Black Friday

BLACK FRIDAY
(em homenagem a Fidel Castro que morreu na sexta-feira 25 de novembro – recomendo ver o vídeo antes de ler o poema)

estão lado a lado e são muitos…
e têm raiva, gritam, correm, urram,
a energia transborda, explode uma disposição
irracional pra luta…

mas não estão juntos.

estão, ali, ombro a ombro,
são uma onda de vontades
e sonhos…

solitários.

são muitos,
mas não são um todo…
fragmentos, estilhaços
ricocheteando em desespero..

tantos e tão
ínfimos,
assim,
isolados
na capsula
que lhes foi conferida,

são ilhas

poderiam tomar toda a loja
poderiam tomar todas as fábricas
eram muitos e estavam – ali – ladoalado
em raiva
vida querendo mais vida

mas algo tapa
suas vistas

se chocam, se socam, mordem, batem, gritam
numa busca desumanamente humana
por algo de vida
com desconto
que lhes concedem
– rindo –
uma vez
ao ano.

II.
não eram muitos
mas eram unos
eram juntos uma imensidão
vontade coletiva
e forjaram um só corpo
de braços nas serras e pés
nas esquinas
e depuseram um ditador
e tomaram a ilha
e enfrentaram o império
e se fizeram pontes
e se lançaram istmos
e nos davam o braço,
a mão, o canto
nos levantavam gritando
“é possível, ainda!”
e um sorriso ecoando noutro
ria-se do poder que
sempre fomos
e logo éramos
uma internacional
de sonhos
saqueando de volta
a vida,
sem descontos,
a integral,
merecida.

III.
Morreu Fidel
na black friday.

Imenso,
ele se riria,
certamente,
com essa
ironia.

Cuba segue
um continente
dentre um mar
de ilhas.

Outras poesias de Juan Gelman


Poemas que traduzi de Juan Gelman (Argentina).

LIMITES

Quem disse alguma vez: até aqui a sede,
até aqui a água?

Quem disse alguma vez: até aqui o ar,
até aqui o fogo?

Quem disse alguma vez: até aqui o amor,
até aqui o ódio?

Quem disse alguma vez: até aqui o homem,
até aqui não?

Só a esperança tem os joelhos nítidos.
Sangram.

O JOGO EM QUE ANDAMOS

Se me permitissem escolher, eu escolheria
esta saúde de saber que estamos muito doentes,
esta felicidade de andarmos tão infelizes.
Se me permitissem escolher, eu escolheria
esta inocência de não ser um inocente,
esta pureza em que ando impuro.
Se me permitissem escolher, eu escolheria
este amor com que odeio,
esta esperança que come pãos desesperados.
Aqui se passa, senhores,
que me juegoaposto a morte.

Confianças

senta-se à mesa e escreve
“com este poema não tomarás o poder” diz
“com estes versos não farás a revolução” diz
“nem com milhares de versos farás a revolução” diz

e mais: esses versos não vão servir para que
peões professores lenhadores vivam melhor
comam melhor ou ele mesmo coma viva melhor
nem para apaixoná-la servirá

não ganhará dinheiro com eles
não entrará no cinema grátis com eles
não lhe darão roupa por eles
não conseguirá tabaco ou vinho por eles

nem papagaios nem cachecóis nem barcos
nem touros nem guarda-chuvas conseguirá por eles
se contar com eles a chuva o molhará
não alcançará perdão ou graça por eles

“com este poema não tomarás o poder” diz
“com estes versos não farás a revolução” diz
“nem com milhares de versos farás a revolução” diz
Senta-se à mesa e escreve

 

 

 

XCI

toda poesia é hostil ao capitalismo
pode tornar-se seca e dura mas não
porque seja pobre mas
para não contribuir com a riqueza oficial

pode ser sua maneira de protestar de
tornar-se magra já que há fome
amarela de sede e sofrida
de pura dor que há pode ser que

ao contrário abra os becos do delírio e as bestas
cantem atropelando-se vivas de
fúria de calor sem destino pode
ser que se negue a si mesma como outra

maneira de vencer a morte
assim como se chora nos velórios
poetas de hoje
poetas deste tempo

nos separaram do rebanho não sei que será de nós
conservadores comunistas apolíticos quando
aconteça o que vai acontecer mas
toda poesia é hostil ao capitalismo.

