.
As casas se tornaram caminhos ou foram atravessadas por eles. A lucidez se apoderou das casas.
Os habitantes buscaram os terraços,
ascenderam e alçaram suas faces com fervor
para o raio que revelou o caminho,
por um instante.

A FUGA

Perde a casa,
salte do leito,
enche os bolsos de fugas,
olha passar pela janelas
tua conta pendente de paisagens intocadas.

Encontra, de madrugada,
o grito interior do distante;
ou de tarde,
a bola de lodo às costas:
acumulação malsã de famílias enoveladas
que te deram em uso seus nomes,
agora gastos, errantes.

Marcha até o tédio, sangue meu.
Não queiras pisar o povo fértil que te chama a sua memória
só até perder-se mais,
perder-se melhor onde prefiras:
no oceano de graças deslumbrantes e profundas,
no deserto letárgico e equidistante de casa,
na montanha fecunda onde se multiplicam os caminhos.

Pisa aqui e ali até agonizar.
Volta a partir quando te tomem por louca
e tentem te enviar de barco a outro porto
ou te tratem como mercadoria que se perde nos bazares
de quem ninguém sabe de onde seu brilho ou avaria.

Entretanto, estará teu povo fértil
crescendo abundante como terra descansada,
esperando ver florescer
teu galho
e teu fazer.

FALA O VULCÃO

Milhares de perguntas ardem
debaixo da terra,
preparam a erupção.

Já fervem, já se sacodem;
de combate provocadas,
pronto falam as crateras,
estão por surgir.

Mãos são e nas montahas se alçam,
mãos de magma tomam as estâncias.
Não ficam em pé trono
nem possessão nem usura alguma.

Sonham as perguntas,
estalos nos tímpanos oficiais.
Se recordam os nomes fustigados,
os desmembrados insepultos,
ocultos debaixo do lodo impune.
Se avivam os nomes nas vozes;
podem desmoronar os muros das prisões,
podem se tomar os tronos,
se diluem as fronteiras,
se envocam esses nomes.
Nenhuma arma, nenhuma injúria, nada,
haverá de replicar esses nomes calcinantes.

CANHÃO ADENTRO

Sigo o caminho do esterno,
busco a origem da sede,
vou ao fundo de um canhão de paredes prateadas,
sólidas à mercê do tempo,
movediças quando o aluvião,
quando a infância, era glacial.

Coleto as raízes do pensamento.
As carrego às costas erodidas
junto ao agreste esquecimento que cai de mim.

Se somam,
desde pequenas covas,
os indícios da dor;
velozes burlam as miradas
e voltam a ocultar-se na pele do canhão.

Inscritas nas paredes,
as coordenadas indecifráveis
do raio pré-histórico
que formou minha face.
Tempo da fundura,
tempo sem sílaba,
quando sou só um som
em trânsito à fadiga.

Busco um manancial
que banhe a pergunta aderida a minha história.
Busco a vida recém nascida
e acho a sed.

Sigo a senda do esterno.

IRMÃO MAIOR

Tradução: Daniel Oliveira

Às nações indígenas de América

A dançar vem o Sol à pele,
dourada por Deus.

A dançar,
tinem os dentes de ouro,
brincam os solos
nas unhas do touro.

Corre pelos caminhos,
pelas artérias.

Sangue vivo,
sangue do corpo passado.

Escorre meu sangue;
entra a circular pelo teu nome.

Sou uma mescla,
sou um pão,
sou mestiço.

Teus antepassados e teus filhos
lançam pedras contra mim.

Ao alcançar-me as pedras
se unem ao meu corpo,
se convertem em pães.

Toma este pão,
toma esta vida,
toma a Terra
que és tua.

Terra onde pariram todas nossas mães,
onde vivos bebemos leite da estrela.

A dançar, vem o Sol
com seus dentes de ouro.

Brinca na pele que levas
dourada pelos deuses.

Toma este sangue;
é o que sei sagrado
para um pacto.

Sangue antigo é.

Vem de dois rios,
duas correntes,
talvez três ou quatro afluentes.

É um rio silencioso,
espera sua hora para bramar.

A hora quando se juntam os rios,
a céu aberto abaixo o Sol,
em secreto ânimo de dançar
e ser um com os deuses,
em um pacto alto
que se chame Terra,
que se chame Mãe,
que nos chame irmãos.

A DITADURA VELADA DE URIBE NA COLÔMBIA