 

A espera

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(foto de manifestantes ocupando o Congresso Nacional 17/06/2013)

A ESPERA
(um certo Ferreira Gullar, Brasil, 1930-há quem diga que já morreu)

Um grave acontecimento está sendo esperado por todos.

Os banqueiros os capitães da indústria os fazendeiros
ricos dormem mal. O ministro
da Guerra janta sobressaltado,
a pistola em cima da mesa.
Ninguém sabe de que forma dessa vez a necessidade
se manifestará:
se como
um furacão ou um maremoto
se descerá dos morros ou subirá dos vales
se manará dos subúrbios com a fúria dos rios poluídos

Ninguém sabe.
Mas qualquer sopro num ramo
o anuncia

Um grave acontecimento
está sendo esperado
e nem Deus e nem a Polícia
poderiam evitá-lo.

Lei da vida


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(foto da manifestação contra o aumento da passagem em São Paulo, 13/06/2003)

LEI DA VIDA

(Roque Dalton, poeta-guerrilheiro de El Salvador, 1935-1975)

A árvore poderosa começa na semente
e ainda que o amor seja profundo e alto
é também mínima a semente do homem.
O nascimento do arroio do pólen
do ovinho da branca pomba
da pedra que rolou pelo monte nevado
desde sua pequenez chegam ao mar
ao girassol ao vôo interminável
ao planeta de neve que nada deterá.

Na luta social também os grandes rios
nascem dos pequenos olhos d’água
caminham muito mais e crescem
até chegar ao mar.

Na luta social também pela semente
se chega ao fruto
à árvore
ao infinito bosque que o vento fará cantar.

Tradução de Jeff Vasques

EPITÁFIO DE UM INVASOR

6747_133305506855870_989173573_n(Foto da invasão da Playa Girón, Cuba, por forças norteamericanas, 1962)

EPITÁFIO DE UM INVASOR
(Roberto Fernández Retamar, Cuba, 1930)

Teu bisavô cavalgou por Texas
violou mexicanas trigueiras e roubou cavalos
até que se casou com Mary Stonehill e fundou um lar
de móveis de carvalho e “Deus abençoe nossa casa”.
Teu avô desembarcou em Santiago de Cuba,
viu afundar a Esquadra espanhola, e levou ao lugar
o bafo de rum e uma escura nostalgia de mulatas.
Teu pai, homem de paz,
só pagou o soldo de doze rapazes na Guatemala.
Fiel aos teus,
te dispuseste a invadir Cuba, no outono de 1962.

Hoje serves de adubo às ceibas.

(tradução de Jeff Vasques)

Peru e Javier Heraud


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Aqui no Peru pude ter acesso a antologia de Javier Heraud (impossível de conseguir no brasil), jovem poeta lutador que foi assassinado barbaramente ha alguns quilometros de onde estou (Cusco), em Puerto Maldonado. Pena minha passagem pelo peru ser tao rapida, pois gostaria de entrar em contato com familiares e amigos de Heraud… mas certamente voltarei para ca, porque realmente me apaixonei pelo povo, pela paisagem e pela cultura peruana! Abaixo traduzi um trechinho dum poema premonitório… pois Javier foi assassinado enquanto estava num barco, no meio de um rio da selva peruana… e como nesse poema, tambem tenho sede e tambem venho perguntando e me perguntando pelos caminhos… e nao ha resposta, a nao ser a que eu mesmo consiga construir comigo e com todos…

Elegia(fragmento) Javier Heraud

Tu quisestes descansar
em terra morta e no esquecimento.
Acreditavas poder viver sozinho
no mar, ou nos montes.
Logo soubestes que a vida
é solidao entre os homens
e solidao entre os vales.
Que os dias que circulavam
em teu peito só eram mostras
de dor entre teu pranto. Pobre
amigo. Nao sabias nada nem choravas nada
Eu nunca me rio
da morte.
Simplesmente
sucede que
nao tenho
medo
de
morrer
entre
pássaros e árvores
Eu nao me rio da morte.
Mas as vezes tenho sede
e peco um pouco de vida,
as vezes tenho sede e pergunto
diariamente, e como sempre
sucede que nao há respostas
senao uma gargalhada profunda
e negra. Já te disse, nunca
se deve rir da morte,
mas sim conheco seu branco
rosto, sua tétrica vestimenta.

(…)

Um salve ao porvir


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Me delicio ao descobrir novos e fantásticos poetas lutadores… desta vez, descobri um cubano e um bem famoso: Roberto Fernandéz Retamar!! Não sei como não o conheci antes… aqui 4 poesias que traduzi…

UM SALVE AO PORVIR

Não há provas.
As provas são que não há provas.
Não estavam, não estão, não estarão dadas as condições.
Crer porque é absurdo,
e cremos.
Mais absurdo que crer é ser,
e somos.
Nada garantirá que seja menos absurdo
Não ser e não crer.
As chamadas provas ficam pela terra,
úmidas relíquias da nau.
Se derrumbaram as estátuas enquanto dormíamos.
Eram de pedra, de mármore, de bronze.
Eram de cinza.
E um grito de anatídeos as fez ruir em revoadas.

Não guardar tesouros onde
a umidade, os bichinhos os mordisquem.
Não guardar tesouros.
O tesouro é não guardá-los.
O tesouro é crer.
O tesouro é ser.

Não existem as façanhas nem os horrores do passado.
O presente é mais veloz que a leitura destas mesmas
palavras.
O poeta saúda as coisas por vir
com um salve na noite escura.
Só o difícil.
Só o escuro.
E contra ele, nele, o fogo levantando
Sua coluna viva, dourada, real.

O amor é
Quem vê.

UM HOMEM E UMA MULHER

Que há de ser
um homem e uma mulher?

Tirso de Molina

Se um homem e uma mulher atravessam ruas que ninguém vê
senão eles,
ruas populares que vão dar ao entardecer, ao ar,
com um fundo de paisagem nova e antiga mais parecida
a uma música que a uma paisagem;
se um homem e uma mulher fazem nascer árvores a seu passo,
e deixam acesas as paredes,
e fazem virar as caras como atraídas por um toque de
trombeta
ou por um desfile multicor de saltimbancos;
se quando um homem e uma mulher atravessam se detém
a conversa do bairro,
param as cadeiras de balanço sobre a calçada, caem os chaveiros
nas esquinas,
as respirações fatigadas se fazem suspiros:
será por que o amor cruza tão poucas vezes que vê-lo é motivo
de estranheza, de sobressalto, de assombro, de nostalgia,
como ouvir falar um idioma que acaso alguma vez já se soube
e do qual apenas restam nas bocas
murmúrios e ruínas de murmúrios?

FELIZES OS NORMAIS

Felizes os normais, esses seres estranhos
Os que não tiveram mãe louca, um pai alcoólatra, um filho delinqüente.
Casa em lugar nenhum, uma doença desconhecida,
os que não foram reduzidos a cinzas por un amor devorante,
os que viveram os dezessete rostos da alegria e um pouco mais.
Os cheios de sapatos, os arcanjos com chapéus,
os satisfeitos, os gordos, os lindos,
os rintintin e seus seqüazes, os que “como não, por aqui”,
os que ganham, os que são queridos até o punho,
os flautistas acompanhados por ratos,
os vendedores e seus compradores
os cavalheiros ligeiramente sobre-humanos
os homens vestidos de trovões e as mulheres de relâmpagos,
os delicados, os sensatos, os finos
os amáveis, os doces, os comíveis e os bebíveis.
Felizes as aves, o estrume, as pedras.

Mas que dêem passagem aos que fazem os mundos e os sonhos,
as ilusões, as sinfonias, as palavras que nos destróem
e nos constróem,os mais loucos que suas mães, mais bêbados
que seus pais e mais delinqüentes que seus filhos
e mais devorados por amores calcinantes.
Que a eles seja dado seu lugar no inferno, e basta.

O OUTRO

Nós, os sobreviventes,
A quem devemos a sobrevida?
Quem morreu por mim no calabouço,
quem recebeu a minha bala,
a que era para mim em seu coração?
Sobre qual morto estou eu vivo,
Seus ossos permanecendo nos meus,
os olhos que lhe arrancaram, vendo
pelo olhar de minha cara,
e a mão que não é sua mão,
que também já não é a minha,
escrevendo palavras rotas
Onde ele não está, na sobrevida?